domingo, 21 de maio de 2017

O outro lado do rio

Existe coisa misteriosa neste mundão de Deus, existe sim. Muita história. Eu mesmo tenho uma para contar. Esta do reverso aconteceu de verdade, mas nem eu mesmo acredito mais.
Faz muito tempo e eu era muito criança. Ao contrário de agora, que vivo numa cidade grande, vivia num lugarzinho perdido lá no meio do Mato Grosso. Havia um rio caudaloso, bonito, forte, que para nós era o centro de tudo. Tinha uma curiosidade danada de saber o que havia do outro lado, apesar do medo que tinha de atravessar. Sempre que perguntava para meu pai, ele dizia que não era nem para pensar naquilo. O outro lado - e franzia a testa - era uma coisa cheia de mistério. Só um ou outro voltava e, quando voltava, era com a cabeça toda mexida, cheia de estranhamentos. Meu pai tinha esse jeito gozado de falar, que eu não sei onde ele aprendeu. Tinha uma pressa danada de acabar qualquer conversa sobre esse assunto. Terminava sempre com a frase “É o reverso do mundo aquilo lá. O outro lado é o reverso do mundo.” Eu não entendia o que era reverso, pelo menos naquela época e no sentido que meu pai dizia. Ele não gostava de falar daquilo. Não gostava, com certeza.
Eu e meu irmão mais novo, nós ficávamos com aquela curiosidade misturada de medo. Eu mais de curiosidade e meu irmão mais de medo. Ainda assim, um dia eu arrisquei. Mas não foi assim, de ímpeto, sem pensar. Que eu nunca fui assim. Sempre fui cheio de precaução, coisa que me custou muitas coisas nessa vida cheia de competição. Mas não estou aqui para reclamar, estou para contar e é o que eu vou fazer. Depois que decidi – a gente sabe quando não tem mais jeito, que a gente vai mesmo fazer – me enchi de cautelas e preparativos. A primeira foi convencer o pequeno Mário, meu irmãozinho, de que não devia contar nada para o papai. Expliquei que o mundo é assim, que todo mundo tem direito a certos segredos, não muitos, porque daí vira engodo, enganação. Não sei se foi minha lábia, ou se foi a esperança de ter outras aventuras comigo, mas ele concordou e ficou firme. Tive orgulho dele, apesar de saber que o que estava a fazer não era de muita correção, nem de muita prudência. Muita desgraça aconteceu nessas partes perdidas do mundo por se falhar nessa parte de nossos códigos de palavra. Mas, por outro lado, tem tanta gente tão certinha que acaba se dando mal do mesmo jeito, que achei que devia ir em frente.
Voltando aos meus preparativos, primeiro arrumei uma corda bem comprida lá na venda do seu Gonçalo. Ele estranhou quando juntei os trocados que tinha recebido de presente no meu aniversário e paguei à vista sem pôr tudo na caderneta. Ele sabia que o papai sempre punha as coisas “na conta”. Fiquei com medo que ele comentasse algo com mamãe quando ele viesse fazer compras. Mas isso não aconteceu. O uso da corda era uma coisa óbvia e inteligente. Eu ia amarrar o barco do meu lado. Sabia que a correnteza ia puxar a gente rio abaixo, e assim eu ia garantir que poderia voltar.  O Mário olhava admirado enquanto eu fazia os preparativos e queria muito ajudar. Eu dei algumas tarefas para ele, só para dizer, pois ele era muito pequeno e pouco sabia. Nem sequer sabia dos perigos daquele rio. Aquilo era irresponsabilidade minha. Mas não tinha jeito, quando a gente está com uma coisa na cabeça, não tem nada que faça a gente parar. Outra coisa que fiz, foi arrumar uma vara bem comprida, além dos remos. Alguma coisa que pudesse espetar no leito do rio numa emergência. Meu irmão só ficou um pouco assustado quando enrolei as pernas dele com um pano que arrumei no porão de casa. Expliquei que era para evitar picada de cobra. Não devia ter falado nada, pois não fazia muito tempo, um moleque da escola havia morrido envenenado por uma dessas malditas. Ficou meio assustado, mas queria mostrar que era corajoso como eu.
Medo da travessia eu não tinha. O que me deixava nervoso era o tal do “reverso” que meu pai falava. É gozado como certas palavras mexem com a gente, principalmente quando somos pequenos. Até hoje, sabendo já de todos os significados do tal vocábulo, ainda sinto uma coisinha lá dentro. Talvez papai só quisesse assustar a gente, quando franzia a testa para falar do reverso. Talvez fosse só superstição boba de quem vive no mato. Talvez fosse tudo verdade, e, daí, eu seria responsável pelas consequências do reverso, principalmente em relação ao caçula.
