quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A invenção de Hugo Cabrito - Autor: Rangel Alves da Costa


Antes que possam imputar plágio ao presente texto, informo que o mesmo é tão original quanto às melhores estórias inventadas. Portanto, não tem absolutamente nada a ver com “Central do Brasil”, de Walter Salles, e muito menos com o mais recente filme de Martin Scorsese, “A Invenção de Hugo Cabret”.
Com relação a este, apenas uma proximidade nos nomes. Mas não tenho culpa se o menino nordestino aqui tratado tinha Hugo por nome e o apelido de Cabrito. Assim, não há o que modificar se o pestinha daqui era Hugo Cabrito, um exímio inventor de coisas para sobreviver.
Antes de falar sobre as invenções do menino e aquela que lhe deu notoriedade, será preciso voltar um pouco no tempo para informar como o pequeno Hugo Cabrito veio parar na Estação Ferroviária, também chamada Gare do Relógio, e aí permaneceu forçadamente como morador.
Havia deixado as terras sertanejas do Mundaréu juntamente com sua mãe viúva. Carregando consigo o filho único, pois não deixava nada pra trás como herança, a pobre mulher ia tentar sobreviver no sul do país, na casa de uma irmã que desde algum tempo já morava por lá. Pobre demais, só trazia a mala, o menino e o dinheirinho contado da passagem.
Desceram na rodoviária e seguiram até a estação de trem, local onde comprariam bilhete para seguir pelos trilhos em direção ao sul. Mal chegaram à imensa e antiga construção, abarrotada de gente que chegava e partia, a mulher deixou o menino sentado num banquinho e foi comprar o bilhete. Mas enquanto abria a bolsa perto do guichê, passou um ladrão em correria e levou tudo.
Gritou, tentou correr atrás do marginal, porém caiu estatelada no chão vitimada por um ataque fulminante. Foi retirada imediatamente dali e conduzida para necropsia sem ao menos se preocuparem se ali por perto havia algum parente. E estava. O seu filho Hugo Cabrito vagava pelo prédio em busca da mãe, perguntando a um e a outro se a haviam avistado, porém sem nenhuma resposta.
Aquela foi a primeira vez que dormiu estirado, cansado, totalmente exausto por cima de um banco. Acordou ainda de madrugada com um velho beliscando o seu pé para que acordasse. O senhor de mais de oitenta anos era um aposentado maquinista de trem que morava num quartinho na parte dos fundos da estação. Sem família, empobrecido, se arranjava como podia por ali mesmo, levando o seu dia a dia com tantas recordações de partidas e chegadas.
Verdade é que sem ter pra onde ir, o menino Hugo recebeu acolhida do velho senhor. E este, tendo-o como neto e bisneto, passou a ensinar muitas coisas que a vida de maquinista lhe ensinara. Ensinou porque muitas vezes o trem apita mais triste, porque a fumaça dos vagões também cheiram a perfume, porque uma mulher passou mais de trinta anos vindo todas as tardes à estação para receber o seu esposo que nunca chegava. Um dia ela embarcou num vagão e sumiu.
Mas um dia o velho se foi. Simplesmente também subiu no último vagão e Hugo Cabrito só o avistou quando acenava ao longe, com um lenço branco. Depois foi como virasse fumaça e sumisse. Após esse dia o menino teve que se virar como pôde para sobreviver. E foi nesse estado de precisão que começou a inventar coisas e mais coisas. Inventou de atrasar o relógio pra ninguém perder a partida, inventou um óculos que só mostrava paisagem bonita da janela do trem, inventou um lenço de adeus que soluçava quando era levado aos olhos.
Contudo, a sua maior invenção, a extraordinária invenção de Hugo Cabrito foi uma coisa muito estranha chamada palavra. E uma palavra tão diferente que chegava para as pessoas e dizia que sabia o que ela pronunciaria se fosse abrir a boca naquele momento. Mas quando a pessoa ia falar ele se antecipava e dizia: “Isso mesmo, eu sabia que você ia falar de amor, de felicidade, de prazer em viver!”.
E todo mundo ficava encantado e colocava uma moeda na sua mão.

Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE
 
Poeta e cronista
 


Publicação autorizada através de e-mail de 30/06/2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Os dias, as horas e o tempo - Autor: Carlos Costa

O vento que sopra constantemente em meu rosto, colore meus poucos cabelos e barba na cor prata, (nem sempre aparada como minha esposa Yara gosta), envelhecendo-me um pouco a cada fevereiro do ano. Mas não é meu aniversário de vida; mas, apenas de um ano de vida a menos que terei para viver!
Quando criança, sentia que o tempo passava lentamente e não tinha preocupações; adulto, os dias, meses e anos passam rápido demais, às vezes correm muito para ver dezembro chegar e presenciar crianças famintas esperando Papai Noel chegar, entrando pelas janelas de suas imaginações e isso me apavora porque sei que meu viver está se evaporando muito rápido.
E o que me restaram dos anos que se passaram?
...amigos feitos e que ainda existem. Amigos que partiram sem me dizer adeus ou pedir licença porque Deus os convidou para participarem de felicidade eterna em seu Reino! Mas bem que poderiam ter me avisado – não que isso seja necessário! –!
...lembranças de coisas boas que vivi – lembranças ruins que desejo esquecer e não consigo; amores que ganhei; amores que perdi; palavras que não disse por medo, palavras que pronunciei em hora ou locais errados e que feriram alguém.
...lágrimas que escorreram de meus olhos ou que fiz escorrer dos olhos de alguém que gostava; perdão que nunca pedi ou que pedi, mas não fui perdoado inteiramente porque sempre restam mágoas no coração de quem machucamos.
...filmes que vi ou que não vi porque eram proibidos para menores e, quando os vi, não gostei porque não tinham nada demais; progresso que chegou e destruiu minhas lembranças, enfim...Cinemas que fecharam; cinemas que abriram. Ruas que não foram abertas e o trânsito pesado de minha Manaus que não permite mais ter tranquilidade ou firmar compromissos com horários. Um relógio em meu pulso que me lembra que estou atrasado... Celular no bolso que dispara sempre para tomar um novo remédio...
Por fim, quero que o mundo pare e volte a ser tudo como fora em minha infância: sem pressa, compromissos, horários, carros nas ruas, remédios para tomar, infecções para curar; quando corria despreocupado pelas ruas de meu bairro que já não é mais o mesmo.
Desejo conversar longamente e perder horas e horas com os amigos que não sei se ainda são os mesmos; os estudos que fiz que talvez não sejam mais iguais...
Desejo conversar com meu filho...de homem para homem ou de homem para menino! Sei lá o quero, realmente porque ando confuso demais para pensar.
Acho que não quero nada porque já vivi o suficiente, amparado por Deus...cuidado pelos médicos, tomando meus remédios diários...
 
