segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Quixote e Sancho - Autor: José Carneiro

 
TRAÇOS E RETRAÇOS narrando uma história inacreditável! Tida como verídica, não se sabe até onde vai a verdade, em face da ausência de provas. Conto como a ouvi, através de fartos comentários da cidade. Até hoje, ninguém de sã consciência, pode apontar os nomes dos dois personagens. Os boatos, todavia, assim os identificavam: o primeiro, comerciante, homem alto, magro, empertigado, inteligente, empreendedor e espirituoso. Lembrava o fidalgo cavaleiro Dom Quixote, como a partir de agora será tratado. O segundo, ao contrário, era baixo, barrigudo, cabeça chata, rala cabeleira, desengonçado e com ar de bobo. Agricultor e fazendeiro, era a cara de Sancho Pança, como será chamado.
 
Sancho, apesar de possuir uma grande propriedade agrícola e muitas cabeças de gado, era considerado o rico mais avarento da face da terra. Comentava-se que escondia dinheiro em botija e nos ocos das catingueiras de sua fazenda. Nos dias de feira arranchava-se na mercearia de Quixote, onde comprava os mantimentos da semana. Com o passar do tempo se tornaram amigos.
 
Quixote, certo dia, valendo-se da confiança e da esperteza que Deus lhe deu, mostrou a Sancho o cofre que havia no meio do salão da venda, dizendo que se tratava de um cofre forte, isto é, um móvel de total segurança, fabricado em aço puro, com uma fechadura reforçada e que, além da chave, necessitava de um segredo para abri-lo, que só ele e mais ninguém sabia, salientando que, pesado e resistente, o que nele se guarda deixa o dono certo de sua inteira segurança.

Com efeito, estes e outros argumentos convenceram Sancho e atingiram os objetivos. Tanto é assim que, como num passe de mágica, Quixote do dia para a noite surge como o novo rico. Amplia consideravelmente a mercearia, diversifica o comércio e se torna agricultor e pecuarista.
 
Conta-se que, noutro certo dia, Quixote chama Sancho novamente em particular e, constrangido, confessa que, forçado pela fiscalização do governo, foi obrigado a abrir o cofre e todo o dinheiro nele guardado foi apreendido, alegando-se sonegação de imposto e advertido que ficasse calado sob pena de prisão.
 
Há quem diga que não foi pequena a quantia depositada, muitos contos de réis.
 
Sancho teria dito a um amigo que foi roubado por Quixote, vangloriando-se de não ser tão besta quanto ela pensa, por não ter confiado todo seu dinheiro.
 
Depois disso, Sancho não cruzou mais os batentes da mercearia de Quixote.
 
Os moinhos do Quixote custodiense, ao contrário dos moinhos do Quixote De La Mancha, são por demais verdadeiros.
 














Autor: JCarneiro
Recife - PE
Publicação autorizada pelo autor

domingo, 28 de outubro de 2012

O voo do Ícaro - Autor: Fernando Florêncio


 
Fernando chegou a Custódia procedente de Ibimirim, por força da transferência do seu Pai, que soldado da Policia Militar de Pernambuco, viera “servir” por aqui. Chegaram em cima da carga de um caminhão, carregado com fardos de algodão, debaixo de um sol de rachar. Vieram via Betânia. Estrada de chão.

Lembro de ambos descendo do caminhão. Quando pularam, ficaram alguns bons segundos “sumidos” envolvidos que foram por uma nuvem de uma poeira vermelha acumulada nas roupas durante a viagem. Mais parecia um “redemunho” .

Na bomba, mais precisamente em frente ao Hotel Sabá, onde aconteceu o desembarque, demorou algum tempo para sabermos o que “era aquilo”. O Fernando pisava assim, tipo: “AQUI TÁ FUNDO E AQUI TÁ RASO, AQUI TÁ FUNDO, AQUI TA RASO.”porque tinha uma perna maior que a outra.

O Pai de Fernando, devidamente fardado, com a gandola abotoada até o pescoço, foi aparecendo aos poucos de acordo com a dissipação do pó. Portava na mão o inseparável Fuzil/Mauser 1908, comumente chamado de “MOSQUETÃO’. Arma potente. Precisa. Matava um boi a mil metros de distância. Arma respeitada. Bala de aço. Fernando se adaptou logo ao novo ambiente.

