quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O rio das pedras

Autora: Lenapena
 
Pela trilha de terra, Doroti, seguia. Trouxa de roupa na cabeça, três filhos a lhe agarrar o rabo da saia de chita surrada. Um bebê nos braços, e outro crescendo em suas entranhas. Por vezes mais parecia uma fábrica de fazer crianças, do que uma mulher.

Caminhava a passos cansados para o leito do rio de pedras. O sol alto e quente, lhe fazia escorrer gotas de suor pelo rosto macerado pela exaustão da labuta.

As margens do rio, pousou o filho pequenino, debaixo de uma frondosa árvore, aos outros três, recomendou cuidado, pois nenhum deles sabia nadar, e as águas eram profundas e perigosas.

Tirou a grande trouxa de roupa da cabeça e devagar desatou o nó. Saltaram do imenso volume, as gastas e simples roupas que a família possuía.

Começou a separar as peças, e com carinho passou a mão por entre os pontos de um lençol feito de alvo algodão. Ali, as inicias dela e de seu marido, foram carinhosamente bordadas por ela. Lembrou-se de um tempo, onde ainda havia espaço para os sonhos, de uma menina moça, que só conhecia da vida, o trabalho, a pobreza, e a dificuldade.

Sem mãe, desde os sete anos de idade, enfrentou a dura realidade da solidão. O pai, saia cedo para capinar a roça, e somente voltava com o sol se despedindo do dia. Cedo aprendeu a lavar, passar, cozinhar, limpar, e a ouvir as reclamações do pai, sempre calada.

Aos quatorze anos, casou-se com Eucrides, e nos poucos meses de namoro, sonhou que com ele a vida seria diferente.

Seus dedos correram devagar sobre o pano gasto e macio, e descansaram sobre as inicias ED. Lágrimas mornas correram de seus olhos doces e tristes. Eucrides, era tão grosseiro e mandão, quanto fora seu pai.

O filho que crescia em seu ventre, seria o quinto, e ela nem vinte primaveras completara.

Os folguedos das crianças, a trouxeram de volta a realidade. E seu olhar passeou pelos rostinhos sem cor de seus filhinhos, e o amor imenso que nutria por cada um deles, fez seu coração se incediar por um calor imenso. Não havia muita comida, para dar a eles. Seu leite os alimentava, e nunca chegara a secar, desde que o primeiro nascera até agora, pois antes que o leite secasse, ela, já estava grávida de outro.

Chegara a amamentar dois deles de cada vez, suprindo a falta de alimento na pobre choupana que moravam.

Enquanto passava a barra de sabão de cinzas feito em casa, em cada peça de roupa, deixava que as lágrimas corressem livres, parece que elas tinham pressa de libertar-se da tristeza que as aprisionava, e ansiavam misturarem-se as águas calmas do imenso rio.

Doroti, gostava de vir lavar as roupas, era a hora em que dava livre curso as lembranças e ao pranto.

Na dura tarefa de ensaboar e esfregar as roupas nas pedras do rio, curvada sobre si mesma, de joelhos, ela sentiu quando a nova vida em seu ventre, mexeu suavemente, como se lhe beijasse a parede do útero.

Com as mãos molhadas, afagou com carinho a barriga volumosa, e cantou com voz suave, linda cantiga de ninar, que um dia ouviu a mãe cantar para ela.

Ao final, repetiu baixinho: "fique tranquilo, eu vou cuidar de você com amor, nem que tenha que te dar a última gota do leite que verte de meus seios, e com ela a minha vida".


Autora: Lenapena - São Paulo/SP

Publicação autorizada pela autora

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Comentário sobre o livro: Gandavos - Contando outras histórias


Há caminhos que nascem e morrem na terra sem levar a parte alguma.
 
Há outros que nascem nos lugares mais inesperados e nos trazem muitas alegrias.
 
Esse livro, Gandavos contando outras histórias, ao qual já chamo de meu é o nome de uma estrada na qual eu ando muito bem acompanhada de gente talentosa.