Autor: Carlos Costa - Manaus/AM
Página do autor:
Publicação autorizada pelo autor
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Lançamento


Esse livro de Carlos Lopes é simplesmente maravilhoso.

Trata-se de uma coletânea de escritos que relatam fatos interessantes e intrigantes da vida real. Vida de um menino que logo se fez adulto, o qual narra com maestria, fatos interessantíssimos da vida em sua região. Convívio com os amigos, lições de vida e fatos corriqueiros, mas que nos faz viajar de nossa infância à fase adulta.

É sem dúvida uma narração de acontecimentos que se passam nas vidas de todos nós e ao lermos temos a nítida impressão de que estamos ali, como protagonistas olhando ou participando de seus relatos, tal a forma delicada e repleta de exemplos de bem viver que só pode nos deixar saudades. Saudades da infância, da juventude, dos tempos de escola, das viagens do sertão para a capital, experiências e descobertas de coisas que uma criança crescida em uma pequena localidade, consegue encontrar na cidade grande.

Sem qualquer dúvida esse livro poderá nos proporcionar momentos únicos de alegria, de tristezas, trazer-nos saudade e principalmente nos arremeter àqueles tempos onde éramos todos felizes, inocentes, mas que já tínhamos formado, em nosso caráter, o sentimento de responsabilidade, de honestidade, caridade e o de perda. Assim como a compreensão do que era errado ou certo. Sentimentos transmitidos pelos mais velhos, que se preocupavam com o nosso futuro.

É um livro maravilhoso, cheio de temperos para todos os gostos.

Recomendo-o para todos, sem exceção.

Nêodo Ambrosio de Castro – Eugenópolis/RJ

 

Livro: Dedos de prosa - De conto em conto

Autor: Carlos Lopes

Páginas: 142

Aquisição: gandavos@hotmail.com

Valor R$ 20,00 (taxa de envio já incluída)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Era só uma bonita fogueira... - Autora: Zélia Maria Freire


Era uma bonita fogueira de S. João, as labaredas estavam altas, aí veio a chuva, a noite ficou escura e só restou as cinzas molhadas. Enquanto eu, da janela do meu quarto pensava em Pablo Neruda... Eran de hierro sus ramales y de fuego muerto sus ojos?

Autora: Zélia Maria Freire – Natal/RN

Publicação autorizada através de e-mail de 09/12/2011

Os últimos - Autor: Augusto N Sampaio Angelim


Somente os dois moravam naquele lugarejo abandonado.
A pequena vila que, há trinta anos atrás era ponto de parada para viajantes que se dirigiam a São Paulo, e chegara a ter mais de cem almas, hoje era um lugar fantasma. Outrora, além das casas, havia até um posto de gasolina e uma pousada que abrigava uns poucos viajantes. À beira daquela enorme estrada reta de terra batida, de quase cem quilômetros sem curvas, o que restou de seu casario sequer dava para ser avistado de longe.
Desde os tempos de Juscelino que se falava no asfaltamento da rodagem. Pavimentaram outras rodovias e aquela foi ficando na poeira. O asfalto não veio e nem as outras coisas do progresso. Então, o povo se foi. Os poucos moradores, foram embora. Primeiro os mais novos. Depois, os mais velhos. Ao final, todos.
Sina de quem nasce na beira da estrada é ir embora.
As casas, a maioria umas taperas, não resistiram ao tempo e foram ruindo. Da capela, onde se rezava uma missa por ano, nem mais um sinal. Escola, nunca teve. O casario abandonado serve de abrigo aos bodes e algumas ovelhas. Alguns forasteiros, vendo esse cenário de abandono, se benzem. Outros param e fotografam a calmaria, como se, por um instante, quisessem adivinhar seus mistérios e, depois, continuam seus destinos ignorados. Os que são das redondezas, se consternam com a desolação, quando passam a caminho das cidades da vizinhança.

Mas eles ficaram.
Restaram apenas os dois.
Eram os últimos.
O casal tinha umas vaquinhas e outras criações. Um pasto até grande, onde podiam soltar os bichos à vontade. Tiravam o sustento das criações e do plantio de milho e feijão. Não podiam ir embora. Até planejaram isso no passado, mas os dias foram passando e não conseguiram arredar os pés dali.
Possuíam cavalo, mas, agora, quando iam à feira, montavam uma motocicleta. Novos tempos. Uma moto velha, com cinco ou seis anos de matrícula atrasada. Tinha uma placa apenas por enfeite, mas ninguém se importava de abordar os dois.
A mulher ainda guardava traços da beleza de antigamente.
Rosa.
Rosa Maria da Felicidade de Jesus. Este era o seu piedoso nome. Promessa da mãe dela.
Ele, João Ferreira, ainda era aparentado de Lampião, pois sua família vinha das bandas de Serra Talhada.
Chegara ali moleque novo, com os pais.
Os velhos morreram, os irmãos se mandaram.
Até o início dos anos oitenta ainda teve notícias de Tonho e de Miro, que foram para São Paulo.
Vandinho morreu menino, assim como Maria Aparecida.
Das Dores, fugiu com um malabarista de um circo. Essa entrou cedo, na “lata do mundo”.
Nunciada arrumou marido para as bandas do Pajeú, até virou professora. Tirou a sorte grande.
Um caminhoneiro de Ibimirim disse que tinha encontrado Tonho, em São Paulo, numa feira nordestina, há uns dois anos.
Ele e Rosa se conheceram na festa da padroeira do Moxotó. Morena bonita de sorriso desconfiado, mas que, logo, caiu nas suas graças. Além disso, era mulher direita. Nem precisa dizer que era virgem. Até sabia ler e escrever, coisa que ele nunca aprendeu, por falta de oportunidade.
A desgraça é que nunca tiveram filhos.
Um menino sequer.
Poderia até ser uma menina, mas Deus não quis, como costumava dizer a mulher. Fizeram várias tentativas para ela engravidar.
Foram aos médicos de Arcoverde, Garanhuns, Paulo Afonso e até Recife, quando eram um casal ainda jovem. Tomaram chás receitados pelos mais velhos, mas nada. Entraram e passaram os anos e nenhum menino para trazer alegria para casa e depois ajudar na lida do campo. Nos últimos anos Rosa se queixava dos incômodos no estômago, todos os dias. Na “boca do estômago”. Também todas as noites. “Nada não, passa logo”, dizia ela. Não passou. Numa dessas noites, teve febre muita alta. Delirou, chamando meninos que ela nunca pariu. Chamava por Joãozinho, Maria, Verônica, Gregório. Nomes que haviam planejado para os filhos que nunca tiveram.
“Joãozinho, você vai cair dessa cerca, minino!”;
“Grigório, vá pegar o leite!”;
“Maria, mexe o feijão!”
“Verônica, arruma os cabelos, muié!”. 
 

