domingo, 8 de julho de 2012

O Feiticeiro - Dias Índios (X) - Autor: Professor Wanderley Dantas

O ensaio da grande festa já durava um pouco mais de uma hora. Repentinamente, todos os homens saíram correndo em direção a um ponto da floresta. As mulheres não foram, e voltaram rapidamente às casas. Percebi o rosto assustado delas. Olhei o lugar para onde os homens estavam correndo. Notei no meio da mata a figura de um indígena. Era por causa dele toda aquela agitação. Olhei os jovens correndo em disparada até aquela figura parada no meio da mata. Mais uma vez, olhei o lugar em que havia visto o tal indígena, mas ele já não estava mais lá. Os jovens ainda entraram na mata, contudo retornaram de cabeça baixa sem encontrá-lo também.


 
Quando o cacique voltou, conversamos:
 
-O que houve? - perguntei.
 
-Apareceu um feiticeiro... - disse-me assustado.
 
-E o que ele faz?
 
-Por isso eu não deixo sua roupa pendurada no varal, Professor –explicou-me o cacique – Os feiticeiros podem vir de noite e fazer alguma maldade. Colocam alguma coisa na sua roupa e você ficará muito doente em três dias. Eu não saio de noite. Os feiticeiros ficam escondidos por aí e podem me lançar algum veneno e eu morro.
 
-Aquele feiticeiro se escondeu na mata?
 
-Não. Ele foi embora.
 
-Para onde?
 
-Pra aldeia dele... Vocês não tem avião? - tentou explicar-me o cacique - O branco tem avião quando quer viajar de uma cidade para outra, mas demora, não é? Os feiticeiros são muito mais rápidos do que o avião de vocês.
 
Naquele momento, creio que não consegui esconder o meu fascínio com aquela história. Que comparação! O feiticeiro era mais rápido do que o avião!
 
-Por isso não o acharam?
 
-Os feiticeiros tem uma capa. Eles colocam essa capa de onça sobre eles e, na hora, eles estão na aldeia deles. Eles colocam de novo a capa e somem, já estão na cidade. Ele vem e deixa capa escondida na mata. Vem e lança feitiço. Volta pra mata, coloca a capa e, na hora, já está na aldeia dele. O feiticeiro vem fazer mal. Ele usa veneno e os índios morrem. Eu não sei se aqui tem feiticeiro, na nossa aldeia, eu não sei. Ninguém sabe, só o pajé. O pajé dorme e sonha. Ele vê quem é o feiticeiro.
 
-E aí? Se o feiticeiro mata, o que vocês fazem quando descobrem quem é o feiticeiro?
 
-O meu irmão e o meu neto foram mortos por um feiticeiro, eu sei. O pajé daqui já nos mostrou quem é o feiticeiro e ele está lá na outra aldeia, mas o feiticeiro já morou aqui há muitos anos.
 
Eu sabia de quem ele estava falando. Havia um índio que passara por Brasília alguns anos atrás. Parece que houve algum contato entre ele e algum grupo carismático, pois ele voltou de Brasília curando as pessoas em nome de “Jesus, Maria e José”. Os indígenas daqui falam que já viram este índio feiticeiro andar sobre as águas! Na primeira vez que estivemos na aldeia, em 2007, o feiticeiro já não morava mais ali, mas a casa em que ficamos era a casa que ele morava antes de sair da aldeia. Ele se indispôs com a comunidade e foi expulso pelo povo. Naquela época, depois que saiu da aldeia, ele estava fazendo “sessões de cura” na cidade. Mas, depois, ele foi morar na aldeia maior. Até agora. Já fugiu de lá também. Aconteceram muitas mortes e vários indígenas atribuíram a ele essas mortes.
 
Nestes dias, aqui na cidade, eu estava dando carona a um indígena e então começamos a conversar sobre esse feiticeiro.
 
-Ele foi para onde?
 
-Professor, ninguém quer ele mais. Ele faz só maldade. Ele fica envenenando. Fica matando. Ele é muito poderoso. Agora, ele está escondido na mata. Ele fugiu. Ele sabe que nós estamos só esperando passar essas festas... Ele sabe que vai morrer. Já mandaram matar. Nós vamos matar. Meu filho é pajé. Ele viu. Ele sabe quem é o feiticeiro. Os pajés sabem quem são os feiticeiros. Eles fumam para ver. Eles veem os espíritos dos animais. Os pajés veem. Só os pajés podem nos salvar dos feiticeiros. Mas agora o meu filho, que também é pajé, está muito doente. O feiticeiro está dando choque nele. Está doendo muito no meu filho. Eu tenho que levá-lo num pajé mais poderoso, para ele não morrer...
 
Publicação autorizada pelo autor em 28/08/2012


 

sábado, 7 de julho de 2012

"Oração forte" - Dias Índios XI - Autor: Professor Wanderley Dantas

"Ih! Lu! Esqueci de avisar para vocês que não tem água na aldeia há duas semanas", disse o Cacique. Fiquei pensando como que se esquece de avisar que não tem água!...
 
