domingo, 23 de abril de 2017

Linguiça - Autor: Roberto Rêgo

Magrelo, comprido, espichado, botaram-lhe o apelido de “Lingüiça” logo começou a trabalhar no escritório da fábrica, como “Office-Boy”. Luiz Alberto era o seu nome, mineirinho do interior, natural de Cachoeira de Curvelo.

Garoto inteligente, não perdeu tempo e agarrou a oportunidade com unhas e dentes. Esmerou-se no trabalho, aprendeu rápido o ofício e em pouco tempo foi promovido, saindo do serviço de rua para o trabalho interno no escritório da companhia. Passou por diversos setores no escritório, Contabilidade, Departamento do Pessoal, Faturamento, sempre correto nas atitudes e com excelente desempenho profissional, ganhando assim a confiança dos superiores.

Alguns anos depois o “Lingüiça” tinha engordado bastante, mas o apelido continuava. Ele conheceu uma moça bonita, Desiré, funcionária da empresa também, namoraram, noivaram e se casaram em questão de três anos.

O tempo correu e o “Lingüiça” viu os filhos nascerem, para alegria sua e da Desiré, sua mulher adorada. No trabalho, seguia firme e sempre bem conceituado entre os superiores, galgando devagarzinho as promoções da carreira. Foi indo assim até chegar à idade madura, quando começaram os problemas de saúde.

Aos cinqüenta anos sofreu um infarto brabo, quase partindo desta para melhor. Superou a doença, recuperou-se e insistiu trabalhando. A princípio fazia dieta alimentar, largara o fumo, a bebida e tomava seus medicamentos. Mas, com o tempo, foi relaxando, voltou a fumar, a tomar seus goles, a comer suas feijoadas, costelas e rabadas, o fato é que ele perdeu totalmente a noção do perigo.

Num domingo, foi à missa na Igreja de São Sebastião com a mulher e os filhos, rezou bastante, comungou, gordão, compenetrado e, ao término do culto, falou pra mulher e  filhos na pracinha defronte à Matriz:-

“- Desiré, querida, pode ir descendo pra casa com os meninos, sabe? Eu vou procurar o que comer, porque hóstia não mata minha fome! Vou ver o que tem lá no fogão do Jorge, meu primo.”

Esse Jorge era um sujeito taciturno, seu primo, que vivia sozinho, enfurnado num barracão na beirada do rio. O “Lingüiça” chegou, trocaram as saudações costumeiras e o dono da casa indagou:-

“- E aí, primo? O que você tá mandando? ...”

“- Jorjão, tou a seco e com fome! Tem aí aquela branquinha pura?”

“- É pra já, primo. Vou buscar também um costelão assado que fiz ontem de noitinha.”

Chegou com a garrafa da “marvada” e os copos americanos (aqueles canelados), encheu-os até a borda, cortou um pedação de costela bem gordurosa pro “Lingüiça”, ele emborcou de vez a pinga e caiu de queixo na carne assada. E assim foram, de gole e costela, de costela e gole até de tardezinha. Lá pelas dezesseis horas, desmaiados, foram acudidos pelos parentes. O “Lingüiça” foi levado em padiola pra casa e de lá pro hospital, donde só saiu pra falar diretamente com São Pedro, alguns dias depois.

Autor: Roberto Rêgo - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada através de e-mail de 10/10/2011

As aventuras de ¨A Fábrica¨

Autora: Ana Bailune

Quando eu era pequena, tínhamos muitos cães em casa, e não consigo lembrar-me de alguma fase de minha vida em que eles não estivessem presentes - a não ser, assim que eu me casei, pois moramos em apartamento por sete anos. Mesmo assim, tinham os cães de minha irmã, com quem eu brincava quando a visitava.
Houve um tempo em que uma das cadelas era apelidada de "A Fábrica", que era o título de uma novela que passava na falecida Rede Tupi (pronto! acabo de revelar a minha idade!). Bem, demos este nome a ela porque A Fábrica sempre tinha muitos filhotes de uma só vez, que nós doávamos para os vizinhos.
Ela era uma enome vira-latas preta, e tinha uma peculiaridade, ou seja, duas: a primeira, é que ela sabia sorrir. Logo que nos via, arreganhava os dentes, abanando a cauda. Era só a gente pedir: "Fábrica! Ri!" E lá vinha ela, dentes de fora, toda faceira.
A segunda peculiaridade (acreditem ou não) é que ela... voava! Não, não é lorota, não! Ela voava mesmo, por cima da plantação de bananeiras e depois, ainda passava pelos galhos mais altos de um bambuzal, que lhe amparavam a queda. Bastava que ela visse uma galinha. Era campeã de Caça às Galinhas da Dona Teresa!
Também... a Dona Teresa era uma folgada, que mesmo sabendo que todos os vizinhos tinham cachorros em casa, deixava suas galinhas soltas pelo terreiro, e elas sempre acabavam indo parar no meio da rua ou no terreno de outros vizinhos. Era sempre a mesma história: a Fábrica escutava um cacarejar no morrinho (lugar onde brincávamos quando crianças, logo acima de nossa casa e da plantação de bananeiras e bambus de meu pai) e corria atrás. Não tínhamos como segurá-la, pois ela parecia totalmente possuída por alguma força atávica incontrolável.
A galinha, na tentativa de salvar-se, voava desajeitadamente por sobre as bananeiras, e A Fábrica, que jamais desistia, voava atrás dela, lá de cima do morrinho.
Daí, escutávamos um agoniado "Cóóóó..." e lá vinha A Fábrica, com a pobre coitada na boca.
Na manhã seguinte, lá vinha a Dona Teresa perguntar: "Ruth (minha mãe), não viu uma galinha carijó por aí não?" E minha mãe, com ar distraído: "Não... por que, sumiu?"
Mas acho que a Dona Teresa acabou descobrindo sobre o paradeiro de suas galinhas, pois um dia, A Fábrica amanheceu morta: envenenada...


Autora: Anabailune - Petrópolis/RJ



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Uma ¨estória¨ mal contada - Autor: André Bessa

Ilustração original: André Bessa


João Guimarães Rosa, autor do qual li uma meia dúzia de obras mas das quais releio apenas duas, no seu último livro —"Tutaméia"— introduziu a palavra estória. E, dentro desse nosso espírito quase passarinheiro de imitar todo novo que se canta entre os buritís, tal palavra foi logo assimilada e rapidamente adotada por quase todo mundo. Sem que o real conhecimento e nem a validade de tal conceito fossem sequer questionados! Guimarães Rosa apresenta a sua estória dentro da conotação de quase uma anedota, em contraste à História, ciência que estuda o ser humano e sua ação no tempo e no espaço, e à história, mera narração de fatos que se relacionam a um determinado assunto. Em sua vaidade intelectual, Rosa quis deixar aos pósteros, além de uma obra cuja originalidade estética e estilística já era indiscutível, uma outra "marca registrada" de seu talento em inventar palavras e verbos. Todavia, o que para muitos possa parecer um neologismo rosaniano e genial, na verdade, não passa de uma adaptação literal da palavra de língua inglesa story, a qual ele adotou, prosaicamente, em forma, modificando-lhe, porém, levemente o conteúdo. 