Deu um pouco de medo, que eu escondi, quando a gente atravessou para o outro lado. Eu não sabia o que assustava mais: se era a força do rio ou a escuridão das águas. Até hoje não sei. Não sei se é pior a força do destino levando a vida embora, a da gente e das pessoas que a gente ama, ou se a escuridão da noite sem estrelas. A escuridão da noite, até, não é tão difícil, é só arrumar uma luz e tudo se resolve. O que dá medo é a escuridão de algumas pessoas, por dentro, isso sim dá medo. Desculpe o meu divagar. Às veze penso se faço isso - fugir do assunto - porque é coisa de contador de histórias, ou se é porque não estou querendo enfrentar o miolo da conversa. Para ser mais direto e franco, para evitar o confronto com o reverso. Que palavra danada essa, reverso, até dá arrepio. E já estou divagando de novo.
Chegamos do outro lado com bastante dificuldade. Tinha que administrar o meu esforço de tal forma a não assustar meu irmãozinho, pois eu era tudo para ele. Meu pai também era, mas o Mário não sabia, pois meu pai era fechado e não tinha muito tempo nem jeito para conversa. Foi com muita luta que consegui agarrar um arbusto do outro lado e segurar o barco que as águas, furiosas, insistiam em levar. Rio caudaloso. Isso é coisa que dá medo. Agora que já estou bem mais velho, eu sei que há coisa mais perigosa. Até carro com velocidade no urbano de nossas vidas é mais ameaçador. Mas a impressão ficou. É uma espécie de metáfora. Aquela água forte, escura, querendo levar a gente embora. Eu não li em lugar nenhum, mas eu sei que isso é a representação do destino. Querendo levar a gente. A gente, um serzinho de nada, na correnteza absurda da vida. Por isso é que gosto de águas calmas, claras, transparentes. Que coisa, eu divagando de novo.
Amarrei o barco do outro lado, do lado reverso, com muitos nós. Ter certeza de que não seria levado embora. Já pensou a gente, sozinho, do outro lado, sem poder voltar? Papai sem saber de nada, sem saber onde procurar? Ou, sabendo, ter que enfrentar o reverso, para nos procurar? E ele viria, com certeza. Nós dois e minha mãe eram as únicas razões pelas quais ele enfrentaria o reverso. Tudo seguro e amarrado, peguei o facão, dei a mão para meu irmão e fomos entrando na mata. Foi daí que o Mário falou que tinha medo de que alguém cortasse a corda e nosso barquinho fosse embora. Pensei, que besteira, só mesmo uma criança para pensar uma coisa daquelas. Falei para ele que era bobagem, bem confiante. Mas depois pensei comigo mesmo que ele tinha uma certa razão. Fiquei com aquilo nos recônditos da consciência. Criança, às vezes, fala verdades mais poderosas que um adulto. Depois, ainda raciocinei, que aquilo - cortar as cordas - já seria algo pensado, premeditado, de inimigo declarado. Entretanto, o que me dava medo era outra coisa, assim, do outro mundo, essas que ninguém entende. Na verdade, estava pensando, mais uma vez,  no “reverso do mundo” de que meu pai tinha falado.
Fomos entrando mais e mais. Daí o pequenino fez outra observação que, inicialmente, me deixou assustado de novo. E se a gente não soubesse voltar? Respondi automaticamente que era só seguir o corte que estava fazendo na vegetação. Era a melhor indicação da rota, o que estávamos fazendo. Honestamente, porém, não tinha pensado nisso. Foi aí que comecei a cortar tudo com mais intensidade. Criança diz cada coisa. A gente devia ouvir mais esses pequeninos, posso lhe dizer. E fomos andando, andando, com aquele pavor de ser picado por uma víbora. Esse era o medo do irmãozinho. O meu era esse, mais o reverso. A essa altura, o “reverso” para mim era uma pessoa. Pior que isso... Nem gosto de falar, mas acho que não preciso, você já entendeu. Penso mesmo que era isso que papai pensava. Estava claro por que ele franzia a testa. Mas eu sabia que tinha de fazer aquilo, ou pelo menos agora eu sei. São aqueles momentos na vida em que você tem de enfrentar os seus medos.