Nossa água vem de um poço artesiano e é distribuída às torneiras que ficam do lado de fora das casas, sendo uma torneira para cada duas casas. Sob estas torneiras coletivas, tomamos banho, bebemos água, lavamos louça e roupa, etc. Todavia, não ter água alguma era uma situação que não prevíramos.
 
Em julho, nosso Cacique já havia esquecido também de nos avisar que não teria aula por ser um período de festas na aldeia. Ficamos lá assistindo as festas, gravando suas histórias, língua, traduzindo textos e aprendendo a língua, mas todo o material escolar que comprei para as aulas tiveram que esperar até o fim de agosto, quando terminaram as festas.
 
Assim, imprevistos como esses precisam ser tolerados. Não há como ficar voltando à cidade a cada problema ou falta de alguma coisa (exceto em caso de emergência), já que entrar e sair da aldeia têm um custo financeiro muito alto. Embora da cidade para a aldeia sejam apenas 5 horas de viagem, o carro fretado que nos leva à beira do rio e depois nos pega ali para nos levar de volta à cidade cobra $500,00 (quinhentos reais), além dos 100 litros de gasolina que temos que levar para abastecer o barco da nossa aldeia que nos busca e depois nos deixa na beira do rio novamente. Aqui, o preço da gasolina está R$ 3, 25 (três reais e vinte e cinco centavos)! Tudo isso sem contar as compras de subsistência que fazemos para passar o mês na aldeia. Assim, como todo bom professor neste país, pagávamos para dar aula, mas, evidentemente, há muitos amigos que nos ajudam para que possamos levar à aldeia uma educação de qualidade.
 
Então, quando vi entregarem um balde de plástico de 20 litros na mão da Lu, dizendo que tínhamos que pegar a água do rio e levar para nossa casa, eu e a Lu nos olhamos e vi em seu rosto li todos os seus pensamentos: "ter que ir ao rio buscar água para lavar roupa, lavar louça, molhar a casa, escovar os dentes e, pior, beber água?!" Um quilômetro do rio à casa, sendo que a volta pareceria uma longa e interminável subida... O que estava em jogo, na verdade, era o nosso respeito à cultura da comunidade e na cultura deles quem faz o trabalho duro na aldeia é a mulher: arrancar mandioca, carregar mala, trazer e levar madeira, suportar peso... buscar água! Então, a Lu precisaria se resignar...
 
                 Após buscarmos no rio nosso primeiro balde de água (fui junto para dar apoio moral a Lu e as minhas filhas, que, embora crianças - 5 e 3 anos de idade -, na cultura, teriam que ajudar a mãe), chegamos em casa e a Lu sentou cansadíssima sobre a cadeira e me ouviu dizer: "Não sei se vai dar para ficar aqui sem água"... Naquele exato momento, estava visitando a aldeia um funcionário da saúde do Estado. Ele entrou na nossa casa e a Lu imediatamente perguntou quando que teríamos água. "Só no início da próxima semana, dona. É quando os técnicos podem vir ver o problema", respondeu ele. O técnico viu a cara de frustração que a Lu fez, já que ainda estávamos na quarta-feira.
 
           -Amor – disse-me a Lu – ainda bem que você não é índio. Você é quem vai buscar água no rio!
 
  -Lu, meu amor, eu tive uma tataravó indígena, assim, penso que você deverá respeitar minha cultura e buscar água para nós - brinquei com ela. Enfim, ficamos por quase vinte minutos arrumando nossa casa, quando, repentinamente, entra aquele funcionário da saúde novamente, dizendo com a cara mais espantada do mundo: "Dona, sua oração é forte! Fui lá ver e era só um probleminhazinho que resolvi na hora. Voltou a água"! Lu deu pulos de alegria, e eu suspirei aliviado. Então, naquele mês, cada vez que íamos àquela torneira, agradecíamos a Deus por sua terna bondade.
 
Prof. Wanderley Dantas

 
Publicação autorizada pelo autor em 05/09/2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O fim - Dias Índios XII (A morte visita a aldeia – 1ª parte de 4) - Autor: professor Wanderely Dantas

No salão de um aeroporto, preparávamos as coisas para o check in. Carregávamos muitas malas e já nos dirigíamos ao balcão de atendimento, quando, repentinamente, Takitakinalo (nome que os índios deram à minha filha mais velha e quer dizer “linda menina”)parou e começou a chorar. Fui até ela e perguntei o que estava acontecendo. "Pai, eu não me lembro mais do cheiro dela"! Afastei-me para trás e também comecei a chorar ao lado da minha filha um choro convulsionado. A Lu me perguntou o que estava acontecendo. "Ela começou a chorar porque não está mais lembrando do cheiro da irmã!... Lu!... Meu Deus... Lu, eu também não me lembro mais do cheiro dela"! Naquele momento, eu percebi que éramos apenas três naquele aeroporto, porque minha filha mais nova estava morta...
 
