terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O dia que não veio

Autora: Denise Coimbra

Rita morava numa fazenda em Unaí, Minas Gerais. Ela tinha seis irmãos. Cinco deles exerciam profissões no Brasil e no exterior: economista, enfermeiro, empresário, médico e professor. Simão, o sexto, desde menino tinha habilidades tão especiais e incomuns que merecera da família, escola e comunidade uma atenção maior. Ele desmontava e montava qualquer tipo de equipamento eletrodoméstico e fazia algumas esquisitices: inventava palavras, escrevia frases esdrúxulas e via o que ninguém via.
Aos sete anos, ele passou a fugir de casa. Por causa disso também, o pai construiu um quartinho para ele no fundo da casa, ao lado da cozinha. Ao invés de porta, o quarto tinha grade. Rita condoia-se da situação do seu irmão, tal e qual um passarinho preso numa gaiola. Bastante evidente, era a ligação entre os dois. Somente ela o compreendia e nunca se zangava com ele, apesar dos hábitos bizarros e gritos aterrorizantes que ele dava quando era contrariado.
As pessoas zombavam dele e o chamavam de doidinho ou zureta. Rita não se conformava com isso e brigava sempre com quem fizesse escárnio dele ou o humilhasse. Em seu coração de menina, sabia que o irmão sofria muito, mesmo que calado. Desde então, tornou-se protetora e parceira dele em algumas excentricidades. E guardavam segredo. 
Assim que o menino aprendera a ler e contar os números ele deixou a escola e passou a colecionar calendários. Ele os guardava embaixo da cama e do travesseiro. Um dia ele ganhou um calendário bem diferente. Os dias eram apresentados, um de cada vez, em pequenas folhas de papel que podiam ser destacadas do conjunto. Simão pregou-o na parede ao lado da porta de saída da casa e toda noite, às 21h15min, ele se dirigia ao calendário, arrancava a folha referente ao dia que estava por terminar e a colava num caderno grande debaixo do travesseiro.
Quando os pais morreram, ele tinha 18 e ela 20. Antes de morrer, a mãe, fizera Rita prometer que jamais abandonaria a fazenda e o irmão. Ela sabia que Simão não conseguiria se adaptar em outros lugares, a outras pessoas e a novos modos de viver. Os outros irmãos, ao ficarem órfãos, mudaram-se um a um e nunca mais voltaram, apesar de telefonarem com certa freqüência e enviarem dinheiro para ajudar nas despesas da casa.
Rita e Simão viviam numa espécie de bolha, quase em completo isolamento do que se passava na cidade, no Brasil e no mundo. Para ele, essa vida parecia bastar, pois quando  fugia, descobriu-se que ia somente até o riacho próximo à fazenda e, nu deitava-se de costas na água e boiava dando risadas estranhas e assustadoras. E, quando o pai gritava-lhe que voltasse para casa, ele o acompanhava sorrindo, como se nada tivesse acontecido.
Para ela, essa vida não parecia suficiente. Uma vez por mês, quando ia à cidade fazer compras, ela entrava na rodoviária e olhava os passageiros embarcarem. Nesse dia descobria-se invejosa e um tanto amarga, mas também extremamente sonhadora.
Um dia depois do seu vigésimo quinto aniversário, ela foi reconhecida por uma colega, quando comprava uma passagem num guichê. Despistou-a logo e voltou correndo para casa.  Sentia-se como uma sonâmbula. Não sabia se por ter sido despertada do estado dormente em que parecia ficar quando chegava à rodoviária ou por não perceber que tinha um motivo para deixar aquela vida.
Para onde eu iria? Porque eu iria? Perguntava-se Rita, muito incomodada, à medida que voltava para casa. Naquela noite, deitada na cama, ao cobrir-se sentiu o peso da promessa feita à mãe e o amor que sentia pelo irmão desabarem em cima dela como um barranco desmoronando após uma tempestade. Ao fechar os olhos para dormir era como se estivesse morta.
Aos 36 anos, Rita conhecera o amor num encontro repentino com um botânico australiano que viera estudar algumas espécies nativas raras, numa fazenda próxima. Ela estranhou o fato de que, ao voltar para casa, um homem caminhava na mesma direção que ela, só que mais rápido. Ao contrário dela, ele parecia ter pressa para chegar ao seu destino.
Impulsivamente, ela apertou o passo tentando alcançar o homem que chamara tanto a sua atenção. Logo, caminhavam lado a lado. Desde então, encontravam-se todas as tardes e, enquanto o homem conhecia melhor as plantas que pesquisava, a mulher conhecia melhor o homem que poderia alterar drasticamente a distância dos passos que ela alcançaria dali por diante.
Subitamente, ela percebera que sua vida virara de ponta a cabeça. Não conseguia fazer suas tarefas regulares sem interrompê-las ou esquecê-las e Simão começara a queixar-se da pouca atenção que a irmã lhe dedicava. Ao conhecer Gregory, Rita sentia-se mais animada. Eles tinham uma compreensão peculiar porque a linguagem do amor é universal e os amantes não poupavam esforços para entenderem-se. A cada encontro, dentro dela, brotava forte e vibrante a vontade de realizar planos. Decidiram que não se separariam mais.  Contudo, ela precisaria deixar Simão e a fazenda e partir para a Austrália.
Angustiada, Rita implorara várias vezes a Gregory que levassem o irmão com eles, mas o botânico fora irredutível. Ele temia que Simão não suportasse a mudança de país e que suas esquisitices não fossem tão bem compreendidas numa cultura diferente. Mas o que Rita não imaginava é que o ciúme de Gregory fosse o motivo principal para afastar o irmão dela.  Transtornada e culpada, finalmente na véspera da partida dele, ela consentiu em viajar sem o irmão.
Sabido que o amor, nos seus primórdios, não espera para consumar-se, combinaram o horário da partida para as 05h50min da manhã do dia 21 de abril. O ônibus passaria as 6 h em frente à porteira da fazenda, onde ele a esperaria. E, mesmo que ela se atrasasse ou não viesse ao seu encontro ele não iria buscá-la. Nisso concordaram e com muito desgosto. No dia seguinte o avião sairia às 9 horas de São Paulo e faria duas escalas antes da aterrissagem em Sidney.
Rita voltara para casa, alucinada. Ela abandonaria o irmão. Meu Deus! Gritou exasperada. A última vez que vira o Simão desesperado foi no dia da morte da mãe.   Ela o acalentou até suas pernas ficarem anestesiadas e o irmão não ter mais lágrimas. Disse a ela que seu coração ficaria para sempre vazio e rachado, como o açude perto da fazenda, que há muitos anos secara.  
Endoidecida, não entendia as imagens de sua vida que passavam em sua cabeça. A lembrança do irmão, recusando-se a ir à escola. Aos berros, ele apontava para o calendário na parede, dizendo que não existia o primeiro dia de fevereiro. Ninguém entendeu e, muito menos deram importância para aquele gesto. A imagem da mãe segurando o seu rosto e lhe exigindo que prometesse nunca abandonar Simão quase a fez desmaiar. Em pânico, Rita pensou em desistir de Gregory e da vida que ela queria construir ao seu lado. Debateu-se contra essa ideia como alguém que luta para respirar ao ser estrangulado.
Lembrou-se da caixa de remédios do irmão e decidiu tomar a metade de um comprimido. Desistiu porque teve medo de não acordar e perder o ônibus que a levaria ao aeroporto. E também porque poderia ao ver os comprimidos tomar muitos deles. Assim não precisaria decidir e muito menos ir embora.  Durante quase toda a noite, sem saber o que fazer, andou de lá para cá. Ao olhar para os riscados no chão, teve a impressão de que eram pinturas rupestres desenhadas pela sola do seu sapato. Dormiu com a impressão de que aquela noite duraria uma eternidade...
Acordou sobressaltada: faltavam 25 minutos para as 6 horas. Já na sala, caminhou silenciosamente para que o irmão não acordasse. Ao abrir a porta da casa, viu o calendário na parede ao lado e tomou um susto.  A folha mostrava 22 de abril. Como assim? Ela havia dormido no dia 20, ansiosa e muito nervosa, mas não tinha dormido tantas horas! Não poderia ser! Será? Ao imaginar Gregory entrando no ônibus, sentiu uma dor no peito tão forte, quanto a que sentiu, quando viu Simão arrancar um dos olhos e jogar-se contra a grade do seu quarto, furioso, logo depois de saber que um dos irmãos havia vendido D. Quixote, seu cavalo alado.
Mesmo atordoada com a violenta lembrança, recordou-se do dia 18 de novembro, o dia da prova do vestibular de jornalismo, profissão que ela escolhera exercer. Nesse dia, ela não acordou. Tal acontecimento embora inesperado nunca fora contestado por ela. Como havia estudado muito e, durante muitos dias, ela acreditara realmente ter dormido e acordado no dia seguinte à data da prova.  
Depois que os pais morreram e os irmãos foram embora, sentia que os acontecimentos marcados pela passagem das horas ou dos dias, deixaram de ter importância para ela, mas não para o irmão. Ele continuava a destacar os dias do calendário e os guardava.
Teve um lampejo e correu para o quarto à procura de outro calendário para certificar-se do que estava acontecendo, mas lembrou-se do fato de que o irmão sempre guardava todos com ele. O calendário da parede era o único que ficava à mostra para que ele, a cada dia, destacasse o dia que viria.  
Desconfiada, Rita abriu a porta do quarto de Simão, mas ao vê-lo dormindo tão sereno não teve coragem de acordá-lo. No dia anterior, logo que se despedira de Gregory, Simão estava muito inquieto e batia as mãos na cabeça repetidamente. Ela tinha certeza de que ele pressentira que ela iria embora, como o dia em que a mãe morrera. Na véspera, Simão passara o dia ao lado dela inventando palavras e frases esdrúxulas. Não comeu,  nem dormiu e saiu correndo, assim que a mãe morreu. Só apareceu dois dias depois do enterro.  
Ao fechar a porta do quarto, Rita reparou no quadro dependurado na parede e viu nos olhos suplicantes da mãe, a mesma expressão quando ela pediu à filha que nunca se  separasse do irmão porque ele não suportaria o mundo sem a sua presença. Perseguida por essa imagem e pelo sono sereno do irmão, Rita voltou para o seu quarto. Resignada, deitou-se na cama e chorou. Chorou tanto que “Seu Raimundo”, um velho conhecido da família, ao saber do ocorrido, arrematou: “chorar faz bem minha fia. É o choro que impede o coração de morrer afogado na tristeza e na aflição.”
No dia seguinte Simão entrou no quarto e pediu-lhe que preparasse o café para ele. Assim ela fez. Em silêncio, alimentaram-se e ele foi dar comida às galinhas.
Rita, como costumeiramente fazia, foi até o quarto do irmão. Ao arrumar a cama, encontrou embaixo do travesseiro, o caderno grande.
Nele, todos os dias destacados do calendário estavam colados seguidamente. Entretanto, o dia 21 de abril, colado em uma página separada, tinha a seu lado, o dia 18 de novembro e o dia 1 de fevereiro.
Abaixo de cada um deles, Rita leu estupefata a seguinte frase: O dia que não veio.