Tentou de todas as formas jogar bola com a gente, mas, com as pernas tortas, ainda por cima finas e descalibradas, tipo assim, “DEIXA QUE EU CHUTO”, não levava jeito. Por ser filho de soldado, e como naquela época todo soldado, não sei por que, andava com um apito, e como o silvo do apito era bonito, diferente, arranjamos para Fernando ser o juiz de nossas peladas, desde que apitasse o jogo com o apito do soldado. Aquele apito era de mais. O Fernando, sendo juiz da pelada e filho de “otoridade” era respeitado.

Certa feita Fernando apareceu com uma geringonça fabricava umas pipocas que mais pareciam isopor. O sabor era indefinido. Mas com sal e manteiga “de gado” até que a tal pipoca era comível. Fazia a nossa alegria, principalmente nos dias que tinha “cinema”.

O soldado, pai do Fernando, fazia gaiolas com tal esmero, que eram conhecidas até na Feira de Caruaru, e o Fernando era encarregado pelo pai a pegar os passarinhos, já que as gaiolas seriam vendidas mais cara e mais fácil, com um pássaro dentro. Como todos nós, o Fernando também passou a “freqüentar” o sítio de “Sêo Arnou” pois lugar melhor pra “pegar” Golinha, Pintasilgo, Papa-Capim, Galo de Campina..etc não tinha, pois era numa cacimba onde esses passarinhos iam beber que nós armávamos os alçapões.

Sêo Arnou até que não ligava muito. Desde que não mexesse nas frutas, tudo bem. Ao contrário do irmão, Ananias. Esse sim, se pegasse um de nós, o cipó comia no centro. Mas, começou a sumir alguns cachos de coco, de uns pés que Sêo Arnou tinha nos fundos do sítio. Os coqueiros eram nativos e altos . Alguns com mais de 30 metros de altura. Tanto que poucos se atreviam a trepar neles. Os cocos caiam já secos. Foi em cima de um desses gigantes que Sêo Arnou flagrou Fernando roubando cocos. Não pensou duas vezes.

Com Fernando lá em cima, pedindo pelo amor de Deus “– Sêo Arnou num faça isso, é muito alto, eu vou morrer –“ e Sêo Arnou num tava nem aí para as súplicas do lalau. Quanto mais Fernando pedia, mais Arnou brandia o machado no tronco do coqueiro.

Vendo que não tinha saída, a disposição de Arnou era mesmo derrubar o coqueiro, o larápio, que era de uma magreza extrema, sacou da cintura uma pequena foice que sempre carregava para tirar madeira de fazer gaiolas, cortou uma palha do coqueiro, botou embaixo de um braço, cortou outra, colocou no outro braço, apertou nos sovacos e se jogou lá de cima.

Quem viu, disse que Fernando deu um rasante sobre o bar de Sêo João Miro, arremeteu, subiu, desceu, passou raspando a antiga Tambaú que ficava ali perto da ponte, e se não fora uma rajada de vento que o jogou na direção do pé de tamboril de Sêo Luiz Mataverde, aonde ficou enganchado, Fernando teria aterrissado lá pras bandas do Texaco.
 
FERNANDO DO SOLDADO, MORREU (?) SEM SABER QUE INVENTARA

A ASA DELTA


 












Autor: Fernando Florêncio


Ilhéus/BA 22/11/2008

Publicação autorizada pelo autor do texto
Fernando Florêncio é autor do livro:
Foi assim - Uma história autobiográfica - Ilhéus - Bahia 2010
 

sábado, 27 de outubro de 2012

O papa-figo e outras medonhices

Autor: Rangel Alves da Costa
 
E de repente, bastava se avistar a poeira subindo ainda distante e a meninada começava a chorar, a gritar, a correr numa marcha só e se metendo no fundo dos quintais, nos monturos, mas principalmente embaixo das camas. Muitas delas se trancavam nos guarda-roupas e mais de vez, depois de muita busca e preocupações, foram encontradas a sono solto lá dentro.
 
