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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sol e chuva

O que direi sobre o dia de hoje? Hoje fez chuva e sol. Hoje eu tenho um pensamento bom. Estou feliz porque o meu amor escreveu para mim. Resolvi cortar os cabelos para que eu não continuasse tão desenfreada assim. O meu pensamento escorre nos fios oleosos, e então, perco-os no percurso do corpo fino e longo como o tempo.
Li uma carta de amor para os meus alunos hoje. Isabel ficou muito interessada em ouvir cada palavra. Os seus olhos brilhavam adolescentes. Lá fora, sua alma percorria corredores infinitos. No corpo, frêmitos de paixão.
Não está mais chovendo agora. Eu quero andar no caminho do sol. Tenho o brilho e a esperança do arco-íris. Meus olhos são verdes como o desejo dos gatos e os pelos são como mechas pretas e brancas, que se opõem aos pulos, ora fogo ora neve. Ora chuva ora sol. Ora paixão ora amor. Ora chuva ora sol. Ora chuva ora sol. Ora longe... ora perto...

Autora: Anajara Lopes - Itapecerica/MG

domingo, 3 de abril de 2016

Licor de nozes

Autora: Anajara Lopes

Sempre fui apaixonada por licores. O de amarula, então, hum!... é uma delícia! Gosto do sabor forte, picante, doce, como engolir uma pimenta suave, dessas que não queimam muito, só atiçam as papilas gustativas. Como acender o fogo e aproximá-lo do corpo, com o cuidado bastante de não queimar, mas de modo suficiente a permitir que o calor faça suar o corpo e deixá-lo molhado.
Hoje lembrei-me de um licor de nozes que ganhamos de presente. Era um produto artesanal, feito numa pequena cidade da Alemanha que não me recordo mais qual. A garrafa ficou anos guardada. Eu não havia despertado o interesse de experimentar porque não sou muito fã de nozes e acabei esquecendo da bebida.
As crianças já estavam dormindo. Uma música suave tocava no velho toca-fitas. (Ainda existem?) Ah! Sim. As músicas foram selecionadas com cuidado. E eu, gostaria muito de enxergar naquele ambiente um clima romântico. Embora com esforço. Porque, intimamente, não mais conseguia disfarçar a minha total indiferença por ele, mas não podia deixar de aceitar o clima inspirador naquele dia que comemorávamos vinte anos de casamento. Conversamos muito, meia voz e meio tom.
Via no rosto daquele homem uma pessoa mais jovem, mais magra, mais baixa. O cabelo crespo. O rosto era bem mais delicado, com traços mais finos, outros olhos, outra boca, outra voz. Enfim, outra pessoa. Uma espécie de delírio que durou horas. Eu não me recordo do som da minha voz, porque devorei o licor tão depressa que destoou do tempo que ficara guardado esperando por mim.
Esperando por mim. Eu disse isso? É. Porque depois daquele dia eu nunca mais fui a mesma pessoa. Como se uma zona desconhecida da minha memória tivesse sido despertada. Eu cheguei até a pensar que todos os casais apaixonados deveriam ter uma garrafa de licor de nozes em casa esperando pelo momento exato de degustá-lo juntos.
As crianças não acordaram nem saíram andando sonâmbulas pela casa. A lua era cheia, clara e bela. O dia amanheceu como todos os outros.

Autora: Anajara Lopes - Itapecerica/MG

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Autorretrato da mulher de turbante azul

