quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ventos de abril

Autora: Marina Alves

Pela janela aberta do quarto do hospital, olho a tarde que cai lentamente. Gosto desta hora crepuscular, quando retalhos de passado desfilam pelo meu pensamento, reavivando coisas já perdidas no cenário de outros tempos. Como num filme em preto e branco vejo-me saindo de casa para estudar na cidade, indo morar em casa de uma tia. Aos dezoito, me formando professora, começando a lecionar numa escolinha de zona rural, da Fazenda Santa Cruz, onde me hospedava durante a semana, só voltando pra casa nos finais de semana.

Aos vinte, conheci Marcelino: tinha ido à fazenda montar um projeto de engenharia de uma usina de produção de energia para Seu Quincas, meu patrão. Éramos jovens, cheios de sonhos e nos apaixonamos. Foi o tempo de nos conhecermos e dentro em pouco estávamos casados. Depois do casamento, nos mudamos para a cidade onde Marcelino residia e mantinha um escritório de engenharia.

Marcelino construiu para nós uma casa ampla e confortável e eu não podia reclamar da vida que levava. Tinha empregados, chofer para me levar às compras, uma boa conta bancária que podia gastar a meu modo. Às vezes, a rotina era tão previsivelmente tranquila, numa ordem tão sistemática, que eu chegava a duvidar de que tudo estivesse realmente bem.

Mas esteve... De certa forma, tudo esteve muito bem em minha vida até o dia em que, me sentido entediada, convenci Marcelino de que eu deveria voltar a trabalhar. Estava empolgada com a ideia: sempre gostei de lecionar, eu queria dar aulas para crianças carentes, me faria bem voltar a ser uma mulher ativa. Meu marido não se opôs, pelo contrário, me motivou de uma forma que me surpreendeu. Procurei um projeto social na periferia e ofereci meus serviços. Logo fui chamada para entrevista, dali já saindo designada para as aulas.

E, creio, nada teria mudado não fossem os dedos maliciosos do destino. Foi numa reunião de pais que conheci Edgar, pai de um dos meus alunos. E aquele homem, estava escrito, viria para mudar toda a minha vida. Edgar era viúvo, e o filho, na impetuosidade de seus sete anos, talvez por sentir a falta da mãe — morta quando ele nasceu —, se mostrava uma criança extremamente rebelde. Frequentemente, Edgar e eu precisávamos conversar sobre o menino, e foi assim que acabei por tornar-me confidente daquele que seria também o grande amor da minha vida. Aos poucos, fomos nos aproximando e nos apaixonando, e quando percebemos já não sabíamos mais viver um sem outro.

Numa tarde de domingo, tomada pela certeza do que eu queria para minha vida, contei tudo a Marcelino. Nesse mesmo dia lhe comuniquei que iria embora. Minha vontade de viver dignamente meu amor com Edgar era algo do qual eu não abriria mão. Na maturidade, eu, afinal, descobria o que era amar alguém de verdade. E para minha surpresa, ouvi o que jamais esperava: Marcelino confessou-me que também já não nutria por mim o amor dos primeiros anos.  Agora eu entendia seu empenho em me ver voltando ao trabalho: meu marido, já me queria mesmo buscando novos horizontes.

A vida com Edgar era muito diferente da que eu vivia com Marcelino. Não contava mais com as costumeiras regalias, pois de meu casamento eu nada quis levar. Tive que procurar trabalho remunerado, assumir responsabilidades de mãe, cuidar do meu novo lar. Mas aceitava tudo de bom grado, pois mais valia ter ao meu lado um homem que me fazia feliz como eu jamais imaginara. Agora, eu podia dizer que vivia realmente uma experiência de verdadeiro amor.

Por quanto tempo fui feliz com Edgar? Não sei dizer... Nos últimos meses, perdi a noção do tempo, e tudo é muito confuso. Já não sei há quanto estou neste quarto. Só sei que o frio que entra pela janela é frio de abril, e eu o diria sem medo de errar, pois sei bem que quando tudo aconteceu, também era abril e fazia um frio como esse... Não me lembro de muita coisa, mas vagamente recordo o acidente: a pista molhada, o carro rodando várias vezes na estrada, o baque... A escuridão. Quando voltei do coma contaram do carro no fundo do abismo, do pai e do menino que não tinham sobrevivido. E era um milagre eu estar ali... Estar aqui nesta cama, onde estou agora...

Lá fora é noite cerrada. O pessoal do plantão se esqueceu de fechar a janela. Está tudo escuro, e apesar do remédio que me deram para dormir, mantenho meus olhos bem abertos. Estou à espera de Edgar. Sei que ele virá, trazido nesses ventos de abril... Eu já estou bem. Os médicos pensam que vão me dar alta em breve... Mas, estão enganados. Ontem à noite, recebi mais uma visita do meu amor, do meu grande amor, e ele me contou como devo fazer para encontrá-lo. Guardei atentamente tudo o que me disse. Mas isso é segredo, prometi a ele não contar nada a ninguém...


Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O Encontro surpreendente

Autor: João Batista Stabile - Marília/SP

Uma competente secretária estava a trabalhar na praça central de sua cidade, quando ouviu o nome de seu ex-namorado ser pronunciado por outras colegas de serviço, que trabalhavam na parte externa da firma, uma agência de venda de veículos novos e usados.
A secretária, senhorita Nathalia, uma personagem especial, aparência apaixonante, o corpinho de uma delicadeza incomum, dirige-se até a porta principal, que dá acesso ao salão nobre do prédio, e chama pelo moço que passava:
— Olá! Néviton, como tem passado?
Néviton interrompe os passos rápidos que dava, volta-se para o lado da mais encantada senhorita e tenta entender o que acontecia.
Ela complementa de modo mais delicado ainda:
— Olá! Como passa tão rápido! Até parece que está evitando encontrar alguém, ou não está querendo nos ver? Venha até aqui! Preciso falar com você, meu inesquecível amor.
Néviton, muito sorridente, demonstrava personalidade pressuposta de muita felicidade e que, às vezes, era irreal naquele momento. Tenta justificar, mas não consegue...
— Não, minha grande amiga, não tenho nada a esconder, pelo contrário, eu já estava me dirigindo até aí, para cumprimentá-la.
Direcionou-lhe a mão. Foi apertando lentamente a mão de Nathalia sobre o peito, e olhares apaixonados acompanhavam súbitos beijos e abraços. Foram rápidos, mas envolventes.
A saudade, as emoções, as palavras de um e do outro, os delírios satisfatórios do prazer de reverem-se, foram mais fortes e os retiveram por algumas horas ali na praça a conversar. Os dois se esqueceram de outros compromissos, que haviam assumido com outras criaturas, que se iniciavam fracos, desgastados sem perspectivas futuras.
Quando Néviton e Nathalia olham em direção ao pôr do sol, felizes e apaixonados, quase dezenove horas!... E a nobre funcionária, que deixara a sala onde trabalhava as dezesseis, ainda se encontrava no diálogo, onde o assunto não terminava. Foram surpreendidos e nem tiveram o direito de se defenderem do amigo, às vezes, natural da Região Norte do Continente Africano, de uma cidade paulista, de França, ou...
Néviton não era de grandes experiências, mas não deixou se levar pelas intenções improcedentes e o convidou a desfazer do absurdo propósito. E então lá se foram cada um para seu destino e Néviton ao encontro da mais dócil e linda menina, que conhecera na cidade e que assustada havia se retirado, em busca do seu destino.
Muito inquieta, tenta descobrir posteriormente o que havia acontecido, mas não obteve as informações desejadas do amigo sobre o desfecho e toma a liberdade de telefonar para Néviton, que também omitiu-se, para evitar outros aborrecimentos.
A separação do casal apaixonado, Néviton e Nathalia, não conseguiu apagar o amor que ardia em chamas naquele dia à tarde.
Muitas decisões que se tomam, se tornam erradas, às vezes de irreversíveis erros; muitos levam dez, vinte, trinta anos ou mais tentando explicar e não conseguem.
Hoje, de um segredo se pode ter certeza, Nathalia e Néviton são mortalmente apaixonados. Os compromissos de uma e do outro são exemplos de uma vida, onde o amor é permanente, enquanto a vida durar. Nem mesmo a separação física consegue apagar um amor verdadeiro, mesmo à distância. Ainda que o espaço maior do amor está para Deus e aos filhos que têm.

Autor: João Batista Stabile - Marília/SP

domingo, 7 de agosto de 2016

Entrevista: Maria Mineira

¨Escrever talvez seja tornar tangíveis os entrelaçados fios do pensamento. Daí, surge a necessidade de criar histórias e sentimentos em forma de letras. Contá-las é um modo de entreter e viver outras vidas, por meio de cada personagem. Há semelhanças em se tratando de escrita, mas a maneira de apresentar cada fato, muda de uma narrativa para outra, fazendo a diferença entre ser ou não ser lido. Com certeza, a literatura ainda é essencial para muitos, ou seja, um prazer sem explicações. É um universo onde se pode colocar vida e expressar opiniões¨.

