domingo, 16 de outubro de 2016

¨Escrever talvez seja tornar tangíveis os entrelaçados fios do pensamento. Daí, surge a necessidade de criar histórias e sentimentos em forma de letras. Contá-las é um modo de entreter e viver outras vidas, por meio de cada personagem. Há semelhanças em se tratando de escrita, mas a maneira de apresentar cada fato, muda de uma narrativa para outra, fazendo a diferença entre ser ou não ser lido. Com certeza, a literatura ainda é essencial para muitos, ou seja, um prazer sem explicações. É um universo onde se pode colocar vida e expressar opiniões¨.

Blog Gandavos
Recife PE

Autor: João Batista Stabile

Eu sou casado e tenho um filho de doze anos, nasci em 28 de abril de 1961, em Presidente Alves interior de São Paulo, numa fazenda de café onde morei e trabalhei na lavoura até 1982 quando mudei para cidade e fui trabalhar em outra fazenda de café, onde fui escriturário e depois administrador. Parei de estudar em 1979 quando concluí o ensino médio como é chamado hoje.
Em 1989 mudei para Marília também interior de São Paulo onde moro e trabalho como Funcionário Público Estadual, em 1999 depois de vinte anos longe das salas de aula, ingressei no curso de Ciências Sociais pela UNESP – Universidade Estadual Paulista, concluindo em 2003, bacharelado e licenciatura.

Pergunta 1 - Quando e como surgiu seu interesse pela leitura e escrita?
Resposta - Enquanto eu trabalhava na zona rural não tinha tempo e nem interesse em ler, só depois de alguns anos trabalhando no estado já com mais de trinta anos, passei a interessar-me pela leitura. Quanto a escrever foi em 2010, já com quarenta e nove anos com um filho com seis anos, pensei em escrever como era nossa vida na fazenda, como as crianças e jovens viviam naquela época, as diversões, as dificuldades, enfim o cotidiano da vida rural nos anos sessenta e setenta, para que meu filho depois de grande lesse e tivesse uma ideia de como era nossa vida sem a televisão, computador, internet, celular e brinquedos eletrônicos.
Escrevi alguns textos e parei por um tempo, em 2012 por acaso encontrei o site Recanto das Letras e decidi publicar um texto, vendo os comentários das pessoas que leram, principalmente dos colegas do Recanto fiquei animado e escrevi outros. Quero registrar aqui que no Recanto das Letras a primeira pessoa que leu meu texto e fez um comentário carinhoso foi a amiga Maria Mineira, depois vieram outros que ela leu e sempre tinha uma palavra de incentivo, o que ajudou-me a continuar escrevendo.
Pergunta 2 - Quais foram seus livros preferidos quando era criança e os livros favoritos atualmente?
Resposta – Quando eu era criança não lia, na juventude só li os livros de leitura obrigatória para fazer trabalho valendo nota. Destes eu gostei muito de “A Ilha Perdida” de Maria José Dupré e “O Cortiço” de Aluísio Azevedo, depois de adulto os li novamente agora por prazer.
Quando comecei o gosto pela leitura eu li vários livros de José Mauro de Vasconcelos, José de Alencar, Francisco Marins, depois com o tempo muitos outros autores brasileiros como, Machado de Assis, José Lins do Rego, Erico Veríssimo, Jorge Amado, Aluísio Azevedo, Graciliano Ramos, alguns de Rubens Alves e somente “Grande Sertão Veredas e Sagarana” de Guimarães Rosa. Dos estrangeiros eu li Eça de Queirós, Dostoiévski, Tolstói, Charles Dickens, Zola e outros. Atualmente eu gosto de romances e contos nacionais ou estrangeiros.
Pergunta 3 - Quais escritores são suas fontes de inspiração?
Resposta – Quando comecei a pensar em escrever a leitura desses autores que citei e outros, ajudaram a amadurecer a ideia mas o que me inspira são as lembranças do passado, o cotidiano de uma vida simples, principalmente a rural que se perdeu com o avanço da tecnologia e a globalização.
Pergunta 4 - De que forma o conhecimento adquirido, seja pelo senso comum, ou pelo meio acadêmico, ajuda na hora de escrever?
Resposta – Eu penso que o conhecimento acadêmico pode dar a base e até moldar a forma de escrever, mas o conhecimento adquirido pelo senso comum é a bagagem necessária ao escritor, sem esta não é possível escrever.
Pergunta 5 - Segundo o escritor Rubem Fonseca, “a leitura, a palavra oral é extremamente polissêmica. Cada leitor lê de uma maneira diferente. Então cada um de nós recria o que está lendo, esta é a vantagem da leitura". É isso mesmo? Concorda com essa proposição?
Resposta – Concordo. O interessante da leitura é isso a possibilidade de viajar na imaginação, dar características aos personagens e cenários conforme os nossos conhecimentos e ler nas entrelinhas o que o autor deixou implícito no texto.
Pergunta 6 - Ainda segundo o Escritor Rubem Fonseca: “um escritor tem de ser louco, alfabetizado, imaginativo, motivado e paciente.” É o suficiente para ser um bom escritor?
Resposta – O escritor tem que ser alfabetizado, claro não tem como escrever se não for alfabetizado, motivado também, pois a motivação leva a imaginação necessária para escrever e paciente porque nem sempre as coisas saem como imaginamos.
Pergunta 7 - Para qual público se destina sua criação?
Resposta – Escrevo para pessoas comuns que tenha a capacidade de se encantar com as coisas simples da vida.
Pergunta 8 - Como funciona o seu processo de criação? Quais sãos suas manias (ritual da escrita)?
Resposta – Não sigo um ritual fixo para todos os textos, as vezes passa tempo sem ter uma inspiração, de repente uma cena, uma conversa, uma lembrança de um caso acontecido ou contado por alguém, surge uma ideia, aí sento e escrevo ou acontece também de ter uma ideia, aí fico pensando formando mais ou menos o texto na cabeça só depois sento para escrever. Mas nos dois casos eu escrevo tudo de só uma vez, conforme vem à cabeça, depois no mesmo dia ou no outro vou relendo, acrescentando alguma coisa, tirando outra, trocando palavras até ficar do meu gosto.
Pergunta 9 - Em geral, os seus personagens são baseados em pessoas que você conhece, ou são ficcionais?
Resposta – Os personagens dos contos que escrevi são baseados em pessoas que conheci, nos causos são ficcionais mas alguns destes tem características de pessoas conhecidas.
Pergunta 10 - Você tem outra atividade, além de escrever?
Resposta – Sou Funcionário Público Estadual e junto com minha esposa e meu filho fazemos alguns trabalhos voluntários na paróquia que frequentamos aqui em Marília, leio bastante e o pouco que escrevo é somente por prazer.
Pergunta 11 - Você faz parte das Coletâneas Gandavos. Qual a sensação de participar ao lado de escritores de várias regiões do país?
Resposta – Não. Mas gostaria muito de um dia fazer parte das Coletâneas Gandavos, tenho certeza que será uma experiência muito gratificante estar ao lado desses escritores, entre eles tem vários que conheço e admiro muito.
Pergunta 12 - O financiamento coletivo e a publicação independente têm se mostrado a opção das publicações Gandavos.  Quais são os pontos positivos e negativos desse tipo de publicação?
Resposta – Mesmo não tendo participado creio que não existe pontos negativos, o financiamento coletivo é uma forma de divulgar o trabalho do autores desconhecidos por um baixo custo, o que é interessante para todos.
Pergunta 13 – Você já fez publicação de livros sozinho, seja impresso ou virtual? Quais e como o leitor pode adquiri-los?
Resposta – Não.
Pergunta 14 - Qual mensagem você deixaria para autores iniciantes, com base em suas próprias experiências?
Resposta - Se você gosta de escrever, escreva se receber uma crítica aprenda com ela, se receber um elogio, procure melhorar ainda mais e lembre-se pode ter muita gente que não goste do que você escreveu, mas sempre tem alguém que vai gostar.

