quinta-feira, 31 de março de 2016

Amor inúltil, inútil amor!

Autor: Carlos Costa

Depois de mais de 30 anos vivendo um amor inútil, dividido com outra mulher, Luana entrou no banheiro, abriu o chuveiro e tentou inutilmente remover de seu corpo tudo o que a fizesse lembrar de Evandro. Mas era inútil a tentativa porque não se arranca por um banho tudo o que ficara gravado de lembranças em sua memória, desde que o viu pela primeira vez em uma repartição pública e se apaixonara em um segundo olhar. Mas estava tentando! Depois de seu primeiro e segundo marido, que lhe presentou com filhos que os criou sozinha, encontrou um terceiro companheiro com quem dividira sua cama por anos e sem conhecê-lo direito. Já esperava, mas ficou surpresa quando lhe dissera que ela não passava de uma velha e que tinha encontrado uma menina mais nova e com dinheiro. Luana teve a certeza que seu príncipe encantado que pensava que fosse, não passava mesmo de um gigolô, certeza que lhe foi reforçada quando seu pai contara que Evandro lhe havia pedido uma lancha de presente com a herança que receberia em breve e este tinha lhe prometido que daria.

“Ainda bem que me abriram os meus olhos para a realidade porque mulher apaixonada fica igual à deusa da justiça: nada vê, a não ser o que o que deseja ver e lhe é mostrada como prova pelos advogados envolvidos na lide processual”, pensou durante o demorado banho e disse para ela mesmo: “isso não é para mim, chegou ao fim! Basta! Vou recomeçar de onde parei, mas passando por outros caminhos porque não se pode voltar ao passado”.

Depois do demorado banho, telefonou para algumas amigas e doou tudo o que lhe fizesse lembrar Evandro: panelas, presentes e tudo o que adquiriram com o dinheiro que ela também lhe dava, mas sua decisão não extirparia todas as lembranças boas de sua vida . “Chega”, dizia de novo para si mesmo enquanto a água talvez contaminada pelo que estava tentando retirar de Evandro, escorria pelo ralo do banheiro. Luana se livrava de todos os objetos que adquiriram juntos, por doação e não venda. “Se for vender, ninguém vai comprá-la. É melhor doar tudo sem cobrar nada”, Luana continuava dizendo para si mesma, enquanto fazia a entrega dos objetos que lhe faziam lembrar de seu ex-amado. Não doou o colchão em que dormiam porque não teria aonde dormir em seu condicionador de ar naquela noite. No colchão, Evandro lhe dissera muitas mentiras de amor, mas “isso ficará no passado porque passarei a ser outra mulher a partir de agora”.

Mesmo já tendo rompido a barreira dos “enta”, Luana ainda era uma mulher atraente, mas não estava disposta a procurar homem com desespero, porque já tinha sido casada duas vezes e vivia seu terceiro relacionamento. Lembrou com saudades de sua juventude, quando viajava a serviço da empresa da família em que trabalhou como diretora comercial, pelos municípios do Estado. Nesse período, embora não procurasse, mas por ser muito bonita e paquerada, talvez pela posição que ocupasse ou pelo destaque e importância que o cargo tinha, conheceu e se relacionou com pessoas de bom caráter. Contudo, “mas isso era passado”, dizia para si mesmo. “Tenho que viver meu presente porque o passado já passou e não voltará mais”. Desejou entrar em uma máquina do tempo e voltar aos seus 20, 30 anos: talvez não tivesse casado como fez a pedido do pai, aos 15 anos, não tivesse casado uma segunda vez aos 27 e, depois, não tivesse perdido tanto tempo ao lado de um homem que ajudou a criar seus filhos, educando-os nos momentos mais difíceis da juventude e rebeldia deles. Mas, isso, também já era passado. Certa vez, seu companheiro de jornada pela vida queria levá-la a um psicólogo, achando que tivesse algum problema. Ele era diabético e ela não tinha nada. Tinha certeza que nada tinha. Luana só tinha medo de pegar doenças sexualmente transmissíveis do companheiro. Ela nunca fora promíscua, ao contrário de Evandro, que se banqueteava com vários pratos, em corpos diferentes. Luana sabia de tudo, mas fingia que de nada sabia e o aceitava de volta, sempre!

Ah, quantas lembranças e quantas saudades tinha. As decepções que tivera com todos seus maridos e companheiro. Essas coisas tinham transformado Luana em uma mulher determinada. Voltou à Faculdade por duas vezes e estava decidida: “não quero mais ninguém, não vou procurar ninguém, mas se aparecer, não dispensarei, afinal, ainda sou mulher e tenho desejos, não tanto como antes, mas ainda não estou morta”, continuava dizendo para si mesmo, como querendo compensar os anos de ilusão que vivera. Mas não foram tempos totalmente perdidos, mas apenas amores que não a compreenderam. No fundo, Luana se achava e era uma excelente pessoa, com amigos com os quais ela podia contar.

Enquanto tomava novo banho para tentar livrar-se do resto que ainda achava tinha impregnado de Evandro dentro de seu corpo, Luana continuava dizendo para si mesmo: “tudo que não fiz na minha adolescência, com medo de doenças sexualmente transmissivas, e me anulei por casar muito jovem, farei agora porque adoro danças, gosto de martini com cerejas e decidi voltar à vida boemia na data do meu aniversário, porque gosto de boa companhia e ninguém jamais vai se me segurar”. Do banheiro onde tentava se livrar dos últimos resquícios de Evamdro, o CD a música de Cauby Peixoto, “...ah, como é cruel cantar assim...e no fundo do salão, os homens a se rasgar por mim...” era ouvido e Luana, passava sabonete em seu corpo ainda jovem e repensava toda sua vida ainda jovem e, chegara à conclusão que os homens bons que namorara no passado estavam todos casados com o passar dos anos e concluiu que eram todos trigos no meio do joio e ela teria que separá-los para encontrar um que ainda tivesse na esquina!

Autor: Carlos Costa - Manaus/AM

Mulher triste na janela

Mulher Triste na Janela, este foi o título que dei aquele quadro. Seu autor, o professor Guimarães, nunca lhe atribuiu nome algum. Esta figura absolutamente singular é que me motivou a escrever. Ele e seus quadros.

O professor Guimarães não era pintor profissional. Era microbiologista, professor titular de uma importante universidade federal. Foi meu orientador de tese, até que desisti de concluir o mestrado e viver a vida de maneira mais simples. Mas, esta é outra história, a qual não é objetivo deste escrito.

Voltando ao ilustre professor, tornou-se meu amigo por acaso. Certa vez, passou mal na universidade e o acompanhei ao hospital e depois à sua casa. Passei a visitá-lo regularmente até o completo restabelecimento de sua saúde. Mostrou-me alguns de seus quadros. Dizia-se pintor amador. Gostei de dois quadros em particular e perguntei-lhe sobre eles.

O primeiro retratava dois sapatos colocados em uma janela de casa antiga, voltados para a rua. Segundo ele a inspiração foi um poema de Mario Quintana, do qual leu um trecho:
...

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo...Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranquila de um açude...

O professor também se achava um velho barco, encalhado, esperando a morte. Aos quase oitenta anos, ainda trabalhava, segundo ele, para não morrer. Cansou-se e parou.

