Mostrando postagens com marcador Concurso de Textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Concurso de Textos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Terceiro Concurso do Blog - Texto 44: Lunático

Eu o amei por todas as manhãs. Ele só ansiava a noite para poder flertar com a Lua.
Quando o conheci, sabia que havia algo diferente nele. Seus olhos azuis e a forma como adorava discutir astrofísica, psicologia e todos os outros assuntos que minha mente pouco conseguia acompanhar. Sua boca macia e a forma que ela me beijava, me colocando para dormir e me acordando também. Suas mãos precisas e talentosas, sempre escrevendo um texto novo, sempre criando uma invenção absurda. Sua loucura tão bela, mas tão distante da filosofia de qualquer humano.
Ele se dizia humanista, e talvez realmente fosse. Sua paixão pelo ser humano, no entanto, era superada apenas por seu desejo compulsivo de pisar na Lua. Na época, quando o convenci que o amava e o fiz pensar que me amava também, eu achava bobeira me preocupar com qualquer outro lugar que não fosse a Terra.
Tínhamos tanto à nossa disposição! Flores, árvores, frutos e energia! Nosso quintal era recheado de natureza, nossa casa era recheada de amor. Eu o amava como ele sempre amou a Lua, mas quando ele me amava também, eu simplesmente me sentia a mulher mais querida do mundo.
Pelas manhãs, fazíamos banquetes e gastávamos nossas energias com festas, danças e tudo aquilo que nos trazia prazer. Conforme o anil do céu era dominado pela escuridão da noite, porém, eu também era trocada pelos astros. Ele se sentava na varanda de casa, ao lado de uma luneta e um computador de colo, fazendo previsões distópicas e escrevendo os mais metafóricos dos poemas.
Por muito tempo, não suspeitei de nada. O apoiava e o incentivava a perseguir seus sonhos e continuar produzindo sua arte todas as noites. Fingia que não sabia, mas aos poucos ele deixou de dormir comigo, apenas para ficar estudando as brilhosas entidades celestes. Enquanto ainda haviam manhãs ensolaradas e repletas de vícios, eu estava contente. Enquanto eu soubesse que escutaria seu “Bom Dia”, eu dormiria feliz.
Aos poucos, fui percebendo que as árvores frutíferas de nosso jardim não eram tão cheias de vida assim. A grama, antes tão verde e brilhante, foi se tornando um caminho de terra. As cabanas vizinhas se tornaram casas, e as casas se tornaram prédios. O mais assustador foi perceber que todas aquelas mudanças repentinas condiziam exatamente com as profecias que meu amado fazia.
Diversas foram as vezes que senti medo. Seus braços, que não eram colossais, mas suficientemente grandes, me cobriam com a ilusão de que tudo ficaria bem. Suas palavras, por outro lado, sempre questionavam a qualidade de nossas vidas, a sanidade de nossas mentes e a veracidade de nossos sentimentos. Era uma tortura deliciosa e antitética, ele me abraçava apenas para dizer que o mundo poderia desabar a qualquer momento.
Eu me fiz de forte enquanto pude. Aproveitei enquanto pude. Vivi o máximo que pude, não percebendo que cometia os mesmos erros que o resto da humanidade. Eu drenava os bens preciosos da Terra, poluindo-a em prol de meus vícios. Eu drenava o amor precioso daquele que eu amava, poluindo-o com minha simplicidade.
Um dia ele se cansou de me alertar sobre os malefícios que causávamos ao nosso planeta. Decidiu que iria apenas falar da Lua e eu, em minha ingenuidade e cegueira forçada, não percebi que aquilo que era um aviso também. Fingia estar encantada com suas descobertas quando, na verdade, eu nada entendia. E ele sabia disso. Ele sempre soube.
Quando finalmente entendi que seus poemas trágicos eram para me alertar, e que os românticos tinham como musa o satélite terrestre, senti um calafrio desumano percorrer minha espinha. Passei todas as manhãs seguintes implorando para a Lua que o deixasse todo para mim, rezando para os deuses que nunca estiveram a favor de meu amor.
A cada vez que eu pedia, no entanto, ele parecia mais distante de mim e, ao mesmo tempo, mais próximo dele mesmo. Gastei mais e mais recursos, vi a terra empobrecer, vi os mares secando, causei maremotos e furacões com minhas imprudências, cavei meu túmulo esperando conquistá-lo com minha fragilidade.
Tentei causar ciúmes, tentei tirá-lo da cabeça, tentei tudo o que podia, me negando a aceitar que já o havia perdido. Quando ele se deitava sobre a mesma cama que eu, podia vê-lo observar sua verdadeira amada pela janela. Tão belo, banhado pelo brilho daquela que passei a odiar.
Numa ensolarada manhã, como de costume, recebi seu beijo de bom dia, e aquele seria o último. Quando me levantei da cama, ele estava arrumado, vestindo um traje espacial improvisado. Seu protótipo de nave estava do lado de fora da casa, em nosso quintal de concreto, esperando por seu comando para viajar para o espaço.
Primeiro implorei para que ficasse, sendo reprimida impiedosamente pelo silêncio. Depois tentei pedir para que me levasse junto, para que me amasse enquanto amava a Lua. Foi então que se voltou para mim, com o mais lindo dos sorrisos, e disse: Um dia eu posso voltar para te buscar.
Eu acreditei naquelas palavras, em lágrimas e me afogando em tristeza, quando nem ele mesmo acreditou que aquilo seria possível.
Hoje eu entendo. O mundo só era belo porque eu estava com ele. Sua presença foi minha cegueira o tempo todo e, agora, sua ausência se tornou um veneno para minha visão de realidade.
Mas tudo bem. Alguns homens nasceram para se tornarem astronautas e encontrar seus sonhos entre os astros. Eu? Eu nasci para amar o homem que me trocou pela mulher que mora na Lua.