Quando acordei daquele pesadelo, olhei para o meu lado e todas as três estavam lá comigo na barraca que levantamos dentro da nossa casa na aldeia. Acordei angustiado e só à tarde falei para a Lu sobre aquele sonho. Relutei em compartilhar com ela, porque, ali onde estávamos, tudo parecia tomar uma dimensão muito maior do que realmente poderia ter. Um sonho ruim apenas, mas, qualquer coisa que acontecesse, estaríamos isolados no meio da mata.
 
- Por que você só me contou agora?
 
- Lu, sabe o texto que mais me vem à mente aqui na selva? Aquele em que Paulo fala que carrega em seu próprio corpo as marcas de Cristo. Não sou super-crente, sempre penso na responsabilidade de tê-las trazido conosco. As possíveis doenças, perigos... Então, esse sonho me fez muito mal.
 
- Eu sempre penso - começou a me dizer a Lu - que perigos existem em todos os lugares, basta uma bala perdida atingir você. Veja, amor, o Brasil foi campeão em mortes por gripe suína no mundo e quantas dessas pessoas morreram em grandes centros urbanos? A nossa orientação para estarmos aqui foi clara e indiscutível. Se por acaso perdesse minhas filhas na cidade, sabendo que era aqui que deveríamos estar, isto sim é que não me deixaria em paz! Estamos onde Deus quer, então, precisamos estar preparados para acontecer o que quer que Ele tenha planejado...
 
Naquele final de tarde, fiquei com Takitakinalo e Hototó (minha filha mais nova, que também recebeu um nome indígena e significa “borboleta”)sentado do lado de fora de casa. O Cacique veio em nossa direção e Takitakinalo ficou maravilhada com o colar que ele ostentava em seu pescoço.
 
- Que lindo!!! Disse ela ao Cacique.
 
- Takitakinalo gostou? Diante da resposta afirmativa, ele retirou o colar do pescoço e deu a ela. O que encantou minha filha era a linda cruz que pendia naquele colar todo feito de sementes de tiririca. O Cacique o conseguira com outro povo que vive fora da nossa região. Agora estava Takitakinalo passeando pela aldeia com seu lindo colar feito de sementes de tiririca, sustentando em seu pescoço uma linda cruz. E a quem me perguntava, eu dizia: "Foi o Cacique que deu para ela"! Até que um indígena chegou perto de nós e olhando aquele colar, apontou para a cruz e disse:
 
- É Deus!
 
- O que? Perguntei.
 
- É Deus! Ele repetiu, agora tocando na cruz. - É Taungi, mas o caraíba (branco) chama de Jesus. É Taungi!
 
Na escola indígena da aldeia, já havíamos contado muitas histórias dos povos indígenas da nossa região e, toda vez que aparecia o Taungi, eles o identificavam com Jesus. Entretanto, Taungi é o Sol, irmão da Lua, irmãos gêmeos e ambos netos de Kuatüngü, que eles identificam como "Deus". Há muito tempo, uma onça quis casar com uma das filhas de Kuatüngü, mas este não quis. Então, Kuatüngü criou uma mulher e de quatro madeiras criou os primeiros índios... Como que os homens mais velhos, os que já foram para a cidade, fizeram a ligação entre Taungi e Jesus? Eu não sei. Este sincretismo é um mal terrível já ocasionado pelo contato deles com as diversas culturas não-índias. Só a presença do texto bíblico na língua materna, eu creio, poderá reparar esta confusão. Mas eu olhei nos olhos daquele indígena e disse:
 
- Não, isso aí não é Deus! Aí, é o lugar onde Deus morreu, mas Ele não ficou morto para sempre. Ele saiu da morte para mostrar que a morte não é o fim. Ele está vivo!
 
- ...
 
Eu queria que ele tivesse falado alguma coisa, mas ele não disse nada. Eu queria ter dito tudo isso na língua dele, mas ainda não sei! Eu queria ter essas histórias escritas já na língua, mas ainda não as tenho... Ele apenas olhou para mim e sorriu. Chamaram por ele na casa do rádio. Alguns minutos depois ele voltou com a cabeça baixa.
 
- Professor, meu primo morreu.
 
- Como você soube?
 
- No rádio. Eles estão trazendo o corpo para enterrar aqui. Ele morreu afogado.
 
- Vão enterrar aqui?!
 
- A família estava na outra aldeia, mas eles são daqui... Era uma criança. Era desse tamanho.
 
Ao chegarem com o corpo, vi que era um menino de menos de dois anos de idade. Ele havia se afogado pela manhã e chegaram na nossa aldeia às 3 da tarde. Vi o pai e o seu choro dolorido. Quando vi aquele corpinho sendo carregado, imediatamente lembrei-me do sonho que tivera na noite anterior sobre a morte da minha filha!...