A mulher não dizia coisa-com-coisa. Ficou preocupado e, quando amanheceu o dia, foi até a casa de Seu Domingos e fez trato para levarem a mulher para o hospital de Arcoverde. Não teve jeito, morreu dois dias depois, sem dizer mais nada. O doutor disse que tinha sido aquela doença miserável, cujo nome cristão humilde tem medo de pronunciar. O enterro foi na cidade, pouca gente. Os parentes quase todos tinham se mudado para outros lugares e o casal vivia recluso.

Agora era ele o único morador do lugar.
Não tinha mais ninguém além dele.
Acocorado debaixo de uma baraúna velha, às margens da estrada, de alpercatas, calças dobradas no meio da perna, chapéu e um pedaço de pau na boca, como se fosse um palito de dentes, riscava o chão com um graveto. Não fazia planos. Não tinha plano nenhum. Apenas pensava nessas coisas e em Rosa.

Olhou para o céu e viu que a noite ia chegando de mansinho. Duas lágrimas escorreram de seus olhos. Limpou o rosto com a mão rude, deu um pigarro e levantou-se decidido: já era hora de recolher o gadinho para o curral e cuidar dos outros bichos.
A noite já tinha tomado conta do mundo.

Autor: Augusto Sampaio Angelim - São Bento do Una/PE
Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 19/10/2011.

Um cão e um escravo em os olhos do Bugre - Autor: Geraldinho do Engenho

Bugre era um cão amarelo, do cruzamento de um vira lata com uma raça nobre. Seu dono o Nonato, homem de posse, proprietário de muitas terras, engenho, canaviais, e lavouras de café, possuía muitos escravos. De consciência apurada e bondosa tratava seus cativos com todo respeito e tornou-se famoso pela sua generosidade. Em sua fazenda a comida era farta, não havia discriminação entre libertos e escravos. A cada ano seu patrimônio crescia e sua fama também. Enquanto outros fracassavam tendo os bens leiloados, Nonato enriquecia cada vez mais.

Vico um escravo já maduro era seu conselheiro e fora criado pelo pai de Nonato, que o deixou de herança ao filho. Muito calmo e religioso era o escudeiro espiritual do seu amo sinhozinho, como o chamava carinhosamente. Observador e dedicado era responsável pela grande horta, cuja produção era consumida na fazenda. Nonato o tratava de forma tão carinhosa, que nem parecia que ele era seu escravo.

Ao participar da abertura de uma feira na cidade ganhou de um amigo um cãozinho. Ao regressar o entregou para Vico, recomendando sua educação e afirmando que o seu nome seria Bugre. Obedecendo, o escravo levou o cão para a senzala e começou a educá-lo. Dormia a seus pés e em pouco tempo se tornou um guardião de verdade. Percebendo o grau de inteligência do animal, o escravo começou a educá-lo, com o objetivo de fazer dele um guarda costas para seu amo sinhozinho. Não tardou e à distância, conforme recomendação de Vico, Bugre mantinha uma vigilância acirrada ao Nonato, sem perdê-lo de vista um só instante.

Certo dia enquanto calçava as botas jogadas num canto da sala, Bugre avançou em sua mão, abocanhou a bota atirando-a ao longe. Nervoso ele exclamou: - oh cão dos diabos, eu lá tenho tempo para brincadeira, seu imbecil? Ao apanhar a bota, percebeu assustado que saía de dentro dela uma serpente das mais venenosas. Encantado com o fato ocorrido, Nonato levou o cão até Vico e agradeceu acariciando os dois.

Nas viagens de Nonato à cidade, Bugre o acompanhava até a estação ferroviária a quatro quilômetros da sede da fazenda, trazendo de volta à fazenda, a montaria dele e também em seu regresso, a mando de Vico, lá ia Bugre levando a montaria ao sinhô.

A cada dia Nonato mais e mais se afeiçoava à sua dupla de amigos, o cão e escravo. Certo dia acompanhando-o até a estação, o cão quis impedir seu embarque puxando-o pela barra da calça. Lembrando do episodio de sua bota, Nonato desistiu da viagem. No dia seguinte recebeu noticia do descarrilamento de alguns vagões, com mortes e diversos feridos no acidente. Agradecido condecorou o Bugre com uma bela coleira prateada.

Havia na fazenda uma colina, era o ponto mais alto, proporcionando uma bela visão. Nela uma capela construída por Nonato, junto a um cemitério. Ali eram sepultados os escravos e alguns falecidos nos derredores das fazendas vizinhas. Local de oração aonde, de tempos em tempos, acontecia celebrações pelos missionários evangelizadores que por lá passavam. Muito aconchegante o local, de onde se tinha uma nítida visão de toda a propriedade e que sempre inspirava muita paz e tranqüilidade.

Nonato efetuou um grande negócio na venda de sua produção, cuja safra fora muito rentável. Como de costume viajou até a estação, acompanhado pelo cão que retornaria à fazenda com sua montaria e na viagem de regresso, Bugre estava lá à sua espera com a montaria. Nonato o encontrou muito triste, abatido, de olhar tristonho, sem brilho, nem se manifestou ao receber seu amo.

Com sua guaiaca abarrotada de dinheiro, não percebeu que estava sendo seguido por um salteador, que o acompanhara desde a cidade. Na fazenda Vico notou algo de errado com cão, que apenas choramingava quando acariciado por ele.  No dia seguinte estranhando a ausência do animal, o escravo dirigiu-se à casa, encontrou lá seu amo e a esposa amarrados e amordaçados. Libertos, mas muito assustado, o casal louvou a Deus por estarem ambos vivos.

Procuraram por Bugre e não o encontraram. Reunidos, todos os escravos partiram em sua busca. Dispersaram-se por diversas direções, mas não obtiveram sucesso. Ao cair da noite voltaram à fazenda - recomeçariam na manhã seguinte. Olhando na direção da ferrovia Vico avistou algo estranho vindo na direção do grupo. Embora o crepúsculo lhe obstruísse a visão, reconheceu o cão se arrastando. Encontraram-no de patas traseiras desgovernadas e trazendo na boca a guaiaca que fora roubada pelo bandido. Levaram-no para a sede da fazenda. Febril e quase sem movimentos, ele olhou tristemente para seus dois amigos e lacrimejando faleceu.

