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domingo, 28 de janeiro de 2018

Entrevista: Marina Alves

Marina Alves

MARINA ALVES GONTIJO é natural de Lagoa da Prata-MG. Escritora, poetisa, autora dos livros Sombras e Assombrações (contos- 2007); Á Roda da Fogueira (contos) e Vozes do Coração (poesia), os dois últimos, ainda inéditos. Em preparação também para publicação Fala, Marina (crônicas). É formada em Pedagogia; pós-graduada em Psicopedagogia; colunista do jornal INFORMAÇÃO, desde 2001, onde escreve mensalmente. Conta com trabalhos publicados na revista AMAE Educando, em coletâneas, antologias, jornais locais, blogs e sites especializados em Literatura. Premiada por quatro vezes em concursos literários, sendo dois promovidos por jornais locais, e dois, realizados em nível nacional pelo Blog Gândavos. Mantém uma escrivaninha no site de Literatura Recanto das Letras, onde escreve, desde 2009, diversificados gêneros. Contemplada pelo Ministério da Cultura, em 2013, com a seleção do projeto Vivendo Histórias — Contando Causos, desenvolvido, a partir do livro de sua autoria Sombras e Assombrações. Ingressou na ACADELP- Academia Lagopratense de Letras, em 19 de março de 2004, onde ocupa a cadeira nº 13, e tem por patrono, Rubem Alves.

Entrevista

1-             Quando e como surgiu seu interesse pela leitura e escrita?
Muito cedo. Assim que tive contato com as primeiras letras, já fui encantada por elas. Aprendi a ler com “Os Três Porquinhos”, livro que nos era dado por partes e a espera da próxima página era como esperar por uma grande aventura.
2-             Quais foram seus livros preferidos quando era criança e os livros favoritos atualmente?
Os livros de Monteiro Lobato e suas histórias fantásticas, e os demais clássicos Infantis. Jamais vou me esquecer também do livro “As mais Belas Histórias” de Lúcia Casasanta, que trazia na capa, Rapunzel no alto da torre com sua trança maravilhosa. Pela vida afora, aos poucos fui descobrindo os grandes autores, da Literatura Estrangeira e Brasileira,     cada um com seu encanto, e  não conseguiria nomeá-los aqui.
3 - Quais escritores são suas fontes de inspiração?
Todos os que me marcam de alguma forma, entram sorrateiros pelas minhas Letras. E na maioria das vezes nem percebo. Isso é sensacional.
4 - De que forma o conhecimento adquirido, seja pelo senso comum, ou pelo meio acadêmico, ajuda na hora de escrever?
O que a gente lê (aprende e apreende) fica guardado de alguma forma, em algum cantinho que funciona como um arquivo.  Basta soprar o vento mágico da inspiração para trazer à tona o que em algum momento foi guardado. Aí é deixar fluir... E bem rápido, antes que o vento se vá e leve tudo embora. Isso vale tanto para o conhecimento do senso comum quanto para o acadêmico. Mas é importante que esse arquivo seja sempre atualizado.                            
5- Segundo o escritor Rubem Fonseca, “a leitura, a palavra oral é extremamente polissêmica. Cada leitor lê de uma maneira diferente. Então cada um de nós recria o que está lendo, esta é a vantagem da leitura". É isso mesmo? Concorda com essa proposição?
Concordo. E são essas várias e diferentes leituras, as múltiplas interpretações que dão um encantamento especial ao ato de escrever para alguém ler. Daí, não concordo com o tradicional “O que o autor quis dizer com...?”, presente nas provas e concursos.
6- Ainda segundo o Escritor Rubem Fonseca: “um escritor tem de ser louco, alfabetizado, imaginativo, motivado e paciente.” É o suficiente para ser um bom escritor?
Tudo isso e o principal: paixão.
7 - Para qual público se destina sua criação?
Para todas as idades. O que escrevo depende muito do meu momento de criação. E estes momentos refletem várias faces e idades em mim. (às vezes, eu tenho oito anos, às vezes, oitenta, ou mais de cem...)
 8 - Como funciona o seu processo de criação? Quais sãos suas manias (ritual da escrita)?
Sou adepta do lápis e papelzinho sempre por perto.  Já parei muitas vezes, nas ruas e nos lugares mais estranhos pra rabiscar ideias. A madrugada também é grande fonte, com insônia e tempestade cerebral que não tem hora: Papel e caneta à cabeceira, sempre. (já compus algumas coisas até durante o sono). Quando as ideias vêm, não me faço de rogada. Se der moleza, elas somem no ar... e aí,  adeus!
9 - Em geral, os seus personagens são baseados em pessoas que você conhece, ou são ficcionais?
Um pouco de tudo. Mas juro que em cada ficcional há sempre alguém real. Isso é genial. Ter a chance de falar sobre as pessoas, sem que elas sequer suspeitem. (principalmente nas muitas crônicas que escrevo e  que pretendo publicar em livro). Já escrevi sobre muita gente que sequer desconfia que está nas minhas letras. E muitas vezes, até comenta sem saber que foi fonte inspiradora. Eu me divirto com isso.
10- Você tem outra atividade, além de escrever?
Trabalho na área de Educação, outra paixão. Atualmente sou Pedagoga na Educação Infantil.
11 - Você faz parte das Coletâneas Gandavos. Qual a sensação de participar ao lado de escritores de várias regiões do país?
Muito gratificante. Sensacional, poder conhecer,  trocar experiências literárias com   tantos talentos brasileiros aproximados e reunidos pelo Blog.
12 - O financiamento coletivo e a publicação independente têm se mostrado a opção das publicações Gandavos.  Quais são os pontos positivos e negativos desse tipo de publicação?
Pontos positivos: Oportunidade de divulgar o próprio trabalho e conhecer outros trabalhos.
Pontos Negativos: o custo envolvido visto que publicar com recursos próprios implica em ônus para o escritor, que depois encontra dificuldade com a distribuição do livro, e retorno para os custos envolvidos.                                                             
13 – Você já fez publicação de livros sozinho (a), seja impresso ou virtual? Quais e como o leitor pode adquiri-los?
Sim. Em publicação de livro físico, tenho “Sombras e Assombrações”. Na modalidade virtual, duas publicações, Ebooks, organizados por Helena Frenzel, a quem reitero   cumprimentos e agradecimentos por seu belo trabalho nesta área.
14 - Qual mensagem você deixaria para autores iniciantes, com base em suas próprias experiências.
Para ser um escritor é preciso, antes de qualquer coisa ser um bom leitor. Então leia, leia e leia bons autores, deixe que eles tomem conta de você e impregnem suas letras. Construa seu estilo próprio, sua identidade literária, mas jamais abandone os livros. Também não deixe de estudar a Língua Portuguesa, aproveite as tecnologias como ferramentas de suporte e pesquise, se informe, busque fontes, se aprimorando sempre, tendo em vista que um escritor sempre está em construção. Por fim, seja um observador da vida, das pessoas, preste atenção aos seus detalhes e transforme suas emoções em palavras. Certamente você terá uma fonte inesgotável de inspiração para falar sobre os mais diversos assuntos e escrever sobre os mais variados gêneros. Por fim, busque oportunidades de mostrar seus trabalhos, em espaços especializados como sites e Blogs, ou lançando mão de publicações a modo das antologias, visto que publicações independentes, ou contrato com editoras nem sempre são projetos acessíveis. No mais, seja feliz com a Literatura, lendo, escrevendo, deixando suas marcas, divulgando-as da melhor forma que puder, afinal escrevemos não só para nos realizarmos através da escrita, mas também pelo prazer de sermos lidos.