E daí, eu tive medo de verdade. Vimos, entre as folhas, uma cabana. Paramos. Dava para ouvir o coração bater e a nossa respiração. E o que fazer, então? Ficamos ali, parados um bom tempo. Finalmente saiu da casa um homem. Seus cabelos não eram tão compridos, mas certamente estava na hora de cortá-los. Cabelos loiros, iguais ao de minha mãe. Aquilo não era coisa comum naquelas bandas. Assim, só conhecia minha mãe e agora, aquele homem. O Mário tinha saído com a mesma cor dela, acho que, até então era o único menino loiro que eu tinha visto. E agora conhecia também um homem loiro. De repente alguém o chamou lá de dentro e ele voltou. Houve uma conversa no interior da casa e depois, os dois saíram. E a mulher tinha cabelos negros como meu pai. A cabeça da gente é gozada mesmo. Eu mal sabia o que significava reverso e, ainda assim pensei, que aquilo era o reverso de meu pai e de minha mãe. Que besteira, mas não é assim o nosso pensar, cheio de idiotices brincando o tempo todo nos nossos miolos? Reverso. Que besteira.
Passou um tempo assim, eles falando animados lá fora da casa, e eu achei, na minha razão, que era hora e tempo e voltar. Era a sabedoria falando. Coisa óbvia. Mas quem disse que é a cabeça que manda? A curiosidade era grande demais. Ouvimos mais vozes. Eram de crianças. Não demorou para saírem dois garotos de dentro, um maior, outro bem menor. Tal qual nós dois. E, ainda mais estranho... Para você entender esse novo estranhamento, preciso explicar mais algumas coisas. Meu nome é Fernando e, ao contrário do meu irmão, tenho cabelos pretos, puxei ao papai. O pessoal até brincava que eu era o filho do pai e o Mário era o filho da mãe. Pois não é que o moleque pequeno, que tinha saído da casa - bem modesta – era moreno como eu e o maior era loiro como o pai dele e como a minha mãe e meu irmão? Minha cabeça estava girando. O reverso do reverso, do reverso. Olhei bem para me certificar. Estava ficando já meio assustado e o meu irmãozinho estava percebendo. Achei que era hora de ir embora. Não havia mais nada a fazer ali. Conversar com eles não podia, estava em sua propriedade. Conversar o quê? Sobre o reverso? Eles iriam achar que eu era um demente. A única coisa reversa que eles iriam notar era o meu moreno e o loiro do Mário. Estava certo, tinha de voltar e avisei para meu irmão que concordou muito rápido. Antes de sair, porém, ouvi o mais velho chamar o mais novo de Fernando. Para ele se apressar. O pequeno reclamou que ele estava sempre com pressa e o chamou de Mário. A essa altura parecia já minha imaginação funcionando, mas que ele chamou, chamou. Eu tinha certeza também, embora nunca tenha confirmado - isso é pura teoria - de que o homem se chamava Mário, pois Maria era o nome de minha mãe e a mulher se chamava Fernanda, pois Fernando era o nome de meu pai e é por isso que tenho esse nome.
Voltamos com muita pressa. Na minha cabeça rodopiavam aquelas imagens, aqueles nomes, tudo rodopiava. Meu irmão só estava com pressa, queria voltar. Ele não tinha percebido nada. Nem dava para discutir essas coisas com ele, pois ele jamais entenderia. Nunca entenderia o que era reverso. Qualquer dia eu vou falar com ele para ver se ele se lembra disso tudo. Claro que ele se lembra. Mas não do reverso. Essa parte vou ter de engolir sozinho. Nunca pude falar isso com papai por motivos óbvios. Talvez devesse ter falado depois de adulto, mas fiquei com medo de passar por idiota. Qualquer dia falo com o meu irmão loiro, o Mário, essas coisas, talvez. A parte do reverso, não. Vou ter de morrer com esse segredo.
Além do mais pode ter sido tudo imaginação. Quero dizer, a travessia, as pessoas, tudo isso existiu. A parte de um ser loiro, outro moreno, os nomes invertidos, isso, talvez. Na verdade, tenho certeza de que vi e ouvi bem. Mas você sabe, a cabeça da gente é perigosa, está sempre pregando peças. Além do mais, existem incríveis coincidências neste mundo, não existem? Talvez o reverso, de que meu pai falava, era outra coisa completamente diferente, alguma coisa que tivesse a ver com demônios. Demos escondidos na mata, do outro lado do rio, o lado que não era esse. Era o perigo da morte naquela floresta escura. O reverso, palavra incomum para nós, era só para assustar. O loiro e o moreno, os nomes trocados, tudo, apenas uma coincidência. Será que coincidir é coisa do demônio?
Reverso, que coisa estranha, como meu pai foi ter uma ideia dessas? Fiquei a vida inteira com isso na cabeça. Reverso. Nunca vou ter certeza. Pode ter sido, pode não ter sido. Quase tudo é assim, no final. O que manda, mesmo, é nosso pensamento. Às vezes a gente pensa o reverso do que quer pensar. Mas eu não quero falar mais em reverso. Pelo menos, não por enquanto.
Autor:
Flávio Cruz - Flórida/EUA