No dia seguinte Nonato mandou abrir uma sepultura bem à frente da capela e o sepultaram. Em seguida o fazendeiro fez um belo discurso alusivo ao procedimento do cão, atribuindo sua tristeza do dia anterior a uma premonição da tragédia ocorrida.


Vico plantou flores em sua cova e as regava todas as tardes. Certo dia ao descer da colina, após irrigar as flores, ele avistou um número de urubus sobrevoando a marginal da linha férrea e foi averiguar. Debaixo de uma enorme gameleira, encontrou o bandido em adiantado estado de putrefação, de olhos perfurados pelos abutres, com um revólver preso nos nervos que restaram de sua mão direita, vestígios da luta travada entre ele e Bugre.

Assim findou a história de um cão vidente, que a ele só faltavam palavras, mas que dizia tudo através dos seus gestos.

Vico sempre confortava Nonato, dizendo-lhe que do alto da colina Bugre mantinha seu olhar vigilante sobre a fazenda, cujo local lhe era propício, pois se tratava do ponto mais alto das redondezas.

Não tardou e todos os escravos começaram a comentar sobre uma luz na porta da capelinha, dizendo que eram os olhos vigilantes do Bugre, sobre a propriedade. Nonato resolveu averiguar e constatou que era uma grande pedra branca, uma forma de cristal de rocha, que Vico colocara na cova do Bugre. Ao incidir os raios tanto do sol como do luar, a luz era refletida.

Nonato preferiu aderir à ideia, respeitando a crendice de seus escravos, afirmando que aquela luz era mesmo dos olhos vigilantes do cão. Mais tarde todos os moradores das regiões circunvizinhas tinham conhecimento da lenda e a consideravam verídica e milagrosa. Até os transeuntes da linha férrea poderiam vislumbrá-la sob sol, ou sob a morteira luz das noites enluaradas. E assim a colina se tornou famosa e conhecida pelo nome de: “OS OLHOS DO BUGRE”

Geraldinho do Engenho - Bom Despacho/MG

Publicação autorizada pelo autor

domingo, 19 de agosto de 2012

Tédio do domingo - Autor: Iratiense Joel Gomes Teixeira


Tarde de domingo...Sabe aquêles dias em que você não faz a menor idéia daquilo que quer?...Bate uma saudade (?) não sabe-se de que ou de quem? Aí,então,você começa a fazer um monte de coisas para preencher o tempo e acaba por descobrir que nenhuma delas te satisfaz.Pois bem,hoje eu estou assim.O meu vizinho da frente postou-se no portão (da casa dêle),ávido de uma conversa.(Vai ver êle também está "meio assim"... "tipo" eu).

Fujo.Despisto por detrás da cortina para que êle não me veja.Apesar do nosso bom relacionamento seria êle,no dia  de hoje,o último dos mortais com quem eu jogaria uma conversa fora.Seu repertório (política,juros altos,como tirar proveito nos negócios,e outras amenidades do gênero) decididamente para mim,ao menos nêste momento, estão fora de cogitação.Pego o telefone.O convencional (aquêle!...),não tenho celular.Busco entusiasmado por um número. Não!Este com certeza não está em casa.Adora passear e a esta hora deve estar "ruando".Ligar para o seu celular? Impossível. Meu aparelho (aquêle!...), não faz ligação para celulares.Outro número...Ih.!Êste viajou a três dias...foi passar um final de semana com o irmão que mora na capital. Mais um número....Chiii!...(faço o sinal da cruz) em respeito.Êste já se foi.Que pena!...Seria um ótimo papo,tinha uma cabeça genial...


Subitamente começo a entrar numa espécie de pânico e me dou conta de que estou só.Num dos cômodos da casa, na televisão ligada , aquêle sorridente apresentador das tardes de domingo não foi suficientemente capaz de prender a atenção da minha fiel companheira de trinta e tantos anos que,estirada no sofá,dorme o sono das (quase) justas.Aquêle que acomete depois de um bom vinho.A minha dose foi bem menor;insuficiente para me levar sequer a um cochilo.


Penso em retornar à janela.A vista por aquêle ângulo chega a ser interessante.Impossível!...O vizinho continua em posição de ataque.A língua afiada posta à espera de uma incauta vítima a ser impiedosamente atacada com todo o conteúdo "político-financeiro" armazenado naquela cabeçinha indecente.

Descubro uma forma de saída pelos fundos da casa.Vou até o portão que dá para outra rua (moro numa esquina);a visão é sombria...A quadra de esportes,sem ninguém...O posto de saúde,fechado,Os meninos e suas massacrantes bicicletas,sumiram...Um pouco acima:O cemitério. Reluzente e silencioso,com seu depósito de ideais pêgos de surpresa,interrompidos abruptamente.Tenho necessariamente de olhar para êste cenário todos os dias e não vejo nada de extraordinário;à excessão de hoje quando a visão me causa estranhesa,algo do tipo "sinistro" como diz a rapaziada.

Resta-me de bom , as acácias da rua Espíirito Santo destilando um cheiro agradável no ar.Uma sensação de pureza e frescor;e as águas da chuva torrencial que caiu pela madrugada entrando nas "bocas de lobo" entoando uma cantiga dolente.


Retorno à casa,sirvo-me de café e uma fatia de bolo de laranja.Ligo (Pasmem!) o toca-fitas...Sim,um rádio gravador.Ainda que lhes pareça jurássico,tenho ainda um em meu poder.Apesar de todo o modernismo que se nos oferece,acho-o bastante prático.Sintonizo uma emissôra qualquer,vou deslizando o sintonizador (antiga essa,não?) e quando encontro algo que me agrada:Gravo.Assim,ouço somente o que me interessa,só o que realmente aprecio.


Está no ponto certo.Aperto o "play" e a tarde intediosa some,empreende uma fuga alucinante...A magia de "Que C'est triste Venise" na voz de "Charles Aznavour" remete-me à espaços sublimes,diferentes...O maldito tédio escapou .Escafedeu-se logo aos primeiros acordes da magniifica introdução.Livre agora do incômodo,viajo por lugares fantásticos!...Apesar da letra quando traduzida afirmar "Como é triste Veneza"(será?).


Pela vidraça alguns pingos de chuva começam a rolar de mansinho.Vistos aos olhos da poesia,daria para se adaptar à letra de uma antiga ( e muito conhecida ) canção que afirma:"A tarde está chorando por voçê!"Que bobagem,atino com meus botões...O vapor que se desprende da xícara de café,faz contorcionismos pelo ar...Cadenciados,parecem acompanhar os acordes e a voz endeusada de "Aznavour".