Autora: Marina Alves
Lagoa da Prata - MG

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A Saga de um Pedro – Impressões de Leitura

Autora: Marina Alves

Carlos, acabo de ler “A Saga de um Pedro” e corro pra escrever, ainda sob a emoção da leitura, um pouco das impressões que me deixou esta obra maravilhosa. Este livro foi escrito com o coração, tenho certeza. Qualquer leitor com o mínimo de sensibilidade não ficará imune a toda essa prova de amor e vida aqui descrita em palavras. Ri, chorei em muitas partes, e depois que fechei a última página fiquei, por muitos minutos, profundamente emocionada.
Gostaria muito que seu pai ainda estivesse por aqui, para dizer-lhe o que me despertou em emoção conhecer um pouco da sua História. E que História, meu caro amigo! Acho que você conseguiu algo maravilhoso: captar nos mínimos detalhes toda esta saga intensamente vivida por seu pai. Penso que o Cinema teria material de sobra pra produzir um belíssimo filme sobre a vida deste cidadão memorável Seu “Zé das Máquinas”, figura, com toda certeza, ímpar.
Não é todo dia que se encontra um Pedro igual ao que encontrei nestas suas linhas! Fiquei impressionada com a trajetória e a movimentação deste nosso personagem vivo, intensamente vivo, em cada decisão, em cada iniciativa, em cada momento da vida. Destemido, corajoso, ávido por viver, sempre a recomeçar, sempre a continuar, sempre lutando pelo que queria, como no caso do casamento com dona Celeste. Creio, meu amigo, que poucas pessoas na vida tenham experimentado tudo do que ele foi capaz. Que legado pra vocês, a presença desse homem tão especial, à frente do seu tempo, inteligente, sagaz, empreendedor, a viver seu espírito livre e aventureiro, sem se prender às convenções, buscando ser feliz a qualquer preço.
Como você bem disse, ao se referir ao livro, um homem com seus problemas, dificuldades e falhas, mas um homem que buscou o tempo inteiro os seus caminhos, ainda que isso tenha significado também muitos desvios. Bacana demais a fé em Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que no pensamento dele, era quem o guiava. Daí, a certeza de que havia naquele coração fervoroso a vontade de acertar, mesmo quando tudo dava errado. Percebi no caráter singular, o grito do homem que primava pela justiça e não se deixava calar ante preconceito ou tratamento desigual que lhe ferisse a dignidade.
Saindo de uma comunidade pequena, ganhando o mundo, percorrendo as grandes metrópoles, fazendo de um tudo, Seu Zé não teve medo do trabalho e das adversidades. Tanta gente tem medo de tudo. Nasce e morre sufocado no mesmo lugar, com receio de enfrentar mudanças! Isso nunca foi coisa pra ele, não é? Fiquei admirada daquela coragem toda. Em tempos tão diferentes dos atuais, nada representava empecilho para quem sabia o que queria. Não mediu distância, nem o desconhecido, para ver o mundo de perto e correr atrás do que queria: no fundo apenas buscar o melhor para si e a família. Tanto que nunca abriu mão desta família, sempre seu porto seguro, e para a qual sempre retornava.
Sinceramente, acho que este homem que foi seu pai (e continua sendo, vivo à sua maneira) não poderia jamais ficar sem ter sua vida registrada. Ainda bem que isso foi feito com toda a sensibilidade e habilidade literária deste filho, Carlos Lopes, que muito teve para contar através do próprio pai. Agora fica ainda mais evidente o sentimento que o invade como filho, quando já não o tem mais ao seu lado. A força e vontade de viver que Seu Zé trazia consigo eram realmente incríveis.
O livro está muito bem escrito, com um quê de fidelidade impressionante, preservando as expressões, conservando a originalidade dos acontecimentos, trazendo a riqueza deste glossário que é um mundo de conhecimento. Só posso dizer que você me deu um presente imenso. Para quem gosta de ler, o maior presente é ser surpreendido pela emoção. E você conseguiu (profundamente) fazer isso.
Parabéns ao Seu José por ter cumprido seu destino com luta e amor, e por isso mesmo ter merecido tão bela homenagem; parabéns a você por tê-la escrito de forma tão bela, parabéns aos amigos, Celêdian e Carlos Costa que deram um toque perfeito ao, respectivamente, apresentar e prefaciar essa obra que certamente fará parte da História dos Pedro e de todos que tiverem o privilégio de conhecê-la. Impossível não se deixar arrebatar pelo fascinante universo desta história real que, com toda honra e orgulho, é a sua história e a de sua família.

Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

Página da autora:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=64920

Publicação autorizada pela autora





quinta-feira, 4 de maio de 2017

A Luz da Encruzilhada

Autora: Marina Alves

                Juvêncio olhou o relógio e com certo desagrado viu que já passavam das três da madrugada. A conversa ao redor da fogueira estava animada e dava vontade de romper o dia ali, junto com os companheiros, bebendo aguardente e contando casos.
                Era Noite de São João e os festejos da fazenda do compadre Onofre já eram um costume que ninguém podia perder. Era uma ocasião muito esperada em que todos ali das redondezas se juntavam para apreciar um quentão, cair no arrasta-pé e prosear a noite inteira!
                Apesar da vontade de ficar, Juvêncio precisava ir. A lida na roça e no curral era pesada e ele tinha que estar bem disposto, do contrário não daria conta das tarefas diárias. O fazendeiro se despediu, pegou o chapéu, desatrelou o cavalo no mourão da porteira e tomou o rumo da estrada.
                O animal ia a trote lento. A lua clara no céu derramava sua brancura sobre os pastos. Naquele silêncio noturno, apenas o barulho de algum bicho na capoeira ou no mato rasteiro quebrava a monotonia da paisagem.
                Juvêncio tinha pela frente pelo menos uma légua e meia de caminho até a sede de sua fazenda. E na solidão daquelas chapadas, o homem não teve como evitar. Ia lembrando o último caso que contavam quando saíra: A Luz da Encruzilhada. Para o povo dos arredores, as estórias daquela estranha aparição eram as preferidas.
                Muitos eram os que contavam já terem sido vítimas daquela visão fantasmagórica que, em forma de bola de fogo, assustava e perseguia os viajantes de passagem pelas imediações da encruzilhada.
                Naquela noite, o Chico da Inhana é quem tinha contado sobre a assombração. Dissera ele que um primo já passara maus momentos sob os horrores da macabra aparição da estrada. Tinha sido coisa para nunca mais se esquecer e o pobre coitado nunca mais fora o mesmo! Depois daquela fatalidade ficara meio leso.
                Dizia-se sobre a tal luz que tudo começara quando um médico saíra para atender um paciente que morava numa fazenda das redondezas. Na volta, devido aos muitos buracos provocados pela recente chuvarada e à densa neblina que cobria a estrada, ele perdera a direção do veículo.
                Foi ali, próximo à encruzilhada, que tudo aconteceu. O carro desgovernado derrapou no cascalho solto, rodou várias vezes e por fim bateu violentamente contra um barranco. Tinha sido um acidente terrível que deixaria abalada por muito tempo a cidade de Barra Bonita, pois o médico era gente de muita estima entre o povo do lugar.
                Assim que se deu a colisão, apesar dos traumas sofridos, o homem ainda permanecera vivo, preso às ferragens, mas perdia muito sangue e precisava de socorro. Porém, àquelas horas mortas, naquele lugar completamente ermo, não contaria com uma só vivalma que pudesse acudi-lo. E foi assim que, depois de agonizar por um bom tempo, ele morreu.
                Desde então, conta-se que no momento em que se deu o choque do veículo, um dos faróis refletiu uma luz no barranco que nunca mais se apagou. Ficou por ali perambulando feito alma penada como se quisesse lembrar para sempre a noite daquela tragédia. O farol, na forma de uma esfera luminosa, frequentemente começou a aparecer naquele local e a tirar com seu brilho fatídico o sossego de quem tivesse que passar por ali.
                Juvêncio, porém, não acreditava nem um pouco naquelas estórias estapafúrdias contadas pelo povo! Para ele, tudo não passava de pura invenção de algum amalucado que, ao dar com a chama de algum balão ou a lanterna de algum pescador, saíra contando aquelas lorotas que acabaram por correr mundo e ganhar fama.
                O vaqueiro nunca fora homem de cismar com assombração. Tanto que, naquela noite, ao redor da fogueira, fizera pouco do que contava o companheiro:
                — Pra mim, Chico, essa coisa de bola de fogo é coisa de quem não tem o que falar. Pura conversa fiada!
O outro, no entanto, o olhava com ares de censura:
— Cuidado, Juvêncio! Te prepara que a endiabrada não é de tolerar abuso!
— Pois, tô é pagando pra ver. Passo naqueles caminhos há anos e nunca vi nada de esquisito por lá.
Agora, ali sozinho na estrada, o homem ria consigo mesmo. O que acabava com o povo era aquela ignorância. Onde já se viu fantasma em forma de bola? Era só o que faltava... Se existisse mesmo a tal visão, que viesse então, ele queria era enfrentá-la de vez!
Perdido nos próprios pensamentos, o homem nem reparou que se aproximava da afamada encruzilhada da assombração. Só deu acordo de si quando sentiu que o cavalo estava ficando meio esquisito, de orelha em pé e pisando duro. Uai, estranhou ele, que novidade era aquela agora?
Juvêncio curvou-se sobre o dorso do animal e alisou-lhe o pescoço, tentando descobrir o que se dava. Chegou a pensar que tivesse sido picado por algum bicho peçonhento. Mas viu que o caso era muito mais sério. O alazão soltou um relincho estridente que ecoou pelo mato e, feito flecha, disparou pela estrada deixando atrás de si uma nuvem de poeira.
Em seguida, tudo se deu na velocidade de um raio. Surgindo por detrás da copa de um enorme jequitibá, ela veio com todo o seu resplendor. Perplexo diante da miragem, Juvêncio se negava a crer no que via. Era surpreendentemente brilhante a bola de fogo que ora parava, ora girava no ar.
Não havia do que duvidar! O fantasma estava ali para desafiar a zombaria que sofrera do fazendeiro, ainda há pouco, junto à fogueira. O homem sentiu que seu corpo tremia de forma incontrolável. Tentou manter-se firme na sela, agarrou com força o cabresto e fincou os pés nos flancos do animal que parecia nem encostar os cascos no chão.
Como num cenário de terror, a luz partiu com toda a sua fúria no encalço da vítima. Com seu efeito hipnotizante ela rodopiava sobre a cabeça do fazendeiro e, por mais que o cavalo corresse, o diabólico facho flamejante parecia ser muito mais veloz. Ficou assim, por um longo trecho do caminho, naquele vaivém. Indo e voltando, dançando e mergulhando no ar como se quisesse enlouquecer o cavaleiro.
O clarão sinistro espalhado pelo mato do pasto parecia sugerir que ali haveria um grande incêndio a qualquer momento. Porém o facho despendia um fogo incrivelmente gelado que penetrava fundo nos ossos de Juvêncio e o fazia tremer por inteiro. Será que aquela tortura não se acabaria mais? Ele já não suportava o vento que lhe cortava a pele, nem os lampejos faiscantes que lhe cegavam os olhos cada vez que a esfera chamejante descia sobre ele.
Quando se aproximava do rio que cortava a estrada logo abaixo, o homem entrou em pânico. Será que o cavalo conseguiria atravessá-lo na carreira desabalada em que estava? Temeu que ele perdesse o equilíbrio das pernas, mas nada havia a ser feito. Jamais conseguiria contê-lo no embalo em que vinha. O jeito era clamar por Deus e esperar para ver no que ia dar! Então, fechou os olhos e entregou-se à própria sorte.
Quando deu por si, Juvêncio já estava na outra margem do rio. Estirado no capinzal, ele viu tudo rodar a sua volta. Estava todo encharcado e a cabeça sangrava por um profundo corte na testa. O que acontecera? Atordoado, ele não se lembrava de nada.
Ainda tonto, arrastou-se pelo mato e chegou até ao barranco. Lá embaixo, as águas corriam tranquilas. De repente, viu um brilho intenso refletir-se na correnteza. Aquele clarão ondulando ao movimento das águas provocou-lhe uma vertigem. O que seria aquilo?! Apenas a luz da lua no céu ou o fogaréu da bola sinistra querendo lhe pregar uma peça?
Juvêncio já não tinha certeza de mais nada!  Não sabia se tinha mesmo encontrado o facho diabólico na estrada, ou se era a queda do cavalo que mexera com suas ideias. O certo é que, muito embora tenha procurado seu alazão por toda parte, nunca mais o encontrara.
Por via de suas dúvidas, o moço preferiu o silêncio sobre os acontecimentos daquela noite misteriosa. E nas rodas das fogueiras, quando o assunto pendia para o lado da Luz da Encruzilhada, ele disfarçava, tomava ares de quem não estava nem um pouco interessado naqueles casos e ia beber mais uma aguardente em algum canto!

Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

Página da autora:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=64920

Publicação autorizada pela autora

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ventos de abril

Autora: Marina Alves

Pela janela aberta do quarto do hospital, olho a tarde que cai lentamente. Gosto desta hora crepuscular, quando retalhos de passado desfilam pelo meu pensamento, reavivando coisas já perdidas no cenário de outros tempos. Como num filme em preto e branco vejo-me saindo de casa para estudar na cidade, indo morar em casa de uma tia. Aos dezoito, me formando professora, começando a lecionar numa escolinha de zona rural, da Fazenda Santa Cruz, onde me hospedava durante a semana, só voltando pra casa nos finais de semana.

