sábado, 31 de maio de 2014

Texto: 30 (do concurso) - As aventuras de ¨A Fábrica¨

Quando eu era pequena, tínhamos muitos cães em casa, e não consigo lembrar-me de alguma fase de minha vida em que eles não estivessem presentes - a não ser, assim que eu me casei, pois moramos em apartamento por sete anos. Mesmo assim, tinham os cães de minha irmã, com quem eu brincava quando a visitava.
Houve um tempo em que uma das cadelas era apelidada de "A Fábrica", que era o título de uma novela que passava na falecida Rede Tupi (pronto! acabo de revelar a minha idade!). Bem, demos este nome a ela porque A Fábrica sempre tinha muitos filhotes de uma só vez, que nós doávamos para os vizinhos.
Ela era uma enome vira-latas preta, e tinha uma peculiaridade, ou seja, duas: a primeira, é que ela sabia sorrir. Logo que nos via, arreganhava os dentes, abanando a cauda. Era só a gente pedir: "Fábrica! Ri!" E lá vinha ela, dentes de fora, toda faceira.
A segunda peculiaridade (acreditem ou não) é que ela... voava! Não, não é lorota, não! Ela voava mesmo, por cima da plantação de bananeiras e depois, ainda passava pelos galhos mais altos de um bambuzal, que lhe amparavam a queda. Bastava que ela visse uma galinha. Era campeã de Caça às Galinhas da Dona Teresa!
Também... a Dona Teresa era uma folgada, que mesmo sabendo que todos os vizinhos tinham cachorros em casa, deixava suas galinhas soltas pelo terreiro, e elas sempre acabavam indo parar no meio da rua ou no terreno de outros vizinhos. Era sempre a mesma história: a Fábrica escutava um cacarejar no morrinho (lugar onde brincávamos quando crianças, logo acima de nossa casa e da plantação de bananeiras e bambus de meu pai) e corria atrás. Não tínhamos como segurá-la, pois ela parecia totalmente possuída por alguma força atávica incontrolável.
A galinha, na tentativa de salvar-se, voava desajeitadamente por sobre as bananeiras, e A Fábrica, que jamais desistia, voava atrás dela, lá de cima do morrinho.
Daí, escutávamos um agoniado "Cóóóó..." e lá vinha A Fábrica, com a pobre coitada na boca.
Na manhã seguinte, lá vinha a Dona Teresa perguntar: "Ruth (minha mãe), não viu uma galinha carijó por aí não?" E minha mãe, com ar distraído: "Não... por que, sumiu?"
Mas acho que a Dona Teresa acabou descobrindo sobre o paradeiro de suas galinhas, pois um dia, A Fábrica amanheceu morta: envenenada...

Texto: 35 (do concurso) - Eu e os bichos

Tenho uma empatia muito grande com  quase todo tipo de bicho . 
Nesta época do ano, alguns pássaros vem fazer seus ninhos nas árvores do meu jardim. São rolinhas, sabiás, cambaxirras. Quando eu os vejo entrando e saindo das casinhas de passarinho, ou carregando galhinhos secos e restinhos de algodão de paineira nos bicos, eu já sei: vai começar tudo de novo!
Estas sabiás da foto foram minhas hóspedes há algum tempo. Assisti quando seus pais começaram a construir o ninho, e até achei estranho, já que o fizeram em um local realmente baixo, tão baixo, que pude fotografar o ninhovárias vezes sem precisar sequer esticar o pescoço. Eu ajudava a tomar conta delas, quando os pais estavam fora, pois às vezes, elas caíam do ninho. Acompanhei todos os seus estágios, desde quando eram apenas ovinhos, e ao nascer, coisinhas cor-de-rosa muito feinhas, até o ponto que chegaram nesta foto. 
Um dia, acordei e encontrei o ninho vazio: elas se foram. Ainda as vi algumas vezes aqui pelo jardim, ensaiando vôos, e confesso que ao ver o ninho vazio, senti uma certa melancolia...
As mais difíceis de lidar, são as rolinhas. Elas sempre acabam expulsando algum filhote do ninho. Isso já aconteceu várias vezes. Uma vez, consegui colocar o filhote de volta, mas a mãe o expulsou novamente, e após ele cair no gramado, ela foi atrás dele, bicando-o. Peguei-o novamente. Como já era bem grandinho, achei que conseguiria criá-lo. Todos os dias pela manhã, eu o soltava no gramado, e ele ficava piando pela mãe, mas quando ela o avistava, caía de bicadas em cima dele. Acabou morrendo, acho que de tristeza.
As cambaxirras são as mais engraçadas: elas começam a encher todas as casinhas do jardim com gravetos e tudo o mais que encontram por aqui; depois, escolhem apenas uma delas e fazem seus ninhos. Elas não tem medo de nós, e também escolhem, geralmente, um local muito baixo aqui na varanda. Uma vez, um filhote fugiu do ninho, e quando tentei pegá-lo para devolvê-lo ao seu lugar, ele entrou pela porta da sala - imaginem, aquela coisinha mínima se escondendo dentro de casa! Vi quando ele entrou no meio das toras de madeira da lareira, e tive que retirar uma a uma cuidadosamente, até conseguir pegá-lo. Foi uma dificuldade...
Este ano, vi que as sabiás fizeram seu ninho no pé de tangerina. Desta vez, não será tão fácil fotografá-las. Mas terei que ficar de olho, já que o ninho está dentro do local do canil, e se um dos filhotes cair, a Latifa não vai perdoar...
Esta época é muito bonita, mas também um pouco triste, pois sempre encontramos alguns filhotinhos de pássaros mortos pelo jardim. Eles caem - ou são expulsos de seus ninhos durante a madrugada, e não temos tempo de chegar até eles antes das formigas. Mas a gente vai fazendo o que pode.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Texto: 29 (do concurso) - O bêbado e o seu cavalo equilibrista

 

Era a terceira vez este ano que estava indo à Paulo Afonso/BA, sempre aos sábados pela manhã e, praticamente no mesmo horário, ao chegar no local conhecido como TREVO DE MARIA BODE, encontrava aquele homem com visíveis sinais de embriagues sobre seu cavalo. Diante daquele espetáculo de equilíbrio e insensatez resolvi parar, inclusive porque precisava descansar um pouco e aproveitaria para abastecer o carro. Puxei conversa com o frentista sobre o homem do cavalo.

É Zé de Mamãe...
Ele nunca caiu do cavalo?
Não, parece que o bicho é ensinado, já teve até gente que botou preço...

Fico sabendo pelo frentista que o homem em questão é aposentado e já foi bom vaqueiro, mas hoje se dedica a tarefa de não fazer nada durante a semana e ingerir toda a cachaça do mundo, aos sábados. E que seu cavalo espera paciente para levá-lo de volta à sua casa, inclusive tendo todo o cuidado para atravessar a rodovia.

Como é o nome do cavalo?
Não tem nome não, doutor. Ele chama “cavalo” e o bicho atende.
E se outra pessoa chamar?
Não adianta, ele só atende a Zé de Mamãe.
Porque o nome dele é “Zé de Mamãe”?
É ele mesmo quem diz, quando começa a ficar “queimado”. Ele fica contando valentia e diz: “Se mexer com Zé de Mamãe, não come milho verde este ano”.
E já mexeram com ele? Não...

Olho para a estrada reta e lá vão o cavalo e Zé de Mamãe num compasso de extrema habilidade. Quando o bêbado tomba para o lado esquerdo, o cavalo corrige o passo e recoloca o corpo etilizado no centro de gravidade. Deve ser uma luta muito grande, ou melhor, deve ser muita ciência desse cavalo em calcular direitinho como para que Zé de Mamãe não vá beijar o asfalto.

