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sábado, 5 de dezembro de 2015

A Quinzena do Autor: Bárbara Sanco

Autora: Bárbara Sanco

Bárbara Sanco nasceu em 1973, em Porto Alegre/RS. Filha mais velha de três irmãos, aos nove anos de idade escreveu seu primeiro poema. Desde então, em suas horas vagas, dedicou-se a compor prosa e poesia. Hoje estuda Letras. Adora ler, mas gosta mais ainda de escrever. Saiba mais em www.barbarasanco.com.br
Ponto de Vista

Ligia olha para o relógio. São quinze para as três. Faz mais de uma hora que ela está na sala de espera. Já folheou todas as revistas velhas e resistiu a sua mania de organização e não as colocou em ordem cronológica ou separou em pilhas de Mire e Faces. Deixou que a bagunça olhasse pra ela provocativa e não fez nada.

O ventilador de teto fazia um som cadenciado ao balançar aquela cordinha metálica, resultado da união de pequenas contas, mas não conseguia espantar o calor.

A TV ligada sem som não entretinha ninguém e a poltrona parecia mais desconfortável a cada cinco minutos.

Ligia pensa em tudo que poderia estar fazendo. Quanto tempo perdido esperando, cansando de esperar, enquanto a roupa em casa aguardava para ser passada e a lista do supermercado que jazia sufocada na bolsa teria que ser ressuscitada mais tarde.

Que bom seria ter a capacidade de dormir sentada como as duas senhoras do sofá em frente. Mas, no momento, nem isso.

De repente lhe visitam pensamentos inúteis; daqueles que a gente não sabe o que fazer com eles e dos quais queremos nos livrar logo, mas que grudam feito chiclete.

Ideias como as do tipo e se...
E se eu não tivesse escolhido esse emprego?
E se eu tivesse feito aquela viagem?
E se eu tivesse me casado com outro namorado?
Enfim uma tortura viciante.

Ligia olha pela janela, tentando fugir antes de encontrar o Minotauro deste labirinto. Do décimo quinto andar e sem muitas barreiras ela vê boa parte do bairro e alguns dos prédios do centro. Construções conhecidas, frequentadas, a igreja de Santo Expedito, o supermercado, a padaria, duas farmácias e a ponta do posto de combustíveis, carros e pessoas apressadas, certamente fazendo ou indo fazer alguma coisa e ela ali parada.

Que tédio!

Na verdade, Ligia sente até certa culpa pelo ócio. Desde que tem consciência de si mesma ela sempre buscou ocupar-se de alguma coisa. Um hábito familiar assimilado junto com valores que ela só passou a questionar depois do divórcio.

Ah o divórcio! Vinte e sete anos de casamento e agora o fantasma do divórcio materializou-se e senta com ela para jantar.

E o "e se" ressurge vestido de "se ao menos".

E se ao menos eu tivesse tido filhos?!

O sino de vento da porta da rua soa e entra mais uma mulher de peruca, seu perfume chega antes e dá náuseas de tão doce.

Ligia vai ao banheiro, molha o rosto, olha o relógio de novo e pensa e ir embora, mas terá que remarcar o horário e voltar outro dia e então passar por um segundo calvário de espera. Melhor ficar e fazer que este não seja em vão.

Bons pensamentos, bons pensamentos, coisas alegres. Droga, onde vocês estão??? Ligia tenta lembrar alguma piada. Bom, tem aquela do papagaio, a do corno, a do advogado... Não advogado não, advogado lembra divórcio. Como é difícil esquivar-se da própria mente.

Para mudar o foco Ligia olha para os sapatos. Eles estão apertando um pouco. Ela tenta lembrar porque insiste em comprar sapatos um número a menos. Será um castigo inconsciente? Nossa, essa espera está me enlouquecendo!

Ela mexe na bolsa, olha os exames novamente e resolve rezar para ter boas novas, afinal já se passou bastante tempo desde a última quimioterapia.

A secretária chama seu nome. Ligia pega a bolsa e levanta entre aliviada e apreensiva afinal dependendo da notícia esperar pode não ter sido tão ruim.

Segundo conto:

Olhar Corretor

Eu sempre vivi à sombra daquele olhar, daquelas mãos consertadoras de gravatas desalinhadas, salvadora de quadros tortos e pescadora de fiapos em lapelas.

Nenhuma naturalidade inadequada conseguia escapar.

Ela sempre foi implacável.

Ao passear pela casa, passos firmes e elegantes em saltos anabela minha mãe ia, braços polvo a organizar tudo, limpando pós invisíveis, lustrando móveis e panelas reluzentes, aplicando doses diárias, contínuas, ininterruptas, insuportáveis de perfeição ao nosso caos, ao que víamos meu irmão e eu, na rua, enfiados em alvas camisas de uniforme colegial.

Nossas golas engomadas e nossas calças bem frisadas testemunharam o verde-oliva e os tanques esmagando a terra e as consciências.

Existiam palavras proibidas, comportamentos que mesmo não havendo exígua lei que os impedisse eram severamente condenados.