Aos vinte, conheci Marcelino: tinha ido à fazenda montar um projeto de engenharia de uma usina de produção de energia para Seu Quincas, meu patrão. Éramos jovens, cheios de sonhos e nos apaixonamos. Foi o tempo de nos conhecermos e dentro em pouco estávamos casados. Depois do casamento, nos mudamos para a cidade onde Marcelino residia e mantinha um escritório de engenharia.

Marcelino construiu para nós uma casa ampla e confortável e eu não podia reclamar da vida que levava. Tinha empregados, chofer para me levar às compras, uma boa conta bancária que podia gastar a meu modo. Às vezes, a rotina era tão previsivelmente tranquila, numa ordem tão sistemática, que eu chegava a duvidar de que tudo estivesse realmente bem.

Mas esteve... De certa forma, tudo esteve muito bem em minha vida até o dia em que, me sentido entediada, convenci Marcelino de que eu deveria voltar a trabalhar. Estava empolgada com a ideia: sempre gostei de lecionar, eu queria dar aulas para crianças carentes, me faria bem voltar a ser uma mulher ativa. Meu marido não se opôs, pelo contrário, me motivou de uma forma que me surpreendeu. Procurei um projeto social na periferia e ofereci meus serviços. Logo fui chamada para entrevista, dali já saindo designada para as aulas.

E, creio, nada teria mudado não fossem os dedos maliciosos do destino. Foi numa reunião de pais que conheci Edgar, pai de um dos meus alunos. E aquele homem, estava escrito, viria para mudar toda a minha vida. Edgar era viúvo, e o filho, na impetuosidade de seus sete anos, talvez por sentir a falta da mãe — morta quando ele nasceu —, se mostrava uma criança extremamente rebelde. Frequentemente, Edgar e eu precisávamos conversar sobre o menino, e foi assim que acabei por tornar-me confidente daquele que seria também o grande amor da minha vida. Aos poucos, fomos nos aproximando e nos apaixonando, e quando percebemos já não sabíamos mais viver um sem outro.

Numa tarde de domingo, tomada pela certeza do que eu queria para minha vida, contei tudo a Marcelino. Nesse mesmo dia lhe comuniquei que iria embora. Minha vontade de viver dignamente meu amor com Edgar era algo do qual eu não abriria mão. Na maturidade, eu, afinal, descobria o que era amar alguém de verdade. E para minha surpresa, ouvi o que jamais esperava: Marcelino confessou-me que também já não nutria por mim o amor dos primeiros anos.  Agora eu entendia seu empenho em me ver voltando ao trabalho: meu marido, já me queria mesmo buscando novos horizontes.

A vida com Edgar era muito diferente da que eu vivia com Marcelino. Não contava mais com as costumeiras regalias, pois de meu casamento eu nada quis levar. Tive que procurar trabalho remunerado, assumir responsabilidades de mãe, cuidar do meu novo lar. Mas aceitava tudo de bom grado, pois mais valia ter ao meu lado um homem que me fazia feliz como eu jamais imaginara. Agora, eu podia dizer que vivia realmente uma experiência de verdadeiro amor.

Por quanto tempo fui feliz com Edgar? Não sei dizer... Nos últimos meses, perdi a noção do tempo, e tudo é muito confuso. Já não sei há quanto estou neste quarto. Só sei que o frio que entra pela janela é frio de abril, e eu o diria sem medo de errar, pois sei bem que quando tudo aconteceu, também era abril e fazia um frio como esse... Não me lembro de muita coisa, mas vagamente recordo o acidente: a pista molhada, o carro rodando várias vezes na estrada, o baque... A escuridão. Quando voltei do coma contaram do carro no fundo do abismo, do pai e do menino que não tinham sobrevivido. E era um milagre eu estar ali... Estar aqui nesta cama, onde estou agora...

Lá fora é noite cerrada. O pessoal do plantão se esqueceu de fechar a janela. Está tudo escuro, e apesar do remédio que me deram para dormir, mantenho meus olhos bem abertos. Estou à espera de Edgar. Sei que ele virá, trazido nesses ventos de abril... Eu já estou bem. Os médicos pensam que vão me dar alta em breve... Mas, estão enganados. Ontem à noite, recebi mais uma visita do meu amor, do meu grande amor, e ele me contou como devo fazer para encontrá-lo. Guardei atentamente tudo o que me disse. Mas isso é segredo, prometi a ele não contar nada a ninguém...


Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

domingo, 24 de julho de 2016

Amor Para Sempre

Autora: Marina Alves

Altivo Firmino não era altivo só no nome: dono do empório de secos e molhados em Vila de Santa Maria, era homem arrogante, movido a orgulho e extrema soberba. Tinha vista alta, não queria saber da filha única misturada, como bem dizia, com gente miúda. E sempre alardeava a quem interessar pudesse: Rosália não era para o bico de qualquer joão-ninguém! Era moça de fino trato, e namoro, quando fosse tempo, só com a fiança de quem dava as ordens na casa: ele!
Rosália, até os quinze anos, se ocupara das rezas da igreja. Tinha prestígio com as beatas, habitués da sacristia de Padre Marinho. A razão se explicava: era dona de grande beleza, e tinha também uma voz incomum, o que sempre lhe rendia interpretar o Canto da Verônica na encenação da Paixão de Cristo, nas festas da Semana Santa, piamente celebradas ali no povoado. E naquelas ocasiões, à sua aparição no tablado, trajando o elegante figurino encomendado ao mascate Noca, os cabelos escorridos e luzidios sob o negro véu, um frêmito de íntima comoção percorria os contritos fiéis aglomerados à volta do palanque armado na pracinha da igreja.
Pois bem, Altivo Firmino não tinha do que se queixar no que dizia respeito à conduta da filha. Mas, o que ele não sabia é que a menina já se vinha adiantando nas artes do amor: andava de namoro escondido com Tonico Ferreira, rapaz de modos rudes, que servia como ajudante nas obras da Ferrovia. E foi justamente nas festas da Semana Santa que a coisa tomou corpo: entre os roxos da Paixão de Cristo, incorporando os encantos da Verônica, Rosália deu com os olhos do rapaz a mirá-la, numa intensidade que a fez estremecer sob a túnica de bordados.
Sim, tinha sido ali, diante da visão celestial de Rosália, que Tonico Ferreira se descobrira tomado de amor. Jurou que haveria de tê-la para si. Ela, postada ao lado da cruz, parecendo absorver o silencioso juramento, ao desdobrar o Véu da Verônica, aguçou ainda mais seu trêmulo e retumbante timbre em notas tristes que comoveram a assembleia. E naquele instante, mais que veneração ao Cristo morto, seu canto era só, e todo, para encantar Tonico Ferreira que em terno branco e chapéu se encobria nas ramagens de um jasmineiro, ao pé de um lampião. Ah, que paixão! Não teriam mais sossego! O amor traçava ali seus rastros do para sempre, amém!
O bilhete tinha sido passado às mãos dela, à descida do palanque: à meia noite, atrás da roseira branca ao pé da janela. À hora marcada, sorrateira, ela esgueirou-se para a escuridão, caindo nos braços quentes e bem fornidos que a apararam nas sombras. Muitos beijos! Todos os beijos! Os mais doces já vistos nesse mundo. Amor era aquilo! O aconchego, a vontade de nunca mais largar do outro, o último prolongar do encontro, até o cantar do galo lá pros lados do grotão, quando os rajados da aurora no céu laranja-chumbo vinham avisar que era hora de voltar à segurança do quartinho, antes que a casa acordasse.
No dia em que o namoro foi descoberto, o povoado de Santa Maria veio abaixo. O disse me disse se espalhou, a boataria efervesceu de boca em boca.  Rosália nunca soube quem contou ao pai.  Corrente na janela, ferrolho na porta pelo lado de fora, o quarto virado em cadeia. E Tonico? Tião Raposa, homem de confiança de Altivo, foi quem levou o recado: o infeliz tinha até o romper do dia para sumir das cercanias. Ali amanhecendo, se desse por morto. Tonico tomou rumo ignorado, na calada da noite. Quem conhecia a fama dos Firminos sabia que um aviso daquela natureza não vinha duas vezes.
Sem os encontros tardios ao pé da roseira branca, Rosália emagrecia a olhos vistos. Palidez de morte, faces encovadas, definhava dia a dia a saudade do amor partido. O coração perdeu a vontade de viver, a alma se fechou em viuvez de luto adiantado. Aonde andaria Tonico? Deus fosse louvado, um dia ainda haveriam de se topar. Ia viver por esperar! Amor daquele jeito não nascia pra morrer, não se acabava assim num à toa qualquer.
O tempo passou. Altivo Firmino contratou casamento para a filha com o novo chefe da Estação, rapaz de juízo, e de guardar cobres para o dia de amanhã. Rosália confinou-se a lamentar a própria sina: longe do seu único e grande amor — nas mãos de quem não tinha vontade nem de olhar — o que seria de si? A moça se debateu, rastejou, implorou, pediu a Deus, mas de nada adiantou. As bodas foram marcadas para as festas de Reis, no janeiro que se avizinhava.
Foi na volta da prova do vestido de noiva que a coisa se deu: aquele que vinha pelo beco, lá das bandas da igreja, não era Tonico? Não era? Não era? De repente, os dez longos anos passados desde a furtiva debandada naquela fatídica noite sumiram que nem fumaça. Como quem vê miragem correram um para o outro. O abraço foi de unhas se cravando, choro se misturando e corpos rolando na poeira, no desafogo da saudade. Dele, ela só ouviu: vim lhe buscar. O cavalo amarrado ao mourão à beira do capim alto, em ponto de galope, esperava.  Sem uma palavra, ela pulou na garupa.
Depois disso, a julgar pelo que Noca, caixeiro-viajante que rodava pelos mais distantes rincões, segredou aos ouvidos de Altivo Firmino em seu leito de morte, os amantes fugitivos iam muito bem obrigado.  De pés juntos, o mascate jurou ter visto os dois, já entrando nas calmas da velhice, cabelos algodoados e mãos dadas: escutavam o lamento da Verônica, em festa do Cristo morto, numa cidadezinha do interior de Goiás. No entanto, ninguém jamais soube se o dito era deveras ou se não passava de mais uma patacoada do Noca, pois que o caixeiro sempre vinha cheio de invencionices, na volta de suas andanças por esse mundão de meu Deus...

Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A quinzena do autor: Marina Alves

Autora: Marina Alves


“Agora é Nóis!”

—Oi, amor, por favor, não desliga...
—...
— Eu sei que cê tá aí, Mônica... Por que cê não fala nada?
— ...
—Pois é, Mônica, emburrar não resolve nada, mas cê sempre faz isso quando a gente briga...
—...
— Tá, a gente não tá brigado... Tá terminado. Mesmo assim, eu quero falar.
—...
— Mônica, o que você viu lá no bar não era o que você viu...
—...
— Eu tava te esperando lá no “Agora é Nóis”, pedi uma cerveja... Aquela morena chegou e foi sentando.
—...
— É sério, Mônica! Eu tô imaginando a cara que cê tá fazendo aí, mas foi ISS,  amor!
—...
— Aí, deu azar, cê chegou justo na hora que ela pediu pra tomar um copo e...
— ...
— E... Quê que eu podia fazer, Mônica? Me diz? Falar que não ia dar?
—...
— Cê tá emburrada, melhor... Tá terminada, Mônica, mas isso não pode ficar assim...
— ...
— Amor, fala comigo... Vamos acabar logo com isso, Mônica!
—...
—Pensa bem, meu bem, a gente já tá com tudo pronto pra casar...
—...
— Mônica, pensa direito, nossa casa tá pronta, data marcada.
—...
— Cê sabe uma coisa que ODEIO em você, Mônica Isabel?
—...
— É essa sua frieza! Essa sua capacidade de me irritar com seu silêncio! Ahhhhhhhhh!
—...
— Toda vez é isso! Cê me tira do sério, sabia?
—...
— Na verdade, não sei nem porque tô ligando! Eu sou mesmo um otário!
—...
—MÔNICA!!!
—...
—Fala alguma coisa!
— Falo! Eu não sou a Mônica! Eu sou a Clotilde!
— Clotilde? Eu não tô falando no 1179?
—Tá falando no 9711... Mas escuta, eu também terminei o noivado na semana passada...
—É?
— É. Que tal uma cerveja lá no “Agora é Nóis”?  Eu sei onde fica...



Macacão de Oncinha (“Agora é Nóis”- parte 2)


— Clotilde, eu tô ligando pra gente conversar...
—...
— Cê taí, Clotilde?
—...
— Clô, não faz isso, amor, fala comigo... Admito, eu fui grosso, insensível!
—...
— Ô bem, eu ando nervoso... Lá no serviço é só problema, já te contei, né?
—...
— Só problema! E o Cruzeiro ainda leva aquela surra em campo, quem aguenta?
—...
— Tá bom, não quer falar, né? Mas cê tem que ser mais compreensiva...
—...
— Desemburra, eu não posso te dar o macacão de oncinha agora...
—...
— Com o décimo terceiro eu dou... Pode ser no décimo terceiro?
—...
— Nem no décimo, Clô? Pelamordedeus!!
—...
— Clozinha! Mês passado eu dei o salto XV, o macacão não pode esperar o décimo?
—...
— Por isso que o amor acaba... E tudo isso por causa de um macacão de oncinha!
—...
—Três anos, tô cansando! Muda seu jeito, Clô!
—...
— Cê tem um grande defeito, viu?
—...
— Ué, não vai perguntar qual é? Eu falo! Interesseira!
—...
— Só isso, não! Artificial!
—...
— Sem conteúdo!
—...
—Ranzinza!
—...
— Frívola!
—...
— Medíocre!
—...
— Cê não vai falar nada?
— Vou, eu vou falar! Aqui é a sua ESPOSA! Cê tá ligando é aqui em casa! Cachorro, safado, sem-vergonha! Pisou nessa casa, cê é um homem MORTO! Vem sabendo, viu?
— MÔNICA!