Levanto-me,volto à janela...Cautelosamente afasto a cortina.Êle (o vizinho) continua em sua longa espera.


Autor: Iratiense Joel Gomes Teixeira - Irati/PR
Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 06/10/2011

A hora crepuscular - Autora: Osminda Carneiro

A tarde cai lentamente.
Seis horas é à hora do ângelus, da prece e do perdão. Hora em que o camponês com seus músculos contraídos El quebrados pela luta árdua e penosa da lida cotidiana, cabisbaixo dobra a sua fronte, eleva o seu pensamento para o altíssimo e pede para que os seus trabalhos sejam abençoados.
A passarada vibrante de alegria executa o último número da sua melodia e regressa de par em par para o seu morno ninho, a fim de aquecer os seus filhotinhos.
No pátio da casa grande da fazenda já se ver um rebanho de ovelhas alvas como flocos de algodão, formando assim um tapete de Arminho, para depois de alguns minutos serem banhado pelo clarão da lua cheia, esta candeia fulgurante, que vagueia pelo espaço, fazendo clarear toda imensidão, garbosa, sutil e bela, bailando como uma princesa no amplo firmamento, distribuindo alegria e poesia aos corações apaixonados.
Finalmente, a tarde morre para dar lugar ao novo dia.
E assim neste perpassar de lutas é a nossa vida inteira, sem estacionamento e sem uma felicidade completa porque cada dia a vida piora, ninguém se entende não existe amor.
O custo de vida não corresponde ao que se ganha, enquanto isso o Brasil cresce e se desenvolve, para frente altaneiro, querendo ser potência, indiferente ao drama dos seus míseros habitantes.
Ps. Quando pensei em criar o jornal ¨O Grito¨ primeiro busquei os colaboradores e em seguida convidei colegas para materializar a idéia. A primeira colaboradora visitada foi Osminda Carneiro que de imediato aceitou escrever uma matéria por edição. A hora crepuscular foi publicada na edição III, do ano de 1979, em Custódia PE. 

Autora: Osminda Carneiro - Custódia/PE  (..)

A primeira geladeira a gente nunca esquece! - Autora: Anabailune

Nossa... este título deve soar jurássico para quem é jovem hoje. Mas quando eu era bem pequena , não era muito comum as pessoas de classe média baixa terem geladeiras em casa. Quem tinha, de vez em quando ficava responsável por guardar alguma coisa para o vizinho, ou de fornecer o gelo para as festinhas.

Nossa primeira geladeira, foi uma Cônsul azul-clarinha. Acho que eu tinha uns quatro anos de idade na época, mas eu me lembro muito bem de meu pai chegando em casa e dizendo à minha mãe que comprara uma geladeira nas Casas Xavier.

Logo depois, veio também o nosso primeiro liquidificador, e chegamos à era dos sucos e sorvetes. Maçã no liquidificador era uma verdadeira delícia, e picolé de groselha com leite, uma iguaria!

Meu pai tinha muitos ciúmes das coisas que comprava, pois o fazia sempre com muitas dificuldades, às vezes, dividindo os pagamentos em 24 vezes no crediário. Quem ousasse esbarrar em sua geladeira, ouviria um sermão zangado.

Sabendo disso, minha irmã Ester, a mais rebelde da casa, sempre que era chamada a atenção ou se desentendia com meu pai, fingia esbarrar na geladeira 'sem querer.' Ele quase tinha uma crise! Uma vez, o ebarrão acidental foi tão forte, que a geladeira balançou e saiu do lugar... como ela apanhou!

Aquela geladeira azul ficou conosco mesmo depois que todos os meus irmãos mais velhos casaram-se e saíram de casa. Jamais teve qualquer tipo de problema. Hoje em dia, essas coisas tem prazo de validade curto. Quando eu me casei, ela ainda existia, mas foi desativada quando minha mãe mudou-se para a casa de minha irmã. Acho que eles a doaram a uma família carente. Mas sempre me vem à mente a imagem da cozinha de nossa casa, com a mesa de madeira no meio, as quatro cadeiras, a geladeira azul no cantinho, o janelão aberto sobre o fogão também azul. Ali, naquela cozinha, aprendi a ler e escrever.

A geladeira azul como testemunha da história de nossa família.

Autora: Anabailune - Petrópolis/RJ

Blog da autora: http://ana-bailune.blogspot.com.br/

Blog: Ana Bailune - Liberdade de Expressão
Postagem: Face
Link: http://ana-bailune.blogspot.com/2012/03/face.html
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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O testamento – Novela amazônica - Autor: Carlos Costa

Deixo para trás a saudade e alguns hectares de terra. Não bem só isso: deixo também alguns poucos amigos, umas poucas cabeças de bode que teimam em permanecer existindo, uma cabana mal construída que eu chamo de lar e uma terra miserável que nem sei o porquê de existir. Não dá nada. Não produz nada. Deixo também uma mulher que me abandonou. Os filhos vivos. Os filhos mortos. E muitas lembranças. Mas do que isso, nada tenho para deixar porque até a dignidade eu já perdi. Mas não haverá ninguém para receber minha herança.

Inicialmente, desejo apresentar meu existir a vocês, embora não tenha certeza de um existir, afinal, viver miseravelmente como eu vivo não é existir. É ser teimoso por natureza. Chamo-me Juvenal, Juvenal do seu Zé do Bode porque meu pai criava bodes e assim fiquei conhecido. Ele já morreu. Que Deus o tenha ou o diabo que o carregue. Nascido no Nordeste.

Tenho poucas lembranças do meu pai, porque a morte veio buscá-lo quando eu era pequeno. Dizem que ele morreu de impaludismo. Confesso que nem sei o que é essa doença que deram o nome de impaludismo. Ela existe mesmo ou é mais um nome inventado?

Durante a II Guerra Mundial, navios atracaram no porto de Fortaleza. Muitos nem se davam a esse trabalho e paravam no meio do mar. Soldados desciam. “Ou você vai cortar seringa no Amazonas ou vai participar da guerra”, diziam os soldados. E havia alguma opção?

Quando tinha meus seis anos, caminhava seis quilômetros até um poço de água. Era dele que nós tirávamos a água para beber, cozinhar, dar aos bodes, tomar banho e para suprir outras necessidades também.

Cresci nessa rotina: apanhar água no poço e ver os bodes morrendo de fome ou de sede. De manhã, tirava leite de cabra para beber. Mas isso era raro. As cabras passavam tanta fome e sede que nem leite davam direito.

Como disse, tenho poucas lembranças do meu pai.