Terceiro Concurso do Blog - Texto 43: Poligamia

Na manhã passada, acordei cedo, bem cedo, para encontrar uma de minhas namoradas.
Ela é uma pessoa virtuosa, em paz consigo, em contato com a natureza e cheia de espiritualidade. Sua casa é uma grande mansão recheada de artefatos e livros sagrados, numa organização única e bela, de arquitetura clássica e impecável. Seu quintal começa num lindo jardim e se estende numa trilha tomada pela vegetação natural que adentra uma magnífica floresta.
Adorava visitá-la e aventurar aquela trilha ao seu lado. Ontem não foi diferente. Ela me recebeu com um sorriso lindo e um beijo puro. Segurou minha mão e me levou até o começo da trilha, onde encontraria umas sacolas contendo os alimentos para nosso piquenique. Seu ânimo era tão contagiante que quase me fazia esquecer do trajeto de uma hora de estrada que havia acabado de fazer.
Caminhamos do jeito de sempre: ela um pouco na frente, eu um pouco atrás. Ela abria o caminho com coragem e cuidava dos insetos, grandes e pequenos, que apareciam em nosso caminho. Sua tranquilidade me fazia tranquilo até mesmo quando avistava as imensas aranhas em suas teias no meio do caminho. Ao seu lado, eu me sentia seguro, confiante e amado.
No fim da trilha há esse grande lago rodeado por imensas árvores de um lado e um campo plano do outro. Foi lá onde estendemos a toalha de mesa e depositamos nossas sacolas e nossas consciências. Ficamos a observar a beleza das inúmeras borboletas, os uivos dos lobos, os gritos dos macacos, o coaxar dos sapos, os nenúfares multicoloridos e, talvez mais importante que isso, a beleza um do outro.
A natureza parecia sorrir para nós e, ainda que os insetos caíssem sobre nossos braços esporadicamente, nenhum mal nos atingiu. Era uma aventura estar ali, mas a vida, em si, é uma grande aventura. Ela me fez enxergar isso. Embora consiga sempre encontrar inspiração para continuar em minha arte de viver, uma mudança de ambiente não era nada mal.
Ela parecia muito feliz em me ver e, quando parti, demonstrou esta mesma felicidade em me deixar nos braços de uma pessoa que me ama tanto quanto ela, minha segunda mulher. Para ela, o que importava era minha felicidade. Ainda consigo me lembrar de seu sorriso enquanto acenava para mim no começo da tarde.
Quanto à minha segunda mulher, esta é um pouco mais ocupada. Estava voltando de uma viagem de negócios e decidiu que me levaria para casa antes de voltar para uma séria reunião com pesquisadores das maiores universidades brasileiras. Talvez aquele fosse o único momento do dia no qual poderíamos conversar decentemente, e a saudade estava gritante.
Discutimos, pelo caminho, algumas de nossas teorias comportamentais. Falamos sobre interesses humanos e sobre o estilo de vida da humanidade. Planejamos projetos mirabolantes, contamos as novidades sobre o mercado e o mundo acadêmico. Gozamos plenamente da intelectualidade um do outro e, para completar, até contamos algumas piadas espertas que instigam o pensamento sobre nossa estrutura cultural.
Disse que estava a sentindo meio distante e perguntei se ela, em algum desses dias de extrema correria, sentiu-se assim também. Chegamos a uma conclusão que muito diz, mas nada explica: que é impossível dizer se ela realmente se distanciou. Primeiramente porque minha sensibilidade emocional estava elevada e talvez não estivesse acostumado àquela rotina louca ainda. Segundo porque, no olho do furacão, você não consegue ter a exata dimensão da sua tempestade.
Em seguida, ela me contou sobre alguns pensamentos pessoais que, potencialmente, poderiam me deixar chateado. Mas logo os explicou melhor e, como eu sempre penso, é impossível me magoar ao seu lado. Ela faz eu me sentir tão fascinado, esperançoso, determinado e amado com seus discursos e com o compartilhar de suas ideias! Sinto-me como se fosse seu sócio nesse empreendimento constante que é a vida.
Aliás, se tem uma coisa que foi alavancada no decorrer dos últimos tempos, essa coisa foi minha vida. A determinação dessa mulher me faz determinado e, se não fosse por isso, acredito que minhas filosofias não estariam tão bem formadas hoje. Sinto que, ao seu lado, nada é impossível. Nada é distante e difícil o suficiente para me manter longe de meus objetivos.
E durante uma introspecção e outra, foquei meu olhar para fora da janela do carro e me assustei ao avistar minha casa. O tempo passou tão rápido! Então ela virou para mim, num olhar cansado, mas cheio de vida, e me deu um beijo.
"Dizem que tempo é dinheiro", eu disse a ela enquanto abria a porta do carro, "E quando estou com você, sinto que estou fazendo um dos maiores investimentos de minha vida".
Nos despedimos vagarosamente, como se ela já não estivesse prestes a se atrasar para seus compromissos. Eu abri o portão e, antes que pudesse colocar o pé para dentro de casa, recebi um forte abraço de felicidade.
Era minha terceira mulher, a mais jovem, alegre e caseira de todas. Ela, assim como todas as outras, tinha a chave para a minha casa e, também, para meu coração.
"Bem vindo de volta!", ela disse extremamente feliz. Seu entusiasmo se refletia na entonação das palavras. Me puxou para dentro e me pediu pra contar sobre meu passeio, logo em seguida me contando sobre seu dia.
Ela trabalhava muito e o mundo cinza fazia muito mal à sua ingenuidade natural. Seu bom caráter é sempre visível, assim como sua fadiga em tentar resistir à poluição social e cultural dessa podridão urbana. Ainda assim, muitos tinham a audácia de dizer que ela trabalhava pouco e que sua vida era recheada de mimos, que ela desconhecia o verdadeiro peso das responsabilidades. Sempre achei ridículo comparar uma realidade a outra, então sempre tratei seus problemas e dilemas de forma tão séria quanto trataria quaisquer outros.
Nos deitamos sobre a cama de casal e ficamos a pensar em histórias fantásticas e imaginárias. Ela sempre teve essa aptidão absurda para contar histórias enquanto eu, bem... eu tentava acompanhar seu ritmo da melhor maneira que podia.
Logo, sua cabeça estava sobre meu peito e estávamos transitando suavemente pelo mundo dos sonhos, um lugar bem mais puro e receptivo do que esse em que vivemos. Não conseguia dormir de fato e cair num sono mais profundo. Queria tanto ficar acordado para apreciar sua inefável beleza enquanto dormia, que só consegui, no máximo, cochilar. O problema é que ficar transitando muito entre sonho e realidade acaba causando espasmos involuntários, o que foi motivo para ela ficar debochando de mim o resto da tarde.
Brincadeiras à parte, aquele foi um momento único, sabe? Eu me senti grande, capaz, confortável, renovado e amado. Era como se eu pudesse fornecê-la esse mundo fantástico com o qual ela sonha e sobre o qual ela tanto escreve. Como se eu pudesse ser o príncipe encantado de seus contos de fadas. Como se o "felizes para sempre" sempre tivesse existido.
A reciprocidade daquele conforto era satisfatória e revigoradora. Mas então meu celular começou a tocar uma melodia peculiar, uma música sobre sonhos e astronautas, o toque de chamadas da minha quarta mulher.
Acordei suavemente minha pequena, com beijos carinhosos em seu pescoço. Ela sorriu, como quem diz "Já está na hora?" e pede para ficar na cama mais uns cinco minutinhos. Mas após alguns poucos segundos, ela se virou para mim, me abraçou, agradeceu pelos cochilos da tarde, pegou a bolsa e saiu. Pude escutar, ao longe, o portão se abrindo e as duas se conversando. Elas sempre tiveram uma relação muito próxima, e eu gostava disso.
Minha quarta mulher é a mais sedutora, atraente, cheia de charme e paixão de todas. Seus movimentos são sempre tão precisos que parecem previamente calculados e seu senso de oportunismo está cada vez mais incrível.
Ela chegou no quarto com uma expressão de satisfação e desejo, deixando sua bolsa sobre a poltrona e deitando-se comigo na cama. Seus braços me envolveram rapidamente e suas pernas foram trazendo meu corpo para mais perto. Era um envolvimento tão gostoso que fazia eu me sentir como se aquele fosse o lugar que eu sempre deveria estar.
O fogo de nossa paixão arde de diversas formas. Ora é o toque intenso e íntimo, ora o beijo lento e carinhoso, ora apenas um olhar da mais pura admiração pela essência humana.
Seu corpo me encantava como a mais bela obra de arte, seus movimentos graciosos dançavam a mais delicada dança, seus olhos recitavam as mais lindas poesias. E queria poder pedir que ficasse ali, deitada sobre a cama, apenas para apreciar aquele magnífico conjunto de expressões artísticas e biológicas, mas temo que não iria me conter por muito tempo. A vontade de apreciar varia numa nuance delicada entre algo inalcançável e algo que jamais deveria sair de você. Juntos nós éramos um, juntos nós éramos o infinito.
E quando estou nos seus braços, sob o feitiço de sua existência, sinto-me vivo, invencível, completo, satisfeito, capturado, livre e amado. Como se eu fizesse parte do universo e o universo fizesse parte de mim. Num efeito alucinante e recheado de prazer. Nas mãos daquela que parece conhecer meu corpo melhor do que eu mesmo.
E no final daquela combustão de essências, que foi apenas uma fração da explosão que podemos causar, devido à falta de tempo, mas ainda assim foi capaz de fazer tão bem, ela se agarrou em mim. Um momento lindo de vulnerabilidade. Não estava mais utilizando suas armas de charme, mas me envolvendo na promessa subliminar da eternidade. Apreciamos o tempo que nos restava da forma mais simples e calma. Levantamos da cama devagar e caminhamos lentamente na direção do portão.
No caminho, as demais mulheres da minha Vida foram aparecendo. Pouco a pouco, nos acompanhando alegre e silenciosamente. A aventureira e espiritual, a determinada e ocupada, a caseira e inocente, a sedutora e apaixonada, e todas as outras mais.
Algumas pessoas encontram parceiras para momentos específicos e um dos maiores desafios cotidianos é equilibrar e administrar esses relacionamentos. Já eu, ouso dizer que encontrei todas as mulheres para cada uma de minhas fases dentro de uma única pessoa. A monogamia, para mim, é o mais lindo ato de poligamia.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Terceiro Concurso do Blog - Texto 38: Amor com cheiro de mato e cor de céu