O puxador de terços

Meu pai muito católico mariano, desde jovem era rezador de terços (como diziam puxar o terço) nas fazendas onde morou. Ele contava algumas histórias acontecidas em tempos idos.
Contou-nos que uma vez foi chamado para rezar um terço numa fazenda vizinha, chegando viu a casa estava cheia de convidados, famílias vizinhas e muitas moças solteiras e ficou com vergonha, então chamou o dono da casa de um lado sozinho e disse, : “a casa está cheia de moças, estou um pouco  envergonhado, o senhor não  tem ai uma pinguinha para eu tomar um trago pra dar coragem?”. E o homem respondeu:  “sim tenho, vamos lá no quarto”. Foram os dois discretamente, ele tomou uma boa dose de cachaça, esperou um pouco e veio para sala começar o terço.
Dizia ele que o terço foi uma beleza, puxava muito animado e o povo respondia, inclusive as moças participavam bastante, vendo o seu desembaraço foram também contagiadas e todos deixaram de lado a timidez, rezando e cantando.
Essa aconteceu já na fazenda que fomos criados, mas quando era solteiro, depois que sua mãe morreu ele ficou morando sozinho, tinha como companhia um cachorro chamado piloto que não o deixava por nada. Uma noite sendo chamado para rezar em outra colônia que ficava bem afastada, chamada de porteira azul, devido a cor de uma porteira de madeira que tinha à sua entrada.
Quando saía para cidade ou ia para longe o cachorro ficava apenas olhando deitado no quintal da casa. Mas aquela noite o piloto quis acompanha-lo, não houve meio de evitar que fosse, então deixou-o mas ficou preocupado pois naquela colônia havia muitos cachorros e certamente haveria brigas.
Chegando à porteira meu pai teve uma ideia, havia do lado do mourão um pequeno arbusto, então pegando seu chapéu colocou em cima, mostrou ao cachorro e disse, piloto deita aí, o cachorro obedeceu ficou ali esperando.  
Rezou o terço, conversou com os amigos depois foi embora, chegando ao local, estava lá deitado o cachorro esperando-o, pegou o chapéu, agradou o piloto que o seguiu alegremente para casa.
Meu pai conheceu minha mãe também moradora da fazenda, casaram-se e viveram lá por trinta anos, todo esse tempo continuou sendo ele o rezador de terços.
Lembro-me quando era criança que muitas vezes ele saía à noite, dizendo que ia rezar um terço na casa de fulano, quando era longe porque a fazenda era grande ele ia a cavalo.
Naquela época tinha muitos terços durante o ano, fora aqueles em dias de festa, muitos a minha mãe e nós também íamos, depois de uma idade íamos mesmo que ela não fosse.
Chegando lá sempre já tinha alguns vizinhos que ficavam conversando com os donos da casa e nós brincando com as crianças até chegar todos os convidados ou pelo menos, dava o tempo para que todos chegassem.
No horário marcado chamavam as crianças para dentro reuniam todos na sala, meu pai colocava um óculos pegava um livrinho velho e lia com alguma dificuldade porque a luz era fraca e ele não tinha pratica de leitura.
Quando era segunda ou quinta feira rezavam-se os mistérios gozosos, terça ou sexta feira mistérios dolorosos, quarta, sábado ou domingo mistérios gloriosos.
Ele puxava o terço e o povo respondia, cantava um hino e todos cantavam juntos, no final era a ladainha eram tantos rogai por nós, que nós crianças achávamos que não acabaria nunca.
Terminado o terço era sempre servido um café ou chocolate, vinha uma pessoa da casa carregando uma bandeja com um bule e algumas xícaras, vez ou outra até serviam um pedaço de bolo.   
Tinha uma época que o povo fazia novenas, eram terços todas as noites, por noves dias, e nós crianças durante o dia ficávamos comentando sobre isso e discutíamos o que seria servido.
Antigamente parece que as pessoas eram mais religiosas e o catolicismo prevalecia, dificilmente encontrava-se uma família protestante.   
Onde morávamos havia apenas uma, nós crianças não entendíamos aquela diferença e víamos algo de misterioso naquela família, tanto é que quando íamos nas casas das colônias a mando das mães para convidar para o terço, passávamos distante e bem rápido em frente à casa deles, quase com medo que nos visse.
Esta passagem não tem nada a ver com terços, mas meu pai contou-nos que ainda no seu tempo de solteiro, aos sábados à noite quando não tinha terço nem baile, iam à cidade passear encontrar com os amigos e aos domingos alguns iam a missa. Numa dessas idas a cidade, na volta aconteceu um fato, no mínimo curioso.
Tinha três caminhos para a cidade, a estrada que saía da sede da fazenda, um trilho no meio do pasto que chegava a duas colônias e uma outra estrada que saía por uma colônia, chamada colônia nova e ia direto até a cidade.
Vindo da cidade para a fazenda, antes de chegar a tal colônia nova, havia um pau d’alho que todos diziam que era mal assombrado e em seguida uma pesada porteira de madeira.
Foi por essa estrada que ele voltava da cidade numa noite de sábado já de madrugada. Noite enluarada sem nenhum vento, ar parado, não se via mover nenhuma folha das árvores ou moitas de capim nas margens da estrada. Quando ele passava em frente ao pau d’alho a porteira abriu lentamente, ele arrepiado, tremendo passou e ela fechou da mesma forma sem bater, encostou suavemente ao mourão.
Mas meu pai não era só rezador, também tinha outras funções que ele executava eventualmente como voluntário, tosava e cortava cascos de cavalos e ainda uma que é inimaginável nos dias de hoje, aplicava injeções.
Geralmente o pessoal quando precisava iam à farmácia, dificilmente procuravam o médico só quando não tinha mesmo jeito. Havia na pequena cidade um farmacêutico que muitos costumavam dizer, (sabe mais que alguns médicos), assim recorriam a ele, dependendo do caso vinham com injeções.
Quem precisasse ia em casa à noite, se o doente não pudesse andar ou fosse pessoa muito idosa, meu pai ia até sua casa.
Lembro-me ainda pequeno de ver muitas vezes ele preparando injeções, pegava um estojo inox que tinha dentro umas duas seringas e algumas agulhas, pegava as que ia usar, virava a tampa do estojo e enchia com álcool, em cima colocava um suprtezinho de aproximadamente dois centímetros de altura e nele o estojo com água, seringa e agulha dentro, colocava fogo no álcool que até queimar todo fervia água para esterilizar o material.   
Nunca aconteceu nenhum caso de alguém passar mal por causa da injeção, reação ou alergia, apenas passavam medo vendo sua mão grande, grossa e pesada pelo trabalho na roça.
Este texto eu contei um pouco da vida do meu pai, um homem simples que nunca foi um dia numa escola, o que aprendeu foi com o seu pai que tinha algum estudo na Itália, quando veio para o Brasil aprendeu nossa língua e dava aulas para as crianças nas fazendas onde morou, à noite com a luz de lampião. 
Ele aprendeu a ler, escrever e fazer as quatro operações, o suficiente para se virar numa época em que o povo das fazendas eram na sua maioria analfabetos.