Recebi o livro Ao Pé da Serra – Contos e Causos da Canastra, da escritora e amiga Maria Mineira. O lançamento do livro aconteceu no dia 16 de julho, na sua cidade natal São Roque de Minas/MG. Trata-se de um livro bem elaborado e bastante pensado, um livro maravilhoso. O que mais dizer sobre os seus 52 textos, divididos entre contos e causos? Trata-se de sementes que germinaram do próprio solo e da população da Serra da Canastra. Feliz daquele que consegue com o seu dom natural registrar a história da sua gente... e isso Maria Mineira conseguiu da melhor maneira, através da literatura. São histórias que guardam sempre uma reviravolta a cada final. Muitas delas cobertas de afeto e mistérios, com o tempero que remete a uma criança familiar a cada um de nós. Por conhecer o trabalho de Maria Mineira, posso afiançar que a autora está destinada a ser uma das melhores escritoras de uma nova safra, num espaço de tempo relativamente curto, pois consegue captar aquilo que há de mais interessante nos fatos cotidianos da vida das pessoas, sobretudo, da sua gente.

É uma honra publicar no Blog Gandavos, algumas fotos do lançamento do livro de Maria Mineira: ¨Ao Pé da Serra – Contos e Causos da Canastra.¨ A seguir, uma brilhante entrevista com a escritora.

Escritora Maria Mineira
São Roque de Minas/MG




Autografando no lançamento do livro

Marina Alves na cerimônia do lançamento do livro

Autora com as amigas Dona Naíme e Chiquita



Amigos e populares 







Sucinto perfil da autora:





Entrevista com Maria Mineira: Autora do livro: Ao Pé da Serra - contos e Causos da Canastra.

Pergunta 1- Quando e como surgiu seu interesse pela leitura e escrita?

Maria Mineira: Desde menina eu amava ouvir histórias, lidar com livros, mesmo antes de ser alfabetizada. Primeiro, tive contato com a coleção: "As mais Belas Histórias" de Lúcia Casasanta. Em cada página imaginava tudo, criava um mundo diante das ilustrações. Folheava revistas de fotonovelas da minha tia. Adorava a coleção do "Almanaque Fontoura" do meu avô. Quando entrei na escola, descobri Monteiro Lobato. Fui uma criança tímida e os livros sempre foram uma espécie de refúgio na minha vida. Apesar de ter tido notas boas nas redações que escrevia na escola, o interesse pela escrita surgiu muito tempo depois, como uma consequência do gosto pela leitura.

Pergunta 2 - Quais foram seus livros preferidos quando era criança e os livros favoritos atualmente?

Maria Mineira: Os livros de Monteiro Lobato, na infância. Na adolescência, Machado de Assis, Jorge Amado, Raquel de Queiroz, Érico Veríssimo, José Lins do Rego, Sidney Sheldon, José de Alencar. Na fase adulta eu gosto de Gabriel Garcia Marquez, Dostoievski, Rubem Alves, Eça de Queirós, Florbela Espanca, José Saramago, Clarice Lispector, Adélia Prado. Dedes sempre, em todas as fases: Guimarães Rosa.

Pergunta 3 - Quais escritores são suas fontes de inspiração?

Maria Mineira: Apesar de ter escritores que adoro, a minha maior influência foi o meio em que cresci, as histórias que ouvi dos avós quando criança.  Talvez um conjunto de tudo que vivi, ouvi e li. A minha maior influência é a vida. Estou sempre alerta e atenta a uma boa história.

Pergunta 4 - Segundo o escritor Rubem Fonseca, “a leitura, a palavra oral é extremamente polissêmica. Cada leitor lê de uma maneira diferente. Então cada um de nós recria o que está lendo, esta é a vantagem da leitura". É isso mesmo? Concorda com essa proposição?

Maria Mineira: O ato de ler alcança múltiplas dimensões e significados. Toda leitura apresenta-se como uma estrutura possível, aberta às inúmeras possibilidades de atribuição de sentidos.

Pergunta 5- Ainda segundo o Escritor Rubem Fonseca: “um escritor tem de ser louco, alfabetizado, imaginativo, motivado e paciente.” É o suficiente para ser um bom escritor?

Maria Mineira: Responderei estas com uma frase de Pablo Neruda: Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias. Para mim é assim e desse modo incentivo meus alunos a se embrenharem nos caminhos da escrita.

Pergunta 6 - Para qual público se destina sua criação?

Maria Mineira: Escrevo para adultos e crianças. Não acredito na fala de quem diz: Escrevo só para mim! Quem escreve gosta de ser lido. Penso que escrever é desnudar a sua alma para que todos possam julgar e afirmo que isso assusta um pouco. Eu escrevo porque muitas pessoas me afirmaram que gostam de ler os minhas histórias. Leio isso nos comentários e quando os leitores me dão esse tipo de feedback, eu me sinto feliz e aprendo com eles e me animo a continuar, pois escrever é transformador.

Pergunta 7- Como funciona o seu processo de criação? Quais sãos suas manias (ritual da escrita)?


Maria Mineira: Creio que não tenho nenhum. Às vezes, começo pelo final, outras vezes alguém me conta um fato que enche apenas algumas linhas e inventar um meio ou um final para isso me diverte muito.

Pergunta 8 - Em geral, os seus personagens são baseados em pessoas que você conhece, ou são ficcionais?

