segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Elixir da felicidade

Autora: Sonia Biasus

Feche os olhos por alguns segundos
Inspire profundamente
E se demore por alguns momentos.
Solte o ar lentamente e inspire outra vez
E perceba o aroma que exala
Levemente adocicado.
Sinta o cheiro de felicidade
Que flutua pelo ar.
Perceba-se como ser único.
Embriague-se pela alegria
Que emana de seu ser.
Como uma pluma, eleve seu espírito
E transcenda-se!
Descubra dentro de ser coração
Que a felicidade esta ali mesmo
Você só precisa senti-la
Você só precisa descobri-la.
Vasculhe cada espaço.
Não desanime!
Você já está muito próximo a ela
AAAh...veja!...sim, veja!
Ali está ela!
Percebeu?
OOOh...como é linda!
Traga-a   à tona...
Com cuidado, pois ainda é muito frágil
Precisa de todo seu cuidado.
Alimente-a seguidamente
Para que se torne forte e resistente.
Não a abandone em nenhuma circunstância.
Eis o elixir da felicidade
Somente você saberá usá-lo corretamente
E só depende de você cultivá-la eternamente
Mas cuide muito bem dela
E quando ela estiver bem forte, sadia, nutrida,
Grite ao mundo
Com todas as forças de seu coração
EU SOU FELIZ!
Ai, então, todos saberão
Que você descobriu
A verdadeira FELICIDADE!


Autora: Sonia Biasus

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domingo, 22 de dezembro de 2013

O homem sem língua e um cachorro sem nome

Autor: Geraldinho do Engenho

Miriam conseguiu seu primeiro emprego, trabalhando no caixa de um supermercado. Foi a realização do sonho alimentado desde criança, quando ela se encantou com a gentileza da funcionária que lhe atendia numa lanchonete. Isso aconteceu no dia em que, acompanhada pela mãe, elas pagavam ali, seus salgadinhos e guloseimas com aquele sabor de infância.
Tão doces como aqueles caramelos, esta lembrança aprimorava cada vez mais sua capacidade no relacionamento com a clientela. Causando admiração e cativando patrões e colegas de trabalho com a sua doçura.
Dentre aquela legião de pessoas que todos os dias passavam pelo seu caixa, estava aquele senhor já idoso e simpático, com a aparência de militar aposentado.
A cada dois dias, lá estava ele de sextinha na mão, com seu agradável semblante, sem dizer uma única palavra. Pagava com seu cartão de crédito os enlatados, lanches, e o pacote de ração para seu cão, que educadamente o aguardava na rua. Em frente ao caixa, de onde Miriam tinha uma perfeita visão ao longo da movimentada avenida. Por ela,  seguia o cliente, acompanhado por seu melhor amigo. Talvez esse senhor fosse o mais fiel cliente daquele estabelecimento comercial desde sua abertura. Seu trajeto era periciado pelo olhar de Miriam até desaparecer no final da avenida, no meio dos inúmeros transeuntes.
Embora sem saber a cor das palavras daquele simpático senhor, ela sentia que algo a deixava confortável em sua presença.  Tomada por uma grande afeição, o tratava com todo carinho. Não sabia por que, mas alguma coisa naquele homem a atraia. Seria aquele olhar de ternura que a encantava tanto?
 Às vezes, chegava a invejar seu animal que o aguardava paciente evitando não perturbar nem mesmo aqueles que por ali transitavam. Como se fosse também um ser humano, parecia reconhecer seu lugar e jamais adentrava o estabelecimento.
Afastada do trabalho, gozando férias, levou consigo a imagem daquele cliente. E, onde quer que ela estivesse, não conseguia tirá-lo do pensamento. Seu carisma...seu olhar terno... Comentou com a mãe a respeito daquela estranha atração. Passou a ela as características do homem, mas a mãe desconversou. Ela insistiu no assunto, mas foi repreendida. A mãe lhe dizia ser impossível ela com aquela idade se apaixonar por um velho que além de tudo deveria ser mudo.
A moça justificou dizendo que aquele sentimento era na verdade um estranho sentimento de respeito, não de um amor sensual.
Ao retomar sua função no trabalho, aguardou com ansiedade a presença do seu ídolo, mas ele não apareceu. Perguntou ao colega, que a havia substituído, todavia  ele disse que poucas vezes o atendeu. Com certeza, deveria ter sido atendido por outro funcionário.  Alguns dias se passaram e do cliente nem sinal. Já decorrida uma semana, Miriam notou a presença do cachorro à frente da loja, no lugar do costume. Imaginou ter o cliente entrado sem que ela percebesse, por isso  aguardou sua passagem pelo caixa, Mas tal  não ocorreu até o momento de encerrar o expediente. No dia seguinte, o cão apareceu novamente. A mesma rotina. No terceiro dia ao encerrar a atividade, o cão estava lá no lugar de sempre e acompanhava com o olhar sua movimentação.  Ela comentou com seu colega de trabalho a respeito do procedimento do cachorro, dizendo-se preocupada.
Convidada pelo colega, que se dispôs a acompanhá-la, os dois o seguiram. Ao perceber que conversavam sobre o assunto, o cachorro se manifestou festejando, dando sinal de que entendera a mensagem. O cão os levou a um bairro nobre. Num luxuoso condomínio, encontraram o pobre homem acamado e febril. Acionaram, de imediato, uma viatura que o conduziu ao hospital onde ele já chegou sem vida.
Na autópsia constatou-se morte por falência múltipla de um indivíduo, cuja língua fora mutilada talvez por um inexplicável acidente com um produto químico.
Foram examinar seus documentos. Constataram ser ele um ex-pracinha de guerra. Ele deixava, em testamento, todos os seus bens para sua desconhecida filha cuja mãe o havia abandonado ao tomar conhecimento de sua deficiência pós-guerra e jamais dera noticia da filha, que nascera após sua partida. Sabia apenas, por uma velha carta amarelada pelo tempo, recebida no campo de batalha, que a filha havia nascido e recebera na pia batismal o nome de Miriam.
Junto, uma carta escrita de seu próprio punho, solicitando às autoridades procurar pela filha entregando-lhe seus bens e recomendando-lhe a guarda de seu cachorro sem nome.