Autor: João Batista Stabile - Marília/SP

A casa velha

Morava na fazenda Gervazio, um caboclo solteiro de uns vinte e cinco anos, trabalhava na lavoura de café junto com sua família. Num dia de festa na vila dia do padroeiro depois da missa, numa grande barraca cercada de bambu rachado e coberta de lona, ao lado da igreja havia quermesse com muita comida, leitoas frangos assados, pastéis e outras iguarias e também diversas qualidades de bebidas.
Tinha também uma barraca de música onde um rapaz sentado atrás de uma mezinha controlava o som. Uma vitrola e diversos discos de cantores e estilos variados, a pessoa pagava um pequeno valor para escolher uma música e oferecer a alguém que ele anunciava no sistema de alto falante.
Gervazio estava do lado de fora da barraca, quando recebeu da mão de uma criança um correio elegante dizendo que alguém gostaria de conhecê-lo, ele rapidamente procurou uma das meninas que vendia os tais correios elegantes e comprou um. Pegando emprestada uma caneta, rabiscou uma resposta com alguma dificuldade pela falta de hábito de escrever, marcando um encontro, o local seria ao lado esquerdo da barraca do som junto a um poste da iluminação.
Feito isso entregou para criança o bilhete e foi para o local esperar, passado uns dez minutos ele teve até um frio na barriga, aproxima-se dele uma linda mulata de porte esguio, cabelos cacheados pelos ombros e um lindo sorriso com dentes muito brancos, Gervazio nem acreditava era Sofia que ele já conhecia de vista e morava na fazenda vizinha.
Ficaram passeando na pracinha em frente à igreja conversando, quando já estava na hora de irem embora ele a pediu em namoro, ela disse que aceitava mas que ele tinha que ir no próximo sábado na sua casa pedir para seu pai, e assim ficou combinado.
Depois de aproximadamente um ano de namoro Gervazio e Sofia decidiram casar, por tratar-se de famílias já conhecidas os pais não fizeram nenhuma objeção. O casamento foi marcado para o início de setembro assim que terminasse a colheita do café que era um período mais tranqüilo na roça.
Foi uma festança da boa, churrasco, leitoa assada, muitos frangos, macarrão, comida a vontade tinha também diversas espécies de doces, de abobora, batata, goiaba e o tradicional bolo.
Para beber numa festa dessas não podia faltar a cachaça, tinha cerveja e também refrigerantes. Vale lembrar que naquele tempo não tinha o conforto que temos hoje, com os vasilhames descartáveis, conforto este que está custando caro ao meio ambiente.
Os vasilhames eram todos de vidro e retornáveis, também naquela época nas fazendas ninguém tinha geladeira, então a cerveja e o refrigerante eram colocados num tambor daqueles de duzentos litros com gelo e palha de arroz para conservar mais tempo o gelo.
Assim que passou o casamento, o patrão de Gervazio fez-lhe uma proposta para que ele fosse tomar conta de uma fazendinha pequena se comparada com a que ele morava bem distante dali, ele aceitou e assim foram morar longe das famílias.
No início foi um pouco difícil acostumarem-se, era uma propriedade de uns oitenta alqueires onde cultivavam café, tinha um gadinho e uma tropa de serviço.   
O lugar era aconchegante, uma boa casa de tijolos bem arejada com uma varanda que pegava a frente e um lado, toda rodeada por árvores.
Saindo pela cozinha tinha o tanque com torneira para lavar roupa, água boa encanada de uma mina, logo para baixo do tanque tinha dois pés de jabuticabas, um pé de jaca, um de tamarindo, do lado da casa tinha um pomar com várias espécies de frutas e toda manhã eram despertados por uma algazarra de pássaros saudando a aurora.
Um pouco afastado tinha uma pequena colônia com seis casas para os empregados, na frente um terreirão para secar café e uma tulha, uma mangueira para o gado e outra dos animais de trabalho.
Sofia estava grávida quando se aproximava o tempo de nascer a criança, tudo mais ou menos calculado porque ninguém ia ao médico, Gervazio buscou numa fazenda vizinha uma parteira que era afamada na região, a trouxe para casa para acompanhar o final da gravidez.
Combinaram entre o casal que Gervazio buscaria uma irmã mais nova para passar um tempo com eles e ajudar a cunhada a cuidar da casa após o nascimento da criança.
Assim o rapaz deixou a esposa aos cuidados da parteira, recolheu a tropa no curral e escolheu dois animais para a viagem, para ele uma mula ruana forte e ligeira que ele gostava de usar para o trabalho de correr os serviços, e também um cavalinho baio marchador que era para trazer a irmã. 
Tudo arrumado para a viagem ele resolveu sair à noite, seria menos cansativo para os animais já que era uma longa distância, sendo mês de outubro fazia calor e o sol era muito quente.
Passado um pouco da meia noite, Gervazio calçou as botas colocou a guaiaca, do lado esquerdo uma faca do direito um revolver 32 e algumas balas, amarrou a capa de boiadeiro atrás do arreio, despediu da esposa e partiu.
Depois de aproximadamente uma hora e meia de estrada, ele notou uns relâmpagos longe, passado mais um tempo começou um vento e o temporal chegava rápido prometendo ser uma chuva forte, ele pensou vai ser difícil para os animais andar nesta chuva, já pensava em parar mas viu logo adiante numa curva da estrada parecia uma casa apertou o passo e chegou.
Era uma casa velha pelo seu aspecto notava-se que há muito tempo estava desabitada, a porta da frente estava aberta e uma janela do quarto pendurada só em uma dobradiça, ele pensou dá para proteger da chuva, parou amarrou os animais numa árvore ao lado da casa, cobriu o arreio com a capa e dirigiu-se a casa.
Quando Gervazio chegou à porta já chovia, ele pisou na soleira nisso deu um relâmpago forte e ele avistou num canto da sala dois vultos parecendo duas pessoas, pensou que também eles estavam se protegendo da chuva, disse boa noite, não teve resposta, agachou no outro canto e ficou quieto.
A chuva foi pesada e demorada, com os relâmpagos ele percebeu que era um casal de velhos cabelos brancos e roupas pretas.
Parada a chuva o tempo limpou de repente e apareceu a lua, nisso aquelas duas pessoas saíram pela porta da frente e pegaram a estrada, ele saiu em seguida olhou atentamente o chão não viu sinal de pegadas na areia em frente à casa, foi até a estrada não mais os avistou e nem marcas de seus passos.
Gervazio pegou os animais e seguiu caminho, logo após a curva tinha um trecho de mata fechada com grandes árvores que sombreava a estrada deixando-a bem escura, ele foi pensando no que acabara de acontecer sem encontrar uma resposta satisfatória para o ocorrido.
Durante o percurso no mato ele percebeu que o ritmo da marcha diminuíra, o cavalo que ele puxava parecia cansado com um peso excessivo mas tocou em frente, ao sair do mato novamente no claro da lua ele olha para traz e vê montado no cavalo o casal de velhos, instintivamente e fez o sinal da cruz e gritou “valei-me nosso sinhô Jesus Cristo”, ouviu um baque no chão e não viu mais ninguém.
Chegou clareando o dia na casa do pai, deu uma boa porção de milho para os animais e os soltou no pasto para descansar. Passou o dia todo com a família, a tarde sua irmã disse, “ vamo viaja a noite Gervazio é mio pus cavalos”, ele disse “não, não,  vamo descansa a noite, vamo de dia memo”.
Saíram no outro dia bem cedinho, durante o dia a viagem foi mais demorada devido ao sol, pararam num riacho para as montarias beber água e descansar um pouco e seguiram.
Na volta ao passar pela mata, o rapaz vinha pensando no que acontecera a noite, mas não disse nada a irmã para não assustá-la. Passando em frente à casa velha, Gervazio olhou não viu nada mas teve a sensação de que alguém lá de dentro os espiavam, ele disfarçadamente fez o sinal da cruz, riscou a espora de leve na mula para apressar o passo e começou a cantar uma velha melodia para afugentar as ideias.

