quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Rua Velha que conheci - Autor: Carlos Lopes

Está escrito no texto de Augusto Sampaio Angelim - que gentilmente autorizou sua publicação no meu blog, o seguinte: ¨A rua, propriamente dita, inicia-se ao final da chamada Ponte Velha.¨ Mais adiante o autor particulariza: ¨Eu fiquei hospedado, durante mais de um ano, no casarão de número 409, na esquina do Pátio da Igreja de Santa Cruz.¨ E foi pesquisando sobre a Rua velha que encontrei o texto ¨A Guerra da Rua Velha.¨
(Material retirado para publicação em livro)
 
 
Autor: Carlos Lopes - Olinda/PE

Dia da Árvore - 21 de setembro - Autora: Vanice Ferreira


 

Á rvores que com a beleza de suas folhas e flores inspiram artistas, poetas, pintores...

R epresentam segurança e longevidade!

V
ejo-as ganharem vida, força e personalidade na obra do escritor J.R.R. Tolkien.

O
nde houver esperança, nascerá uma árvore,

R
eduto e morada dos pássaros e seus ninhos...

E screver em seu tronco, nomes desenhados em uma coração, idealiza o sonho do amor eterno...




Autora: Vanice Ferreira - Curitiba/PR

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O início - Dias Índios XV (A morte visita a aldeia – última parte) - Autor: Wanderley Dantas

O Feiticeiro chegou às 22:17 e na sua chegada, dentro da casa, as vozes aumentaram angustiadamente. Houve o início de uma discussão na língua deles, uma discussão que foi se misturando ao choro de luto dentro da casa do velório, que ficava bem ao lado da nossa casa. Eles levantaram as vozes e soubemos que estavam nervosos com a presença do Feiticeiro. A discussão alongou-se por algum tempo até que alguém gritou na língua: "Vá embora"! Imediatamente, a casa fez silêncio.
No dia seguinte, entretanto, ele ainda estava lá. Percebi o olhar de soslaio e assustado de um indígena que escondido mirava o Feiticeiro.
-É ele o Feiticeiro, não? Perguntei ao indígena.
-Ele não é bom...
-Eu sei, já me falaram sobre ele. Os índios dizem que ele anda sobre as águas...
-Ele matou meu avô! Disse-me, abaixando os olhos. Meu avô disse ao meu pai antes de morrer que foi esse Feiticeiro quem o envenenou...
-Ontem eu ouvi eles gritando. Você sabe o que foi?
-O Feiticeiro está com raiva, dizendo que já pagaram até $4.000, 00 reais lá na outra aldeia para quem conseguisse matá-lo... As pessoas aqui estão dizendo que foi ele quem matou com feitiço a criança que enterramos ontem.
-Mas ela não foi morta pelo espírito da onça?
-Mas quem mandou o espírito foram três feiticeiros. Os pajés ouviram os espíritos falarem. Os pajés têm medo dos feiticeiros, medo de vingança, então eles não dizem os nomes dos feiticeiros para não acabarem morrendo também.
Naquele momento, vi 4 rapazes saírem de dentro da Casa dos Homens com espingardas nas mãos. A criança estava enterrada logo ali na frente dessa Casa.
-O que eles estão fazendo?
-A criança foi morta por um feiticeiro, então o feiticeiro irá aparecer no meio da noite em cima do túmulo da criança para roubar o espírito dela para si, assim os jovens passarão algumas noites escondidos, fazendo tocaia. Se o feiticeiro aparecer, eles o matarão.
De todo esse ritual do enterro, todos os participantes serão pagos pela família da criança. O pai da criança pagará com colares, comida e outras coisas aos que cavaram o buraco, pagará ao índio que lavou a criança, pagará ao que a pintou, aos que irão pescar para a comunidade, etc. Tudo pago. Durante um ano, a família também deverá alimentar com peixes, bijous e pequis a aldeia, sempre que esta for requisitada para alguma das festas relacionadas com o velório da criança. Assim, morrer aqui é tão caro para a família do falecido quanto é em nossa cultura.
Alguns índios seguem o pajé em fila, indo do túmulo para a casa e da casa para o túmulo. O pajé segura nas mãos galhos de uma planta especial para aquele ritual. "É para mandar o espírito da criança embora daqui da aldeia", explicou-me o pajé. "Ela precisa ir embora agora. Então estamos pedindo que ela vá de vez, do contrário, ela poderá ficar querendo se despedir aos pouquinhos e aparecer nas nossas casas. Se ela não for embora, quem encontrar com ela será sinal de que alguma coisa muito ruim vai acontecer com essa pessoa".
Enfim, queimam as roupas e alguns outros pertences da criança no centro da aldeia. Os jovens pegarão madeiras e com elas a aldeia preparará uma espécie de cercado para o túmulo da criança (veja a foto). O pai raspa o cabelo totalmente. Ele só voltará a cortá-lo no próximo ano na Grande Festa.
Todas as festas da aldeia irão girar em torno desse velório até o seu encerramento daqui um ano. Assim, tudo o que escrevi é apenas o início de um longo e revelador rito, no qual, segundo alguns antropólogos cristãos, talvez possa existir uma semente plantada por Deus sobre uma possível crença deles na ressurreição. E realmente há a crença na ressurreição, mas esta é uma história que contarei depois.
***
"Foi aqui que o neto dela morreu, Professor. Acharam o corpo do menino ali, já no meio do rio", explicou-me o barqueiro... Quase me esquecera da tristeza fúnebre daqueles últimos dias, mas, ao chegarmos às margens do Posto Indígena (última parada antes de sairmos da Região dos Povos), aquela senhora indígena começou o seu doloroso lamento sob a forma de um canto repetitivo, um transe soturno. Aquela ladainha me trouxe à mente tudo o que passamos na aldeia dessa vez, mas que agora estávamos deixando para trás. Eu e minha família voltávamos à cidade, entretanto o povo permaneceria ali com toda a sua dor... e medo.