—Agora somente vou pintar, ouvir Astor Piazzola e tentar esquecer a Aninha.
Quem era Aninha? Tive de esperar bastante tempo para descobrir. Enquanto isso, nas minhas visitas semanais, ouvi muito Piazzolla. Uma de suas preferidas era Balada para Un Loco, recitada e cantada por Amelita Baltar:

Quereme así, piantao, piantao, piantao
Abrite los amores que vamos a intentar
La mágica locura total de revivir
¡Vení, volá, vení! ¡trai-lai-la-larará!
¡Viva! ¡viva! ¡viva!
Loca el y loca yo
¡Locos! ¡locos! ¡locos!
¡Loca el y loca yo

Esta era a parte que ele fazia voltar várias vezes. Era a preferida da Aninha. Demorou, mas o meu professor e agora amigo contou-me sobre esta sua grande paixão.

Aninha, era Anna Beatriz Carneiro e Souza, sua ex-orientanda e a perene paixão. Muitos anos mais nova do que ele. Viveram uma paixão alucinante, clandestina, principalmente devido aos preconceitos da sociedade.

—Eu era casado, disse-me ele. Ela noiva. Nos apaixonamos e vivemos um amor belíssimo, apesar de clandestino.

Os olhos do professor lacrimejavam e mostravam uma dor que não tinha nada de passado. Ela era absolutamente presente. Continuou:

—Inventávamos participações em congressos que nunca existiram. Era lindo, avassalador. Loucura absoluta. Portanto, breve!

Havia grandes pausas. A história era retomada, muitas vezes, semanas depois, sempre com grande emoção.

—Tudo começou a ruir depois da defesa de tese da Aninha e o surgimento de uma bolsa de estudos na Alemanha. Viajaram ela e o noivo, também bolsista. Escreveu-me algumas cartas, as quais foram escasseando, assim como seu amor. Restaram as cicatrizes e a dor. Meu casamento, que era apenas de aparências, também acabou. Foi a partir daí passei a me dedicar mais à pintura.

Nesta altura da narrativa, eu já estava com dificuldades para acompanhar. Meu amigo falava desarvoradamente, sem pausas.

—Aninha casou-se com o noivo. Minha mulher foi embora e o trabalho na universidade deixou de ser importante. No dia em que passei mal, tive um leve infarto, era o meu último naquele lugar. A partir daí, restou-me pintar.

Semanas depois, dei uma pausa nas visitas, eu estava ficando confuso. Ao retornar, meu amigo agora mais calmo, resolveu falar sobre o outro quadro.

—Você sabe que não dou nome aos meus quadros. Aquele ali retrata uma mulher triste, esperando o seu amado, permanecendo na janela, triste por saber que ele não voltará. Gostaria que fosse a Aninha...

Viajei um tempo e fiquei sabendo pela internet que meu ilustre amigo havia falecido. Infarto. Tentei voltar para o funeral não foi possível. Prestei minhas homenagens diante de seu túmulo.

Deixou-me de herança os dois quadros que mencionei...


Autor: Gerson de Carvalho Silva - Santo André/SP

A mulher da minha vida

Autora: Conceição Gomes

Sentados à mesa de um boteco, desses de beira de calçada, final de tarde, com os pinguços de todos os tipos encostados no balcão, contando ou ouvido mágoas presentes e passadas, lá estava eu ouvindo a história de amor de meu amigo Abelardo. Entre um gole de cerveja e a degustação de batatas fritas, iniciou sua história.  Pois é amigo, foi num certo trinta de junho, dia de São Marçal, em uma festa junina, na casa de uma amiga. Quando eu cheguei, ela estava em pé, sozinha, apreciando os casais dançando a quadrilha. Quando a olhei, não pude me conter de emoção. Lá estava a mulher de meus sonhos. Aproximei-me dela e tomando seu rosto em minhas, disse quase num grito incontido: você tem os olhos mais lindos que já vi em toda a minha vida. Aqueles olhos de um verde indescritível, me deixaram extasiados, literalmente apaixonado. Ela sorriu e fitou-me sem nada dizer, talvez surpresa por tão inusitada declaração de amor. Dançamos até a festa terminar, rostos e corpos colados, no afã de ultrapassar os limites das mãos ávidas de contatos mais ousados. Vieram os encontros em que buscamos nos conhecer melhor. Ela trabalhava de dia e estudava a noite no mais tradicional colégio da cidade. Como ficava graciosa no seu uniforme escolar, na candura de seus vinte e dois anos. Perdera os pais muito criança ainda e desde os dezoito anos, era responsável pela sua própria vida.  Morava na casa de uma família que a adotara quase como filha. Mas isto não significava nada para mim. Quando decidimos ter nossa primeira e tão esperada intimidade maior ela me confessou que eu não seria o primeiro homem a possuí-la. Meu mundo veio abaixo. Não podia imaginar que a mulher que eu escolhera para a vida toda, não fosse mais pura. Ainda ficamos juntos algum tempo, mas o ciúme daquele passado, imaginá-la nos braços de outro, corroía minhas entranhas. E quando ela percebeu que eu jamais a assumiria, mudou-se de cidade. Quando eu a deixei no aeroporto, na hora da despedida, ela disse: estou grávida. E se foi, sem mais nada dizer. Ainda mantivemos algumas correspondências, até que conheci outra mulher, e pouco mais de um ano depois da partida de Anita, casei-me e então lhe enviei uma carta dizendo no final: diga ao nosso filho que papai morreu. Só voltei a encontrá-la dez anos depois, formada, com um emprego de destaque onde morava e com nosso filho com nove anos de idade. No esplendor de sua beleza e maturidade, disse nada querer de mim, apenas que nosso filho queria conhecer o pai. Assim foi. Mas não tive coragem de assumir a criança.  Nossos caminhos nos levaram cada um para os seus destinos. Sei que está casada. Não sei se é feliz. Quanto   a mim, vivo um casamento sem amor. Maldito preconceito que me fez perder a mulher da minha vida. Escutei calado, pensando que hoje, virgindade é um valor tão ultrapassado e que o fato de uma mulher já ter tido vários homens não é mais obstáculo para nenhum casamento. Os tempos mudam e com ele, alguns valores. Meu amigo Abelardo sabe disso, mas sabe também, que agora é tarde, muito tarde para um final feliz entre os dois.