Ele vai direto para casa, ou ainda tem alguma parada obrigatória?
Não, toda vez Zé de Mamãe leva duas latinhas para tomar em casa.
Prevenido, esse Zé de Mamãe. E a mulher dele?
Não tem mais mulher não.
Não?
Ela foi embora com um primo dele?
Para onde?
Entraram na lata do mundo e até hoje ninguém sabe deles.

Já está na hora de ir embora, já matei minha sede, abasteci o carro, joguei conversa fora e fiquei sabendo da vida de Zé de Mamãe. Quando retomo a estrada, fico pensando naquela criatura e até tenho certa piedade. Pobre Zé de Mamãe. Ainda bem que ele tem o cavalo. Interessante é ele não ter um cachorro. Digo que ele não tem, pois nunca o vi acompanhado de nenhum canino. Ele não tem cachorro mesmo, e se tivesse, estaria formado um trio de criaturas para arriscar suas vidas às margens da rodovia, todos os sábados. Aliás, no caso de Zé de Mamãe, acho que lhe faz muito mais falta um cachorro vira-lata que uma mulher zangada e cansada em casa. Sabedoria teve foi a mulher de Zé, que foi embora ainda quando podia. Mas be que um cachorro daqueles descritos por Graciliano Ramos seria de muita serventia àquela dupla, até mesmo para afastar algum menino maldoso ou  algum outro cão menos amistoso que é o que não falta nestas estradas do Nordeste brasileiro.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Texto: 34 (do concurso) - Xerife e a princesa Nana

Nasci. Não consigo abrir os olhos, nem andar, mas percebo a presença de um ser da minha espécie cem vezes maior que eu.  É minha mãe, ela gostou de mim, com sua língua quente me fez carinho, me limpou, também cortou o cordão umbilical (nem doeu) e me colocou juntinho dela. Posso sentir seu calor. Ops! Tem outros cachorrinhos do meu lado, somos irmãos. Chegou mais um... Mais outro, mais outro. Tudo isso estava dentro da barriga de mamis? Ouvi alguém dizer que somos doze.
Cachorro é diferente de ser humano, para esses basta chorar e a mãe corre para dar o peito. Tenho que disputar uma teta com meus irmãos famintos. Os maiores levam vantagem, é claro. Eles são mais fortes, sugam com força. Sou pequeno e não sei se vou sobreviver. Uma mão humana de vez enquanto vem aqui e me põe para mamar numa teta, ou então me dá uma teta esquisita de plástico, com leite de vaca. Estou crescendo, consigo abrir meus olhos e ensaio os passinhos com pernas trêmulas. Minha mãe é linda, ela é da raça Fila Brasileiro, seu nome é Luma. E assim fomos crescendo até minha mãe não querer mais nos amamentar, acho que é porque temos dentinhos e a machucamos. Ouvi dizer que vão nos vender e assim meus irmãozinhos foram indo embora um a um. Sinto saudades deles. Eram tão legais nossas brincadeiras e o que eu mais gostava era dormir pertinho deles e de mamãe, ficávamos quentinhos.
Agora, somos apenas eu e minha mãe, ninguém me quis, minha cabeça é descomunal para meu corpo, sou esmirrado e desengonçado. Deve ser por isso que me chamam de Feioso, mas não fico com raiva, porque eles me tratam com muito carinho, principalmente uma menina linda de olhos azuis e cabelos longos, parecida com uma princesa dos contos de fadas. Ela brinca comigo, faz carinho e me deixa adormecer em seu colo. Aqui no sitio, a minha amiga vive com os pais, o sargento Otto, dona Helena e seu irmão Samuel. Todos trabalham e minha jovem amiga só estuda, tendo assim mais tempo para ficar comigo, me dar banho e até escovar meus dentes. Minha mãe Luma me disse que todo cachorro que se preza, escolhe um dono. Já decidi: minha dona será a amiga Nana. Por isso quando ela chega  faço a maior festa, balançando o rabo  e choro de alegria.
Fui crescendo e minha feiúra foi diminuindo, fiquei tão bonito que apareceu comprador, mas meus donos resolveram ficar comigo. O sargento Otto me levou para tomar vacinas e ganhei o nome de Xerife. Acho que ele quer que eu seja valente e tome conta do sítio na sua ausência. Estou feliz porque vou ficar. Eles me tratam com carinho. Quando todos saem fico com minha mãe. Ela brinca comigo e me ensina caçar saruê e também as galinhas da vizinha que teimam em vir aqui.
Um dia um sujeito pulou o muro e foi andando em direção da casa, ele com certeza não era amigo da família, pois os amigos quando chegam batem à porta e meus donos abrem. Então minha mãe Luma e eu resolvemos mostrar que ele não era bem vindo. Quando ele nos viu, saiu correndo para pular o muro, mas minha mãe o alcançou, abocanhou o seu short e puxou. Risos. Ele foi embora só de cueca.  O sargento, quando encontrou o short perto do muro, entendeu o que tinha acontecido. Ficou agradecido, nos fez afagos e disse: - Muito bem! Em outra ocasião um garoto também entrou no quintal, corremos atrás dele e ele deixou cair a sacola. Acho que ele queria pegar frutas.
 Um dia a família tinha saído. Minha mãe achou uma comida que jogaram lá de fora, por cima do muro, ela comeu e começou a passar mal, a uivar e se contorcer de dor, até ficar paralisada. Pensei que ela estava dormindo. O tempo foi passando ela não acordou. Quando dona Helena chegou fui avisá-la que acontecera algo muito triste. Ela estranhou o fato de eu estar muito agitado e sozinho, então foi procurar minha mãe.  Quando a encontrou inerte, foi aquele chororô. Depois puseram minha mãe Luma dentro do carro e nunca mais a vi. Senti saudades dela.
E assim fiquei sozinho aqui no sitio. Um dia, fiquei entediado, muito mal humorado mesmo. Deitei no canil e não estava querendo ver ninguém. Quando alguém chegava perto, eu rosnava e mostrava meus dentes. Minha dona foi me ver, também não quis saber dela. Sem entender minha reação, ela chorava e dizia: - Xerife sou eu, você não está me reconhecendo?  O sargento ficou preocupado com meu comportamento e foi conversar com o veterinário, Dr. Marcus, que o aconselhou a me sacrificar para não por ninguém em risco. Contrariado o sargento reuniu a família e deu a noticia. Nana não aceitou de bom grado aquela resolução e esbravejou: - De jeito nenhum eu vou deixar que matem meu cachorro. Ele deve está com alguma carga negativa! Pegou resina de uma árvore chamada Breuzim, fez um defumador e entrou no canil.  Foi aquela fumaceira. Eu não conseguia respirar direito e meus olhos ardiam. Mas uma coisa é certa: sai dali de dentro, bonzinho.
O meu piti passou e a vida continuou até o sargento adoecer e ficar muitos dias hospitalizado. Três bandidos, armados de facão e de porretes, resolveram entrar no sítio. Não poderia deixar isso acontecer, sou um cão de guarda. Fui para cima deles. Eles me atraíram para o rio, começaram a me bater muito e me furaram com o facão.  
Agora sem poder me mexer aqui dentro rio, sangrando e sentindo dores. Vou lembrar da meiguice da princesa Nana, da nossa amizade e que fomos muito felizes. Sei que ela irá chorar muito e sentirá minha falta. O sargento ficará orgulhoso, não o decepcionei. Ele dirá que sou um herói, porque cumpri meu dever. Estou ficando cada vez mais fraco. A correnteza do rio está levando meu sangue e minha energia.  Estou desfalecendo.
 Agora vou dormir igual a minha mãe Luma.