Prof. Wanderley Dantas



Publicação autorizada pelo autor em 11/09/2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O medo - Dias Índios XIII (A morte visita a aldeia – 2ª parte de 4) - Autor: Professor Wanderley Dantas

A dúvida era se deixaríamos nossas filhas acompanharem todas as cenas que ocorreriam dentro da casa do Cacique. Lembrei-me da morte do meu pai aos meus oito anos de idade. Minha mãe aproximou-se e perguntou se eu queria ir ao cemitério acompanhar o enterro, eu disse que não e fiquei em casa. "Takitakinalo, Hototó, vocês querem ver? As pessoas vão estar muito tristes, chorando...", dei a opção a elas como minha mãe um dia fez comigo. Elas quiseram estar presentes ali, assim entramos todos na casa.
 
Sentado, o filho de um dos Caciques segurava o corpo da criança nos braços, enquanto banhava e limpava com água aquela criancinha inerte; mulheres, homens e jovens se colocavam prostrados no chão ao redor do corpo e gritavam aquele choro arrancado do peito. Eles erguiam os braços, balançando as mãos na direção da criança. Os parentes vinham e abraçavam o pai, que chorava angustiadamente. Aproximei-me e o abracei também.
 
"Professor, o espírito da onça o pegou e o puxou para dentro das águas", explicou-me o Cacique. "Professor, por isso que quando a criança pede alguma coisa, a gente tem que dar. Se não der, o espírito da onça vê e corre para pegar a criança. Foi isso que aconteceu: ela acordou cedinho e pediu ao pai para beber caldo de mandioca e o pai não deu atenção, aí a criança saiu e a onça a puxou para dentro das águas"!
 
Naquela mesma semana, houve na escola uma aula em que um dos alunos perguntou o que era realidade. Tentei exemplificar dizendo que se uma onça entrasse ali na sala e nos desse uma mordida aquilo seria realidade. Mas, se estivéssemos dormindo e sonhássemos com uma onça nos mordendo, acordaríamos e veríamos que não havia sido realidade, já que nada havia acontecido. Péssimo exemplo numa cultura animista! Na mesma hora, o aluno me explicou que não era assim: “Se a onça aparece no sonho e morde você, cedo ou tarde você terá uma doença naquele mesmo lugar da mordida”, disse o aluno. Na realidade deles, tudo está inserido: o mundo espiritual e o físico, o que ocorre enquanto estamos acordados e enquanto estamos dormindo...
 
Quando jovem, o avô matara uma cobra, ainda antes da neta nascer. Anos depois, quando a neta já era uma criança, o espírito da cobra que havia sido morta mordeu em sonho essa menina. Ao crescer, já casada, ela ficou doente e o pai dela teve que fazer uma festa com fins de "aplacar" o espírito da cobra para que ela pudesse ser curada: era o espírito da cobra, que fora morta pelo avô quando este ainda era jovem e que estava agora se vingando em sua neta!
 
Muitas das interações sociais como, por exemplo, a troca de alimentos, que muitos interpretaram como sendo uma prova do mito do bom selvagem ou um exemplo de uma índole de liberalidade do povo, na verdade, é um pagamento que deve ser feito à comunidade que preparou os bijous e peixes para que o espírito gerador da doença pudesse ser aplacado. O espírito exige os alimentos e depois os come com a própria comunidade. O espírito que causava a doença agora recebe alimentos por ter curado a doença que ele mesmo estava causando. Mas, nesses rituais, se alguém se nega a participar dessas trocas de alimentos, o espírito ameaça vir com novas doenças. Estas mesmas relações de medo estão presentes no velório da criança. É o medo dos espíritos que subjaz às manifestações que vemos de toda dor, canto e choro no velório da criança e não, simplesmente, a dor da perda.
 
"Professor, agora os pajés estão fumando para ver se não houve feitiço contra a criança", disse-me o Cacique. Os pajés, o pai e o tio permaneceram por horas e horas fumando aqueles cigarros feitos de plantas alucinógenas. A casa se encheu daquela fumaça. Os mais jovens e fortes se colocavam por trás para segurar os que começavam a cair num transe xamânico. Eles agora começavam a ouvir os espíritos que revelariam a verdade para eles. "A fumaça é o alimento dos espíritos", dizem os pajés.




Prof. Wanderley Dantas


Publicação autorizada pelo autor

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Egitsü - Dias Índios XIV (A morte visita a aldeia – 3ª de 4 partes) - Autor: Professor Wanderley Dantas

-Professor, você viu por que a criança morreu, não? O pai não quis dar o que ela pediu, então o espírito da onça foi lá e puxou ela para dentro da água. Se suas meninas pedirem alguma coisa para você, pode até ser porcaria, mas tem que dar para elas...
 
-Não - respondi, olhando fixamente para o Cacique – as minhas filhas têm uma proteção maior. Elas não vão ser pegas pelo espírito da onça. Elas são protegidas por um Espírito maior!
 