Autora: Conceição Gomes - Curitiba/PR

segunda-feira, 28 de março de 2016

Preciso me casar

Autora: Conceição Gomes

Lucila, 25 anos, morena bonita de cabelos lisos e olhos cor de mel guardados por espessos cílios, ainda não conhecera o amor por um homem. É certo que quando passava por aquela construção, os peões mandavam calorosos fius-fius e ela não dava a menor atenção. Tinha seu ideal de homem que em nada parecia com aqueles operários. E em frente ao Corpo de Bombeiros então? Todos os dias, mesmo que trocasse de calçada, ouvia generosos galanteios. Mas, os soldados do fogo não lhe interessavam.  De vez em quando mudava de caminho e passava em frente ao mais famoso colégio da cidade. As vezes sentava-se no banco da pracinha do colégio, nas só rapazes muito jovens, que não se encaixavam no seu perfil. Ia ao cinema, pic-nic, quermesses da igreja, bailes dos clubes da cidade e nada de se encantar por nenhum dos moços que a ela se achegavam. O que há de errado comigo, pensava. Olhava-se no espelho e se achava mais do que bonita. De bikine, parecia uma sereia. No trabalho notava os olhares compridos dos colegas, especialmente do seu chefe, o senhor Nelson, mas nada lhe tocava o coração. Sua amiga Diana dizia que quando encontramos o amor da nossa vida, vemos estrelas, o coração agita-se como se estivesse afogando-se num rio bravo, que as pernas bambeiam,  que somos capazes de desmaiar de tanta emoção. Se nada disso sentia, como podia ser amor? É que seus sonhos estavam ligados aos romances açucarados de Madame Delly e outros dos livros da coleção Sabrina. Sempre que tinha tempo, alimentava seus sonhos nessas revistas.
Foi num certo final de semana. Diana convidou-a para uma regata do clube da cidade. Ao chegar no cais que amparava as águas da baia, ela o avistou! Lá estava ele, moreno, alto, musculoso, cabelos ao vento e belos olhos azuis.  Foi uma descarga de mil volts! O tempo fez-se estátua naquele momento e ela, completamente atordoada, não sabia o que fazer. Respirou fundo, contou até dez e um plano mirabolante surgiu em sua mente. Caminhou até o belo homem, fingiu olhar para as águas da baia e bem perto do seu Adonis, deu um jeito de torcer o pé e cair bem em frente dele. Tentou levantar-se mas não conseguiu, torcera o pé de verdade. Amélio, esse era o nome do moço, socorreu Lucila na hora. Quando os olhares se encontraram, estrelas brilharam, sinos ribombaram, anjos tocaram suas harpas, coração acelerou, o arco-íris apareceu sorrindo e o céu coloriu-se de rosas vermelhas...Fique calma, disse Amélio, vou levá-la ao pronto-socorro. E carregou Lucila nos braços até seu carro. Engessado o pé da nossa heroína restava levá-la até em casa, o que foi feito com muito gosto por Amélio. Seis meses depois estavam noivos e o casamento não demorou muito, ao som She, cantada por Charles Aznavour. Foram felizes para sempre.  

Autora: Conceição Gomes - Curitiba/PR

domingo, 27 de março de 2016

Nas ondas do rádio e do amor

Autora: Celêdian Assis de Sousa

Ouvir o programa matinal, cuja abertura era sempre feita com uma declamação de um poema de amor, seguido por uma reflexão e depois por uma seleção musical, era o mais puro deleite para Rosinha.
... — Esta música vai para alguém e esse alguém sabe quem... Falava Francisco, o locutor da rádio local, enquanto se ouvia ao fundo, a introdução de uma música, num belíssimo solo de violão. Com o ouvido colado ao rádio portátil, Rosinha fechou os olhos, sorriu e repetiu para si mesma: eu sei, eu sei meu amor... E cantarolou baixinho como se fizesse um dueto com o cantor Fagner: “Quando penso em você, fecho os olhos de saudaaaaaades, tenho tido muitas coisas, menos a felicidade...”.
Rosinha, como qualquer menina no esplendor de sua adolescência, sonhava com aquele amor que, rara e furtivamente, ela podia ler nas fotonovelas. Criada no seio de uma família muito severa e ainda sem a permissão dos pais para namorar, todo encanto e todos os suspiros lhe eram permitidos, desde que não fossem notados por eles. Os sentimentos iam desabrochando timidamente, por Francisco, aquele homem feito, dez anos mais velho que ela e o mais bonito e cobiçado rapaz da cidade. Sabia que era quase impossível que ele a notasse, mas, ainda assim, alimentava-se da sua ilusão.
Setembro chegou e nesse mês se preparavam os estudantes do Ginásio Estadual para o grande desfile cívico do dia sete, que em todos os anos acontecia na cidade, ou então acontecia em uma cidade vizinha, onde os estudantes visitantes desfilavam representando a sua escola. Formava-se uma caravana e lá iam as meninas felizes por aquela oportunidade de se divertirem fora de sua pacata cidade. Para Rosinha, o evento, a viagem, era uma verdadeira aventura. Naquele setembro de meados dos anos setenta não foi diferente, muita euforia e expectativa nos dias que antecederam o desfile e quando chegou o momento do embarque, Rosinha teve uma grata surpresa, talvez a mais emocionante de sua vida: Francisco estava no ônibus e acompanharia a turma naquela viagem. Como se fossem aquelas coisas do destino, nada premeditado, os assentos reservados a eles, eram lado a lado. Ela não se continha de tanta felicidade, mas tímida como era, alguém só notaria se observasse o quanto a sua face tornou-se ruborizada.
A viagem era divertida e muito barulhenta, pois os estudantes cantavam o tempo todo e se moviam de seus assentos para o corredor, numa verdadeira algazarra. Rosinha ainda perplexa com a presença de Francisco ao seu lado, ficou mais comedida, preferiu entabular uma conversa sobre as músicas que ele escolhia em seu programa e não conseguiu esconder o quanto era fã dele. Ele a ouvia atentamente e sorria amavelmente. Em certo momento tomou a mão dela e a beijou e seguiram de mãos dadas, durante toda a viagem. Rosinha emudeceu. Não sabia o que fazer com aquela nova emoção e Francisco notando todo o seu desconcerto, perguntou-lhe: Você ouviu um dia desses, a música Canteiros, oferecida para alguém?  Ela quase desfalecendo, respondeu que sim apenas com um aceno de cabeça. Ele prosseguiu dizendo: Não imagina para quem era? Ela não conseguia responder, apenas balançava a cabeça em sinal de negativa. Foi quando Francisco a fitou ternamente, tomou a face de Rosinha entre as mãos e deu-lhe um longo beijo, o primeiro da vida dela. Com o coração disparado, ela não conseguia assimilar o que ele acabara de declarar com aquele beijo, apenas sentia aquele momento como se fosse um sonho maravilhoso.
Chegaram ao destino e se separaram para os preparativos do desfile, mas Rosinha não parava de pensar em Francisco e como seria a volta da viagem, quando estariam novamente lado a lado. Não se viram mais durante o desfile e na volta, Francisco ocupou outro assento sem nenhuma explicação. A menina não entendeu aquela atitude e ficou desolada. Não sabia o que fazer nem o que pensar, e não pode conter as lágrimas que rolaram pela sua face.   
De volta à cidade natal, desceu do ônibus e não se despediu dos colegas, seguiu rapidamente para sua casa, trancou-se no quarto e chorou copiosamente por muito tempo, até que adormeceu. Acordou no dia seguinte e sua primeira ação foi ligar o rádio para ouvir o programa de Francisco. E ele abriu a programação com um simples poema, mas o mais lindo que Rosinha já tinha visto:
As rosas são raras belezas em cor
exalam seu perfume suavemente
tornando-se únicas em esplendor
mas são apenas flores, simplesmente
Mais rara é a beleza do meu amor
quando nasceu espontaneamente
por uma Rosa com nome de flor
mas foi  apenas um sonho, infelizmente
Em seguida, como era habitual, Francisco propôs a reflexão do dia e antes destacou que aquele era o primeiro poema de sua autoria, que o criara na noite anterior, tomado de uma sensação de que a sua alma precisava falar e ela só encontrou ouvidos na poesia. E depois continuou a falar de amor nas suas variadas formas. Concluiu a sua reflexão dizendo: A mais rara forma de amor é aquele que preserva o outro, para que ele se mantenha sem sofrimento, amor que protege o outro, como os espinhos protegem a rosa, para que ela se mantenha intacta. É dura a realidade, meus caros ouvintes, mas saibam que a renúncia é também uma linda forma de amar.
Rosinha desligou o rádio em prantos, entendeu que Francisco a amava e que talvez ela nunca soubesse o motivo de sua renúncia, mas bastava-lhe naquele momento saber de seu amor.
Passaram-se alguns dias para que Rosinha tivesse coragem de ligar novamente o rádio. Ligou exatamente no dia em que Francisco se despedia de seus ouvintes, comunicando-os de sua partida para a capital, onde se casaria daí a alguns meses e também aceitaria uma proposta de trabalho irrecusável.
Muitos anos depois, Rosinha, feliz e muito bem casada, lembrando-se de Francisco, riu muito de seus arroubos de amor adolescente. Não demorou muito tempo para que ela entendesse que a vida sempre se encarrega de abrir novos caminhos para a felicidade. E ainda no embalo daquelas lembranças, cantarolou baixinho como se fizesse um dueto com o cantor Milton Nascimento “Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá...” 