Geraldinho do Engenho - Bom Despacho/MG


Publicação autorizada pelo autor

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Ticia e seus bolos de bacia

Autor: Carlos A Lopes

Ticia, irmã do meu bisavô, nasceu em 1890, no Sítio Cajazeiras, terras hoje pertencentes ao município de Tabira.  Quando a conheci seu rosto já estava sulcado pelo tempo, como os leitos dos rios extintos da região e a pele ressecada, feito a terra, que se desfaz em areias levadas pelo vento.
 Essa mulher soube como ninguém o significado da palavra solidão. Seu Olhar profundo e vazio remetia a um passado distante, uma infância de muitas obrigações e uma vida adulta reclusa, morando num canto de cerca e de um caminho sinuoso e suficiente apenas para uma única pessoa.
Ticia morava numa casa de taipa, simples, porém de muito esmero. Trajava sempre vestimentas negras, encobrindo-lhe o corpo dos pés até a cabeça.  Não me lembro de ter ido sozinho até lá, algum primo sempre ia junto.   Não sei dizer se tinha medo da vereda embrenhada nos matos, quando sol a pino caçoava de nossas cabeças, ou da imagem que surgia lenta e pacientemente e ao mesmo tempo desaparecia por entre galhos retorcidos, vacas magras e ossudas, morros brancos de poeira.
Ticia não era mulher de frequentar casa alheia, porém, em casos de doenças ou morte, fazia-se presente.  No sofrimento e na dureza da vida, aprendera a repartir o pouco que tinha. De maneira singular agradava aos visitantes mais chegados oferecendo umbus graúdos e saborosos. Às pessoas com as quais não tinha tanta afinidade oferecia umbus de qualidade e robustez inferior. Esta era Ticia! Tinha mania de guardar tudo em tigelas de cabaças, ali separava os frutos dos dois pés de umbus que encobriam o telhado da sua casa.
Aquelas duas árvores eram algo sagrado para Ticia. Para se atrever ao desfrute, só alguém bem aceitos ou da família. Zé Andrade foi um especialista na tentativa de burlar este protocolo e quando percebido:
— Quem está aí?
— É Vicente, Ticia!
 Este sim, na condição de filho da sobrinha podia tomar chegada.
Extremamente calada e retraída, o máximo que conseguiu de um amor foi a união arranjada quando já estava mais velha e isso a marcou profundamente. Luiz foi o bálsamo para afugentar a solidão, um companheiro que estaria ao seu lado brigando com a terra na luta pelo sustento. Dizia sempre:
— Lis me quer bem.
Seu Luizinho sabia de cor e salteado o significado da palavra paciência. Meus tios arremedavam o pobre coitado tangendo sua vaquinha:
— Ôôô dá dá... Ôôô dá dá...
 Fato que deixava Ticia muito aperreada se queixando junto ao sobrinho:
— Eu não vou contar a compadre, senão vai bater nos bichinhos...
 Outras vezes, os garotos de longe gritavam:
— Seu Luizinho valente, partiu o cagalhão com os dentes...
Além dos umbus, o que acendia o brilho nos olhos de Dão e Tica, eram os reconhecidos bolos de bacia feitos na frigideira. Ticia dava-lhes um tratamento quase ritual no fabrico, em exato número de dez. A dupla aparecia no cercadinho pedindo-lhe a benção e especulando sobre como caminhava o preparo dos bolos. Do mato espreitavam o fundo da casa da tia. Quando sentiam que estava no último dos dez, um deles se dirigia à porta. De lá de dentro só uma voz se escutava:
— Espere aí que eu já vou.
Este entrosava uma conversa sem propósito e logo a pobre velha dizia:
— Eu vou embora que tem um bolo no fogo.
À esta altura o roubo já tinha sido praticado nos fundos da casa. Os bolos seriam devorados entre as plantações.
— Fome a gente não tinha. Disse Dão.
 Jogavam pelos plantios afora após algumas mordidas. Da boca da pobre Ticia só saia uma frase:
— Ora, ora... Vou dizer a José. Não dizia!
Sabedor que a esposa apreciava um aperitivo, Seu Luizinho jamais deixou de trazer da feira uma garrafa de vinho, cerimonial que meu avô continuou a fazê-lo, quando ela ficou na condição de viúva. A morte prematura de Seu Luizinho significou a volta da solidão daquela mulher conformada com o seu destino.
À medida que a idade avançava, familiares absorveram atividades diárias dela. Mãe Neves lhe servia o café da manhã e o almoço; Maria José (Dó) tinha a obrigação de servir o leite da tarde e o jantar. A higiene pessoal e da casa coube a sobrinha Izabel, filha de Zé Loureto, cunhado de Ticia.
Todas as manhãs, Pai Lopes ia levar o café e cuidar da ferida no seu rosto. No desespero de não ver resultados, somado a ausência de medicina, aplicava no rosto de Ticia remédios destinados a animais, enquanto o câncer continuava devorando a sua face esquerda.
Numa tarde, sem maiores explicações, de súbito minha avó, Mãe Neves, teve vontade de ir até a casa de Ticia levar um café. Nem ela mesma entendeu como aquilo aconteceu: Foi de repente. Sua filha ainda tentou retê-la.
           — Deixe ir, me deu vontade.
Ao chegar ao cercadinho sentiu cheiro de pano queimado.
— É bosta de gado que está voando. Pensou.
Ela normalmente queimava fezes de animal para defumar o ambiente contra insetos. Das telhas via a fumaça saindo, mas só percebeu o mundo se acabando, quando entrou na casa. Ela estava imóvel em cima da cama já arriada pelo fogo. De súbito, disse:
— Mulher, o que é isto?
O fogo se apossara do leito e das cobertas. Ticia estava toda queimada e não respondia aos apelos.  Minha avó naquele tempo ainda tinha forças nos braços, a retirou dali, colocando-a no chão. Foi retirando suas roupas em chamas a tal ponto que queimou o seu vestido. Depois de recomposta, buscou José Lopes, sobrinho de Ticia, que estava no engenho. Ele veio com os trabalhadores e cuidaram do resto.
Os danos do incêndio causaram queimaduras desagradáveis em mais da metade do corpo de Ticia. Quem a visitava logo sentia o cheiro de carne assada. Pouco ou quase nada, os familiares podiam fazer. Em sã consciência ela não permitia sequer que alguém tocasse em seu corpo. E daquele dia em diante passou as noites gemendo de dores.
Dias antes de morrer e sem lucidez, dizia a quem chegasse:
— Aqui chegou uma doida, rasgou minha roupa e me botou no chão.
 Por vontade da família seus pertences ficaram com Izabel, que mesmo diante de tantas resistências da tia, a manteve bem asseada até a sua morte. 
Morreu Ticia ou Cecília Lopes. O câncer lhe roubaria a vida em breve, mas o fogo antecipou o prazo. Era a hora de prestar contas com quem sempre respeitou: Deus!