Dentro da casa, o filho do Cacique vai lavando a criança morta, enquanto retira suas roupas. Tudo agora girará em torno de ornamentar aquela criançinha com todos os aparatos de Cacique. Algumas mulheres estão confeccionando uma linda esteira, arcos e flechas pequeninos. O Cacique presente na aldeia é o líder da Cerimônia e começa a pintar o cabelo da criança com urucum. Depois, ele fura-lhe as orelhas. Coloca em seu pescoço o colar de caramujo usado pelos homens e o colar de garras de onça usado pelos Caciques. Fazem os braceletes e as caneleiras. Uma vez pronta, aquela pequena criança toda vestida de Cacique é colocada em uma rede que nunca foi usada por ninguém. Dentro dessa rede, junto com o corpinho da criança, colocam a esteira, os arcos e flechas.
 
O Cacique está apreensivo já que os outros líderes da aldeia se encontram de viagem e ele terá que tomar as decisões sozinho. O filho dele o ajuda escolhendo quem serão os quatro indígenas que abrirão a sepultura no centro da aldeia para o enterro do menino. É preciso pressa, pois já vai escurecer.
 
Uma vez escolhido os que irão abrir o buraco na terra, revezam-se naquele trabalho duro. Abre-se um buraco de quase dois metros de profundidade, mas com apenas um pouco mais de um metro de diâmetro. No fundo do buraco, tanto para o lado esquerdo, quanto para o direito, cavam pequenas câmaras. Numa delas deverá ficar a cabeça da criança e na outra os pés, de modo que apenas o tronco da criança seja visto por quem olha de fora do buraco.
 
Outra decisão que precisa ser tomada é se aquele velório se tornará a Grande Festa ou não. Na língua do meu povo, a Grande Festa é chamada de Egitsü, que significa o "canto dos mestres", já que daqui um ano os mestres de canto ficarão cantando a noite inteira. Aprendi aqui que essa Grande Festa não dura apenas um ou dois dias, que é quando turistas do mundo todo vêm para participar do que, na verdade, é apenas o encerramento do velório. Egitsücomeça na noite do enterro e por todo um ano (ou dois) segue através de uma série de festas até o dia do encerramento.
 
Com o corpo já na rede, carregam a criança e dão uma volta na casa do velório antes de se dirigirem ao centro da Aldeia. Os parentes vêm todos juntos ao lugar do enterro: em grupos de 4 e todos com suas cabeças cobertas por toalhas ou panos. Quando começam a descer o corpo da criança no buraco, os pajés quebram duas cabaças e lançam as sementes sobre o corpinho dela. Entretanto, ao colocarem o corpo da criança no buraco, ocorre a cena mais angustiante de todo o rito fúnebre. Um após o outro, os parentes descem dentro do buraco e deitam sobre o corpo para uma última despedida e só saem de dentro daquele buraco arrastados, pois ficam como mortos... Alguma coisa acontece lá dentro. Quando eles deitam sobre o corpo da criança, eles me contaram que os parentes levam "um choque" e, por isso, desmaiam lá dentro. É preciso, portanto, que a cada parente que desce – pai, mãe, avô, avó, tio, tia, irmão, etc – alguém depois desça junto e com a ajuda de outros indígenas fortes, retirem esses parentes de lá de dentro. Eles saem como se estivessem mortos e assim ficam desacordados por vários minutos em transe!
 
-O que é isso? Perguntei a um indígena que catava um pouco de terra, fazendo uma bola com ela nas suas mãos.
 
-Os pais agora pegam um pouco dessa terra que vai ser usada para enterrar a criança e guardamos para trazer sorte aos nossos filhos! Professor? - ele continuou - Eu nunca soube de uma família de brancos que tivesse assistido a esse enterro. Conversei com meu pai e ele disse que também nunca soube de uma família não-indigena presente nesse momento... Acho que vocês são os primeiros a verem isso aqui! As pessoas vêm à Grande Festa e acham que é só aquilo. Mas, hoje, já começou a Grande Festa.
 
O choro de toda a Aldeia não cessou nehum instante sequer naquelas 6 horas que já se seguiam do velório. Aquela parte do luto da Aldeia só terminaria 4 dias depois. A família da criança só sairá do luto daqui um ano no dia da grande Festa.



