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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O susto - Autor: José Claudio Cacá


Bom Conselho é uma cidade do estado de Pernambuco, a mais de 2.000 km de distância da cidade onde o Osório fora trabalhar, Mariana. A obra ficava afastada da cidade. Uma fazenda onde se descobriu minério, fora desapropriada e estava se instalando ali uma empresa mineradora. Mais de três mil peões vindos de todos os cantos de Minas e do Brasil. Osório era um carpinteiro. Um artista com armações, formas e ferramentas nas mãos. Requisitado nessas firmas que correm o país construindo obras. A rotatividade de mão de obra nelas é imensa, mas há os casos dos peões seletos, que acompanham a firma onde quer que haja um serviço de importância. Há casos em que elas costumam pagar o trabalhador para ficar em casa, aguardando obra nova. Fazem isso para não perderem os mais qualificados e dedicados operários. Como o Brasil nunca viveu grandes períodos sem crises, deu-se do Osório ficar desempregado. Saíra de casa lá de Bom Conselho, dando a benção aos três filhos e um beijo na mulher dizendo que avisava onde estaria, que mandaria dinheiro para as necessidades tão logo arranjasse colocação. Havia três meses que Osório trabalhava duro de sete da manhã às sete da noite, de segunda a sábado. Tinham pressa os engenheiros comandantes do projeto. Prometeram entregar a infra-estrutura em um ano para que fosse instalada a usina que iria beneficiar o minério retirado da mina.

Numa segunda feira, no horário de almoço, o chefe do escritório mandou lhe chamar. Os comentários no meio dos colegas são imediatos: ou é demissão ou é aumento. Não fica se chamando peão no escritório da chefia por qualquer coisa. A tranqüilidade era geral no seu caso, funcionário exemplar, possivelmente ia ser promovido a mestre de carpintaria. Saiu com um papel nas mãos e um semblante preocupado. Entrou de imediato numa sala ao lado que era a do engenheiro responsável pela obra toda. O homem que fazia chover e trazia o sol, segundo jargão corrente. Em menos de cinco minutos deu-se um ruído de vozes alteradas no escritório e, no minuto seguinte, barulho de coisas sendo arremessadas por todos os lados, desenhos, pranchetas, material de escritório, cadeiras. A segurança fora acionada e foram contidos os ânimos. O engenheiro saiu lá de dentro correndo assustado, e o Osório foi levado para fora do canteiro de obras no carro da segurança e nunca mais foi visto. Todos se enganaram quanto a promoção ou o aumento de salário O papel que ele levava era uma carta. A sua mulher descobrira, depois de muito pesquisar nas empresas onde ele costumava pegar essas empreitadas o seu paradeiro lá nessa localidade. A carta dava-lhe 48 horas para voltar para casa sob pena de colocar outro homem no seu lugar, segundo disseram os homens do escritório que conversaram com ele. A bagunça toda foi por causa do seu pedido imediato de demissão recusado pelo engenheiro. Alegava ser bom empregado, não haver motivos para tal ato. Ao que o Osório resolveu fornecer, quebrando todo o escritório. Não ia deixar que ocupassem sua cama lá no Bom Conselho. Não se chegasse a tempo!

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG
Publicação autorizada pelo autor