Autora: Denise Coimbra - Bom Despacho/MG

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O poeta das rosas

Texto de: Samanta Geraldini
Existe, no mundo, milhões de pessoas apaixonadas. Mas são poucos os homens que amam como Jerônimo.
Este poeta de 30 anos conhece as mais belas palavras, os gestos mais cavalheirescos, os galanteios mais românticos. Ele tem, escondido num pedaço pequeno dentro de si, o mais inflamado e vibrante coração.
E por mais que tenha todas essas qualidades raríssimas, a única mulher que seu coração deseja nada quer de sua pobre existência. O coitado escreve poemas, recita canções, entrega presentes e declara seu amor, mas ela o despreza com toda a intensidade de sua beleza. E ela é tão bela e perfeita!
Cansado de ser ignorado por sua musa inspiradora, pela primeira vez em sua vida, Jerônimo cometeu a insânia de beber até não aguentar mais. Bebeu tudo o que o dono do bar lhe oferecia. E sendo o dono do bar um grande amigo do noivo dessa donzela motivadora de tanto amor e desgosto, não foi pouco o que ele ofereceu. Os primeiros goles desciam amargos e queimavam ainda mais o coração pulsante de paixão. Depois da quinta dose, todos os sentidos pareciam adormecidos e o líquido descia com maior leveza, despreocupado com o perigo de combustão.
Horas se passaram e Jerônimo enchia e esvaziava seu copo. Começou a ficar delirante na terceira hora. Na quarta, permanecia sentado, porque já não era mais possível manter-se sobre os pés sem beijar o chão.
Ao anoitecer, não restava-lhe um mero centavo no bolso e expulsaram-no dali. Chorando e lamentando sua falta de sorte em versos febris, Jerônimo caminhou como pôde até chegar numa praça. Sentou no banco de madeira pintada de branco, retirou seu chapéu e o apertou contra o peito. Depois de tudo, a dor não havia acabado!
“As fibras de meu coração pedem para arrebentar. Será que meus versos estão quebrados? Será que minhas rimas não transbordam como deveriam? Por que o amor é tão amargo para mim?”
As palavras escapavam trocadas de sua boca por meio de soluços, engasgadas e suspiros de dor. Balbuciando coisas que nem mesmo ele conseguiria decifrar, o homem retirou de seu bolso da calça um papel amassado, cheio de rabiscos de um último poema que tentou escrever, mas seu sofrimento não permitiu que fosse concluído.
E nessa situação deplorável, bêbado e chorando, Jerônimo começou a conversar com as flores ao seu redor:
“Minha rosa, minha linda rosa branca! Como tu és linda e pura ao redor dessas outras damas de vermelho. Me concede a mão para uma única dança?”
Embrenhando-se no florido jardim, onde uma única rosa branca brilhava entre as híbridas, foi pisoteando a grama em seus passos tortos e sem direção. Chegando mais perto da flor, continuou a dizer, enquanto abaixava e estendia sua mão:
“Se não quiseres dançar comigo, minha linda rosa, eu não me importarei. Mas fale comigo, eu preciso ouvir o som da tua doce voz.”
A rosa, por falta de boca, não o respondeu.
“Rosa, linda rosa, não se acanhe. Eu te amo!” Arrancou a flor do jardim e levantou-se, seus olhos lacrimejando com lágrimas tão amargas quanto sua dor. “Case comigo, não ouça o que lhe dizem. Eu sou o único que te ama, minha rosa. Mais ninguém saberá te fazer feliz. Case comigo, sim?!”
Beijou a rosa com fervor e segurou-a contra o peito. Assim, tornou a andar, naquela passada perigosa sem rumo algum. Dizia “ao ouvido da flor” o quanto a amava, o quanto seriam felizes. E nessa cena trágica, cômica, mas acima de tudo cruel, Jerônimo chegou à igreja. Um casamento estava acontecendo.
Entrou, ignorando os convidados que apreciavam a cerimônia e o ritmo da música tocada no piano. Caminhou com toda a firmeza que suas pernas moles conseguiam manter, tendo a flor ainda segura contra seu peito, e dessa forma ultrapassou a noiva, esbarrou no noivo, chegou ao altar e começou a gritar:
“Padre, me case logo com minha rosa. Ninguém pode nos impedir disso!”
“Senhor, você está bêbado, veja o que está fazendo! Como quer que eu lhe case com uma flor?”
“Ela é a minha rosa. Minha linda flor branca. Mais ninguém pode casar com ela...”
“Jerônimo?!” Gritou a noiva, correndo para mais perto. “O que faz aqui?”
O homem virou-se para ela e imediatamente derrubou a flor ao chão. Por um instante, toda sua embriaguez se dissolveu e o amor profundo que sentia pela Rosa, a verdadeira Rosa, retornou ferozmente dentro de seu coração. Ele caiu de joelhos, chorando, pedindo perdão. Pedindo que a mulher se casasse com ele.
O noivo, enfurecido, avançou com um ponta pé, o derrubando com a cara no chão. Desesperado, o padre segurou o rapaz, enquanto Rosa erguia a face de Jerônimo. Ela também chorava as mesmas lágrimas amargas de um amor sufocado.
“Case comigo minha Rosa. O amor não floresce no peito infértil. Apenas em jardins vastos e acolhedores. E meu amor por ti é mais florido que os Campos Elíseos. É o mais bonito de todos amores.”
E quando Rosa secou as lágrimas de Jerônimo com o sorriso mais lindo que uma mulher pode dar, a alma do homem sorriu também. E quando ela aproximou os lábios dos seus para beijá-los, despreocupada com erros e acertos, a alma tentou escapar pela boca. E quando, por fim, ela disse sim ao pedido matrimonial, a alma amarga e ébria despertou, ao abrir dos olhos de um bêbado apaixonado a chorar e adormecer de amor no banco da praça.

Em parafuso

Texto de: Samanta Geraldini
Lá estava eu a torcer e afrouxar parafusos no setor maquinário mais uma vez. Era um trabalho extremamente monótono, desgastante e humilhante, mas era o melhor que conseguira para sobreviver nesses últimos anos de muito perrengue.