Autora: Anajara Lopes

Todos os dias pego o ônibus para o trabalho nesta rua. Muito movimentada, poluída, gente que não acaba mais. Sento no banco a espera que geralmente é interminável. Há momentos em que quinze minutos se tornam tempo demais. Principalmente o de esperar. Esperar é sempre uma angústia, um sentimento noturno de incompreensão com o mundo, com as pessoas. Porém há algo interessante nisso sim porque nesses poucos minutos podem conter horas também intermináveis.
O que me chama atenção, além das pessoas que passam sem parar, é uma placa. Sempre leio a mesma placa como se procurando uma novidade, uma palavra nova nos dizeres velhos, sujos pela poluição e desgaste do tempo. Parecia que aquela placa estava lá há mais de duzentos anos, com os seguintes dizeres, somente:
PERDEU ALGUMA COISA? ENTRE! CELULAR: 91996644.
A casa sempre fechada. Como se fechada para o mundo. Antiga, com janelas e portas de madeira talhada, com eira e beira. Cores de azul desmaiado e amarelo claro, situada bem na esquina e do outro lado uma farmácia e um supermercado.
Entravam homens engravatados, mulheres chiques e elegantes, de óculos escuros ou não. Jovens, idosos e até crianças de colo. Estudantes com seus uniformes branco-azuis. Não dava para ver a senhora que atendia a campainha. Aquilo tudo era uma incógnita, não sei se para todos, pelo menos para mim era. Por mais que eu tentasse entender pela leitura do texto não conseguia decifrar aquele enigma. Só tinha uma saída: ir até lá, tocar a campainha e pagar para ver, ou então, ligar para aquele número do anúncio.
Hesitei por muitos dias. Cheguei a perguntar para uma senhora que sempre sentava ao meu lado do banco do que se tratava aquela casa e aquela placa. A mulher não me deu confiança, aliás respondeu com monossílabos que “não”, não sabia do que se tratava. Achava até que não morava ninguém ali...
Tive coragem digitei atentamente o número do celular e para minha surpresa ouvi uma voz de secretária eletrônica que dizia: “se você concorda com o dia e hora (segunda-feira, às sete horas) digite 1, se quer escolher outro dia digite 2, se quer escolher outro horário digite 3, se quer falar com um de nossos atendentes digite 4. Não responda nada, apenas escolha o número de seu interesse, você está falando com uma máquina, portanto não obterá nenhum êxito na tentativa de conversar”, se você concorda com o dia e hora (segunda-feira, às sete horas) digite 1, se quer escolher outro dia digite 2...
Ouvi muitas vezes aquela gravação até resolver desligar. Achei, a princípio, que não passava de uma brincadeira. Bom, fiquei pensando naquilo por muitos dias e não tive coragem de comparecer àquele dia e horário marcados. Continuei por um tempo observando aquela casa estranha e aquelas pessoas entrando e saindo discretamente. Pude perceber nos rostos das pessoas um ar de satisfação, como se entrassem carregando um peso e saíssem sem ele, um rosto ameno, sereno, com um pequeno sorriso estampado. Essas feições me deixaram mais intrigada ainda.
Um certo dia saí de casa meio chateada com alguns problemas familiares e me sentei no cativo banco de espera do ônibus para o trabalho com um ar angustiado esperando pelo momento de assumir o meu posto de telefonista na empresa em que eu trabalha há mais de 12 anos. Todos os dias fazia as mesmas coisas. Chegava, abria a gaveta e retirava os malotes para serem entregues ao Correio Central; preparava a mesa telefônica para então ficar durante 8 horas por dia, sem direito a sair para tomar um cafezinho, a não ser que alguém ficasse no meu lugar, que era um pouco difícil, às vezes, pois cada um cumpria a sua rotina sem se preocupar com os outros.