Ora, a palavra estória não existe em nenhum dicionário da língua portuguesa e sim história, com agá e i. Em nossa língua a palavra história (com h minúsculo) diferencia-se de História (com H maiúsculo) exatamente como, em inglês, diferenciam-se story e History. E por que isso? ora, porque história, em português, tem uma etimologia própria, ao passo que estória não. No entanto, Guimarães Rosa diferencia o estória dele da palavra história, e vai mais longe ainda: ele a opõe à palavra História. Em suas próprias palavras, ele diz que "A estória não quer ser história.  A estória, em rigor, deve ser contra a História.  A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota." 1

Logo, estória é uma palavra de validade unicamente circunscrita à sua obra e, se adotada por terceiros, que seja feita sob uma ressalva do gênero "segundo Guimarães Rosa", ou "parafraseando o autor mineiro", etc etc. Mas o brasileiro não gosta de muita explicação, de muito raciocínio, de muita tecnicidade. Em nosso velho hábito de buscar sempre a coisa pelo seu lado mais fácil e o menos cansativo, nós nos esquecemos de considerar as imprecisões que certas adopções podem trazer consigo. E no caso de estória, o mal já está feito. Ao adotarmos, à maneira de um corrupião, a palavra estória — cuja validade, repito, se insere unicamente no contexto da obra de Guimarães Rosa — como sendo um vocábulo inerente à língua portuguesa, nós cometemos dois êrros fundamentais: 1. o de utilizar uma palavra que não está catalogada em nenhum dicionário de nossa língua; e 2. de usá-la sem um conhecimento maior da acepção que Rosa lhe deu, a dizer, a de ser quase uma anedota.

Guimarães Rosa conhecia razoavelmente bem inglês e francês, e se valeu desse conhecimento para adaptar e depois inserir em sua obra esse temerário neologismo. A palavra francesa "anecdote" significa pequeno fato ocorrido a um momento preciso da existência de um ser, à margem de eventos dominantes e, por esta razão, pouco conhecido. Essa mesma definição sublinha o aspecto pitoresco, hilário ou picante que possa vir a ter esse fato. A língua francesa distingue igualmente a palavra histoire (com h minúsculo) da palavra Histoire (com H maiúsculo) tal e qual as distinguimos na nossa língua. E, pôsto que anedota em nossa língua tem conotação diferente da francesa anecdote, o que se prestaria a confusões maiores, Guimarães Rosa optou então pela grafia de estória, que vem diretamente da palavra em inglês story, equivalente à palavra história em português, porém, inserindo-a dentro da conotação da palavra francesa anecdote

As pessoas, que ouviram o galo (francês) cantar mas sem saber em que quintal ele se encontrava, pegaram a estória andando e trafegam até hoje neste bonde (inglês) sem saber para onde ele vai. Pessoalmente, me dói quando vejo (e, infelizmente, é quase sempre) pessoas empregarem a palavra estória no lugar de história. Assim como escrevem causo em lugar de caso. E, vejam bem, eu não confundo aqui ter amor à própria língua com ser reacionário à introdução de palavras novas. Não é nada disso. Atenho-me apenas à clareza que sempre teve a nossa bela língua e que, mesmo considerando as diferenças que esta já apresenta em relação à língua-mãe lusa, não obstante, jamais deixou de ser uma língua precisa. E, sobretudo, de uma riqueza que não se limita ao número de palavras existentes, mas também à clareza de suas conotações. 

Nesse mesmo livrinho, "Tutaméia" — e que é, para mim, o melhor de todos que ele escreveu — Guimarães Rosa, no meu entender, e de forma pouco oportuna, diverte-se em um prefácio onde mistura alhos com bugalhos, ironiza, prosodia, entorta sentidos e definições, escorrega por teorias rocambolescas, esbalda-se através de citações em línguas estrangeiras (O vanitas vanitatum!) e intitula esse mesmo prefácio de "Aletria e hermenêutica". Ora, Hermenêutica é a arte de interpretar livros sagrados, assim como a de interpretar diversos sinais como sendo símbolos de uma cultura, além de ser, ainda, a arte de interpretar leis. Até aí, nada tenho a comentar. Porém, sabendo-se que a palavra aletria, segundo todos os dicionários da Língua Portuguesa em que pude pesquisar, refere-se a um tipo de macarrão fino, também chamado de cabelo-de-anjo, o que quis João Guimarães Rosa realmente dizer com esta palavra em seu prefácio? mais um neologismo sem-pé-nem-cabeça?

Aletrias de Rosa... causos.... estórias de dar com o pé.


1. Guimarães Rosa, João: «Tutaméia» pág. 7, 9a edição, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro.

Autor: André Bessa - Suíça

sábado, 1 de abril de 2017

A Quinzena do Autor - Augusto Sampaio Angelim

Augusto Sampaio Angelim

AS VITRINES

Há pouca luz nos corredores do shopping center enquanto ela caminha devagar, digitando alguma coisa no celular, até parar em frente de uma loja de sapatos. Abre a porta, acende algumas luzes e começa a rotina de cuidar de si mesma.  Em frente a um grande espelho começa a se maquiar com esmero, passando um pincel nos cílios e depois fazendo os contornos dos olhos. Com um lenço, passa uma espécie de pó de pirlimpimpim em todo roto, ajeita mais uma vez os olhos e, por último, passa o batom nos lábios. Suas mãos nos cabelos procuram um penteado ideal e deixam à mostra seu pescoço, como resultado de uma obra de arte.
Sai de frente do espelho e desaparece por uma discreta porta nos fundos da loja e volta em cima de um par de sapatos altos e vestida bem diferente do jeito casual que estava antes. É como se fosse outra mulher e, parece saber disto, pois, novamente fica a frente do espelho e faz novos ajustes no cabelo e no rosto.  Esboça um leve sorriso e depois fecha os olhos como se estivesse rezando.
Vai ao balcão e organiza todas as coisas que lá estão. Em seguida, inspeciona as vitrines.
Finalmente toca uma música anunciando a abertura do shopping e ela acende todas as luzes da loja.
O burburinho das pessoas e seus passos apressados quebram o encanto de antes. Agora, ela é apenas a gerente de uma loja de sapatos.

MÁQUINAS DE ESCREVER

Na minha infância, a máquina de escrever era mais do que um meio de reproduzir um texto.
Era dificuldade que minhas mãos ágeis de menino venciam com facilidade.
Cada  máquina tinha sua própria música.
O som metálico das teclas era uma espécie de identidade secreta de cada uma delas.
Em casa, tinha uma Remington pequena e colorida. Era moderna, mas sóbria, mesmo assim, lhe chamava de Princesa. 
Havia, também, uma Olivetti que respondia mais rápida aos toques dos meus dedos. Dei-lhe o nome de Olivia.
A velha e grande máquina do cartório de meu pai, emitida um seco, talvez ciente de suas responsabilidades notariais. Ficou sem nome, pois não era dada a intimidades.
As duas últimas que tive, no início dos anos 90, eram eletrônicas.
Uma delas era uma Olivetti, tinha nome próprio: “Práxis 20”. 
A outra, era importada e não lembro o nome, mas chamava a atenção das pessoas, pois era muito tecnológica.
Ambas foram contemporâneas de uma velha Olivetti Línea 98 que labutava no Fórum de Garanhuns.
As primeiras me serviram para fazer poemas infantis e escrever contos que, infelizmente, se extraviaram nas dobras do tempo. Com as últimas fiz denúncias, alegações finais, recursos e outras peças próprias de um Promotor de Justiça.
Depois, vieram os computadores e aí as velhas máquinas foram abandonadas.E,então, o mundo mudou.