Prof. Wanderley Dantas


Publicação autorizada pelo autor



Leia as outras 3 partes desta história:
1) http://www.gandavos.blogspot.com.br/2012/09/o-fim-dias-indios-xii-morte-visita.html
2) http://www.gandavos.blogspot.com.br/2012/09/a-duvida-era-se-deixariamos-nossas.html
3) http://www.gandavos.blogspot.com.br/2012/09/professor-voce-viu-por-que-crianca.html

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Egitsü– a vida pós-morte (2ªparte de duas) - Dias Índios XX

 
Autor: Professor Wanderley Dantas

-Como é o céu para vocês? Como é essa aldeia dos mortos?
 
-Professor, dizem que lá na entrada do céu, na porta, estão as crianças mortas esperando você. Imagina, Professor, minha irmã perdeu um filho aqui, então, quando ela chegar lá, esse filho já vai estar ali ajudando ela na entrada do céu. Mas, quando os dois amigos chegaram, os mortos já sentiram o cheiro do amigo vivo, aí o amigo vivo se escondeu noutro lugar na aldeia. Não apareceu na casa em que estavam os mortos reunidos. Então, o amigo morto disse para ele ficar escondido que vinha no dia seguinte pegá-lo. E o amigo morto foi dizendo também para o amigo vivo que o céu não tem essas casas assim iguais as nossas daqui. Lá, tem casas lindas, toda enfeitada, são grandes, bonitas. Casa bem feita, pintada, enfeitada. Peixe? Peixe não falta lá. Diz que peixe já vem pronto, já está assado só esperando você lá. Lá tem um polvilho que nunca acaba. Tem todo tipo de comida e é tudo de primeira qualidade. No céu, acontecem as melhores festas que existem! Taungi é o deus pra gente. É o Jesus de vocês. É a mesma pessoa*. Ele que fez um lugar para os mortos. Ele fez um caminho lá para os mortos até a beira do rio todo enfeitado, pintado, lindo, mas tudo é lindo mesmo. É coisa boa mesmo!
 
-Você um dia estava contando pra mim que se o índio for bom aqui ou mau não tem problema. Se o índio for feiticeiro, for mau, for umíndio ladrão, matar os outros, não tem problema, porque tanto oíndio bom como o índio mau vão ter que passar pelos mesmos desafios e quem conseguir vencer esses desafios depois de morto é que fica no céu. Se o índio for bom, mas perder o desafio, a alma dele fica vagando para sempre sem nunca chegar no céu. Na verdade, o que importa é vencer os desafios depois de morto. E lá no Céu ainda tem dois desafios: lutar contra os pássaros que querem matar você e tem uma panela enorme, vermelha de tanto fogo e que vem rolando pra cima de você. Se você morrer lá no céu, aí você vira um bicho e fica por lá.
 
-Isso! Isso mesmo! Se você aqui na terra teve uma doença que foi por causa do espírito da cobra, então, se você lá no céu morrer, você vai virar uma cobra. Se você teve uma doença aqui na terra provocada pelo espírito da onça e, se você morrer lá no céu, morto pelos pássaros ou pela panela, então você vai virar onça efica lá no céu e assim por diante.
-Por isso que vocês enterram as pessoas com arco, flecha, rede, borduna. É para que ela esteja armada para a luta contra o sapo e os pássaros...
 