As punições não ensaiavam proporções e a morte ou o desaparecimento de alguém era o tipo de notícia que não vendia jornal.

Mas tudo muda o tempo todo como diz a música do Lulu.

Meu irmão mora no estrangeiro e eu já tenho netos, que como eu só veem tanques nas ruas apenas uma vez por ano.

É proibido proibir.

As leis pegam ou não.

E os jornais estão cheios de mortos e desaparecidos.

Não uso colarinho, gravata ou lapela, a casa em que cresci foi vendida e minha mãe que agora gosta apenas de pantufas, veio morar comigo.

Em meu apartamento de viúvo nós sentamos lado a lado no sofá e damos as mãos para olhar a novela das seis, e enquanto ela vibra com a mocinha ou xinga o vilão eu tento não me incomodar com o pó sobre minhas desordenadas pilhas de livros.

Finjo não ver o amarelo das cortinas e disfarçar a imensa saudade do paraíso que ela criava com seu olhar corretor.
Acrisolando
Eu os vejo caminhando
Passos largos ou curtos
Mas sempre caminhantes
E eu aqui
Teclando a mesma nota solitária
É uma nota que poderia ser tudo
Qualquer música
Ela sonha ser uma trilha sonora
Mas é uma notinha boba
Que eu teclo com um único dedo que se mexe
Ela e os silêncios que a cercam
Formam um concerto
Quem disse que um só som
Não pode contar uma história
Meu único dedo, minha única nota
São perseverança
Todos os meus silêncios
São as reticências
São as entrelinhas
E minha imaginação confusa
Que às vezes prefere ficar muda

Na última maré
De repente surge uma imensa vontade de dançar
e o papel não aceita tudo
permanece mudo aos meus convites
e enquanto a música me move em gestos coordenados
tento soltar e gravar o que sinto
para que as palavras possam esboçar
o quê do quanto
O corpo persegue as notas
como se fosse pulmões em busca de ar
A dança mergulha na música
O corpo responde
e fico em sentindo as ondas
da energia
se propaga de mim para o papel
até que um poema nasce
na última maré.

Minicontos:

Sede
 

No deserto ela pensava.

Esse é o castigo por meus banhos demorados.

Homônimas
 

Na lista de chamada uma só pessoa,
mas eram duas as Biancas de mesmo sobrenome.

Sentaram lado a lado inconscientes de suas partes gêmeas.

Foi na apresentação pessoal que se deu a revelação da coincidência.

Vinte e cinco anos, sem que uma soubesse da outra,
fez de uma economista e de outra artista plástica.

As encarnações de duas versões humanas de um mesmo nome
estavam a um ombro de distância buscando naqueles bancos
o aprendizado sobre os mesmos mistérios.

Parece mais uma de minhas histórias inventadas,
mas a vida real gosta de competir no critério criatividade.

Hoje ela ganhou.

Eu estava lá.
Eu vi o assombro clonado dos olhares repletos de interrogações.
​Abraços cordiais,​


Bárbara Sanco
Escritora

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Uma lua gordinha - Autor: Bárbara A. sanco


É noite.
As crianças jogam bola à luz da lua
E de um lampião que deixa escorrer
um iluminar coado de amarelo
que definha dos galhos da figueira até o chão.
Rodrigo atira a bola para o alto
tentando recuperá-la ali adiante,
mas desta vez não deu.
Maneando a cabeça
ele pega a bola para guardar
no galpão do Seu Ernesto,
pois a gurizada tem de ir para casa
apesar do zero a zero a ninguém contentar.
Amanhã é dia de aula
e cedo a kombi branca vai buzinar
frente às casas.
Então ele se pega num suspiro profundo
quando fecha o portão.
Olha para o céu
e pede a São Jorge
ou a quem no céu mandar
para que se tenha logo
outra noite para rolar um futebol
debaixo de uma lua gordinha.


Bárbara A. Sanco - Porto Alegre/RS

http://barbarasanco.blogspot.com.br/
Publicação autorada pela autora

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Declaração do fim do Inverno - Autora: Bárbara A. Sanco


Ontem eu era poeira do tempo
A esperar que o vento me guiasse
Viajei sobre florestas e desertos
Fui tijolo e sinal de desleixo
Fui pedra, cristal, praia e pó
Foi quando acostumei-me a vida da ampulheta
A mesma rotina a deixar que os grãos contassem os segundos
Nessa época não havia mais esperança ou beleza
E o amor era apenas um sonho esquecido
Em alguma cama de almofadas vermelhas
Então você apareceu e nada mais fez sentido
As certezas fugiram de mim
Um coração adormecido voltou a pulsar sem controle
Denunciando a existência de vazios antes preenchidos por solidão
E surge a dor da espera e o medo da incerteza
E de mãos dadas com elas o desejo
Não há paraíso, não há proteção
Eu que era um ser de razão, forjado pela dor, aguardo nova identidade
Perdi a batalha de tentar acreditar em minhas verdades inventadas
Inicio nova jornada
Estão sendo jogadas tintas de aquarela
Em realidades de lógicas escritas com negro crayon
O amor muda tudo
E se ele existe então sua história aguarda por ser escrita
Por duas almas aproximadas por laços brancos de amizade primeira e pura
E agora lançadas a enfrentar a construção de seu próprio destino
Completamente incerto
E definitivamente irresistível
Mas talvez seja apenas a natureza a dizer
Maktub
E que venha então a Primavera