Um cavaleiro solitário segue viagem comprida na estrada poeirenta. O vento sussurra na copa das árvores enquanto o casco do cavalo faz barulho nas folhas secas do jequitibá. À margem de suas saudades, os ramos pendem e as águas refletem a luz da primeira estrela. No instante em que ouve o trinado de um canarinho, recorda-se da voz de Maria Piedade.
Abatido e vazio por dentro, Zé Justino baqueia, segura a rédea e o barulho da porteira o joga de novo no colo da saudade e um vento frio vindo das furnas arrepia sua pele. A Lua cochila com um brilho apagado, enfumaçado pelas queimadas do mês de agosto. Os curiangos piam tristes, um boi perdido berra cortando a escuridão. O homem olha o céu, sabendo do prolongar da seca até os meados de setembro.
Tenta recobrar os pensamentos ausentes, enquanto sua vida escorre devagar pelo antigo caminho. Busca na memória o dia em que Maria Piedade voltou à fazenda do pai. A menina se fizera mulher durantes os anos que passara no colégio das freiras. Pele clara, cabelos louros, braços roliços, belas curvas sob o vestido branco, uma fala doce e andar ligeiro de bicho assustado.
Desde o primeiro dia, o jovem Zé Justino sentiu a presença dela entrando sorrateira pela sua vida afora. Confuso, estranhava a si mesmo. Nunca fora de falar muito, agora a presença da filha do patrão lhe provocava aquela enxurrada dos mais variados assuntos. Enquanto falava via na mocinha um olhar úmido e azulado de interesse e gosto. Seus pensamentos buscavam o sorriso de Maria Piedade, queria sentir de perto o perfume de rosas, queria aquele olhar de céu sem nuvem só para ele. Nunca tinha visto uma moça tão bonita, tão amável, tão tudo!
Os dois não sabiam ainda, mas já estavam unidos. Um pulsar de corações, mãos e pés frios, andar descompassado. Gostavam dos esbarros das mãos, quando ele vinha do curral lhe trazer o caneco de leite. A mando do patrão a acompanhava nos passeios pela propriedade. Sentiu o calor de seu corpo quando a amparou nos braços. Ao tropeçar no caminho ela veio lhe cair de encontro ao peito.
Naquele momento, Piedade viu o peão da fazenda de seu pai entrar de uma vez na sua vida. Ele tinha jeito simples, fala de sertanejo, chapéu de couro, camisa aberta no peito, um cheiro de mato no corpo moreno, um sorriso tímido ao mesmo tempo malicioso... Vivia apanhando flores nos pastos para enfeitar sua janela, colhendo os frutos do cerrado que ela mais gostava. Suspiros, um prazer ao lembrar, um sofrer na ausência. Zé Justino enchia sua vida de esperança.
Quando ela caminhava em sua direção, ele só enxergava os cabelos anelados, imaginava-os se emaranhando em seu peito enquanto ela lhe abraçava o pescoço falando-lhe ao ouvido. Sentia uma alegria aquecendo seu coração, também uma urgência, uma loucura...
Léguas os separavam da sonhada liberdade. Então ele fugiu pelo Chapadão levando-a na garupa. O capim gordura florido punha uma mancha arroxeada na pastagem. No espigão pelos morros umas florezinhas miúdas amarelavam o chão pedregoso por onde passavam os dois fugitivos.
Sabiam que um filho de escrava e uma moça branca, seriam perseguidos até o fim do mundo... Tinham um longo caminho pela frente. Juntos enfrentariam chuva, sol, vento e tempestade, até ninguém mais ouvir falar deles. Sertão afora os dois iriam desaparecer sem deixar sinal, como se fossem assombração a vagar pelo mundo cercados de sombra e mistério.
Sob a luz da lua pararam à beira de um rio... Cheiro de capim, frescor de água escorrendo mansa sobre as pedras. Apearam do cavalo respirando fundo todos os cheiros e perfumes da noite. O orvalho da manhã ainda não viera apagá-los, quando tudo voltaria a inebriar abelhas, pássaros e bichos...
Juntos só viam alegria e felicidade, começo de vida. Pés que não sentiam o chão, porque ainda não era dia e só as estrelas seriam testemunhas, dois corações disparados, olhares inquietos de iniciantes, mãos entrelaçadas, bocas coladas em meio a suor e febre. Ali ao som da natureza se jogaram nos braços um do outro, se esquecendo dos perigos. O fogo por dentro só se abrandaria após uma batalha sem tempo e espaço...
A vida lhes parecia leve, o peito estava cheio de ar e de ilusão. Adormeceram quando o barrado no horizonte prenunciava o dia. Não viram cavaleiros apressados descendo a serra... Na vida nem sempre se vive conforme os sonhos de uma noite de amor...
De volta ao presente, Zé Justino saúda o dia com uma pequena oração. Dirige o olhar para o céu, o dia azul e o sol muito claro. A saudade de Maria Piedade ainda dói, seu coração está como uma árvore que ainda balança as folhas muito tempo depois de o vento ter passado...

