domingo, 13 de maio de 2018

A Quinzena do Autor

Socorro Beltrão

Socorro Beltrão nasceu em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, foi aluna do Instituto  Duque de Caxias, do saudoso, Prof. José Amâncio Lopez, Colégio Três de Agosto (Dr. Mario Bezerra), Escola Federal Rural João Cleofas (Vitória), e Universidade Federal Rural de Pernambuco, no Recife. 
Professora pelo SEC. PE, por 30 anos, onde deste os seis anos de idade ajudou a mãe que alfabetizava adultos e ensinava corte e costura.
Hoje,  aposentada se dedica a ensinar crianças carentes, dando o anzol, ensinado a pescar e vender. Escreve poesias, contos e  causos. Faz artes em geral: flores, bijuteria, biscuit, bonecas, pinturas em tecido, vidro, cerâmica  e telas. Tudo que aprendeu, ensina de graça.
Ela publica parte da sua obra em uma escrivaninha que mantém no Recanto das Letras.
Adora a natureza, todo tipo de arte e gosta de viver.
É Acadêmica da AVLAC (Academia Vitoriense de Letras Artes e Ciências). E em breve vai reeditar o seu Livro Partículas de Amor, e o segundo livro está sendo digitado.


Acrósticos


Gabriela
Gata, neta e linda.
Amo o teu existir.
Bonita, meiga e Educada.
Risonha, calma e querida.
Isto posso apostar.
Estou apaixonada
Logo que ti conheci
Agora, posso te amar.

    Netinha do meu coração  GABRIELA.

Acrósticos
Galã dos sonhos meus
E a flor do meu jardin.
Recebes estes versos teus.
Maravilhoso és para mim
Anda..., eu acompanharei teus passos
Nascido és do meu ventre,
Oferta de Deus em meus braços
 (Germano)

Garota linda, flor em botão
Estou maravilhada, querida.
Ora, por ser tua mãe, pois não?
Retrato de amor indefinida,
Gostaria de ter rimas lindas
Imagem de amor e vida
Afinal, te amo, duvidas?
  (Georgia)

Sossega, querida amiga,
Onde estou, lembro de ti.
Nada poderá isto mudar,
 Posso te assegurar.
Anda! vem me abraçar!
 (Sonia)
                   
Amiga à 54 anos, irmã, camarada e cunhada.


                             Poesias


                Bom Dia
                        Quando o dia amanhece,
                        Meu coração se engrandece.
                        E meus versos, saem assim
                        Numa correnteza sem fim.

                        Lembro do Bom Deus,
                        Do universo que Ele criou,
                        Do nosso planeta
                        Que fez e abençoou.

                        Admiro e amo, o Sol, a lua,
                        E todos feitos seus,
                        Sinto uma grande alegria
                        Que me felicita e contagia.

                         Me alegro, claro
                         Pelo grande respeito,
                         Que sinto no meu peito,
                         Pelo meu irmão

                          Não me importa o credo,
                          Não me importa a raça,
                          Se é rico, ou sem tem um tostão.
                          Só sei que é meu irmão

                          Porque Deus o criou
                          Deus criou a mim também,
                          Ele é o Pai e nós, irmãos
                          Bom Dia! De coração!


Saudade
Saudade
Por favor, não me deixes
Porque ficarei tão sozinha.

Tu és minha eterna companheira.
Sem ti ?
Como iria recordar,
Um passado que joguei fora,
Ou que fui jogada fora?
Não importa mais.
Saí do grupo, Deixei de fazer parte,
Abandonei?
Ou fui colocada no banco de reserva
E esquecida? ...

Já não importa.
No final, estarei mesmo morta.

Não, não agora.
Ainda tenho muito, muito tempo.
Para viver.
Eu quero ter.
Mesmo que só ao teu lado.

saudade.

Para viver
Viver e recordar
E viver, viver.

Para sorrir
Mesmo que às lágrimas
Estejam, por dentro,
Lavando minha alma.

Sufocando minhas lágrimas,
Numa gargalhada.
Muitas vezes, sem porque.
Mas, pelo simples prazer de viver.
Eu quero viver.

Amor de poeta
O poeta, ama com ardor.
Estão sempre presente,
A natureza e seu esplendor!
No coração desta gente.