E tudo por causa do papa-figo. Quando se ouvia falar do papa-figo até moça e rapaz se tremiam, pai de família e velho também, não conseguindo esconder o temor diante daquela estranheza toda. E se alguém, mesmo na zombaria, brincadeira de mau gosto, dissesse que o carro que poeirava adiante na estrada só podia ser do papa-figo, então era um deus-nos-acuda. 
 
Pelo nome, tão medonhamente pronunciado, logo se imaginava o pior: pessoas estranhas, maldosas e violentas, os temidos comunistas, chegando ali e arrancando com as mãos o fígado de quem fosse encontrando pela frente. E para comer vorazmente cru, saciando com o vermelho escorrendo do órgão do inocente sua sanha assassina, cruel.
 
Ora, pensar-se em comunistas era pensar em vermelho, cor de sangue, por isso mesmo muito mais pavor assim que um brincalhão alardeava que eles já estavam chegando com sua fome e sede. O povo, inocente demais, matuto, pensando realmente que o comunismo era um bicho horrendo e muitas vezes sem saber sequer o que era verdade ou mentira no que chegavam espalhando ali, então se iludia com a propagada governista e dava no que dava.
 
Verdade é que o governo tinha a preocupação de fazer chegar aos lugares mais inóspitos, nos sertões mais distantes, essa versão assombrosa sobre o comunismo, que segundo os seus interlocutores poderia chegar ao local através de pessoas disfarçadas de bons moços, mas que na verdade não passavam de cruéis devoradores do fígado de inocentes. Daí o termo papa-figo, no linguajar massapento.
 
Por isso mesmo que ao ouvir a simples menção de que os papa-figo poderiam estar chegando, já bastava para o mundo desandar. Contudo, nem todo mundo caía nessa lorota propagandística, pois dois velhos calejados do lugar, um ex-marinheiro de todos os portos e um amargurado ferreiro aposentado, comunistas convictos e de panfletagem, rebatiam os alarmes falsos dizendo que o carrasco do povo é a sua ignorância.
 
Os dois vermelhos de coração e ideias, se achando no direito de levantar suas bandeiras de luta e defender suas teses bolcheviques, faziam de tudo para que a população deixasse de ser enganada, caísse na realidade e tentasse ver quem era realmente o inimigo, quem eles deveriam temer, que era o próprio governo com suas mazelas e propagação de tantas injustiças sociais. Então começavam a explicar, dissuadir, discursar, mas não havia jeito. Bastava um gaiato soprar que os papa-figo estavam por perto e cada um já procurava sair de fininho.
 
Saía de fininho, se escondia, sumia, mas encontrando outro mundo não menos inocente e fabulesco. De velho a novo, com poucas exceções, todo mundo acreditava em botija enterrada e contendo riquezas de não acabar mais. Na minha família, em outros tempos, já aconteceu um caso assim, envolvendo essa riqueza doada do outro mundo, mas fruto de alguém da comunidade que voltava do reino dos mortos para dizer a pessoa de sua confiança aonde havia deixado uma fortuna enterrada.
 
Fico imaginando como uma pessoa que viveu o tempo todo na pobreza, ou quando muito na farta subsistência do ter apenas pra não faltar, iria enriquecer antes de morrer e somente depois, quando já não podia usufruir de tanto ouro e dinheiro, voltaria ao reino dos vivos, balançar a rede do adormecido e dizer que ali em tal lugar, embaixo de não sei o que, havia um sinal assim e assim, e que bastava desenterrar para encontrar riqueza.
 
Mas tinha de fazer isso sozinho, sem antes ter avisado a ninguém. Meia noite, e noite de pouca lua. E dizem que um parente meu desenterrou uma bem desse jeito. E talvez tenha enterrado depois em outro lugar e quando morreu esqueceu-se de voltar pra avisar onde estaria a salvação da lavoura.

Às vezes fico pensando nisso tudo como uma grande brincadeira. Mas Deus me livre de dizer isso lá pra minha terra. Certa vez um cabra disse que não acreditava em caipora e mesmo já velho caçador tomou uma surra desse encantado que ficou entrevado muitos dias em cima de uma cama. E até hoje todo mundo comenta esse caso e jura pela mãe-d’água que foi verdade.

Desse jeito, quem sou eu pra desacreditar?



Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE

Poeta e cronista




Publicação autorizadapelo autor

 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Amigos insanos

Autor: Ciro Fonseca
 
Como eu já disse em algumas crônicas passadas, eu sempre gostei de jogar futebol. Nunca cheguei a ser um craque, mas cheguei a jogar em times da terceira divisão, aqui pelas bandas do Rio de Janeiro. Bem mais tarde, já na meia idade, continuei jogando em campeonatos de veteranos, e no Guanabara F.C. Clube sediado na cidade de Santa Cruz, situada na zona oeste do Rio de Janeiro, disputei o “campeonato dos cansados”, até a idade de mais ou menos 55 anos.

Era um campeonato organizado, com regulamento, juízes federados, súmulas, que eram analisadas por uma comissão disciplinar. Participavam 10 times, todos patrocinados por comerciantes locais, que davam as camisas com o logotipo de suas lojas ou indústrias. Um desses times em que eu jogava era denominado “Toca Móveis”, cujo proprietário chamava-se Edson.

O Edson era um dos caras mais gozadores que conheci, vivia de brincadeira, e o time perdendo ou ganhando. Pra ele era motivo de muita gozação depois dos jogos.

Certo dia resolvi passar na loja no Edson, para comprar uma bi-cama para o quarto dos filhos, pensando em ganhar um bom desconto, pois afinal era titular da lateral direita do time dele. Chegando à loja, estacionei o carro em frente, e fui perguntando a um empregado. O Edson está? Está almoçando, disse o rapaz sorridente. Mas a casa dele fica nos fundos da loja, dá um pulo até lá, tem um portãozinho bem aqui do lado, disse ele apontando.

Eu não me fiz de rogado, afinal o Edson era um cara sem frescura nenhuma, dirigi-me ao portãozinho que estava apenas com um trinco, empurrei e fui entrando num quintal bem tratado e bastante arborizado, já estava chegando perto da varanda da casa, quando reparei numa placa que dizia: “Cuidado com o papagaio”. Dei uma boa risada, pois devia ser mais uma gozação do Edson. De repente, lá da varanda, ouvi uma vozinha que gritava bem alto: Pega rex, pega rex ! O latido que veio dos fundos da casa devia ser de um cachorro enorme, pois nem parei para olhar para trás, quando pulei o portão de volta para a rua. Era o maldito papagaio que instigava o cachorro. Dentro da casa, o Edson se mijava de tanto rir.



Autor: Ciro Fonseca - Rio de Janeiro/RJ

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Livro: Gandavos - Os contadores de histórias


 
¨Sinceramente, sinto-me como uma criança que acabou de receber o melhor dos presentes. É uma grande honra fazer parte desse grupo. Carlos, muitíssimo obrigada por me inserir nesse belo e magnífico projeto. Bravo ao primeiro de muitos exemplares do livro Gandavos!¨
 
Adriane Morais 

 
Fonte: ADREC/COMUNICAÇÃO
Banco Central Recife PE
Material publicação com autorização de Adriane Morais - Recife/PE

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mudança de sexo - Autor: Roberto Rego

A comadre Alzira era um pedaço de mulher, pele clara, negros cabelos, olhos de jabuticaba, reforçada de corpo, braços e pernas roliças de dar água na boca de todos os homens do Capão Bonito, lugarejo encravado lá pras bandas da Serra da Canastra, região de Capitólio, Minas Gerais.

Esposa do Major Tenório, policial militar reformado, truculento de natureza, fazendeiro do lugar, Dona Alzira chamava a atenção de todos quando vinha à cidade de Capitólio para fazer compras, especialmente tecidos e armarinhos, mulher prendada que era, chegada à confecção de vestidos, blusas e peças do vestuário feminino. O marido, sempre ao seu lado, parecia um cão de guarda, sempre atento a tudo e a todos, não desgrudando os olhos da mulher. Um caso sério o ciúme doentio desse homem.

Vizinho deles em Capão Bonito, o compadre Armando, criador de ovelhas, babava de amores contidos pela comadre Alzira. Volta e meia aparecia lá na fazenda do casal, levando um carneirinho mamão pro Major Tenório fazer um assado, conhecedor que era dos seus gostos e das suas manias. Ficava de olhos compridos pra cima da comadre, mas ela não lhe dava a menor bola, ainda mais na presença do maridão, é claro! E o compadre Armando ficava na sua.