A esteira passava com os objetos de aço e eu, com uma pequena chave, rosqueava o parafuso o mais rápido possível, apertava o botão vermelho à frente e fazia a esteira rolar, até que o próximo objeto chegasse. E isso se repetia durante todo o expediente. Eram oito horas seguidas nesse trabalho que qualquer robô faria mais rápido e melhor que eu.
Não darei muitos detalhes da firma onde trabalhava. Era um lugar pequeno, sujo e malcheiroso, e tenho pouca empolgação para dizer algo mais a respeito.
Os setores eram separados em “maquinário” e “elétrico”. No entanto, apenas poucos passos e uma parede separavam os trabalhadores de cada lado.
Luzia trabalhava na caldeira, no mesmo setor que eu. Ela era tudo pra mim! A mulher que me fazia ter ânimo para continuar trabalhando como apertador de parafusos, que me fazia esquecer o que é “sentido horário” e “sentido anti-horário” e me perder todo na função mais fácil do mundo, que me fazia querer ser alguém na vida e levá-la comigo para viver no meu mundo ideal. Mas Luzia era uma mulher muito independente e mal me notava naquela oficina.
Para fugir do tédio, meus colegas e eu sempre conversávamos. Falávamos de coisas bastante banais, mas que eram um alívio para nossas mentes enferrujadas que iam, cada vez mais, perdendo o senso crítico e a capacidade de pensar. Nesse dia em questão, conversava com meu velho amigo Barret, uma francês-zinho que veio ao Brasil não sei para quê, instalou-se na minha casa e decidiu, como um espelho, fazer tudo o que faço da vida.
- Barret, faz um favor para mim? Larga essa chave suja de óleo e vai na caldeira ver o que a Luzia está fazendo. Eu faço trabalho dobrado enquanto você não chega.
- Por que eu tenho que ir? Vá você! É você que gosta dessa mulher! – retrucou ele, com um ar de revolta raríssimo de sua parte.
- Oras, não é você quem gosta de tudo o que gosto?! – estava revoltado também.
- O quê? Cher ami, preste atenção no que está falando! Tudo bem, eu vou, mas porque sou uma pessoa de bom coração.
Trabalhando, trabalhando e trabalhando, sem nunca me sentir orgulhoso de nada, eu via os minutos passando. Sentia fome e um roncar vergonhoso no estômago que, por vezes, chamava atenção dos meus companheiros de cargo. Sentia sono, porque quando chegava em casa e tentava dormir, eu continuava apertando parafusos mentalmente e não descansava de jeito nenhum. Sentia raiva de Barret que não voltava mais, deixando seu trabalho em minhas mãos. E também sentia uma estranha coragem para falar cara a cara com Luzia, qualquer coisa que fosse, só para poder ouvir sua voz e alegrar meu dia inútil.
E como Barret havia desaparecido, virei-me para o mais novo companheiro de função e lhe disse:
- Muito bem, é hora de ver se você realmente está preparado para isso. Cubra meu serviço por um instante. Ah, e o de meu amigo também, já que eu estava cobrindo-o.
Antes que ele abrisse a boca para resmungar, eu havia virado as costas e seguido em direção à caldeira. Usava uma flanela amarela para retirar o óleo das mãos, no entanto parecia que usá-la para secar o suor que surgia em minha testa seria mais favorável.
Mas quando avistei Barret e Luzia conversando amistosamente em um canto daquele cubículo onde ficava o forno de centenas de graus, meu sangue ferveu e não havia toalha que secasse o suor escaldante em meu rosto. Meus punhos se fecharam enrijecidos e eu parti para cima do francês de sangue quente e cabeça vazia, sem pensar na cena esdrúxula que iniciava.
Contudo, antes que meu soco atingisse a cara barbada daquele baixinho, Luzia se interpôs e me fez parar.
- Não! Porque faz assim com seu amigo, que só quer te ajudar?!
- E me ajuda cortejando a mulher que amo? Ora essa, não é assim que funciona uma amizade...
- Cher ami, eu estava apenas contando a ela o quão talentoso você é. Umas mentirinhas às vezes ajudam, você deveria saber.
Depois desse insulto, não me contive e avancei uma segunda vez, desviando de Luzia e acertando em cheio o estômago de Barret. A mulher, atrás de mim, deu um grito rouco, e eu, pensando que fosse apenas frescura de mulher, ignorei e desferi novo golpe no meu falso amigo.
Luzia, porém, continuava gritando, e era um grito agudo e cheio de medo. Olhei para ela e vi algo estranho surgir atrás de sua silhueta. Uma chama ardente de fogo consumia sua roupa e queimava sua adorável pele. Tentei socorrê-la, mas fui agarrado por Barret e levei um chute atrás do joelho, caindo no chão.
O homem correu e pegou-a no colo, no ato mais estúpido de todos. O fogo, que antes invadia o tecido branco do avental de Luzia, passou a percorrer as malhas da roupa de Barret também. E os dois pulavam e gritavam numa dança bizarra que me fazia rir e enfurecer num só instante.
Por sorte consegui pará-lo. Retirei minha dama das mãos dele e, nesse tempo, alguma pessoa mais pensante que eu e meu amigo já vinha com um balde d’água para apagar o fogo.
Envergonhado, voltei para minha esteira e continuei apertando os parafusos até o horário de ir embora. Pela rua, Barret e suas manchas roxas pela face me seguiam, como sempre fizeram e sempre fariam. E como esperava, Luzia nunca mais olhou para mim, dando um fim a nossa história de amor que ao menos teve um começo.
E sofrendo de amor, com meus parafusos soltos e perdidos em algum lugar dentro de mim, cá estou eu, a torcer e afrouxar parafusos de ferro, pois esta é a única coisa que sei fazer.   