Sabe descobrir a beleza
Nos mais simples momentos,
Porque toda a natureza
Está nos seus sentimentos...

Ama, com a alma,
Vê, Com os olhos da paixão...
Sente, com todos os poros.
Sabe, sonhar acordado...
Tem todos
Sentimentos, multiplicados.
Se sofre, é demasiado
E explode...  Ao ser amado.

Solidão
Estou só,
Ao meu redor é só silêncio.
Mas, dentro do meu ser...
Está o amor, está você.

Meu coração vibra, mesmo assim.
Meu pensamento voa...
Como num sonho,
A solidão se esvoa.

Passeando na rua...
Mil pessoas a minha volta,
E eu, sem teu amor
Sou morta.

Perdão
Perdão, por te amar tanto.
Pelo tempo, que não me fez te esquecer.
Não, não me culpes no entanto,
Por amar tanto, tanto você.

Perdão, te rogo por porquanto,
Não, não fui capaz de te esquecer.
O tempo foi passando, passando,
E eu, eu amando, amando tanto você.

Não importa, se não foste
Capaz de amar-me assim.
É que este amor foi, foi
Muito, muito forte para mim.

Você,
Não tem culpa alguma,
Nem eu...
Se este grande amor,
Foi só meu, só meu...

Do meu livro, Partículas de Amor.

Desencontro
Sei, que guardas na lembrança,
O dia precioso do nosso encontro.
Sim, eu sei.
Sei que ainda me amas
De outra forma, Talvez
Do teu jeito, só teu.
Sei, sei que também sofres como eu,
Pelos desencontros
Que a vida nos ofereceu.
Desencontros
Desencantos.
De destinos iguais
Pois, eu
No meu canto, sofro.
Tu, no teu mundo mudo, sofres.
E assim temos um encontros
Em tantos desencontros. (O sofrimento)

Perdi
Cheguei cedo em tua vida, bem sei
E te perdi, tão logo te amei.
Perdi, sem te ter tido, afinal,
Foi só meu este amor tão real.

Tu,  tiveste uma paixão
Que logo se foi, e eu
Te amei com o coração,
Num amor só meu, só meu.

Te perdi,
E tu nem foste meu.
E eu nunca fui tua...
Não se perde
O que jamais foi teu...

Destino l
Não se esqueça de mim, disseste tu,
Não desapareça, pedi eu.
Te esqueser, para mim foi impossível.
Desaparecer, para ti, foi aplausível.

Veja, seja como o destino quiser,
Tu, o homem. Eu, a mulher,
Que mesmo se amando tanto
Nunca nos entendemos no entanto.

A gente se agarra, se abraça.
Se deixa, se larga, se beija...
Mas, vem o destino
e nos separa...

INSPIRADO, NUMA MÚSICA DE CARNAVAL.

Destino II
Vida...
Destino...
Perfeição da vida.

Perguntas, muitas.
E sem respostas.
Poderia ter sido feliz...
Foi o destino
Que não quis....

Se vencer... Teve sorte.
Senão... Que importa!
No final... sempre a morte.
(Estarei mesmo morta!).

Meus versos
Meus versos, queridos
São brancos, azuis e amarelos
Soltos, Livres e sinceros.
Ora com rimas, puros, Ora sem rimas, singelos.
Mas que revelam
Um grande amor
Que louco de prazer,
Voa alto, se atira no alvo
Suícida para morrer...

Revelam um amor sofrido,
Um amor triste e ferido.
Sem remédio para sanar
Uma tão sofrida dor, Deste resultado de amor.

Sonetos, poemas, e acrósticos empobrecidos
Porém ricos afinal
de um amor profundo e fatal.

Amor venerado
Eu, você e o nosso amor,
Um amor puro e venerado.
Não precisa de beijos e abraços,
Só nosso amor, infinito, adorado.

Vejo teus olhos brilhando
Ao encontrar os meus,
Tuas mãos buscando as minhas,
Teu sorriso atormentado...

Tormento?
Sim... sim, claro que sim.
Pois alimenta a saudade
Que trago dentro de mim.

Perdi
Cheguei cedo em tua vida, bem sei
E te perdi, tão logo te amei.
Perdi, sem te ter tido, afinal,
Foi só meu este amor tão real.