-Mas tem mais história. Dizem que se você morreu bem magro, lá na entrada do céu você é recebido por uma mulher que tem um peito sóe cheio de leite. Então, se você morreu bem magro, ela vai alimentar você lá na porta do céu. Ela é irmã da mãe do Taungi! Quando você está na porta do céu, essa mulher de um peito só esua mãe e outra irmã dela vem receber você. A mãe de Taungi é irmã dessa mulher de um peito só. A mãe de Taungi é mãe de gêmeos: o Taungi e o Aulukumã.
 
-Os irmãos gêmeos que são o sol e a lua. Eles tem um avô, não é?
 
-Sim! Que é o Kuatãni.
 
-Olha, na minha maneira de pensar, Kuatãni é mais antigo, então.
 
-Isso. Kuatãni é mais antigo.
 
-Kuatãni é quem criou todas as coisas? Assim... Na criação, Kuatãni é quem criou esse mundo daqui?
 
-Sim! Mas aí já é outra história... Nesta daqui, o amigo vivo luta junto com os mortos contra os pássaros e pega as penas lindas delese traz de volta para sua aldeia e sua família, quando volta do céu. Fica com as melhores penas e distribui para a aldeia as outras penase conta para todos o que tinha acontecido com ele e, por isso, sabemos o que acontece depois de morto.


Autor: Professor Wanderley Dantas

http://o-seringueiro.blogspot.com.br/

Publicação autorizada pelo autor

 

Breve: Gandavos - Os contadores de histórias


 
 
Escrever é um exercício que nos alça à cidadania universal. E este tal universo se manifesta nos temas simples do cotidiano, nas pequenezas diárias das grandes almas. Um texto de crônica ou conto é sempre uma vontade de dizer ao mundo: “Eu estou entendendo você”! É um desejo de falar ao outro que ele não está só, mas que somos todos feitos deste mesmo material comum – uma argila santa e pecadora. É isto o que somos. É a isto que chamamos “natureza humana”: complexa, contraditória, heroica e covarde ao mesmo tempo. Um ser capaz das mais nobres atitudes para com o próximo, mas, também, pronto a manifestar os sentimentos mais mesquinhos e cruéis. GANDAVOS – OS CONTADORES DE HISTÓRIAS é uma dessas exposições do que a vida é e do que é este ser humano que somos.
A iniciativa de Carlos Lopes é uma oportunidade de nos olhar bem de perto, mas com a devida distância de quem não quer se comprometer. Literatura será sempre isto: a identificação segura para, quem sabe, podermos avaliar melhor quem somos na vida de tantos personagens diferentes e semelhantes a nós. A literatura é o contato com esse“outro tão eu” e ele sempre operará em nós alguma mudança. Prepare-se para a leitura desse valioso livro.
Por: Fábio Ribas (blog Casal 20)

Faces da inspiração - Autor: Carlos Lopes

Uma lembrança que emerge da nossa mente pode transformar-se em inspiração, quando interessa-nos preservá-la e torná-la uma leitura imponente aos olhos do leitor. Ao que me parece, nem sempre a inspiração se manifesta apenas diante de uma realidade harmoniosa, de uma bela paisagem, ou um lugar festivo. Muitas vezes ela flui em meio a contratempos, como em certa vez que escrevi o texto ¨Jardim das Almas¨, em um momento de tristeza, após sepultar um animal de estimação. Vejamos uma outra situação: em um dia ¨daqueles¨, não percebi o perigo oculto numa aparentemente inofensiva poça de água no asfalto, que me obrigou a parar na borracharia mais próxima. Diga-se de passagem, ao contrário da pejorativa fama popular, aquela borracharia não ostentava paredes sujas de graxa, ou cartazes de nudez feminina, espalhados em seus recantos; apenas era visível uma gaiola suspensa no teto, onde um canário ¨estalava¨ seu canto, ¨esfriando¨ um outro canário mudo preso numa gaiola, a qual estava entre as pernas de um conviva do proprietário. Aqueles dois canários do tipo cabeça-de-fogo, sendo um cantador e o outro mudo, remeteram-me aos meus tempos de estudante, quando fazia parte de um grupo teatral do Colégio Municipal Padre Leão, lá em Custódia, interior do Pernambucano. Naquela peça de teatro interpretei um jornalista, personagem este, que mesmo diante da sua própria relutância, contratou os serviços de uma simpática senhora de uns setenta anos, para cuidar de sua casa. Chamava-se Carlota e outrora fora muito rica, sendo então muito conveniente para ela trabalhar em apartamentos de homens solteiros e que se ausentavam de casa por mais tempo. Eram oportunidades nas quais Carlota convidava suas amigas para cerimoniais e agia como se fosse a própria dona da casa. E um dia, em meio a um chá das quartas feiras, a governanta foi desmascarada diante das amigas, que fingiam não saber dos desatinos vividos pela amiga. Ao final da apresentação nem um mísero aplauso arrancamos da platéia. O canário que deveria cantar ao final da peça simbolizando uma nova vida para Carlota, até se ouviu cantar, porém nenhum espectador entendeu a mensagem, pois afinal a ave que deveria ser de plástico, cantou, estalou e incomodou a todos durante o transcorrer da peça, não chamando a atenção quando precisou ser realmente ouvida. Escrever é uma necessidade humana com seus desdobramentos; enquanto a inspiração é uma donzela que não dispensa mimos e cuidados. Ao recordar daquela jante danificada do meu carro que me conduziu a uma borracharia e por consequência aos canários que me reportaram àquela peça de teatro apresentada em 1976, fui estimulado, dezenas de anos atrás, a escrever peças de teatro. Escrever por escrever é muito distinto de utilizar-se da inspiração para produzir algo que o leitor entenda como fruto de uma inspiração. Um pouco de tempo depois percebi que estimular a inspiração é o suficiente, seja através do resgate das lembranças, ou por fatos novos que nos motivam a deflagrá-la. Afinal na ânsia pela inspiração cada autor se utiliza de artimanhas, algumas delas até impensadas pelo leitor. E por esta e outras, muitas vezes nossa cabeça vira um caos quando a inspiração insiste em mudar de endereço. É como diz a mãe de um amigo meu: ¨Cérebro é igual batata seca, por mais que se esprema tem dias que não sai nem uma gota de água¨. Mas, pensando no que inspira, às vezes, fico com a impressão de que o texto já está todo lá e bastou apenas uma desculpa para ele sair de dentro da gente. A desculpa pode ser uma revolta, uma cena, um verso ouvido, uma canção, um beijo molhado, um desejo realizado ou frustrado. Seja lá o que for, parece mesmo que eu não escrevo, mas reajo. É claro que, depois, volto e burilo o que apareceu ali "de repente" na telinha do lap top.
 