Certa feita o Major Tenório viajou para Goiás a negócios, onde pretendia comprar algumas vacas e um touro reprodutor para o seu rebanho. Após passar várias recomendações à sua mulher, o militar encetou a viagem, prometendo voltar o mais ligeiro que pudesse.

O compadre Armando, sempre por dentro do que se passava no Capão Bonito, mal o fazendeiro partiu ele apareceu por lá montado no seu cavalo alazão, afobado e nervoso como de hábito. Chegou no galope, amarrou o cavalo próximo à entrada da sede e foi logo batendo palmas e gritando:-

“- Comadre Alzira, oi comadre!... Tou chegando! ...” – Dona Alzira surgiu na varanda que circundava a enorme casa e admirou-se:-

“- Compadre Armando, que surpresa! O Tenório não está, ele viajou, sabia? ...”

“- Sim, minha comadre, tou sabendo! Mas posso entrar pra uma conversinha rápida?”
Dona Alzira franziu a testa, pensou e respondeu com tranqüilidade:-

“- Sabe, compadre? Eu tou precisando de ir até o centro da vila do Capão Redondo, mode comprar umas coisinhas de armarinho. Vamos comigo e no caminho a gente vai conversando, o que o senhor acha? ...” – e ele, rápido que nem um corisco:-

“- É pra já, comadre! Deixo o alazão aqui e vamos na sua charrete, pode ser?”

“- Mas é claro. Então vamos logo!...”

E saíram os dois na charrete puxada pelo “Mimoso”, um cavalinho pampa ligeiro que só ele. Ultrapassaram a porteira, depois o mata-burro e em seguida pegaram a estradinha de cascalho que levava ao vilarejo. Compadre Tenório conduzia a charrete com Dona Alzira ao seu lado, ambos alegres e proseando bastante. Andaram uns quinze minutos e a comadre virou-se:-

“- Aiii, compadre Armando! Tou precisando fazer um xixi! ... Pare ali próximo àquelas moitas, vou pro mato! ...”

O compadre parou a charrete, Dona Alzira subiu um pequeno barranco, acomodou-se por detrás duma grande moita de grão de galo, levantou a saia, abriu as pernas e virou aquele bundão branco e redondo pros lados da estradinha. Daí a pouco lá vem o sorrateiro do compadre Armando, escalou o barranco e deparou com aquele belo cenário, sem dúvida nenhuma a visão dos seus sonhos. Agachou-se, veio que nem um gato por trás, esticou o braço e botou a mão grande, espalmada, por baixo das intimidades da comadre Alzira, no justo momento em que ela expelia um baita tolosco dos seus intestinos. O compadre acusou o recebimento da carga e perguntou:-

“- Uai, comadre, a senhora mudou de sexo??? ...” – e a Dona Alzira, rapidinho:-

“- Não, compadre, eu mudei foi de idéia! ...”


Autor: Roberto Rego - Belo Horizonte/MG

“É igual índio, é igual branco” - Dias de Índios XVII

Autor: Professor Wanderley Dantas
 
Acordamos às 5:00 horas da manhã e seguimos para a roça.
A roça de mandioca gera a subsistência de todos. Da mandioca é feito o caldo de mandioca, que é chamado de perereba; também se faz o polvilho, que resulta no biju. Este tem duas qualidades: o kine, que é um biju grosso e mole feito para se comer com peixe e o kagupe, que é um biju bem fininho e duro para se comer assim que se acorda. Mas a roça também é um lugar de muitos significados, já que nas histórias do meu povo a roça é também o lugar do adultério. Este se dá em encontros que são escondidos sob uma máscara mitológica: os amantes são apresentados como espíritos de animais! Assim, as narrativas simbólicas apresentam mulheres sempre seduzidas por cachorros, jacarés, antas, etc.
- Elas estão rindo de quê? Perguntei ao cacique.
-Professor, elas não acreditam que você tenha só a Lu de esposa. As índias estão rindo porque sabem que branco é igual índio. Quando eu saio da aldeia, professor, eu deixo minha mulher aqui e esqueço dela. Aí, arranjo outra mulher. Com o branco é a mesma coisa, eu sei. Ele sai da cidade dele, esquece a mulher e vai para outra cidade e lá tem outra mulher. Depois volta para a cidade e volta para a mulher. Cada saída, uma mulher nova – explicava-me o cacique.
Na aldeia, o homem pode ter duas ou mais esposas, mas ele não pode ter suas amantes. O adultério jamais é permitido dentro da aldeia e, uma vez descoberto, seja do homem, seja da mulher, o adultério é punido com separação e, às vezes, até com uma das partes obrigada a sair da aldeia para outra aldeia. O processo é sempre público e vexamoso (a mulher bate no marido se descobrir a traição, por exemplo).
 