Tu,  tiveste uma paixão
Que logo se foi, e eu
Te amei com o coração,
Num amor só meu, só meu.

Te perdi,
E tu nem foste meu.
E eu nunca fui tua...
Não se perde
O que jamais foi teu...


  Causo

Dias das Mães no Brejo

Era o dia das mães, lá pelos meados dos anos 60. Ouvi uma conversa engraçada de duas mães, dentro da igreja, na hora da missa. Dona Conceição, mulher corpulenta, mãe de 12 filhos. O mais velho tinha 12, ela ia fazer 13 de casada e o mais novo estava nos braços. Aproveitando o filho de colo, fazia dele escudo, para o padre não ver quem falava.
— Cumade Odete, meus fio acha que devo viver na cosinha.  Me deram tanta panela, aventá, ganhei inté um jogo de cuié. Vige  Maria...
Diz a cumade odete, mãe de 9 filhos.
—  Recrame não muié, os meu mi derun sabonetes, desidorante e tuaia, será que tão no achano fedorenta?
Foi aí que o padre se pois a falar.
— Mães, vocês tem que dá exemplo. Conversando na hora da 
missa, vai mostrar aos seus filhos, que ele podem fazer o mesmo. A hora da missa é sagrada. Façam silêncio.
Odete sussurrou.
—  Cumade Ceiça esse padre tem os zuvido de tuberculoso.  É mió noi ficar calada.

Frase

Ser poeta
          É deixar a nossa caneta deslizar no  papel, tudo que nos vem na alma.

Socorro Beltrão

sábado, 14 de abril de 2018

Cara amiga Jussara Burgos...






Sabemos que nesse momento não serão palavras que amenizarão a sua dor. Dizer que deve procurar aceitar a realidade e conviver com a saudade não vai acalentar seu coração, pois um pedaço dele lhe foi tirado... É imensa a tristeza da despedida sem voz, do abraço sem calor...

Sem lógica ou explicação são as leis da vida.  Não existem palavras, não há uma força que apague a dor da perda..., Mas com certeza há um motivo para continuar. Saiba que Deus lhe encarregou da missão mais linda da vida: ser mãe!  Sim, filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos.

Tenha força, estamos com você, mesmo distantes! Um poder maior nos ensina a dizer adeus às pessoas que amamos, Sem nunca as tirar do nosso coração...

Os Contadores

quinta-feira, 8 de março de 2018

Sarau de verão


Alberto Vasconcelos

Quando mudei para a Rua Conselheiro Theodoro, no bairro do Zumbi, na época, afastado do centro do Recife, existiam apenas cinco casas separadas por terrenos vazios, onde mais tarde seriam feitas construções bem mais modernas.
A minha casa, como as demais, eram construções antigas, talvez dos primeiros anos do século XX e uma delas estava praticamente em ruínas, com o reboco destacado em várias partes. Duas das janelas laterais, com a madeira carcomida pelas intempéries e pelos cupins, balançavam ao sabor do vento presas pelas dobradiças enferrujadas num desafio constante à lei da gravidade.
Minha casa era enorme, principalmente porque, sendo solteiro e morando sozinho, só ocupava três dos muitos cômodos.
Raramente eu via os vizinhos. Também passava bem pouco tempo em casa porque, como vendedor viajante, chegava a passar mais de mês fora de casa.
Certa vez, voltando de uma dessas viagens, foi que aconteceu o caso que, ainda hoje, me dá arrepios quando lembro.
Passava das dez da noite daquela sexta-feira 23 de março. As chuvas pareciam estar com pena de se despedir do verão.
Chovia a cântaros.
Os trovões eram de ensurdecer e os raios rasgavam as nuvens densas na noite escura. Todas as casas fechadas, ninguém pelas ruas.
Apenas na casa em frente à minha, aquela que antes esteve em ruínas, havia festa.
Pensei comigo: finalmente apareceu alguém para cuidar da casa bonita, mas tão mal tratada.
Alguém tocava piano acompanhado por flauta. Modinhas antigas e alegres. O som do piano contrastava com o ruído dos trovões que não chegava a perturbar os participantes da festa. Gente alegre, bonita e muito bem vestida.
Entrei em casa, troquei a roupa molhada pela chuva e deitado, com a janela do quarto aberta, fiquei me deliciando com aquela música maravilhosa.
De repente, gritos de desespero.
Vozes acaloradas.
Levantei-me a tempo de ver as pessoas correndo pela rua e desaparecendo na bruma.
Fechei a janela e custei muito a conciliar o sono, dando tratos à bola para imaginar o que teria acontecido.
Na manhã seguinte levantei-me com o firme propósito de me inteirar do acontecido, porque a casa do outro lado da rua, estranhamente, permanecia com o mesmo aspecto de abandono.
Na calçada, procurei me informar com a vizinha idosa que estava observando o cachorro que ela soltara para dar uma voltinha. Ela me disse:
Eu era menina quando aconteceu a tragédia dessa casa. Aí morava uma família muito feliz e festeira. Pai, mãe e filha tocavam instrumentos e num dia 23 de março, o noivo da moça, com uma crise de ciúmes, matou o pianista amigo da família que ele julgava ser amante da sua noiva. Quando se viu acuado, matou também a noiva e os pais dela, a golpes de machado.
Depois de preso foi encontrado morto, pendurado pelo cinto, na grade da delegacia. Desde essa época que a casa ficou abandonada e mal assombrada.
Todo ano, na noite do último dia do verão, as almas penadas dos mortos revivem aqueles momentos de horror.