Autor: Carlos A Lopes - Olinda - PE

sábado, 7 de dezembro de 2013

O enxoval

Autora: Lenapena


Carolina era jovem criada para casar. 

Era filha única. Nasceu de um parto que durou dois dias, e quase levou sua mãe para o cemitério.

Dona Genoveva, criou a filha nos moldes das antigas famílias, lá naquele belo rincão distante de tudo.

Aos 19 anos, Carolina sabia costurar, cozinhar, lavar, mas a tarefa em que mais se destacava era no bordado, com seus dedos longos e finos, trabalhava com agilidade e delicadeza os tecidos de linho e algodão. Com esmero, costurou e bordou seu lindo enxoval.

Lençois alvos, jogos de banho e mesa, tudo recebeu o capricho da jovem, que só esperava pelo grande dia, em que veria sua vida unida para sempre, ao moço Jiustino.

O jovem era filho de um fazendeiro muito amigo de seu pai, que viu com bons olhos o namoro dos dois.

O enlace estava marcado, para o final do mês de maio. E logo no início do mês, os preparativos na fazenda de seu Euzébio, pai da noiva, já começavam a acontecer.

Dona Aurora, uma habilidosa costureira, da região, vinha uma vez por semana provar o lindo vestido de renda francesa. Tecido comprado do Seu Ribas, um vendedor ambulante, que servia a família do fazendeiro há muitos anos. A última prova fora feita, e a noiva estava linda, em seu traje rendado e longo véu de tule.

Iracema, antiga cozinheira da família, encarregou-se de arrumar mais três ajudantes, e na semana do casorio, a imensa cozinha da fazenda, estava movimentada, pelo preparo dos  quitudes e doces para o esperado acontecimento.

A casa da fazenda, respirava em clima de festa, afinal a única filha de seu Euzébio ia se casar.

Chovia e fazia frio, na noite da véspera das bodas, quando Jiustino, teve que ir atrás de dois bezerros que escaparam do curral. Junto ao capataz da fazenda o jovem embrenhou-se pelo matagal, na tentativa de encontrar os animais.

Foi de repente que o réptil asqueroso cruzou o caminho dos dois homens. Sem enxergar, na escuridão da noite, Jiustino, só percebeu quando já era tarde demais.

Desesperado, o capataz, colocou o patrão sobre seus ombros, e voltou com ele, para a casa da fazenda.

Ao chegar, o rapaz, já estava inconsciente, o médico amigo foi chamado, mas, pouco pode fazer. Antes do dia amanhecer o rapaz dava seus últimos suspiros.

Carolina, quando soube da tragédia, recolheu-se em silêncio, e numa tristeza sem fim.

Os dias passavam sem que ela notasse. A única coisa que tirava a jovem do seu leito, era o enxoval que ela guardava em um imenso baú aos pés de sua cama.

No começo dona Genoveva, consternada pela dor da filha, permitiu, aquele triste ritual. Olhava a cena que se repetia dia após dia, sem nada poder fazer.

Carolina passava horas e horas, olhando, afagando e arrumando seu precioso enxoval.

Com o passar dos meses, porém, os bondosos pais, começaram a se preocupar com aquele estranho ritual.