Texto: 28 (do concurso) - Crescendo com pássaros

Já faz tempo que converso com pássaros; ultimamente com aqueles que visitam o meu quintal. E foi nessas conversações, por exemplo, que percebi que os pardais são muito confusos, falam muito, mas é só prosa fiada jogada ao léu. Até parecem algumas pessoas que conheço mundo afora.
Explicar como conversar com pássaros é uma empreitada a qual não me dou ao trabalho de explicar, nem a ensinar, depende muito da sensibilidade de cada um. Para quem acredita que em outra vida já foi pássaro tudo fica mais fácil, pois deve ter esses registros passarescos guardados em algum arquivo das suas memórias de vidas passadas.
No meu caso, visitando minhas lembranças acabei percebendo que isso nem era novo para mim. Pois desde os tempos de guri, quando aos oito anos de idade fui parar num internato na zona rural de Curitiba, eu já me punha a prosear com a bicharada.  Gostava muito de andar pelo mato, de admirar com certa curiosidade os animais que encontrava. Naquele tempo os bichos e as frutas eram de uma fartura sem igual: guabiroba, araticum, araçá, butiá, fruta de São João, jerivá, pitanga do campo, caqui (Dava no mato, sim senhor!) cafezinho, amora, uva do Japão, pinhão, tarumã, goiaba e um tanto de outras frutas que hoje nem lembro nome ou já foram extintas. Havia um equilíbrio natural na mata, tinha frutas pros homens e pros animais. Naquele tempo o tal do “bicho homem” ainda não era o grande destruidor da natureza que veio a ser.
No começo das minhas andanças, aonde eu ia pela mata o desejo de conversar com os animais me instigava. Nada fácil, pois alguns deles eram muito esquivos e fugiam quando eu tentava principiar algum diálogo. Creio que eles deviam me achar um guri muito estranho. Como aconteceu uma vez quando uma cobra ficou ali na minha frente um tempão me olhando e botando a linguinha pra fora, mas, depois se escafedeu mata adentro sem responder se era verdade aquela história de que uma parenta dela teria tentado Eva a comer a maçã no paraíso.  De outra feita fiquei um par de horas sentado observando um serelepe que tentava descascar um pinhão, mas, o danadinho nem me deu bola quando tentei puxar conversa. Tinha até macaco zombeteiro que ria de mim, isso eu sei por que eu os escutava comentando no bando.
Para encurtar a prosa, durante certo tempo parecia-me que seria em vão tentar conversar com os bichos. Arrisquei umas palavras até com o ramo dos galináceos, mas, com todo respeito pelo valor deles, nunca vi bicho tão bobo como galinha, até o burro que já tem um nome cabeludo desse, agia com maior esperteza.  O papagaio nem se fala, ele só ficava repetindo o que eu falava; desse jeito não deu prosa também.
Foi aí que uma coruja que eu sempre encontrava pela manhã cochilando escondida no alto de um pinheirinho, me deu a ideia de procurar os pássaros:
 – Vai conversar com os passarinhos, guri...
No começo isso não foi muito simples, pois eles só andavam em turma, e voando né. Uma vez tentei me aproximar de um bando de bico de lacre que comiam sementes de capim próximo dum riacho. Escolhi-os primeiro por que eu queria pedir desculpas por causa de uma vez que eu tinha atirado algumas mamonas pra espantá-los e a minha traquinagem tinha dado um baita susto nos coitadinhos.  Nunca mais fiz isso, até confessei o acontecido pro Padre Luís que me mandou rezar uma dúzia de Ave-Maria de penitência.
A minha conversa com os bicos de lacre também não foi adiante. Mas tudo mudou no dia que encontrei um sabiazinho caído debaixo de um pé de ameixa; daquelas amarelinhas de dar água na boca. Vi que ele não conseguia voar porque estava com uma das asinhas machucada. Peguei-o com muito cuidado e, sei lá porque, perguntei-lhe como tinha se machucado. Foi aí que ele, para meu assombro, sussurrando com uma voz de criança começou a falar. Enquanto eu passava o dedo sobre a sua cabecinha para acalmá-lo, me contou que tinha caído do ninho. Falou que batera num galho da árvore quando tentava levantar voo junto com os outros sabiás da família, e por isso acabou ficando ali sozinho na esperança de que eles voltassem; fato que não aconteceu.
Quando a gente é criança acontece um montão de coisas na vida da gente, e nem tudo tem uma explicação lógica. E assim, entre mistério e magia, a gente se acostuma com certos fenômenos e acha tudo natural. Digo isso porque naquele momento, olhando para o passarinho machucado, lembrei que um dia minha avó tinha contado que algumas plantas eram boas pra curar muito machucado. Então, na querência de ajudar o coitadinho do sabiá, juntei umas folhas dum mato conhecido como alecrim do campo e espremi bem com os dedos, e depois passei a sumo verde no machucado do dele.  Pela cara dele atinei que devia ter ardido um pouco, mas, passado algum tempo, ele se aprumou e depois voou. Foi e retornou algumas vezes, como que agradecendo a minha ajuda, até que não mais voltou...
Depois desse acontecido, virava e mexia lá estava eu conversando com algum sabiá. E eu sempre perguntava sobre o Camilo, nome que dei ao sabiá ferido, mas, eles diziam que a família dos sabiás era muito grande e que era difícil saber por ande voava o Camilo. Tudo bem, “pelo menos ele deve estar por aí voando e espalhando que tinha encontrado um guri que o ajudou a voltar a voar”, era o que eu comentava para umas borboletas que de vez em quando me seguiam mata adentro. 
Como o Camilo era um sabiá muito novinho e como tal não tinha muita história para contar. Porém, guardo até hoje algo que ele falou. Foi quando certo vez perguntei-lhe como tinha aprendido a voar e ele respondeu:
– Nós não aprendemos a voar, só voamos...
Mais à frente na vida é que fui entender o que ele dissera. Os humanos têm a capacidade de desenvolver-se e criar, já os pássaros trazem em si o dom de voar, por isso quando estão prontos eles apenas voam; não criam o voo, apenas voam, é da natureza deles. Já os homens têm muita coisa boa para aprender e criar; uns aprendem e criam – outros não.
Quando conheci os pássaros do meu quintal percebi que eles eram diferentes dos que eu conhecera quando criança, e eu também era diferente, é claro.  Eles eram muito ariscos, mas, entre um fubazinho aqui, uma quirerinha acolá e algumas palavras de aconchego eles foram se acostumando comigo. Os pardais eram os mais arredios, acho que por sentimento de culpa, pois eles vivem predando os ninhos alheios; às vezes até derrubando filhotes dos ninhos dos outros, daí a apreensão que vivem; são como certas pessoas que fazem coisas escondidas e depois vivem com medo de serem descobertos.
Mas não quero que alguém pense que todo pardal é igual, pois, como é da sabedoria popular, toda regra possui alguma exceção. Desse modo, aconteceu que certa ocasião uma mãe pardal deixou um filhotinho pra que eu cuidasse.  Ele ainda não sabia voar e foi ficando ali pelo quintal, fui tratando dele, dando água e comida. Era muito tímido, Pitiguinho o nome dele. Creio que do seu jeito ele entendia que eu era o cuidador dele, pois, com o tempo foi ficando cada vez mais tranquilo em minha companhia, e ficava na porta da cozinha demonstrando que não tinha medo de mim. Para tranquilizá-lo, de vez em quando eu o lembrava de que a mãe dele tinha o deixado ali só até ele ficar forte e poder voar. Um dia ele me disse que sabia disso e que a mãe dele sempre vinha visita-lo. “Melhor pra ele”, pensei, porque entre os homens tem mãe ou pai que vai, some no mundo, e nunca mais aparece. 
Aos poucos Pitiguinho foi crescendo e ensaiando seus voos. Então, quando percebi que ele já estava dando uns voos mais altos, eu disse pra ele:
- Vê se não some hein, aparece de vez em quando, Pitiguinho...
E assim aconteceu.  Depois que foi embora com o bando, vez por outra Pitiguinho aparece contente, o conheço pelo trinado e porque costuma ficar um tempo pendurado num pé de romã do quintal, local onde habituava ficar quando eu cuidava dele.
As rolinhas roxas são aves mais sossegadas, muito tranquilas. “Cuidam da vida delas”, como diria dona Malvina, uma senhora negra, muito simples e sábia, com quem aprendi um tanto da vida na minha juventude.  Porém, de vez em quando elas perdem a calma com os pardais, e então partem pra cima deles e colocam ordem no quintal.
Quando comecei a conversar com elas, ficavam só ouvindo. São muito tímidas, porém mais sábias, falam tão baixinho que às vezes quase nem escuto e tenho que pedir para repetirem o que estão dizendo. Uma delas, que dei o nome tupi de Anahí, que significa bela flor do céu, até fez ninho num pequeno arbusto que cultivo no quintal, onde já nasceram outras quatro rolinhas, duas de cada vez. Ela é a que mais conversa comigo; ás vezes, até se dependura na grade da janela do meu escritório. Anahí tem uma paciência de Jó, pois passa ali um bom tempo me observando teclar no computador. Acredito também que ela deve gostar das músicas suaves que costumo ouvir quando escrevo.
Na família das rolinhas, o que as diferencia é que o macho possui penas marrom-avermelhadas, contrastando com as penas cinza-azuladas na cabeça. Por sua vez, as fêmeas são totalmente pardas.
Na serenidade que é peculiar às rolinhas, outro dia as ouvi confabulando sobre a falta de sementes para seu alimento; sobre a escassez de algumas frutas silvestres que sumiram dos campos junto com outros bichos.  Com Anahí tenho aprendido a silenciar de vez em quando; a ouvir mais e falar menos. E foi numa dessas ocasiões que ela, com ar solene, disse-me que não entendia por que o homem não respeita a vida que há na natureza:
 – Ele age como se fosse o centro de tudo.  Como se tudo que há no ambiente natural fosse propriedade dele, quando até os pássaros sabem que tudo e todos fazem parte de uma mesma teia, de um mesmo plano que precisa de harmonia para permanecer.
Os canários que também passeiam pelo meu quintal são pássaros alegres, pra cima; inda mais agora que diminuíram as caças, as gaiolas e o tráfico de aves. Riem e cantam. É isso mesmo, eles riem! Contou-me Suruì, uma espécie de líder do bando, que o canto deles, além de servir para se comunicarem é também uma louvação à vida, uma espécie de reverência à natureza e ao Criador. É muito agradável conversar com os canários, porque eles respondem cantando... São dóceis também. Quando acostumam com o lugar não fogem quando a gente se aproxima. Aliás, se fugissem não dava para eu conversar com eles, não é mesmo?
No mais, creio que não seria exagero algum narrar que desde que me iniciei na conversação com os animais, especialmente com os pássaros, aos poucos fui intuindo e aprendendo que a natureza é repleta de cores, sons, cheiros, sabores, encantos e vozes. E que para admirar, sentir, usufruir e compreender esse universo é necessário tornarmo-nos crianças livres. Condição necessária para que possam fluir em nós os dons extraordinários que possuímos e que nos aproxima como criaturas, dessa única e impar orbe existencial; dessa infinita teia que é a vida em todas as suas múltiplas dimensões.

