sábado, 8 de outubro de 2011

Você sabe por que existe? - Autora: Zélia Maria Freire

Ontem quando fui dormir não fechei as janelas nem cerrei a cortinas. Hoje fui acordada pela claridade que invadiu o quarto. Diante de mim, postado na parede estava ele com o seu tic-tac, então eu disse: viu, não foi o seu tic-tac que me acordou, e ele impassivo continuou tic-tac, tic-tac, então eu perguntei: você sabe por que existe? Sem obter resposta retruquei: porque antes de você, existiu o relojoeiro, mas expliquei: esta expressão não é minha é de Voltaire, sintetizando o pensamento do Cristianismo quando afirma que não existe a criatura sem o seu Criador (estou pensando seriamente sobre isto, minha amiga querida Hull de La Fuente).

Continuo deitada, o telefone toca, ouço mais do que falo, respondo coisas não perguntadas, quando não respondo nada... Levanto, a janela me atrai, as pessoas lá em baixo passam sem fazer ruído, parecem que andam pé ante pé, nem a chuva que cai tem o seu barulho característico, cai suave. O silêncio é perturbador e eu me dou conta de ausências que me deixam tristes, de palavras que não mais ouço e das quais sinto falta...

É... Confesso que neste momento me veio o desejo de falar alto e ouvir o som das minhas próprias palavras. Fechei a janela e voltei pra cama. Fui terminar a leitura de “A Emoção Solidária” de João Wilson Mendes Melo, que me levou a escrever esta crônica.

Autora: Zélia Maria Freire - Natal/RN
Postagem autorizada por e-mail no dia 04/10/2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Um homem de sorte - Autor: Augusto N Sampaio Angelim

Noite de muitos mosquitos e besouros, que chegaram com as primeiras chuvas do ano no sertão. As poucas ruas do lugarejo estão enlameadas. Numa bodega, três homens conversam. Um pequeno lampião a gás ilumina, parcamente, o local. Na mesinha de quatro tamboretes, três homens. Um deles tem um cigarro de palha aceso no canto da boca. Outro usa chapéu e também fuma. O terceiro tem óculos. Três copos, todos com aguardente. Entre uma bicada e outra as conversas se arrastam vagarosamente. A bodega tem três portas. Duas na parte da frente e a outra, fica na esquina. Prateleiras do começo ao fim da parede. De tudo um pouco. Pregos. Doces. Carne seca. Charque. Sal.Fósforos. Giletes. Fumo. Papel de enrolar fumo. Bebidas. Geladeira de querosene. A energia vem  de um motor a diesel, que fica no final da rua e é desligado as dez da noite. Nas festas, as lâmpadas das ruas ficavam acesas a meia-noite ou até quando o prefeito tivesse vontade. Entre o balcão e a geladeira, um cachorro dormindo.

- Esse minino de Dona Júlia vai mermo prá Sum Paulo, cumpadre Nanô?

Mais uma bicada sorvida vagarosamente. Põe o copo na mesa. Pega papel, enrola o fumo. Vai, responde o compadre. O cachorro levantou uma orelha, como se quisesse saber da resposta.

O homem de óculos fala. Tai, se fosse da idade dele e não tivesse essa ruma de fios, eu tunbém ia.


A brasa do cigarro brilha e, por pouco tempo, clareia o local. A densa fumaça, logo, cobre-lhes os rostos.

- D. Júlia ainda não tirou o luto. Recomeça a conversa, o homem de chapéu, o mais velho deles, pegando a faca que tira da cinta para limpar a sujeira das unhas.

- Faz dois anos do passamento do farmacêutico, diz Nanô.

- Tão dizendo que a viagem do minino prá Sum Paulo é arrumação. Pro mode seu Chico da Loja.

- Nada disso, a viúva é direita.

- Eita, que seu Chico da Loja tem uma sorte disgramada, termina a conversa o homem que tinha puxado o assunto.

Ficam em silêncio. O cachorro abaixa a orelha. Somente se ouve o barulho da geladeira. Uma chuvinha fina começa a cair. Os besouros que estavam na rua, voam para dentro da bodega.