E resolveram conversar seriamente com a filha. Argumentaram, que continuar com aquela atitude não traria o noivo de volta para ela, e que pelo contrário, poderia até perturbar a alma dele.

Carolina, sempre silenciosa, desde a morte do noivo, nessa hora se manifestou, e disse:  - Não, ele gosta de me ver arrumando nosso enxoval, e me conta que logo virá me buscar, e vamos poder levar todo nosso enxoval. Por isso, peço que me enterrem com meu vestido de noiva. Assim, estarei pronta para seguir com Jiustino.

Dona Genoveva, se benzeu seguidas vezes, como que para afastar o mau agouro. Seu Euzébio se arrepio de medo, ao ouvir a filha falar em morte.

Os dias passaram, e era comum durante a madrugada, os pais ouvirem a filha conversando sozinha em seu quarto, das vezes que foram até lá, a encontraram debruçada sobre o baú, alisando o vestido de noiva e o enxoval.

Nessas ocasiões pediam para que ela fosse dormir, e deixasse aquelas tolices. Mas, Carolina, sempre repetia a mesma coisa: - Estou mostrando o enxoval para o Jiustino, ele está me contando que a hora de minha partida está chegando.

Preocupados, os amorosos pais, resolveram chamar o respeitado João Tonico, um velho descentende de escravos, que vivia na fazenda, pela bondade do seu Euzébio.

João Tonico, era muito respeitado pelos seus dons e contato com o sobrenatural, e assim que entrou no quarto da jovem, começou a conversar, com o espírito de Jiustino.

Ao sair dali, chamou os pais da moça e falou: - O estado da menina Carolina é muito perigoso, é um caso de fascinação. Ela está ligada ao noivo, e ele não sai do lado dela. Pedi muito pra ele deixar a noiva em paz. Ela, ainda tem muito que viver. Mas, ele afirma convicto que dentro de pouco tempo a levará com ele. Sinto, mais nada posso fazer, pois vossa filha está em plena sintonia com o espírito do morto, não há como quebrar essa subjugação a que de bom grado, ela se submeteu. Eu não tenho poder para tanto. Só me resta rezar muito aos meus guias e pedir proteção para a estimada menina Carolina.

Os pobres pais, se apavoraram, sem saber mais o que fazer, para tirar a filha daquele estado perigoso. Pensavam: se nem João Tonico conseguiu livrá-la, quem poderá?

Dúzias de velas foram acesas, missas foram encomendadas, dezenas de terços foram rezados, banhos de sal grosso foram dados na jovem, na tentativa de libertar a alma de Jiustino e livrar Carolina dessa fascinação.

Certa manhã, Dona Genoveva, despertou, e percebeu que naquela noite não ouviu vozes, e nem teve que se levantar para pedir a filha que parasse de conversar sozinha.

Esperançosa, foi até o quarto de Carolina, abriu devagar a porta, com medo de acordá-la.

Se assustou ao vê-la vestida de noiva, deitada sobre as cobertas do leito. Ao chegar mais perto, solta um grito de dor. Sua menina está morta, e tem nos lábios um doce sorriso.

O mais estranho foi o que ocorreu, quando após o enterro, dona Genoveva, mandou a empregada abrir o baú e queimar o maldito enxoval que estava guardado dentro dele.

Espantada a fiel serviçal, correu para contar a triste mãe, que o baú estava vazio, nele não havia sequer uma peça do belo enxoval.

Sem acreditar, Dona Genoveva vai ver com seus próprios olhos, e ao constatar que é verdade, solta um grito e desmaia.
Nunca, ninguém, na fazenda achou uma peça do enxoval bordado com tanto carinho por Carolina.

Porém, muitos foram os trabalhadores da fazenda, que juraram ter visto o jovem casal em noite enluarada, caminhando de mãos dadas pelos caminhos do lugar. Carolina sempre era vista com seu lindo vestido de noiva rendado.