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sol e chuva

O que direi sobre o dia de hoje? Hoje fez chuva e sol. Hoje eu tenho um pensamento bom. Estou feliz porque o meu amor escreveu para mim. Resolvi cortar os cabelos para que eu não continuasse tão desenfreada assim. O meu pensamento escorre nos fios oleosos, e então, perco-os no percurso do corpo fino e longo como o tempo.
Li uma carta de amor para os meus alunos hoje. Isabel ficou muito interessada em ouvir cada palavra. Os seus olhos brilhavam adolescentes. Lá fora, sua alma percorria corredores infinitos. No corpo, frêmitos de paixão.
Não está mais chovendo agora. Eu quero andar no caminho do sol. Tenho o brilho e a esperança do arco-íris. Meus olhos são verdes como o desejo dos gatos e os pelos são como mechas pretas e brancas, que se opõem aos pulos, ora fogo ora neve. Ora chuva ora sol. Ora paixão ora amor. Ora chuva ora sol. Ora chuva ora sol. Ora longe... ora perto...

Autora: Anajara Lopes - Itapecerica/MG

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O anjo

Apenas mais um dia.
Como tantos outros, voltaria para casa, apenas por voltar, sem qualquer motivo. Ou simplesmente para não dormir nas ruas.
Para que voltar? Por quê?
O que poderia ser, para ele, a casa? O lar?
Julio já não podia distinguir. Não sabia a diferença entre a casa, lar ou local de trabalho. Para ele existia a repartição e o seu dormitório, que infelizmente estavam em locais diferentes e distantes. Uma realidade que exigia dele aquela rotina de ir e vir.
Seu cotidiano era o ônibus, sempre cheio e desconfortável. Os motoristas pareciam estar conduzindo carroças. Totalmente despreparados não fazia diferença o que transportavam. Freavam bruscamente, as curvas eram sempre feitas em velocidade incompatível com o conforto do passageiro. Mulheres, crianças e até idosos viajavam em pé e eram jogados de um lado ao outro pela falta de qualificação do condutor.
Como nada havia para pensar, Júlio se concentrava nesses detalhes. Mas sabia ele que se lá houvesse alguém que o esperasse tudo seria diferente. A viagem de ônibus até a casa seria uma prazerosa aventura. A chegada seria compensada com um abraço amoroso de boas vindas.
O que resta para Júlio?
Depois de tudo, nenhuma esperança ou sonho alimenta. Acostumado com aquela rotina já nem sentia saudade. Tornou-se um ser robótico, sem sentimentos.
Mas sua vida já havia sido diferente.
Teve alguém. Um amor, quem sabe? Mas certamente alguém que lhe fazia companhia no café da manhã, sempre preparado com carinho.
Alguém que sempre o aguardava à porta quando do trabalho voltava. Que gozava a preferência da sua companhia em agradáveis passeios pelas montanhas, onde admiravam a natureza e a exaltavam, comparando aquela harmonia ao seu amor.
As caminhadas pela areia da praia, as ondas atingindo seus pés que permaneciam molhados enquanto percorriam a linha da água, sempre de mãos dadas, com comentários agradáveis que os animavam e os conservavam envoltos naquela felicidade que parecia não ter fim.
Vivia Júlio uma felicidade, para ele, infinita.
Pela intensidade do amor que nutria por Danny, jamais poderia imaginar que um dia houvesse um fim.
Danny, também, pensava assim. Um anjo em sua vida, alguém que sarou seu coração e lhe fez ver as flores ao longo de sua estrada. Um anjo que lhe deu a mão e a ajudou nas subidas. Um anjo que removeu as pedras de seu caminho. Aquele que a protegia de tudo e de todos. Tantos eram seus cuidados que chegavam a incomodar.
Danny, às vezes, preferia correr algum risco a ser objeto de tantos cuidados. Com a preocupação de dar a ela a preferência de tudo, Júlio esqueceu de si. Não imaginava que para prosseguir precisava de uma luz que iluminasse seu caminho. Danny cercada de cuidados e carinho, jamais se preocupou com esse detalhe. Imaginou Júlio um ser superior, capaz de tudo providenciar para seu bem estar. Imaginava ela que jamais precisaria de qualquer cuidado, nem mesmo de uma palavra de conforto ou aprovação. Para quê, se ele era tão completo e que havia entrado em sua vida para proporcionar-lhe o que pudesse haver de melhor.
Por isso Júlio sentia-se frustrado, quando esperava algum retorno ou no mínimo, algumas palavras de incentivo. Palavras que jamais vieram.
A sabedoria do tempo foi implacável. Num certo momento, Júlio pretendeu uma contrapartida que não existiu. Pediu, argumentou e esperou, mas Danny, incapaz de compreender, não deu.
Então resolve partir e deixar tudo que lhe parecia tão importante. Inconformado e carente vai em busca de alguma coisa, que nem imaginava o que pudesse ser.
Julio, desde então, procurou substituir sua carência de um amor por dedicação exagerada ao trabalho.
Quando voltava para casa, nada mais pensava ou esperava. Só a cama o consolava.
Mas naquele dia foi diferente.
Júlio descia do ônibus, no ponto costumeiro.
No trajeto até sua casa, passava pela padaria, onde comprava pão fresco para o lanche noturno.
Tudo estava normal, até que atingiu a portaria do seu prédio.
Lá estava Danny.
Ele custou a acreditar. Uma confusão mental e nada fez com que se lembrasse o que havia acontecido.  Danny, abriu os braços, aguardando sua aproximação. Assim seus corpos se encontraram. Tudo parecia estranho. Por que não tinha acontecido antes?
Promessas e incontroladas juras de amor foram gritadas, naquele momento, Júlio perdido e Danny apaixonada se abraçavam e beijavam jurando amor eterno.
—Um anjo, repetia Danny. Meu anjo.
—Descobri que você é o anjo que me foi enviado. Não para me proteger, mas para me ensinar a amar. Um anjo para me ensinar o significado do amor.
—Você é o meu anjo, o meu amor.
—Jamais se afaste de mim outra vez.