Você Tem WhatsApp?


Outro dia, na volta de uma viagem, meu celular deu de mostrar uma mensagem esquisita, dizendo que o chip não estava nele. E é claro que não era verdade, pois era só abrir o compartimento do cartãozinho e lá estava ele no lugarzinho de sempre. Levei-o para checar o problema. A moça, muito tranquilamente, explicou que era normal. Perguntou por onde eu tinha andado. Falei que era lá pros lados da Bahia. E ela reafirmou: “Você foi longe, saiu de Minas. É coisa da operadora. Com uns três dias tudo fica ok!”. Confesso que achei aquilo meio esquisito, mas se a especialista falou, então era, né? Ok! Voltei pra casa pra esperar mais dois dias, só que o cartão não deu sinal de vida. E como começou a tocar umas musiquinhas não muito usuais e acender luzinhas no meio da noite, resolvi que era hora de trocar de aparelho.

Vamos trocar o celular! E eu já sabia que ia ter problemas, pois queria um aparelho que se parecesse com o meu. Pretinho, pequeno, que desse conta apenas do básico: fazer e receber chamadas e, muito de vez em quando, em caso de vida ou morte, enviar umas mensagens — ou torpedos — como se diz modernamente. Por quê? Porque não gosto de celular, uso apenas quando a coisa não tem mais jeito. Portanto, o que eu precisava era um celular totalmente fora do tempo, fora do espaço e fora da moda. Será que ia achar?

Nas lojas em que entrei me vieram com mil modelos de última geração... Na verdade, minicomputadores que quase medem a respiração da pessoa. As vendedoras, querendo me seduzir, se punham a desfiar as mil e uma vantagens e modernidades das maquininhas, umas coisas deslumbrantes que fica até difícil acreditar. Aplicativos que permitem uma conexão total com o Planeta inteiro, e se bobear até com outras galáxias, imagina! Mas, não! Não era aquilo que eu estava querendo. Eu queria apenas algo que me salvasse numa situação de perigo. Numa selva, por exemplo, quando todas as ligações com o mundo estivessem cortadas — isto, se numa selva pegar sinal, porque as operadoras, me parecem nem sempre acompanham a velocidade da informação...

Não consegui o que queria. Uma loja ainda tinha um exemplar da idade da pedra como era de meu desejo. Mas o danado, pra meu azar, estava estragado também. Sem escolha, tive que ficar com um modelo mais ou menos: nem tão arcaico, nem tão moderno. Meio descontente, mas sem ter o que mais fazer, adquiri meu novo apetrecho tecnológico e tenho certeza de que me será muito útil para o que preciso.

Em plena era digital e da tecnologia, não é que eu ignore as inovações que a todo dia invadem o mundo contemporâneo, gosto muito de ler sobre o assunto, até pra acompanhar o que anda acontecendo, mas penso sinceramente que as pessoas estão perdendo um pouco do senso crítico diante destes brinquedinhos sedutores que cada vez mais tomam conta de suas vidas. Hoje em dia está difícil até manter uma conversa saudável. Ninguém mais presta atenção em nada. O tempo inteiro são as mensagens do whatsApp e os dedos deslizando freneticamente pelas telas dos celulares, nas atualizações das redes sociais.

Na volta de minha viagem, chamou-me a atenção o silêncio entre os passageiros do ônibus. Como era noite e estava escuro, só se via os reflexos das luzes azuladas dos celulares ligados. Todo mundo conectado ao mundo virtual. E fiquei pensando: bons tempos aqueles em que uma viagem de ônibus era um bom motivo pra gente conhecer gente nova e fazer amizades. O companheiro, ali na poltrona do lado, era sempre a possibilidade de um bom papo, e a gente nem ver a viagem passar... Quase 200 km, daqui a Belô, era um pulinho... Hoje em dia, só celulares aproximando mundos virtuais, e as pessoas cada vez mais distantes... E se te perguntam “Você tem WhatsApp?” e você diz que não, aiai... Com certeza você é um ET, nesta Terra tecnológica de meu Deus!



Baratinha


— Êh, Cumpá Chico, nóis aqui ino de Baratinha pá cidade! Ôtros tempo, hein?
— Então, Cumpá Beniço! Pensá que nóis ia de cavalo, chegava lá co’sóli nas artura!
— Cruizincredo. Nem é bão alembrar!
— Adepois desse meu Fusquinha bão, o trem mudô! A Azulinha é u’a mão na roda, sô!
— Ich! Agora é um pulinho! É pé cá, pé lá!
—Eu tem cá pra mim, Cumpá Chico, que carro é o Fusca, ou sinão o Frit Único.
—E cê tá co’a razão, Cumpá Beniço! Mái eu inda continoo com a Baratinha.
— Baratinha danada, essa, né, Cumpá Chico?
— Uai, sô! Ela já foi e vortô em São João me Acode, sem inguiçá!
—Nó! E óia que daqui no São João gasta u’as duas hora! A bichinha é 75, né?
— 75? Cumpá Beniço! 74! E num fosse o risco que a Formosa féiz nela co’os chifre, pudia tá em brinco!
— A puêra tamém judia, né, Cumpá Chico?
— É... E nêss tempo de istiage, nem se fala!
— Dá dó memo, sô! Os vidro, ói que trem! Quais que num inxerga nada!
— Ah, Cumpá Beniço, me alembrei!
— De quê, sô?
— Dum trem que contáro lá na venda do Osóro...
— Uai! Mái quê foi?
— Cê num há de vê que faláro que esses Fusca tem um mistéro?
— Cê tá doido, Cumpá Chico? Que mistéro?
— Uai, homi! Disséro que um Fusca nunca fica sozim!
— Quê isso, gente? Cumé qué isso?
— Uai, disséro que se ocê vê um Fusca, pode caçá em vorta, que vai tê um cumpanhêro dele por perto!
— Credincruiz trêis vêis! Mái será que procede, Cumpá Chico?
— Sei não, Cumpá Beniço! O povo ruma cada coisa! Cê querdita nisso?
— Ich! Cê me apertô, Sô! Sei não, uai! Mái pêra aí!
— Diga, Cumpá!
— É capaiz de num tê jeito não, Cumpá Chico! Cê vigia se tem fundamento: nóis tá siguino nessa estradinha onde Juda perdeu as bota...
— Hum...
— Magina que trem custoso! Da donde que ia tê cabimento dôtro Fusca dá as cara nesse mundão perdido nas puêra aqui do Rincão?
— Uai, Cumpá Beniço, pensano bem é custoso memo!
— Custoso não, Cumpá Chico! Impossive!
— Nossinhora, Cumpá Beniço!
— Que que foi, homi? Rodô no cascái?
— Cascái nada, sô! Óia lá pra diente do mata-burro, desceno a estrada do Zé Sivirino!
— Santantõe do Amparo, Cumpá Chico! É uma Baratinha que meus zói tá veno?
— E das marela, Cumpá Beniço! Da corzinha dum canarim!