DESENCONTROS

Não era a primeira vez que ela repousava em seu peito. Desta feita, porém, chorava baixinho, mas ele sentia as lágrimas. Na escuridão do quarto, a luz do pequeno abajur destacava sua pele branca. Tinham saído a tardinha e ela, depois, do terceiro copo de uísque se mostrara arredia. Cauteloso, ele procurara evitar o menor conflito, pois sabia que ela estava se sentindo amargurada. Estavam vivendo juntos há apenas alguns meses e a felicidade, como acontece com todos os amantes, que antes parecia tão ao alcance das mãos, agora teimava em escapar-lhes por entre os dedos. Ela o conhecia desde adolescente, quando ele, então, já era homem. Sendo aparentada dele, ficara fascinada por suas aventuras e façanhas, muito mais que pelo homem com quem passara a conviver. Fora ela, na sua ousadia de mulher jovem, a iniciativa, mas ele foi quem soube explorar suas ilusões. Na verdade, ela lhe fascinava pelo carinho e beleza. Porém, como ele lera em algum lugar, parece que o amor teima em mostrar que é impossível a plenitude do encantamento humano. Nos últimos dias, seus desencontros se acentuaram e os humores se alteravam de forma quase desequilibrada. Quando ela finalmente adormeceu, ele foi até a varanda de seu apartamento e contemplou a enorme avenida, sem movimento àquela hora. Limpou as lágrimas de seus olhos e acendeu um cigarro.

FRUSTRAÇÃO

O homem hesitou antes de abrir o baú de madeira, há muito tempo relegado a um canto no porão daquele sobrado. Mas, pensando melhor, concluiu que não mais importava manter aquelas lembranças intocadas. Entre as velharias, lá estava um lindo retrato preto e branco dela, à beira-mar, vestindo um gracioso maiô escuro. Atrás, uma dedicatória de amor, feita com a letra perfeita.
Com a foto entre as mãos, sentiu uma dor súbita no braço direito e um amargo na boca. Respirou fundo, foi até a entrada de ventilação e sentiu um alívio.
Por algum tempo, recordou-se dela com um sorriso. Depois, as lágrimas molharam-lhe o rosto.
O pior é que eles ainda estavam juntos, sob o mesmo teto, depois de tantos anos, mas a frustração entre eles era um muro de silêncio.
Hoje, a ausência era o sentimento mais presente no seu coração e cantarolou, bem baixinho, com os olhos em lágrimas: “Sorri quando a dor te torturar e a saudade atormentar, os teus dias tristonhos, vazios. Sorri, quando tudo terminar. Quando nada mais restar, do teu sonho encantador. Sorri, quando o sol perder a luz...”.
Encerrando o arremedo de canção, sorriu sem graça e levou a fotografia de volta ao baú, fechando-o sem olhar mais nada de seu conteúdo.

FOTOGRAFIA DE UM VELHO CARNAVAL

Já não lembrava mais daquele carnaval, afinal tinham se passado vinte anos. Vinte anos? Não tinha certeza. Por acaso, quando vasculhava sua caixa de guardados, achara a única fotografia dela. Deitada num banco de madeira, vermelho, com seus longos cabelos castanhos quase que encostando no chão quadriculado da Praça XIV. O vestido tinha um comportado decote retangular, mas lhe deixava quase  descobertas suas generosas coxas. Era cheio de flores, pretas e violetas, sob um fundo cor de rosa e trazia um cinto transpassado na cintura, dando-lhe um desenho sensual. A maquiagem ao redor dos olhos, mais escura que a pele morena clara realçava a sua beleza. Usava dois brincos pequenos e seus lábios estavam retocados com um brilho suave. Estava adormecida, como se fosse eternamente sua.Esperavam uma condução para voltarem para a Lapa.
Aproveitara este momento e lhe fotografara, mas somente revelara o filme meses depois, quando mais nada havia entre ambos. Conheceram-se no Amarelinho, bem no centro do Rio, numa sexta-feira. Havia saído da Biblioteca Nacional e resolvera tomar um chope, quando ela chegou e sentou-se na mesa ao lado, sozinha. Num instante, já conversavam sobre as eleições daquele ano, animados porque votavam nos mesmos candidatos e, para completar o estado de graça dos dois, torciam pelo mesmo time. Na semana seguinte estavam saindo juntos e foram passar um feriado em Parati. Ele morava na Lapa e dividia um velho apartamento com um jornalista vindo do Ceará. Ela, morava com os pais, em Botafogo. O namoro seguiu tranqüilo, repleto de romance e aventura para a felicidade de todos. De todos, não, porque havia o primeiro namorado dela que era uma espécie de fantasma entre eles, pressentia.
Naquele dia, ela usava um sapato preto, de salto alto e não sabia como ela havia agüentado toda folia da arquibancada do sambrodomo, na noite anterior. Tinham ido torcer pela Mangueira e se divertiram bastante.
Chegou a  Semana Santa e ela foi ao interior de Minas, visitar os avós. Não teve nem chance de se oferecer para acompanha-la, pois ela disse que era um evento estritamente familiar. Acabou-se a Semana Santa e vieram outras e mais outras semanas e não mais lhe avistou. No prédio aonde ela morava o porteiro lhe informou que a família tinha se mudado para Minas. Em junho, não se conteve mais e foi atrás dela, na pequenina Felisburgo, no Vale do Jequitinhonha. A cidade era e, ainda é muito pequena, e não foi difícil saber sobre a família dela.
A filha de Doutor Nertan? 
Casou-se com um parente dela...o rapaz também é médico.
Foi um casamento apressado. Tá c’uma barriga enorme.
Dizem que mineiro fala pouco, mas as palavras do estalajadeiro foram suficientes para que voltasse, no mesmo dia, ao Rio. Depois de uns dias de dor e desilusão, resolveu seguir a vida. Passados esses vinte anos, resolveu rasgar a fotografia dessa quase desconhecida, mas, como tinha um isqueiro no bolso, queimou-a lentamente. Agora, os cabelos dela tinham ganho um tom avermelhado de puro fogo. 