quarta-feira, 23 de maio de 2012

God save the Euro - Autor: José Cláudio Cacá

Numa reunião entre uns vinte estavam presentes irresponsáveis, aventureiros, descontrolados, sobreviventes e também os desprovidos de recursos. Eles tinham uma única coisa em comum na pauta: eram todos pobres. Cada um dando seu jeito de, primeiramente, justificar a pobreza. Uns transferindo a culpa para os ricos, “aqueles egoístas”. Outros se lamuriando de que não conseguiam vender nada para quem tinha dinheiro, pois sempre queriam pagar menos do que o que seu produto valia. Havia os megalomaníacos, que diziam ser  seu endividamento causado por “aquelas grandes obras”, mas que ainda haveriam de dar um bom retorno algum dia. O objetivo era encontrar uma saída honrosa e em conjunto para a situação, seja ajudando-se uns aos outros, seja traçando metas comuns de agir. Esbarravam sempre nas resistências dos ricos em ajudar com empréstimos ou perdão das dívidas. Não houve nenhum acordo até que apareceu o Sr. Fundão, aquele que dizia ter uma procuração dos mais ricos do mundo para ajudar aos pobres a se manterem de pé. Chegou, olhou aquela bagunça de papeis amassados pelo chão, copinhos que descartavam por todos os lados, muita fumaceira de cigarro e já foi dando logo um aviso. “Primeiro, arrumem a casa, depois eu volto.” Voltou e já com tudo em seus devidos lugares impôs condições duríssimas para  fornecer ajuda. Ela viria em primeiro lugar com consultorias e com determinações rígidas em como gerir os poucos recursos (de preferência fazendo aquela famosa realocação, tirando de um lugar para colocar em outro mais carente). Por exemplo, falou para um homem mal arrumado à beça: você pode, em vez de usar esse terno caríssimo, um mais baratinho e , em compensação, comprar um sapato mais apresentável do que esse. Em vez de ostentar esse relógio de ouro (foi lá no braço conferir se era mesmo um rolex legítimo), pode usar daqueles que vem com um monte de pulseiras coloridas para variar e todos pensarem que é relógio novo. Depois disso tudo, aí, sim, nós emprestamos dinheiro novo ou perdoamos parte dos juros de quem cumprir tudinho à risca. Meio ensaiando alguns protestos, a reunião foi encerrada e o acordo assinado para os próximos seis meses (com acompanhamento quinzenal por uma equipe de metas do Sr Fundão).
Num outro lugar não muito distante, em outra ocasião não muito distante, estavam reunidos uns outros vinte com dificuldades financeiras - que eles preferem chamar de desajustes pontuais. Tinha lá até representante real, reinos unidos, parlamentos inteiros, gente graúda mesmo, dona de mais da metade da riqueza que circula pelo mundo afora. Tinha também irresponsáveis, megalomaníacos, descontrolados e aventureiros. Mas o comum entre eles é que eram todos ricos, muito ricos. Nunguém queria justificar nada, achando que não deviam dar satisfações do que fizeram com seu dinheiro. Sequer admitiam alguns de possuírem dívidas. Veio o Sr. Fundão dar palpite e quase é enxotado da reunião. Onde já se viu vir querer falar para os ricos que deve-se gastar assim e não assado? E ainda por cima, o Sr fundão era o próprio procurador deles mesmo. Quanta petulância!
Resolveriam eles mesmos e a seu modo como sempre foi depois que ficaram ricos. Antes até aceitavam ajuda de um certo Tio Sam. Mas ele agora também estava em sérias dificuldades.
O Fundo Monetário Internacional (FMI, aqui chamado de Sr Fundão) já mandou e desmandou no mundo chamado subdesenvolvido, agindo acintosamente com as economias pequenas e países pobres. Os Estados Unidos sempre controlaram-no junto com os europeus. Os EUA hoje estão “sem bala na agulha” como se diz no jargão das finanças quando alguém está sem dinheiro. Os europeus estão  tentando a todo custa salvar o Euro (sua moeda única). França e Alemanha lideram as tentativas de entendimento sob a resistência da Inglaterra( e todo o Reino Unido). Afinal eles já foram um império mas perderam o trono e  boa parte das jóias da coroa. Não estarei aqui para presenciar o desfecho mas isso não vai terminar bem. Nem EUA nem Europa. Na história os grandes impérios nunca caíram em situação de paz.
Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG
Publicação autorizada através de e-mail de 22/05/2012
Publicada originalmente no blog emquantos.blogspot.com