Texto: 33 (do concurso) - Cavalo alado

Havia chegado o dia em que seriam colocadas as ferraduras no meu cavalo. O ferreiro chegou cedo e depois do café reforçado começou o serviço pelos burros de carga. Depois seria a vez dos cavalos de carroça e por fim os animais de sela.

Eu tinha dito a meu pai que não queria que fossem colocadas ferraduras em Besouro, mas opinião de uma criança de oito anos nunca foi levada em consideração por ninguém.

Besouro, presente de meu padrinho, era cavalo para sela, grande e gordo que todos os dias tomava banho no açude e era escovado. Eu gostava de montar no pelo mesmo, sem arreios, sem sela, sem manta, sem nada. Quando chegávamos à beira do açude eu ficava nu e montado segurando na crina do pescoço dizia:

- Vamos nadar Besouro?

Ele atendia na hora, entrava na água até ficar flutuando e nadava em círculos por muito tempo. Foi assim que eu aprendi a nadar. Quando chegava ao meio do açude eu descia do lombo dele e nadava em volta. Às vezes segurava no rabo dele para ser rebocado. Essa brincadeira durava horas, muitas horas.
Besouro estava solto no piquete e ficou, com as orelhas murchas, observando o trabalho do ferreiro. Eu fui para perto dele e disse:

- Oh! Besouro se você não quiser usar ferradura vai ter que ir-se embora da fazenda. Tem que largar isso tudo e fugir para bem longe onde ninguém lhe conheça. Eu só não vou com você porque mamãe não deixa, mas se ela deixasse, eu bem que iria. A gente podia sair galopando por esse mundão a fora, podia até voar.

Besouro olhava para mim com aqueles olhos grandes e movia a boca como se quisesse falar alguma coisa. Aí eu perguntei:

- Você quer ir nadar no açude comigo?

Ele balançou a cabeça e relinchou como se estivesse sorrindo. Abri a porteira e montei.

- Ei! Menino, pra onde você vai levar esse cavalo? Deixe-o preso porque só faltam três animais para chegar a vez dele.

- Eu vou dar uma volta no açude, pai! Volto logo.

E antes que meu pai pudesse dizer alguma coisa, Besouro saiu num galope danado.

Ao chegamos eu desci para tirar a roupa e Besouro deitou para se espojar. Quando terminou entramos no açude com água até o pescoço. Montei e senti um volume estranho nos dois lados das costelas dele. Nadamos por uns quinze minutos aí eu disse:

- Vamos?

Besouro saiu do açude em passos lentos e antes que eu pudesse descer para me vestir ele iniciou um galope feroz e de repente, antes de chegarmos à porteira, abriu as asas e voou.

Diante do olhar espantado de todos, desci junto à varanda e Besouro voou bem alto, até sumir nas nuvens para nunca mais voltar.



Texto: 27 (do concurso) - Carro de boi

Naquele ano, a chuva se comportara como nunca. Choveu praticamente todo dia. Chuva fininha, mansa, criadeira, com intervalos de sol forte.

Os pés de milho, de todas as plantações, responderam aos tratos culturais com a superprodução esperada. No período de floração, era raro encontrar um pé com menos de cinco espigas, que granaram completamente e atingiram mais de trinta centímetros de tamanho. Iria haver dificuldade para armazenar tanto grão.

A alegria era geral. Em todos os cantos, o prenuncio da fartura, dos bons negócios, da garantia do rico alimento para homens e animais, era motivo mais que justo para fazer-se a maior festa da colheita de todos os tempos.
Normalmente, os visitantes são o dobro da população, mas nesse ano, com a notícia da super safra, podia vir o triplo que não iria faltar comida. Haveria serviço garantido para todos.

A debulhadora trabalhava dia e noite para dar conta das encomendas. Os agricultores, reunidos em mutirão iam, de propriedade em propriedade, fazendo a colheita manual porque a colheitadeira não tinha como trabalhar. O solo  encharcado, era um atoleiro só e o pessoal perdia tempo precioso, tentando desatolar  a máquina pesadona que naquelas condições, só servia para atrapalhar.

O velho carro de bois voltou à atividade e a parelha, Baralho e Relancim, nunca trabalhou tanto, acima e abaixo, transportando as espigas. Apesar da idade, a alimentação farta e os momentos de descanso, os animais estavam dando conta do recado.
Por causa do desuso a esteira que fazia a lateral do carro, rompeu-se na primeira viagem, a partir daí as espigas tiveram que ser ensacadas.