Autora: Lenapena - São Paulo/SP 
Publicação autorizada pela autora

Um homem de guerras

Autor: Michele Calliari Marchese


Em honra à Mário Bittencourt

Não se lembrava de quando tinha envelhecido. Espantou-se ao escutar a esposa dizendo que fazer noventa e dois anos era muito difícil. Ficava pensando se ela falava dele ou de outra pessoa, e bastava alguém passar a mão em suas costas num sinal de consolo que sabia perfeitamente que era ele o senil. Não recordava de comemorações de aniversário e tampouco dessa última, a dos noventa e dois. Quando foi isso?
Precisava pensar. Pegou um papel envolto em plástico e passou os dedos para tirar a água da chuva que molhava as diretrizes que o comandante havia lhe passado. Como estava difícil de enxergar, esperou um clarão de um bombardeio qualquer para ler e firmou as vistas e ajeitou o capacete para proteger-se daqueles pingos infernais. Tinha urgência em saber qual era o passo a seguir. A tropa aguardava o comando e as respirações tiravam a sua concentração.
Ouviu a esposa pedindo-lhe se estava com frio, e mesmo sem resposta ela envolveu-o numa manta tricotada e perfumada. Sentiu o cheiro dela e também da pólvora. Tinha que agir.
Ele comandava aquela peça de artilharia naquele exíguo pedaço de chão e usavam os mortos para se protegerem. Agradeceu com uma olhada para o alto, pois a chuva levava o cheiro do sangue de seus companheiros e de tantos outros que sequer conhecia por nome. Obedeciam-lhe, era certo.
Sentiu o aperto de mão da mulher que falava com amor e sentiu o calor do lar a confortar seu peito. Retribuiu o aperto de mão com um aceno de cabeça, poderia ser a última vez que veria o seu imediato. “Vão! Vão!” Corriam assustados, confiantes na ordem recebida e pensou quantos daqueles achavam que voltariam para casa, e sentiu uma fome dos diabos.
Comeu com avidez a papa de bolacha com leite que a esposa carinhosamente lhe dava. A cada colher metida em sua boca, vinha-lhe um beijo de amor. Aquele amor que ele deixou para trás quando foi convocado para a guerra. Nunca se arrependeu de ter levado a foto da namorada, pois era aquele olhar de mulher apaixonada que o fazia viver no meio de tanta dor.
Engatilhou o fuzil em alerta, molhado. “As crianças não”, pelo amor de Deus. Tudo podia ver, mas não matar inocentes. Repetiu a ordem em voz alta, se perguntando se ele mesmo não o tinha feito num momento de loucura. Antes enlouquecer do que cometer um ato que nunca iria esquecer.
Foi quando colocaram uma bolinha de plástico em sua mão que saíra daquele sonho longínquo do passado miserável que tivera. Ensaiou um sorriso para aquela que esperara o retorno dele para poderem se casar. Amava-a mais que nunca e pensou que estavam aguardando ele jogar a granada naquela trincheira inimiga e então tirou a argola e a bolinha rolou perto de seus pés.
“Você sempre joga a bola para que eu pegue”, lhe disse a velha esposa. E ele escutou o barulho da explosão, os gritos que nunca mais saíram de sua cabeça e o cheiro de muitas mortes e da terra molhada. Aquilo era o inferno. Avançaram até a trincheira explodida, verificaram as baixas, mataram aqueles feridos e num frenesi de loucos informaram o comando que a operação tinha sido bem sucedida.
Deveria montar guarda naquela noite, mas a mulher lhe disse num sussurro de arrepiar que era hora de dormir, ao lado dela e bem juntinhos como faziam desde sempre e foi acordado de supetão pelo imediato que lhe disse necessitar de ajuda, pois que havia inimigos rondando por ali. Tinha-os visto num virar de olhos passando por baixo de algumas árvores mais adiante. Engatilhou o fuzil, ficou olhando para aquele lugar e foi só depois que o dia clareou que viu a esposa lhe trazendo um copo com água e a dizer o “bom dia” mais quente de sua existência.
Precisava urinar. Era uma urgência febril, vivia molhado e com frio, decerto pegou alguma coisa que lhe fazia doer a bexiga e os testículos e no meio de tanta dor escutou a voz da filha a lhe gritar da cozinha que tinha chegado para ajudar. Tinha orgulho dos filhos, eram a extensão dele e de sua esposa. Pensou que sabia exatamente como ela seria no dia em que nasceu. “As crianças não, porra”. Gritou novamente para um soldado que estava totalmente ensandecido com tanta catástrofe ao seu redor e atirava para todos os lados, e que por fim, não aguentou tamanha dor e deu o tiro derradeiro em seu rosto manchado pelas lágrimas da exaustão.
Cavou o buraco para enterrar o corpo ali mesmo no meio de tanta fumaça chuva e grito e tinha as mãos cheias de terra e lágrimas e encontrou a bolinha de plástico que alguém colocou ali. Tirou a lama das mãos e com a ponta da faca tirou a lama das unhas. Estava cansado. Tinha noventa e dois anos.
Tirou a argola da granada e jogou a bolinha a seus pés.