sábado, 31 de março de 2012

Ironia - Autor: José Cláudio Cacá

Assisti a um bate papo com o genial escritor Moacir Scliar na bienal do livro aqui em BH, cujo tema era a Ironia na Literatura. Entre tanta coisa boa que ele disse, uma delas foi sobre a ousadia do ser humano, respondendo a um porque da mediadora, sobre a recorrência de temas bíblicos em suas obras.  Falou da fantástica habilidade dos escritores da bíblia, de sua capacidade de síntese, das parábolas e metáfora e outras tantas preciosidades inspiradoras contidas no livro sagrado e o mais lido pela humanidade. Depois citou um exemplo que me deixou pensativo: o cientista americano Craig Venter havia acabado de criar uma célula sintética, referindo-se à ousadia humana. É diferente da clonagem, onde se tira um pedaço de tecido vivo e se faz cópia desse ser. A célula é o princípio de toda a vida no planeta. Então podemos deduzir que o homem agora já pode se colocar no lugar de Deus, segundo a crença religiosa sobre a criação. Apesar de não ter assumido essa capacidade, ele disse, por enquanto, que vai haver a possibilidade de resolver problemas ambientais e energéticos, entre outras aplicações. Mas é uma célula, minha gente. A dedução de que vai se querer criar um ser vivo fica por conta de minha imaginação. Ironia ou não, é uma ousadia que vai dar pano pra manga.
Eu já andava meio desconfiado. Tenho observado que uns alimentos naturais até algum tempo atrás eram mais perecíveis. Não sei também qual a matéria prima ou remédio que usam nas pesquisas científicas, mas tem muita coisa que está com uma durabilidade excessiva. Tenho umas laranjas e um melão aqui na minha casa que já fazem mais de cinco meses que não apodrecem. Estão tão vistosos que quem chega pergunta se é daquelas antigas frutas de plástico que se usava para enfeitar fruteiras. Só não tive a coragem ainda de comer. Por vias das dúvidas, melhor continuarem enfeitando. Isso é genética aplicada à agricultura, suponho. O mundo é mesmo dos ousados, tem razão quem disse isso. Enquanto há uma luta ferrenha para se retornar às coisas naturais, a uma alimentação mais saudável, orgânica, livre de venenos, há um desenvolvimento acelerado de pesquisas para desnaturalizar alimentos para aumentar a produção e durabilidade em menos espaço geográfico por causa da destruição de áreas férteis disponíveis. Ou para aumentar a lucratividade dos produtores? Não sei, mas desconfio de muita coisa. E tenho uma certeza: as cobaias acabamos sendo nós mesmos, depois dos ratos de laboratório, claro. Sem entrar no mérito da causa se o homem está arrogando a se igualar a Deus ou provar que ele não existe, criando vida por conta própria, a ousadia é uma ironia.

O restante da conversa foi sobre os limites da transgressão e a diferença entre a ironia e o humor na literatura. O humor é aceito com certa universalidade. Já a ironia tem um duplo, triplo, ou vários sentidos que , por falta de compreensão do interlocutor ou firme propósito do autor, pode ser apenas deboche ou soar como provocação, acinte ou outra coisa que provoque inquietação. Estou apenas pensando na frase que eu falei que o mundo é dos ousados. Ou então a minha ironia aqui é que passa a ser uma ousadia. E de pensar que o meu maior atrevimento foi ter dado um livro meu de presente para o autor, coisa que nunca achei que fosse possível. E ele aceitou com muita educação. Para mim foi o máximo da ousadia.

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG
Publicação autorizada através de e-mail de 07/02/2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O que você faria - Autor: José Cláudio - Cacá



A história é assim: a moça, depois que sua mãe lhe forneceu pistas acerca de seu pai biológico na adolescência, já que estava desconfiada de suas diferenças em relação aos irmãos resolve, aos 22 anos, investigar suas origens e sai em busca dele, quer conhecê-lo. E descobre que seu pai biológico é diferente daquele “garanhão italiano” que sua mãe havia lhe descrito. Encontra um travesti.

Esse é um assunto sobre o qual a vida me ensinou a não fazer julgamentos, no entanto, há uma comichão inseparável e própria de cada um em comentar. As melhores maneiras, eu acredito, de não sair por ai fazendo julgamentos condenações e absolvições ou ainda ficando em cima do muro é, primeiro: não tenho nada que me meter com a vida alheia; segundo: pimenta nos olhos dos outros é refresco e; terceiro e mais importante: não alimentarei preconceitos e nem sairei por ai me arrogando como dono de alguma verdade. Quando  a alteridade se instala (ou nós mesmos a instalamos)  com toda a sinceridade possível, aplacamos nosso ímpeto acusatório ou julgador; de algoz, condescendente ou omisso, não é mesmo? Então meu comentário passa a ser: E se fosse comigo?