sábado, 20 de maio de 2017

Breve: Gandavos - A Alegria de Contar



Contar histórias talvez seja a principal característica da espécie humana que, se utilizando da palavra falada, escrita ou desenhada transmite de uma geração para a outra as ideias de convívio social, os conhecimentos acumulados e os sonhos do porvir. O costume de contar e de ouvir histórias é tão arraigado em nossa espécie que não se tem notícia de nenhuma cultura onde esse costume não tenha existido porque é assim que se difunde a história, a cultura, a religião e a identidade do povo. Desde sempre os griôs, os menestréis, os poetas contam em sagas e poemas épicos as conquistas e as lutas cheias de bravuras dos heróis nacionais, os mitos, as lendas, as fábulas que se alimentam, e alimentam o imaginário como guias de comportamento social ou religioso através do conto que é, em síntese, a crônica da vida real romanceada e livre das amarras sociais pela impessoalidade de seus personagens. Sófocles, Shakespeare, Homero, Camões, Cervantes, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Ariano Suassuna, Zé Condé, José de Alencar, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Mário Sette, Carneiro Vilela, Dostoievski, Tolstoi, os irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm), Boccaccio, La Fontaine, Esopo... É imensa a galeria dos contadores de causos, e a ela se junta, GANDAVOS, em sua sétima edição, fruto do sonho realizador de Carlos A. Lopes, um idealista, um contador de causos que, diferente dos citados, está vivo e disposto a continuar contando esses e outros causos.

(texto da contracapa do livro)