Por variados motivos a pessoa começa a escrever. Há menos de três anos nunca me imaginei publicando um texto, muito menos acreditava que alguém ia prestar atenção nos meus escritos. Porém, de uma hora para outra, cismei de fazer uns rabisco e o resultado desta minha empreitada superou as mais audaciosas expectativas antes alimentadas por mim. Vou ver textos meus publicados num livro!

Acredito estar eu ganhando muito. Não apenas na divulgação do meu trabalho, mas no aprendizado, nessa jornada que empreendemos, neste compartilhamento entre autores e leitores. Só posso dizer ao Carlos Lopes e aos colegas, meu sincero muito obrigada!
 
Autora: Maria Mineira - São Roque de Minas/MG

Nosso livro


Título: Gandavos - Contando outras histórias

Autores: Carlos A.Lopes, Maria Mineira, Geraldinho do Engenho, Ana Soares, Celêdian Assis de Sousa, Augusto Sampaio Angelim, Carlos Costa, JCarneiro, Fernando José Carneiro de Souza, Rangel Alves da Costa, Jorge Farias Remígio, Maria Olimpia Alves de Melo, José Soares de Melo, Fábio Ribas, Ana Bailune, Sevy Oliveira, Marina Alves, Jussara Burgos e Jailson Vital.

Ilustrações: Edmar Sales

Formato: 14x21; capa 4 cores com brilho; papel amarelo
Número de páginas: 192

Venda: Com os autores

A editora deve entregar os livros até: 15/04/2013














Carlos A. Lopes
Blog: Gandavos

COMENTÁRIOS:

Companheiros, como já publiquei 13 livros, sendo dois científicos, sei o quanto é difícil, demorado e estressante esse trabalho. Meu livro científico O CAMINHO NÃO PERCORRIDO - A trajetória dos assistentes sociais masculinos em Manaus, citado em livros de graduação, pós-graduação e até objeto de uma tese de doutorado defendida na Espanha (AVES RARAS NA PROFISSÃO - O psicólogo e o assistente social no exercício profissional (Cléria Bueno, ainda inédita), estou recebendo de presente da Editora da UFAM a reedição desse minha obra, lançada em 1995 e esgotada em 1996, quando foi citada pela primeira vez no livro da professora e teórica de renome nacional, Marilda Iamamoto, merecendo também nota de rodapé no próprio livro.
Embora não esteja tendo esse trabalho diretamente porque minha condição de saúde não me permite, estou acompanhando meu trabalho em seguidas trocas de e-mails pela Editora.
Por isso, posso imaginar o quanto nosso companheiro Carlos Lopes possa estar extenuado por esse trabalho em nome de todos nós. Um abraço a todos.
Um abraço a todos
CARLOS COSTA
Manaus/AM

Carlos, pode até parecer coisa de criança.Mas estou contando nos dedos, os dias para folhear esse livro. Quando isso acontecer, vou me sentir uma escritora. Bom demais!

MARIA MINEIRA

São Roque de Minas/MG


Escrever um livro não é tarefa fácil, pois além da grande responsabilidade sobre o conteúdo que, primeiramente nos agrade e que simultaneamente agrade ao leitor, há uma gama de providências a serem tomadas até que o livro entre em fase de edição. Alie-se a isso, o fato de que é sempre um custo alto, quando se pretende oferecer um livro bem feito, de apresentação agradável e que dê prazer ao ser manuseado. Por estas razões e também pela própria dificuldade oferecida pelo mercado brasileiro, no campo da literatura, uma grande maioria de autores sentem-se desestimulados a publicar as suas obras.

Neste contexto, a possibilidade de participar de um projeto coletivo de edição, como as coletâneas, antologias, facilitam enormemente esta tarefa e propiciam oportunidades aos autores de realizarem o sonho de ver seus trabalhos publicados. Carlos Lopes em sua louvável iniciativa de reunir os autores do blog, além de alguns outros, em coletâneas, chamou para si a responsabilidade e todo o trabalho de tornar realidade o sonho de cada um que por um motivo ou outro, ainda não teve seu livro editado. O primeiro volume foi uma bela amostra do quanto esse trabalho foi frutífero. O segundo que em breve teremos em mãos, com a inserção de mais autores, textos inéditos, com o aprimoramento e experiência que vão se consolidando, promete uma boa surpresa, eu garanto.