Normalmente, com notícias engraçadas, inusitadas, escandalosas, ou chocantes, costumo criar uma história paralela, falar da própria notícia ou fazer uma crítica bem humorada, tomando o cuidado de não ser agressivo, preconceituoso, radical, raivoso, sarcástico, nem mórbido. Aqui também devo me cercar desses mesmos cuidados para não correr nenhum risco de segundas ou terceiras intenções. Tive então a idéia de conversar com minhas duas filhas separadamente para obter a opinião delas sobre o episódio para colocar aqui como se fosse comigo. Portanto, ficou sendo um evento familiar e se elas manifestarem alguma idéia politicamente incorreta, é o retrato da nossa própria sociedade.

A mais velha deve ter acordado com uma TPM no dia da pergunta, que fiz logo cedo:
- E se fosse com você, filha, dá para imaginar qual seria a sua reação?
- Pai, isso é pergunta que se faça logo na hora do café da manhã? Eu sei lá, talvez fosse ficar procurando um chão pra pisar durante um bom tempo.

Já a segunda, mais debochada, soltou espontânea:
- Pai, desse tamanho todo, já pensou que hooooorrorosa você ia ser?

Esta situação inusitada serve de contraponto (sem debate) ao que tramita no congresso nacional acerca da adoção de filhos por casais homossexuais. Aqui a situação é inversa, a filha querendo adotar um pai (no caso, o próprio pai).

E aí, o que você faria?

DEIXO UM CALOROSO E FRATERNO ABRAÇO A TODOS OS PAIS QUE POR AQUI PASSAREM.

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG

http://uaimundo.blogspot.com/
http://recantodasletras.com.br/autor.php?id=50775
Publicação autorizada através de e-mail de 08/02/2012

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Vai passar - Autor: José Cláudio - Cacá

Quando eu era criança ouvia os mais velhos dizerem uma frase que reportavam à bíblia: “a mil chegará, de dois mil não passará.” Era o apocalíptico fim do mundo, segundo a crença de muita gente. Ficava temeroso mas um tanto aliviado. No ano de 1999 ia estar com 37 anos e já teria vivido demais. Para uma criança, alguém de trinta e sete anos é um velho. Medo, no entanto, eu tinha algum. Afinal, qualquer pessoa saudável não quer morrer mesmo estando “velho”. Isso me acompanhou durante muito tempo. Passei a não gostar tanto de revellions. Eles abririam as portas para a epifania do fim dos tempos. Cada ano uma porta. Cada porta um passo para o encurtamento da vida. Eu fui crescendo e passei a fazer a minha própria interpretação bíblica. A bíblia é tão enigmática, tão metafórica, tão cheia de dedos humanos que isso acaba acontecendo: cada qual interpretando de acordo com suas vontades, suas convicções e até mesmo interesses mais inconfidentes.

Já mais familiarizado com a matemática, descobri que o fim do mundo poderia ser no ano de 2999. Ainda estaria dentro da casa dos 2000. Relaxei e tratei de rever planos e despachar as dúvidas. Investi na longevidade em pensamento. Digo em pensamento porque os cuidados com a matéria corporal não recomendam que eu tenha tanta vida útil. Veio o século XXI, a terra continua inamovível, apesar de um tanto mais maltratada pelo homem, mas nada que assuste a ponto de acreditarmos que sua destruição é iminente. Confesso que fui feliz muitas vezes. Tive muitos problemas, nem todos que imaginava e também alguns que imaginei acontecerem comigo. As alegrias, entretanto, foram maiores.  Planejo até ver netos crescerem um pouquinho...

De 1970 para cá eu me lembro muito bem de todas as copas do mundo. E é através delas que vou agora contanto meu tempo por estas bandas. Teremos no próximo ano mais uma e a de 14 será no Brasil. Não vai dar para ir a todos os jogos pois fortuna não fiz e creio não mais fazer até lá. Se bem que não é meu interesse ser mais afortunado do que já me considero com os afetos que construí até hoje.

A última previsão do flagelo final é para 2012. Justo quando eu resolvi que vou completar 50 anos. Será que o ano desse fim chega até setembro?

Desejo a todo mundo vida longa, muita saúde e paz em 2011 e por todos os anos que ainda nos restarem dentro desses quase nove séculos que ainda virão, segundo minha interpretação. Paz e bem.