Autor: Carlos Lopes
Olinda/PE

 
* Este é um texto do qual não me orgulho de haver escrito. Sou apenas um contista esforçado. A Celêdian Assis fez o que pode para melhorá-lo; do amigo Fábio Ribas abocanhei, literalmente, o final. Portanto, dedico o texto a estes dois amigos.
 
 

A mulher do vestido estampado - Autor: Carlos Lopes

E sou mesmo! Desde os tempos de menino em Caiçara dos Órfãos, no meu Sertão do Moxotó, que nas rodas de marmanjos na calçada da igreja, avistava um bêbado cambaleando e apostava na certeza que ele viria até a mim.

Mas não é de bêbados que quero falar.
No início dos anos setenta, ao me mudar de mala e cuia para o Recife, não imaginei que entre roupas e livros, coubesse no meu matulão, aqueles ¨espíritos¨ que retornam ao mundo para se redimir ou amedrontar as pessoas.
 
As ¨almas penadas¨, para mim, estão em todo lugar! E por assim pensar, a cidade do Recife, seria em tese, o último lugar onde eu deveria morar. Porém estando lá, fiquei ciente de lendas populares, tais como: ¨A Casa da esquina do Beco do Marisco¨, ¨O Sobrado da Rua de São José¨, ¨A Casa da Rua Imperial¨, ¨O Sobrado do Pátio do Terço¨, ¨O Sobrado da Estrela¨ e ¨O Sobrado Mal-assombrado da Rua de Santa Rita Velha¨.

E por eu ser, entre os residentes da Casa de Estudante do meu Município, o de pior ¨mesada¨, tratei de arranjar um emprego. Um amigo do meu pai de nome Alfredo, residente na Vila São Miguel, em Afogados, mexeu os ¨pauzinhos¨ e fui contratado na função de guarda noturno do Teatro Santa Isabel. Era tudo que eu precisava naquele momento! Além de dispor do dia para estudar, sentia gosto em trabalhar naquela construção centenária, localizada na Praça da República. E não nego não, sentei na maior parte das cadeiras do teatro, só para me igualar aos ilustres personagens da história, assíduos frequentadores do teatro em tempos passados. 
Segundo funcionários, lá os fantasmas perambulam pelo palco quando o teatro está às escuras.  Fiquei impressionado com as tantas história envolvendo uma bailarina e  também de um ator da casa que, segundo me contaram,  habita o teatro há anos, como se aquele templo fosse a própria casa deles. E não se passaram muitos dias para eu ter a certeza que falaram a verdade. Uma noite, eu vi no espelho, que dá para ver o palco, uma bailarina toda de branco. Quando eu me virei, ela ainda estava lá. Então, eu arrodiei o teatro para dizer que o ensaio ainda não havia começado. Mas quando cheguei lá, ela havia sumido. Nunca mais entrei no salão principal sozinho. Por conta do acontecido comigo e outras estranhezas que também presenciei, imagino ser aquele teatro o mais mal-assombrado do Brasil, sobretudo depois da morte de um maestro, quando as pessoas começaram a ouvir o som do piano tocar à noite sozinho.
 