Prof. Wanderley Dantas
Publicação autorizada pelo autor

Coisas que perdemos pelos caminhos da vida - Autor: Augusto Sampaio Angelim

Alguns de nós, penso que, principalmente os homens, vamos passando pelos anos e deixando um rastro, quase que imperceptível das coisas que deixamos ou perdemos pelos caminhos da vida. A vida pode ser desfeita num instante. Um mero instante. Um desprezível instante. Um acidente de trânsito. Um assalto. Uma discussão no trânsito. Um fato inesperado. Tudo isto pode significar a interrupção de uma vida. Interrompida a vida, vão-se os sonhos. Escrevo estas coisas, porque, esta semana, recebi um e-mail de uma pessoa que, no passado, teve estreitos laços de amizade comigo e hoje está distante, muito distante. Pois bem, o e-mail traz um relato, até um pouco confuso, das coisas que perdera na vida, das amizades esquecidas, dos amores findos, da falta de cuidado e carinho com os familiares, dos problemas emocionais e das dificuldades com o álcool. Apesar de confuso, o relato é marcante. Pensei em responder e dizer algumas palavras de conforto e encorajamento, mas me lembrei de um título de um filme vi nas prateleiras de uma locadora, meses atrás, e saí à sua procura, antes de dar a resposta. COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO é o nome do filme. Despretencioso e monotonomo no início, o enredo relata a história de uma jovem, interpretada pela bela Halle Berry, que fica viúva em face do inesperado assassinato do marido, que saiu de casa para comprar sorvete para família e, no caminho de volta, tomou as dores de uma mulher que estava sendo espancada pelo esposo e terminou levando um tiro fatal deste. Uma das cenas mais marcantes do filme é a chegada do carro da polícia para avisar do ocorrido. A dor, o desespero, o abraço nos dois pequenos filhos. Uma menina de dez anos e um garotinho de seis. No velório, a viúva lembra-se, repentinamente, de chamar um amigo problema do falecido. Amigo de infância e viciado em drogas. Era advogado, mas já não podia exercer a profissão. Apesar do distanciamento social, o falecido e o amigo viciado mantinham a relação de amizade e, é em nome desta grande amizade, que o estranho amigo participa do velório. A viúva, sabendo que seu marido nunca tinha abandonado o amigo, e certa de que este se afundaria mais ainda com a inesperada perda, lhe procura e, tempos depois, lhe convida para morar na garagem de casa. Uma atitude irracional, sem dúvida. Lidar com o luto não é fácil e fica a certeza de que as coisas vão piorar, para todos. Daí em diante, é previsível a aproximação entre homem e mulher, as recaídas, as dificuldades, decepções e remorsos. Mas o enredo garante um epílogo bem melhor que o desenhado e, até surpreendente. Não é minha vontade aqui narrar o filme e sim de partilhar (um pouco) a delicadeza da situação vivida pela pessoa amiga que me remeteu o e-mail. Depois de assistir ao filme, recomendei-o, para que tenha serenidade para aceitar as coisas que não pode mudar e coragem para modificar aquilo que esta a seu alcance, além sabedoria para distinguir umas das outras, pois, afinal, quando não se consegue tranqüilidade dentro de si mesmo, não adianta procurar em nenhum outro lugar. Refazer a trilha que se vem caminhando, dispensando a devida e merecida atenção a quem compartilha conosco a jornada, relevando suas faltas, para cruzar a linha de chegada deve ser uma boa maneira de conseguir a tranqüilidade. Espero que isto sirva para todos nós, foi o que lhe disse, do fundo de meu coração. Eita, ia me esquecendo de dizer que Benício Del Toro, é magnífico interprete do amigo viciado.

Autor: Augusto N Sampaio Angelim - São Bento do Una/PE

 