O CRIME DO TENENTE DECAÍDO

Aconteceu nos tempos de chumbo da ditadura militar, numa pequena cidade do interior do Nordeste, quando um tenente da reserva, do exército, mesmo aposentado, usava farda e andava armado. Era o ano de 1968. O militar havia se constituído na principal autoridade do lugar. Acima do Prefeito e do Padre. Usurpando poderes, o tenente fazia inspeções na prefeitura e era muito temido, pois tanto o alcaide quanto seus assessores tinham medo de ser apontados como corruptos e, por via de conseqüência, presos e afastados de seus cargos sumariamente. Homem que antes, era pouco afeito à Igreja, o tenente passou a frequentar a missa todos os domingos, arrefecendo os ânimos dos sermões do pároco local, que, antes, abria o verbo em favor das pregações sociais. Sempre vigilante, o homem parecia que tinha o poder da onipresença.
O pequeno destacamento da polícia militar, composto de 04 soldados rasos, um cabo e sargento, era passado em revista, semanalmente pelo cioso paladino da justiça e da ordem. Toda sexta-feira, às sete horas, o destacamento se perfilava diante do oficial do e, empertigados, entoavam o hino nacional, batendo-lhe vigorosas continências. Primeiro foram as crianças e as professoras do grupo escolar que alteraram suas rotinas para assistirem aquela demonstração semanal de patriotismo. Depois, a coisa tomou um vulto tão grande que, o prefeito e o padre, também se faziam presente, embora em segundo plano. E, logicamente, quase todo o povo da cidade. 
Não tardou que três ou quatro senhoras carolas procurassem o tenente, fazendo uma exposição de motivos em que realçaram o respeito e a admiração que sentiam por sua singular pessoa, para ao final, cobrarem uma providencia contra a desditosa Glorinha, dona do único bordel da cidade.
Desde que resolvera tomar conta daquele lugar, impondo ordem e respeito à pátria, aquele era o problema que ele divisava como o mais difícil de ser resolvido. Gostava muito de álcool e aliviava suas tensões debaixo dos lençóis perfumados de Glorinha, embora ninguém ousasse comentar isto, tanto assim que aquelas inocentes senhoras não sabiam da verdade. Havia algum tempo que vinha pensando em largar esses vícios, mas, desafortunadamente, há dois meses havia chegado à casa de Glorinha, uma linda paraense de longos cabelos negros que chegavam à sua cintura torneada. Deram-lhe logo apelidada de Iracema, em alusão à personagem de José de Alencar. Essa moça vinha mexendo tanto com sua cabeça, que chegara a cancelar a revista semanal que fazia ao destacamento, porque simplesmente não conseguira sair de seus braços na manhã da última sexta-feira. Dividido entre a culpa e o prazer, o oficial andava cabisbaixo e sua moral somente se levantava, de fato, quando desfrutava da posse de Iracema. Absorvido por uma paixão intensa, sentia saudades da amada até mesmo quando estava com ela nos braços. Atormentado, decidiu tirar a menina daquela casa de safadeza, porém esbarrou na autoridade de Glorinha, que ameaçou contar à cidade sobre seu caso e, se isto não fosse suficiente, que iria procurar um coronel que conhecera em sua mocidade, quando este ainda estudava no Colégio Militar. Sabedor dos dissabores e do risco que corria acaso Glorinha desse com a língua nos dentes, o tenente foi se enchendo de amargura. Para sua infelicidade, chegou ao local uma equipe do DNOCS para construir uma barragem e, o chefe era um jovem e afoito engenheiro que, irresponsavelmente, também se encantara por Iracema. O pior é que a danada, ao que tudo indicava, estava enamorada do calculista, como era chamado o engenheiro. Atormentado, deixou de sair de casa, não fazia a barba e sequer tinha ânimo para engraxar seu brilhoso coturno.
Não demorou para que toda a cidade tomasse conhecimento da desgraça que se abatera sobre o homem, para alegria de muitos e decepção das carolas e da meninada. O fato é que, depois disto, o prefeito já não sentia medo de suas inspeções e padre deu-se ao direito, novamente, de falar nas mazelas do país e e a defender, fervorosamente, as ligas camponesas nos sermões dominicais. Para piorar as coisas, o sargento se rebelara e não mais formava a tropa para a revista semanal.
Nessa maré de contrariedade, o porbre homemo ficou sabendo que Iracema fora vista nuazinha em cima da caminhonete do engenheiro, de braços abertos, com tudo à mostra, em uma estrada próxima à barragem. Isto não era possível! Dirigiu-se ao bordel e lá Glorinha, com cara de enfado, disse, que Iracema já não morava mais na sua casa e, agora, estava no alojamento do DNOCS. Deprimido, o pensamento foi invadido pelos demônios da vingança. Vingança! E, para tanto, cachaça. Muita cachaça! Por estas artes que somente o destino é capaz de fazer, deu-se um tragédia: a caminhoneta do DNOCS, sempre indo-e-vindo com o mais novo casal do lugar, deu uma capotada, à noite, matando os dois amantes. O tenente sentiu todo o gosto da impotência com esse fato, porém, logo foi acometido da maior revolta ao saber que o Prefeito havia cedido o prédio da municipalidade para o velório do casal. Isso não! Assim já é demais! A cidade estava no velório.
Deprimido pela perda de sua autoridade, viu alento na idéia de vingar-se de ambos, matando-os. Por dias ficou matutando uma forma de cumprir o que parecia como a única razão de sua existência: matar Iracema e seu amante. Acontece que, enquanto pensava e pensava, o decaído oficial se entregara completamente ao álcool. Por esses desígnios da vida, recebeu a notícia que a caminhonete do DNOCS havia virado e caído numa ribanceira, matando seus ocupantes. Iracema e seu namorado (sim, o povo já dizia que eles namorados, deixando de chamá-los de amantes). Nenhum parente de Iracema pode comparecer, mas Glorinha e suas meninas estavam devidamente compostas e usavam véus negros cobrindo-lhes os belos rostos, recebendo o respeito silencioso das mulheres de bem da cidade. Se alguém temia alguma reação das carolas, tal não se deu, pois  o comportamento das meninas de Glorinha foi tão digno que até o padre balançava a cabeça em gesto de aprovação. Do Recife vieram os pais e os irmãos de Heitor, o melhor calculista que já se formara pela Universidade Federal de Pernambuco. Desde que aquele lugarzinho havia se transformado em cidade, há 58 anos atrás nunca havia acontecido um velório tão concorrido e comentado. 
Talvez a única pessoa que ainda não tinha sido vista no velório fora o tenente, mas o que ninguém sabia é que, em casa, ele preparara seu traje de gala, suas armas e insígnias. Resolvido, vestiu-se e calçou suas botas lustrosas e pôs sobre a cabeça o quepe e, em caminhada militar dirigiu-se ao prédio da prefeitura. À sua chegada, os populares que conversavam animadamente no paço municipal, se calaram e abriram o caminho. Dentro do salão, somente perplexidade. O militar se aproximou dos caixões, sacou a pistola e atirou contra os dois corpos, se deixando cair em seguida, causando um tumulto extraordinário que terminou com os corpos no chão, pessoas em luta corporal, cadeiras quebradas, a bandeira nacional rasgada e quinze pessoas presas. À noite, veio uma equipe do Exército e um capitão deu voz de prisão ao tenente, levando-o à capital. Nunca mais se soube notícias dele. Iracema virou nome de rua e, anos depois, quando se construiu o primeiro ginásio da cidade, lhe denominaram de Ginásio Engenheiro Heitor Furtado de Mendonça.