- Se tivesse jumento com cangalha era melhor do que esse carro velho...
- E esses bois enfadados, tem no mundo quem aguente? O serviço não anda. Tô vendo a hora essa chuva se arriar e estragar todo o milho colhido.
- O jeito é aumentar a carga.
- Esses bois não vão aguentar não!
- Guenta sim! Esses bichos são muito fortes, já trabalharam muito para o finado meu pai.

Em meio à discussão, findaram por colocar sessenta sacas. Era realmente além da capacidade dos animais que lentamente, deslocaram o carro, deixando o sulco profundo na lama do chão e o som lânguido do cocão, espalhou-se pelo silêncio da tarde.

Em dado momento, a roda prendeu num buraco aberto pela vereda cheia de peixinhos. E haja esforço de homens e bois para desatolar, mas a roda estava presa. Usaram enxada para colocar pedregulho misturado com barro, para facilitar o deslizamento da roda, diminuíram a carga, deslocaram a roda presa e recolocaram as sacas.

Depois de horas de esforço, conseguiram desatolar o carro. A urgência para terminar o serviço, fez com que os homens obrigassem os animais a andar rápido, quase correndo, para só pararem no pátio da cooperativa.

Antes que começassem a descarga, Relancim deitou-se envergando a canga e o carro. Para não derrubar a carga, os animais foram desatrelados.

Relancim, numa convulsão prolongada, com a boca aberta, estirou as pernas e morreu.
Nesse momento, Baralho, olhando para o companheiro ao seu lado, soltou um mugido longo como um lamento, enquanto duas lágrimas corriam em direção às narinas muito abertas, por conta da respiração ofegante.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Texto: 42 (do concurso) - A mordida do cavalo

Tínhamos um cavalo branco, seus pelos era um tanto amarelecidos, apelidado de Baião, por mim muito querido, pois foi no seu lombo que aprendi os rudimentos da arte de montar, que se notabilizou pelas inesperadas mordidas que dava nas pessoas, e estas mordidas eram inesquecíveis em face da profunda dor que causava e da marca enegrecida que na pele de suas vítimas bordava.
Meu Pai sempre alardeava que cavalo não morde o seu dono, mas vejam só, tudo tem o seu dia, o Baião estava preso no curral e na certa em nada estava gostando desta situação, foi quando o meu Pai passou à sua frente e sem a mínima precaução ou cautela e deu lhe as costas e o cavalo na surpresa atarracou uma violenta mordida na lateral da sua barriga, naquela folga existente entre o fim das costelas e os quadris, mordeu segurando, torcendo, apertando, dava sacudidelas, meu Pai chegou até flutuar no ar em seu desespero para se livrar daquela situação!

Assim que ele se desvencilhou das mandíbulas do cavalo pelo chão ficou a rolar, gemendo, vomitou de tanta dor que sentia, naquele momento tive pena do Baião, conhecendo meu Pai sabia dos seus repentes de fúria quando algo parecido com uma doidice apoderava do seu coração e da sua mente, nestes repentes era capaz das maiores crueldades!

Meu Pai permaneceu por um bom tempo sentado no chão, fazia caretas, suspirava fundo, limpava o suor da testa, e o Baião relinchava como se comemorasse a sua proeza, clamei aos céus por piedade, pois um outro animal muito mais medonho e violento estava se levantando e já sacudia a poeira de suas roupas, pela sua expressão facial tão transmudada sentia-se que algo de ruim estava pra acontecer!

Várias pessoas se aproximaram do curral, todos no agrado de ajudar o meu Pai confortavam, este permanecia calado, carrancudo, foi até ao paiol e trouxe de lá um chicote, naquele sertão não chamavam aquilo de chicote, mas sim de jibóia, uma arma de flagelar, de açoitar pra matar, tinha um cabo forte, o chicote era tanto fino no início, não muito,  alongado, mas pelo meio engrossava, muito, afinando no seguir, terminando com uma lingüeta também de couro a que chamávamos de iapa, e em muito era parecido com uma cobra chamada jibóia, tanto no alongado quanto no formato...

Meu Pai adentrou ao curral girando a jibóia no ar, aquilo produzia um barulho estremecedor, semelhante ao de um vento aloucado, daqueles que precedem as grandes tempestades, este barulho já era o suficiente para causar medo e pavor, ele dava um contragolpe no chicote produzindo um estalido seco, muito parecido com o som de tiro de um revolver calibre trinta e oito, e ele foi girando aquele flagelo e na distância calculada no contragolpe a ponta do chicote no revestrés explodiu no lombo do cavalo com tamanha violência que se viam claramente os pelos brancos do animal espraiarem pelo ar, e no local do impacto de um profundo corte o sangue já marejava respingando, o cavalo no desespero da dor tentou saltar por sobre cerca de tábuas do curral pra do flagelo se livrar, mas azaradamente se encalacrou por sobre a cerca, conseguiu ultrapassar o obstáculo somente com as patas dianteiras, as traseiras desprovidas de um arranque para o seu intento finalizar, patinavam e escorregavam na terra ressequida do curral, assim nesta situação tão crítica e desfavorável não aluía nem pra frente e nem pra trás, as seguidas chicotadas foram do cavalo as forças roubando, foi perdendo o fôlego, esmorecia estonteado, o certo é que por um bom tempo ficou enganchado por sobre aquelas tábuas da cerca do curral, quando uma violentíssima chicotada estralou na tábua do seu pescoço fez com que o Baião arriasse de vez, a dor desgovernou  o seu senso, fraquejou as pernas traseiras, rolou lateralmente por sobre a cerca desabando no chão com tamanha violência que na poeira levantada pungia surdos clamores de piedade, o animal sangrava pelas narinas e pelos cantos dos olhos, tremia por inteiro, resfolegava, uma respiração apertada como se de uma onça tivesse espavoridamente debandado por léguas e léguas.

Chicoteando sempre, meu Pai conversava com o cavalo como se conversasse com um filho seu justificando a crueldade do castigo, por fim satisfeito na vingativa proeza sua desumana, ele se afastou cantarolando bobices na forma de uma canção, nem sei se aquilo pode ser chamado de vingança...

Nunca mais o Baião foi mesmo, diziam que ele ficara aguado pela surra que levou, se entristeceu, foi se definhando a olhos vistos, certo dia vendo inúmeros urubus pousando no alto de um pé de angico, de longe vi uma mancha branca no chão, tive assim a certeza que o Baião havia morrido. Falei pro meu Pai do acontecido, e ele respondeu que tudo que vive um dia morre!
Não mais tocamos neste assunto mesmo que nas lembranças avivasse, nem sei se o meu Pai disto se arrependeu, se arrependeu, arrependeu somente em seus arrependimentos, pra ninguém no partilhar desabafou, mas no findar dos seus dias, calado, pensativo, abatido por um enfisema pulmonar resultado de décadas e décadas do hábito de fumar, sentia que os seus pensamentos na distância de muitas distâncias campeavam, e eu ficava a imaginar se do cavalo ele estava a se lembrar...

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Texto: 41 (do concurso) - Bom amigo

Ele era bonachão, bem humorado e gostava de viver. Sempre querendo participar, ser alegre e dar alegria. Tinha seus quilos, era um pouco pesado, forte, seria melhor dizer. Na verdade nunca o conheci pessoalmente. Apenas por fotografia. Só sei que ele era uma festa na casa de meu filho, no Brasil. Mau humor, nunca. Mas, às vezes a vida é cruel e ele começou a adoecer. O pobrezinho estava com um tumor e não era nada bom. Quando fiquei sabendo, um peso enorme se instalou no meu peito. Tínhamos esperança de que a notícia má iria embora e que as coisas mudariam. Mas ele foi ficando pior e pior. Foi levado ao hospital. Mesmo abalado, ele ainda mantinha aquela cara de bonachão.
Todos sabiam  o que tinha de ser feito.Uma mão se aproxima com a seringa. Ele então começa a lamber a mão. Sim, era a mão do veterinário que iria sacrificá-lo. Não sabemos se era para avisar que entendia  que o que estávamos fazendo era para seu bem. Não sabemos se queria agradecer que estávamos terminando com seu sofrimento. Mas ele estava em paz. Esse era o nosso Big. Big Coração. Nunca conheci o Big pessoalmente, como disse, mas este danado me dá vontade de chorar...Na última hora, lambendo a mão do veterinário...Ele queria, mais uma vez, agradar.