Pedi demissão!

A Casa do Estudante funcionou em um casarão com frente para a Praça Chora Menino, no Bairro da Boa Vista. Contam que a antiga dona da casa, uma mulher que se casou com um viúvo e com ele teve dois filhos, começou a aparecer com marcas inexplicáveis no corpo. O marido chegou a colocar portões de ferro e cadeados para que nenhum estranho entrasse na casa, já que se acreditava que tudo era obra de algum bandido, embora que nada fosse roubado. Mesmo com a única cópia da chave nas mãos do dono, os portões amanheciam abertos. Naquela época também foi realizado exame no sangue que escorria da imagem de uma santa para verificar se era humano. O resultado apontou que o sangue pertencia à própria dona da casa. A família, abalada com os estranhos acontecimentos se mudou do local e as assombrações finalmente desapareceram. Dalí em diante o casarão foi abandonado e marginais tomaram conta da área e a transformaram em ponto de consumo e tráfico de drogas. Somente décadas depois, herdeiros resolvem alugar o imóvel, construído exatamente onde em 1831 houve um grande massacre, provocado por uma tropa que tinha como obrigação proteger o lugar. Por causa disso, muitos moradores, inclusive crianças, foram mortos. Depois disso, algumas pessoas que passavam pela praça diziam ouvir o choro de um menino. Daí surgir o nome do lugar.
 
E  na falta de primor, alugamos o tal casarão.

O Casarão não era apenas uma construção antiga, igual a tantas outras do bairro onde nasceu o poeta Manoel Bandeira; no entanto era habitável se comparada à situação semidestruída que se encontra hoje, quando fui fotografar para ilustrar esse artigo. E considerando o tamanho das baratas e dos ratos que infestavam os ambientes, imagino que há décadas ninguém ocupou os inúmeros cômodos que compunham a casa, que fazia limite de fundos com o tradicional Colégio Salesiano. Os tais bichos eram de tamanhos descomunal e desprovido de senso do perigo humano. Por inúmeras vezes levantei os pés a centímetros do chão, como que quisesse esmagá-las e sequer as baratas se movia. A mesma indiferença humana era sentida nos enormes gabirus que invadiam os quartos, ocasião em que permaneciam inertes a fitarem os estudantes, ocupantes dos quartos localizados no quintal da casa. Enfim, tudo metia medo na estudantada e quase ninguém se arriscava a dormir sozinho em qualquer ambiente da casa. No entanto, não lembro de alguém, além de mim, que presenciou alguma situação caracterizada como ¨assombração¨.
 
E o pior aconteceu!
 
Noite adentrada, quase madrugada! Havia falta de energia, principiando o adormecer dos moradores do bairro, ao som da triste melodia das cigarras nas castanholas da Praça Chora Menino. Eu estava na primeira sala do casarão, local onde se assistia televisão. O cansaço me fizera permanecer naquela escuridão e com os pés esticados sobre a cadeira da frente não imaginava lugar melhor para dormir. Entre um cochilo e outro, algo me despertou. Não vi nada, só tive a sensação que algo se movimentou em torno de mim. Ainda pensei se tratar de alguma brincadeira de colega da casa. Nem sei se cheguei a fechar novamente os olhos, algo embranqueceu a parede a uns dois metros a minha direita. De imediato, percebi que aquele clarão se mexia e rapidamente foi se transformando numa  imagem humana. A visagem se estabeleceu e como se somente esperasse que eu a contemplasse, despregou-se da parede e caminhou lentamente a minha frente, indiferente a eu estar ali. Dei um grito que acordou a casa inteira.  Foi tão grande o meu espanto que minha voz se fez se ouvir até na casa da vizinha do lado. Tudo aconteceu muito rápido, logo perdi as forças e também a voz. Só sei que inerte, ali sentado, vi um homem vestindo calça e paletó na cor branca caminhando na minha frente e desaparecendo entrando na parede oposta da sala. Logo ouvi vozes as minhas costas, eram os estudantes querendo me acudir. Pediam por explicações, enquanto eu não arredava a visão do local da parede esperando aquele ser retornar. Tavares, um dos meus companheiros de quarto se plantou em minha frente tentando entender o acontecido enquanto eu murmurava sons incompreensíveis. Aos poucos, fiz-lhes ciente que havia sido acometido de um estranho pesadelo e só por isso gritei apavorado. No dia seguinte, ao ser questionado pela vizinha, Dona Carmosa, acabei soltando a língua e lhe contei do acontecido. Depois de ouvir-me, quieta feito uma mula empacada, sumiu no terraço da sua casa e logo retornou com um enorme embrulho nas mãos.  Esticou as mãos e me entregou para que desfizesse o empacotamento e logo tinha em mãos um surrado álbum de fotografias. E ali, no meio da calçada, espiava velhas fotos em preto e branco que não me diziam absolutamente nada.  Eu já estava ficando sem jeito por não entender a intenção da bondosa senhora quando uma fotografia despertou a minha atenção. Olhei para minha amiga, voltei à vista para o retrato e marquei com o dedo, dizendo-lhe ser aquele o homem que vi atravessar a sala na noite anterior. Ela, Dona Carmosa, dando a entender falta de surpresa, apenas sorriu. Ali mesmo fiquei sabendo se tratar de um Senhor de nome Ernesto, o primeiro habitante do imóvel, também o esposo da mulher atormentada, cujo sangue escorria na imagem da santa da casa.