Dos Anjos


Pois então, Dos Anjos, você aos 42, com cara de 60... É sofrimento! Também você só viveu amarguras nesta vida! Sem pai, sem mãe, criou-se em casa de conhecidos. Passou fome, passou frio... Se juntou com Natalício e apanhou pra morrer. Lembra quando ele chegava trocando as pernas, xingando nome feio, na volta dos botecos? Dali não saía nada que prestasse.  Até o dia em que caiu no mundo de vez com aquela oxigenada do parque de diversões, não foi? Os meninos ainda miudinhos... E tudo por sua conta.
25 de fevereiro: sei que você não esquece esta data. Hoje faz três anos, Dos Anjos, que seu filho Jurandir foi preso. Você acreditava que ele ia dar gente e pudesse lhe valer. Mas, ele nunca prestou. Sempre lhe deu trabalho desde pequeno, lembra? Começou a roubar ainda menino. Quantas vezes lhe chamaram na escola?  Pois é... Não teve jeito. Cresceu, caiu nas trevas... Artigo 157, né? Eu sei que dói...
Jaqueline também só deu pó pra cheirar, não é, Dos Anjos? Solta na rua, vivia amolando, criando confusão em casa de vizinho. Não era à toa que amiúde, a mulherada batia na sua porta pra tirar pergunta: intrigas da sua filha do meio. Cresceu malvadinha, a menina, até dar no que deu: meteu-se naquela enrascada dos diabos, com tráfico e tudo! Pra se safar, anoiteceu e não amanheceu... Nem notícias, nunca mais, né? Cadê será Jaqueline?
E Janaína? A caçula podia ter sido a salvação. Mas também nunca foi flor que se cheirasse. Nova ainda, pendeu pro lado daquela gente da pesada. Agora tá lá, naquele barracão da Wenceslau Batista. Quase todo fim de semana, batida policial. Você não gosta de falar. Diz que ela trabalha e mora em casa de família rica, na Zona Sul. Mas, e as moças com quem ela divide aluguel, hein? Eu sei que você sabe bem quem são...
Pois é, Dos Anjos, sofrimento vira doença. O seu virou. Dor pra todo lado, vontade de só ficar na cama. Exame daqui, dali, e nada do porquê da doraiada. De nada adiantou a remedama receitada no Postinho. Até que o pessoal de lá achou por bem lhe encaminhar ao Serviço de Psiquiatria da prefeitura. Foi lá que descobriram: era dor da alma... Só podia ser mesmo, né? Doença que não dá em exame é dor de alma, não tem jeito...
Eu sei que as coisas estão ruins, Dos Anjos! Agora você desce a Tobias de Souza pensando em como será amanhã. A fábrica de bichinhos de pelúcia fechou, você acaba de perder o emprego. E as dívidas? Como vai ser, daqui pra frente, hein? Aluguel atrasado, gás no fim, luz e água cortadas a qualquer momento. O aviso chegou ontem, não é?
 A Tobias de Souza ferve a essa hora, Dos Anjos. E você segue com o coração vazio de esperança. Mas, vou lhe dizer, mulher, não se preocupe! Você vai ficar livre de tudo isso... Tá vendo aquele fusca amarelo que apontou lá na esquina? Pois é, Zé Perigoso vem ao volante, em altíssima velocidade. Tomou todas lá no “Bar da Arruaça” e vai subir na calçada — aqui, no ponto exato em que você está. Mas não tenha medo! Vai durar nada: uma pancada, um barulho surdo que vai chamar a atenção dos transeuntes...  O silêncio, a paz por fim! Anime-se: nada pode ser pior que foi sua vida. Maria dos Anjos Ferreira da Silva Apolinário, garanto-lhe: estou do seu lado... Se você nasceu Dos Anjos, você é minha...

Bilhete na Geladeira

Se você chegar em casa
E não me encontrar aqui
Pois, não estranhe
Fui ali no Açaí...
Ah, fiica tranquilo
 Levo agasalho de lã
Pode ser que faça frio
E não sei se volto hoje
Ou amanhã...
Beijos!!!


Mundo Louco

“O pior cego é o que não quer ver”
O pior surdo é o que não quer ouvir
O pior cético é o que se nega a crer
Mesmo quando as evidências
 Não deixam mentir
Em se tratando de escolhas,
 Todo critério é pouco
As verdades estão aí, 
Só mesmo os ensandecidos
De ilusões, entorpecidos
Correm pro fundo do poço...
Êh, mundo louco!


Palavra Aberta

E ainda insistes na palavra aberta
Mas silencio minha voz
Toma em tuas mãos esse protesto mudo
[há cinzas sobre-tudo ]
E num cinzento atroz
Sigo trancada, amordaçada
Pra nunca mais falar de nós...


Papai Rolinho

Apesar do barulhão da máquina de lavar eles não estavam assustados: sobre a lâmpada, no alto da parede, o casal de rolinhas tentava se equilibrar, agarradinhos um ao outro. Quando dei com eles ali, e os olhei de frente, pensei que iam voar. Mas não o fizeram. Pelo contrário, sustentaram meu olhar e permaneceram quietinhos...
Deixei como estava pra ver no que ia dar. E enquanto cuidava da roupa e da arrumação da varanda, vez em quando olhava os passarinhos ali naquela calma que nada abalava. Dei expediente de outros afazeres e qual não foi minha surpresa ao procurar de novo por eles. Havia novidades! O Rolinho tinha buscado alguns fiapos de capim e presenteava a amada com a bela oferenda! Caiu a ficha! Ah, estavam planejando começar ali uma nova família! Por isso, aquela insistência em fincar pé, ou melhor, asas, no lugar.
À tarde, ao voltar do trabalho fui dar uma olhada na situação. Os dois tinham sumido e deles só restara um emaranhado de capim que tinha escorregado para o tanque. Ah, que pena! Tinham desistido de seus planos. Também pudera. Sobre uma lâmpada o novo lar não ia ter muita chance de sucesso. Deve ser isso que pensaram...
No dia seguinte o que vejo? A duplinha dinâmica tentando um novo espaço para sua morada. Agora no cruzamento do canto do telhado da varanda. Pareceu-me bastante sensato o novo endereço. Pelo menos estariam a salvo de chuvas e sol muito quente, sem a luz incômoda de uma lâmpada sob o ninho. Pois bem, a faina recomeçou. Enquanto Mamãe Rolinha, toda doutora, ficava no território do ninho, Papai Rolinho ia dar uns rolês pra buscar raminhos...
E o que não faltava nos arredores era matéria prima! Muito galhinho seco, muita raiz de grama, assim tudo meio sequinho prontinho pra ser usado. E era bonito ver o voo do futuro papai! Busquei a máquina fotográfica e consegui captá-lo em pleno voo com os gravetinhos no bico — às vezes, tão grandes que o desequilibravam no ar. Uma graça de se ver!
Mais um... Mais outro voo! À cada revoada lá vinha ele todo orgulhoso com mais um troféu! E ao chegar do ladinho da esposa entregava a ela o raminho no bico. Creio que a exigente senhora, sabedora de seu poder, fazia uma meticulosa avaliação do material: alguns ela simplesmente descartava jogando tudo no chão; outros ela acolhia com carinho especial e com muito jeitinho ia colocando debaixo das asas, sob o peito, tudo bem trançadinho, verdadeiro trabalho de arte. Como agradecimento, o marido ganhava uma espécie de arrulho e, feliz, partia em busca de outro presente...
Na volta do trabalho corri pra dar uma olhada na edificação de meus novos vizinhos. Mas que surpresa! Os graciosos engenheiros tinham se mandado do canteiro de obras e só vi os restos da trabalheira da manhã todo espalhado no chão. Que explicação? Chegaram à conclusão — por uma razão que só o instinto animal conhece — que ali também não ia dar certo. Quem sabe não gostaram dos olhares intrometidos da dona da casa e resolveram bater asas...
Porém a coisa não parou por aí... Alguns dias depois descobri os fugitivos muito bem aninhados no pé de um arbusto ao lado da janela, desta vez num canto mais sossegado. E lá a coisa progrediu, pois numa escapada dos dois pude vir dois ovos branquinhos no fundo de um aconchegante ninho.  A natureza é mesmo perfeita. Era a vida prontinha pra se perpetuar...