Texto: 31 (do concurso) - O louro e o seminário

Antigamente havia os seminários: colégios particulares católicos para onde meninos que supostamente tinham  “vocação” para padre, eram enviados para aprender latim, grego e tudo mais que era necessário para a missão. Normalmente eram enviados para as instituições com a idade de 10 anos, época em que  se iniciava o antigo “curso ginasial”. Obviamente, com essa idade, a vocação, quando existia, não era dos meninos, era dos pais. Em muitos casos, alguns garotos eram matriculados porque, afinal, os seminários eram excelentes escolas e , além do mais, quase sempre, grátis. Naqueles tempos difíceis para muitas famílias, talvez essa fosse a única esperança de se obter uma boa formação para os rebentos.
Foi o que aconteceu com o pequeno Fábio. Pais simples, mas desejosos de que o pimpolho fosse algo na vida, mandaram o mesmo para um seminário distante. Estava estabelecido que as visitas só poderiam ocorrer duas vezes por ano. Dureza. Fábio ainda era muito criança para isso. Naquela época todo mundo ficava muito tempo junto.Mães em casa trabalhando e  o pai voltando às 4 da tarde. Vida de família, refeições em conjunto sempre que possível. Um tempo que não volta mais ( nem as coisas boas, nem as coisas más...).  O menino estivera sempre por ali, a mãe chamando para tomar o café, para almoçar, para ir até a padaria comprar o pão...Brincadeira de bola, de taco, bolinha de gude, pipa...Agora lá estava o pequeno Fábio confinado num prédio sombrio, distante...talvez esteja exagerando, mas que era triste, era. Estava me esquecendo do papagaio que eles tinham em casa e que eles chamavam com o nome óbvio de “Louro”. O danado repetia tudo...E a mãe de Fábio falava  as mesmas frases todos os dias. “Fábio, vem para casa!”, “Fábio, vem tomar banho!”, etc., etc....
Foi uma tristeza nos primeiros dias e para dizer a verdade, nos dias e semanas e meses a seguir, também...Uma tristeza e uma saudade que, ao invés de diminuir, aumentavam. Mas os primeiros dias foram mais agudos, mais dolorosos,  por causa do Louro. Ninguém esperava que ele fosse fazer aquilo. Era inteligente, sabia que o Fabinho tinha saído. Como é então que, sem mais nem menos, durante o dia, começava a gritar: “Fábio, vai buscar o pão!”  Dali a pouco: “Fábio, vem almoçar!”. Se a Dona Amélia não estava chamando,  por que o danado estava tomando a iniciativa de gritar daquele jeito? A obrigação dele era só repetir, não tomar a iniciativa...E o danado berrava: “ Fábio, vem tomar banho!” Ele não queria nem saber se o Fabinho estava no seminário. O menino tinha de cumprir suas tarefas e ele a sua, de chamar, chamar...Isto  não seria tão triste assim se não fosse o estado emocional de Dona Amélia e do pai de Fabinho. Não era fácil, aquela dor de saudade no peito e o malandrinho do papagaio gritando, gritando...lembrando o tempo gostoso em que a família toda estava junta. Dona Amélia não conseguia segurar as lágrimas que vinham aos borbotões toda vez que o Louro abria a boca, quero dizer, o bico. Não disfarçava e podia se ouvir o choro de longe. O marido era mais durão. Nunca ninguém vira uma lágrima em seus olhos. Quando o papagaio gritava, ele disfarçava, ia até a sua oficina de carpinteiro – eu me esqueci de dizer, ele era um marceneiro igual a José, pai de Jesus – e ficava lá, com uma ferramenta qualquer, disfarçando...Se você pudesse entrar lá sem ele ver, você iria notar que o pai de Fabinho, estava chorando lágrimas ainda mais grossas do que as de Dona Amélia, se é que isso é possível. Mas, você sabe, naquela época, os homens não podiam chorar...Coitado do Sr. Benevides...Que tristeza!

domingo, 25 de maio de 2014

Texto: 26 (do concurso) - Pombo correio

À tardinha,quando o sol passava com seus raios, as ultimas lambidas pelos montes, ouviam-se, estampidos provocados por armas de fogo. Eram caçadores, no entorno da palha da roça de milho. Que escondidos em choças de ramos improvisados, abatiam as pombas selvagens.
Varrendo o terreiro da palhoça, a camponesa acompanhava com o olhar a chegada do marido descendo pela trilha, com uma galhada seca no ombro. Um procedimento habitual. Ao voltar do trabalho, ele sempre trazia a lenha que seria consumida no dia seguinte.
Minutos após enquanto a esposa preparava o jantar, o colono aparava de machado a lenha que trouxera. Mais alguns estampidos são ouvidos. De repente uma ave borboleteando atordoada cai bem no meio do terreiro. Era um pombo correio, que por infelicidade passara sobrevoando os caçadores e foi atingido por estilhaços de chumbo. Tentaram socorrê-lo despejando água no seu bico, si quer deu tempo de engolir estava morto. Imaginando se tratar de uma ave silvestre preparou água fervente para depená-la.
Percebeu-se então, que havia um pequeno tubo amarrado a sua perninha, dentro um envolto de papel, era um bilhete. Eles que jamais souberam da existência e utilização de pombo correio, imaginaram se tratar de algo sobrenatural. Aprenderam que o Espírito Santo é representado por um pombo. E agora? - Não sabiam ler! Mal conheciam os números no calendário que tinha na parede de seu casebre, presente do comerciante onde efetuavam suas compras, sabiam apenas que os números vermelhos determinavam os domingos e feriados. Nada mais. Decidiram que levaria o bilhete ao pároco seu confessor, já que em breve teriam que ir as compras na cidade. Nada comentaram com os colegas de trabalho. Levaram-no ao padre, que os explicou da existência e utilização de pombo correio como mensageiro, afirmando terem agido corretamente. Voltando ao seu habitat, nada comentaram como recomendara o orientador espiritual.
Dias após lembraram, esqueceu de perguntar ao padre o que dizia o bilhete. Voltaram correndo para a cidade. Encontraram-na em polvorosa.
Viaturas por toda parte, policiais armados até aos dentes, um grande alvoroço. Foram ter-se com o pároco, que explicou: o bilhete era de uma quadrilha de assaltantes confirmando aos comparsas o momento exato que assaltariam a centenária catedral da cidade, onde pretendiam roubar o grande acervo de obras sacras, um valioso tesouro, recém tombado como patrimônio histórico universal. E como o Espírito Santo se faz representar por um pombo, quisera Deus que eles como instrumento de sua vontade impedissem tamanha barbárie. A polícia agiu com prudência, os bandidos foram presos. E o casal recebeu uma boa recompensa, inclusive um professor que os ensinou a ler e escrever.  E assim puderam constituir sua numerosa família, com dignidade, e abençoado pelo Divino Espírito Santo. 