Mas sei que ele fez de tudo para que eu tivesse um futuro melhor do que o dele e não morrer de empaludismo. Analfabeto de pai e mãe, dizia que eu tinha que aprender a ler e a escrever. Aprendi muito pouco, só dá para o gasto. Não tenho medo de dizer que isso que você está lendo foi revisado. O professor disse que tentaria aproveitar minhas idéias e nem sei se ele fez isso mesmo porque, embora tenha freqüentado escolas, aprendi a ler muito pouco. Se ele mudou alguma coisa me desculpem, porque é culpa do revisor.

Quando meu pai morreu, lembro apenas que chorei muito e tive que assumir a casa porque eu era o mais velho. Meu pai foi enterrado no quintal mesmo. Colocaram-no dentro de uma rede e depois na cova. Nem caixão fizeram. Minha mãe chorava muito e foi amofinando, amofinando, até que morreu também. Fiquei só no mundo porque todos os meus irmãos morreram também, acho da mesma doença do meu pai.

Bem, não é verdade que fiquei totalmente só no mundo. Conheci uma garota bonita quando ia buscar água. Maria. Ela se chamava Maria da dona Maroca. Acho esse negócio de nome uma coisa esquisita. Nome não serve para nada. O nome do pai dela eu nunca soube. Sei que ela teve um pai mas nunca o conheci. Aliás, eu já disse o nome da minha mãe? Já morreu mas se chamava Maria também, igual ao nome da Maria que conheci. Ela tinha somente 16 anos e eu 17.

Decidimos nos mudar para o Amazonas. O ano era 1906. Época boa para se produzir o látex. Não fui para guerra, mas fui produzir látex para o Exército.

Depois de quase um ano de viagem, cheguei eu e a Maria no Amazonas e nos casamos. Tivemos cinco filhos. Dois morreram logo depois do nascimento.

Só vim conhecer um padre depois dos meus 20 anos, quando casei com Maria. Era assim: um filho morria e a gente fazia logo outro. Lembro que meu pai dizia: filho, onde come um comem dez. Mas não concordo mais com isso. Continuo miserável.

Aportei em Manaus sem dinheiro e com dívidas.

Procurei trabalho. Só tinha nos seringais. Estou agora com 21 anos, um de casado e já pareço velho. O seu Richard, um inglês, pagou todas as nossas despesas de viagem. Dizem que em Manaus vou melhorar de vida. Os homens andam bem vestidos, com terno de linho branco e chapéu na cabeça. Falam coisas estranhas. É uma língua que não entendo. Acho que é francês ou inglês, ou alemão não sei ao certo. Acho que é tudo junto e misturado.

Decidi enfrentar a vida e aceitar o emprego oferecido pelo senhor Richard, no seringal dele. Na hora do embarque, Maria chorou. Meus filhos também. “Vou voltar logo”, gritei, mas acho que ninguém me ouviu devido ao barulho do motor.

Navegamos vários dias. Paramos em um lugar isolado. Tudo era selva. Fiquei espantado ao saber que a maioria era do Ceará. Tinham vindo como “Soldados da Borracha”. Acreditaram nas promessas do Governo Federal. Eu não: acreditei somente no emprego do senhor Richard.

Tinha-se que caminhar para dentro da selva. Cortar pés de seringueira. Chovia muito no meio da selva. Trazíamos toda a produção para a margem do rio. O motor passava recolhendo tudo.

Passei seis anos no seringal. Muitos morreram. Nunca recebi o suficiente. Trabalhava mais de 18 horas por dia. Durante esse tempo, vi minha mulher, a minha Maria e meus filhos apenas uma vez. Ela estava morando na casa do seu Richard e parecia bem. Estava forte e corada. Seu Richard não deixou Maria ficar comigo, deitar comigo. Disse-me que ela estava indisposta. Trabalhava muito. Seu Richard prometeu que eu a veria antes de voltar para o seringal. Não cumpriu a promessa e eu voltei. Nem me deu um abraço. A vi de longe, apenas. Mas notei que ao lado dela tinha um menino louro. Acho que era colega dos meus filhos. Pareciam todos bem, mas estranhos.

Abandonei o seringal. Voltei para Manaus em 1912. Nesse período, não ganhei nada. Continuo devendo. A cidade, antes bonita e alegre, estava abandonada. Seu Richard tinha ido embora. Encontrei minha Maria. Ela estava morando em uma barraca imunda, no bairro dos Remédios. Culpavam os malasianos pela nossa crise. Como iria sustentar a nossa família? A cidade, antes bem desenvolvida, estava falida.

Tentei voltar para o seringal. Não deixaram. Diziam que a borracha não tinha mais compradores. Um tal de Henry Vicham havia roubado nossas seringueiras. Tudo foi parar na Malásia. Não sei se isso é verdade. Sei que agora sou chamado de arigó porque sou nordestino. Não é verdade. Sou um trabalhador e fui abandonado.

Os navios sumiram do porto. As ruas ficaram desertas. Só se vê nordestinos pela rua, perambulando. Fiquei sabendo que a minha Maria não era mais a mesma. O menino lourinho que eu vira era filho dela com o seu Richard.

Tentei me matar. Enfiei uma faca no peito. Levaram-se para o Hospital. Não tinha médico e nem remédio. Comia um dia e o outro não. Chegou o ano de 1942. O mundo estava novamente em guerra e afundaram um navio nosso. 657 pessoas morreram. Tenho certeza que haviam cearenses entre os mortos. Não me deixaram lutar.

Voltei aos seringais. Os japoneses tinham invadido os seringais no Oriente. Eu não sabia que existia isso. Fui contratado por uma Companhia de Desenvolvimento da Borracha. O dinheiro voltou a aparecer. Os navios também reapareceram.

Maria continua morando em Manaus. Meus filhos vieram comigo para o Seringal, só não o lourinho que é filho do seu Richard e não meu.

Hoje chegou navio. Soube que o Ceará continua seco e miserável. Companheiros meus voltaram. Outros chegaram para cortar seringueiras. Eram os soldados da borracha. A produção fracassou novamente. Uns americanos vieram como mandantes. Não entendiam nada de produção em floresta.

Um tal de doutor Figueiredo Rodrigues que era inspetor de saúde no porto de Manaus somava os mortos por empaludismo. Manaus tinha crescido muito, mas continuava pobre. Não haviam farmácias ou médicos. O interior estava abandonado.

Tinha um juiz que cuidava dos pobres.