Autora: Celêdian Assis - Belo Horizonte/MG

sábado, 26 de março de 2016

Semeador do deserto - Autor: Celêdian Assis


Decerto é árido o deserto, só água de pedra, sede, areia, ardência,
E os cactus guardam dentro de si, a água líquida da sobrevivência.
Arenosa poeira, em tempestade, embaça além dos olhos da visão,
Faz projetar imagens, abstrações da mente, miragem, mera ilusão.

Decerto é hostil o moderno mundo, gente pobre, poder, demência,
E o homem guarda dentro de si, a senha, que ignora a sua essência.
Alma pura, em conflito, perde-se além dos sentidos da imaginação,
Faz projetos concretos, abstem-se da sensatez, fantasia, mera ilusão.

Decerto o homem é bom, tem alma, coração, amor, fé e clemência,
E ambições guardadas dentro de si, armas perigosas da inteligência.
Vaidade, em intensidade, se esquece da simplicidade da sua emoção.
Faz seus castelos na areia, subtraído da razão, ilação, a mera ilusão.

Decerto o homem tem tempo de resgatar a humildade e a inocência,
E os sentimentos guardados, fraternos, puros, livres de maledicência.
Esperança, em evidência, que se lembre de ser solidário com o irmão.
Faça do deserto inóspito, o silo, para a semeadura da nossa salvação.





Este poema é dedicado com muito carinho ao meu amigo querido, Felipe Padilha di Freita (o poeta do deserto), pela extrema admiração que tenho pela sua obra. O poeta, que deveria ter o cognome de "poeta do amor", tem uma grande preocupação com as questões sociais, que levam o homem a desvirtuar-se da sua espiritualidade e perder-se no concreto, na materialidade das suas ambições. Para quem não o conhece, eu recomendo seus textos admiráveis.


Autora: Celêdian Assis - Belo Horizonte/MG


Publicação autorizada pela autora em 10/06/2012

sexta-feira, 25 de março de 2016

Guerreiro Fredy

Autora: Viviane Rodarte

Morava na rua, sem nome ou endereço fixo. Dependia da boa vontade de alguns para me alimentar, mexia nas lixeiras, por isso muitas vezes fui repreendido.  Não entendiam que nem sempre me davam o que comer. Sofri muitas injustiças, fui maltratado só por diversão. Não imaginavam que aquilo me feria tanto física como emocionalmente. Tomei chuva, passei frio, dormi ao relento até encontrar um lugar onde pudesse me abrigar.
Fui levado para o canil e consegui fugir. As condições lá não eram boas. Mesmo com o cuidado de alguns funcionários não havia uma estrutura decente. Na rua pelo menos podia correr livre de um lado para outro.
Apesar dos perigos, às vezes me davam carinho em forma de comida, água e até no jeito de me olhar, mas no fundo sonhava com um lar quentinho para morar... Seria o melhor cão do mundo!  Obediente, atencioso, companheiro e amaria muito as pessoas. Iria espera-las sempre no portão com a mesma alegria todos os dias, para que elas soubessem o quanto são especiais para mim.
Pedia ao "Papai do Céu dos cães” que colocasse no meu caminho alguém para me adotar. Muitos dos meus amigos já haviam conseguido um lar.  Não era inveja! Só estava triste de viver sozinho e cansado da liberdade das ruas.
Um dia depois de tentar achar o que comer, resolveu descansar e deitei-me numa porta sem querer perturbar.  Fiquei quietinho até dormir, porém o que era só um descanso transformou pra sempre minha vida.
Um senhor chegou à casa bêbado, depois de um dia de trabalho. Revoltado com a vida descontou em mim toda a sua raiva. Agrediu-me brutalmente com uma foice. Não me deu chance de fugir ou tentar me salvar...  Senti uma dor imensa, gritei pedindo perdão por estar ali na sua porta, não queria incomodar, mas a raiva dele era tanta que só aumentava as batidas com a foice.
Foram minutos intermináveis, até que graças a Deus, pessoas ouviram meu pedido de socorro e interferiram , afastando o agressor e me pegando no colo. Tentava mover as patas e elas não me obedeciam mais. Senti uma dor intensa enquanto minha vida se esvaía através do sangue que escorria pelo meu corpo inerte...
Levaram-me para uma clínica veterinária.  Fui prontamente atendido e salvaram minha vida, mas fiquei sem uma das patas.  Amputaram uma das patinhas traseira e por pouco não há perdi também a outra. Foram meses de tratamento e cuidado, as pessoas lá me tratavam com muito carinho, que me recuperei antes mesmo do previsto.
Logo após começou uma nova luta. Precisava de uma lugar para morar. Não podia mais ficar na clínica.  Correria o risco de infecção nos meus ferimentos. Enviaram-me para uma ONG e fiquei na fila de adoção.  Já era difícil encontrar um lar e agora com essa deficiência eu não acreditava ser possível. Pensava que ninguém iria querer me adotar. Todos sentiam pena de mim, da minha historia, mas ninguém queria me levar para casa.
Nessa ONG recebi o nome de "Guerreiro".  Estranhei, mas me senti feliz porque até então nunca tinha ganhado um nome. Fui percebendo que esse nome era devido a minha vontade de viver e voltar a ter minha vida de novo. Um dia levaram-me pra casa, uma moça boazinha que me chamou de Chico. Ela já tinha outro cãozinho que não gostou muito de mim. Ela me olhava com tanta ternura, mas bateu o desespero quando soube que ela não podia ficar comigo. Será que depois de ter um lar, teria que voltar para rua?
Não, ela não seria capaz!  Levou-me para a casa de uma amiga e na primeira noite chorei muito. Mas parecia que minha nova companheira também gostava de mim, mudou meu nome outra vez, passou chamar-me de "Fredy", sorria ao falar meu nome. Ela se transformou na minha melhor amiga. Deu-me uma cama, cobertor quentinho e tanto carinho que jamais pensei receber. Hoje apesar de todo o sofrimento e solidão que vivi, sou muito feliz, tenho pessoas que me amam de verdade.
Na hora do banho faço bagunça, sou muito brincalhão. A minha nova vida me proporcionou algo chamado felicidade! É uma alegria quando minha dona me leva a passear usando aquela confortável coleira. Fico tão empolgado que mal deixo colocar e já saio correndo...
Passeamos pelo bairro, os vizinhos gostam de mim.  Alguns não e nem eu deles, mas não mordo, sou muito educado! Hoje de tão agradecido a Deus, já quase esqueci as provações pelas quais tive que passar. Elas são apenas marcas que vão se apagando da memória. As três patinhas restantes se juntaram à minha perseverança e me levam aonde quero ir.
Consigo até dar saltinhos, minha amiga sorri pra mim e diz "só você Fredy pra me fazer sorrir assim"!  Ai, na minha linguagem respondo "só você pra me fazer ser assim"!
Entendemo-nos no olhar e juntos para sempre iremos ficar!