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Terceiro Concurso do Blog - Texto 30: Bodas violentas

                                                   I

Nivaldo e Márcia desde criança namoravam. Vizinhos, pequena diferença de idade entre ambos, pais amigos, tudo levava a crer que dali sairia uma vida em comum, com o casamento.
Estudavam no mesmo colégio, só que em classes diferentes.
A data dos 15 anos de Márcia foi comemorada com uma grande festa. O Clube XV de Boa Esperança do Sul, onde nasceram e viviam, foi pequeno. A cidade em peso compareceu. Foram convidados os Cadetes da Marinha para os pares das meninas, na valsa tradicional. De Márcia, não, pois a Nivaldo era a quem caberia tal privilégio. E, assim foi.
Rafael e Clarisse, pais de Márcia, viam com bons olhos o namoro de sua filha. Nivaldo era bom menino, aluno aplicado, falava em ser médico. De seu lado, Álvaro, pai do moço, também nutria muita simpatia por Márcia. Já Suzana, a mãe... Não que tivesse qualquer motivo para deixar de gostar de Márcia. Somente achava que seu filho merecia coisa melhor, uma moça da cidade grande, filha de um industrial, enfim, que pertencesse à alta sociedade da capital, por exemplo. Aquelas coisas de mãe. Afinal, era filho único. Mas, tolerava a situação!
Durante a festa, estando na mesma mesa as duas famílias, a conversa ia bem animada. Felizes, viam seus filhos dançando, demonstrando ambos, muito carinho um pelo outro.
— Estou muito feliz, Suzana, em ver minha filha com o Nivaldo! Formam um belo par!
Suzana, por sua vez, muito reservada, sem demonstrar claramente o que ia em seu íntimo, respondeu:
— Sim, Clarisse, parece que os dois se gostam mesmo! Apenas acho que são muito novos, têm muito pela frente!
Assim, a festa transcorreu, com todos se divertindo, os homens falando sobre a política da cidade, o time de futebol do qual eram diretores, e outros assuntos normais nessas ocasiões.
As mulheres, por sua vez, comentavam sobre os vestidos das amigas presentes, do penteado de fulana, enfim, mais na base dos temas próprios do sexo feminino.
Já em casa, os pais da moça, após o banho relaxante, e deitados, comentavam, felizes, o sucesso da festa, e a alegria proporcionada à filha Márcia.
— Querido, disse Clarisse, adorei a festa!
Aí, a psicologia feminina entra em ação, e continuou:
— Só fiquei um pouco preocupada com a Suzana. Não me pareceu to-
talmente à vontade! Alguma coisa não lhe estava agradando. 
— Impressão sua, querida! Não percebi nada de anormal! Ela é assim mesmo, meio fechada!
                              
                                      
                                                   II

Nivaldo passeia pelo campus da Universidade Federal, na capital do Estado. Cursa o 3º Ano de Medicina. Refaz-se do dia atribulado que tivera, com o estudo até a madrugada da noite anterior, para as provas feitas pela manhã. Foram as últimas do ano. Tinha certeza da promoção para o 4º Ano.
Terminado o curso ginasial em Boa Esperança do Sul, seus pais o mandaram para a capital, a fim de cursar o científico. Foi para o internato de um famoso colégio. Para a alegria de Dona Suzana!
Nas férias, não via a hora de ir para a sua terra natal, e estar ao lado de Márcia, a quem jamais esquecera. Ela continuou seus estudos na própria cidade. Fez o curso normal, e já dava aulas no Grupo Escolar.
Paciente, mas ansiosa, esperava a vinda de Nivaldo, a fim de matar as saudades, e renovar as juras de amor eterno que ambos confidenciavam.
No entanto, essas idas e vindas de Nivaldo duraram até o término do 3º Ano da Faculdade de Medicina.
Naquele dia em que o encontramos passeando pelo campus da Universidade Federal, outra situação o atormentava. Chamava-se Maria Lúcia! Sua colega de turma! Morena, olhos verdes, cabelos longos, uma linda moça! Desde o primeiro dia de aula os dois se aproximaram. Naturalmente. A princípio, simplesmente colegas. Moradora na capital, volta e meia convidava Nivaldo para estudar em sua casa. Filha de pais ricos, sua residência era uma verdadeira mansão, situada num dos bairros mais chiques da cidade. Isso tudo impressionava o colega.
Apesar de tudo, Nivaldo não esquecia Márcia! Nos períodos de folga, rumava para Boa Esperança, onde a namorada o esperava.
Sua preocupação, no dia do encerramento das aulas do 3º Ano, também, era de já não ter vontade de ir para o interior, e, muito menos, de rever a Márcia.
Estava completamente apaixonado por Maria Lúcia! Esta, no decorrer dos anos de estudos, cada vez mais próxima de Nivaldo, foi conquistando o amor do colega. Numa atitude que demonstrava a grandeza de seu caráter, nunca forçou qualquer situação. Sabia da existência de Márcia na vida de Nivaldo, e respeitava os sentimentos dele. Esperava, como esperou, o momento certo, deixando que o rumo das coisas se encaminhassem de modo natural. E conseguiu!
Essa lealdade de Maria Lúcia, calou fundo no coração de Nivaldo, levando-o a sentir pela mesma, uma paixão que, até então, nunca sentira.
E, sem qualquer aviso, sem dar qualquer satisfação, Nivaldo deixou de aparecer em Boa Esperança do Sul. Ali nada mais lhe interessava.
Para o sofrimento de Márcia!