Autor: Alberto Vasconcelos - Santo André/SP

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Califórnia

Escritora:Ana Bailune

Pisava no chão seco e farinhento da vila de Córrego Seco desde que nascera. Nome mais apropriado para um lugar, não existia. Tudo era tão seco, que até mesmo o carcará tornara-se pássaro raro. Somente os que, como Joana, não tinham outra alternativa, continuavam vivendo ali. Ela não conhecia outra vida, tendo gasto em seu caminhar, muitas solas de chinelo. De sol a sol, de solo a solo, de cacto a cacto. Sua magreza alongava-se ainda mais na sombra projetada no chão pelo sol escaldante. No alto da cabeça, carregava uma lata d’água barrenta que tinha ido buscar a dois quilômetros da sua casa. Passava pelas ruínas da velha igreja sem notar, como quem passa por uma fé que deixara de existir.
Tinha apenas vinte anos de idade, mas aparentava quarenta. Em fila, seguiam-lhe seus três meninos, aonde quer que ela fosse. O pai? Partira para a cidade grande em busca de uma vida melhor, deixando apenas uma promessa: “Um dia, eu mando buscar ocês.” Nunca mais voltou. Nunca mais deu notícias. Também, que notícia poderia chegar àquela lugar esquecido por Deus?
Joana nem sentia saudades do marido. Tinha antes muitas outras coisas a sentir: fome, sede, cansaço, desesperança, e um medo que crispava-lhe o estômago: o de ver morrerem seus filhos. Todos os dias, chegavam-lhe histórias de crianças que morriam. Às vezes, passava um cortejo na porta de casa, um pequeno bando de gente maltrapilha carregando um pequeno caixão.
Certa manhã, antes mesmo de clarear, Joana acordou com um sobressalto: tivera um sonho ruim. Vira um de seus meninos dentro de um caixão. No sonho, estava em uma sala vazia e escura, onde, bem no meio, havia um caixão cercado de velas. Ela foi se aproximando devagar, com medo do que fosse ver, enquanto ouvia uma risada sardônica atrás de si. Sentiu um arrepio na nuca, e quando chegou bem perto, levou à mão ao peito e olhou: lá estava seu mais velho!
Joana levantou-se correndo, e foi olhar seus meninos, e ao ver que dormiam pesadamente na esteira de palha, deu um suspiro de alívio; ainda não era naquele dia!
 Na noite seguinte, teve o mesmo sonho. A única diferença, é que o menino no caixão era o seu do meio. E na terceira noite, o sonho repetiu-se, mas era o seu mais novinho que estava morto. Joana achou que aquilo era um sinal; tinha que sair dali! Precisava ir embora, pois beber água barrenta e comer farinha com lagarto cozido não era vida para menino. Mas ir embora para onde, meu Deus? Não tinha nada, não sabia ler, mal sabia falar direito... e enquanto cismava, andando de um lado para o outro debaixo do sol, à porta de seu casebre, enquanto os meninos comiam feijão com farinha, veio de repente uma ventania; e com a ventania, uma folha de papel, uma página de revista que grudou no seu rosto.