UM HOMEM DISTANTE

1. A notícia.
O telefone celular toca com insistência, até que Antônio se acorda.
Alô.
É Maria...
Imediatamente reconhece a voz antiga e pressente algo grave.
O que foi?
D. Carmem estava muito doente, mas pediu para não lhe avisar. Antes que a mulher terminasse Antônio, impaciente, lhe interrompeu.
Fala logo Maria, o que foi que aconteceu.
Ela se foi.
Quando? 
Faz umas duas horas que o médico veio aqui, não houve jeito.
Como foi?
Depois do jantar ela disse que ia se deitar e acordou por volta das dez horas, pedindo água e dizendo que estava com um dor. Tomou um comprimido, mas não a dor não passou. Liguei para o médico, ela veio, deu outros medicamentos, mas ela dizia que a dor somente aumentava.
Já providenciou as coisas, Maria?
Falei com seu Tio e ele está resolvendo tudo.
Qual a hora do enterro?
Amanhã, dez horas. Você está aonde?
Irei. Estou em São Paulo, diga a Tio Pedro que me espere.Vou agora mesmo ao Aeroporto.
Certo.
Desligou o telefone e sentado na beirada da cama, acendeu a luz do quarto e viu seu rosto no espelho. Quanto tempo fazia que não se viam. Nem sabia ao certo, se dez ou quinze anos. D. Carmem, sua mãe enviuvara cedo e passara a se dedicar a ele, seu único filho. Durante os anos de faculdade e até sua formatura se viam com regularidade, depois, arrumou emprego numa empresa multinacional em Recife e terminou indo morar em Manaus. De Manaus, assumiu a presidência da empresa em Assunção, no Paraguai e os contatos com a mãe foram rareando. O pai, Seu Agenor, morrera cinco anos antes e um episódio ocorrido nessa época terminou afastando mãe e filho.
Enquanto pensava no passado, reservou passagem aérea para João Pessoa e um carro para se dirigir até o interior paraibano. Tomou banho, arrumou a mala, ligou para sua secretaria cancelando os compromissos durante a quinta e a sexta-feira.
Cinco anos atrás, sua mãe havia deixado uma mensagem em seu celular, pedindo ajuda financeira para custear a transferência e o tratamento do marido para um hospital do Recife e, ele somente lera a mensagem três dias após. Estava participando de um seminário empresarial em Dubai, numa espécie de confinamento. Quando ligou de volta, D. Carmem lhe disse que não precisa mais. Ressentida passou o telefone a Maria que lhe contou os detalhes da morte do pai e, desde então, nunca mais voltou a falar com a mãe. Sabia notícias dela apenas através de Maria, por telefone. A empregada estava ali desde que ele era adolescente. Como apoio, mandava, mensalmente, certa quantia em dinheiro para uma conta bancária aberta em nome da empregada, para o caso de alguma necessidade extra. Maria informava que a mãe fazia questão de pagar suas despesas e da casa com a pensão deixada pelo marido e com os rendimentos dos aluguéis de dois prédios comerciais. 
Já no avião, com a cabeça recostada na poltrona e olhos fechado, ia procurando as lembranças mais antigas da mãe. Viu-se menino, de calças curtas, andando com ela na praça. Vestia uma blusa branca com flores azuis e vermelhas. Uma tiara azul a prender-lhes os longos cabelos pretos. Saia preta e sapatos altos, pretos. Bonita. No rosto, apenas um leve batom. Recordou de sua mão quente quando lhe levava para a escola cedinho, toda arrumada, como se fosse à missa. Sempre muito calada e comedida, esses modos circunspectos se acentuaram, com o passar do tempo. Sorriu quando lembrou um dia, em que foi ameaçado por outro menino. Ela ficou sabendo e foi conversar com o pai do outro garoto. Quando voltou, lhe disse, passando a mão em seus cabelos: ele não vai fazer nada com você meu Anjo, mas se ele lhe ameaçar novamente, bate nele primeiro. Quando estava na faculdade, ela lhe mandava, com regularidade, doces e roupas reparadas, além de alguma quantia em dinheiro e cartas e mais cartas. Meu Anjo, espero que estejas bem. No final, com uma caligrafia arredonda e muito legível: De sua mãezinha que tanto lhe ama. Agora, se perguntava: porque tinha deixado as coisas chegarem àquele ponto? Perdera totalmente a convivência com a mãe devotada e, agora, tudo se acabara. Teria ela pensado nele, nos últimos momentos?  
Quando chegou em João Pessoa, ligou para casa e Maria atendeu dizendo que tudo estava pronto, e que o enterro seria as onze horas, já que o tempo estava um pouco nublado. Foi a um hotel na praia, descansar um pouco. Enquanto estava deitado pensou em ligar novamente para Maria e dizer que não poderia ir, por um motivo ou outro. Covardia, disse. Refeito, pegou o carro locado e começou a dirigir. Seriam cerca de duzentos quilômetros. 
2. O reencontro.
Fazia muitos anos que não voltava àquela terra. Quando ainda falava com a mãe, ficou sabendo que muitos conterrâneos tinham orgulho de seu sucesso, principalmente os mais velhos. Através da empresa em que comandava, ajudava a população carente em vários programas sociais. À medida que ia se aproximando do lugar, novas lembranças lhe ocorriam. Eram memórias das viagens para João Pessoa, dos sítios, dos arredores, das ruas, das mangueiras frondosas da praça principal, das peladas no campinho de futebol. Dos primeiros anos na escola. Da preparação para o catecismo. 
Quando chegou, avistou logo as pessoas em frente à velha casa branca, com uma porta apenas e quatro janelões altos. Não reconhecia nenhum daqueles rostos que lhe observam silenciosamente. Enquanto se dirigia para entrar na casa, muitos lhe cumprimentavam com acenos de cabeça, outros, poucos, lhe apertavam a mão prestando condolências. Subiu os degraus da entrada e logo avistou o caixão na sala. Viu Maria, que se aproximou e lhe abraçou. Aos poucos, foi identificando os outros. Seu tio, primos, parentes e alguns conhecidos.. Com certo custo, conseguiu se livrar dos abraços e cumprimentos e foi se postar ao lado da morta. O mesmo rosto tranqüilo e bonito da maturidade. Fechou os olhos e procurou, na memória, uma oração para rezar em silêncio. Este momento íntimo durou pouco, pois chegou o Prefeito acompanhado da primeira-dama, o médico, os vereadores, a diretora da Escola. Todos para agradecer as contribuições sociais da corporação em que trabalhava. Felizmente, o padre chegou e as coisas se recompuseram, adquirindo a sobriedade necessária. Após as orações, o cortejo saiu pelas ruas da cidade, levado pelas mãos dos parentes, amigos e conhecidos. Enquanto cortejo se dirigia ao cemitério novas lembranças afloravam em seu pensamento. A casa de Amália. O antigo prédio dos Correios e Telégrafos. O sobrado da Prefeitura. A casa “velha”, chamada assim por ter sido uma das primeiras habitações do lugar. A farmácia de Seu Genésio Miranda já não existia mais. No lugar do Hotel São Domingos, agora, estava o Mercadinho Dantas. Em meio a esses pensamentos, ia lembrando da mãe. Ao passar pelo Mercado Público se recordou de quando ia à feira acompanhando a mãe, ajudando-lhe a carregar as compras. O prêmio era receber dinheiro para alugar uma bicicleta e sair pedalando pela estrada que levava ao açude do Boqueirão.  Entre as pessoas que observavam a procissão fúnebre das calçadas, algumas lhe apontavam, como a identificá-lo para um curioso que não lhe reconhecia. Outras continuavam a lhe prestar condolências.