Autora: Viviane Rodarte - Piumhi/MG

quinta-feira, 24 de março de 2016

Romance em Sobradinho


 Autor: Willes A Geaquinto

Aconteceu que num tempo em que eu andava carente de amor, conheci Maria Angélica numa festa de São João no Arraial do Sobradinho em São Thomé das Letras. Eu estava ali meio cabreiro com a vida, tomando um gole de um vinho quente com sabor de gengibre, cravo e canela, quando ouvi um sorriso que despertou a minha atenção. E, ao me virar, ele estava ali colado na minha retina, o rosto da dona do sorriso mais lindo que já vi; parecia um girassol se abrindo e espraiando raios de luz naquela soberba noite de luar no pé da serra.
Depois, enquanto apreciava os que dançavam ao som de um forró sacudido, nossos olhares se cruzaram fazendo explodir em algum lugar dentro de mim um entusiasmo sem tamanho; um sentimento contagiante, digamos assim. Olhando-a naquele vestido azul rodeado com renda branca, foi que experimentei a fascinação daqueles olhos penetrantes e de seus lábios sensuais.
Sem saber quem era a moça, fui dormir ao fim daquela noite de festa com algo misterioso sapecando minha mente. Ao acordar cedo no domingo decidi ir à missa na Igreja do povoado esperando, quem sabe, encontrá-la. E fui; botei roupa bonita, sapato preto lustrado e coisa e tal. Porém, nem na missa e nem na praça eu vi a bela moça. E já ia experimentando certo desânimo quando, para contentamento do meu espírito buscador, a vi saindo de uma pousada ali perto, caminhando em minha direção. O meu coração batia acelerado, enquanto pensava em como dizer-lhe da minha admiração ou alguma outra fala bonita que lhe despertasse a atenção.
Caboclo falador, contador de histórias e causos, naquela hora senti que faltava inspiração para aliviar a minha ansiedade; mesmo assim caminhei em sua direção pensando num jeito maneiro de iniciar a prosa. Ao aproximar-me, senti o seu perfume que exalava um leve frescor de flores do campo. Respirei fundo e falei tentando aparentar naturalidade:
— Olá, como passou a bela dançarina!
Ela sorriu clareando ao seu redor e, olhos fixos nos meus, respondeu:
— Não me lembro de termos dançado na festa...
— Ontem eu não dancei, preferi observar; gosto de apreciar aqueles que dançam bem, a fim de aprender...
— Então isso significa que danço bem...
— Sim, é admirável a sua leveza enquanto dança...
— E qual é o seu nome, moço admirador da dança?
— Me chamo Fernando Prado, vim de Três Corações para os festejos de São João aqui em Sobradinho...
— Meu nome é Maria Angélica, de Boa Esperança, também vim para a festa...
— Quem bom. Conheço um pouco da sua cidade, principalmente a região do Lago dos Encantos onde já estive num festival aquático no ano passado.
Fez se silêncio e percebendo que ambos estávamos sem saber muito do que conversar no momento, sugeri percorrermos a quermesse. Ela aceitou e tudo foi ficando tranquilo e natural.  Conversamos sobre outras festas, sobre a beleza das paisagens do povoado e das cachoeiras ali existentes. Contou-me que era filha de um conhecido produtor de café da região de Boa Esperança e que lecionava em um distrito rural daquela cidade. Dava gosto ouvir a sua voz suave; as palavras tinham uma pronuncia singular. Então, sentindo que estávamos à vontade, a convidei para um almoço à mineira num restaurante próximo. O que foi prontamente aceito, apenas me informando que iria chamar sua prima Bernadete que estava em sua companhia, mas ficara abrigada na casa de uns parentes no centro de São Thomé. Tudo bem. Combinado o almoço, como ainda era cedo ficamos de nos encontrar mais tarde no restaurante.
Voltando para a pousada onde eu estava hospedado, fui pensando em Maria Angélica. Como era jovial e, ao mesmo tempo madura em algumas considerações. E o seu sorriso... Ah, o seu sorriso! Estava encantado. Eu que nunca acreditara em amor à primeira vista, permanecia extasiado; quem sabe apaixonado, conclui.
Como ainda faltava algum tempo para o almoço, decidi repousar um pouco. Deitei-me e logo peguei no sono e no sonho: e lá estava eu num jardim em frente de uma casa grande que parecia ser a morada principal de uma fazenda. Sentado num banco de madeira ornamentado com entalhes que pareciam uma esfinge, acendi um cigarro enquanto observava os pássaros que por ali realizavam alguns malabarismos enquanto voavam.
O lugar me parecia familiar, mas não lembrava quando o conhecera. Então ouvi um sorriso inconfundível. Era Maria Angélica que vindo não sei de onde caminhava em minha direção, com um belo vestido branco bordado com estrelas azuis. Sentou-se ao meu lado e trazia nas mãos um livro. Perguntei-lhe sobre o título do livro, disse chamar-se Amor Nos Tempos do Cólera de Gabriel Garcia Márquez. Segundo ela, era uma história sobre amor, envelhecimento e morte; uma espécie de reflexão sobre esperança e obstinação. 