Surpresa, Joana pegou o pedaço de papel e olhou: era uma fotografia, uma imagem de um lugar onde havia um jardim verde e exuberante, cheio de flores coloridas, junto a um rio azul enorme de lindo. Havia também muitas pessoas felizes, e em uma fotografia menor, mesas com toalhas brancas cheias de pratos de comidas que ela nunca tinha provado, e um sorridente homem de branco que era tão bonito, que só podia ser um anjo de Deus!  Ela nunca tinha visto tanto verde na vida, nem mesmo na época da chuva! Notou as letras sob a foto, e achou que elas deveriam dizer o nome do lugar na fotografia; decidiu que fosse aonde fosse, era para lá que ela iria! Como? Isto não importava; sentiu sua fé renascer, e da mesma forma que Deus lhe mandara a resposta, também havia de levá-la até o lugar.
Foi até a casa do ‘seu Tinoco’, o único por ali que sabia ler, e entregou-lhe a fotografia. O velho olhou-a, e após seguir as letras com o dedo, devolveu-lhe o papel, dizendo: “Esquece, filha. É longe. Ocês nunca vão chegar lá!” Mas Joana insistiu: “Me diz o nome do lugar, me diz onde é, ‘seu’ Tinoco. O resto, é com nós!” O velho balançou a cabeça, e disse com enfado: “Califórnia. É esse o nome.” Joana nem perguntou mais nada: voltou para casa, e juntando as poucas coisas que tinham, mostrou a fotografia e anunciou aos meninos, que se entreolharam, animados com a sua primeira aventura: “Se apronta, porque nós vai pra Califórnia.” E partiram naquela mesma manhã. Joana nem se deu ao trabalho de fechar a casa. No chão, o vento derrubou a única fotografia amarelada que o marido lhe deixara. ‘Seu’ Tinoco, da porta de seu casebre, viu-a partir em direção ao deserto, seguida pelas três crianças, carregando uma grande trouxa de roupa na cabeça. Ele apertou os olhos, enquanto a imagem dos quatro desaparecia, serpenteando com o calor que brotava do solo.
Meses depois, um homem caminha pelo chão árido de Córrego Seco, dirigindo-se à casa. Traz uma pequena mala de viagem, e muitas saudades e lembranças. Está feliz, pois conseguira arranjar trabalho de jardineiro na casa de um senhor muito poderoso e tão bondoso quanto rico, lá na cidade, no sul do país. Logo que conseguiu o emprego – depois de morar nas ruas,  trabalhar em muitos canteiros de obra, sem carteira assinada e receber um salário abaixo do mínimo, passar muita necessidade e até mesmo fome, João - o marido de Joana- finalmente conseguira fugir do lugar onde era mantido como trabalhador escravo. Em sua fuga, acabou indo bater à porta de seu benfeitor, que vendo seu estado emocional lastimável e seu perigoso nível de desnutrição, decidiu acolhê-lo, cuidar de sua saúde e oferecer-lhe trabalho em sua casa.
Assim que ficou sabendo de sua história, deu-lhe dinheiro e mandou que fosse buscar sua família, em Córrego Seco. As crianças iriam frequentar uma escola, e sua Joana poderia ajudar nos serviços de casa.
Mas quando João chegou, não viu sinal de seus filhos e de sua Joana. ‘Seu’ Tinoco deu-lhe as notícias: “Eles foram embora. Pra Califórnia.” Agoniado, João indagou: “Mas... quando?” Seu Tinoco, montando um cigarro de palha, respondeu: “Faz uns mês... foram naquela direção!” 
Ao ver que ‘seu’ Tinoco apontava a direção do deserto, João sentiu seu coração encher-se de agonia.
Voltou para o casebre. Deitou-se na esteira de palha semicoberta pela areia, e chorou, desejando do fundo de seu coração, que sua mulher e seus filhos tivessem conseguido alcançar a Califórnia.