Autor: João Batista Stabile - Marília/SP

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O vigilante

Autor: Geraldinho do Engenho

Arnaldo era vigilante noturno de uma grande empresa.  Responsável pela sua guarda das dezoito, às seis horas da manhã. Quando chegava a sua casa não encontrava a esposa. Ela já havia saído voltando La pelas oito ou nove horas, conseguia sempre lhe apresentar uma boa justificativa. Muitas das quais era o pernoite com o seu consentimento, numa maternidade como voluntária, onde afirmava estar ajudando as mães carentes que ali eram atendidas. Noutras dizia ter ido à padaria ou a farmácia. Mal sabia ele que a maternidade era apenas uma desculpa para suas escapadinhas extraconjugais. Casado com Marisa há quase uma década, ela nunca engravidou. Ele a cobrava constantemente um filho ou filha. Não importa qual fosse o sexo, o importante era o carinho que ele sempre guardava para o fruto deste seu amor. Mas ela atribuía o fato como uma anomalia familiar afirmando ser um problema hereditário uma vez que a mãe só lhe gerou após um longo tratamento, sendo ela filha única. Ele tentava convencê-la a se submeter a um tratamento, ela nunca concordou.

Seu patrão era um empresário bem sucedido, seu amigo de infância o considerava como irmão. Logo percebeu que algo não estava muito bem, Arnaldo andava cabisbaixo e tristonho seu sorriso já não tinha mais o brilho de antes. Preocupado ofereceu a ele tirar umas férias e fazer uma viagem, talvez a uma estância qualquer, mas ele recusou alegando que jamais deixaria de trabalhar para curtir férias, uma vez que seu trabalho não exigia esforço físico e não seria necessário tal descanso.

Alguns dias após, Joel o patrão o procurou pela manhã, dizendo que na maternidade havia ocorrido um acidente naquela madrugada, uma máquina te torcer roupas arrancou a mão de uma voluntária, sendo que a mesma necessitava de sangue universal, talvez ele pudesse doar uma vez que era seu tipo sanguíneo.


Arnaldo gelou ao receber a noticia, ao sair de casa na tarde do dia anterior despediu de Mariza, ela afirmando que iria dar plantão na maternidade naquela noite. Sem nada comentar ele apanhou seu carro e foi direto ao seu encontro, durante o trajeto mil coisas passou em sua cabeça, mas uma única esperança o confortava seu tipo sanguíneo não era universal como afirmou seu patrão. Deveria ser de fato outra voluntaria. O que o tranquilizou ao constatar que realmente se tratava de outra pessoa. Fez seu gesto humanitário doado seu a sangue à desconhecida, e após procurou por Mariza para levá-la com ele para casa, ninguém deu noticias. Ele estranhou a maternidade não era assim tão grande ao ponto de não se conhecerem uns aos outros.

Chegando a casa a mulher estava com o café à mesa e seu banho já preparado, e o recebeu com um lindo sorriso, de forma tão carinhosa, fazia tempos que isto não ocorria. Ele ficou intrigado com aquela cordialidade.  E para complicar ainda mais a situação ela disse:

- Amor você não imagina como na lá maternidade hoje a coisa está complicada, são poucas as voluntárias, se você não se importar vou ter de ajudar todas as noites, pelo menos por algum tempo, aquelas pobres mulheres precisam demais de apoio, falta quase tudo, temos que nos desdobrar nas lavagens das roupas que são muitas, e as doadoras de mão de obra em sua maioria se afastaram!

–Tudo bem querida faz como melhor te convier-, ah deixe te perguntar está tudo bem por lá não houve nada de anormal?

– Tudo bem sim, só faltam mesmo doadores, carência sempre teve é comum para aquela pobre gente!

–Ah então já que não temos filhos ajude mesmo aqueles bebês tão inocentes isso me conforta enquanto nossos filhos não vêm. Saiba que fico feliz com sua atitude, é muito gratificante ter uma esposa assim tão caridosa! Arnaldo apesar de arrasado não deixou se abater nem transparecer sua decepção, há tempos que seu casamento já estava abalado e ele aguentando sem se pronunciar a respeito.

Semanas depois ele encontrou por acaso uma conhecida dona de uma boate que sempre lhe arrumou companhia no seu tempo de solteiro. Conversaram amistosamente sobre os bons tempos passados, e trocaram confidencias de amigos. Ele soube que ela continuava atuando no mesmo ramo, porem atendendo de forma mais discreta, confidencial e sigilosa.


Voltando ao trabalho seu patrão e amigo Joel notou sua tristeza tentou de todas as formas que ele se abrisse dizendo o motivo que o deprimia, não conseguiu. Afirmando estar tudo bem ele o agradeceu. E continuou sua rotina como se nada acontecia.