Maria Mineira: A maioria dos causos que escrevi são de personagens reais. Mudei apenas os nomes, mas tenho boa parcela de ficção também.

Pergunta 9- Você tem outra atividade, além de escrever?

Maria Mineira: Eu fui dona de casa a maior parte de minha vida. Faz apenas cinco anos que concluí a faculdade de Letras/ Literatura. Hoje em dia, sou professora de Redação do Sexto Ano ao Ensino Médio, de Artes e Literatura Brasileira no Ensino Médio. Em outro período sou bibliotecária e dou aulas de Contos para Ensino Fundamental 1.  Escrever ficou para as "horinhas de descuido".

Pergunta 10- Você faz parte das Coletâneas Gandavos. Qual a sensação de participar ao lado de escritores de várias regiões do país?

Maria Mineira: Uma grande honra estar ao lado de gente que sabe escrever bonito. Sem dúvida nenhuma, participar das Coletâneas Gandavos foi um divisor de águas na minha vida. Eu escrevia no Recanto das Letras, mas o que me fez realmente acreditar que eu podia publicar um livro em papel foi ver meu trabalho em uma coletânea Gandavos.

Pergunta 11 - O financiamento coletivo e a publicação independente têm se mostrado a opção das publicações Gandavos.  Quais são os pontos positivos e negativos desse tipo de publicação?

Maria Mineira: Não vejo pontos negativos, pois dividindo as despesas fica bom para todos e além disso,  um autor desconhecido tem oportunidade de apresentar seu trabalho a leitores de todo o país.

Pergunta 12 - Você acabou de publicar seu primeiro livro, qual a sensação de ver o seu primeiro livro publicado?

Maria Mineira: Foi  uma sensação  imensa de felicidade que  pude sentir na noite do lançamento, quando  mostrei  o livro a família e aos amigos. Eu vi no olhar de cada pessoa presente um grande apoio. Foi uma noite inesquecível!  É uma grande  emoção  ver seu sobrenome estampado na capa. Foi uma chuva de  lágrimas felizes,  então  compreendi que uma nova estrada  surgia  em minha vida.

Pergunta 13 - Como foi a receptividade do seu livro pelo público nesses primeiros dias?

Maria Mineira: Foi excelente! É uma alegria conversar com as pessoas, tanto crianças quanto adultos  e vê-las comentando sobre as histórias. Perguntando sobre os personagens, reconhecendo parentes nos causos.  Todo dia vendo livros, pela internet, em casa e alguns lugares que coloquei a venda aqui na minha cidade. É tudo muito gratificante!

Pergunta 14 - De que fala seu livro?

Maria Mineira: O livro fala essencialmente da vida, dos costumes e tradições do povo que viveu e ainda vive  na região da  Serra da Canastra. São 52 histórias,  entre contos e causos. Alguns escritos em linguagem formal, mas grande parte  deles  em linguagem coloquial, ou seja, o "Mineirês", a fala caipira, pois era assim que falavam meus antepassados. Desta maneira  fiz uma homenagem a eles.

Pergunta 15 - Qual mensagem você deixaria para autores iniciantes, com base em suas próprias experiências?

Maria Mineira: Gosto da resposta de Rubem Fonseca a esta pergunta:  “Gostar de ler e digitar palavras, seria suficiente para a pessoa se tornar um escritor"? Creio que o mais importante requisito e a motivação, pois se não tiver uma motivação forte, fará algumas tentativas  e logo desistirá. A escrita  está essencialmente ligada à  experiência de cada pessoa, à sua vida, desejos e seus sonhos. A escrita é uma grande aliada, pois através dos textos  compartilhados podemos levar alegria, esperança e tentar  tocar a alma do leitor.

Pergunta 16 - Com até 08 (oito) linhas digite o seu perfil?

Maria Mineira: Uma Maria, uma  mulher mineira, amante da vida, da Serra da Canastra, das cachoeiras, do canto dos pássaros, do cheiro do mato, do caminhar na chuva, da prosa-poesia de Guimarães Rosa.
Alguém que Acredita na  esperança, pois  tudo é possível quando vamos em busca dos sonhos. Acredito na leitura  como algo  libertador. Creio  na importância   da solidariedade, da família, do amor ao próximo.

Pergunta 17 - Como o leitor pode adquirir seu livro?
Maria Mineira: "Em julho de 2016 realizei um sonho ao lançar meu primeiro livro impresso: AO PÉ DA SERRA - CONTOS E CAUSOS DA CANASTRA".