Publicação autorizada através de e-mail de 02/07/2012

domingo, 24 de junho de 2012

Carta aberta a um Pedro - Autor: Fernando Florêncio


Chegou às minhas mãos o livro que conta a história de um Pedro. Pedro este que entre tantos e quantos outros Pedros que o nosso árido sertão produz, foi e é especial.
Li pausadamente. Li e reli algumas situações para poder entender e identificar  a empatia nascente entre o que lia e o que um dia vivi e posteriormente eternizei em um livrinho.Degustei-o a conta – gotas, pausadamente, tal como se degusta um Royal Salute 24 anos. Um “scotch” raro com pena que acabe.
A este Pedro, também podemos chamar de José dos Santos Gonçalves, ou Zé das Máquinas, como queiram. Todos os nomes levam ao mesmo homem.
Da infância e adolescência, passando pelo Acabador de Festas, Alistamento Militar, Sentando Praça, Dando Baixa e Rasgando Pano, tudo isto leva a uma analogia da minha infância em Custódia e adolescência no mundo a fora.
Como casado, teoricamente responsável, as portas começam a se abrir para o Zé. Porquanto   como soldado reformado, teve seu crédito escancarado e ilimitado nas lojas da cidade. Igualmente, somente quando casado, tive as portas abertas aos bons empregos.
Observei que o nosso Zé sempre foi um empreendedor. Um lutador daqueles que não desistem nunca.
Diferentemente, eu nasci para cuidar do patrimônio alheio. Em suma:
Nasci para ser empregado. Também não lembro que tenha tido alguma chance de me tornar um empreendedor. Os bons empregos iam aparecendo e fui ficando. Ao contrário do Zé das Máquinas. Era pedreira em cima de pedreira, que não deixavam o soldado de carreira curta sequer  respirar.
A viagem do Zé para São Paulo, teve  tudo a ver com a viagem da minha família para o Rio de Janeiro. Sem tirar nem por. Carroceria de caminhão, fome e sede na estrada além do suborno aos guardas federais.
A discriminação por ser “cabeça chata” também foi feroz no sul maravilha.
O progresso financeiro das pessoas incomoda os incompetentes e mortos de espírito. Zé foi bom em tudo que fez. A compra fora de hora (com a loja de peças fechada) do rolamento da transmissão do velho Studebaker, o “leriado” em cima dos guardas na estrada, as “carteiradas” de Soldado de “puliça” demonstrando que já fora e continuava sendo autoridade, dadas como se fossem (e foram) um abre portas, a chegada e o progresso do feirante na grande cidade são dignos de um registro à parte por conta de homem reto e puro. Tão puro que não identificou a quebradeira da barraca de feira por um parente imposta pela não adaptação da esposa àquela cidade. Tão ingênuo que só identificou por que não vendia suas máquinas, quando soube que seu fornecedor, em nítido ato de  safadeza, as vendia mais baratas e ainda lhe tomava os fregueses.
Por último, o acerto na Sorte Grande seguido da derrocada por ter sido sempre bom pros amigos.
Necessitado, ouvi de um gerente de banco:
-Quando o seu parente mais próximo, seu amigo mais leal, seu irmão do coração ou mesmo seu pai (se morto for) sair do túmulo e lhe pedir:
1) Para ser avalista de alguma coisa,
2) Uma folha de cheque emprestada,
3) Fazer uma comprinha com seu cartão de crédito e...
4) Pedir um dinheirinho para pagar depois...
Negue sempre. Aprenda a sair pela tangente. Nunca faça este tipo de gentileza, principalmente se souberem que você teve um golpe de sorte e ganhou “algum” extra.
O que pode acontecer, se você não fizer nenhum daqueles favores:
a) Perder o amigo. Mas amizade é coisa que se perde e se recupera com o tempo que se encarrega de trazê-la de volta.
b) Já se você tem o coração mole e accede a algum daqueles favores, com certeza perde o amigo e o dinheiro que nunca mais voltarão. Nem um nem outro. O amigo ao encontrar com você, muda  de calçada e finge que não lhe viu.
c) Ainda, se mandar cobrar o fica aborrecido e melindrado.
Somente quem lhe põe em “saia justa” são os amigos.
Vendo pelo olho da insensibilidade do sistema financeiro, nada mais correto.
Assim meu caro Pedro (ou Zé), recomendo esta sua biografia excelentemente narrada e colocada à disposição dos leitores pelo seu filho Carlos Alberto, apresentada de forma lúcida e lírica pela Celêdian  Assis, lá de “Belzonte”. Serve para que muitos de nós assimilem que rapadura é doce mas não é mole.
A SAGA DE UM PEDRO. Um livro recheado de situações extremas, algumas sérias outras hilárias, mas resplandecendo sempre a coragem e o destemor do nordestino. As situações esbanjam exemplos de fibra, obsessão destemor e vontade de mostrar que antes de ser forte, é nordestino.
Pena que aos noventa e alguns anos seu Zé das Máquinas não tenha mais tempo de aprender que:
QUEM  REFRESCA “BUM BUM” DE PATO É LAGOA.

Fernando Florêncio
Ilheus/Bahia

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Criador X Criatura - Autor: Ciro Fonseca

No momento estou lendo um livro de Stephen King, chamado “LOVE”, este livro tem nada mais nada menos que 542 páginas. E eu fico a pensar de onde o autor consegue tirar tanta inspiração. Quanto tempo, quanto suor imaginativo, o escritor deve ter despendido até considerar a sua obra criativa como terminada.

Tem gente que ainda acha que escrever é coisa de preguiçoso, de quem não tem nada mais produtivo para fazer. É claro que eu estou falando de escritores consagrados, aqueles que debruçam em cima de um texto e só sossegam depois que eles criem corpo e alma. A minha pequena experiência a respeito do exaustivo desafio de escrever, é que a relação entre o sujeito e o texto, nem sempre é amistosa, muito pelo contrário, aqueles que pensam que escrever é um ato rotineiro, e não implica num enorme esforço para encontrar a inspiração.

É um verdadeiro trabalho braçal para desenvolver as ideias e aprimorar o texto. É preciso ir fundo em si mesmo, encontrando meio e modos de colocar no papel, desculpem no computador, as suas verdades e observações próprias. Escrever é uma forma de meditar, de exercitar o pensamento, deixar que ele flua livremente pelos recônditos mais íntimos de sua mente. Quem deseja escrever não deve pensar no sucesso e sim nas pessoas com quem seu texto vai se identificar, muitos ou poucos, não importa.