Autor: Alberto Vasconcelos - Santo André/SP


Na arte de escrever a simplicidade agrada

Professor Ronan Tales de Oliveira

Um texto não é fruto do esforço, mas do merecimento. Quem utiliza com naturalidade o discernimento e a seleção, agrada. As palavras gostam de serem reconhecidas e colocadas em seus devidos lugares. O texto é filho da razão e da dimensão de nossa fé. A razão e a fé são duas asas que nos levam ao conhecimento, de forma racional e espiritual.
Confúcio disse: “Envolve-me que eu aprendo, e aprendendo posso escrever”. Deste modo, a afetividade é capaz de persuadir sem palavras e triunfar sem glórias. Em relação ao ofício de escrever, aprender, sentir, é mais interessante do que aprender a pensar. O sentimento é harmônico, porque é social. Enquanto que o pensamento se manifesta no equilíbrio pessoal. Ambos são necessários no ofício de escrever e representam o verso e o reverso de uma mesma moeda. Cada um se apresenta conforme a tonalidade do contexto.
O escritor é o partejador do espírito à espera do nascimento de uma ideia original. Pronta para repousar suavemente nas linhas de nosso texto.
Parafraseando Graciliano Ramos, aprendemos que: Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras da Biquinha fazem o seu ofício, cantando elas conseguem executar alegremente o seu trabalho, limpo, brilhante e transparente. Deste modo, quem escreve deve tomar o cuidado para a escrita não sair molhada. Na página escrita não deve pingar nenhuma palavra a não ser as desnecessárias. Deste modo o texto fica enxuto e agrada.
Somente o tempo pode nos ensinar a colocação certa das palavras. Aprendendo o ofício digitamos textos, escrevemos livros e ajudamos a fazer história. O ofício de escrever nos recomenda que é preciso esquecer para poder lembrar outra vez. Isto porquê a sabedoria mora no esquecimento.
Na arte de escrever, mais importante do que estar vivo, é poder renascer. As palavras renascem todos os dias em nossa mente, quando exercitamos nossa memória com o propósito gracioso de nos servir. O escritor cuidadoso procura escrever palavras de ternura e pensamentos humanistas, com a absoluta ausência de superficialidade.
O escritor, na arte de seu ofício, é por definição, um ser inquieto e angustiado, na busca incansável de uma ideia harmoniosa que possa lhe presentear uma definição mais abrangente da realidade da qual ele se encontra inserido.
Escrevendo o cotidiano, percebemos que a amizade é um amor que nunca morre. A saudade tem o poder de fazer as coisas pararem no tempo, e o passado não reconhecer o seu lugar, porque se encontra sempre presente em nossa vida. Em relação ao amor, percebemos que ele se entrega facilmente, porquê desconhece o temor. Neste contexto a vida não é uma pergunta a ser respondida, mas um mistério que deve ser vivenciado, todos os dias.
Neste pequeno ensaio literário, procuro conduzir as palavras a se colocarem de forma ordenada nas linhas de nosso texto. As palavras são como a chuva, sedentas para repousar na terra seus pingos d’água, na forma de conhecimento. Tanto as palavras quanto a chuva, são portadoras de bons frutos, nos surpreendendo com o frescor de sua doce presença. Desta forma, percebemos que o nosso intelecto, quando escrevemos, é mensurável, mas o sentimento não.
É sempre bom ensaiar escrever alguma coisa, porquê guardamos em nossa algibeira algumas boas palavras para os momentos oportunos. Nada é mais encantador do que poder oferecer, uma meia dúzia de palavras, uma frase, um conceito. É com cortesia que eu ofereço um texto às pessoas que gostam de ler. Já dizia o poeta das flores: “espera-se o perfume e a semente, a beleza nem tanto”. Das palavras espera-se a cortesia e a estima, a perfeição nem tanto.
A perfeição mora distante, por que ela é fruto da gratuidade de Deus a nós revelada. Só posso escrever o que eu sou, nada mais. A autoridade das palavras está inserida em sua originalidade. As palavras não mudam o passado, mas em sua originalidade ela possui o poder de melhorar o futuro.
Concluindo, as palavras bem escritas, tem o poder de vislumbrar um mundo diferente deste que nos é apresentado. Escrevendo, podemos oferecer o nosso melhor. Do escritor não se espera muita ambição, mas com certeza, muita emoção. O que ele possui em abundância, lhe foi dado de graça, por isto ele pode oferecer também de graça.
A arte de escrever é filha da vontade e do desejo. A vontade nos mantém à espera de uma boa ideia o desejo nos torna criativos e cheios de esperança. O saber exige de nós vontade, desejo e espera.
O crédito do escritor, consiste em não desistir da busca de uma ideia brilhante. Capaz de mover o céu e a terra, realizar sonhos, manter-nos vivos, aquecendo os nossos corações.

Autor: Professor Ronan Tales de Oliveira - Bom Despacho/MG

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Desejo













Autora: 
Elizabeth Vargas Marcondes

Entre mil sóis o calor de um...
Abraço estreito que cala alma,
Acalma!

Me dá a calma de que preciso
No momento impreciso do amor
Que se fez na primavera...
Percorreu décadas outonais.
Viu flores e espinhos...
Espalhados no quintal da vida.

Desejo!...
O frio de todos os invernos...
Que se fora e hão de vir,
Na sonata de dois corações 
Que desejam os mesmos acordes
Da mais bela canção que a vida fez!

Desejo!...
A profusão de corpos que esperam
Na ânsia deste querer. 
E o tempo sabedor de nós...
Apesar dos Nós...
Nos presenteou.

Desejo, apenas desejo 
A troca dos olhares ...
...Que ainda não trocamos
Mas que embevecida espero...
No afago das mãos
No beijo molhado...
O cuidado de nada perder.