Para adquirir um exemplar, entre em contato no e-mail: mariamineiracontato@gmail.com ou via mensagem in box em meu perfil no Facebook “ Maria Mineira”. O pagamento pode ser realizado por depósito bancário ou por cartão de crédito/boleto. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Percival

Michele Calliari Marchese

E então ela conheceu o Percival. Baixou os olhos para que ele não percebesse quanta admiração havia causado e não conseguiu entender nada do que ele lhe dissera naquele momento de apresentações. Baixou os olhos porque passaria a vida inteira olhando os dele, sem cansar; e também porque não poderia demonstrar – num olhar – o que lhe ia ao íntimo.
Seu coração não bateu descompassado como acontece com os namorados, bateu normalmente como se estivesse em casa preparando os filhos para a missa. Era como se o Percival fosse seu próprio coração, e assim sendo, não haveria o porquê de atrapalhar-se em suas batidas.
O tom da voz do Percival tinha o mesmo timbre da sua alma e ressentiu-se da sua vergonha em escutar o que ele lhe dissera naquele momento em que apertou a sua mão. Vigorosamente. Aquela mão forte, de homem trabalhador, tinha o mesmo toque da sua, quase não percebeu a diferença e confundiu-se por um instante, pois com o nervosismo poderia ter acontecido dela ter juntado suas mãos numa atitude de retração.
Pensou nele como uma metade do corpo pensa na outra, não há possibilidade de estarem separados, a não ser que estejam em corpos diferentes, e a esse pensamento suspirou que poderia ser amor ou poderia ser a coisa mais inexplicável que lhe acontecera em todos esses anos. Porém, sabia lá dentro do seu ser que nunca poderia ser. Não porque não podia, mas porque não precisaria.
O olhar do Percival mostrou que eles eram um. Brilhavam a luz dos homens fortes e íntegros, estavam úmidos como a mansidão do rio que corre à vida. E neles se via tudo, toda a vida com eles.
Mas em seu pensamento de mulher, aquele intenso segundo que conhecera o Percival, foi o suficiente para ter vivido com ele a vida inteira. Olhou para o marido que conversava com aquele homem e sabia que estava no lugar certo e com o homem certo. Era feliz e conhecera a felicidade nos olhos do Percival.
Quando encontrou o Percival pela segunda vez, havia passado alguns anos, e ele a abordara saindo da mercearia. Deu uns vinténs às crianças dela para que fossem comprar balas e falou naquela voz que ela conhecia desde sempre que ele estava apaixonado e sabia que ela também. Diante do silêncio que se fez no meio daqueles corpos que eram um, ele lhe disse que escreveria.
De olhos baixos ela nem se despediu. Não respondeu sequer com um suspiro àquelas perguntas que se detiveram na boca do Percival. Sabia que ele queria respostas ao seu amor, porém ela não tinha nenhuma. Nunca estivera apaixonada por ele e tampouco sentira falta. Lembrava-se do brilho dos olhos e da sua voz e do seu aperto de mão, mas como uma lembrança que se perde cada vez mais no percurso da estrada.
Recebeu a primeira carta em agosto daquele ano, justamente no dia do aniversário do primeiro filho. Leu porque achou tratar-se de algum “parabéns” que o Percival estaria dando ao filho dela, mas o que estava escrito a tomou de surpresa e pouco imaginava que aquelas palavras eram dirigidas à ela, pois o tamanho do amor tingido de azul foi emocionante. Ela chegou a chorar e choraria também se a carta não tivesse sido escrita para ela.
Muitos anos depois, quando o marido convidou o Percival para os festejos das Bodas de Ouro, ela finalmente encontrou-se com aquele olhar de homem acabado pela paixão não correspondida, viu que as cartas que ele lhe escrevera tinham sido um grande desabafo para continuar vivendo.
Encontraram-se frente a frente e deram-se as mãos no cumprimento e se perguntaram coisas vãs, coisas que já sabiam e então o Percival engasgou-se na sua emoção quando perguntou se ela havia recebido suas cartas.
Mais de doze mil cartas foram escritas pelo punho daquele homem apaixonado que nunca repetiu uma vírgula em suas missivas e todas tinham o mesmo teor: do homem que sofre com a ausência da mulher que ama.
Ela baixou os olhos e disse-lhe que somente a primeira carta havia sido lida – por um engano qualquer – e que todas as perguntas que tinha, nunca deviam ter surgido em seu coração. E perguntou se ele queria as cartas de volta, para acalentar os anos perdidos. Ou mesmo para entregar à outra mulher, pois ainda havia tempo dele casar.
O Percival negou lentamente com a cabeça, despediu-se com os lábios crispados de dor e foi embora sem dizer adeus.
Escreveu outras tantas milhares de cartas que lhe foi possível em vida e todas jaziam lacradas, organizadas por data e amarradas por mês abarrotando o porão da casa dela até que o marido finalmente lhe perguntou o que era aquilo e ela lhe respondeu não saber, mas que guardara por respeito.
Quando souberam da morte do Percival, ela e o marido esvaziaram o porão, e foi necessária uma carroça para empreender a viagem das cartas que foram colocadas dentro do caixão e foi preciso abrir uma tumba maior para que as outras coubessem lá. Descansaria com suas palavras de amor, nunca lidas.