                                                 III

Enquanto isso, Suzana exultava! Seus sonhos estavam se tornando realidade.
Com a ida de Nivaldo para a capital, Suzana deixou de ter maior relacionamento com a família de Márcia. Raramente, ela via a antiga amiga Clarisse, a não ser vez ou outra na igreja, na missa de domingo, ou no supermercado.  Mas, pouco se falavam.
Álvaro e Rafael, no entanto, tinham maior contato. Ora no clube, ora num fim de tarde, após o trabalho, ainda mais numa cidade pequena, era fácil se encontrarem no bar, quando acontecia uma conversa, e um gole de cerveja. Nada mais que isso. Não tocavam no assunto dos filhos.
Todavia, Márcia sofria! O rompimento do namoro com Nivaldo foi muito doloroso. Ainda mais, sem qualquer justificativa. Apenas ele desapareceu! Não merecia tamanha ingratidão. A cidade toda estava sabendo do drama. Deixou, inclusive, de dar aula. Para ela a vida não tinha mais sentido.
Vendo sua filha enfurnada no quarto, Clarisse também amargava aquela dor.
Então, a mãe tomou uma decisão. Iria até a casa de Suzana, a fim de saber o que havia acontecido. Por que Nivaldo tomara tão drástica decisão? Não foi fácil, porém conseguiu que Márcia a acompanhasse.
À hora marcada, à tarde foram recebidas pela dona da casa. Não se pode dizer que mal recebidas. Todavia, com certa frieza. Suzana, muito polida, educada, acomodou as visitas, e os diálogos se sucederam dentro de evidente formalidade.
— Como vocês vão, há tempos que não nos encontramos para conversarmos, como antigamente.
— É verdade, Suzana. O tempo se encarrega de nos afastarmos, sempre nos exigindo mais e mais, diante dos afazeres de casa, as responsabilidades que tenho como presidente da Associação das Voluntárias do Combate ao Câncer. Aliás, você faz muita falta. Por que se afastou?
— Sabe Clarisse, após o Nivaldo ter ido para a capital, a fim de estudar, minha vida mudou muito. Com a compra do apartamento onde ele mora, atualmente, sempre há necessidade de minha presença. Então, não posso ter outros compromissos.
— Ah! Logo ele se forma, não é?
— Então, inclusive, está noivo, pensando em se casar brevemente!
Assim que se formar.
Márcia não se conteve! Caiu num choro convulsivo, retirando-se da sala.
Suzana, sem demonstrar qualquer sentimento, disse à Clarisse que estranhava essa reação da Márcia, alegando que o namoro deles fora entusiasmo de jovens, nunca podendo ter sido levado como coisa séria. Lá em São Paulo, numa cidade grande, com pessoas de outro nível, não foi difícil seu filho encontrar uma boa moça, filha de um grande empresário, bonita, e que, também, como ele, teria o título de médica. Seu futuro estava garantido.
De fora, Márcia ouvira tudo.
Clarisse, então, levantou-se, recusando o convite para o café oferecido por Suzana. Despediu-se friamente, juntando-se a Márcia que já a aguardava no terraço.
Daí para frente, Márcia recuperou suas forças, saiu de seu estado depressivo, voltando a lecionar.
E, seu amor, se transformou em ódio!

                                                    IV

O famoso buffet paulistano estava em polvorosa! Pudera! Duas grandes festas estavam programadas! Um movimento intenso de chegada de carros, os mais possantes e luxuosos possíveis. Centenas e centenas de convidados entrando.
Naquela noite, num dos salões, festejava-se o casamento da filha de um grande empresário, médica, com um rapaz do interior, seu colega de turma. Ela Maria Lúcia, ele Nivaldo.
No outro, também festa de casamento. A noiva do interior, professora, filha de um casal tradicional da cidade, e o noivo, homem muito rico, apesar de sua atividade não ser das mais louváveis. Banqueiro de bicho! Ela Márcia, ele Anísio.
Não é que os noivos e seus pais, coincidentemente, chegaram no mesmo momento! Grande foi a surpresa ao se verem! E, numa manobra infeliz, as limousines se chocaram.
Confusão armada, insultos de um lado, xingamentos de outro, um grande tumulto. Um tiro! Pânico!
Tudo o que Márcia e Clarisse engendraram havia dado certo!

                                                        V

No outro dia, o jornal da cidade interiorana anunciava o velório e o sepultamento de Suzana, em Boa Esperança do Sul.


                                                        0o0

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Terceiro Concurso do Blog - Texto 28: Quando a vida começa?