Existem algumas situações em que o texto em construção fica sob absoluto controle, como se a gente dissesse, olhe aqui, quem manda em você sou eu! Você vai fazer aquilo que eu te ordenar, mas nem sempre isso acontece, às vezes, o texto fica insubordinado, assume ares de pura arrogância e ganha alma própria, e se nega a entregar-se ao seu controle. Vez ou outra eu tenho vivido com esse constrangimento aqui em casa. O meu computador é testemunha muda desta humilhante situação, e para provar o que eu digo, existem nele vários textos rebeldes, incompletos, que fincaram pé e se negaram a serem concluídos e ficaram no meio do caminho, numa pasta de minha máquina, que eu chamo de incubadora.

Apesar dos pesares, escrever é um ato de entrega, é a arte de dar forma ao que se agita no limbo de sua mente criativa, é o fluir boêmio de pensamentos e ideias.

“E como já dizia o nosso Arthur da Távola: “Escrever bem, não é repetir o que já foi escrito: é servir-se do que já foi dito para dizer pela primeira vez. É surpreender o lugar comum como a um inimigo e libertar a verdade que lá jazia, prisioneira da repetição. É ser novo e inaugural no que é velho e comum ao ser”.

Fico satisfeito quando alguém se atreve a ler as bobagens que eu costumo escrever (e talvez por pura educação), as elogia. Muitas vezes eu acerto, e o texto sai completo e toma vida própria, como um filho. Mas, paciência, por que...

Um dia é do escritor e outro é do texto.


Autor: Ciro Fonseca - Rio de Janeiro/RJ

Blog do autor: http://cirofons.blogspot.com/
http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=98617
Publicação autorizada pelo autor através de e-mail em 28/11/2011

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Quando foi a última vez que você viu seu pai? Autora: Anabailune

Assisti, novamente, a este maravilhoso filme, estrelado por Colin Firth - meu ator predileto. Ele conta a história de um filho que retorna ao lar, a fim de assistir ao pai - que sofre de cancer de intestino em fase terminal. Ele redescobre e reavalia seu relacionamento com o pai durante vários momentos de suas vidas , na infância, adolescência e fase adulta. Percebe o quanto os julgamentos que fazia sobre o pai, muitas vezes, obscureceu-lhes o relacionamento. Lembra-se das vezes em que saíram juntos para acampar, dos piqueniques e jantares de família nos quais sentia-se ofuscado pelo brilhantismo do pai, e pela necessidade deste (quase doentia) de estar sempre em evidência e parecer simpático.
Descobre até que tem uma irmã, fruto de um caso amoroso do pai com uma prima de sua mãe, que durou muitos anos.

O filme é muito honesto, até o ponto no qual, durante uma conversa com uma namorada, ele admite que odeia seu pai (quem nunca odiou, nem que fosse por apenas um segundo, o pai ou a mãe, que atire a primeira pedra).

O filme tem cenas lindas e emocionantes, até o ponto de, sem perceber, você se ver chorando enquanto assiste. No final, o que fica, o que realmente permanece da relação dos dois, é o amor. O grande amor que o pai sentia por ele, e ele, pelo pai. Um amor percebido, talvez, um pouco tarde em sua vida, mas nunca tarde demais. A cena mais tocante, em minha opinião, é justamente a última:

Ele está só no jardim da casa, após a família espalhar ali as cinzas do pai. E de repente, ele pensa: "Quando foi a última vez que você viu seu pai?' Não durante a doença, que o transformava e desfigurava a cada dia, mas a última vez em que esteve com ele e ele ainda era ele mesmo. E então, lembra-se de uma cena na qual os dois, juntos, instalavam um lustre na sala de estar. Uma cena corriqueira, mas marcante, pois fora a última vez em que o vira com saúde.
Daí, ele recorda o dia em que despediu-se dele para ir estudar em outra cidade. O abraço, antes de ir. E a cena vai mudando, e o menino que abraçava o pai, transforma-se no homem que ele é então, e a cena dos dois abraçados em uma despedida final, é simplesmente maravilhosa.

Fez-me lembrar da última vez em que eu vi meu pai: eu estava em meu horário de almoço, sentada à mesa da cozinha. Minha mãe terminava alguma coisa no fogão. Ele chegou, colocou sobre o armário um pacote de biscoitos - estava muito animado naquele dia - e sentou-se para almoçar. Dizia que, após o almoço, estaria jogando cartas na casa de uns amigos vizinhos. Eles sempre jogavam juntos. Lembro-me que, naquele dia, olhei para ele realmente, pela primeira vez em muito tempo. O que ficou mais marcado em minha memória, foi sua mão segurando o garfo. E depois, ao terminar, ele disse algumas coisas das quais não me lembro e despediu-se. A porta fechando-se atrás dele, disso eu me lembro. Naquela tarde,depois de algumas horas apenas, ele teve um derrame e morreu.

Aquela foi a última vez em que vi meu pai.

Autora: Anabailune - Petrópolis/RJ

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Blog: Ana Bailune - Liberdade de Expressão
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Publicação autorizada através de e-mail de 01/06/2012