Autora: Michele Calliari Marchese - Xanxerê/SC

domingo, 24 de julho de 2016

Amor Para Sempre

Autora: Marina Alves

Altivo Firmino não era altivo só no nome: dono do empório de secos e molhados em Vila de Santa Maria, era homem arrogante, movido a orgulho e extrema soberba. Tinha vista alta, não queria saber da filha única misturada, como bem dizia, com gente miúda. E sempre alardeava a quem interessar pudesse: Rosália não era para o bico de qualquer joão-ninguém! Era moça de fino trato, e namoro, quando fosse tempo, só com a fiança de quem dava as ordens na casa: ele!
Rosália, até os quinze anos, se ocupara das rezas da igreja. Tinha prestígio com as beatas, habitués da sacristia de Padre Marinho. A razão se explicava: era dona de grande beleza, e tinha também uma voz incomum, o que sempre lhe rendia interpretar o Canto da Verônica na encenação da Paixão de Cristo, nas festas da Semana Santa, piamente celebradas ali no povoado. E naquelas ocasiões, à sua aparição no tablado, trajando o elegante figurino encomendado ao mascate Noca, os cabelos escorridos e luzidios sob o negro véu, um frêmito de íntima comoção percorria os contritos fiéis aglomerados à volta do palanque armado na pracinha da igreja.
Pois bem, Altivo Firmino não tinha do que se queixar no que dizia respeito à conduta da filha. Mas, o que ele não sabia é que a menina já se vinha adiantando nas artes do amor: andava de namoro escondido com Tonico Ferreira, rapaz de modos rudes, que servia como ajudante nas obras da Ferrovia. E foi justamente nas festas da Semana Santa que a coisa tomou corpo: entre os roxos da Paixão de Cristo, incorporando os encantos da Verônica, Rosália deu com os olhos do rapaz a mirá-la, numa intensidade que a fez estremecer sob a túnica de bordados.
Sim, tinha sido ali, diante da visão celestial de Rosália, que Tonico Ferreira se descobrira tomado de amor. Jurou que haveria de tê-la para si. Ela, postada ao lado da cruz, parecendo absorver o silencioso juramento, ao desdobrar o Véu da Verônica, aguçou ainda mais seu trêmulo e retumbante timbre em notas tristes que comoveram a assembleia. E naquele instante, mais que veneração ao Cristo morto, seu canto era só, e todo, para encantar Tonico Ferreira que em terno branco e chapéu se encobria nas ramagens de um jasmineiro, ao pé de um lampião. Ah, que paixão! Não teriam mais sossego! O amor traçava ali seus rastros do para sempre, amém!
O bilhete tinha sido passado às mãos dela, à descida do palanque: à meia noite, atrás da roseira branca ao pé da janela. À hora marcada, sorrateira, ela esgueirou-se para a escuridão, caindo nos braços quentes e bem fornidos que a apararam nas sombras. Muitos beijos! Todos os beijos! Os mais doces já vistos nesse mundo. Amor era aquilo! O aconchego, a vontade de nunca mais largar do outro, o último prolongar do encontro, até o cantar do galo lá pros lados do grotão, quando os rajados da aurora no céu laranja-chumbo vinham avisar que era hora de voltar à segurança do quartinho, antes que a casa acordasse.
No dia em que o namoro foi descoberto, o povoado de Santa Maria veio abaixo. O disse me disse se espalhou, a boataria efervesceu de boca em boca.  Rosália nunca soube quem contou ao pai.  Corrente na janela, ferrolho na porta pelo lado de fora, o quarto virado em cadeia. E Tonico? Tião Raposa, homem de confiança de Altivo, foi quem levou o recado: o infeliz tinha até o romper do dia para sumir das cercanias. Ali amanhecendo, se desse por morto. Tonico tomou rumo ignorado, na calada da noite. Quem conhecia a fama dos Firminos sabia que um aviso daquela natureza não vinha duas vezes.
Sem os encontros tardios ao pé da roseira branca, Rosália emagrecia a olhos vistos. Palidez de morte, faces encovadas, definhava dia a dia a saudade do amor partido. O coração perdeu a vontade de viver, a alma se fechou em viuvez de luto adiantado. Aonde andaria Tonico? Deus fosse louvado, um dia ainda haveriam de se topar. Ia viver por esperar! Amor daquele jeito não nascia pra morrer, não se acabava assim num à toa qualquer.
O tempo passou. Altivo Firmino contratou casamento para a filha com o novo chefe da Estação, rapaz de juízo, e de guardar cobres para o dia de amanhã. Rosália confinou-se a lamentar a própria sina: longe do seu único e grande amor — nas mãos de quem não tinha vontade nem de olhar — o que seria de si? A moça se debateu, rastejou, implorou, pediu a Deus, mas de nada adiantou. As bodas foram marcadas para as festas de Reis, no janeiro que se avizinhava.
Foi na volta da prova do vestido de noiva que a coisa se deu: aquele que vinha pelo beco, lá das bandas da igreja, não era Tonico? Não era? Não era? De repente, os dez longos anos passados desde a furtiva debandada naquela fatídica noite sumiram que nem fumaça. Como quem vê miragem correram um para o outro. O abraço foi de unhas se cravando, choro se misturando e corpos rolando na poeira, no desafogo da saudade. Dele, ela só ouviu: vim lhe buscar. O cavalo amarrado ao mourão à beira do capim alto, em ponto de galope, esperava.  Sem uma palavra, ela pulou na garupa.
Depois disso, a julgar pelo que Noca, caixeiro-viajante que rodava pelos mais distantes rincões, segredou aos ouvidos de Altivo Firmino em seu leito de morte, os amantes fugitivos iam muito bem obrigado.  De pés juntos, o mascate jurou ter visto os dois, já entrando nas calmas da velhice, cabelos algodoados e mãos dadas: escutavam o lamento da Verônica, em festa do Cristo morto, numa cidadezinha do interior de Goiás. No entanto, ninguém jamais soube se o dito era deveras ou se não passava de mais uma patacoada do Noca, pois que o caixeiro sempre vinha cheio de invencionices, na volta de suas andanças por esse mundão de meu Deus...

Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Coreto da Lua

Suzo Bianco

Reviver aquilo, que nos aconteceu quando nos conhecemos, me traz um misto de nostalgia, melancolia e felicidade, mesmo depois de tantos anos.
Eu caminhava sem rumo por uma passarela de madeira suspensa, desses tipos de caminhos construídos sobre plantas e moitas, no intuito de sentir melhor o bosque sem formar trilhas. Era um lugar lindo e calmo, chamado Por da Lua, uma área grande de mata preservada bem no coração da cidade de Clinzândia, ao norte do Deserto Cinzento, lugar esse que quase ninguém ousava mencionar.
Por da Lua era um parque bastante procurado por todos devido sua essência mágica e qualidade calmante, sob as copas verdes, as pessoas se sentiam mais relaxadas, abrigadas, tranquilas para caminhar e caminhar sem rumo certo, aproveitando a atmosfera entorpecente a qualquer hora do dia.
Bom exemplo desse costume era eu mesmo, que mesmo sob o manto imperioso da noite e da luz fantasmagórica da soberana Lua, andava a passos lentos, fazendo ranger as ripas de madeira, pensando em nada demais, apenas uma sombra ambulante em meio aos focos de luz branca, derramados pelos postes que se dispunham de metros em metros, de cada lado da trilha. Foi quando avistei o Coreto da Lua.
Um lugar aconchegante e fresco, todo branco, muretas bem trabalhadas com ornamentos que, num padrão suave, lembravam folhas de árvores e animais silvestres. O telhado era bem cuidado, a tinta anil das telhas ainda parecia fresca, embora coberta por folhagem seca, plantas rasteiras e trepadeiras. Em seu cume, um cata-vento na forma de uma Lua prateada girava lentamente ao gosto da brisa noturna. E sob o telhado, lá embaixo, bancos curvos, moldados de forma que acompanhassem a curvatura do coreto, convidavam silenciosamente os possíveis transeuntes a algumas horas de meditação ou reflexão. E isso fazia todo sentido, já que, quando ali cheguei, percebi uma jovem de cabelos longos e escuros. Sentada, cabisbaixa, concentrada em um ponto invisível no meio do pequeno salão que o coreto disponibilizava, ela nem sequer notou quando me aproximei. Parecia triste, e associei aquela situação com a do homem que ia embora, por outra abertura, também de ombros caídos, quieto e aparentemente melancólico.
Possivelmente a moça sentia algum recente aperto no peito ou decepção amorosa.
Pensei em abordá-la com um cumprimento reconfortante quando ela de repente me notou, com olhos arregalados, fazendo-me estacar em meu lugar. E ali de pé, vi a jovem espiar mais uma vez o homem, que se distanciava por outra trilha suspensa do bosque, como se não acreditasse no que lhe estava acontecendo. Ela tornou a reparar em mim, como se eu fosse algum tipo de fantasma. Antes que ela pudesse dizer algo, arrisquei:
— Parece triste, posso lhe ajudar?
— Quem é você? – Ela logo perguntou.
— Ninguém, eu estava apenas caminhando quando a vi aqui e... Pareceu-me triste.
— Na verdade não. – Sorriu. – Não estou triste. Estava apenas pensando na loucura que acabou de me acontecer, quando você apareceu. E, sinceramente, isso só me deixou mais confusa ainda.
— Não entendi.
— O homem que acabou de sair daqui.
— O que tem ele, era seu namorado, ou algo assim?
— Não sei o que dizer, não agora, depois que você apareceu.
— Não compreendo.