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG



Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 09/12/2011

domingo, 18 de dezembro de 2011

Entrevista com Papai Noel - Autor: José Cláudio - Cacá

ARCANJO ENTREVISTA PAPAI NOEL

Arcanjo Isabelito Salustiano, o filósofo das ruas, estava passeando pelos shoppings e feiras da cidade em busca de assunto, já que desde o início do ano ele já sabe para quem pode e quanto pode gastar com presentes. Encontrou vários papais Noéis, tirou fotos, conversou muito e observou tudo, até o momento em que passou um cara e roubou um saco que estava ao seu lado. Provavelmente pensou que estivesse cheio de presentes ou dinheiro. Tudo caixa vazia. Enquanto as crianças e populares corriam atrás do sujeito, ele conseguiu essa rápida entrevista com o Papai Noel.

ARCANJO: Papai Noel, explique para nós a sua origem geográfica. Não precisa falar de sua onipresença, isso todo mundo sabe. Onde fica essa tal de Lapônia?

PAPAI NOEL: A Lapônia não é um paraíso fiscal como muitos podem pensar. O saco cheio que carrego é proveniente de muitas doações de gente honesta do mundo inteiro. E a Lapônia fica num lugar onde as renas nascem. Nem avião chega lá. Só as renas. E só as minhas. Rena é um bicho criado exclusivamente para Papais Noéis.

ARCANJO: A tradição cristã fala também que você é a representação do São Nicolau?

PAPAI NOEL: Era, meu filho, era! Pelo menos aqui no Brasil! Apareceu aí um certo Nicolau, de quem falam ser ele um juíz e derrubou  a minha reputação de bondade , caridade e solidariedade. Já pensou eu ser tratado pelas criancinhas de Lalau? Vamos ficar só com o epíteto do “bom velhinho”, que já tá bom..

ARCANJO: E sendo assim, meio gordo, por que entrar pela chaminé?

PAPAI NOEL: Isso vai se modificando com o tempo, meu filho. Em primeiro lugar, são raríssimas as casas hoje em dia em que há chaminés. Aliás, o número de casas vem só diminuindo. Nos prédios onde não tem elevador, eu ainda tenho é que subir escadas em vez de descer pela chaminé. Eu tenho que tocar nos interfones e há lugares onde é difícil liberarem minha entrada. Tem tanto clone de papai Noel mal intencionado por aí... Quanto à chaminé, era uma forma de me aquecer, já que de onde venho é muito frio. Agora, além do sumiço das casas, e com esse aquecimento global, já estou querendo é mudar o uniforme, algo mais leve.

ARCANJO: Por que você não se adapta em cada região aos seus costumes? Por exemplo: esse negócio de neve no Brasil nesta época do ano, não cola com a sua imagem nem com o clima. Não acha muito americanizada a sua atitude? Você não estaria puxando a brasa para a sardinha dos americanos? Quer dizer, trazendo essa idéia de neve para cá em pleno verão? Eles já dominam tantas coisas no mundo... Será que o Natal não pode ser cada um com seu costumes e deixar o ecumenismo somente para celebrar o nascimento de Cristo? Não bastou esse tal de panetone que você espalhou por aqui? Deu até confusão numa certa cidade lá no planalto central do Brasil. Tinha um cara disfarçado de papai Noel sem o devido traje roubando dinheiro e dizendo que era para distribuir panetones aos pobres...

PAPAI NOEL: Bom, em assuntos internos de cada país eu não me meto, sabe como é, a minha imagem universal... Imagine se eu chego no Brasil, por exemplo e me visto de bermuda, chinelão, boné e camiseta regata? Aonde iria parar a minha credibilidade com as crianças? Fora o fato de que eu iria ter que ficar me explicando para a polícia. No mínimo iam me confundir com vagabundo. Ou então, num traje desses com um saco nas costas, eu ia era ganhar esmolas.

ARCANJO: Obrigado seu Noel. Quer deixar uma mensagem final para seus fãs no mundo inteiro?

PAPAI NOEL: Se quero! Tenho notado que em todo lugar as pessoas por mais que dêem e ganhem presentes, estão sentindo falta de mais presença do outro em suas vidas. Disfarçam as suas faltas e carências com artigos de consumo imediato mas não conseguem preencher seus espíritos com uma substância que não está à venda em nenhum lugar. Eu gostaria mais de ser outros símbolos. Queria simbolizar mais a tolerância em vez da indiferença. Mais a humanização em vez da coisificação. Mais a essência em vez da aparência. Queria que fôssemos mais sujeitos das coisas e valores e não meros objetos de dominação por falta de envolvimento real nos destinos de cada lugar, de cada país.    
Eu desejo natais onde, em vez de meu sem graça HÔ,HÔ,HÔ, eu poderei escancarar um satisfeito HAHAHA!