Mais algumas semanas se passaram, a esposa e ele na mesma rotina, ela se fingindo de voluntaria passando as noites fora de casa, ele no seu trabalho como vigilante. Até que ele decidiu procurar sua amiga Rosa dona da boate. Quando ela lhe apresentou o álbum de fotos das mulheres seminuas, todas casadas, que trabalhavam com ela, para uma possível escolha. Ele sofreu uma pane, ao deparar com determinada foto, seu coração quase saiu pela boca, gelou e empalideceu. Notando seu descontrole Rosa o socorreu com um pouco de água e perguntou: - o que foi Arnaldo? 


- Nada de mal, apenas uma pequena vertigem, mas esta tudo bem já passou!

– Você conhece a dama desta foto meu amigo?

– Não, mas é ela que eu quero escolher, vou programar minha folga para daqui dois dias e venho me encontrar com ela, deixe tudo preparado.

Dois dias após armado com seu revolver trinta e oito, ele dirigiu à boate, entrou para a suíte e aguardou meia hora, uma hora, ninguém apareceu. Nervoso ele pediu uma explicação a Rosa. Ela pediu mil desculpas afirmando –, que coisa mais estranha Marisa sempre foi pontual o que terá ocorrido meu Deus! Só pode ser um acidente neste transito maluco!

Voltando para sua casa disposto a apanhar seus pertences e se mudar para uma pensão qualquer, entrou no seu quarto. Imóvel estendido sobre a cama estava o corpo de Mariza, com uma agulha penetrada na artéria da curvatura do antebraço, ligada a uma mangueirinha por onde seu sangue fluiu até se esgotar completamente, numa bacia usada como recipiente à beira do seu leito. Assim findou seu amor!

Autor: Geraldinho do Engenho
Bom Despacho/MG

domingo, 25 de setembro de 2016

Lançamento de livro:

Tenho em mãos, o mais recente livro do colaborador e amigo Geraldo Rodrigues da Costa, lá de Bom Despacho, das Minas Gerais.

O talentoso escritor nos brinda, desta vez, com um livro diferente. Em Paisagens e Lendas que Encantam, tal diz no prefácio: ¨... E como o genovês Cristóvão Colombo, salta os mares em sentido inverso, para descobrir a Europa, em especial duas pátrias: Portugal e Espanha. ¨





Geraldinho do Engenho





Esse é o meu amigo Geraldinho do Engenho!
Um abraço!


domingo, 11 de setembro de 2016

A botija de ouro

João Batista Stabile

Nos bons tempos do café quando a cultura estava no seu auge, existiu um grande fazendeiro que começou sua vida como tropeiro transportando café para o porto de Santos. Homem trabalhador logo conquistou a confiança dos fazendeiros da região e com isso ganhou muito dinheiro, esperto nos negócios começou a comprar terras e depois casou-se com a filha de um fazendeiro tornando-se em um curto espaço de tempo um grande produtor de café.
Desse casamento ele só teve um filho, o menino apesar de inteligente e educado não demonstrava ter o tino do pai para negócios, foi crescendo mimado pela família mais pela mãe, tias e avó que pelo pai que tentava por todos os meios torná-lo um fazendeiro como ele e talvez o chefe político da cidade, mas logo percebeu que sua tarefa não seria fácil, o menino agora já rapazinho gostava mais da vida boa e dos privilégios que a posição do seu pai proporcionava-o.
E como não adianta dar conselho falar que o jovem está agindo errado, ele só vai aprender quebrando a cara, mas quando isso acontece geralmente é tarde para recuperar o que perdeu.  Um dia o pai já convencido que o filho não daria conta de administrar os negócios quando ele morresse chamou-o para conversar, levando-o para um quarto do casarão, abriu a porta à chave e entraram, era um quarto espaçoso com pouca mobília, num canto um armário que estava vazio, duas poltronas velhas   e mais alguns trastes noutro canto.
Esta casa antiga tinha o forro de madeira e no centro do quarto havia uma corda que pendia do forro com um laço na ponta e um banquinho na altura certa para um homem enforcar-se. Mostrando isso o velho disse ao filho, está vendo isso, quando eu morrer e você dissipar nossa fortuna com essa vida de boêmio que você leva, quando tiver sem dinheiro e sem amigos, não desonre meu nome vivendo na miséria venha aqui e enforque-se.
Feito isso o pai chamou o rapaz para sair do quarto e disse que não voltasse ali até que chegasse a hora de acabar com tudo, saíram do quarto e o pai o trancou à chave e a guardou no cofre junto com os documentos mostrando para o filho, o rapaz não levou muito a sério aquela conversa mas não querendo chatear o pai prometeu que faria o que ele pediu, achou esquisito aquele pedido mas esqueceu e foi curtir sua vida.
Depois de alguns anos daquela conversa seu pai morreu, ficando para ele a responsabilidade pelos negócios da família. O rapaz acostumado na boa vida não quis pegar no batente, levantar cedinho como o pai fazia para organizar e acompanhar os trabalhos da fazenda e fazer as compras e vendas, foi deixando na mão de empregados.
Como diz o ditado o olho do dono que engorda o boi, nesse caso não tinha o olho do dono e os negócios já não rendiam como no tempo do velho, o rapaz sem experiência e sem muita vontade de trabalhar, gastando mais do devia e alguns negócios mal sucedidos em poucos anos estava afundando em dividas.
Para piorar a situação no último ano deu uma geada forte na região que queimou grande parte de sua lavoura ele sem saber o que fazer foi abandonando a lavoura, os empregados antigos de confiança foram embora. A situação chegou ao ponto de perder a fazenda só havia uma saída entregá-la ao banco para pagar as dívidas.
Um dia o rapaz desesperado com a situação, sem amigos porque acabando o dinheiro os companheiros de festas o abandonaram, sem ter a quem recorrer foi ao cofre pegar dos documentos da fazenda para negociar com o banco, viu a chave e lembrou-se da conversa com o pai.
Pegou a chave abriu o quarto olhou a corda pendurada pensou não posso dar este desconto à memória do meu pai entregando a fazenda, vou cumprir o que prometi subiu no banquinho pôs a corda no pescoço e pulou, o forro quebrou ele caiu e do seu lado caiu uma botija que se quebrou esparramando pelo chão uma fortuna em moedas de ouro.
Agora já experiente depois de tudo que aconteceu pegou o dinheiro pagou todas as dívidas salvando a fazenda. Daí por diante mudou completamente seu modo de viver, passou ele próprio administrar a fazenda fazendo-a produzir não mais esbanjou dinheiro, tornando-se assim o fazendeiro que seu pai sonhava que fosse.
João Batista Stabile - Marília/SP, 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Amor imortal