Abandonei o Casarão da Praça Chora Menino!

No período de um ano habitei a maior parte das pensões do bairro da Boa Vista. Porém nos lugares onde residi, só me sentia a vontade até o momento em que algo de anormal acontecia. Na Rua Visconde de Goiana, sempre que ia ao banheiro à noite, do terraço do primeiro andar quase sempre avistava uma pessoa, trajando roupas escuras e usando chapéu, plantado exatamente na esquina com a Rua José de Alencar.  Outra vez, e num dia de chuva, na Rua Imperial, abaixei para apanhar um livro e de repente um enorme pé se antecipou e afundou o volume numa poça de água, que me fez buscar abrigo na Igreja São Francisco. Noutra situação, cruzei com uma mulher muito bonita e trajava uma capa preta com vermelho por dentro. Algo me fez sentir tratar-se de visagem do outro mundo. Virei-me e a segui, calçada afora. Ela na frente, eu atrás, sem perder a passada. Se ela andava rápido, eu andava muito mais. Aquela altura da noite a Rua da Imperatriz estava deserta. Logo fui perdendo fôlego enquanto ela parecia andar normal. Ao dobrar a esquina com a Rua da Aurora, a mulher havia desaparecido. Fiquei apavorado e sem forças para voltar para casa. E assim, amigos, o tempo foi passando e os fatos encurtando cada vez mais meu espaço na cidade do Recife. E num gesto de desespero abdiquei de vez de morar em construções antigas. Aluguei um apartamento no segundo andar de um edifício na Rua Velha. E naquele endereço, muitas vezes, por noites consecutivas, ouvia o barulho da porta do elevador se abrindo, no entanto não havia ninguém no andar. Passei a sofrer de insônia e tive o rendimento no estudo comprometido. A partir de certo tempo já não sabia se presenciava visagens ou se até poderia sofrer pesadelos, o fato é que constantemente uma mão cabeluda parecia querer me sufocar, mesmo quando me escondia em algum lugar tentando dormir. Era chegada a hora de abandonar, definitivamente, a Veneza brasileira.
 