Autora: Elizabeth Vargas Marcondes - Londrina/PR

quinta-feira, 4 de maio de 2017

A Luz da Encruzilhada

Autora: Marina Alves

                Juvêncio olhou o relógio e com certo desagrado viu que já passavam das três da madrugada. A conversa ao redor da fogueira estava animada e dava vontade de romper o dia ali, junto com os companheiros, bebendo aguardente e contando casos.
                Era Noite de São João e os festejos da fazenda do compadre Onofre já eram um costume que ninguém podia perder. Era uma ocasião muito esperada em que todos ali das redondezas se juntavam para apreciar um quentão, cair no arrasta-pé e prosear a noite inteira!
                Apesar da vontade de ficar, Juvêncio precisava ir. A lida na roça e no curral era pesada e ele tinha que estar bem disposto, do contrário não daria conta das tarefas diárias. O fazendeiro se despediu, pegou o chapéu, desatrelou o cavalo no mourão da porteira e tomou o rumo da estrada.
                O animal ia a trote lento. A lua clara no céu derramava sua brancura sobre os pastos. Naquele silêncio noturno, apenas o barulho de algum bicho na capoeira ou no mato rasteiro quebrava a monotonia da paisagem.
                Juvêncio tinha pela frente pelo menos uma légua e meia de caminho até a sede de sua fazenda. E na solidão daquelas chapadas, o homem não teve como evitar. Ia lembrando o último caso que contavam quando saíra: A Luz da Encruzilhada. Para o povo dos arredores, as estórias daquela estranha aparição eram as preferidas.
                Muitos eram os que contavam já terem sido vítimas daquela visão fantasmagórica que, em forma de bola de fogo, assustava e perseguia os viajantes de passagem pelas imediações da encruzilhada.
                Naquela noite, o Chico da Inhana é quem tinha contado sobre a assombração. Dissera ele que um primo já passara maus momentos sob os horrores da macabra aparição da estrada. Tinha sido coisa para nunca mais se esquecer e o pobre coitado nunca mais fora o mesmo! Depois daquela fatalidade ficara meio leso.
                Dizia-se sobre a tal luz que tudo começara quando um médico saíra para atender um paciente que morava numa fazenda das redondezas. Na volta, devido aos muitos buracos provocados pela recente chuvarada e à densa neblina que cobria a estrada, ele perdera a direção do veículo.
                Foi ali, próximo à encruzilhada, que tudo aconteceu. O carro desgovernado derrapou no cascalho solto, rodou várias vezes e por fim bateu violentamente contra um barranco. Tinha sido um acidente terrível que deixaria abalada por muito tempo a cidade de Barra Bonita, pois o médico era gente de muita estima entre o povo do lugar.
                Assim que se deu a colisão, apesar dos traumas sofridos, o homem ainda permanecera vivo, preso às ferragens, mas perdia muito sangue e precisava de socorro. Porém, àquelas horas mortas, naquele lugar completamente ermo, não contaria com uma só vivalma que pudesse acudi-lo. E foi assim que, depois de agonizar por um bom tempo, ele morreu.
                Desde então, conta-se que no momento em que se deu o choque do veículo, um dos faróis refletiu uma luz no barranco que nunca mais se apagou. Ficou por ali perambulando feito alma penada como se quisesse lembrar para sempre a noite daquela tragédia. O farol, na forma de uma esfera luminosa, frequentemente começou a aparecer naquele local e a tirar com seu brilho fatídico o sossego de quem tivesse que passar por ali.
                Juvêncio, porém, não acreditava nem um pouco naquelas estórias estapafúrdias contadas pelo povo! Para ele, tudo não passava de pura invenção de algum amalucado que, ao dar com a chama de algum balão ou a lanterna de algum pescador, saíra contando aquelas lorotas que acabaram por correr mundo e ganhar fama.
                O vaqueiro nunca fora homem de cismar com assombração. Tanto que, naquela noite, ao redor da fogueira, fizera pouco do que contava o companheiro:
                — Pra mim, Chico, essa coisa de bola de fogo é coisa de quem não tem o que falar. Pura conversa fiada!
O outro, no entanto, o olhava com ares de censura:
— Cuidado, Juvêncio! Te prepara que a endiabrada não é de tolerar abuso!