*-Mário Bittencourt era meu tio. Faleceu no dia 04/07/2013 aos 92 anos de idade. Lutou na IIª Grande Guerra Mundial e foi o último expedicionário vivo de Santa Catarina. Esse conto aconteceu quando fui visita-lo alguns dias antes do seu falecimento para despedir-me com palavras e lágrimas. Quase pouco percebia o que acontecia a sua volta, pois estava o tempo inteiro vivendo (de novo) o passado tão doloroso.


Michele Calliari Marchese é catarinense de Xanxerê. Formada em ciências contábeis, é contista semanal do Jornal Diário Folha Regional de Xanxerê - SC, mantém uma escrivaninha no site Recanto das Letras e no blog Sem Vergonha de Contar. Participou com contos nos livros UFOs - Contos não identificados e Espectra, ambos pela Editora Literata de SP,  do Livro dos Prazeres editado pelo SESC de Santa Catarina e no E-book Quinze Contos Mais pela editora Helena Frenzel.

O herói que não retorna - Autor: João Batista de Lima

Gerôncio era o coveiro de Tabocal. Rezava todo dia para que alguém morresse. Mas, quando muito, havia um sepultamento por ano. Era às vezes um velhinho que morria de velho ou um anjinho que morria de fome. Preferível ser um velho, daqueles com dente de ouro ou aliança de casamento esquecida pela família na inutilidade da mão esquerda.
Para evitar de desenterrar defunto pobre, Gerôncio conhecia de cor e salteado os portadores de dente de ouro da região. Aí era só ir, no dia do enterro, alta noite, com a lanterna, o martelo e a pá, retirar a terra frouxa da cova e desenterrar o morto. Depois, era só quebrar o dente com o martelo e levar o ouro para casa. Ele não esquece a morte do Pai do coronel Nicodemos. Foram cinco dentes de ouro dezoito. Finalmente comprou seu casebre onde mora até hoje, lá na ponta da rua.
Mas aí morreu a filha do fazendeiro Antônio Moreno. A menina tomava banho na beira do rio às oito da manhã quando caiu durinha. Não tornou mais. Trouxeram o corpo para casa e velaram até às cinco da tarde, quando se procedeu o enterro com todos os rituais cristãos. O repinique o dia inteiro, no sino da capela, parecia anunciar enterro de anjo rico. As flores eram muitas. No campo santo foi aberto o caixão para que o irmão mais velho, chegado de longe na última hora, visse o corpo da irmã. Estava linda, com todos seus anéis nos dedos e colares no pescoço.
Gerôncio não esperou pela meia-noite, veio logo às sete e escavou a sepultura da menina. Mal abriu a tampa do caixão, a finada mexeu-se e foi logo limpando a terra dos olhos. O coveiro, assombrado, embrenhou-se na mata em disparada e nunca mais foi visto por ali. Quanto à moça, que voltou para casa assombrando a cidadezinha, foi dada como doente de catalepsia, escapada por milagre. Hoje está lá contando a história para quem quiser ouvir e ainda guarda a fazenda Gitirana para dar de presente ao salvador de sua vida. Só que o delegado tem uma cela pronta pra quando Gerôncio voltar.
 Autor: João Batista de Lima - Fortaleza/CE
 Publicação autorizada através de e-mail de 28/06/2012