Naquela manhã, então, estávamos indo à roça para conhecer aquele lugar tão cheio de histórias. Após quinze minutos de marcha mata adentro, aparecem as primeiras roças. Todas elas têm dono. Descobri que quanto mais roças, mais rico é o índio.
- Essa é minha roça. Ali é minha roça também. Lá eu tenho mais roça. Aqui é roça do meu genro. Por isso a esposa dele está aqui catando a mandioca -dizia-me o cacique, apontando o dedo em direção às roças.
 
- Tudo isso você plantou?
 
- Claro! Nós temos roça. Se outro não tem roça, fica pobre. Não tem comida pra ele, não tem polvilho pra ele, não tem biju pra ele. Fica pobre. Se outro tem a roça, aí é rico. É igual branco: não tem trabalho, não tem emprego, aí fica pobre! Tem que trabalhar, se não trabalhar fica pobre. Por isso eu tô plantando a roça. Ano que vem, planto de novo para não faltar. Todo ano fazendo a roça, todo ano. Tem que plantar, Professor. Se não planta fica pobre. Tem índio que tem preguiça, Professor, não planta roça, fica pobre.
Tem que trabalhar – ensinava-me o cacique.
Os homens plantam a roça e cuidam dela. Fazem pequenos muros de madeira ao redor das roças para que os porcos não invadam e comam tudo. Agora, o trabalho de arrancar, descascar, carregar e preparar o polvilho é só das mulheres. Depois de descascadas as mandiocas, elas as colocam em grandes bacias que são carregadas sobre suas cabeças. Tentei levantar umas dessas bacias e sequer consegui erguê-las do chão. As mulheres são muito fortes, elas precisam ser muito fortes, uma vez que o trabalho de carregar peso é sempre função delas. A cena mais comum na aldeia é a fila indígena iniciada pelos maridos de “mãos abanando” seguidos por suas esposas – formigas carregadeiras – sempre trazendo malas, redes, bacias, troncos de árvores, etc. Aqui, ao contrário do que me ensinava o cacique, nem tudo é igual ao branco, nem tudo é igual ao índio...


Autor: Professor Wanderley Dantas

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Publicação autorizada pelo autor

sábado, 20 de outubro de 2012

Lançamento da coletânia Gandavos – Os contadores de histórias - Por: Celêdian Assis


 
Uma boa ideia que nasce de um interesse sadio, sempre traz em seu bojo a gratificação para quem a desenvolve e para outros que a assimilam. Assim foi, ver nascer e realizar-se o projeto da coletânea de contos e crônicas, GANDAVOS – OS CONTADORES DE HISTÓRIAS, um livro concebido e levado para edição pela iniciativa do escritor Carlos Lopes, a partir de uma notável parceria com escritores de várias partes do país, os quais têm alguns de seus textos hospedados no Blog Gandavos. Esse é um espaço, no qual eu e os outros autores encontramos uma excelente receptividade, acolhimento e também onde tornarmos-nos todos, amigos, numa saudável troca de confiança e respeito. Carlos Lopes, administrador do blog, nos concedeu a liberdade para manifestar a arte e estilo de cada um, respeitando-se a diversidade cultural e estabelecendo um canal por onde cada qual deixou fluir naturalmente as suas características peculiares de contar histórias, cada qual com sua magia para deslumbrar os sentidos do leitor. Não se trata, portanto, de um livro que simplesmente reuniu textos de vários autores aleatoriamente, mas trata-se antes, de um trabalho esmerado pelo gosto de fazer bem o exercício de escrever, que presumivelmente, tem o condão de encantar o leitor e contribuir sobremaneira para o processo de inserção dos novos autores no vasto mundo da literatura.
Espera-se que tal iniciativa se repita com sucesso, com o mesmo nobre propósito de divulgar novos talentos das letras, revelando-os ao conhecimento público, para o prazer de uma boa leitura.
Celêdian Assis – Belo Horizonte/MG  
 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nasceu nosso livro - Vários autores