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG


Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 09/12/2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Aprendendo com a cachorra - Autor: José Cláudio - Cacá

Alguém disse que quanto mais conhece o ser humano mais admira o seu cachorro. Eu não vou arriscar atribuir autoria, pois na internet há mil e um autores que foram agraciados com a paternidade dela. A internet não é muito confiável para pesquisar certas coisas, uma delas é autoria. Acho além de tudo, uma frase derradeira de quem desistiu de vez das possibilidades de convivência humana saudável e agradável. Um horror ter que admitir isso, pelo menos para mim que tenho um olho no humano e idealista como uma planta. Toda planta tem um ideal. Crescer, florir ou frutificar e fornecer ar puro para fora de seu mundo de planta.

Isso não impede, no entanto, que eu aprenda muita coisa com os animais. Tenho aprendido, por exemplo, com a minha cachorra uns hábitos alimentares que não consegui por conta própria ou de legado da educação que meus pais me forneceram. Cachorro não tem o olho maior do que a barriga depois de adulto. Você coloca lá a água e a comidinha dele e ele vai comendo à medida que tem fome. Na medida certinha. Saciou-se, deixa ali o que sobrar e volta novamente para terminar quando vier outra fome ou sede. Se engorda é por que o dono lhe transmite hábitos insalubres. Infelizmente, nesse aspecto ele também aprende com os humanos e quase nunca coisas boas. Outra curiosidade é com relação às queixas de insônia. Eu que tenho o hábito de acordar pela madrugada fico observando-a. Costuma ficar horas deitada olhando para o tempo (parece meditar) e depois que o dia amanhece, dorme um sono profundo. Dorme antes do almoço, dorme depois do almoço. E tudo isso sem culpa.

A culpa humana se chama tempo. Esse relógio que alterou a biologia, passando a tentar fazer o organismo funcionar cem por cento, se tomarmos café pela manhã, almoçarmos è tarde e jantarmos à noite. Os cachorros fazem o seu próprio tempo. Dormem quando sentem sono, comem quando sentem fome. Para quem não tem patrão ou assemelhado, isso é um aprendizado e tanto de vida. Ah, estou aprendendo inclusive a meditar com ela (ou sei lá o que fica pensando naqueles momentos assim, parada, olhando para o nada). E nunca deixa de dar a sua espreguiçada quando se levanta, o que equivale ao que os médicos mandam-nos fazer em alongamentos diários. Ativa a circulação, evita contusões gratuitas e dores pelo corpo.

Só não descuido da percepção social da história e chego a pensar que é a minha única vantagem com relação a ela.
PS: esta crônica tinha sido escrita poucos dias antes dela morrer.

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG


Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 09/12/2011

sábado, 19 de novembro de 2011

O cronista - Autor: José Cláudio - Cacá

             O cronista é um entornista. Não entenda como aquele que entorna. É um neologismo que uso para explicar que é aquele que vive no entorno dos fatos mesmo participando deles. Se o poeta é um irmão das coisas fugidias como disse a Cecília Meireles, o cronista é um parente bem próximo também.

             A maneira de cada um aproveitar os eventos da vida pode ser singular. Há os que gostam dos olhos e outros que gostam do olhar. Por exemplo, outro dia a minha filha me pediu que a levasse ao Mineirão. O sonho dela era entrar lá e assistir a um jogo de futebol do Cruzeiro. Enquanto ela torcia nervosa, gritava, esperneava e roia as unha, minha atenção estava mais voltada para a “ôla”. Acho uma maravilha aquela onda humana coreografada sem ensaio. Não dá errado, ninguém sai da harmonia. A mesma coisa eu observava com relação às músicas e bordões cantados em uníssono por uma metade do estádio e respondidos pela outra metade logo em seguida numa espécie de desafio de rimas não muito líricas nem elogiosas, às vezes até impublicáveis, de corar faces mais pudicas. Parecem corais afinadíssimos de tenores, baixos e barítonos. E hoje em dia ficou ainda mais bonito com o crescente número de mulheres nos estádios, acrescentando sopranos e contraltos. Sem contar o fato do enfeite que elas dão no meio daqueles marmanjos.