Lembrei-me que já tinha lido o livro algum tempo, e assim conversamos um bom tempo sobre seu conteúdo.  Então disse que não conseguiria viver um amor como o do romance, pois encarava a vida com maior praticidade, apesar de considerar-se uma mulher romântica. Fiquei calado apenas ouvindo a sua preleção a respeito do livro. Na verdade, percebendo que não tinha nada a acrescentar à sua interpretação eu preferi ficar saboreando meiguice da sua voz.
De repente, assim como veio se foi, deixando para traz apenas o som do seu sorriso e o cheiro do seu perfume. E eu permaneci ali sentado, refletindo sobre a vida e seus encantos, quando fui chamado à realidade pelo som de um foguetório retumbante vindo dos lados do arraial.
Acordei, olhei no relógio já passava do meio dia, vesti-me rapidamente e segui em direção ao restaurante onde combinara almoçar com Maria Angélica. Chegando lá solicitei uma mesa ao primeiro garçom que encontrei que gentilmente me cedeu uma de frente para a porta de entrada. Achei bom, pois dali podia observá-la chegando. Sentei e pedi uma cerveja e uma pequena porção de queijo minas, e enquanto esperava passei em revista o primeiro momento que a vi formosa no baile. Por certo eu estava apaixonado por Maria Angélica. Porém, sabia que não devia por a carroça na frente dos cavalos, antes tinha que saber o que pensava a meu respeito; se tinha alguma simpatia por mim, se continuaríamos a nos ver e coisa e tal.
Enquanto estava ali confabulando comigo mesmo a respeito do futuro, as pessoas que entravam no restaurante passando perto da minha mesa me cumprimentavam com simpatia; pareciam até saber que eu estava a espera de alguém. Passou meia hora e nada da moça aparecer. Um tanto quanto impaciente pedi mais uma cerveja e continuei ali bebericando de olho na entrada. Nesse ínterim, lembrei-me que certa vez numa festa do Padre Vitor em Três Pontas, eu marcara um encontro com uma moça e acabei amargando horas no banco da praça em frente à igreja matriz sem que a dita aparecesse. Só que daquela feita eu não estava apaixonado, era apenas uma paquera comum. Agora era diferente, eu estava encantado com Maria Angélica.
Passados mais alguns minutos, eis que ela surge entrando no restaurante. Meu coração saltou do peito quando ela surgiu sorridente e sozinha. Logo se desculpou pela demora, contando que houvera um contratempo com a prima e isso a havia atrasado.
— Tudo bem, eu lhe disse, coisas assim acontecem...
— Fiquei preocupada, pensando que você poderia tomar o atraso como desfeita...
— Nada disso, eu entendo...
Na verdade eu estava aliviado por ter sido só um pequeno contratempo a causa do seu atraso. Almoçamos a saborosa refeição que nos foi servida e depois fomos caminhar na praça. Passamos toda tarde juntos e conversa foi o que não faltou. Maria Angélica era muito espirituosa e transbordava contentamento com a vida.
Ao final da tarde, depois de muitas horas agradáveis juntos e antes de nos despedir, falei-lhe que gostaria que continuássemos a manter contato e que, embora nós morássemos em cidades diferentes, eu poderia visitá-la e assim iriamos nos conhecendo melhor. Quando disse isso, me olhou com alguma ansiedade e falou que poderíamos nos comunicar inicialmente pelo telefone ou carta, e depois resolveríamos quem visitaria quem. Pediu o número do meu telefone e disse que eu deveria aguardar o seu contato. Depois, fitando-me longamente nos olhos com ternura aproximou-se e nos beijamos longamente; um beijo que posso dizer avassalador; uma viagem de corpo e alma ao centro mais profundo do paraíso onde o amor e sua magia reinam absolutos. Permanecemos abraçados por algum tempo e depois dissemos adeus.
Ainda meio aturdido com o desfecho daquele passeio, caminhei em direção à pousada de onde eu seguiria viagem de volta a Três Corações. Difícil foi achar palavras para descrever toda emoção que sentia. No carro, de volta para casa, eu via Maria Angélica em tudo que passava à beira da estrada; num pássaro, numa flor e até no firmamento quando surgiram as primeiras estrelas. Eu estava caído de amores por ela, como diria um poeta meu amigo.
Passado uma semana, eu ainda estava sob os efeitos do encontro com Maria Angélica.  Dormia e acordava pensando nela. Quando o telefone tocava, o meu coração disparava na esperança de ouvi-la. E assim se passaram dois meses sem nenhuma comunicação. Às vezes, eu até pensava que tudo aquilo tinha sido um sonho, que nada fora real, mas, a lembrança daquele beijo, do seu sorriso e da sua voz era muito viva em minha memória.
Gregório, um amigo ao qual eu tinha confidenciado o acontecido, me disse:
— Vai com calma, Fernando, vai ver a moça anda muito atarefada na escola onde trabalha, esse mês é final de semestre...
— É pode ser que você tenha razão...
E assim mais duas semanas se passaram, até que um dia bem cedo Gregório apareceu lá em casa com um jornal na mão:
— Olha aqui Fernando, você não disse que a moça chamava-se Maria Angélica, filha do Leonardo Paiva o dono do café em Boa Esperança?
— Sim, mas o que isso tem a ver?
— Pois bem, meu caro, aqui está sendo anunciado o seu casamento... 
— Me deixa ver esse jornal Gregório...
E foi assim que aconteceu, um amor mais ido do que vivido.