 


 
¨É uma coleção de histórias, memórias, dores e delícias¨
Celêdian Assis de Souza
 
¨Contar histórias é uma arte milenar que envolve as pessoas através da sensibilidade e ajuda a desenvolver uma atitude crítica e criativa perante a vida¨
Maria Olimpia de Melo
 
¨Tive a felicidade de conhecer o Carlos Lopes, este simpático pernambucano de Custódia PE há cerca de um ano mais ou menos¨
Gilberto Dantas
 
¨Aí está o nosso livro. Obrigado pela confiança¨
Carlos Lopes
 
¨Sejam bem vindos  a este livro, meus senhores e minhas senhoras¨
Augusto Sampaio Angelim
 
 
Livro:
Título: Gandavos - Os contadores de histórias
 
Autores:
Carlos Lopes, Celêdian Assis de Sousa, Fábio Ribas, Gilberto Dantas, Augusto Sampaio Angelim, Geraldinho do Engenho, José Soares de Melo, Maria Olimpia Alves de Melo, Adriane Morais, Ana Bailune, Carlos Costa, José Eduardo Costa, Dilermando Cardoso, Jorge Farias Remígio e Fernando José carneiro de Souza
 
Ilustração da capa
Artista: Edmar Sales
 
 
SALES é um  pintor paisagista, pernambucano, sua arte é interpretada como impressionista, alterando o abstrato e concreto em vários temas
 
Contato:
 
http:ateliersales.vilabol.uol.com.br/
(87) 3848-1780 / (87) 8807-2566
 
 
 
 
 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Amigo Francisco - Autor: João Carlos Hey












De batismo tu foste
João, como João
Eu de batismo sou
Francisco foste após

(Como quis o teu pai)
E pra sempre Francisco
Ficaste. Pobre e santo
Amando todos nós

Conheceste a riqueza
Alegrias mundanas
Luxúria das alcovas
Nas vielas de Assis

Mas o amor que provaste
Nos palácios de outrora
Servido com bons vinhos
E perfume de anis

Não era o verdadeiro
Pois ainda não sabias
Que tinhas o clarão
Dos espíritos de luz

Nem que o amor residia
No olhar do teu irmão
Fazendo-te enxergar
A glória de Jesus

Nova ordem tu fundaste
(Como quis nosso Mestre)
Pra tirar dos mosteiros
E levar aos mais pobres
 
A Palavra da fé
Conforto e caridade
Prenhe da Santa Paz
A embalar causas nobres

São Francisco perdoe
Pedir-te assim de chofre
O pedido que traço
Nos versos logo abaixo

É que a coisa está feia
O mundo perdeu o rumo
Eu mesmo já não sei
Direito onde me encaixo

Caro amigo eu te peço
Intercedei a Deus
Pelo povo descrente
Que hoje sangra refém

Da vil devassidão
Distante da virtude
E se tiveres tempo
Rogai por mim também

 







 
Autor: João Carlos Hey – Curitiba/PR

Página do autor:


N. do A. - Na ilustração, São Francisco de Assis, óleo sobre tela, de Jusepe de Ribera, 1643.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Escola e o arco-íris - Dias Índios XVI - Autor: Professor Wanderley Dantas