Autor: Augusto N Sampaio Angelim - São Bento do Una/PE
Publicação autorizada por escrito pelo autor da obra

domingo, 2 de outubro de 2011

Outrora e hoje - Autora: Celêdian Assis

Estive revendo uns livros guardados, alguns jamais havia visto, faziam parte do acervo dos meus pais. Um especialmente chamou-me a atenção, bem velhinho, amarelecido pelo tempo, roído por traças, de capa dura, formato pequeno, quase um livro de bolso. O dito cujo " Sol Posto" em versos, é datado de 1923. O escritor, Faria Neves Sobrinho, um brasileiro, mais precisamente pernambucano, que eu não conhecia.
Fiquei surpresa ao constatar que a 87 anos o autor já constatava que, se via nos jovens daquela época, uma tendência apática aos males da alma, que eu já com um pouco mais de meio século de vida, continuo assistindo, tão atual, quanto real.  “A mocidade de hoje não tem a alma que os de outrora mostravam.”     As nossas indagações continuam as mesmas, quanto aos jovens de hoje. Eles não tem gestos graves e medidos, nem sequer a aparência de velhos dos jovens de outrora, descrito pelo poeta, mas guardam na irreverência, o mesmo vazio de alma.
Então, questiono: seremos nós que mudamos e tornamos nosso olhar intransigente, ou serão mesmo os jovens de hoje, envolvidos que estão, neste turbilhão de modernidades, desprovidos de real alegria?
Transcrevo na íntegra, inclusive com a grafia e normas gramaticais próprias da referida data, que confesso chegaram a incomodar-me, senti falta de mais agudos e graves.

OUTRORA E HOJE
(Dedicado ao filho do autor)
E eu lhes dizia (e todos escutavam a minha voz pausadamente calma):
"A mocidade de hoje não tem a alma que os de outrora mostravam:
Nos meus tempos que o Tempo, de apressado,
já sepultou nos longes do passado,
tínhamos nós, rapazes,
na alegria feliz da mocidade,
os timidos, a audacia da bondade,
e o temor dos maus actos, os audazes.
Tédios da vida? Para longe os tédios.
Males da vida? Para que remedios...?
Tínhamos algo? Espírito contente,
davamos tudo, prodigos; se nada,
na ebriez da existencia descuidada,
davamos igualmente...
E eramos francos, eramos sinceros.
Para nós, sempre amiga e dadivosa,
não tinha a natureza tons austeros;
tudo nos parecia côr de rosa.
Hoje, onde mais a flor dos tempos idos?
Imberbes rapazelhos
têm, pelos gestos graves e medidos,
a aparência de velhos.
A expansiva alegria de ser moço,
de ser bom, generoso, ufano, ousado,
resoluto, direito,
hoje é tão só sorriso contrafeito,
enexpressivo, insôsso...
Tudo, de todo, agora está mudado?"
Calei-me. Houve um silêncio de respeito
aos meus cabellos brancos. Entretanto,
alguem, moço de certo, de um recanto falou:
E estas palavras me chegaram:
"Os olhos e a alma delle é que mudaram..¨

Celêdian Assis – Belo Horizonte/MG



Comentário da autora:
Obrigada, meu amigo Carlos, ter meus textos publicados em seu espaço tão cativante, muito me honram. Contribuir para acrescentar às histórias de gente e lugares, é acima de tudo contribuir com a nossa própria história, a que constrói a verdadeira identidade de um povo. Parabéns pela sua iniciativa de reunir aqui, contadores de histórias dos mais gabaritados, gente que como nós, valoriza as nossas origens. 
Um grande abraço,
Celêdian 



Publicação autorizada por escrito pela autora da obra

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Briga de rua - Autor: José Cláudio Cacá

A senha era um recado de alguém da turma:

- Fulano mandou dizer que vai te pegar lá fora.

O respeito pela inviolabilidade do lar, da escola e do local de trabalho era um combinado de ética. Não estava escrito mas agia como lei,  pois o respeito age. A gente ficava organizando torcida para a briga depois da aula.

 Lá fora, a turma do êh, êh, êh, êh, - atiçando. A turma do “deixa disso”, só depois que esquentava o agarra-agarra é que entrava para separar. Brigava-se por nada. Mas tinha-se uma ética da desavença. Arma, de espécie alguma. Tinha-se que ser em pé (ou mão) de igualdade. Havia outras modalidades de rivalidades: rua de baixo contra a rua de cima, bairro contra bairro, turma do bom da boca, turma do cara mau.