Não Vai Combinar...


— Vô!
— Que que foi, Luisinha?
— Tô querendo uma coisa...
— Aiai! Quê será, gente...
— Eu quero que o senhor pinte a Branquinha...
— Nossinhora! Danou-se! Pintar a coelha? E pra quê?
— Enjoei dela branquinha, Vô! Eu quero ela rosa, toda rosa!
— Luisinha, cê tem certeza?
— Tenho, vô!
— Mas, menina, onde já se viu coelha dessa cor que cê quer?
— No desenho, vô! No desenho tem!
— Mas, escuta... Desenho não é de verdade!
— Eu sei, cê já me falou isso...
— Pois, então! E a Branquinha é de verdade!
— Vô! Ela pode ser a primeira coelha cor-de-rosa do Planeta Terra, uai!
— Pode, mas será que ela ia gostar?
— Eu acho que ia, Vô!
— E ela por acaso te falou isso?
— Não falou, mas eu sei... Ela não falou porque ela não fala.
— Tá bom, Luisinha, o vô tá entendendo, mas não tá  gostando disso, não!
— Ué, por quê?
— Porque  as coisas são como são, menina! E a Branquinha nasceu branquinha.
— Mas a Vó, tinha o cabelo branco e fez ele ficar vermelho!
— Mas gente é diferente...
— Não sei porquê! Por quê?
— Porque é, ora!
— Vô, fala  direito! Por que é?
— Ih, Luisinha! Olha lá quem tá na moita de cenoura!
— A Branquinha!
—Que danada! Já tá tomando o café da manhã!
— Vô... Peraí...
— Quê que foi?
— Mudei de ideia...
— Mudou?
—Pode deixar a Branquinha branquinha mesmo...
— Uai, por quê?
—Tô achando que ela cor-de-rosa não ia combinar...
— Combinar com o quê, menina?
— Com as folhinhas da cenoura, Vô...
— Ué, da onde cê tirou esse trem de combinar, Luisinha?
— Vô! Eu vi a minha vó falando pra minha mãe aquele dia do almoço.
— Falando o quê?
— Que o meu laço rosa não ia combinar com minha saia verde. É isso, Vô!

(inspirado nas delícias que as crianças pensam e falam...)




Chip... rei!


A moça da Operadora operou direitinho: me convenceu a entrar num novo Plano de telefonia.  Ligações pra aqui e pra ali de graça, não sei quantos MB de internet, sem contar os zilhões de minutos gratuitos pra falar com quem quiser – eu nem gosto muito de telefone – mas o que se passa na cabeça da gente, numa hora de tantas ofertas? Inexplicável. Ah, e tinha ainda um chip de graça! Já pensou que bacana, uma alternativa a mais pra falar com parentes, amigos e amores sem pagar nadinha? Ninguém resiste, eu me perdoo.
O chip chegou pelo correio num envelopinho marrom. Abro a capinha do celular e, em voz alta, pergunto a mim mesma: onde será que coloco esse chip novinho? Ninguém me responde, então o jeito é “fuçar” até acertar - ou arrasar de vez com o aparelho – É ir mexendo, que uma hora dá certo. Deu errado! Não vi nada, nem sei como foi. Puxei um araminho e o chip voou! Uma molinha? Eu ignorava totalmente que chips costumam pular. Mas o meu pulou! E tão ultravelozmente que não deu pra acompanhar o trajeto no ar. Susto! Onde tinha ido parar o minúsculo quadradinho dono dos meus segredos? Sumiu! E com vários reais em crédito, colocados justo naquela manhã? Que azar!
Declarei guerra ao chip sumido. Procurei pelo chão, debaixo do sofá, nas dobrinhas da cortina, juro, quase na lâmpada do teto! Nada. Entre o rodapé de madeira e a parede? Loucura. Chip-irei!? Um chip, em sã consciência, jamais acertaria uma abertura daquelas. Passei a ponta dos dedos pelo tapete tentando detectar qualquer coisa que se parecesse com um chip. Também nada. Nestas horas é que vêm as coisas mais absurdas. Teria voado para o banheiro? Pra não restar dúvida, conferi banheiro, cozinha, corredor. Só pra chegar à conclusão de que chips não dobram quinas de porta.
Por fim, conclui! Ele só podia ter se infiltrado na minúscula fenda entre o assento e o braço do sofá. Era ali que eu estava sentada na hora do desastre. Ao sofá! Mínima, a distância entre o assento e o braço! Ali não cabia um dedo. Se não cabia um dedo... Então uma agulha de crochê! Deslizei a agulha pelo fundinho até que tocou em alguma coisa. Seria o chip? Era um clips... Quase iguais, mas só no nome.
Puxei a agulha pro meu lado, agucei os olhos. Vi o chip! Pequenininho, branquinho, com umas formas douradas. Era ele sim! Tentei levantá-lo com a agulha: foi quando ele saiu do meu campo de visão e despareceu para sempre, amém, na base da almofada. Perdido! Agora não tinha mais jeito. A não ser que eu cortasse em pedacinhos, meu antigo e simpático sofá cor de ferrugem... E é claro, isso eu não ia fazer de jeito nenhum! Primeiro porque não pretendo trocar de sofá nos próximos cinquenta anos; segundo, porque um chip não merece assim tanto sacrifício... Restou-me a lei de Pollyanna  e seu “jogo do contente”: nesse momento há tragédias imensas acontecendo no Planeta, e perder um chip – ainda que de bobeira - não é o fim do mundo. Antes que feche a loja vou lá correndo comprar outro. Não é bom que a gente fique sem telefone. Nem por um minuto! Vai que o destino esteja me reservando uma boa notícia, justo pra hoje e me encontre sem comunicação! Nem pensar!


Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

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