Autor: Nêodo Ambrósio de Castro - Eugenópolis/MG

domingo, 29 de janeiro de 2017

Quem vem para jantar


Isabel estava noiva.
Devia estar feliz, mas não estava. Andava de um lado a outro tentando entender se o casamento era o fim a que se destinaria ou a que se desatinaria.
Naquele dia ela retornou da lida na roça, esquentou água para por na tina onde tomaria o banho e esperou. Começou a pensar em tudo o quanto tinha vivido em seus 25 anos e com esse pensamento se benzeu e agradeceu o fato de estar noiva e não ficar para titia como a Mariana que não tinha nem namorado.
Precisou da ajuda do pai para por a água quente na tina e depois completou com a fria. Colocou a mão para verificar a temperatura e um frêmito lhe perpassou pelo braço direito fazendo os pelos eriçarem. A água não estava boa, mas não tinha paciência de ficar misturando a quente e a fria até que sentisse o prazer da temperatura natural de seu corpo.
Despiu-se e olhou com pesar para suas pernas feias, tortas e muito brancas. Lembrou-se do filho do vizinho que as ficava acarinhando até que ela segurava as mãos dele em seus joelhos não deixando o rapaz prosseguir naquela subida sôfrega. Balançou a cabeça para afugentar tais lembranças, ergueu as sobrancelhas e entrou na tina.
Tinha acabado de fechar os olhos quando deu pelo esquecimento do sabão e teve que sair da água para pegá-lo. Aquele instante de apoiar-se no chão e erguer-se a lembrou de um momento íntimo, anos depois, em que ela e ele se descobriram no arroio que cortava as terras do pai. Parou por um instante e não soube por que tinha tantas lembranças naquele dia. Não podia ficar pensando nessas coisas uma semana antes do casamento, era uma profanação.
Serenou o ânimo e voltou para a tina.
Sua mãe sempre lhe dizia que não era para ela andar para trás, pois isso era o que aconteceria sempre em sua vida. Eles ficavam correndo de ré, os dois, quando crianças, para verem quem caía primeiro e não se podia olhar para trás.  Isabel assimilou isso como uma verdade, e para o resto de sua vida. Não iria para trás nunca mais. Onde ele estaria?
Mergulhou as orelhas para ouvir a água e partiu de seu mundo real para aquele só seu, dentro da banheira. Imóvel, escutou alguns pequenos pingos surdos que caíam e que nunca soube de onde.
Ali ela estava totalmente só. Mas feliz. Decerto que seu noivo pensava assim também, senão, não tinha pedido ela em casamento. Seu vestido era lindo e estava pronto e lembrou quando o filho do vizinho desabotoou um a um dos botões de seu vestido de domingo e ela deixou que lhe caísse aos pés como um arrepio de amor.
Se fosse morrer, poderia ser daquele jeito; praticamente indolor e sem ouvir nada para não sentir saudades dele.
Quem tinha lhe apresentado o noivo tinha sido ele. Ironia? Nunca soube. Mas soube que arrebatou o coração de um e arrebentou o do outro que partiu de madrugada deixando-lhe o corpo beijado e suado. Para nunca mais voltar.
Agora estava com 25 anos. Casaria ou não? Se não casasse, nem para freira serviria e como contar sem chorar ao noivo seu passado contundente? Então lembrou que quando o outro a abraçava proporcionava a sensação de que ela poderia enfrentar um mundo de impossibilidades, as quais agora se apresentavam na forma de recordações.
Assustou-se com a possibilidade daquele aprisionamento voluntário na banheira e se deixou ficar; do mesmo jeito que ficava nos braços dele depois do amor no meio do mato. Sentiu seu cheiro e abriu os olhos.
Uma onda de tristeza e abandono tomou conta de todo o seu ser e desejou ardentemente nunca tê-lo feito o amor maior de sua vida.
E decidiu que quando o noivo chegasse para o jantar em família, lhe dedicaria a vida se preciso fosse e que também faria tudo o que estivesse em seu alcance para a sua felicidade. Beijou a aliança da mão direita, levantou e saiu da tina. Esta resolução lhe deu a força que precisava para esquecer o outro.
Naquela noite que ficou na varanda a esperar pelo noivo, sentiu que tudo voltava ao início e que nunca em toda a sua vida haveria de livrar-se daquele amor periclitante, pois que este também chegava para o jantar.