Autor: Alberto Vasconcelos

I
Cinquenta anos. Passaram-se cinquenta anos desde que nos vimos pela ultima vez. Era um dia qualquer da semana. Estávamos saindo do cemitério, onde havíamos assistido ao funeral de militar de alta patente com toda aquela pantomima insossa. Salva de vinte e um tiros em funeral... Recolhimento da bandeira que cobrira o ataúde...
Mesclado com o crepúsculo, o toque de silêncio executado pelo jovem corneteiro com o rosto banhado em lágrimas. Era o som da alma do afilhado a se despedir, para sempre, do padrinho e protetor...
Depois disso, apenas o som monótono do pedreiro ajustando a tampa da sepultura.
Abraçados, viemos lentamente até ao portão de entrada. Um beijo rápido no rosto, como despedida, e ela entrou no carro do pai que, impaciente, gesticulava e dizia algo ininteligível.
O peso da emoção proporcionada pela cerimônia nos guiou para casa. Nada a fazer...
II
Dentro do envelope de papel linho, o convite dourado para a cerimônia de premiação dos melhores da propaganda e do jornalismo me foi entregue pelo porteiro do prédio. O velho Anselmo, porteiro desde sempre, conhecia a todos moradores. Sabia da vida de cada um, com os mínimos detalhes.
—Nesse ano eles capricharam no convite, doutor. Nos anos anteriores não havia tanto luxo assim...
—Acho que vou mandar você me representar...
—Quem sou eu doutor? Quem sou eu para participar de evento como esse? E mesmo que pudesse ir, quem é que vai tomar conta de tudo isso aqui?
—Eu lhe empresto meu smoking e fico no seu lugar... (risos)
—Eu magro do jeito que sou doutor, dentro da sua roupa iam perguntar se o defunto era maior. (risos) E tem mais, se o senhor ficar sozinho no meu lugar, dona Genoveva vai trancar a portaria e lhe dar um amasso que só vai restar o bagaço...
—Rapaz acabe com isso. Dona Genoveva é uma mulher séria.
—E o senhor quer seriedade maior do que um amor velho e recolhido sem coragem para se mostrar?
Abriu-se a porta do elevador e quatro garotos saíram de dentro como que catapultados.
—Esses meninos não têm jeito. (comentou o porteiro entre dentes)
—Quem não tem jeito são os pais deles.
A fechadura meio que emperrou outra vez. Amaldiçoei o esquecimento, pela enésima vez, de pedir ao síndico que mandasse um chaveiro decente e de confiança arrumar aquela merda velha. Não era de se estranhar que uma fechadura com mais de trinta anos de uso desse algum problema. Na cozinha, tirei uma lasanha do freezer e coloquei no micro ondas para descongelar. Abri um Chiante Rufino e enchi a última taça de cristal que restava.
As outras, irmãzinhas dela, haviam suicidado, pulando da mesa depois de terem enchido a cara de vinho sujando o tapete e espalhando os cacos de cristal para todo lado.
Bebi um gole generoso e fui tomar banho largando a roupa pelo chão da cozinha, corredor, quarto e banheiro. A água estava gelada.
Eu havia esquecido, outra vez, de mandar arrumar o chuveiro elétrico, comparsa da fechadura na arte de me aborrecer... Mas um banho frio até que é revigorante, depois de passar o dia todo às voltas com montanhas de papel empoeirado. (pensei assim como forma de consolo)
Voltei para a cozinha enrolado na toalha. Para que vestir roupa se daqui a pouco iria tirá-la para dormir? Comi a lasanha com o vinho e fui para o sofá examinar dois processos que trouxera para dar a sentença.
No inicio do ano passado, quando assumi a quarta vara da capital, havia um acúmulo de processos que nenhum juiz do mundo seria capaz de vencer sozinho. Depois de me inteirar do absurdo que me aguardava, fui à Universidade Federal falar com o diretor do curso de Ciências Jurídicas. Eu estava precisando formar uma equipe com dez estagiários. Deveriam ser quintanistas e teriam bolsa de meio salário mínimo. (foi só o que consegui com o miserável presidente do tribunal). Inscreveram-se trinta candidatos. A prova que elaborei, eliminou mais da metade. Inaptos. Pensar que no final do ano essas bestas vão entrar no mercado de trabalho. E o pior, serão meus colegas de profissão...
Ainda bem que existe a prova da OAB.
A segunda prova foi a analise de um processo. Dei uma cópia do mesmo processo a todos. Teriam quatro horas para analisar e dar seu voto. Escolhi os dez melhores, dos quais, seis foram brilhantes. Concisos. Incisivos. Irrefutáveis.
Na primeira semana, analisamos em grupo as peças dos processos. Depois isoladamente e hoje tenho uma boa equipe. Nosso recorde foi prolatar a sentença em duzentos processos numa semana.
Os dois que eu trouxe para casa, me foram entregues por uma estagiária que fatalmente chegará à ministra num tribunal superior, tal a retidão e o embasamento jurídico de seus pareceres. Nesses dois casos, faremos uma representação junto à OAB contra os advogados, por ocupar a justiça com causas banais, que qualquer conciliador de quinta categoria daria um bom final e por acumular erros crassos de ortografia e gramática num linguajar chulo e repleto de vícios.
III
Chegado o dia da festa, voltei cedo para casa. Tinha que me preparar como um príncipe. O interfone tocou. Era Anselmo para avisar que o taxi chegara. Eu não poderia dirigir naquela noite. Geralmente volto embriagado desses encontros. Depois da premiação tem o coquetel, o jantar, a boate... o motel. Não. Definitivamente dirigir estava fora de cogitação. Fui recebido pelo mestre de cerimônia que anunciou a todos, pelo microfone de lapela, que o meritíssimo senhor doutor juiz de direito da comarca da capital estava prestigiando o evento. Entrei sob aplausos e apertos de mãos e tapinhas nas costas dos muitos amigos que tenho na mídia.
Ser amigo de jornalista é uma boa estratégia para se viver bem em sociedade. Ai de quem eles não gostam.
Propagandistas e jornalistas que ao longo dos anos, pelo exercício da profissão, haviam se metido em enrascadas e eu, de certa forma, havia ajudado nos confrontos com a lei.
Envelopes abertos e os vencedores de cada modalidade sendo apresentados aos presentes, sob intensa salva de palmas. O destaque da noite foi um jovem rapaz que conseguiu o primeiro lugar com duas reportagens sobre drogas entre adolescentes masculinos e prostituição como meio de vida entre adolescentes femininas. Alto, louro, vestido com o rigor que a ocasião exigia, chorou ao dedicar os prêmios à sua mãe, aquela senhora vestida de negro, cabelo cinza azulado, ostentando um colar de pérolas, sentada numa mesa de pista.
Inicialmente pensei conhecê-la de algum lugar. Talvez numa audiência. Talvez num júri. Não. Devia ser uma dessas mulheres que aparecem, vez em quando, nas colunas sociais desses jornalecos com os comentários imbecis de colunistas, geralmente, pederastas no fim da carreira homossexual.
Mas não. Esse rosto, essa lembrança, é algo mais marcante. Tem sabor de algo duradouro. Cheira à antiguidade. Remete a algum lugar ou momento muito intenso num passado distante.
Aquele rosto tirou minha atenção do resto da cerimônia. O pensamento dando voltas, revirando os arquivos adormecidos por longos anos.
Olavo Brás, decano dos jornalistas e presidente da associação da mídia estadual, estava em minha frente com o rapaz laureado naquela noite.
—Doutor, quero lhe apresentar nosso mais novo sócio. Com pouquíssimo tempo na profissão, revelou enorme talento e preparo para o sucesso.
—É um enorme prazer conhecer o senhor, doutor. O senhor é muito bem quisto em nosso meio. Tem ajudado aos colegas...
—Não se iluda meu jovem, nem leve em conta o que lhe dizem. Eu apenas aplico a lei. A vantagem fica sempre com a razão mais forte, que por pura coincidência, está com quem eu gostaria que ficasse... (risos)
—Se o senhor permitir, eu gostaria de apresenta-lo à minha mãe...
—Com o máximo prazer, vamos até ela.
Chegados à mesa, enquanto o rapaz esperava que uma jornalista acabasse de entrevistar a elegante senhora, pude observa-la melhor. Sim. Agora eu tinha certeza. Conhecia e muito bem aquela mulher. Ninguém no mundo tinha os olhos daquela cor. Num ímpeto, segurei-a pelos ombros colocando-a de frente para mim e chamei-a pelo nome, Helena de Arrabal...
Surpresa com meu gesto, Helena me encarou e eu vi em seu rosto aflorarem todos os momentos maravilhosos que vivemos na infância e adolescência.
O primeiro beijo... Os dois cachinhos de pelos pubianos amarrados com linha vermelha e azul colocados numa caixa de brincos... O primeiro saco de pipoca manchado de manteiga derretida que comemos juntos, e que ficara guardado com o canudo de papel do caldo de cana tomado no mesmo copo... O comprovante da passagem do ônibus elétrico que nos trouxe para o centro da cidade, quando nossos pais nos deixaram vir sós ao cinema para assistirmos ao filme “Suplício de Uma Saudade”, impresso em papel verde, cuja cor esmaeceu com o tempo, mas que não foi jogado fora. O botão de rosa, roubado do jardim do colégio das freiras, no dia dos namorados, seco e sem cor, guardado no missal...
Não sei quanto tempo permanecemos assim, parados, embevecidos na contemplação mútua. O amor nascido na infância compartilhada, despertado quando os hormônios nos levaram à adolescência pontilhada de carícias proibidas e de beijos ardentes, que fora embotado pela separação e pela obediência cega aos cânones sociais de uma época, diametralmente, oposto aos atuais, ressurgiu vigoroso deixando-nos estáticos pela descarga de adrenalina.
Com os corações batendo acelerados, sentamos.
Toquei levemente seu cabelo, sua orelha, seu rosto. Com a mão trêmula, ela ajeitou um cabelo em minha sobrancelha e correu o indicador pelo contorno do meu lábio superior, como sempre fizera. Por um momento, fomos sugados de volta aos anos 50... e quando conseguimos falar, nossas vozes embargadas pela emoção, foi para dizer em uníssono...
—Meu amor, por que nos separamos?