No cemitério, o padre lhe perguntou se queria dizer algumas palavras de despedidas. Emudeceu e foi salvo pelo tio, que disse que não era preciso. Com cuidado, o caixão foi colocado no mesmo jazigo em que estava enterrado o pai. As mulheres rezavam baixinho. Depois, fez-se silêncio que somente foi cortado pela batida das pás dos pedreiros assentando os tijolos para fechar o túmulo.
Silenciosamente todos foram se retirando do cemitério e, então, pode voltar para casa. O tio e os primois foram embora. 
Maria, meu quarto está limpo?
Tá, disse a empregada, entregando-lhe a chave.
Rodou lentamente a chave, como se estivesse descobrindo o segredo de um cofre repleto de mistérios. Tudo estava limpo e até parecia que aquele cômodo era utilizada com freqüência. A mesma cama. A escrivania, arrumada e com o globo terrestre já amarelado pelo tempo. Alguns livros. E fotografias suas penduradas pelas paredes. Fotos da conclusão do primário, do ginásio, da primeira comunhão, da formatura. Numa delas, devia estar com doze anos e segurava a mão de sua mãe, na praia. Segurou-a por muito tempo, observando a beleza e a alegria daqueles dias. Uma outra com seu pai. Deitou-se com a fotografia da praia nas mãos e adormeceu.
Acordou tarde e começou a remexer nas coisas que estavam nas caixas. Flâmulas de seu time preferido. Revistas velhas. Um caderno de caligrafia. Cada caixa que abria lhe revelava fatos já esquecidos. Tudo estava tão bem cuidado e, pela primeira vez, as lágrimas rolaram em seus olhos, lembrando do zelo de sua mãe. Abriu a gaveta da escrivaninha e encontrou seu primeiro relógio, um canivete que usava como instrumento de mil utilidades e um álbum com fotografias de várias cidades do mundo. Rio, São Paulo, Londres, Lisboa, Atenas, Roma e outras. 
Foi tirado desse mundo de recordações por Maria que bateu na porta, perguntando se queira tomar chá e comer bolo. Estava com fome e o bolo de Maria não podia ser rejeitado. Foi comer na cozinha, enquanto conversava com a empregada. Assim ficaram até anoitecer e quando seu tio chegou lhe convidando para ir jantar em sua casa.
Na casa do tio, reviu outros parentes e a conversa, depois de girar em torno da mãe, do passado, voltou-se para o futuro. O que seria feito da herança. Fica tudo como está e Maria continuará em casa, administrando tudo. Depois de jantarem, ficaram conversando na varanda da casa do tio, até a hora de voltar para casa.
3. O retorno.
No momento em que se despedia, na sexta-feira de manhã, Maria lhe entregou uma carta lacrada e com seu nome sobrescrito. Era a letra perfeita de sua mãe. Maria, antes lhe advertiu.
D. Carmem disse que você somente deveria ler esta carta trinta dias depois da morte dela.
O que conteria aquela carta? 
Porque a imposição deste tempo? 
Assim voltou à João Pessoa e, na mesma noite, já estava em São Paulo. Cumpriria a condição imposta pela mãe e somente leria a carta na data marcada.
Trinta dias depois, estava em Lisboa, num hotel no centro da Cidade, se preparando para ler a carta. De posse de uma garrafa de vinho, resolveu abriu o envelope.
"Meu filho, esta é a última vez que lhe escrevo e a primeira e única que não lhe chamo de Meu Anjo. Sei que escolhestes uma vida de homem de negócios que lhe absorve inteiramente e, por isto, terminastes por se afastar de tua mãezinha. Durante todo este tempo, entretanto, sempre rezei pela sua saúde e paz. Não me destes a felicidade de uma visita inesperada. Não tive a oportunidade de brincar com um neto, pois resolvestes não perder tempo cuidando de um filho. Mas, todas os dias, até a semana passada arrumei teu quarto, na esperança de que aparecerias e, agora, já sentindo me faltar a vida, pediu a Maria que mantivesse tal cuidado. 
Sei que talvez nem tenhas paciência e nem tempo para leres esta cartinha, mas, quando eras um garotinho, interrompia meus afazeres para perguntar e perguntar e perguntar e perguntar. Todas as vezes, eu te respondia delicadamente e, agora, desejarias que estivesses mais presente em minha vida, como uma espécie de lenitivo para as saudades que sinto.
Quantas noites insones passei por conta de tuas febres? Numa delas, teu pai não estava em casa e caia uma chuva torrencial, com trovões e relâmpagos. Teu corpo ardia e tu deliravas. Rezei e te deixei no berço e sai pelas ruas, debaixo da chuva, dos trovões e relâmpagos até à casa do farmacêutico, à procura de um antitérmico para baixar tua febre. Na volta, as luzes se apagaram e cortei meu pé numa garrafa, mesmo assim, cheguei em casa, e cuidei de você.
Enquanto estudavas no primário, fui te levar e te buscar, todos os dias, no colégio e tinha orgulho daquele filho lindo e de um futuro promissor. Passamos algumas dificuldades financeiras, por conta dos negócios de teu pai, mesmo assim pagamos as despesas de tua faculdade e fizestes todos os cursos que acreditavas importantes.
Não me arrependo de nada disto e, sinceramente, faria tudo novamente. 
Agora, filho, queria apenas te abraçar e passar as mãos nos teus cabelos, te confortar muito mais que a mim mesma. Sabe filho, enquanto escrevo, é como se ouvisse, ao longe, uma canção triste de ninar e me lembro de você pequenino correndo dentro de casa. Não tenho medo e a morte até parece uma solução para nós. Seu pai se foi, você ganhou o mundo. Leia estas minhas palavras, por favor, sem remorsos, sem mágoas, apenas com respeito.
Escrevo esta carta na escrivaninha do teu quarto, olhando seus retratos. Todos os dias, entro aqui e arrumo as coisas, embora tenha de enfrentar as reclamações de Maria, sempre zelosa com minha saúde.
Determinei o prazo de trinta dias, porque não querias que, sob o domínio da emoção, dos primeiros dias do meu passamento, sentisses alguma espécie de culpa.
Adeus, de sua mãezinha".
Leu e releu a carta várias vezes. Mais tarde, ainda sem conseguir dormir, foi até à janela e viu uma estrela brilhando no céu e teve certeza de que seu verdadeiro Anjo tinha voltado para o azul infinito.

