sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Desejo de mulher grávida - Autor: Dilermano Cardoso

            Aceite o palpite de um sujeito que apanhou mais da vida, que cachorro em procissão! Jamais pronuncie a pequena frase: - Desta água não beberei! Você acaba bebendo, e antes do que imagina. Que o diga meu amigo, Marcão. Em outros tempos quando sábado à tarde, reunida, a turma curtia conversa de boteco, ele que casou ‘Galo de São Roque’ - como dizia minha avó, passados os trinta -, para todo assunto, durão, tirava onda: “Lá em casa não vai ter disto, não!” Até se encantar, e apaixonado casar com a Adriana. Romântica leitora, imagine uma destas mocinhas aparentemente frágeis, meigas, que quando conversam a gente tem que pedir ao beija-flor que não bata asas, para lhe ouvir a voz... Foi exatamente com alguém assim que o Marcão da Lotérica tirou a sorte grande!
         Se não é fácil para nós homens um convívio harmonioso com namoradas e esposas, naqueles cinco fatídicos dias para elas, e de tabela para seus companheiros - quando engravidam o bicho pega pra valer! Neste aspecto o folclore é variado e somos chantageados, pois se lhes não atendemos aos caprichos o neném nasce com a boca torta, zarolho, orelhas de abano...

          De volta ao meu casal de amigos, eles estão grávidos, como se diz hoje por força de modernismos. Pois não é que uma noite destas, ao sonhar que chupava jabuticaba a Adriana acordou com tal desejo, obrigando o pobre Marcão em plena madrugada telefonar para parentes e amigos, pedindo a fruta? Embora no meio do ano, por aqui, jabuticaba a gente só veja em fotografia, sonho, e desejo de grávida? Ao lembrar-se que possuo um sitiozinho com meia dúzia de jabuticabeiras no quintal, ele veio bater à minha porta pedindo “até pelo amor de Deus”, que lhe arranjasse nem que fosse uma mãozada de fruta, ou ele, despejado da cama de casal e temporariamente no sofá da sala, dividiria a casinha do cachorro, com o dito cujo!

           A esperança é a última que morre... e mesmo assim morre! No domingo, um filho meu que mora em Paranavaí ligou (tarifa telefônica aos finais de semana é mais barata! Tio Patinhas!), me perguntando: - Pai, adivinha o que é que eu estou fazendo? - Ora, conversando comigo ao telefone. Respondi dando uma de bonzão. - Deixa a ficha cair, sô! Prosseguiu ele. Estou chupando jabuticabas! E me explicou o ‘milagre’. É que no Sul as estações do ano são ligeiramente antecipadas, e mesmo não sendo Outubro, mês oficial de colheita da fruta, por lá ela já pode ser encontrada. Na mesma hora pedi que adquirisse uma caixinha de isopor, e enchendo o quanto cabia, despachasse via Sedex! Animado, o Marcão só não contava com a greve nos Correios, quando elas chegaram...

            Como desejo de mulher grávida não passa nem a poder de reza, meu amigo pôs anúncio no jornal, na rádio, se torturando que o herdeiro pagaria por sua incompetência, quando o João Tavares lhe socorreu. Aguando muito, um pé na sua casa dera frutas temporãs. Chegou, enfim, a hora que a Adriana realizaria seu desejo de grávida; se comparado ao de outras, era até razoável. Sei de uma futura-mamãe a quem coisa nenhuma servia, que não fosse o pobre do marido comer cacos de telha cozidos no feijão. Ele, não ela!... Caixa de papelão embaixo do braço lá se foi o amigo, em busca do seu resgate!

           Com o país quase no primeiro-mundo, temos novidades todo dia, tal qual a estória de marido assumir gravidez, ao lado da esposa. Radiante de felicidade o Marcão embarcou na onda junto com a Adriana, devorando, ele mais do que ela, as encantadas jabuticabas. Seu entusiasmo foi tanto que não perdoou caldo, casca, caroço... Ontem, de semblante triste, preocupado, me confidenciou: se antes seu problema fora encontrar as frutas; agora era livrar-se delas!

Autor: Dilermando Cardoso - Bom Despacho/MG
Página do autor: http://recantodasletras.com.br/autor.php?id=73941
Publicação autorizada através de e-mail de 12/10/2011

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