Bárbara A. Sanco - Porto Alegre/RS

http://barbarasanco.blogspot.com.br/
Publicação autorada pela autora


sábado, 8 de setembro de 2012

As vozes - Autora: Bárbara A. Sanco

Paulo nunca bateu bem da cabeça.
Pelo menos era isso que todos pensavam dele e não era por nada demais apesar
de ser um consenso.
A cada atitude um pouco fora de esquadro as pessoas comentavam: - Ele é meio
abilolado! e deixavam pra lá.
Paulo era mesmo um tanto esquisito. Ele separava o lixo orgânico do seco,
não traia a mulher, tratava bem a sogra, gostava de trabalhar, acompanhava
futebol sem entusiasmo e não gostava de cerveja, entre outras esquisitices.
A mais curiosa porém era falar sozinho.
Paulo era quem costumamos chamar de resmungão.
Não dava para entender nada do que ele dizia, mas ele vivia falando o que
pareciam ser pequenas frases, nessa língua do murmúrio.
Tirando isso era um cara normal. Adorava sextas e detestava segundas, dormia
só de cueca, deixava a toalha molhada sobre a cama, arrotava depois da
Coca-Cola e não gostava de fazer supermercado, enfim um homem comum.
Mas a partir daquela quinta-feira as coisas mudaram.
Ele saiu de casa no horário de sempre e chegou atrasado ao trabalho.
Inquirido do motivo pelo chefe contou perturbado que quase havia morrido
quando um caminhão de cebola por pouco não o havia atropelado.
Apesar das esquisitices de Paulo, o chefe e os colegas olharam a roupa
amarrotada, o suor nada habitual e lembrando-se da costumeira pontualidade
do abilolado acreditaram na história e deixaram pra lá.
Mas Paulo estava diferente, seus murmúrios agora eram frases audíveis em
dois tons de voz.
No começo ninguém, nem no trabalho, nem na família ou no grupo de amigos deu
muita importância para essa mudança de comportamento. Uns acharam que era
apenas mais uma das suas esquisitices, outros que era resultado passageiro
do trauma causado pelo quase atropelamento.
Infelizmente, com o tempo ninguém mais pode negar que aquela mania estava
incomodando.
Quando Paulo olhava futebol, cada voz torcia por um time e ninguém conseguia
prestar a atenção no jogo.
Quando a filha adolescente pedia para sair à noite uma voz respondia que
tudo bem e a outra mandava a filha perguntar para a mãe.
Era um horror!
No escritório da fábrica o problema não era tão sério porque Paulo
trabalhava há mais de vinte e cinco anos sozinho, revisando, organizando e
arquivando pilhas e pilhas de papéis, mas a família começou a temer que ele
perdesse o emprego quando as vozes começaram a tomar atitudes.
Uma voz sempre separava o lixo. A outra, só às vezes.
Uma voz era carinhosa com a esposa, a outra queria sexo hardcore.
Então a família levou Paulo, que aceitava e recusava, a médicos.
O primeiro diagnosticou esquizofrenia e a muito custo a mulher conseguiu
faze-lo aceitar o tratamento, mas sem nenhum sucesso.
Paulo acabou sendo afastado do trabalho, do que reclamou e deu graças a
Deus.
A família continuou o calvário na busca de um fim para as vozes e o levou a
inúmeros médicos, igrejas, templos, terreiras, casas espíritas e centros
holísticos. Apelaram para tudo até chegarem à falência, mas nada fazia as
vozes sumirem.
Aos poucos as pessoas foram se afastando. Primeiro os colegas de trabalho,
depois os poucos amigos e por fim a família.
A sogra achou por bem morar num asilo.
O irmão mais moço pegou todos seus pertences, uma mochila de roupas, uma
prancha de surf e vinte anos de mesada que Paulo lhe dava e foi tentar a
vida na Austrália.
A filha engravidou e foi morar com o namorado.
Restou a mulher que já muito cansada não notou que Paulo falava cada dia
menos.
Uma manhã Paulo encontrou um bilhete no lugar da mulher. Nele apenas uma
palavra: CHEGA, em letras grandes.
Ele achou bom e ruim.
Ficou mais meia hora na cama, depois se vestiu e foi caminhar, como de
costume.
E começou...
E se não fosse um caminhão de cebolas, fossem bananas ou frangos?
E se não fosse um caminhão?
E se eu não estivesse lá?
E se o meu nome não fosse Paulo, fosse João será que a história seria
diferente?
E caiu no riso.
Nem notou que as vozes agora não passavam de pensamentos e que nem eram tão
dissonantes assim.
 
Bárbara A. Sanco - Porto Alegre/RS

http://barbarasanco.blogspot.com.br/
Publicação autorizada através de e-mail de 07/09/2012