— Pois, tô é pagando pra ver. Passo naqueles caminhos há anos e nunca vi nada de esquisito por lá.
Agora, ali sozinho na estrada, o homem ria consigo mesmo. O que acabava com o povo era aquela ignorância. Onde já se viu fantasma em forma de bola? Era só o que faltava... Se existisse mesmo a tal visão, que viesse então, ele queria era enfrentá-la de vez!
Perdido nos próprios pensamentos, o homem nem reparou que se aproximava da afamada encruzilhada da assombração. Só deu acordo de si quando sentiu que o cavalo estava ficando meio esquisito, de orelha em pé e pisando duro. Uai, estranhou ele, que novidade era aquela agora?
Juvêncio curvou-se sobre o dorso do animal e alisou-lhe o pescoço, tentando descobrir o que se dava. Chegou a pensar que tivesse sido picado por algum bicho peçonhento. Mas viu que o caso era muito mais sério. O alazão soltou um relincho estridente que ecoou pelo mato e, feito flecha, disparou pela estrada deixando atrás de si uma nuvem de poeira.
Em seguida, tudo se deu na velocidade de um raio. Surgindo por detrás da copa de um enorme jequitibá, ela veio com todo o seu resplendor. Perplexo diante da miragem, Juvêncio se negava a crer no que via. Era surpreendentemente brilhante a bola de fogo que ora parava, ora girava no ar.
Não havia do que duvidar! O fantasma estava ali para desafiar a zombaria que sofrera do fazendeiro, ainda há pouco, junto à fogueira. O homem sentiu que seu corpo tremia de forma incontrolável. Tentou manter-se firme na sela, agarrou com força o cabresto e fincou os pés nos flancos do animal que parecia nem encostar os cascos no chão.
Como num cenário de terror, a luz partiu com toda a sua fúria no encalço da vítima. Com seu efeito hipnotizante ela rodopiava sobre a cabeça do fazendeiro e, por mais que o cavalo corresse, o diabólico facho flamejante parecia ser muito mais veloz. Ficou assim, por um longo trecho do caminho, naquele vaivém. Indo e voltando, dançando e mergulhando no ar como se quisesse enlouquecer o cavaleiro.
O clarão sinistro espalhado pelo mato do pasto parecia sugerir que ali haveria um grande incêndio a qualquer momento. Porém o facho despendia um fogo incrivelmente gelado que penetrava fundo nos ossos de Juvêncio e o fazia tremer por inteiro. Será que aquela tortura não se acabaria mais? Ele já não suportava o vento que lhe cortava a pele, nem os lampejos faiscantes que lhe cegavam os olhos cada vez que a esfera chamejante descia sobre ele.
Quando se aproximava do rio que cortava a estrada logo abaixo, o homem entrou em pânico. Será que o cavalo conseguiria atravessá-lo na carreira desabalada em que estava? Temeu que ele perdesse o equilíbrio das pernas, mas nada havia a ser feito. Jamais conseguiria contê-lo no embalo em que vinha. O jeito era clamar por Deus e esperar para ver no que ia dar! Então, fechou os olhos e entregou-se à própria sorte.
Quando deu por si, Juvêncio já estava na outra margem do rio. Estirado no capinzal, ele viu tudo rodar a sua volta. Estava todo encharcado e a cabeça sangrava por um profundo corte na testa. O que acontecera? Atordoado, ele não se lembrava de nada.
Ainda tonto, arrastou-se pelo mato e chegou até ao barranco. Lá embaixo, as águas corriam tranquilas. De repente, viu um brilho intenso refletir-se na correnteza. Aquele clarão ondulando ao movimento das águas provocou-lhe uma vertigem. O que seria aquilo?! Apenas a luz da lua no céu ou o fogaréu da bola sinistra querendo lhe pregar uma peça?
Juvêncio já não tinha certeza de mais nada!  Não sabia se tinha mesmo encontrado o facho diabólico na estrada, ou se era a queda do cavalo que mexera com suas ideias. O certo é que, muito embora tenha procurado seu alazão por toda parte, nunca mais o encontrara.
Por via de suas dúvidas, o moço preferiu o silêncio sobre os acontecimentos daquela noite misteriosa. E nas rodas das fogueiras, quando o assunto pendia para o lado da Luz da Encruzilhada, ele disfarçava, tomava ares de quem não estava nem um pouco interessado naqueles casos e ia beber mais uma aguardente em algum canto!

Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

Página da autora:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=64920

Publicação autorizada pela autora