Fui procurar Maria. Desejava saber notícias dela. Encontrei-a com um homem de cabelos loiros. Já tinha outros filhos. Desejava levá-la para o Nordeste. Mas cada filho era de uma cor diferente. Dos cinco filhos que tive com Maria, quatro morreram no seringal. Só ficou o mais velho. Até o Richard, nome da criança loira que eu vi quando voltava para o seringal, havia morrido também. Tinha encontrado minha Maria, não em um poço, mas nas ruas de Manaus.

Decidi voltar para o Nordeste, sem nada também.

A idade não me permite mais grandes sonhos. Foi uma viagem mais miserável ainda. Redes por todos os lados. Depois, estrada de chão batido. Homens jovens, crianças, mulheres jovens dividiam o ônibus caindo aos pedaços. Era o melhor e era o que o meu dinheiro podia pagar.

Eram todos nordestinos como eu, regressando do inferno. A chata de rodas estava cheia de desiludidos e arrependidos. Antes eu era um migrante desiludido com a terra seca. Agora, estava desiludido com a terra, a vida e com Maria. Comi o pão que o diabo amassou. Agora volto para o começo.

Uma chuva forte alcançou a chata. O vento era forte. Muitas pessoas choravam. Morrer não deveria ser tão ruim assim.

Felizmente a tempestade passou. Pensei em Maria. Como ela teve coragem de me deixar assim? Maria foi ingrata. A vida era ingrata. Fugi da seca. Estou mais velho agora, voltando. Não matei nem roubei...

Enfim, cheguei. O lugar parece o mesmo, miserável como antes. Não há água, floresta ou bichos, mas homens estranhos.

Esse é meu testamento: não deixo nada para ninguém. Você não quer o meu herdeiro? Se somente você, leitor, acreditar que toda essa minha estória é verdadeira, posso morrer feliz.
Autor: Carlos Costa - Manaus/AM
Publicação autorizada pelo autor

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Breve: Gandavos - Os contadores de histórias

Coletânea de histórias contadas por autores de diversas partes do país, valorizando a cultura local de cada estado e contribuindo assim para a divulgação do que há de especial em cada canto do Brasil. Aguardem o lançamento para os próximos dias.

Por Celêdian Assis - Belo Horizonte/MG

domingo, 5 de agosto de 2012

Prova de amor - Autor: Gilberto Dantas



A maior prova de amor é dar a vida por quem se ama.

Mas não é preciso chegar a tanto, podem ser oferecidas

outras provas tão fortes quanto a própria vida.

Fugir com o amado é uma delas. Ou a amada invadir a casa dele

e dizer de supetão: “ Estou aqui, com a roupa do corpo,

para que me leves para onde quiseres. “Sou tua de verdade,

deposito em ti toda minha confiança!”

Não seria loucura acreditar no amor e neste gesto

bonito e destemido, como que dizendo: “Não tenha medo!”

É o coração quem dá as ordens para este sublime sentimento.

E nesses casos de amor verdadeiro, ele grita

nos nossos ouvidos: “ Somente a ti que te quero”.

Só um louco duvidaria desse explosivo amor,

que brada sem parar: “Te quero, somente a ti”

Não tenha medo!


Autor: Gilberto Dantas - Miracema/RJ




Publicação autorizada pelo autor

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Cinema de Seu Zé das Máquinas - Autor: Carlos Lopes

Depois de mais de duas horas chacoalhando dentro de uma boleia de camionete, imprópria para comportar cinco pessoas, a velha e fiel Ford 1951 aponta em direção ao centro de Custódia. Pouco havia de expectativa, muito mais de cansaço e desgosto por deixar para trás a cidade de nascimento. De todos, somente eu e o meu pai de nada tínhamos a reclamar. Ele por ter perdido o que conseguira em anos de trabalho e eu por ser uma criança de dez anos, aberto às mudanças da vida. Arregalei bem os olhos para admirar uma velha fubica ano 1929, que estava estacionada na calçada da Avenida Manoel Borba. Mais tarde eu soube que pertencia ao João Correia.

A primeira casa em que moramos em Custódia ficava na Rua Coronel Nemésio Rodrigues de Melo. Nossos vizinhos eram os irmãos Vitor. Fernando construiu um carrinho de madeira para mim e estabeleceu-se uma grande amizade entre todos. A casa deles era muito frequentada e quase sempre se via por lá, Marcos e Márcio Moura, que juntamente com seus pais foram de grande importância na nossa chegada à cidade, já que os conhecia de Tabira, onde tenente Ulisses fora delegado. Logo percebemos que nossa nova casa tinha fundos com o cinema e em dias de exibição dava pra ouvir com perfeição, a trilha sonora dos filmes.

Seu Benedito, um senhor aposentado do exército, sentia muito gosto em se mostrar todo pomposo, usando sua farda de gala na entrada do seu cinema. Durante o dia atuava como juiz de menores, e ficava perambulando atrás da criançada. Era um “Deus nos acuda” quando o velho aparecia com seu tradicional: ¨Espere aí¨. Normalmente findava com nossas brincadeiras de rua, mas em compensação de longe gritávamos: ¨Papagaio Verde!¨

No mesmo prédio do cinema de Seu Benedito surgiu o Cine Uirapuru, de propriedade de Seu Adolfo, provindo das bandas de Quitimbú. Aliás, a história da cinegrafia custodiense ainda contou com a participação de Zé de Isaias e Adamastor Ferraz, os pioneiros nas exibições cinematográficas da região, que se tem conhecimento. Contam que Adamastor certa vez em São Caetano cobrou a ¨entrada¨ pelo mesmo filme três vezes. Vendo cada rolo de filme terminar e a debandada dos nativos, ele anunciava novamente o filme e fazia um novo apurado.

Meu pai comprou o cinema de Seu Adolfo por uma quantia bastante razoável, ficando um saldo a ser liquidado em pequenas parcelas, sob a alegação do dono de que teria que vendê-lo, antes que houvesse alguma desavença com algum pai de família. O cinema trouxe ao meu pai a notoriedade, que hoje o tornou conhecido de várias gerações. É impossível quem não o reconheça pelo nome de Seu Zé do Cinema, ou Seu Zé das Máquinas. O novo cinema foi registrado oficialmente como Cine Santa Maria, porém foi com o nome Cine Custódia que ficou conhecido. Funcionava na Avenida Inocêncio Lima, em um salão de propriedade de um dos seus melhores amigos, o Sr. Guilherme Queiroz. Ele, fiscal de renda do Estado e enteado de Nozinho Veríssimo, uma verdadeira lenda do município e também pai de Terezinha Queiroz, a nossa vizinha de frente, isso quando já morávamos na Rua Dr. Fraga Rocha.