NOTÍCIAS DO PASSADO

Fiz a mim mesma a promessa de nunca lhe procurar. Não escrever e nem telefonar. Já se passaram mais de trinta anos, porém, agora, um motivo mais forte me obriga a isto. Explicarei adiante. Amanhã à noite, embarcarei num ônibus e irei procurá-lo. Pelo menos é o que penso, enquanto escrevo esta carta. A angustia que tenho sentido estes dias é capaz de me enlouquecer e, neste momento, apesar da certeza do que  estou escrevendo, a dúvida me assalta. Talvez amanhã, quando acordar exausta desta noite mal dormida, rasgue esta carta e desista da viagem. Não, amanhã estarei mais resoluta que agora. Tomarei o ônibus e darei um jeito de me avistar com....Como devo lhe tratar? Simplesmente por C? Não se preocupe, sei das responsabilidades de seu cargo. Não lhe trataria com tamanha intimidade, apesar do passado. Acaso consiga vencer meus temores e dúvidas e lhe entregue esta carta, imagino que, a princípio não reconhecerás a remetente. Ou será que lembrarás assim que me avistares? Sinceramente, não sei, pois pouco te conheço, embora tanta ligação tenha consigo. Evitarás abrir o envelope e rasgarás a carta ou sua curiosidade lhe impelirá à leitura? Quem é essa mulher? Será que terás dúvidas a respeito da minha identidade e do meu segredo? Ficarás desesperado? Pensarás em extorsão, dinheiro, escândalos? Dobrarás os joelhos, ante o peso nos ombros e o amargor na boca? Tuas mãos tremerão com a leveza dessas páginas? Se esta carta chegou às tuas mãos e continuas a ler, é porque, no mais íntimo de teu ser, despertou, no mínimo, a dúvida sobre o passado.
Estou cansada.
Mas não há outra saída, preciso de sua ajuda. Ou melhor, precisamos.
Certamente lembras de quando vieste para esta cidadezinha perdida nos confins do interior. Jovem, bonito e forte. Eu também. Jovem bonita e afoita. Minha mãe (que Deus a tenha), trabalhava na sua casa. Era a “empregada”. Cozinhava, arrumava e passava. A tardinha, quando voltava da escola, literalmente vestida como uma colegial. De saia azul-marinho e blusa branca, ia ter com minha mãe em sua casa que, àquela hora, já estava aviando os preparativos do jantar. Numa dessas tarde, estavas no quintal, trabalhando a terra com uma enxada. O suor escorria pelo seu rosto e a camisa branca estava colada na sua pele, realçando-lhe a beleza. Não consegui desviar os olhos e percebi que notaras, pela satisfação de teu semblante. No outro dia, a mesma coisa. No terceiro dia, minha mãe disse que teria de ir, rapidamente, à padaria, pois tinha esquecido de comprar o pão. Eu fiquei, pois ela mandou arrumar a roupa passada e levar para seu quarto. Peguei, cuidadosamente, suas roupas. Não me contive e procurei teu cheiro nas roupas que já estavam guardadas. Demorei pouco, mas o suficiente para que passasses pela porta do quarto rumo ao escritório e me avistares. Dias depois, lembras? Sim, alguns dias depois, às escondidas, entrei em seu quarto, me despi e cobri o corpo com o lençol lavado por minha mãe. Imaculadamente branco. O instinto masculino lhe guiou até meus braços. A volúpia e o prazer tomaram conta de nossos corpos. Fui embora e não sei que fins destes ao lençol. No outro dia ouvi mamãe procurando saber seu destino. Assim, se passaram cerca de quinze dias de encontros furtivos e repletos da maior intimidade. 
Tenho certeza que não esquecestes desses dias. 
Estás envergonhado? Era a juventude, se procuras alguma desculpa. Ainda não tinhas vinte e seis anos. Eu, menina, estava perto dos dezoito.
Eu sei que é difícil, mas preciso de forças para lhe contar o resto. Como escrevi acima, talvez amanhã rasgue está carta e jogue os pedacinhos na bacia sanitária. 
R., que morava na minha rua e não escondia sua paixão por mim, foi a salvação. Salvação, neste caso, por expressar algo divino, talvez não seja a palavra apropriada. Mesmo no desatino daqueles dias, tive receio do que o pior tinha acontecido e tomei uma atitude drástica. Na festa da padroeira. Bonita festa, não é verdade? Na festa, R. dançou comigo e, por astúcia, lhe induzi a ingerir garrafas e mais garrafas de cerveja, para depois me levar até o canto mais escuro da praça. Na agonia do desejo e no desalinho da embriagues, ele pensou que o troféu era dele. No outro dia, à noite, falou preocupado comigo e com minha reputação. Cai no choro. Chorei de verdade. Chorei com raiva do que havia acontecido entre nós dois. Chorei com raiva porque enganara R. Ele me pediu em casamento. Na mesma noite, impulsionado pelo amor que me devotava e pela sua dignidade, falou com minha mãe. Dona M quase que caiu de costas. Não esperava aquilo. E vocês namoram desde quando? E vocês vão viver de quê, meninos? Uma pergunta atrás da outra. A resposta curta e certeira capaz de derrubar todas as indagações. Eu “mexi” com ela D. M. Mamãe levou às mãos ao coração e caiu no sofá. A pressão dela subiu e teve uma crise de angina.
Destes detalhes não sabias, não é mesmo? Ainda estás a ler? Tuas mãos estão suando porque estás nervoso? Estás com raiva? Tens ódio? Eu sim, neste momento tenho tanto rancor que os dedos doem de tanta força que estou fazendo na caneta. Amanhã, talvez eu rasgue esta porcaria e deixe você, definitivamente, alheio a tudo o que aconteceu. Ou será que você sabe do que aconteceu? Sabe? Se estivesses em minha frente, agora, e eu permanecesse com esta coragem momentânea, lhe perguntaria: “Sabes, o que aconteceu, covarde?”.  Deixei de ir à sua casa. Dias depois, o casei com R. Da cerimônia lembras com certeza. A minha mãe se esmerou em aprontar a igreja. Minha barriga já dava sinal, mesmo assim casei de branco. R., foi a melhor pessoa que conheci na vida. Sim, ele morreu. Faz dois anos. Tivemos duas filhas. A primeira barriga deu um menino. Ninguém nunca soube de nada. Mamãe, quando estava no seu leito de morte, no ano passado, me chamou e perguntou de quem P., era filho. Não minta, minha filha. Eu disse a verdade e ela descansou em paz. Eu e P., precisamos de sua ajuda, por isto lhe escrevo. Agora, deves ter rasgado a carta em mil pedacinhos, ou então, queimou-a. 
A noite já vai alta, mesmo assim preciso continuar a escrever, pois se parar agora, amanhã não terei coragem para recomeçar. Estando ainda com a carta em suas mãos é sinal de que estás ansioso para saber o que desejo. Tens medo de extorsão? Escândalo? Paciência, lês o restante do que tenho para te dizer. Se você não destruiu esta carta até o presente momento é porque tens medo, repito. Espere um pouco, ainda. Preciso lhe dizer que quando R e eu nos casamos, o pai dele nos deu terra e gado para criar. Com muito esforço R. soube conduzir a propriedade, ser meu senhor e marido. E, principalmente, pai dos três filhos. Estás a amassar a carta? Não faças isso. Continue a leitura. R, apesar do pouco estudo, compreendeu que eu precisava continuar estudando e, todas as noites, eu vinha para o colégio e assim, mesmo entre uma barriga e outra, conseguir concluir o ginásio. Mas não ficou nisto, fiz Faculdade de Pedagogia e conseguir ser aprovada como professora do Estado. Um sorriso de sarcasmo talvez escape dos teus lábios agora. Professora? Professorinha? Afinal, todos aqui ficamos sabendo de sua ascensão e que fostes estudar até em Roma e obtivestes grau de “Doutor”. Quando os meninos cresceram viemos morar na Cidade. R., todos os dias, ao amanhecer do dia, rumava para a fazenda, cuidar da terra e dos animais. Assim prosperamos e conseguimos amealhar certo capital. Disto não me queixo. R., entretanto, de tanto lidar com vermífugos e carrapaticidas, contraiu um vírus fatal e morreu precocemente. 
Estás a se perguntar porque lhe digo estas coisas? Não desconfias da verdade? 
Bem, R. morreu, as duas meninas se casaram e foram morar em V.
P., também se casou, mas ficou aqui, tomando conta da fazenda, repetindo a vida de R. Ele tem dois meninos lindos. Estão os dois aqui em casa e daqui da sala ouço a respiração forte deles. Brincaram o dia todo, alheios à tristeza da casa.
Podes ser frio, canalha, covarde. Sim, penso estas coisas a seu respeito, se queres saber. Podes ser tudo isto, mas és inteligente e sabes aonde eu quero chegar. É. Isto mesmo. P. é seu filho!. Seu filho, seu filho da puta. Me desculpe, mas agora estou chorando de raiva. Ele está preso há vinte dias, acusado de receptação de cinco novilhas que comprou na feira do gado. Já contratei advogado e não teve jeito. Ele recorreu para o Tribunal e, como tenho visto na internet, és íntimo do desembargador que está com o processo dele. Uma palavra. Apenas uma palavra em favor de teu filho e de teus netos, é o motivo desta carta. Rogo-lhe por tudo que é de mais sagrado. Fazes isto e apagarei todas as mágoas que me causastes. Para teu consolo, juro de coração, que foi melhor você ter ido embora antes que P. nascesse. Eu fui feliz com R. durante toda nossa convivência. Por ele, pela dignidade póstuma dele é que eu também te afirmo, mesmo com raiva, que se não fizeres nada. Que, mesmo que não movas um dedo em favor de P., eu não falarei nada a ninguém. Este segredo somente eu, mamãe e você é que saberemos para sempre. Não por mim e por você, mas pela dignidade de R. Procuras o desembargador que eu te falei, tu sabes quem é ele, pois vocês estavam numa mesma solenidade na semana passada. 
Sim, quando assumistes o cargo de tanta distinção que ocupas agora, a cidade festejou e surgiu o boato de que virias até aqui, aonde principiarias teua dias de ministério.. Eu tinha certeza de que não virias. Muitas casas, principalmente, na zona rural, exibem seu retrato oficial. Aqui não tem. Na casa de P., por iniciativa exclusiva da mulher dele, influenciada pela mãe, está sorridente e sereno na moldura da sala.
Estás aliviado? Já normalizou a respiração? Tuas mãos pararam de tremer? Fazes o que quiseres desta carta. Era tudo o que tinha a dizer, para sempre. Mas fazes este gesto, para curares tua vergonha. Reconheces o teu pecado. A Bíblia diz em Salmos 51:2-4 “Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.”. Afasta-se, pois do pecado, eu te perdôo, se fizeres isto por seu filho.
O reverendíssimo bispo Dom C., sentou-se na cadeira de sua escrivania, fechou os olhos e aparentou dormir. Dois ou três minutos depois, se levantou, passou a mão pela cabeça totalmente calva e se dirigiu até o canto da sala onde ardia uma vela e queimou a carta.