Foi justamente nesse dia que resolvi pegar de novo o telefone e ligar, dessa vez ouvi até o final da primeira etapa da gravação (a que marcava dia e hora) e então, criei coragem e compareci na primeira hora do dia seguinte. Bati na porta, suavemente, até com um pouco de receio. A porta se abriu e uma voz disse: entre e feche a porta! Fiquei com medo. Mas, naquele momento não dava mais para recuar. Obedeci, entrei e fechei a porta...
Uma mulher de turbante azul encaminhou-me para dentro da casa. Olhava para as paredes vermelhas como se tivesse entrando em um útero. Dividia-me entre olhar para o turbante azul (da cor do céu) e as paredes almofadadas de vermelho (sangue). Havia também um tapete que conduzia a um outro cômodo da casa. Essa era a surpresa! Deparei-me com um telão enorme, e de repente eu já me encontrava dentro dele. O final do tapete dava na entrada dessa tela. Era como se a partir daquele momento eu fizesse parte daquele quadro. Eu não me sentia mal. Ao contrário, estava me sentindo muito bem. Um certo ar de aconchego. Parecia estar cercada de pessoas das quais gostasse muito. Era só uma impressão, pois, olhava para os lados e não via ninguém, nem a mulher de turbante azul. Ela havia desaparecido de perto de mim.
A partir daquele momento a cada passo mudava o cenário em que estava inserida, como num quadro que ia se renovando no meu caminhar não sei para onde.
No primeiro passo, olhei para dentro de mim e só conseguia perceber um coração, como seu eu fosse composta somente por sentimentos. Estava num CTI comum de hospital. Olhei e vi uma criança respirando por aparelhos depois de uma cirurgia no crânio. Uma cena de horror! Parecia um quadro de Salvador Dali. Mas, ao mesmo tempo uma sensação agradável, acho que de esperança. Havia a mão de Deus depositada em sua cabeça. Eu via essa mão de Deus abençoando aquele garoto. Ela fazia parte de mim enquanto a senhora de turbante azul esperava invisível pela criança, do lado de fora do hospital.
No segundo passo, uma angústia terrível, pois tentava a todo custo que uma pessoa falasse o que estava sentindo. Um menino gritava muito e não dizia o que havia. Levantei a sua cabeça e vi que ele não soltava uma lágrima sequer, apesar dos gritos poderem ser ouvidos longe. Eu perguntava, perguntava, e nada de resposta. Havia em mim um sentimento de impotência. Eu não sabia quem era aquele garoto e porque estava ali no meu caminho. Olhei para o lado e vi uma casa cheia de doces. Levantei o menino pelo braço e conduzi-o àquela casa e então ele aceitou doces e biscoitos. Calou-se. Mas não disse palavra. Quando olhei nos seus olhos azuis vi ao fundo um céu, um mar e um coração que batia num peito do tamanho da tela. Acho que esse menino era um anjo, ele desapareceu quando dei o terceiro passo.
Eu estava agora, com uma forte falta de ar . O ar não adentrava ao peito, apesar de abrigar pulmões sadios. O ar chegava na garganta e voltava. A sensação era de morte. As pernas foram ficando descontroladas e os lábios roxos. Até que senti uma agulhada no braço. Passados uns quinze minutos já respirava um pouco melhor.
No quarto passo continuava sem ar. No quinto passo também. E assim foi sucessivamente até achegar ao décimo passo. As crises de falta de ar foram muitas durante a vida toda.
No décimo passo deu-se num rio de águas límpidas, uma fresta de luz e um céu azul claro. Ao canto uma lua partida e uma estrela ao lado. Havia água, muita água. Pisei e continuei caminhando por algum tempo, como se tivessem sido por durante dias, meses, anos... até chegar a uma porta. Abri essa porta; saí e a fechei normalmente. Percebi que estava na rua lateral à casa perto do ponto do ônibus. Tropecei. Quando olhei para o chão estava lá a minha carteira de identidade. Eu não sabia que havia perdido a minha identidade.
Descobri que eu era a mulher do turbante azul, porque me vi dentro dos olhos do menino que comia doces, assim que levantei o seu rosto eu estava lá. Eu sempre estive lá.