Transferi o meu curso para uma Universidade da Paraíba.
Lembro como se fosse hoje! Era uma sexta-feira do ano de 1976 e chovia quase sem parar no Recife. O velho Opala estava de bunda baixa com tantos pertences na mala, não faltando lembranças da cidade e lá também estava Bill, meu porquinho da Índia de estimação.  O relógio marcava 23:13 horas, quando em meio a uma chuva fina iniciei minha saída da cidade do meu coração, porém me curvando aos obstáculos, pois temia risco de sanidade mental.  Eu estava sozinho e descansado para enfrentar uma jornada de cinco horas até a minha cidade, de onde no domingo próximo, deveria seguir para o Estado da Paraíba, minha nova morada. Enquanto percorria a Avenida Engenheiro Abdias de Carvalho pensava o quanto era tranqüilizante deixar os meus pesadelos para trás. O que não imaginava é que minha via crúcis ainda teria um capítulo final. Eu estava subindo o viaduto que me conduziria a BR quando fui surpreendido por uma mulher sentada no banco traseiro do meu carro. Eu a vi pelo retrovisor interno. Um calafrio intenso se apossou do meu corpo de cima para baixo e os meus olhos lagrimejavam sem contenção, enquanto a mulher se mantinha imóvel, visível para mim no lado oposto do acento traseiro do veículo. Ela devia ter, aproximadamente, uns quarenta anos, cabelos compridos e vestia branco com estampas coloridas, sendo visível parte do rosto e vestes banhados de sangue. Não me ocorreu outra situação senão rezar em voz alta, seguindo a orientação costumeira que dizia que alma penada volta ao mundo pela precisão de oração ou de missa. Logo adiante a direita da saída do Recife, há um quartel do Exército,  não me furtei em estacionar o carro. O sentinela do dia veio ao meu encontro e disse-lhe, apenas da necessidade de organizar uns pertences espalhados pelo assoalho. No entanto, aquela altura a mulher já havia desaparecido. Não havendo nada a fazer ali, agradeci o militar e mais tranquilo segui viagem, naquela noite escura pelas chuvas que caíram até pouco tempo atrás. Não devo ter percorrido dois quilômetros, lá estava a mulher de volta, no mesmo lugar e de forma idêntica a primeira vez que apareceu para mim. Fiquei apavorado, porém não desesperado e voltei a rezar. Ainda me veio a mente ¨requecer à alma¨, porém não me sentia seguro para ouvir a voz daquela assombração, não naquele  momento. Logo surgiu a minha direita a placa anunciando a proximidade do Posto Rodoviário Federal de Moreno, onde estacionei metros adiante alegando a necessidade de estirar as pernas. Nem preciso dizer que a visagem novamente havia desaparecido. Uns cinco ou dez minutos depois, era chegada a hora de voltar a estrada. E confesso, a mulher do vestido estampado não mais apareceu para mim nos quilômetros que se seguiram e, para meu alívio,  avistei as luzes de Vitória de Santo Antão, cidade da Zona da Mata do Estado. Logo nas primeiras lombadas do perímetro urbano, avistei mais adiante, no lado oposto da pista, uma aglomeração de pessoas. De imediato percebi do que se tratava e estacionei o veículo. Não foi surpresa nenhuma reconhecer o corpo da mulher que viajara comigo até pouco tempo atrás, estendida no asfalto, exatamente como se apresentou a mim. E ali, no meio de pessoas que nem conhecia, onde quase ninguém falava, apenas observavam consternado aquele corpo estirado no chão, eu não senti medo daquele ser, identificado apenas como uma mulher que há cerca de trinta minutos havia sido atropelada ao tentar atravessar a pista. Pra falar a verdade, eu me senti, naquele momento, muito íntimo daquela mulher que entre tantos escolheu a mim para pedir ajuda.
Segui minha viagem, sem medo do que vi ou receio pelo que podia ainda me acontecer, porém pensando: ¨Entre espíritos e humanos, quem é a ¨assombração¨?

De fato mesmo, nunca mais voltei ao Recife.

Autor: Carlos Lopes
Olinda - Pernambuco

sábado, 1 de setembro de 2012

A vida é passageira e sou um passageiro da vida! - Autor: Carlos Costa

...sei que a vida é passageira e não serei só mais um passageiro navegando pela vida, vendo-a passar por mim com suas belezas e eu impotente para poder acompanhá-la como gostaria de poder fazer; tentarei e farei a diferença por onde eu também caminhar!
...sei que a vida é passageira, mas como passageiro da vida tentarei reconstruir a história com os restos que me sobraram, misturados com dores, amores, frustrações, felicidades e alegrias e, reconstruindo-a, melhorar a vida dos outros! Mas não desejo ser exemplo para ninguém; quero que cada pessoa viva a sua própria vida da melhor forma possível!
...sei que além de passageira, a vida também é misteriosa ao ponto de não nos deixar compreender o porquê de muitos desígnios que Deus nos coloca pelo caminho e só nos resta aceitar tudo e transformá-los, transformando pessoas a nossa volta.
...sei que a vida não é fácil e da vida nada se levará e quem afirmar ao contrário estará mentindo; há muitas dores, sofrimentos, fome, misérias e belezas entre seus mistérios. Restar-nos-á encontrá-los e transformá-los o que de ruim caminha na longa ou curta jornada da vida.
Dos restos que me sobraram da vida que era bela, irei com ela por onde poder, sem reclamar de dores, amores perdidos, do que poderia ter feito – se o não fiz, pelo menos tentei - porque a verdadeira vida é para ser vivida e não lamentada... só Deus conhece nosso destino e é Ele que nos mantém ou nos tira do caminho!
...estou cumprindo da melhor maneira que posso no que ainda me resta de vida. Devo vivê-la intensamente, respeitando os limites, plantando rosas por onde passar, semeando flores, distribuindo perfumes, alegrias, felicidades para, na volta, colhê-los e certamente, fazendo isso, sentir-me-ei feliz com o resto que me sobrou dessa vida para vivê-la, mas que, apesar de tudo, ainda está sendo bela e perfeita...
...sei que a vida é passageira, mas não serei apenas um passageiro da vida; tenho consciência que estou fazendo a diferença e é assim que pretendo viver até meu último suspiro.
...desejo apenas morrer em paz porque tenho plena consciência que estou cumprindo mais uma etapa que Deus colocou em meu caminho...Por quê reclamar? Estou feliz, vivo feliz, apesar de minhas grandes limitações...Isso é o que verdadeiramente importa!
...um dia terei o céu em minhas mãos! Da forma que ele for...e viverei feliz, mais ainda!
 