Por fim, fica aqui expresso o meu agradecimento e que acredito é avalizado pelos outros autores, ao Carlos, pela sua extrema generosidade, abnegação e principalmente pela lisura com que vem nos tratando, sempre com muita transparência e honestidade. Obrigada, meu amigo, de coração.


Um grande abraço a todos os autores, que como eu, faz parte desta família chamada Gandavos.


CELÊDIAN ASSIS
Belo Horizonte/MG

Celêdian, ricas e oportunas são as suas palavras. Ao ler seu comentário, lembrei de dias atrás, quando eu, você e minha sobrinha Patrícia saiamos de um restaurante, aqui no Recife e levei uma queda dos diabos, rsrsrsrsr. Lembra o que lhe dizia naquele exato instante? Eu dizia da conveniência de se publicar livros de forma coletiva (e aí veio o tombo, rsrsrs). Você está corretíssima, são muitas as implicações. Só gostaria de acrescentar ao seu comentário algo. A minha participação na publicação dos livros não pode ser considerada como um trabalho a partir de mim para os outros autores. Na realidade, estamos todos juntos. O número de publicação só é possível porque cada um está fazendo a sua parte. Eu sou uma dessas partes. De um modo geral a maioria tem o sonho da publicação de um livro e por certo que eu também tenho essa pretensão. E quanto mais a gente conseguir manter essa união, haverão mais livros publicados e autores com sonhos realizados. Eu sou um deles. Como lhe disse naquela oportunidade: ¨tenho pouco talento e caminhar em grupo é a minha melhor opção¨. Portanto eu é que agradeço pela permissão dos os autores em participar do grupo. Obrigado a todos.

CARLOS A. LOPES
Olinda/PE



 


 

Dois contos de Vanice Ferreira


 
Pão quentinho e doce de banana

Dona Beth arrumou a mesa com a toalha de xadrez vermelho e branco, e colocou sobre ela as louças que tirou com cuidado da cristaleira.
O cheiro de pão recém-saído do forno combinava com o doce caseiro de banana, deixando a cozinha e a sala aconchegantes.

Então, olhou-se no espelho, arrumou os cabelos com as mãos e depois, sentou-se na cadeira de balanço... Enquanto observava a gata Fifi espreguiçar-se e afiar as unhas no tapete azul da sala, escutou a campainha tocar...


Rodas do tempo

A roda d’água, lembrança do antigo moinho, apoia-se em uma carroça que também não é mais usada...

O encontro das rodas de madeira deixa a paisagem da casa de campo mais bonita! Lembra um retrato do passado, um quadro... Os desenhos impressos nas rodas desgastadas acrescentam mistérios, como se elas fossem testemunhas caladas dos ciclos de vidas marcadas pela passagem do tempo...

http://t2.wbid.com.br/post.php?id=75835



Autora: Vanice Ferreira - Curitiba/PR



 

"Aingohegei" e "Dedilhar": um encontro entre dois mundos - Dias Índios (XXVI)

Autor: Professor Wanderley Dantas
Primeira semana de aula entre o meu povo. "Vem cá. Senta aqui", disse, indicando com o dedo o novo lugar para Taliko sentar. Contudo, quando acabei de dizer essas palavras, insistindo que ele saísse lá de trás e viesse sentar mais próximo de mim, todos riram. Eu dizia o nome "Taliko" e apontava para o seu novo lugar na sala de aula. Fazia gestos com a mão, chamando-o para frente e indicando ao lado de quem ele deveria se sentar agora. Mas eles continuavam rindo. "Vem, Taliko, senta aqui ao lado da Kami", eu insistia, batendo com a palma da mão aberta sobre o banco vazio ao lado da Kami.
 
Comecei a perceber que alguma coisa constrangedora estava acontecendo. Taliko passava a mão pela cabeça várias vezes e começou a tentar me dizer que não, não viria. Toda essa situação deve ter durado uns vinte segundos apenas, mas para mim já se estendia numa eternidade de risos nervosos.
 
-Professor - finalmente socorria-me o Professor indígena que entrava para me ajudar nesses momentos, mas que até ali não se manisfestara porque também estava rindo deste caraíba engraçado - Professor, o Taliko não pode sentar aí. A Kami é esposa dele...
 