Autora: Michele Calliari Marchese ´Xanxerê/SC

domingo, 27 de novembro de 2016

Bodas

Autor: José Bueno de Lima

O tempo é de casamento. Não foi só na Inglaterra que aconteceu. Aqui também tivemos o nosso. Claro que não dá para comparar. Não temos a Abadia de Westminster, o Palácio de Buckingham, as carruagens puxadas pelos pomposos cavalos, nem a guarda real, com seus uniformes magníficos. E, muito menos, príncipe.
Durvalina e Genival se conheceram numa roda de samba. Numa daquelas em que os bambas do partido-alto eram encontrados. Entre eles Aniceto do Império, Candeia, Xangô da Mangueira, Geraldo Babão, Clementina de Jesus, e tantos outros.
Ela, diarista de casa de família, morando no Vidigal, era uma cabrocha daquelas que, se Sargenteli ainda vivesse, não teria dúvida em contratá-la para sua “troupe”. Um corpo escultural. Dançava samba como ninguém! Mas, de uma seriedade a toda prova! Com ela não havia aquela história de, olhou, deu uma piscada, já estava nos braços do galanteador! Não! Era preciso ter muitas qualidades para conquistá-la. Vivia sozinha. Apesar de ficar na favela, sua casa, de alvenaria, era um primor de ajeitada. Tudo no seu lugar, a cozinha sempre limpa, equipada com fogão moderno, geladeira “frost free”. A sala, pequena, com sofá de dois lugares, e uma TV de 20 polegadas, tela fina. Assim arrumadinho era seu quarto, com cama de casal, e um guarda-roupa bem organizado. Banheiro impecável. Dava inveja à vizinhança. No trabalho, então, poder-se-ia encontrar alguém igual, o que já era difícil. Melhor jamais. Feliz a dona-de-casa que tivesse Durvalina como sua auxiliar de limpeza. Para completar, em algumas das casas em que trabalhava, era contratada para cozinhar. Excelente, também, no fogão!
Diante de todos esses predicados, sua fama era de uma mulher ideal, e o homem que tivesse a felicidade de conquistá-la como companheira, poderia levantar as mãos para os céus, em agradecimento a Deus.
Genival, por sua vez, não foi à toa que conseguiu Durvalina. Trabalhador, solteiro, morava ele em Ramos, membro da Sociedade Amigos de Ramos, onde exercia o cargo de diretor. Era funcionário da Secretaria de Saúde do Estado, todavia, na área burocrática. Sério, um servidor cumpridor fiel de suas obrigações. Jamais deixava seus deveres para amanhã. Arquivos sempre atualizados. Também era um afro- descendente.
Sua paixão era o samba, e, nos fins de semana, não deixava por menos, ia para o reduto dos sambistas famosos.
Numa dessas ocasiões, conheceu Durvalina. Quando vislumbrou aquela mulata, foi como um raio fulminante. Um clarão turvou sua visão! Fechou os olhos, como se estivesse num sonho, jamais acreditando no que via. Aquele rosto bonito, corpo maravilhoso, lábios carnudos, tudo conjugado com a simpatia da moça, logo se sentiu conquistado.
Durvalina, como era de se esperar, apesar de ter se simpatizado com Genival, não deu qualquer demonstração de interesse. Apenas sorriu. Ela percebera que havia impressionado aquele desconhecido. Trocaram palavras, simples amenidades, não passando disso. Entretanto, mais tarde, já bem descontraída, houve uma abertura, da qual ele se aproveitou, convidando-a para novos encontros.
Assim, pouco a pouco foram se conhecendo. Cada vez mais Genival se sentia atraído por Durvalina. Sua doçura, meiguice, sinceridade, todas essas qualidades, e as provas de excelente dona-de-casa que demonstrava ser, deixavam-no tranquilo, com a certeza de que teria nela, uma grande companheira. Sem falar em seus atrativos como mulher bonita, atraente, que impressionava qualquer cidadão que a visse.
Com Durvalina acontecia a mesma coisa. Via em Genival um homem honesto, trabalhador, sério, fiel cumpridor de seus deveres, demonstrando que haveria de ser um bom marido, e um ótimo pai. E, não deixava de ser um bonito mulato.
Além disso, tinham em comum, algo que adoravam fazer: dançar. O samba estava no sangue deles.
Um dia, dançando na Estudantina, conhecida gafieira carioca, Genival diz ao ouvido de Durvalina:
- Você quer casar comigo? Ela arregalou os olhos, surpresa pelo momento, conquanto já o esperasse.
- Claro meu amor, é a coisa que mais queria ouvir de você! E deu-lhe um sonoro beijo.
Daí em diante, começaram a traçar os preparativos. Durvalina, muito consciente, com os pés no chão, elaborou uma lista bem minuciosa de tudo o que mais precisavam, a fim de concretizar o desejo. Genival, então, confessou a ela já haver todo o necessário. Durante o tempo de namoro, com muita cautela e sem alarde, fora adquirindo móveis, aparelhos domésticos. E a casa onde morava, sendo de sua propriedade, toda reformada, iria ser a residência do casal.  Estava totalmente mobiliada.
Marcaram a data: 29 de abril de 2011.
Por coincidência, o mesmo dia do casamento do príncipe William e a plebéia Kate, na Inglaterra. Naquela sexta-feira, Durvalina acordou mais cedo, e assistiu, inteirinho, o casamento real. Ficou mais ansiosa! Tinha plena noção das diferenças entre as duas cerimônias.
Mas, sentiu-se feliz!
Cerimônia simples, na Igreja de Nossa Senhora da Penha, e recepção na quadra da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira. Com direito à exibição da mesma, durante a festa.
Mais ou menos às 22:00h, quando a comemoração estava no auge, Genival lembrou-se de algo muito importante. Imediatamente, largou Durvalina no meio da pista de dança, e do mesmo jeito que estava vestido, saiu em desabalada carreira, rumo à sede da Sociedade Amigos de Ramos.
Lá estavam todos os seus documentos necessários.
Por esquecimento, no corre-corre dos preparativos do casamento, deixara de efetuar a declaração e enviar seu Imposto de Renda, cujo prazo de entrega venceria dali a menos de duas horas!
Foi cumprir seu dever!

Autor: José Bueno de Lima - Santo André/SP

domingo, 20 de novembro de 2016

A turma da bomba dágua...