A vida começa aos quarenta.
Era essa a frase que ela sempre ouvia, quando tinha trinta e sete ou trinta e oito.
Como pensava não ter vivido tudo que gostaria ou que pensava ter direito de viver, aguardava ansiosa, a chegada dos quarenta.
Afinal, com a chegada dos quarenta, chegaria sua vida nova.
Renasceria para a vida ou a vida lhe renasceria.
Sempre com essa frase em mente, continuava com sua pacata e moribunda vida que, morreria aos trinta e nove, para renascer aos quarenta.
Chegou a tão esperada idade e nada. Não sentiu nenhuma mudança. Nada acontecia.
Tudo era igual. Nada de nada!
Passou por essa década esperando seu renascimento e nada de novo em sua vida.
Chegou aos quarenta e nove e, ouviu de novo que, com a menopausa, a vida começa aos cinquenta ...Mas, qual... nada de nada.
Mais uma década de desencanto e mesmice.
Finalmente chegou a terceira idade. Ah, a terceira idade.
A idade da libertação. Da aposentadoria. Dos direitos do ¨idoso¨.
Mas não era isso que ela queria. Ela queria algo mais.
Não queria apenas prioridade nas filas do banco, nos ônibus, nos cinemas...
Queria sentir-se viva. Queria estar viva.
Foi quando leu um anúncio, desses que tentam arrancar dinheiro dos aposentados, que ela pensou em fazer algo só dela, só para ela. No anúncio dizia:
”A vida começa aos sessenta. Faça suas malas e venha desfrutar da melhor idade conosco.”
Juntou suas economias, fez as malas e partiu em excursão para o sul do país.
Se nada de bom lhe acontecesse, pelo menos teria conhecido geograficamente um pouco mais do Brasil.
Serras Gaúchas; Comida boa. Vinhos finos. Músicas alegres.
Em uma das paradas do passeio da Maria Fumaça, ela avistou aquele homem, na plataforma, dando boas vindas aos turistas. De acordeom nos braços, sorriso nos lábios, voz forte e suave.
Apesar de ter aparência de argentino, cantava músicas típicas da Itália. Canções alegres ou nostálgicas.
Alto. Magro. Pele clara. Ombros largos. Entre um sorriso e outro, sentia que seus olhares se cruzavam.
O grupo à sua volta deixara de existir. Apenas ele. Sem nome. Sem identidade definida.
Ao se despedir, deu-lhe um beijo no rosto e, num aperto de mão, o homem lhe passara um papel amassado.
Sem jeito, segurou aquele papel e entrou na Maria Fumaça para o término do trajeto.
No papel amassado havia o nome de um hotel que ficava em frente ao que ela estava, escrito apenas: nove e meia.
A frase voltou-lhe à mente com a força de uma martelada: ¨A vida começa aos sessenta.”
Sua cabeça era um turbilhão de pensamentos. Vou? Não Vou?
Sem comentar com as senhoras que dividiam seu quarto, saiu às nove e meia, passando pelo saguão do hotel, de cabeça baixa.
O letreiro luminoso da frente, indicava o local do encontro.
Coração acelerado. Boca seca.
Ansiedade? Taquicardia? Hipertensão?
Na terceira idade, todos esses sintomas indicariam um infarto. No seu caso, não. Apenas indicava o desejo de viver.
Lá estava ele. Em pé, na porta do hotel. Muito mais bonito agora, sem o acordeom que lhe ocultava o peito jovem ainda.
Vinho. Flores. Cama perfumada.
Aquela voz a lhe dizer coisas que não ouvia há três décadas.
As horas corriam. Precisava voltar ao hotel, antes que começassem a sua procura. Afinal, na terceira idade os cuidados são redobrados. Perigos de quedas, A.V.C, infarto ou, sei lá, perda de memória ...Perda de memória. Pronto. Esse seria seu diagnóstico, caso alguém perguntasse, afinal não seria mentira.
Na manhã seguinte todos dentro do ônibus para a volta à rotina, à realidade.
Apenas ela trazia algo mais em sua bagagem. Além das lembrancinhas para os filhos e netos, trazia a bagagem transbordando a felicidade de uma noite de amor.
Sim. A vida pode começar aos sessenta. Retornou para casa com essa certeza.
A vida começa quando você decide começar.

sábado, 23 de maio de 2015

Terceiro Concurso do Blog - Texto 27: Uma noite como lembrança

Quando se conheceram, Lúcia tinha quatorze anos e Júlio dezoito. Ela era só uma menina e ele quase homem feito, com extensa lista de namoradas.  Ela ainda via os meninos de uma maneira meio desconfiada, mas com ele foi diferente. Talvez tenha sido o seu primeiro amigo do sexo oposto. Vizinhos de rua, logo começaram a conversar todo dia.
Júlio apaixonou-se quase que imediatamente. Chegou a falar em namoro com os pais da garota. Estava certo que com o tempo, ela   também o enxergaria como homem e eles se entenderiam. A felicidade   seria só uma questão de paciência.
Lúcia era uma menina inocente e insegura, oposto de sua irmã Isabel, mais velha dois anos e bastante atirada. Não demorou muito Júlio perceber um certo interesse da cunhada por sua pessoa. No início se fez de desentendido. Estava certo de seu amor por Lúcia, mas o assédio de Isabel o desconcertava. Lutava para manter-se fiel, pois tinha medo de gerar atritos na família e acabar perdendo a namorada.
Assim foi levando o namoro inocente por vários meses, sentindo-se   cada vez mais envolvido pelas artimanhas de Isabel. Seus amigos diziam não entender aquele romance com uma menina. Por que ele não namorava alguém da idade dele, ou pelo menos uma moça mais madura? Para que esperar por alguém que ainda não sabia o que querida da vida?  Mesmo sentindo estranha atração pela cunhada, sabia que por Lúcia nutria um amor maior que ele.
Tudo ao seu redor, até as músicas lembravam o jeito dela.  Contava as horas, os dias para o final de semana chegar logo e passearem juntos, tomar sorvete e irem ao cinema. Tudo na maior inocência, até os beijos eram de adolescentes.
Inesperadamente houve uma tarde em que um furacão passou por cima desse amor. Júlio não resistiu às investidas da tinhosa cunhada, que naquele dia estava sozinha em casa. Entre muitos beijos, abraços e mãos inquietas, ela confessou que não parava de pensar nele, que não aguentava esperar mais e estava louca de desejo. Sem pensar direito, subiram as escadas e foram para ao quarto. Apesar de jovens, ambos eram experientes e o inevitável aconteceu...
Atordoado pelo inusitado daquele momento de desejo incontido, ele sabia que não era aquilo que almejava para sua vida!  Naquela madrugada saiu caminhando pela rua, debaixo da chuva fina, como se a água   pudesse lavar seu corpo e sua alma.   Sentia na boca o beijo de Isabel, mas era um sabor amargo e cheio de dúvidas...
Nunca soube se ela contou à irmã, porém o namoro esfriou. Tempos depois Lúcia encantou-se por um outro rapaz. Júlio não   acreditou... Insistiu. Insegura como sempre, ela ficou sem saber o que fazer. Apesar da confusão bem comum na cabeça de uma jovem, ela decidiu algo inusitado que encheu o coração de Júlio de esperanças.
Disseram aos pais que acampariam com amigos, mas foram sozinhos passar o final de semana numa cabana a beira de um rio. Tiveram uma inesquecível noite de amor... Incrível a sensação de realizar algo tão aguardado, mas os dois sabiam que era o fim. Algo havia se quebrado de maneira irreparável.  Como se fechassem uma página da vida e abrissem outra. Ele esperou que ela mudasse de ideia, porém o tempo passou. Ela não voltou, só ele não a esqueceu. 
Júlio recebeu um convite de casamento e soube por uma amiga em comum da gravidez de Lúcia. Chorou, derramou lágrimas solitárias. Seu amor não era mais aquela menina inocente, se casaria, teria um filho e não era dele...
A dor foi minimizada pelos anos.  Restaram as lembranças dos bons momentos. A fantasia daquele amor adolescente e a certeza de que todo amor   vale a pena, mesmo quando só nos resta a saudade e uma   história para contar.