-Ah... Ele não pode sentar ao lado da esposa!?
 
-Não. Disse-me o Professor indígena. Bem, diante desse fato cultural, lá se ia minha ideia de fazer um "trabalho em grupo". Vi que não poderia simplesmente reunir os alunos uns com os outros, porque eles não sentariam perto de suas esposas por exemplo.
 
Mas havia outras questões que fui descobrindo por causa da Escola. Uma delas é que ao tentar fazer um exercício oral de "esquerda, direita, atrás, na frente", surgiu novo momento de risadas. Perguntei a um deles quem estava sentado à frente:
 
-Professor, é esse aqui. Respondeu-me, apontando para o colega da frente.
 
-Sim, mas qual o nome dele?
 
-Professor, não posso dizer. Ele é meu cunhado.
 
-Ah...!
 
Assim, a Escola sempre foi um momento mágico de aprendizado e creio que essas "gafes culturais" nos aproximaram muito uns dos outros. Aprendi a rir também com eles desse riso transcultural gostoso por causa do estranhamento com o outro. O outro é outro mundo. Um mundo rico, bonito e cheio das suas coisinhas que precisam ser descobertas para que se possa alcançar uma comunicação efetiva. Como não foi imensa minha alegria quando, ao terminar a aula um pouco mais cedo, vi que eles não saíam da escola. Disse a palavrinha de todos os dias na língua deles para o encerramento, mas meus alunos fecharam seus cadernos e ficaram ali, perto de mim e já bem mais à vontade: eles não queriam sair. Um dos alunos, Kainterri, aproximou-se e disse uma palavra que eu havia ensinado naquele dia em português: "dedilhar". E enquanto ele repetia aquela palavra, fazia o gesto de "dedilhar" os dedos sobre a minha mesa. Ele havia gostado daquela palavra. "Dedilhar". Naquele momento, descobri que realmente era uma palavra muito gostosa de se dizer e fiquei encantado com o encantamento dele com uma palavra nova do português. Aí, olhando bem nos olhos dele, disse sorrindo: "aingohegei". Também repeti várias vezes para ele a palavra "aingohegei", que era a segunda palavra que eu havia aprendido na língua (a primeira foi "saudade"). E eu e ele ficamos assim por um tempo, um dizendo ao outro essas palavras novas e significativas para nós: "dedilhar" e "aingohegei". Percebi que de maneira muito delicada estávamos fazendo um encontro entre dois mundos que desejavam muito aprender um com o outro.
 
Os outros alunos começaram também a dizer palavras na língua deles e apontavam para os objetos aos quais aquelas palavras se referiam. Naquela tarde, minha primeira semana de aula na aldeia, ficamos ali, eu e meus professores, que riam de mim esse riso gostoso que aprendi tanto a amar: o riso da graça de um caraíba tentando acertar o passo com a língua deles. Por um momento, enquanto me ensinavam as cores do mundo deles, recostei na cadeira e fechei os olhos pelos segundos suficientes para dizer em oração a Deus: "Aingohegei", que quer dizer "muito obrigado".

Autor: Professor Wanderley Dantas

http://o-seringueiro.blogspot.com.br/

Publicação autorizada pelo autor

 

Coisas da Alma - Autora: Ana Soares



Eu, quando escrevo, me entrego de alma e bandeja...

Quando escrevo não me engano, sei bem quem sou!

Não me escondo, não me traio. Me reconheço!

A escrita me permite conhecer lugares que nunca fui e a ver pessoas que não conheço, mas eu as desvendo com tanta clareza em meio esta loucura, que se tornaram amigos de alma.

Eu posso descrevê-los.

Eu os interpreto em cada texto, em cada frase, em cada vírgula, em cada ponto de exclamação!

Coisas de quem escreve;

Coisas de quem sente;

Coisas de irmandade;

Coisas de Ana, Carlos, Maria, Geraldinho, Celêdian, Augusto, Angelim, Jcarneiro, Fernando, Rangel, Jorge, José, Fábio, Sevy, Marina, Jussara, Jailson e tantos outros...

Coisas da alma!
 
Ana Soares - Ribeirão Pires/SP