Autor: Carlos Costa - Manaus/AM
 
Publicação autorizada pelo autor

Sobre Dedos de Prosa ... - Autor: Geraldinho do Engenho

Amigo Carlos Lopes, seu livro Dedos de Prosa, proporcionou-me uma fantástica viagem, voltei no tempo e me tornei criança.
A viagem iniciou um pouco estranha, mas em pouco tempo tornamo-nos tão íntimos que me senti parte de sua história como se fossemos vizinhos de quintais. Você meu amigo realizou meu sonho de infância, colocando diante de meus olhos, em palavras de fácil compreensão imagens de um verdadeiro filme, sonhado por mim, um mineirinho, Sentado na carteira mal conservada, em uma sala de aula, de escolinha rural, pelos idos anos de 1953. Quando com o mapa do Brasil em meu livro, estudando a saga desbravadora do Brasil colonial, nasceu em mim um grande desejo em conhecer o norte e o nordeste brasileiro. Mas logo veio a resposta, -- conhecer como? -- Se do povoado onde morava, ao centro do município sede, seriam longas horas de viagem a pé, ou no lombo do cavalo, transpondo obstáculos em estradas mal conservadas quase intransitáveis em épocas chuvosas. Jamais eu pisaria as terras nordestinas com seus potentes engenhos e extensos canaviais, ou os seringais do norte, que aquele garoto de físico raquítico e empalidecido pela malaria tanto admirava.
Mas, o tempo passou o meio de transporte e as estradas deixaram de serem tão precários, já não são mais intransitáveis, encurtaram-se as distancias, o mundo se tornou pequeno. De repente o impossível se tornou viável, e eu vejo-me dentro de um jato sobrevoando as belezas da selva amazônica, conduzindo minha neta à sua residência em Rio Branco capital do Acre onde minha filha residia.
Ao pisar naquela terra, em seu horto florestal, voltei a ser aquela criança que outrora sonhou o impossível. Meus olhos não desprezaram um detalhe si quer. Caminhando pelo parque Chico Mendes pude apreciar tudo em seus mínimos detalhes, exatamente como havia estudado, naquele saudoso livro, as figuras mitológicas muito bem trabalhadas, a maloca dos índios, a casa do seringueiro com seus apetrechos, de extração, e o método de transformar o látex em borracha. A imagem que mais chamou minha atenção foi uma seringueira com seus frisos para a extração do látex, eu poderia jurar que a foto do meu livro era daquele exemplar que estava ali diante de meus olhos.
Valeu a pena, inclusive a mais emocionante e até comovente surpresa, a visita ao memorial Chico Mendes, com seus pertences de trabalho, e alguns objetos de uso pessoal incluindo a camisa, com a qual ele fora barbaramente assassinado. A sensação de maldade injustiça, e impunidade; ali representada oposta à luta de preservação ambiental, comovem qualquer visitante diante daquele memorial.
Mais tarde em janeiro de 2010, tive o privilégio em viajar ao nordeste, ao sobrevoar Recife, e admirar suas belezas do alto, voltei no tempo, a ser aquela criança de então. Quando pisei no seu solo, elevei o pensamento ao alto, e louvei a Deus agradecido. Pelo dom da vida, e por tudo que me concedeu. Visitei a maravilhosa Paraíba e o Rio Grande do Norte. Retornei encantado com a acolhida e cordialidade nordestina me sentindo realizado.
Agora novamente rendo louvores a Deus nosso pai e criador, pela terceira grande e sensacional viagem que ele me concedeu, através do livro “Dedos de Prosa”, deste amigo Carlos Lopes, que por sua graça cruzou meu caminho. Este ícone da cultura brasileira. Que imune a qualquer preconceito regionalista, e sem nenhum individualismo, nem discriminação, vem reunindo os contadores de causos, Estórias, história. Do norte ao sul deste imenso Brasil, formando esta grande família batizada como GANDAVOS. Que em breve será publicado, em um livro reunindo e unindo, amigos virtuais, deste nosso querido Brasil. -- Parabéns pelo belo trabalho Carlos Lopes, você é o cidadão que o Brasil merece e que o ministério da cultura brasileira tem que valorizar, e olhar com todo carinho.
” Aplauso amigo pela iniciativa, com seu gesto de patriotismo e cidadania”



Geraldinho do Engenho - Bom Despacho/MG

Publicação autorizada pelo autor

A botija e o vacilão - Autor: Carlos Lopes


 
Pasmem! Eu vi uma botija.
 
Eu tinha dez anos de idade quando toquei com as mãos uma botija, enterrada ao lado de um poste de iluminação, numa rua estreita e escura, no bairro de Água Fria, no Recife.

(Material retirado para publicação em livro)
 
 

Autor: Carlos Lopes - Olinda/PE

Texto: Ficção