Autor: Magnu Max Bomfim

Ultimo ano de faculdade, ultimo semestre, cinco anos longe da família, uma vontade danada de voltar pra casa, foi quando um dos nossos professores resolveu transformar em realidade aquele sonho que sempre acalentava e que sempre adiava, ele comprou uma imensa motocicleta e saiu a rodar pela cidade, na primeira curva a máquina derrapou e no descontrole caiu sobre a sua perna esquerda esmagando-a, e disto resultou um acréscimo ao seu corpo de mais de uma dúzia de parafusos, algumas placas de platina e uns seis meses de repouso, fisioterapia, muletas, etc.
Às presas a universidade contratou um substituto, ou melhor, uma substituta, uma moça alourada, recém-formada, ríspida, durona, não era alta, dona de uma beleza contagiante, dona também de uma firmeza monolítica na condução dos seus propósitos.
Naquela época não éramos bem vistos por fazermos parte de um conjunto musical que treinava em um barracão ao lado de uma imensa caixa d’água, e de imensas bombas de recalque, nosso conjunto musical tinha até um pomposo nome em inglês, mas os invejosos nos apelidaram de A Turma da Bomba D’água, e por mais que tentássemos nos livrar daquele maldito apelido mais aquilo em nós grudava, impregnava, por fim assumimos, éramos a Turma da Bomba D’água, com todos os seus defeitos e toda a sua má fama, moços da boemia que tocavam em troca de sanduíches, diziam...
A nova professora ao que parece fora alertada da nossa fama, e que apesar de vivermos na noite tirávamos boas notas, na certa éramos craques na arte de colar, pois estrategicamente sentávamos lá no fundo da classe, nas últimas carteiras:
— Nas minhas aulas eu quero que a Turma da Bomba D’água sente aqui nas primeiras carteiras, por favor rapazes!
Nós que gostávamos de Fernando Pessoa tínhamos como lema: Contornar é preciso, confrontar não é preciso, obedecemos, para o delírio da turma.
Tem certos momentos em que sentimos que estamos sendo observados, que alguém está olhando pra gente e não sabemos quem, assim eu me sentia naquele momento, levantei olhos e deparei com os belos olhos da professora ternamente em mim fixados, o tempo parou e naquele profundo silêncio que se seguiu e eu tenho a absoluta certeza que ouvi daquele olhar, palavras de amor, seus olhos levemente sorriram e ela olhou para outros cantos da sala de aula, despistando.
Aquela nova professora queria mostrar serviços:
— Pesquisem no livro tal da página tal a tal e apresentem uma sinopse na próxima aula!
Já estava começando a odiar aquela moça, mas também já estava começando a amá-la, das vezes na biblioteca perdido entre pesquisas e mais pesquisas ela aparecia toda sorridente:
— Estou gostando de ver vocês aqui...
Sentava ao meu lado, dava algumas dicas de como fazer um trabalho apresentável, mas quando eu olhava nos seus olhos um calafrio percorria todo o meu ser, seus olhos transmitia mensagens que o meu coração seguramente traduzia que ela de mim estava gostando, por fim arrisquei:
— Será que tenho uma mínima chance de algum dia ser seu namorado?
— Se você abandonar aquele conjunto musical, ser mais responsável, ou melhor, ter um comportamento de bom moço, com certeza existe uma mínima chance de sermos mais que amigos!
Comecei a faltar aos ensaios do conjunto, por fim cansaram e me substituíram por um estudante gaúcho, um rapaz espevitado, dono de uma energia contagiante, na certa a minha ausência não foi sentida na Turma da Bomba D’água...
Morávamos perto da universidade, à noite gostava de ficar sentado em volta daquelas mesinhas que ficam nas calçadas em frente aos barzinhos, foi quando vi um carro se aproximar e dele desceram três moças, minha professora e duas amigas, me cumprimentaram, sentaram, conversaram, desconversaram, e as duas amigas com as mais esfarrapadas desculpas teriam que visitar uma pessoa conhecida delas que estava adoentada, partiram, neste instante um maluco guiando um imenso carro preto, brecou seu veículo com tamanha violência que derrapando chegou a roçar os pneus na calçada, o moço saindo do carro apressadamente entrou no bar deixando o rádio ligado com o som nas alturas, Eric Clapton cantava... “While my guitar gently weeps”... Ao ouvir aquela música meu coração não resistiu:
— Eu não sei o que o amanha reserva pra nós, mas de uma coisa eu tenho a  absoluta certeza, seja lá onde eu estiver, toda vez que ouvir esta música vou me lembrar de você...
Segurando as suas mãos, lentamente nossos lábios foram se aproximando, e um beijo daqueles de perder o fôlego foi incendiando a minha alma por inteiro descompassando meu coração.
Ela sorrindo:
— Você nem me pediu em namoro, mas agora isto nem é mais preciso, pois já estamos enamorados. Abraçamos e beijamos tantas vezes que...
No outro dia na universidade o assunto do dia era o nosso namoro, os beijos e abraços foram exagerados, mas seguramente eu estava vivendo os mais belos e os mais felizes momentos da minha vida!
“A felicidade é uma coisa estranha e esquisita, das vezes nos visita somente para provar que ela existe”, e assim foi...
Convidaram-me para ir até determinado barzinho, onde iríamos tratar de assuntos referentes à festa da formatura, mas lá chegando assim que sentei apareceu uma moça que usava trajes curtíssimos, blusa decotadíssima, toda pintada, nunca a tinha visto, inesperadamente se sentou no meu colo, a muito custo consegui me desvencilhar daquela doidice...
Agora, eu, um rapaz surpreendentemente comportado, na sala o meu amor adentra para ministrar mais uma aula, foi quando ela ao abrir a gaveta da sua mesa deparou com alguma coisa estranha que a transmudou, transfigurou e entristeceu...
Calmamente ela de mim se aproximou:
— Deixaram na minha gaveta, mas isto te pertence...  
E me entregou uma fotografia, e nela claramente via aquela moça aloucada no meu colo sentado, me abraçando...
— Posso explicar?
— Não há necessidade de explicações, a foto por si explica tudo...
Nunca mais a professora olhou nos meus olhos, se ela tivesse uma mínima oportunidade certamente teria me reprovado na sua matéria, tentei de todas as maneiras lhe explicar o acontecido, mas tudo em vão, seguimos os nossos caminhos, ela com a sua mágoa e eu com a minha dor, foi quando me lembrei do filósofo alemão Nietzsche que dizia...
“Na vingança e no amor a mulher é mais cruel que o homem”...
Que paradoxo! Eu que queria tanto voltar pra casa, agora que estou voltando, sinto que não mais quero voltar, todavia tenho que voltar, pedaços meus vão ficar aqui... Para sempre...
Ao ouvir aquela música, do fundo da minha alma doces recordações do tempo da universidade descontroladamente avivam e ganham cores na minha mente, meus colegas, meus professores, meus amigos da Turma da Bomba D’água, mas são as lembranças daquela moça as que mais pesam alma minha adentro, as que mais me entristecem, mas também as que mais me alegram...
Assim os anos foram passando e da professora sempre me lembrando, longe dela me sentia o mais infeliz dos infelizes, quantas vezes juntava forças e coragem para procurá-la, mas ao lembrar que ela implorou para que eu nunca mais a procurasse, que a esquecesse de uma vez por todas, um vendaval de tristeza e desanimo açoitava a minha alma imobilizando-a por completo...