Texto: 25 (do concurso) - Meu cachorrinho Joca

Chegou numa tarde qualquer. Não sei hora nem dia. E ficou. Era lindo e sujo.  A raça? Sei lá, uma mistura. Pequeno, cheio de carrapichos e espinhos. “Cabelos” embaraçados caindo sobre os olhos. Carinha de olhar mendigo. E eu me apaixonei. As crianças da vizinhança, vibrando. A varanda da frente virou sua casa. A cama? Um tapete de porta que ele mesmo elegeu. E o nome? Escolha da Gabriela: Joca. Ué, isso não é nome de coelho? É, mas foi escolhido para o cachorrinho e ficou sendo. Joca de quê? Precisa de um sobrenome? Então fica o da Gabriela: Oliveira. Isso! Joca de Oliveira...
Foi assim que ele virou meu cão. Tudo meio por acaso. E que festa ele era! Banho, Joquinha? Que nada! Saía voando! Odiava água. Coisa de cachorro de rua. Mas tomava na marra! A meninada ajudando. Ele esperneava. Queria fugir. “Pra quê isso?”, devia pensar. Agora mesmo vou rolar na poeira! E ia mesmo! Sacudia-se firme, molhando todo mundo. E sumia no mundo. Ninguém tentasse impedir! Inútil! Ia pro outro lado da cidade juntar-se aos cães vadios. E era valente por lá.  Logo ele que não media dois palmos de altura. Quem diria?
Mas, Joca sempre voltava. Nunca dormia fora. Vinha cheio de saudade. Pulava, gania, virava piruetas no ar. Gostava de me encantar com suas firulas. Era também o guardião do meu carro estacionado na rua. Bastava que alguém olhasse e lá vinha ele rosnando. E que rosnado! Era minha sombra, vivia me seguindo. Caminhava comigo, de manhãzinha. Longos seis quilômetros, mas ele nem ligava. Corria na frente. Escondia-se na vegetação, à margem da rua. Ficava quieto. Quando me via, pulava na frente. Feito criança travessa assustando adulto.
Joca nunca se deixou domar. Tinha seu lado vagabundo. Mas era doce e fiel. No inverno de 2003, adoeceu. Amanheceu triste no tapete. Recusou a comida. Não quis rua, nem caminhar. Percebi a espuma no canto da boca, os olhos embotados. Um veterinário da cidade vizinha veio buscá-lo. Joca olhou-me triste e partiu. Sem muitas esperanças, eu sabia... Mas, no fim da tarde a ligação “O danadinho é duro na queda! Em três dias vai ficar bom!”. Ah, que alegria! Joca era forte. Reagiu de forma inesperada!
Três dias. Meu cãozinho devia voltar pra casa logo pela manhã. Mas ele não veio. Nunca mais voltou. Durante a noite, aproveitando um descuido do pessoal da clínica, conseguiu escapar. O corpo foi encontrado ao amanhecer, sobre uma ponte. Tinha percorrido metade da distância entre as duas cidades quando foi atropelado. Àquela hora, louco de saudade, Joca de Oliveira voltava pra casa...

Texto: 24 (do concurso) - Ícaro: meu morceguinho encantado

Duas e meia da madrugada. Fui despertada por um som agudo e penetrante invadindo meu sono. Apreensiva, caminhei morosamente até a sala.  O toque do telefone e de madrugada, assim como a chegada de telegramas, nunca fora para mim, um bom sinal. A morte do meu padrinho, da minha melhor amiga e do meu querido tio, o único irmão do meu pai, chegaram por esses meios. Como um espelho, o tempo, inexorável, implacável, testemunha a minha dor.
Depositada em minhas mãos, em poucas palavras ou sussurradas ao meu ouvido, como um tabu, uma proibição milenar, a morte anunciava contundente, irremediável, o findar da vida, a incompletude, a solidão e fragilidade dos laços que criamos, ao longo da nossa história.  Nunca me recuperei e acreditava que já não suportaria mais sofrimentos...
À medida que eu caminhava, o pânico me tomava: minha mãe... Meu pai! Por instinto ou intuição pensei: está morto. O telefonema foi apenas a dura confirmação do que meu coração antevira e antecipara. Num lampejo, uma lembrança...
Eu, de pé, ao lado da minha cama. Meu pai à frente, me dizendo: a amizade é uma força tão ou mais poderosa que o amor para a vida humana! Quarenta anos depois é que pude compreender a profundidade daquela frase dita por ele. Acrescentaria apenas: ambos podem surgir de forma inusitada, inesperada. E se manifestarem intensamente por pessoas, animais e objetos, também de forma indistinta. Porque escrevo isso? Deixemos a conclusão de lado. Afinal cada um terá a sua. E continuemos esta pequena história!
Atordoada, desliguei o telefone. E a esmo, fui parar na cozinha. Sufocada, abri a porta e corri para o quintal. A cada passo apressado, o vômito incontido, jorrava.  Dentro de mim, a contenção de uma barragem, se arrebentara!  A devastação que eu sentia, era a mesma de um sobrevivente único de um cataclismo!  Ou daquela que é a mais temida e por todos: a tenebrosa guerra nuclear.
Desnorteada, amparei-me no tronco do pé de jabuticaba. Meu refúgio desde a infância. A cada briga ou repreensão dada por minha mãe ou meu pai... Tão querido e que agora, sabia eu, viveria apenas nas minhas lembranças. Também despertadas pelas marcas dos seus dedos, nos variados instrumentos que ele tocava com maestria e delicadeza nas festas e comemorações em casa ou na vizinhança.
Aos poucos, e mais perto, eu escutava os sons: do cavaquinho, do violão, do bandolim, do acordeão e do piano... Era como se eles também, não suportando o silêncio, que certamente, daria o tom, dali em diante, à nossa casa, se refugiassem, ali, ao meu lado!
Repentinamente e alucinada, eu corria, dando voltas no pé de jabuticaba.  Até que eu percebi um movimento estranho ao meu redor.
Confusa e apavorada, gritei! Pertinho de mim, quase aconchegado no meu ombro, um filhote de morcego, também num vôo desvairado! Ensandecida comecei a indagar: o que ele está fazendo? Porque não me ataca, porque não foge, por quê? Porque meu pai morreu assim tão de repente, porque essa dor tão insuportável? Porque a impressão de que meu coração só está batendo pela metade? Por quê? Por quê?
Meio ao insuportável silêncio e à esmorecida espera, reparei que a manhã, ainda que débil, se aproximava e, me oferecia o sol, que acabara de pular o muro e tocara, de leve, o meu peito. Vagarosamente, ele foi se esticando até o meu colo, me doando aquele calorzinho: bálsamo para a minha alma tão desalentada. Um gesto de simpatia e de afeto, de Apolo, o deus da luz e da cura. Sabia ele, que nunca mais eu seria a mesma.
Com a morte de alguém, um pouco da gente também morre junto e o brilho da vida tremula do mesmo modo que a chama de uma vela quando o vento sopra-lhe o pavio.
Mesmo sentada, minha cabeça rodava, rodava, rodava. Para minha surpresa e consternação, vi um morcego grande morto no chão. Chorei copiosamente, um pranto profuso. Caía de mim, uma chuva torrencial. Daquelas que molhavam o pé de jabuticaba e o preparava para os doces frutos, que colhíamos e entregávamos à minha mãe para que ela fizesse a geléia e o vinho que saboreávamos no café da manhã e almoço diário da família.
Um movimento súbito espertou-me. Estanquei o choro e olhei para baixo
No meu colo, molhadinho e assustado o filhotinho de morcego tentava um tímido vôo.  Constatei que era dele, o pai morto, no chão. Delicadamente, eu o coloquei no galho mais alto e ao meu alcance. Guardei-o ali, no escurinho, na sombra. Só para mim e o nomeei!
Desde então, nas madrugadas, Ícaro e eu, giramos, em torno da jabuticabeira numa insólita homenagem à amizade! Com sorte, a morte nos enlaçou e nos fez consorte!   Muito mais do que a força da rima e do trocadilho.  Eis a mais pura e simples convicção!  

Texto: 23 (do concurso) - Coisas do deserto

Sempre que conto este causo, meus amigos dão muita risada e depois ficam tirando onda comigo, dizendo que é mentira ou coisa do gênero, mas, como eles sempre pedem bis, resolvi escrever essa história que é mais ou menos assim...