Não há mais briga de rua. Raridade. Resolvem-se todas as diferenças à bala, à faca, paus, pedras e machados. Quando alguém desperta os sentimentos mais primitivos em outro alguém, o caminho que o progresso humano tem indicado  é o da eliminação do adversário. É bom que se diga que a violência de espécie alguma é defensável.

Teve os tempos das brigas de rua. Uma violência mais honesta e menos covarde, mesmo se um lado é mais forte que outro. Há a possibilidade da defesa e da desforra. As turmas de ruas de outrora, evoluíram hoje para as gangues de extermínio. As brigas se davam por terrenos, sim. Terrenos de namoradas, ciúmes de irmã, dos times de futebol da rua de baixo contra a rua de cima. Uma valentia gratuita, mas que nunca passava de uns safanões ou uns chutes na bunda. Nada comparado a extermínio com dezenas de tiros de atualmente. Acho até mesmo que essa turma de hoje é mais medrosa. Só tem valentia armada. Isso sem falar da violência institucional, com a qual muitos concordam quando o estado a pratica em nossa pretensa e quase sempre obscura defesa.

Autor: Cacá – José Cláudio - Belo Horizonte/MG
Publicação autorizada pelo autor através de e-mail

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Homem Sem Cabeça - Autor: Carlos Lopes

Vou lhes contar uma estória mal-assombrada, de ¨almas penadas¨, ou como se diz no Recife, de assombração. Pra falar a verdade é uma daquelas, cagada e cuspida do imaginário popular, criadas ou recriadas por marmanjos nas calçadas das igrejas do nordeste.  A única diferença é que neste caso aconteceu de verdade, cuja vítima foi um amigo, o qual não dispensa comentários de jeito algum, seja pela sua pessoa ou pelos serviços prestados à cultura e no serviço público do estado.

Material retirado para compor livro

sábado, 17 de setembro de 2011

Com que roupa eu vou - Autora: Zélia Maria Freire




Ora, pois, cá penso...Depois do gesto insultante da luva no meu rosto, não me restava outra alternativa, a que não fosse de me bater em duelo. Mas espera ai, com que roupa eu vou? A caráter? Fantasiada de esgrimista? E as armas... Florete, sabre ou espada? E os padrinhos? Ai!– que me perdoe a expressão chula, canhestra - mas vou mandar aqui um ai que saco!!! Melhor não ir... ou ir...? Afinal, nada vale a pena quando a alma é pequena... Ou eu troquei as bolas ... é tudo vale a pena quando a alma não é pequena? Cadê o mano Caetano para me tirar a dúvida, já que o Pessoa foi-se.

Confesso, sem falsa modéstia, que, nada mais admirável na minha pessoa do que o meu fair play... ou flair play? Dirime a dúvida aí Marília Paixão, já que és versada na língua do monstro sagrado que pôs na boca do Hamlet a célebre frase: To be or not to be, that’s the question (  que mania pedante esta minha de citação! ). Mas, como eu ia dizendo... ou ia dizer...? primo por um comportamento civilizado entre os humanos, inclusive os animais, e assim sendo, não vou duelar, estou sabendo de uma festinha à fantasia  na casa de um casal amigo meu e é pra lá que eu vou. E mais uma vez me pergunto: com que roupa eu vou?

Autora: Zélia Maria Freire - Natal/RN
Publicação autorizada por escrito pelo autor da obra

Seu Brasilino, o jardineiro - Autora: Vanice Ferreira

Durante muitos anos tivemos um jardineiro chamado Brasilino. Ele parecia ter uns sessenta anos, usava um chapéu de palha, que só tirava na hora das refeições. Cuidava muito bem das ávores, flores, horta, e deixava a grama linda!Tinha dedicação e carinho com as plantas.

Desde que começou a trabalhar em nossa casa, “Seu” Brasilino já estava ficando surdo, quando meu pai ou minha mãe queriam faltar com ele, sobre o serviço que deveria ser feito, eles falavam alto e devagar para que “Seu” Brasilino entendesse. Ele quase não sabia ler nem escrever, mas conhecia os números, era assim que conseguia saber qual o ônibus deveria pegar.