Mas ela nunca deixou de povoar os meus sonhos, das vezes contemplava a minha desgraça e sorria amargamente para os meus pensamentos delirantes, bobeiras e mais bobeiras, sonhos impossíveis, sonhava com ela nos meus braços, abraços apertados, beijos prolongados...
Suspiros...
E mais suspiros...
Foi quando recebi um convite para as comemorações dos cinco anos da nossa formatura, confirmei a minha presença, e no dia da festa, à noite, cheguei atrasado, quase todos meus antigos colegas estavam presentes, vários professores, a turma da Bomba D’água, ansioso, com o olhar procurei-a por todos os cantos do salão, mas tudo em vão, para a minha tristeza e desespero não a encontrei, fazer o que? Refleti, talvez ela nem se lembre mais de mim, talvez até já tenha se casado, cabisbaixo, tentando enganar a mim mesmo concluí... “Esta infelicidade não vai durar a vida inteira, outro amor eu hei de encontrar” e fui abraçando e sendo abraçado por tantos e entre sorrisos e lágrimas...
Você se lembra disto, se lembra daquilo, bebidas rolando, uns dançado, mas o bom mesmo era a algazarra causadas pelas pitorescas recordações de acontecimentos marcantes, lá pelas tantas da noite, quando o cansaço já tomava conta de todos eis que ela adentra ao recinto da festa, linda, meigamente linda, muito linda, toda sorridente, minha querida professora, minha paixão, meu único e verdadeiro amor, mas para minha decepção chegou abraçada com um rapaz desconhecido, me amaldiçoei de mil maldições por ter vindo a este encontro, neste momento eu queria mesmo é me esconder debaixo de alguma mesa, ela a todos cumprimentando e abraçando, foi quando notei que todos os olhos estavam voltados para mim, aquilo me sufocou, minha boca secou, meu corpo tremulava, mal se sustinha, e ela foi se aproximando...
Aproximando...
Aproximando...
Quando finalmente me estendeu a mão, nossos braços se abraçaram, e voltaram a se abraçar, por fim consegui perguntar se tudo estava bem, ela sorrindo, devia estar sorrindo do meu desespero, disse que estava com saudades de toda aquela turma. Ela se misturou na multidão, frustrado, me refugiei num canto qualquer, não tenho o hábito de ingerir bebidas alcoólicas, mas foi nelas que procurei o alivio para a minha derrota, um consolo para a minha desgraça, depois de algum tempo já completamente embriagado comecei a declamar a minha desventura, quando algo inesperado aconteceu, não me lembro da maneira exata do acontecido, mas só sei que ela sorrateiramente de mim se aproximou e disse:
— Por tanto tempo esperei pela sua volta, e você não voltou, por tanto tempo esperei por um telefonema seu, e você não telefonou, esperei por uma mensagem, e esta mensagem não chegou, agora o tenho perto de mim e você não me diz nada?
Com imensas dificuldades consegui falar:
— E aquele rapaz?
— Que rapaz?
— Aquele que você entrou abraçado na festa?
— Deixa de ser ciumento, aquele rapaz é o professor que me substituiu na Faculdade, é meu amigo, e o que tem demais abraçar um amigo!
— Caramba, então toda essa minha bebedeira foi em vão? Mas você não precisava entrar na festa tão agarrada naquele sujeito!
E a turma me desafiava para que falasse aquilo que todos esperavam!
— Vamos, desembucha companheiro, a hora é agora, e não terá outra oportunidade igual a esta pelo resto da sua vida!
Empurraram-me para bem perto dela, ficamos de mãos dadas, mal conseguia me equilibrar, a cabeça girava, o corpo tremulava, foi quando tive um momento de lucidez, ajoelhei e segurando ternamente em suas mãos, olhei para os seus olhos e gaguejei:
— Caaaaasa cooomigo!
Ela soltou das minhas mãos, olhou para a multidão silenciosa que aguardava o desfecho daquele drama, olhou para mim...
Sorrindo, toda feliz, retrucou:
— Lembra-se daquela foto? Eu ainda hoje a tenho nas minhas lembranças, mas há muito tempo eu já te perdoei, perdoei porque sei o quanto te amo. Ao te ver meu coração recuperou a antiga felicidade e se fez em festas e alegrias, eu aceito o seu pedido de casamento! Mas tem uma condição, vamos agora até a minha casa e você pede aos meus pais autorização para casarmos, e este casamento terá que ser realizado dentro de no máximo trinta dias!
— Trinta dias?
— Trinta dias sim senhor!  Já passei dos trinta anos, e não pretendo perder mais tempo com namoro e noivado, quero ter muitos filhos...
A festa foi interrompida, aqueles colegas, muitos, nos acompanharam até a casa dela, e aí que o vexame ficou pior, na entrada tropecei em um tapete e estatelei na sala caindo aos pés dos meus futuros sogros, graças à ajuda de meus amigos consegui ficar de pé, cambaleando e com uma voz melosa disse boa noite aos pais dela, que surpresos não estavam entendendo nada do que estava acontecendo.
E um engraçadinho foi logo avisando que eu estava ali para um pedido de casamento! E a minha futura sogra abriu a boca:
— Minha querida filha você perdeu o juízo, ficou louca, vai casar um traste deste, um pingaiada, se solteiro já bebe assim, imagine quando casar, ficará pior!
— Mamãe, tenha um pouco de paciência depois eu explico tudo!
— Minha filha escuta sua mãe pelo amor de Deus, acorda, se livra desta tentação, o que foi que você achou neste pinguço, na certa também não gosta de trabalhar, você vai ter que sustentá-lo pelo resto da sua vida, você será uma mulher infeliz ao seu lado!
— Mamãe, papai, o deixe falar, por favor!
E o pai dela, um senhor de barriga saliente, ar de bonachão, sorria daquela palhaçada pelos cantos dos olhos, finalmente abriu a boca:
— Minha querida filha é este rapaz com quem você deseja casar?
— Sim papai!
—  Se é este o seu desejo, se é esta a sua decisão, eu respeito e acato, mas fique sabendo ao que tudo indica você fez uma péssima escolha, melhor morrer solteira do que mal casada, e não diga que não te avisamos, depois será tarde, muito tarde para lamentar, vamos rapaz, fale, desembucha de uma vez por todas, somos todos ouvidos!
Fez-se um silêncio sepulcral dentro daquela casa, dava para ouvir o ronco dos automóveis lá na rua, lágrimas escorriam pela minha face, sou assim, quando emocionado lágrimas escorrem e não consigo contê-las, e a turma torcendo  para que eu conseguisse destramelar a língua, que falasse e  falei, molemente, mas consegui gaguejar:
— Antes de tudo eu queria pedir desculpas pela minha maneira desastrada de entrar em vossa casa, acreditem, eu não sou o que estão vendo, sou um rapaz responsável e trabalhador, quero lhes dizer que sou completamente apaixonado pela sua filha, que ela foi, é, e será sempre o amor da minha vida, e que serei feliz somente se ela estiver ao meu lado, assim sendo, com todo o respeito eu gostaria de pedir a sua filha em casamento!
Casamento marcado, voltamos para o salão e a festa continuou madrugada afora até o dia clarear...  
Casamos, com o tempo tornei o genro querido dos meus sogros, minha esposa encheu a casa de filhos, os filhos cresceram, formaram, debandaram, cada um seguiu seu caminho, e o tempo passou tão de repente, envelhecemos e ainda hoje estamos apaixonados, e ela continua recebendo flores no dia do seu aniversário, mas o que mais gostamos é de relembrar o nosso passado, dos nossos momentos de tensão, de alegrias, de tristezas... São estas coisas que dão um colorido especial em nossas vidas!
Com toda razão está quem diz...
“ Deus escreve o certo pelas linhas tortas”.

Autor: Magnu Max Bomfim - Igarapava/SP