— Era um senhor, um senhor de meia idade, gentil, mas de olhar tristonho. — Percebendo que eu ainda não a entendia, explicou: - Bem, eu estava aqui, lendo meu querido diário, quando ele apareceu, bem ali. — Apontou para a outra abertura do coreto. — Ficou me olhando como se me conhecesse há anos, olhos cristalizados de lágrimas. Fiquei um tanto desconsertada, assustada até, não sabia o que fazer ou o que falar quando ele me disse: “Sei que deve estar assustada, sei que não me reconhecerá, sei que deve me achar um mendigo louco ou algo assim, ou só um velho carente e esquisito, sei que provavelmente irá ignorar esse encontro daqui algumas horas, sei de tudo isso, mas ainda tenho esperança de realizar meu sonho, de lhe abraçar pela última vez e de me lembrar como eu poderia ter sido feliz, e desperdicei isso...” Então ele chorou abertamente, de maneira tão tocante que me apiedei e o abracei com toda a sinceridade que eu poderia oferecer. Ele então me afastou gentilmente, e disse: “podemos dançar?” Sorri, limpei minhas próprias lágrimas e dançamos por um tempo, como pai e filha que há muito tempo não se viam. Até que nos afastamos. Ele me olhou nos olhos. “Obrigado, e me perdoe, minha querida. Adeus!” – Sorriu a jovem ao lembrar daquilo. – Então ele simplesmente foi embora, quando você chegou.
— Nossa! — Falei, me aproximando. — Que estranho. — Tomei coragem e me sentei ao lado dela. Era linda. – Essa cidade é cheia de gente maluca.
— Tem razão! — Ela concordou, voltando a sorrir.
Nossos olhos brilharam naquele momento; os dela eu pude ver, os meus eu mesmo os senti.
Naquele dia nunca poderia imaginar que aquela jovem se tornaria a minha companheira, amada de uma vida inteira.
Tivemos muitas coisas juntas depois daquilo; alegrias, viagens, lembranças, tristezas e arrependimentos. Eu mesmo, hoje, reconheço o quanto a fiz mal. Pois com o tempo a paixão diminuiu, e isso me distraiu. Tornei-me negligente, arrogante, iludido e idiota. Ela, coitada, acompanhou minha áurea tornando-se tão tola quanto eu. Começamos a brigar demais, a discutir demais, a querer sem merecer demais, até que num dia fatídico, minha tão amada companheira veio a falecer num acidente de balão.
Ela só queria ver a Lua mais de perto, para ver os problemas mais de longe.
Aquilo viria a me recuperar do modo mais doloroso possível. Passei desesperadamente a procurar uma forma de reverter àquela situação, a da morte de alguém que eu não soube aproveitar, amar, enquanto viva.
Procurei tanto que acabei achando.
Uma bruxa, oriunda das cavernas do Deserto Cinzento, ficara sabendo de minha agonia e me propôs um acordo:
— Se o senhor me der sua vida, posso fazer com que você a veja mais uma vez, e assim, além de revê-la, poderá finalmente descansar em paz...
E inundado de tristeza, movido pela dor da perda e do amor perdido, aceitei o acordo.
Fui levado para o passado, e a revi.
Linda, sozinha, minutos antes de me conhecer, sob aquele lindo coreto mágico. O primeiro contato quase me fez gritar de dor e saudade saciada. Mas não podia. Enchi-me de coragem, aproximei-me e lhe disse:
— Sei que deve estar assustada, sei que não me reconhecerá, sei que deve me achar um mendigo louco ou algo assim, ou só um velho carente e esquisito, sei que provavelmente irá ignorar esse encontro daqui algumas horas, sei de tudo isso, mas ainda tenho esperança de realizar meu sonho, de lhe abraçar pela última vez e de me lembrar como eu poderia ter sido feliz e desperdicei isso.
Então desabei abertamente, de maneira tão tocante que me senti uma criança arrependida por ter feito algum mal imperdoável.
Ela me abraçou, com força. Eu a afastei gentilmente, falando:
— Nós podemos dançar?
Ela sorriu, limpou suas próprias lágrimas, e dançamos por um bom tempo, até que nos afastamos. Eu a amava, imensamente, e sem poder me revelar só pude olhá-la nos olhos:
— Obrigado, — Suspirei controlando meus sentimentos que pareciam querer-me afogar. — E me perdoe, minha querida. — Me virei de vez, para evitar novo pranto aberto. Apenas conseguindo murmurar minha última palavra, aquela que há anos não pude ter dito:
— Adeus!
E agora, mesmo prestes a doar minha vida para aquela bruxa, reviver aquilo, que nos aconteceu quando nos conhecemos, me traz um misto de nostalgia, melancolia e felicidade, mesmo depois de tantos anos.

Autor: Suzo Bianco - São Paulo/SP