Eu tinha um cachorro que se chamava “deserto”...

Era um cachorro muito especial. Ele demonstrava alegria fora do comum quando um de nós retornava para casa. Cachorro paquero, só no nome, pois como caçador era um desastre. Na verdade ele não tinha uma raça bem definida, parecia-se com um bassê, ou era um bassê, sei lá! Só sei que era comprido, baixinho e de orelhas enormes, iguais aqueles de uma certa propaganda de amortecedores. Talvez, um pouco maior.
Como disse antes, para caçar era um desastre, medroso, preguiçoso, porem, muito querido, era do tipo que, quando ia bater nele, ao invés de correr, deitava de costa, abria as pernas e a boca numa gritaria danada.

No ano de 1968, com apenas sete anos, numa bela noite de verão, depois de muito esforço para convencer minha mãe de que eu já tinha condições de participar de uma caçada de tatu, resolvemos organizar uma: eu  e meus irmãos, o Dé, o Chico, o Nego, o Elias e o Tião. Cada um tinha uma função mais ou menos definida no grupo. Eu, por exemplo, tinha a função de iluminar, com a lamparina caso encontrasse alguma toca e fosse necessário cavar, já que não tinha condições físicas para exercer outra atividade.

Nossa propriedade, um pequeno sítio de dez alqueires ficava à margem esquerda do ribeirão do Corvo, Noroeste do Paraná. Tinha um capão de mato, (reserva) de floresta original, com caça em abundância e sem as chamadas leis de proteção à Fauna e a Flora, onde costumávamos caçar.

O Dé, como o mais velho e, portanto, no comando, distribuiu as tarefas:

— Elias, você e o Chico peguem os cachorros e vão na frente que eu e os meninos vamos ajeitar as ferramentas (facão, foice, enxadão etc.) e iremos a seguir.

— Está bem! Disse o Elias, mas eu não vou levar o Deserto. Ele só atrapalha.

— Leva sim, vai que precisa ajudar a cavar e o Guarani (cachorro caçador) sozinho pode cansar.

— Está bem! Meio a contra gosto, mas, concordou.

Partiram, e com poucos minutos, já ouvimos latidos do Guarani que já tinha acuado um tatu. Corremos para lá.
Chegando lá, só vimos terra vermelha que subia e o Guarani, cachorro valente como poucos, ia arrancando até pequenas raízes com os dentes, na ânsia de capturar a caça, mas, como a toca era no pé de uma enorme peroba rosa e não dava para ajudar com os enxadões, o jeito foi deixar o cachorro fazer o serviço. Claro que depois de alguns minutos, como era de se esperar, o Guarani demonstrou cansaço.

Foi então que o Dé teve a brilhante idéia de tirar o Guarani e colocar o Deserto para cavar um pouco, afinal, ele tinha ido para isso.

— Chico, tire o Guarani do buraco para ele descansar, enquanto coloco o Deserto para cavar um pouco.

— Só se os meninos me ajudar, porque não vai ser fácil tirar ele do buraco, tem que tirar a força e ficar segurando (cachorro valente).E assim foi feito.

O Dé introduziu o Deserto no buraco, para dar sequência na escavação. Foi nesse momento que o bicho demonstrou toda sua qualidade preguiçosa:
— Snif, snif, frull... au... au... frull... au... au...

Ele dava umas farejadas, emitia um som característico e umas latidas abafadas e nada de cavar. E nós incentivando-o. Pega! Deserto. Pega!...

Ele, depois de várias farejadas e muitos latidos, resolveu cavar. Claro, dentro do seu estilo.
Escorou o corpo sobre a pata esquerda e começou cavar com a direita, com algumas pausas para farejar novamente e tornar a latir.

— Snif, snif, frull... au... au... frull... au... au...

O Dé, nessas alturas já começava a ficar furioso. O Chico, bastante gozador, começou a provocar:

—Nós falamos para deixar essa tranqueira em casa que ele só atrapalhava! Agora toma! Acho é pouco.

O Dé, coitado, resolveu dar mais uma incentivada no cão.

— Vamos Deserto, Pega! Pega!...

Que nada, o Deserto continuou na mesma batida, ele apenas trocou de lado e começou a cavar com a pata esquerda.

Isso foi demais. O Dé pegou ele pelo rabo, girou umas duas vezes sobre a cabeça e o atirou numa moita de arranha gato próxima.

Ele fez o escândalo que lhe era peculiar e sumiu para casa, chorando e todo arranhado.
A caçada parou por aí. Apesar do Guarani ter tirado o tatu, voltamos um pouco frustrados.

Quando chegamos em casa, o Deserto já estava nos esperando, saltando e abanando o rabo com a maior alegria do mundo, como se nada tivesse acontecido.

Texto: 15 (do concurso) - Caçada de Teiu

— Vamo caçá tiú? Chamou o Nego.
— Vamo. Topei na hora.
— Então chame os cachorros.
— Certo, e onde vai sê?
— Na roça nova. Vamos apruveitá que os mininos (os irmãos mais velhos) tão trabalhando lá. Se não a mamãe não dexa.
O teiu é uma espécie de lagarto muito comum em todo o território brasileiro. Durante o inverno vive em tocas, mas quando surge a primavera ele volta à ativa, portanto, o período bom para caçá-los é a partir de novembro. Sua carne é muito apetitosa, mas não tem muitos apreciadores. Mamãe por exemplo, se recusava a prepará-la, não sei por que, talvez alguma questão cultural, mas, isso não era um problema, nós mesmos caçávamos, limpávamos e chamava o bicho no coentro.
Papai tinha no sítio um pedaço de roça nova, ainda estava na primeira destoca, um ótimo lugar para essa prática. Chamei os cachorros, o Peri e o Deserto (velho conhecido dos leitores) e lá fomos nós.
Assim que chegamos, os cachorros acostumados que eram imediatamente farejaram o chão e não demorou muito acuaram o bicho, que para escapar com vida entrou no oco de um tronco que tinha nas proximidades, o que dificultava a ação dos cachorros.
O Peri como era um cachorro grande, não dava para entrar no oco, mas o Deserto, esse sim, ele era até comprido, mas baixinho e fininho, pena que era medroso de mais, tinha um medo de lagarto que só vendo, ia pra caçada no embalo dos outros.
Apesar de toda essa desqualificação, o Deserto era acima de tudo atrevido e foi graças a esse atrevimento que se propôs a entrar atrás da caça.
Nesse meio tempo, meus irmãos, que estavam descoivarando a roça ouviram os cachorros acuarem e foram ver o que acontecia. Quando chegaram, mostrei a eles onde o lagarto tinha entrado, e então eles começaram a cortar a outra ponta do tronco com o machado para atingir o oco na outra extremidade e com isso afugentar o animal.
Do Deserto, só ouvíamos seus latidos abafados dentro do tronco.
— Auuu.... Auuu....
Quando meus irmãos atingiram o oco na outra extremidade, começamos a cutucar com uma vara e o bicho resolveu sair.
Deduzimos que numa dessas latidas o teiu entrou na boca do cachorro, e ele, por instinto, mordeu e recuou trazendo consigo o lagarto, visto que quando saiu e percebeu o que tinha na boca, não deu outra, medroso do jeito que era, com o susto caiu de costa e se pôs a gritar.
— Caiaaim.... Caiaaim.... Caiaaim...
Ele sempre fazia isso quando se via em apuros, o que não havia necessidade de tanto escândalo, pois o Peri, cachorro treinado, imediatamente entrou em ação.
Refeito do susto e depois do bicho morto, ai sim, ficou valente, mordia o lagarto de todo jeito, rosnava e o arrastava de um lado para outro numa prova fiel daquele velho ditado popular: “depois da onça morta, todo mundo é valente”.