              Em festas, bailes, feiras, shows e outros eventos menos alegres, como velórios e hospitais o  cronista costuma ter um desvio de conduta. Muita gente diz que ele está ali calado, parecendo ausente, outros que ele está dando atenção apenas a uma pessoa ou a um acontecimento específico mas para mim ele está é recolhendo matéria prima. Dificilmente sai do lugar sem um esboço mental do que vai colocar no papel. E se for dos que carregam seu bloquinho de rabiscos, esboça ali mesmo, indo ao banheiro, saindo do aglomerado, ou anota em atitude pública, às vezes tachada de maluquice ou suspeita de um infiltrado. Vai colocar o que as pessoas que estavam presentes só de corpo não notaram e que ele observou com o espírito perscrutador. Acaba fazendo depois uma outra fotografia, captando ângulos e trejeitos que máquina fotográfica ou filmadora nenhuma conseguiu. Estará completado então o registro alegre ou triste.

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 10/10/2011 

sábado, 29 de outubro de 2011

O côncavo e o convexo - Autor:José Cláudio Cacá

“Se queres escrever para o mundo, então canta a tua aldeia.” ”Se queres ser universal, então começa por pintar a tua aldeia.” Estas e mais algumas versões livres foram adaptações de um pensamento de Tolstoi, um escritor muito além de seu tempo. A pessoa começa a se tornar imortal por esse caminho. Não estou dizendo somente se tornar imortal falando de sua aldeia, mas de ser à frente do seu tempo também. Muitas elaborações mentais levam seus produtores a serem chamados de visionários. São na verdade, pessoas que olham com olhos de lince o que as pessoas à sua volta costumam olhar com viseira. Como desvirtuam do senso comum, acabam sendo proscritos, marginalizados pelo ridículo da ousadia ou, dependendo da cultura onde vivem, sendo ungidos pelos óleos da reverência subserviente ou da bajulação. No entanto não deixam de ser especiais, senão creio que a humanidade não caminhava. Não haveria contraponto de idéias, um pensamento único se estabeleceria e seríamos uma civilização de um só rei. Ainda bem que divergimos em muitas coisas e com isso conseguimos ter vários reis. A democracia possibilitou-nos até escolher a qual ou a quais queremos nos submeter. E assim vamos lutando para justificar nossas vidas com bastante autonomia nas nossas desculpas esfarrapadas.

Como não escapo duma idolatria, pelo menos vou escolhendo o melhor possível os meus gurus. Os da insistência comercial da mídia não me atraem nem um pouquinho. Prefiro aqueles dos contra-sensos e por isso, obrigado, Tostoi, pois eu tenho aqueles momentos de querer ficar metido a escrever umas coisas mais complexas, “me achando”, pensando que tudo aquilo que é trivial e corriqueiro já foi dito e acabo quebrando é a cara.

Se eu quiser falar de Deus, oh, meu Deus, quanta incompreensão intolerante tem sido dito em sua pretensa defesa! Falar de amor? Complexo demais, e já aprendi com o Drummond que “amar o perdido, deixa confundido este coração e que as coisas findas, muito mais que lindas essas é que ficarão”. Falar do nosso lugar no universo, já se fala especulativamente por demais, criam-se hipóteses e teses e, a despeito de toda a caminhada a passos largos da ciência, com todo respeito, fico com a definição dos poetas: Evo!

Primeiramente porque eu não tô com essa bola toda de querer complexificar a vida e em segundo lugar, é do comezinho, é do cotidiano, da observação apurada e da vivência trágica ou serena que brotam os mais interessantes conhecimentos e prazeres.

Falar das coisas simples, eis a grande sacada. Então  junto o convexo  com o côncavo no sentido de concha e me conforto na literatura mais simples que eu conseguir.

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 10/10/2011 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O teclado - Autor: José Carlos Cacá

- Não me venha com saudosismos de novo! Não é possível, você e essa sua mania de ficar comparando o passado!.

- E nem é com o presente, minha querida, é com o futuro. O presente creio que nem existe, de tão depressa que as coisas estão andando. O presente foi ontem.