O BARBEIRO DE AFOGADOS

Foi numa terça-feira, 10 de fevereiro de 1885. Faz muito tempo, leitores. Há cento e vinte cinco anos. Aconteceu no bairro dos Afogados, em Recife, mais exatamente na Praça da Paz, conhecida hoje como Largo da Paz, embora aquilo ali seja atualmente uma confusão de gente andando, entrando e saindo das lojas, transitando entre carros, caminhões e ônibus (parece que todas as linhas que se destinam à zona sul pobre do Recife e da região metropolitana passam por ali). Naquele tempo antigo, o logradouro em questão era, de fato, uma praça tranqüila e aprazível. Porém a paz que ali reinava foi quebrada na madrugada do dia acima anotado. Dormia o sono dos justos, um colega de Fígaro no andar de cima de sua casa, já que o debaixo era utilizado para o serviço de cortar cabelos, limpar rostos e aparar bigodes da freguesia. O animoso homem foi acordado com barulhos que em nada lembravam o som laborioso de suas tesouras e navalhas. Despertado do torpor gostoso do sono, armou-se de uma afiadíssima navalha que, evidentemente, manejava com indiscutível maestria e foi verificar o que acontecia. Três sócios do Olho Vivo estavam a limpar as gavetas de sua oficina, à procura de coisas que não lhes pertenciam. Os larápios, jovens imberbes, perderam a tramontana ao perceberem a disposição varonil da vítima e se safaram na maior carreira, esquecendo um litro de aguardente. Refeita do susto, a indigitada vítima, começou a repor as coisas no lugar quando se deparou com a bebida deixada pelos ladrões e lembrou de uma velho provérbio de sua terra: “se afoga mais gente em vinho do  que em água”.

ALEGRIAS E DESDITAS DE SETEMBRO

Hoje é dia 11 de setembro e, tendo vindo ao mundo em um mês de setembro, desde cedo me acostumei ao prazer de desfrutar as alegrias desta quadra do calendário. “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, quero ver brotar o perdão”, dizia a música que parecia retratar com fidelidade os dias radiosos do mês que prenunciava o verão no Nordeste: “Vamos abraçar o sol”, dizia uma propaganda da Prefeitura do Recife, alusiva aos primeiros dias do mês de sete da década de 80. Por essas circunstâncias, evidentemente que muito mais pela data de nascimento, o mês de setembro sempre me pareceu tempo de alegrias e de esperanças. Setembro sempre fora os domingos de sol na praia da Boa Viagem, em Recife, dias de jogar futebol ou ir à Ilha do Retiro assistir aos jogos do Sport, nas tardes daqueles domingos. Setembro era, também, as noites quentes, amainadas pela brisa suave que varria a Praça Maciel Pinheiro.  Pode acreditar, desocupado leitor, era asensação de alívio provocada por um simples banho frio. Era o caminhar sob o sol escaldante do Colégio Radier, na volta para casa.Os dias de setembro até pareciam maiores. Assim vivenciei incontáveis dias de setembro. Hoje, mais maduro, fico desolado com a permanência do frio e das chuvas durante o mês e, por acaso, dando uma olhadela numa página tipo “aconteceu há 50, 25, 15...05 anos atrás”, tomo consciência de que foi num dia destes, há 50 anos atrás que morreu JOSÉ LINS DO REGO, autor marcante na minha formação intelectual, a ponto de me sentir íntimo de alguns de seus personagens. Morreu moço, depois de uma agonia prolongada causada pela cirrose. Uma tristeza, que agora repercute em mim. Mas, não bastasse isso, foi também num dia de hoje, que uma figura quase mitológica para minha juventude, suicidou-se para não cair nas mãos sujas de seus algozes: ALLENDE, o Presidente do Chile que foi traído pelo exército e por seu comandante. Recordo-me de sua figura circunspecta, cobrindo a cabeça com um capacete e uma metralhadora na mão caminhando desoladamente entre os escombros  do palácio La Moneda, que estava sendo  bombardeado pelo Exército. Não precisava mais nenhuma tristeza para o mês de setembro revestir-se de cores sombrias, mesmo assim, minha maior lembrança destes dia é e, será sempre, do ataque às torres gêmeas de Nova Iorque (11/09). Um crime contra a civilização. Pior é que o ataque foi uma resposta às violências praticadas pelos Estados Unidos contra várias nações do mundo, nas últimas décadas, numa clara demonstração de incapacidade de solução pacífica dos conflitos da geopolítica mundial. Pensando em  todos esses fatos, é que me dei conta de que muita, mas muita desgraça mesmo, aconteceu em setembro (assim como em todos os dias do ano, eu sei). Não sou místico e sei que o tempo é um só, objetivo e não contém nenhuma subjetividade. O tempo não é melhor ou pior, per si, é apenas o tempo, algo que acontece sem qualquer interferência humana, exceto sua contagem. Mesmo não tendo nada de místico, sei que ultimamente os esotéricos e boa parte da população anda inclinada a creditar ao tempo certas mazelas e infortúnios vividos pela humanidade, em virtude do alinhamento (melhor seria dizer desalinhamento) deste ou daquele astro. A espécie humana, vencedora de todas as batalhas contra a natureza e os astros, infelizmente, parece que não se dá conta de que o tempo é senhor de si mesmo, porém, é despossuído de vontades e qualidades (e precisava? Poderiam perguntar). Mesmo despido de desejos, reconheço que o tempo é senhor da vida e não precisava mesmo destas qualidades, pois, afinal, é como o ditado diz: “Cavalo que voa não pede espora.”. Despeço-me deste setembro, afirmando ao eventual leitor desta crônica, desejando-lhe  bom dia ou boa noite, conforme seja a hora.



Augusto N. Sampaio Angelim
São Bento do Una/PE




Comentários:


É sempre uma satisfação ler os textos produzidos por quem tem a facilidade de contar histórias envolventes como faz Augusto Angelim. 

Os seus escritos envolvem o leitor e o coloca bem no meio do acontecimento, despertando assim os mesmos sentimentos e as emoções que lhes deram origem.

Parabéns a Augusto pela boa qualidade das suas produções e a Carlos pela oportunidade que nos oferece.

abraço

Alberto Vasconcelos.
Santo André da Borda do Campo/SP, 02 de abril de 2017