Autor: Alberto Vasconcelos - Santo André/SP

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Carta para Rosinha

Autor: Dermeval Franco Frossard

Rosinha,
Saudades docê!
Estes dias estava vagando sem o que fazê e me ajuntei  com uns parvos aqui, que queriam ir para  Aparecida do Norte, pagar ou fazer promessa, num sei bem o quê,  o cê sabe que nun interesso por estas coisas, num é?
Poisentão, num tinha o que fazê, fiz companhia. Meia caminhada andada quando me deparei cum esta casinha pintada de verde e barrada de azul, já que tava indo pra Parecida, resolvi fazê um pedido pra ela, depois pago a promessa, agora já conheço o caminho, num custa tentá, não é?
 Pedi para Nossa  Senhora, que aprovidencie um modo deu  compra estas terrinhas com esta belezoca em riba. Já vejo ocê lá, cozinhando o feijão e, em riba do fogão peças de porco dependuradas para defumá.
 O dinheiro que tenho da empreita de meeiro não é muito, Rosinha, mas dá pra fazê uma proposta e virar a cara pro outro lado, se de repente sua madrinha (Aparecida) nos ajudá, vai dá.
Eu vi lá, pouca coisa para mexê prá nos acomodá, luz num tem, também não precisa, né? lamparina arresorve! Não!? Tá bem, eu compro um lampião pra cozinha, mas de querosene, o a gás tá mui caro. Geladeira não carece, pois nos fundos da casa desce um ribeirão da serra com as águas geladinhas, onde a gente pode por as garrafas para gelar num instantinho. Vi também que podemos ajeitá nossa cama com as madeiras que a gente tirá lá do matinho e o colchão fazemos de paia de milho desfiada, tirando os umbigo das espigas para não cutuca a genti  de noite. Vamos fazê muito rebuliço lá.
Vou vê se compro as galinhas tamém, a gente põe uma pra chocá todo mês, pra nunca farta o franguinho do fim de semana. Aqui num vai ter televisão e nem computadô, ouviu? O cê pos reparo como as famías diminuíram depois desta tar da televisão? A famia do meu pai era doze irmão e da minha mãe tamém, hoje onde que o cê vê uma famia deste tamanho? Falta tempo pra furunfá? Aqui não! Agora qui tem estas tar de bolsa famia, bolsa escola...vamo pô menino no mundo, so! Outra diversão vai ser pescá lambari, traíra e bagre nos açude dos vizinhos. Vai ser bão, num é?
Rosinha, ocê sempre pede pra fala que ti amo num é? Poisentão, está espaiado por toda esta carta isto aí, é só enxergar de maneira diferente.
Rosinha,
Um beijo debaixo do seu nariz, tá!
Do seu José Raimundo Silva
Eu, mesmo, o Zé Pequeno do Arraiá de Pedra Bela.