- Mas querer escrever de caneta não dá mais. Isso é só na escola, os meninos ali, nas primeiras letras. E olhe lá! Daqui a pouco eles também já estarão sendo alfabetizados em “carteclas”.

- Que isso, mulher?

- Carteclas são as letrinhas das teclas do computador. Cartilha feita de teclas. O único problema que falta pra resolver é alguém colocá-las numa seqüência alfabética. Isso iria atrapalhar aos que já estão acostumados com a disposição das letras no teclado. Aliás, quem inventou o teclado? Que maluco! Botou as letras todas misturadas, sem lógica nenhuma.

- É mesmo, nunca havia pensado nisso. Qual seria a intenção do cara que o inventou começando com o “Q” e terminando com o “M”?

- Dizem que foi um tal de Chistopher  Latham Sholes. No mínimo estava tentando datilografar o próprio nome, daí essa mistura toda.  É uma longa história que começa lá com a máquina de escrever.  Mas, você já está tão acostumado, por que lembrar da caneta? Aliás, está tão acostumado que agora só escreve em letra de forma, não mais em letra cursiva. Outro dia até o cheque você assinou com letra de forma!

- Confesso que a única vantagem no teclado é que a duas mãos doem por igual. Com a caneta é só uns dedos que ficam doendo. Minha raiva mesmo é com o circunflexo. Toda vez que vou colocar esse acento, ou sai só ele, ou sai o til no lugar. Isso, sem falar no quarteto traidor. Ficaram ali pertinho o S, o C, o X e o Z. Quantas vezes eu acabo trocando uma com outra! E o pior é quando elas têm o mesmo som na palavra! Quem vai acreditar, por exemplo, que o escelente que você escreveu não foi uma esbarrada no lugar errado? O texto poderia ter ficado excelente. Teve um dia que escrevi exxência, pode uma coisa dessas? Perdeu toda a essência.

-Inaceitável foi aquela troca de “és minha mulher” para “minha ex-mulher”. Vai me dizer que foi erro de digitação!?!?

- Ih, pintou xujeira! Quer dizer, sujeira!

Autor: José Cláudio Adão - Cacá - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada por e-mail em 26/09/2011

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Briga de rua - Autor: José Cláudio Cacá

A senha era um recado de alguém da turma:

- Fulano mandou dizer que vai te pegar lá fora.

O respeito pela inviolabilidade do lar, da escola e do local de trabalho era um combinado de ética. Não estava escrito mas agia como lei,  pois o respeito age. A gente ficava organizando torcida para a briga depois da aula.

 Lá fora, a turma do êh, êh, êh, êh, - atiçando. A turma do “deixa disso”, só depois que esquentava o agarra-agarra é que entrava para separar. Brigava-se por nada. Mas tinha-se uma ética da desavença. Arma, de espécie alguma. Tinha-se que ser em pé (ou mão) de igualdade. Havia outras modalidades de rivalidades: rua de baixo contra a rua de cima, bairro contra bairro, turma do bom da boca, turma do cara mau.

Não há mais briga de rua. Raridade. Resolvem-se todas as diferenças à bala, à faca, paus, pedras e machados. Quando alguém desperta os sentimentos mais primitivos em outro alguém, o caminho que o progresso humano tem indicado  é o da eliminação do adversário. É bom que se diga que a violência de espécie alguma é defensável.

Teve os tempos das brigas de rua. Uma violência mais honesta e menos covarde, mesmo se um lado é mais forte que outro. Há a possibilidade da defesa e da desforra. As turmas de ruas de outrora, evoluíram hoje para as gangues de extermínio. As brigas se davam por terrenos, sim. Terrenos de namoradas, ciúmes de irmã, dos times de futebol da rua de baixo contra a rua de cima. Uma valentia gratuita, mas que nunca passava de uns safanões ou uns chutes na bunda. Nada comparado a extermínio com dezenas de tiros de atualmente. Acho até mesmo que essa turma de hoje é mais medrosa. Só tem valentia armada. Isso sem falar da violência institucional, com a qual muitos concordam quando o estado a pratica em nossa pretensa e quase sempre obscura defesa.

Autor: Cacá – José Cláudio - Belo Horizonte/MG
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