Autora: Anajara Lopes - Itapecerica/MG
Publicação autorizada pela autora

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Missley da Conceição

Autora: Anajara

Missley da Conceição nasceu no dia 29 de novembro, no início das festividades de Nossa Senhora da Conceição, por isso recebeu esse nome pelo seu pai Sr. João Romão. A mãe Dona Mariinha morreu no parto. Infelizmente.
O Sr. João Romão não se casou novamente, por ter que criar a menina sozinho. Trabalhava de sol a sol arrancando macaxeiras para serem vendidas nos restaurantes da capital.
Nos primeiros anos Missley acompanhava o pai no trabalho. Depois foi ficando grandinha e já com cinco anos ficava em casa sozinha. Mas, os vizinhos sempre cuidavam da criança, dando comida e alguns brinquedos para ela se distrair.
Quando seu pai chegava da roça, mãos calejadas, pele enrugada e castigada pelo sol, dava um abraço na filha e prometia levá-la à feira no centro da cidade de Brejo Santo, onde moravam. A cidade era muito pequena, com algumas roças que rodeavam o vilarejo. Um cenário cinza-azul, sol ardente, pouca chuva e um pôr do sol deslumbrante. A terra seca como os calcanhares do Sr. João Romão.
A idade de Missley ir para a escola chegara mais depressa que se esperava. A casa onde se localizava a única escola de Brejo Santo estava em ruínas e a professora não dava mais aulas lá, foi-se para a capital com um forasteiro que apareceu certo dia e levou a única chance da menina de aprender a ler.
Havia no seu semblante um ar de decepção como o do pai quando chegava da roça e se acocorava no canto do fogão pensativo, sem palavras, sem ação diante da vida que tinha e olhava a filha e olhava a casa... a casa... a filha... a casa... infinitamente.
Pensava quando conheceu Mariinha na Semana Santa, logo na sexta-feira da paixão que a vida seria próspera e fecunda. Como não sabia usar as palavras pegou na sua mão e com os olhos e somente em pensamento deu-lhe um beijo na testa, respeitosamente, e um silêncio se fez pairar, como a poeira dos pés das crianças que brincavam em redor da barraca de doces da mãe de Sr. João Romão. Ele ajudava a vender os doces. Mas, de cabeça abaixada, levantando-a um pouquinho só para entregar o doce.
Mariinha tinha uma pele cor de jambo e um olhar pedinte, como que quisesse dizer algo que não sabia. Aliás, toda a gente tinha uma falta de essência que integra o corpo e integra a alma que fazia com que muitos tivessem esse jeito meio mole de falar e olhar, como se estivessem desesperançosos de tudo. Mas, não era bem assim. No fundo havia uma força interior que formava a peculiaridade do povo nordestino única e viva. Que os diferençava das outras pessoas mesmo que estivessem longe.
As festas, a cultura, a religiosidade estavam impregnadas na pele daquele povo que de sofrido e abandonado se faziam sorrir muito alto e feliz como as saias que rodopiavam nas quadrilhas de São João.
Missley se deslumbrava com as cores dos doces, dos pratos, das roupas de festas, florais com cores vibrantes e sonhava mesmo acordada.
A menina crescia e com ela o desejo de casar e se mudar para o Rio de Janeiro. Sair daquele lugar fantasma, era o seu maior sonho.
Sentado, agachado junto ao borralho, sem cinzas, sem fogo e frio estava o Sr. João Romão com seus pensamentos, enquanto, batia à porta. O barulho do trote do cavalo doía nos seus ouvidos e cada vez mais ele apertava os joelhos contra a cabeça.
Naquele momento haveria uma venda. Não uma dessas comuns que aconteciam em Brejo Santo. Mas, as do futuro com pacote completo. O Sr. João Romão estava prestes a vender sua última filha.
Nos noticiários das cidades grandes como o Rio de Janeiro onde Missley iria morar publicavam constantemente que pessoas de classe média estavam vendendo rins, fígado, sêmen, óvulos e outros órgãos para transplantes a preços exorbitantes. Mas, nem Missley nem seu pai ao menos imaginariam que isso fosse possível acontecer. Para eles a cidade do Rio de Janeiro era o de melhor que poderia acontecer com uma pessoa, por isso não hesitou nem por um segundo em mandar sua filha para lá. Qualquer coisa seria melhor que passar necessidade, sofrer com a miséria e o abandono, morrer à míngua...
Assim, então, começa a história de uma garotinha de 15 anos, olhos claros, pele suave como a seiva de uma flor. Ingênua e doce como o clarão da lua.
No Rio de Janeiro foi à manicure, cortou os cabelos e matricularam a menina numa escola pública perto da casa onde morava, de agora em diante, no período da manhã, e à tarde e à noite vestia um uniforme azul claro e, no colo, acalentava uma criança tão linda e alva como o olhar da lua.
Missley conheceu o Teatro Municipal, o Cristo Redentor e quando aprendeu a ler ia à Biblioteca Pública sempre que podia e lá ficava lendo e sonhando como jamais imaginou que pudesse acontecer em sua vida.
O seu pai faleceu. O casebre caiu.
Trinta anos se passaram que o Rei do Caruá, Antônio Carlos, levou-a para o Rio de Janeiro. Em sua lembrança ficaram apenas umas fotografias que Carlinhos tirou de Brejo Santo e  a menininha guardou numa caixa de Pandora. De quando em vez abria a caixa e de lá saía cores, formas, cheiros de um lugar fantasma, que não existe mais, a não ser ruínas, destruição e abandono.
Elas cresceram, Missley e Maria Clara. Hoje elas estão passeando no Jardim Botânico. O deslumbramento daquele lugar, a natureza, as árvores, as flores, os bichos, paradoxalmente,  se misturavam com as fotografias que Missley mostrava a Maria Clara, de um sertão de um Pernambuco que era só seu. E que ela nunca conseguiu se desvencilhar, porque era a sua história. E nada mais.


Autora: Anajara Lopes - Itapecerica/MG


Publicação autorizada pela autora