Depois do almoço, enquanto descansava, ele fazia alguns cigarros de palha, e tranquilo os fumava. Com o tempo, por estar muito velhinho, ele deixou de trabalhar... Foi difícil encontrar e se acostumar com outro jardineiro. Por um bom tempo meu pai cuidou do jardim, não muito bem, pois não podia dedicar-se como “Seu” Brasilino fazia.

Lembro-me que uma vez ao conversar com o provável novo jardineiro, meu pai falava alto e devagar com ele, então o jardineiro lhe respondeu: “O senhor me desculpe... sou velho enxergo pouco, mas não sou surdo!"


Vanice Ferreira - Curitiba/PR
Publicação autorizada por escrito pelo autor da obra

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A foto - Autor: Carlos Costa

O “retratista” estava para chegar. Era raro um “retratista” ir ao Varre-Vento na década de 70.

- Vistam as melhores roupas, para receber o “retratista”. Como as fotos eram somente em preto e branco, minha mãe dizia que com roupas brancas sairíamos melhor.

- Coloquem um banco comprido ao lado da casa que eu vou decorá-lo para o “retratista”. Na verdade, o que minha mãe tentava esconder é que o banco era velho e feio.  Por trás do banco, para encobrir a parede de madeira, foi afixado também um pano branco. Pronto. Estava tudo preparado!

O motor parou. O “retratista” desceu e foi logo cuidando do que ele tinha ido fazer. Retirou de uma bolsa uma imensa máquina, um tripé na qual fixou a máquina tipo sanfona e deixou tudo no ponto.

- Sentem todos aqui, da forma que vocês nasceram.

Virou uma “escadinha” porque éramos em número de dez, na época. Todos sentados ao lado da casa de madeira, que mais tarde foi arrancada totalmente por um redemoinho, em um lugar que ainda hoje me traz boas recordações – o Varre-Vento.

Sempre tentei compreender porque chamavam o local de “Varre-Vento” se no local, nem ventilava muito, exceto no dia do vendaval que destruiu muitas coisas. Na realidade,  era até um pouco quente em dias normais. O  local, no município de Itacoatiara, tinha algumas pessoas felizes, inclusive a minha: meu pai, minha mãe e meus nove irmãos perfilados um ao lado do outro.

- Todos prontos? – era o “retratista” quem perguntava, mas minha mãe decidiu mudar as posições. Os mais velhos ficaram atrás, os mais novos ficaram na frente e o “retratista”, então, foi autorizado a “bater o retrato”.

- Daqui a um mês, quando ficar pronto a foto e eu colocá-la em uma moldura, entregarei – prometeu o “retratista”.

Depois da foto “tirada”, eu e meus irmãos tiramos nossas melhores roupas, vestimos nossos calções e ficamos comentando as coisas que considerávamos “estranho”.

- Você viu aquela lâmpada que acendeu e apagou e saiu muita fumaça depois? – perguntou meu irmão.

A foto chegou como o prometido. Estavam lá todas as dez almas gravadas na fotografia! E ficamos todos felizes por vermos como éramos porque nem espelhos nós tínhamos em casa. E nossas almas ficaram estampadas na foto, como diziam os índios do lugar!


Autor: Carlos Costa - Manaus/AM
Publicação autorizada por escrito pelo autor da obra


Comentário de Carlos Costa

Um log cultural que objetiva divulgar escritores é uma raridade nesse país. Confesso que não o conhecia, nem a você Carlos Lopes, pessoa formada em História com uma grande tendência ao universal, nem ao seu blog que conta com a colaboração de escritores renomados ou não, de várias partes do Brasil. Parabéns, Carlos Lopes e parabéns pela brilhante criação do blog para divulgar a cultura, tão desprezada no Brasil de hoje.

Um abraço
Carlos Costa

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Infância - Autora: Flávia Marques

A menina ia para a escola na garupa da bicicleta do avô. E ele era todo orgulho desfilando com sua neta-estudante. Hoje a bicicleta não existe mais, só os ensinamentos que o caminho para a escola imprimiram no caráter da menina, muito mais que os livros e cadernos.
Autora: Flávia de Oliveira Marques - Campos dos Goytacazes/RJ
Blog da autora: http://www.luanaetrintaalmas.blogspot.com/
Publicação autorizada por escrito pelo autor da obra