Naquele dia, lavamos a mesa do professor e preparamos a escola. Ela seria improvisada na farmácia da aldeia. Era uma casa pequena de vigas finas de madeira e que faziam as vezes das paredes, o teto era de sapê e o chão de terra. A cada tempestade durante as aulas, os alunos ficavam assustados e eu pensava que seriam os raios e trovões que os atemorizavam. Entretanto, descobri tempos depois que o medo deles se devia ao receio de que a escola caísse sobre nossas cabeças. A casinha já era velha e toda torta e meio caída para a esquerda. E esse receio deles provou ser justo: um dia, durante uma outra tempestade, aquela casinha finalmente caiu! Graças a Deus, foi durante um fim de semana em que não havia aula...
Enfim, as aulas iriam finalmente começar no dia seguinte. Quando terminamos de preparar a mesa, pendurar o quadro-negro, limpar as tábuas que serviriam para que os alunos se sentassem, saí, então, daquela casinha, andei alguns metros e me virei para vê-la. Era imensa a minha alegria de estar ali olhando para minha escolinha improvisada no meio da mata amazônica no interior do Brasil! Ela era um sonho que eu acalentara por muitos anos e que, agora, realizava-se diante dos meus olhos. Havia já passado das 5 da tarde e sobre a escola, bem atrás dela, descia um lindo arco-íris, emoldurando o que haveria de ser o meu lugar de trabalho. Agradeci a Deus pela sua aliança. Eu sabia que não estava sozinho.
 
 
 



Autor: Professor Wanderley Dantas

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Publicação autorizada pelo autor

domingo, 14 de outubro de 2012

Um caixão menor que o defunto - Autor: Geraldinho do Engenho

A extinta comunidade do Picão era situada em ambas as vertentes do córrego conhecido como água quente. Casas simples, de chão batido, pau a pique, amarradas de cipó. Algumas mais próximas das outras, mas não chegou formar um núcleo que se podia dizer uma rua. Habitadas por gente simples, muito solidária e unida. Todos eles, compadres uns dos outros.

Zé Rosa foi um comerciante na localidade, chegando a conseguir algumas economias, mas era alcoólatra, bebeu todos os recursos, e acabou fracassado. Portador de uma enorme hérnia trabalhava com grandes dificuldades para sobreviver. Como alternativa desempenhava o papel de carpinteiro. Muito lambão, mas a falta de profissionais no oficio, carpintaria, acabou dando-lhe oportunidade. Dizia sempre que um palmo dois palmos não fás diferença. Feliciano seu compadre outro pra lá de lambão vivia tirando sarro do compadre Zé Rosa.

Ocorreu o falecimento, de uma senhora muito querida na comunidade. Na época não havia as empresas papa defunto como atualmente. O caixão e a tradicional mortalha sempre eram confeccionados após a ocorrência do óbito. Uma preocupação que acabava trazendo certo transtorno principalmente quando o falecimento era repentino.

Pois bem a senhora teve o privilegia dos compadres prepararem-lhe com muita dor, mas também com muito carinho seu sepultamento. Comadre Rita esposa de Feliciano costurou durante a noite sua mortalha, e compadre Zé Rosa ficou com a incumbência de fabricar o caixão. Na sala da falecida o velório com muito respeito e orações. No quarto que em vida pertencera à falecida a máquina vibratória deslizou durante boa parte da noite, ajuntando carinhosamente os recortes de tecido. Na varanda do paiol, o banco de carpinteiro, os materiais necessários, mais um garrafão de pinga outro de querosene um abastecendo a lamparina que iluminava o trabalho o outro abastecendo o artífice confeccionando o caixão. Entre uma e outra, martelada uma dose de pinga era ingerida, dando mais força ao carpinteiro. Enquanto na sala as comadres soluçavam ao ouvir tristemente as pancadas do martelo, la na varanda o carpinteiro também soluçava, mas de bêbado. Quando raiou o dia estava pronto. O caixão sobre o banco. Mais morto que vivo estirado no chão o carpinteiro.

Chegado o mais triste momento, a hora da partida. Colocar aquela pobre mãe no caixão, foi impossível, sobrou mais de vinte centímetros do cadáver, o caixão ficou curto. Tentaram de todas as formas, mas quem disse que defunto encolhe, após ter esfriado. Feliciano despejou uma lata de água na cabeça do seu amigo. - Levanta compadre, você diz sempre que um palmo dois palmos não é diferença venha ver seu trabalho como ficou excelente... E agora? Fás ou não diferença. Mais bêbado que uma porca, Zé Rosa fez uma emenda das mais horrorosas no caixão atrasando o sepultamento, por quase meio dia. Causando grande transtorno e comoção à família e a todos os presentes.


Geraldinho do Engenho - Bom Despacho/MG

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