domingo, 19 de abril de 2015

Terceiro Concurso do Blog - Texto 13: Encontro

I
Todas as mesas estavam ocupadas. Muitas famílias em mesas com mais de dez cadeiras, comentando situações que eram, na maioria das vezes, motivo de muito riso.
Casais idosos, serenos, comendo em silêncio, como se estivessem sós.
Jovens, sentados juntos, usufruindo do momento, onde o que menos importava era o alimento colocado sobre a mesa. As carícias, os olhares ternos, alimentavam bem mais que aqueles pedaços de pizza, semiabandonados.
Garotinhos, já saciados, brincando de pega entre as mesas, com os filhos das diversas famílias que, antes daquele momento, nunca haviam se visto.
Os garçons, no melhor estilo italiano, repassavam aos berros os pedidos dos clientes a fim de melhor atendê-los...
—Mais um chope no capricho!
—Duas cocas zero, gelo e limão!
—Uma portuguesa gigante, sem cebola!
—Uma brotinho calabresa!
Acordei do torpor que toda aquela movimentação me envolvia, com o maitre perguntando:
—mesa para quantos? Senhor!
—Para um. Só para mim.
—Por gentileza, venha comigo. (Contornamos o salão e, indicando a porta de vidro, sem desfazer o sorriso de manequim, completou) — se o senhor fizer a gentileza de esperar dez minutos, pode aguardar nesta sala.
Eu não tinha absolutamente nada para fazer, nem a fome era tanta que me fizesse recusar a oferta. Entrei. O som vivo do salão ficou lá fora. No ambiente finamente decorado, com som ambiente digno do nome, várias poltronas cobertas com tecido nas cores da bandeira da Itália, dispostas em locais com indicativo de que, o ocupante deveria ser encaminhado às mesas para uma, duas, quatro, seis ou mais de seis pessoas. Nas mesinhas espalhadas, montes de revistas velhas que davam a impressão de estarmos em sala de espera de consultório médico.
Na categoria “solitário”, além de mim, apenas uma moça de aparência comum, sem nenhum detalhe que chamasse a atenção de alguém.
Na categoria “par” um casal jovem, abraçado, trocava carícias e beijos furtivos e um senhor, vestido com terno preto e gravata borboleta quadriculada, com uma garotinha de vestido estampado que falava pelos cotovelos e ao fim de cada frase, repetia o bordão — Né, vô?
Pouco tempo depois que eu entrei, o senhor levantou e disse para todos:
—Somos seis. Podemos sentar na mesma mesa como uma família, cada um faz seu pedido e paga sua parte. Que tal? Que é que vocês acham?
Antes que alguém dissesse algo, a lâmpada do bojo pintado com o número 6 acendeu. Concordamos todos e fomos para o salão, ao mesmo tempo em que oito pessoas entravam na sala de espera.
Depois de acomodados, com os cardápios em punho, o senhor falou.
—Mesmo sendo uma família temporária, devemos nos apresentar. Eu sou Armando, vivo “armando” pela vida, enquanto ela não “arma” nada contra mim. (E riu-se do trocadilho mal feito em tom de gracejo). Essa é Mirna, minha neta, companheira de farras de pizza às sextas-feiras.
Fechando o cardápio, o rapaz falou:
—Eu sou Olavo e Bete é minha noiva.
—Eu sou... (a moça e eu começamos a falar, e paramos, ao mesmo tempo)
Com um gesto de mão a moça me estimulou a falar.
—Não. Você primeiro, faço questão.
—Mas você também ia falar.
—É que eu pensei que a ordem das apresentações iria obedecer aos ponteiros do relógio...
—Então, fale.
—Não! Você primeiro, por favor.
—Adulto é tão complicado, né vô?
—Mirna! Que é isso?!
Rimos todos pela espontaneidade da garotinha. Dirigindo-se à Mirna, a moça disse:
—Eu me chamo Letícia. Você sabe o que significa o meu nome?
—Eu não, mas meu avô sabe, né vô?
E seu Armando não perdeu a oportunidade...
—É uma palavra de origem latina e significa Alegria. As pessoas que recebem esse nome, têm o dom de espalhar a alegria, o entusiasmo e o entendimento entre as pessoas por todos os lugares onde passa.
—Eu não disse que meu avô sabia, né vô?
O garçom chegou para anotar os pedidos. Sugeri um vinho para comemorarmos nosso encontro. Letícia e Armando aceitaram.
—Por favor uma pizza quatro queijos e um Chiantti suave. (para Letícia) você me acompanha na pizza? Ela respondeu com um gesto de cabeça fechando o cardápio (eu disse ao garçom) pizza grande.
—Seu Armando falou, uma pizza grande, meio portuguesa meio aliche, e suco de acerola para esta mocinha.
—A nossa é grande, meio frango meio calabresa. Em vez do copo de suco, por favor traga uma jarrinha. Disse Olavo, com um sorriso de cumplicidade para Mirna.
—Posso trazer o vinho agora, senhor?
—Sim, por favor.
Enquanto falávamos com o garçom, um batalhão de auxiliares colocava o antepasto em nossa frente.
—Eu gosto muito dessa azeitonona, né vô? (Disse Mirna com uma azeitona espetada no garfinho de dois dentes). Elas vêm do sul da Espanha, né vô?
—Com licença senhor!
O somelier entregou a taça a seu Armando (o mais idoso tem a prioridade e a competência para avaliar a pureza do vinho).
Num gesto teatral, seu Armando, aspirou o aroma adocicado, girou o líquido na taça de cristal, observou a textura contra a luz e deixou o pequeno gole do vinho repousar sobre a língua antes de engolir...
O desenrolar da cena foi acompanhado pelos cinco expectadores que, hipnotizados, observavam os gestos rituais da degustação. Com o rosto iluminado pela satisfação, seu Armando só pode dizer — Magnífico!
Brindamos à amizade, à alergia, ao amor...
II
Hoje faz três anos que nos encontramos naquela sala de espera da pizzaria. Éramos seis. Seu Armando e Mirna sua neta; Olavo e Bete, os noivos que casaram no fim do ano passado, numa festa belíssima onde seu Armando e a esposa foram padrinhos porque a amizade que começou naquela noite, continua até hoje.
Aquele jantar transcorreu com a harmonia que todos desejávamos. Tomamos três garrafas de vinho e tivemos que levar seu Armando e a neta em casa. Quando ficamos sós, ainda na calçada eu disse a Letícia.
—Eu queria que nunca mais nos separássemos. Eu estou apaixonado por você.
Letícia me olhou com a admiração de quem ouve uma notícia absurda.
—Como é que você pode dizer isso? Acabamos de nos conhecer!
—Você nunca ouviu falar em amor à primeira vista?
—Mas você não me conhece. Nem sabe quem sou, o que faço, se sou solteira, casada, viúva, se tenho filhos, se sou uma criminosa fugitiva ou uma assassina em potencial.
—Que importância tem isso agora. Para mim, você acabou de nascer. Não tem passado, só futuro e o seu futuro faz parte do meu, porque a partir de hoje eu não existirei sem você. Nem pense para responder... Você quer casar comigo?
—Você está me deixando mais tonta que o vinho. Ninguém decide a vida assim, de uma hora para outra.
—Mas nossas vidas já fazem parte uma da outra. Estamos unidos para sempre... Nosso encontro estava escrito nas estrelas...
Rimos os dois da cena insólita. Estávamos na frente da casa do seu Armando, ela sentada no banco do carona do meu carro, com os pés na calçada onde eu, ajoelhado, mantinha a sua mão direita entre as minhas em posição de súplica...
—Vai menina! Diz de uma vez que aceita. Não é isso que teu coração está mandando?
A voz de dona Margarida, vinda da silhueta projetada da janela aberta era como um coro de anjos.
—Está bem, seu louco, eu também estou apaixonada por você... Fui conquistada por seu olhar de cachorro pobre quando disse que achava que as apresentações deveriam seguir os ponteiros do relógio.
Rimos muito dessa observação e ficamos embevecidos na contemplação mútua, puxei-a para mim e, de pé, na rua deserta, trocamos o primeiro e mais ardente beijo de amor, sob os aplausos de dona Margarida.
Rimos naquela ocasião e ainda hoje, todas as vezes que lembramos da cena...
Quando terminar o expediente eu vou buscar o ramalhete de flores do campo que encomendei. Minha cesta de papel está cheia de rascunhos dos versos que tentei fazer durante todo dia.
Como é difícil versejar. Como eu gostaria de ter a facilidade, que tem o meu amigo poeta Paulo Moreno, para colocar em poucas palavras e dentro da métrica e rima, o imenso amor que sinto, mas que não sei dizer. Pensei até em ligar para ele para pegar umas dicas, mas assim os versos seriam dele, não meus e, não é justo mentir para a pessoa que tanto amo.
Finalmente, achei menos ruim, o soneto que fez temer os ossos de Olavo Bilac.
Li para seu Armando (que vai ser nosso padrinho de casamento, junto com a esposa que foi a minha fada madrinha, na cena da calçada). Ele achou uma maravilha, mas a generosidade dele é maior que o seu bom gosto e senso crítico. Preparei um cartão e imprimi com laser dourado...