Como meu pai exibia filmes em outras cidades, foi percebendo as inovações e procurava atualizar seu cinema. Daí vieram: piso em declínio, cadeiras apropriadas, ventiladores de teto, tela panorâmica e por fim, aquisição de projetor de 35mm, equipamento pouco comum na maioria dos cinemas da região. Coube ao meu pai exibir o primeiro filme colorido na cidade. E aí tem uma curiosidade. O filme fora produzido em cinemascope e cadê a lente especial própria para a exibição? Tentou-se de tudo, inclusive transmitir imagem de espelho para espelho, mas não deu certo. Ninguém reclamou pela imagem comprimida, afinal tratava-se de um filme colorido. Foram infindáveis os títulos exibidos no Cine Custódia, destacando-se: Os canhões de Navarone; Meu ódio será sua herança; A meia noite levarei tua alma; Os três mosqueteiros; Coração de Luto; Romeu e Julieta; Love story; A mulher do padre; Tarzan e as Amazonas; Teixeirinha e as sete provas. Esse último Fernando José certa vez o batizou de “Teixeirinha e as 32 provas”. Isto porque sempre que o faturamento caía, meu pai o trazia de volta.

Enfim, o Cine Custódia funcionou durante quase uma década como um dos principais pontos de cultura e entretenimento de Custódia. Lá, além de assistir o Canal 100, ainda se assistia o filme: ¨A Copa do Mundo de 70¨. Filmes como este, juntamente ao ¨O assalto ao trem pagador¨ e ¨Mineirinho vivo ou morto¨, traziam ao cinema até o vigário local. Quantos namoros tiveram início durante as sessões! Existia lugar melhor para uns “amassos”, naquele tempo?

Mas nem sempre de glória vivia o cinema. A presença do mesmo público, às vezes levava meu pai à loucura. Quando se instalava na cidade um parque de diversão ou um circo, para onde se dirigia esse público, eram ocasiões que nem sempre se conseguia público mínimo que custeasse a exibição, meu pai chegava ao desespero. Era hora de procurar outras ¨praças¨ para não deixar faltar comida à mesa. E isso meu pai fez muito bem, protagonizando exibições em lugarejos onde nunca havia chegado a sétima arte e ainda fornecia filmes com a renda dividida, naquelas cidades onde já havia cinema.

Certa feita, fomos ¨passar¨ filme num lugar chamado São Caetano. Na hora da exibição, nenhum pagante. Papai puxa conversa com morador do lugarejo e fica sabendo que um lutador de um pequeno circo havia desafiado um ¨lutador¨ local e naturalmente todos estavam por lá. Uma meia hora depois lá veio papai acompanhado de umas oito ¨mulheres de vida fácil¨, lá de Custódia, que como nós, também foram trabalhar e faturar com a festa de rua do lugar. A mim foi entregue um disco de 78 rpm com a recomendação de que ficasse virando de um lado para outro, por ser o único disco. A segunda recomendação era coisa de pai para filho: ficar atento ao no som, nada de ficar olhando a dança. Aqui, acolá, meu pai passava o chapéu para arrecadar alguma ajuda e a matutada contribuía de forma satisfatória. No dia seguinte, o capim do quintal estava todo abaixadinho. Anos depois ainda havia ¨senhoras¨ me perguntando: ¨Ei menino, quando é que teu pai vai fazer outro forró daquele?¨ Minha mãe é que não gostou nada daquele acontecido!

No final da década de 70, o Cine Custódia fechou as portas, encerrando a fase romântica do cinema no interior. Digo isto porque dezenas de outros cinemas também assim procederam. A televisão de ótima imagem e som estava acessível a todos. Mesmo cinemas famosos não foram páreo para as programações gratuitas, entre eles: Bandeirantes (Arcoverde), São José (Afogados da Ingazeira) e Alvorada (Tabira).

Em nome do meu pai eu gostaria de registrar o nome de pessoas que contribuíram com o cinema durante quase uma década, sem receber uma prata sequer como pagamento. Foram valiosas as locuções feitas por José Melo e Fernando José, mesmo quando meu pai fazia exibição em outras localidades. Era a voz deles nas primeiras viagens, depois ficou sendo a de papai mesmo. Registro que o falecido Humberto de João Anjo foi o nosso primeiro operador de som e do projetor. Um carinho todo especial ao nosso Severino do Rádio, pelos tantos reparos em nossos equipamentos. Alguém gritava: ¨Cadê o som¨. Meu pai dizia: ¨Chamem Severino!¨ Sem os amigos Guilherme Queiroz e Claudinete Simões o cinema não teria funcionado por muito tempo. O primeiro ¨esquecia¨ de cobrar o aluguel e ao segundo cabia o financiamento de filmes, quando eram épocas difíceis. Por fim, ao também amigo da família Pedro Vitor. Este foi o fiel escudeiro da paz e da tranquilidade em suas atribuições diárias pela cidade e a noite era o nosso anjo da guarda. Coitado, assistia até cinco vezes ao mesmo filme e sempre ao lado de Rosa, à época sua namorada. Quando lá não estava, aos primeiros ¨sapateados da turma¨ meu pai dizia: ¨Chama Pedrin¨. E Pedro ao entrar, dizia em alto e bom som: ¨Pessoal, eu estou aqui¨. A fita podia partir por vezes (e partia mesmo) e ninguém reclamava.

Com a chegada da televisão até a praça ficou vazia. A mulherada só descia para a praça após a novela das oito. Houve até quem cobrasse entrada em sua residência, daqueles desprovidos de um aparelho receptor. Por estas e outras o prefeito Luizito disponibilizou um aparelho a céu aberto, a quem quisesse assistir. Ao meu pai coube perceber a chegada da hora do descanso de uma vida de trabalhos, onde perambulou pelas mais diversas profissões. Isto porque aos nove anos de idade saiu de casa para trabalhar pelo simples prato comida. De lá pra cá, foi agricultor, carreiro, pedreiro, vendedor de ovos, vendedor de sapatos na feira, dono de padaria, militar, comerciante de móveis, entre outras. Prosperidade mesmo só no início dos anos sessenta quando se tornou um dos principais comerciantes da região do Pajeú. O rádio já existia, mas foi o meu pai que o popularizou na região. O preço foi alto demais para uma pessoa acostumada a uma vida singela. Em um triste cair de tarde do ano de 1968 deixamos Tabira, enxotados pelas dívidas e pelo desencanto pelo lugar. Outra cidade teria que nos abraçar e nisto fomos felizes. Custódia representou o porto seguro em um momento de aflição, onde era difícil tomar um rumo certo ou dar sentido ao rumo.

Autor: Carlos Lopes - Olinda/PE