Autor: Willes S Geaquinto - Varginha/MG

terça-feira, 22 de março de 2016

Para sempre

Autor: Willes S Geaquinto

Dolores, filha única de Dona Conceição, era considerada a moça mais formosa de Três Pontas e adjacências.  Nos bailes no clube da cidade os rapazes competiam para dançar com ela. Porém, Dona Conceição, que era viúva, sempre acompanhava a filha, marcando de perto aqueles mais afoitos que se aproximavam para convidá-la. Como na cidade todos se conheciam, fazia questão de afastar da filha aqueles que ela considerava como “fiteiros”; os que só queriam passar tempo sem compromisso sério.
Dolores tinha vinte e dois anos e esbanjava graça e beleza, era clara, tinha cabelos louros, os olhos esverdeados e mais ou menos um metro e setenta e altura. Tinha estudado um tanto e só parou para ajudar a mãe na administração da fazenda que o pai deixara ao falecer. Ainda não tinha namorado e reagia com indiferença aos rapazes que a assediavam, apesar de alguns pertencerem a famílias importantes da cidade e serem considerados bons partidos.
Embora a mãe fizesse questão de protegê-la, Dolores não era assim tão frágil, já que boa parte do serviço da fazenda era quem comandava. Os empregados a respeitavam muito, pois, como crescera sempre acompanhando o pai, aprendera como tudo funcionava na propriedade. Além de café e milho, a fazenda produzia leite e também criavam cavalos de raça.  O capataz chamava-se Sebastião, um caboclo forte e dedicado, de um metro e noventa de altura que trabalhava e morava com sua família nas terras da fazenda desde que o pai dela ainda era vivo. Praticamente Dolores e Tião, como a família o chamava, tocavam a fazenda a contento, enquanto Dona conceição cuidava dos outros afazeres.
Próximo à festa de Padre Victor, foram até a cooperativa dos cafeicultores para acertar a participação deles na cavalgada a ser realizada em homenagem ao padroeiro da cidade. Chegando lá o gerente da cooperativa os apresentou a Dionísio, um engenheiro agrônomo recém-formado, vindo de Viçosa para prestar assistência técnica aos cooperados. Enquanto Tião foi tratar da cavalgada, Dolores e Dionísio entabularam uma conversa como se já se conhecessem há muito tempo, o que não passou despercebido ao Tião que na volta para a fazenda comentou com Dolores:
— Uai, você já conhecia aquele moço?
— Não, foi a primeira vez que eu o vi. Achei-o bastante simpático e parece que é bem entendido na profissão dele.
— Ah bom, então vocês conversaram sobre a fazenda?
— Sim, o que mais poderia ter conversado, homem?
— Nada, apenas perguntei...
— Ele ficou de ir à fazenda fazer uma visita técnica um dia desses...
Tião, mudando de assunto, contou que estava tudo certo para participarem da cavalgada; disse que iriam com mais alguns empregados representar a Fazenda Bela Vista no evento.
Quando chegaram à fazenda Dona Conceição perguntou por que demoraram tanto tempo na cooperativa. Então Tião explicou sobre os acertos da cavalgada e Dolores contou que conhecera o novo engenheiro agrônomo da cooperativa. Ela ouviu e prestou atenção ao entusiasmo da filha ao falar do rapaz. Depois perguntou ao Tião sobre o tal agrônomo, ao que ele respondeu reticentemente:
— Parece ser muito estudado e entendido da profissão, e é bem recomendado pelo povo da cooperativa. A Dolores conversou um tempo com ele e foi só.
Meneando a cabeça deu por encerrado o assunto. Depois passou a conversar sobre os preparativos da cavalgada no dia da festa do Padre Victor, do qual era devota fervorosa.
Desde a manhã em que conhecera Dionísio na cooperativa, Dolores volta e meia lembrava-se do rapaz, dos seus modos educados e da sua simpatia. Parecia que alguma coisa dentro dela estava despertando, só que não sabia bem o que.  Chegou até sonhar que cavalgava com ele pelas terras da fazenda...
Chegado o domingo da festa, Dolores acordou cedo e foi com o Tião preparar os cavalos. Depois de tomar um café reforçado, eles seguiram em direção à praça da igreja de Nossa Senhora Aparecida, local de onde partiria a cavalgada que, depois de percorrido uns sete quilômetros, iria findar em uma capela de um bairro rural denominado Faxina onde, segundo contam os devotos, o santo padre tinha o costume de rezar.
Tão logo chegou ao local, Dolores observou com certo contentamento que lá estava o Dionísio montado num cavalo branco de belo porte, aproximou-se dele e comentou:
— Não sabia que você também gostava de montar a cavalo...
— Eu fui criado numa fazenda onde a minha diversão preferida era cavalgar...
— Interessante eu também gosto de passeios assim...  
Deu-se início à cavalgada e os dois seguiram lado a lado, com Dolores montada em seu cavalo predileto, um puro sangue lusitano preto, raro na região, que ela tratava com muito desvelo. Mais atrás o Tião observava com certo gosto o casal cavalgando juntos, apesar de saber que Dona Conceição talvez não fosse apreciar a novidade. Na verdade, ele nunca tinha visto Dolores tão à vontade como ao lado de Dionísio.
— Isso vai dar o que falar, pensou Tião...
Ao entardecer quando regressaram, Dolores e Dionísio se despediram alegremente, com a promessa de brevemente ir visitá-la na fazenda.
Mal a semana começou, os comentários sobre o casal já corriam à solta pela cidade, por isso Dona Conceição chamou o Tião para conversar:
— Então Tião, é verdade que os dois não se largaram durante a cavalgada?
— Eles cavalgaram juntos e lá na Faxina também ficaram proseando...
— E você percebeu se ela estava interessada no rapaz?
— Aí isso eu não sei, só sei que pareciam bem animados, acho que a senhora devia conversar com ela sobre esse assunto, eu não tenho muito que comentar...
— Está bem Tião, vou conversar porque já tem gente falando que eles estão namorando...
— A senhora sabe que o povo fala demais, não é mesmo?
— É eu sei, mas fico preocupada...
Quando Dona Conceição acabou de falar, Dolores entrou na cozinha...
— Do que tanto conversam vocês dois?
Tião só deu um resmungo e tratou de sair, deixando as duas sozinhas. A mãe então falou:
— É que eu estava preocupada como falatório sobre você e o agrônomo da cooperativa, dizem que vocês não se largaram durante a cavalgada...
— Ora mãe, o povo fala o que quer, nós apenas ficamos juntos e conversamos muito, o Dionísio é uma pessoa bastante interessante, daí a boa prosa...
— Boa prosa? Então foi só isso?
— E o que mais poderia ser? Conversar faz bem, o povo daqui é que é muito xereta!
E assim, tudo ficou até na terça-feira, quando logo cedo Dionísio apareceu na fazenda onde foi recebido por Dolores e pelo Tião. Trocaram cumprimentos e depois o levaram para conhecer a fazenda. Dionísio trocou algumas opiniões com o capataz sobre a colheita e o beneficiamento do café da fazenda e depois seguiram conversando outros assuntos.
Passado algum tempo Tião voltou para a sede da fazenda deixando Dionísio e Dolores sozinhos junto à cocheira dos cavalos, pois, tinha percebido que eles tinham coisas para conversar em particular. Chegando lá encontrou Dona Conceição um tanto ansiosa, pois não estava presente no momento em que o rapaz chegara à fazenda. E assim que ele chegou ela foi logo indagando:
— Então o que moço veio fazer?
— Ele veio visitar a fazenda, conhecer o lugar para fazer um planejamento...
— Uai, desde quando nós precisamos de alguém para planejar as coisas para nós?
— Isso faz parte dos planos da cooperativa para aumentar e valorizar mais a produção dos cooperados, isso foi o que explicou...
— Se é assim, tá bom. E a onde eles estão agora?
Como resposta à pergunta da Dona Conceição, eis que chegaram Dolores e Dionísio. Meio desconcertada cumprimentou o rapaz que lhe estendeu a mão se apresentando. A partir dai foi um interrogatório sem fim; queria saber tudo sobre ele. Dolores que ora olhava para a mãe, ora para o Dionísio, tentava disfarçar o incomodo que estava sentindo. Por outro lado, ele estava tranquilo, respondia a mãe dela com certo prazer, pois, parecia entender o que estava acontecendo.
Por fim Dona Conceição convidou Dionísio para experimentar o café da fazenda e as quitandas que ela mesma preparava. Dolores e Tião ficaram aliviados com a mudança de tratamento da matriarca para com ele e sentaram-se à mesa para saborear o farto café.
Depois, a sós, antes de ele ir embora, Dolores pediu desculpas pelo interrogatório da mãe:
— Não se preocupe, a sua mãe faz muito bem em zelar por você...
— Então você a entendeu, né!
— Sim, entendi. Agora vamos falar de nós...
Quando ouviu essa última fala, Dolores estremeceu ficando quase sem palavras:
— De nós?
— Sim, desde o primeiro dia que nos encontramos na cooperativa e depois na cavalgada eu percebi que há uma boa sintonia entre nós, partilhamos de alguns gostos em comum, temos certas afinidades, então eu gostaria de pedir que fôssemos namorados...
Naquele momento Dolores sentiu como se estivesse flutuando em alguma nuvem, que algo dentro dela estava se rompendo e abrindo-se como se fosse luz ou algo semelhante. Passou a mão pelos cabelos louros, respirou e respondeu:
— Sim, eu aceito que sejamos namorados, mas, para sempre...
Dito isso, deu a mão para Dionísio como se estivessem selando aí o compromisso de ficarem juntos, para sempre.
Depois desse dia passaram-se seis meses até que Dolores e Dionísio, com as bênçãos de Dona Conceição e do Padre Victor, se casaram. E pelo que se sabe, até os dias de hoje estão todos muito felizes; têm um belo casal de filhos e todas as tardes cavalgam pela fazenda, namorando... 

Autor: Willes S Geaquinto - Varginha/MG

segunda-feira, 21 de março de 2016

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domingo, 20 de março de 2016