Autor: Dermeval Franco Frossard
Bragança Paulista/SP

Amor de Estudantes

 Autor: João Batista Silva                                                                                                
“Voltando o olhar ao passado”, nas proximidades de 1970 a 1980, ocasião em que se deram grandes aventuras nas vidas dos estudantes, “Joasmyro e Jasmyne”; podem-se recordar juntamente com eles muitas passagens, que ficaram e ficarão na memória de tantos amigos.
Jasmyne muito entusiasmada, estudante do Curso Técnico em Contabilidade. Possuidora de um perfil extremamente encantador, dirige-se ao colega e deixa escapar as sinceras e dóceis palavras, que vão caindo uma após a outra, na mente oscilante e envaidecida do pobre moço. Antes porém, Jasmyne retorce os ombros, muda a fisionomia do maravilhoso rostinho de princesa, fixa bem os olhos do amigo, e na mais sutil delicadeza, pergunta:
— Do que falaremos agora?
Joasmyro, um pouco acanhado e surpreso, tenta despistar do susto que levou e ser firme na qualidade de bom cavalheiro que sempre foi e...
— Agora falaremos de tudo um pouco, inclusive...
Jasmyne, sorrateiramente complementa:
— Então falaremos de nós...
As idéias se complementam com otimismo na alma dos jovens, que sentiam a liberdade do amor falar mais alto.
Joasmyro pensa um pouco. Verifica os olhos brilhantes de sua linda, muda o tom de voz ainda mais, e responde:
— Ótimo, falar a só é o que mais quero.
O silêncio cai sobre eles. A proposta de falar emudeceu. Um olhando para o outro, trêmulos, a suspirar de satisfação, ali mesmo defronte ao jardim da residência dos pais de Jasmyne, naquela praça dos inconfidentes.
Um despistou daqui, o outro despistou dali, até que ouviram alguns chamados de sua mãe. Uma senhora que transmitia os mais exemplares comportamentos de uma família preservadora dos princípios e deveres.
Jasmyne volta-se para o apaixonado e interroga:
— Quando nos veremos novamente?
— Amanhã à tarde, disse lhe o afetuoso namorado, suando e vermelho como um atleta em suas funções. Tremia, ali parado, meio pasmado diante da bela adolescente, que lhe causava as melhores sensações de felicidades na vida.
Jasmyne, muito emotiva, apaixonadinha também, sensual e inconformada com a rigidez dos pais para com os sentimentos do amor, e com a falta de criatividade do namorado, decide por si e pronto:
— Veremo-nos hoje à tarde.
As obrigações do colégio serão feitas com rapidez e depois...
À tarde, à noite...
Combinado. Concordam os dois. E assim a convivência dos apaixonados foi se fortalecendo, se comprovando, se alimentando de esperanças.
No cair da tarde, lá se vai... e se prontifica o herói, defensor das causas justas de seus interesses, defronte ao palácio de sua encantada e brilhante Jasmyne.
Em poucos instantes Jasmyne vai à janela que dava frente para o jardim e fita os olhos no amigo Joasmyro, despertando, em seus pais, algo estranho que foram conferir.
— Olá filha, o que está lhe deixando a tremer assim?
— Nada de importante, meu querido pai, é só uma curiosidade de menina, e nada mais!
— É mesmo, filha! Então chame seu amigo para dentro de casa e não precisa ficar preocupada. Eu e sua mãe queremos sua felicidade. Ela é também nossa.
Jasmyne recebe uma dose de estímulo, que contagiou seu maravilhoso corpinho embonecado das mais belas características encantadoras de uma mulher. Vai até o alpendre e através de sinais convida o ousado jovem, para compor a mesa interna, ao lado dos pais.
Joasmyro, mesmo sem entender o que estava acontecendo, não resistiu ao convite e lá se foi!
— Boa tarde a todos!
Uns responderam, outros ficaram despercebidos diante da televisão.
A namoradinha, como sempre, foi a primeira a responder o boa tarde, cheia de emoções. Os sorrisos tomavam conta de sua alma naquele momento.
Inicia-se um longo período emocionante, que encantou por muito tempo um casal de jovens, que não teve a oportunidade de se realizar, ou de se encontrar no paraíso do grande amor que existiu e ainda existe.
Cada um seguiu seu caminho, mas o verdadeiro amor continua mais forte que nunca.
Felicidades aos dois...!
Joasmyro e Jasmyne, vocês se merecem: o que for da vontade de Deus será feito!

Autor: João Batista Silva
Bom Despacho/MG

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A sereia e o navegante

Autora: Rosana de Pádua

Vivia a Sereia na imensidão do mar. Passava seus dias pensando ser feliz, ora em águas calmas, ora em águas turbulentas.  Distraia-se nadando delicadamente, entre o colorido e a beleza dos corais infinitos, que contrastavam com as milhares de espécies ali existentes. 
Um dia, enquanto ela descansava sobre o mar, aproveitando os raios de sol que aqueciam seu corpo metade peixe, metade mulher, deparou-se com um Navegante que por ali passava. Ele acenou para ela, que fugiu assustada num ímpeto, mas, tomada de um sentimento estranho voltou desconfiada, e ficou ao longe tentando decifrar aquele misterioso ser.
Aos poucos foi se aproximando, e quando seus olhares se encontraram a Sereia ficou totalmente encantada, pois, ele tinha os olhos mais azuis que o mar, e seu sorriso brilhava mais que sol, que ela via nascer todas as manhãs.
Nesse instante o Navegante falou com ela, de um jeito hipnotizador, que de tão irresistível a levou a se aproximar ainda mais, correspondendo ao aceno. Houve um longo silêncio entre eles, enquanto deixaram que só os olhos falassem, depois foram surgindo palavras, e na troca de diálogos perceberam que muito tinham em comum. 
Daquele dia em diante, o Navegante voltava sempre para encontrá-la, e a serena Sereia o esperava ansiosa, contando os minutos para de novo vê-lo. Falavam de tudo, de suas vidas, de seus sonhos... Um dia, ele disse olhando dentro de seus olhos, que a amava, e a Sereia de tão feliz pensou que ia explodir, pois, sentia pelo Navegante algo jamais experimentado, que ela ainda não sabia decifrar, mas, a partir daquele momento soube, que era um sentimento nobre e imensurável, chamado Amor.
Passaram então, a estarem sempre juntos, ele fazia planos para o futuro e dizia que ela faria parte deles, trocavam juras, dividiam sonhos, passaram assim, a fazer parte um da vida do outro, inebriados em momentos de amor e caricias. Eram mais que dois, eram apenas um. Quando o Navegante partia, a Sereia quase morria de saudades, quando ele voltava, a saudade ia-se embora, dando lugar para o amor, que era responsável pela felicidade que contagiava a ambos.

Foi num dia nublado, que o Navegante fez a Sereia despertar de tantos sonhos, dizendo que ia partir para nunca mais voltar. Ele falava de uma tal de “segurança” que precisa ter, e que com ela não teria, e que seria impossível compartilharem o mesmo mundo, eram coisas que ela não entendia.  A Sereia ficou apavorada e confusa, tentando entender essa decisão repentina do ser amado. Ela implorou, insistiu e chorou, numa tentativa inútil de convencê-lo a não deixa-la. Mas o insensível Navegante partiu sem maiores explicações.
Durante vários dias a solitária Sereia esperava em vão pelo Navegante, depois daquela despedida, ela começou a achar que o mar era cinza, e que não havia mais belezas para serem admiradas, resultado de algo que ela jamais conseguiria entender: “Porque quem ama, fere?"   
Conta-se, que a partir daquele desencontro, é possível em noites de lua cheia, ouvir ao longe, o triste canto de uma sereia, enquanto nota-se, que as marés se tornaram muito mais intensas, devido às muitas lágrimas que caem dos olhos, da desencantada Sereia.

Autora: Rosana de Pádua