L E T Í CI A

És o amor que sempre sonhei,
Em ti, se revela a mais pura alegria,
És Letícia, no nome e no ser,
És o melhor presente que ganhei.

Amei-te desde o primeiro instante,
Amei-te e amo, a cada dia mais,
Amor sublime que me satisfaz,
Que me transforma em eterno infante.

Quero viver contigo, cada dia,
Dividir, somando, a alegria
De saber que nunca haverá nostalgia.

Amar assim como eu te amo,
É ter a certeza constante
De que nunca estaremos distante.

Estou me sentindo como criança que vai viajar, não consigo pensar em outra coisa que não seja chegar com o ramalhete e entrega-lo à Letícia... Eu tenho a certeza de que ela acha que não estou lembrado da data. Perto da hora do almoço liguei para a casa de seu Armando, mas dona Margarida disse que eles não podem ir conosco para a pizzaria, porque têm outro compromisso... É uma pena...
—Letícia, minha filha, você já varreu essa sala duas vezes.
—É porque eu quero que fique tudo impecável.
—Pode ficar tranquila que seu noivo não vai reparar em nada. Ele só olha para você o tempo todo e você, fica com essa cara de boba todas as vezes que fala nele.
—Mas ele é lindo, não é mamãe? Eu o amo tanto. Desde que começamos a namorar, ele nunca disse ou fez qualquer coisa que pudesse me desgostar... Parece que adivinha meus pensamentos... Nós fomos feitos um para o outro. Apesar de estarmos sempre juntos, nunca deixamos de fazer o que gostamos.
—Mas você não tinha nada que ir se meter no jogo de bola que ele vai toda quarta-feira com os amigos.
—Foi ele quem me chamou.
—Mas não era para você ir. Isso é coisa de homem minha filha, e homem não gosta de se sentir preso, se sentir vigiado...
—Na semana seguinte, dois colegas dele levaram as namoradas e de uns tempos para cá, vamos todas nós.
—Eu vejo as condições da sua roupa quando volta do futebol feminino que vocês jogam.
—E não é melhor assim? As namoradas mantendo as amizades que eles cultivam desde a infância?
—No meu tempo não era assim...
—Mas agora as coisas estão diferentes.
—É. Eu vejo muito bem como são diferentes. Nem precisa me dizer...
—Hoje logo cedo, liguei para dona Margarida convidando para a comemoração, eles vão chegar cedo e vão trazer a neta. Meu bem vai ficar feliz quando chegar aqui e encontrar Mirna, seu Armando e dona Margarida. Eu não falei nada, mas tenho a certeza de que ele nem se lembra que hoje faz três anos que nosso namoro começou... Quando sai da repartição comprei o vinho Chiantti. Só falta ligar para a pizzaria para trazerem as pizzas quatro queijos, portuguesa, frango, calabresa  e aliche como naquela noite...
Vai ser uma grande surpresa para meu bem...