A infeliz Tarcília

Autora: Maria Thereza Maith Moreira

Tarcília encostou-se na amurada do navio, o olhar perdido ao longe parecendo buscar algo além das ondas do mar, um misterioso lugar onde a felicidade fosse perene e onde a gente pudesse adentrar sem a bagagem das desventuras.
Em sua tela mental começou a projetar-se o filme já tantas vezes assistido, ou melhor dizendo, sadicamente sofrido, a que ela própria intitulara "A Infeliz Tarcília".
Nascera num lar empobrecido, onde seus pais, principalmente o seu pai, tentava a todo custo manter um padrão de vida compatível com a tradição da família que já fora abastada.
Restava-lhes alguma coisa da antiga nobreza. Moravam em uma casa vistosa, embora já velha e agora impossível de ser conservada.   
Por esse motivo os pais não recebiam nem deixavam os filhos receberem ninguém. Não queriam expor os tapetes desgastados, os móveis quebrados, as cortinas rasgadas.
Não frequentavam a sociedade porque não tinham posses para acompanhar o luxo dos clubes da elite e frequentar lugares menos elegantes, nem pensar!
Pelo mesmo motivo as filhas não puderam estudar, pois eles nunca permitiriam que frequentassem colégios baratos ou escolas públicas e não tinha como pagar os colégios mais caros.
As quatro meninas tiveram uma infância reprimida e chegaram à adolescência infelizes e revoltadas. Queriam trabalhar fora, estudar a noite, fazer o que faz a maioria das moças de classe média, mas, não! O pai achava que seria humilhante para ele não poder sustentar as filhas, precisar que trabalhassem fora.
Tarcília só via uma saída para sua vida infeliz. Casar-se!
E foi o que fez. Com o primeiro namorado, muito jovem, sem nem conhecê-lo direito, sem pensar duas vezes.
O pai aprovou o casamento, conscientemente ou não, satisfeito por ter uma a menos para sustentar.
O casamento não foi a maravilha que Tarcília esperava, mas ainda era melhor do que a vida monótona que tinha na casa dos pais.
Logo depois do nascimento da filha, porém, piorou muito e ela não demorou a descobrir que o marido a traía.
Que fazer?
Depois de muito pensar tomou a decisão mais fácil. Fingir que não sabia e continuar a viver despreocupada, sem precisar assumir a pecha de mulher rejeitada. Pra que?
Floriano, o marido, a tratava bem, dava-lhe tudo o que ela queria e a filha o adorava.
Mas a Infeliz Tarcília não podia ficar em paz para sempre.
Um belo dia ele confessou-lhe que se apaixonara por outra e queria o divórcio. Ela podia ficar com a casa, o carro e ele ainda lhe daria uma esplenda pensão que lhe permitiria viver confortavelmente.
E o seu casamento que já nem se podia mais chamar de casamento, acabou de acabar.
Aos domingos, Floriano vinha buscar a filha para passear e Laís esperava ansiosamente por ele.
Voltava contando tudo que fizera, excitada, e Tarcília ouvia, meio enciumada.
—O Papai levou-me ao parquinho. Eu tomei sorvete e brinquei numa porção de brinquedos
Ela já a levara a esse parquinho dezenas de vezes, ela tomara todos os sorvetes que queria e brincara nos tais brinquedos até cansar, mas nunca se mostrava tão entusiasmada como quando era o pai que a levava.
Não demorou muito para que ela se afeiçoasse a madrasta a quem chamava de Tia Gracinha.
Tarcília revoltou-se. Não era obrigada a permitir que a filha testemunhasse a pouca vergonha do pai, mas, lembrando de sua infância triste, de quanto lhe fizera falta o carinho paterno, tinha que reconhecer que, tirante todos os seus defeitos, Floriano era um ótimo pai e a tal Gracinha devia ser mesmo "uma gracinha" para Laís encantar-se tanto com ela.
E resolveu engolir o sapo.
Quando Laís começou a namorar o Ivo, um parente afastado da Gracinha, muito amigo da casa, afastou-se mais ainda da mãe, pois os encontros eram na casa dela. Era lá que almoçavam aos domingos, de lá que saiam para os passeios, era com eles que iam ao clube, ou à praia.
Tarcilia ficava feliz vendo a filha divertir-se tanto, mas sua vida pessoal era muito triste, sempre só, sem amigos, sem nada com que ocupar os seus longos fins de semana.
Depois que Laís se casou, então, Tarcília ficou mais só do que nunca.
A filha e o genro vinham almoçar com ela aos domingos.
Tarcília os esperava ansiosamente. Preparava tudo que Laís gostava, mas eles apareciam sempre atrasados, almoçavam rapidamente e iam embora, pois já haviam marcado com o pai e a Tia Gracinha para ir ao clube onde passavam a tarde toda, ou o Ivo queria assistir ao jogo de futebol com o sogro com quem se dava muito bem.
E Tarcília sentia-se cada vez mais anulada, sem ninguém que realmente se incomodasse com ela.
Até surpreendeu-se quando a Laís contou que iriam os quatro (tudo que faziam era sempre os quatro) fazer um cruzeiro e perguntou:
—Você não quer ir também? Sempre disse que um dia faria uma viagem de navio. Chegou a hora!
—Imagine! Você se esquece que a Gracinha e eu somos rivais. Como é que poderíamos fazer alguma coisa juntas.
—Ora, Mamãe! Que bobagem! Já faz tanto tempo. Tem que passar por cima disso. Além disso, se não quiser não precisa nem se aproximar dela, o navio é uma pequena cidade. Viajam milhares de pessoas. Vai ser bom para você, distrair-se, conhecer gente...
Tarcília resolveu aceitar a sugestão da filha. Afinal precisava deixar de esconder-se envergonhada de sua situação como se fosse ela a culpada. Ia enfrentar a outra. Fazer amizades, mostrar ao Floriano que ele não lhe fazia nenhuma falta.
No ônibus que os levaria até o porto, porém, já estava arrependida.
Como fora das últimas a comprar o pacote de viagem, ficou no último banco, isolada de todos. Ao seu lado um garoto irrequieto, o tempo todo levantando para falar com os pais no banco da frente, ou estes voltando-se para repreendê-lo.
Na frente os outros passageiros, conversavam, brincavam uns com os outros com a alegria própria de quem empreende uma viagem de recreio.
E Tarcília sentia-se mais só do que nunca, deslocada, como se fosse o mico preto no jogo da vida.
E reprisava incansavelmente o seu filminho particular, morrendo de dó de si mesma.
E agora estava ali. Realizando um velho sonho. Viajando de navio, mas não estava feliz. Por que?
Lais aparece:
—Mãe! O que você faz aqui sozinha? Por que não vai ver o filme que está começando lá na sala de projeção. Dizem que é muito bom.
Antes que Tarcília respondesse, Ivo apareceu ao longe, acenou para Laís e ela correu ao seu encontro.
Tarcília não queria ver filme algum. Já chegava o "A Infeliz Tarcília" que não cansava de rever.
Alguém se aproximou e Tarcilia reconheceu o comandante do navio.
Cumprimentou-a, perguntou se estava gostando da viagem e acabou convidando-a para tomar um refresco.
Conversaram. Ele pouco falou, mas ouviu com atenção e interesse tudo que ela disse e ela sentiu-se valorizada como nunca.
Nunca ninguém tivera tanta atenção com ela e ela sentiu que uma tênue esperança aquecia-lhe o coração.
Durante o resto do dia pensou nele, no que conversaram, no seu olhar, no seu sorriso.
Nunca aventara a idéia de casar-se novamente, ter um namorado ou um caso, mas, ia ousar! Ia divertir-se e mostrar para o Floriano que estava viva!
À noite, quando descia para o jantar, ele novamente a encontrou e convidou-a para a sua mesa.
Acompanhou-o com o coração aos saltos, as mãos tremendo, mal acreditando no que estava lhe acontecendo.
Mas, ao chegar a mesa teve uma surpresa.
Ali já se encontravam duas mulheres que ele apressou-se a apresentar:
—Liliam, minha esposa, está de férias e veio viajar comigo.
Sorriu olhando apaixonadamente para ela:
—É como se eu também estivesse de férias. E esta é a Cléa. Está viajando só, como você e eu pensei que gostariam de se conhecer.

Autora: Maria Thereza Maith Moreira - Sorocaba/SP