Autora: Ana Bailune - Petrópolis/RJ
Texto vencedor do Primeiro Concurso do Blog Gandavos

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Os últimos


Escritor: Augusto Sampaio Angelim

Somente os dois moravam naquele lugarejo abandonado.
A pequena vila que, há trinta anos atrás era ponto de parada para viajantes que se dirigiam a São Paulo, e chegara a ter mais de cem almas, hoje era um lugar fantasma. Outrora, além das casas, havia até um posto de gasolina e uma pousada que abrigava uns poucos viajantes. À beira daquela enorme estrada reta de terra batida, de quase cem quilômetros sem curvas, o que restou de seu casario sequer dava para ser avistado de longe.
Desde os tempos de Juscelino que se falava no asfaltamento da rodagem. Pavimentaram outras rodovias e aquela foi ficando na poeira. O asfalto não veio e nem as outras coisas do progresso. Então, o povo se foi. Os poucos moradores, foram embora. Primeiro os mais novos. Depois, os mais velhos. Ao final, todos.
Sina de quem nasce na beira da estrada é ir embora.
As casas, a maioria umas taperas, não resistiram ao tempo e foram ruindo. Da capela, onde se rezava uma missa por ano, nem mais um sinal. Escola, nunca teve. O casario abandonado serve de abrigo aos bodes e algumas ovelhas. Alguns forasteiros, vendo esse cenário de abandono, se benzem. Outros param e fotografam a calmaria, como se, por um instante, quisessem adivinhar seus mistérios e, depois, continuam seus destinos ignorados. Os que são das redondezas, se consternam com a desolação, quando passam a caminho das cidades da vizinhança.

Mas eles ficaram.
Restaram apenas os dois.
Eram os últimos.
O casal tinha umas vaquinhas e outras criações. Um pasto até grande, onde podiam soltar os bichos à vontade. Tiravam o sustento das criações e do plantio de milho e feijão. Não podiam ir embora. Até planejaram isso no passado, mas os dias foram passando e não conseguiram arredar os pés dali.
Possuíam cavalo, mas, agora, quando iam à feira, montavam uma motocicleta. Novos tempos. Uma moto velha, com cinco ou seis anos de matrícula atrasada. Tinha uma placa apenas por enfeite, mas ninguém se importava de abordar os dois.
A mulher ainda guardava traços da beleza de antigamente.
Rosa.
Rosa Maria da Felicidade de Jesus. Este era o seu piedoso nome. Promessa da mãe dela.
Ele, João Ferreira, ainda era aparentado de Lampião, pois sua família vinha das bandas de Serra Talhada.
Chegara ali moleque novo, com os pais.
Os velhos morreram, os irmãos se mandaram.
Até o início dos anos oitenta ainda teve notícias de Tonho e de Miro, que foram para São Paulo.
Vandinho morreu menino, assim como Maria Aparecida.
Das Dores, fugiu com um malabarista de um circo. Essa entrou cedo, na “lata do mundo”.
Nunciada arrumou marido para as bandas do Pajeú, até virou professora. Tirou a sorte grande.
Um caminhoneiro de Ibimirim disse que tinha encontrado Tonho, em São Paulo, numa feira nordestina, há uns dois anos.
Ele e Rosa se conheceram na festa da padroeira do Moxotó. Morena bonita de sorriso desconfiado, mas que, logo, caiu nas suas graças. Além disso, era mulher direita. Nem precisa dizer que era virgem. Até sabia ler e escrever, coisa que ele nunca aprendeu, por falta de oportunidade.
A desgraça é que nunca tiveram filhos.
Um menino sequer.
Poderia até ser uma menina, mas Deus não quis, como costumava dizer a mulher. Fizeram várias tentativas para ela engravidar.
Foram aos médicos de Arcoverde, Garanhuns, Paulo Afonso e até Recife, quando eram um casal ainda jovem. Tomaram chás receitados pelos mais velhos, mas nada. Entraram e passaram os anos e nenhum menino para trazer alegria para casa e depois ajudar na lida do campo. Nos últimos anos Rosa se queixava dos incômodos no estômago, todos os dias. Na “boca do estômago”. Também todas as noites. “Nada não, passa logo”, dizia ela. Não passou. Numa dessas noites, teve febre muita alta. Delirou, chamando meninos que ela nunca pariu. Chamava por Joãozinho, Maria, Verônica, Gregório. Nomes que haviam planejado para os filhos que nunca tiveram.
“Joãozinho, você vai cair dessa cerca, minino!”;
“Grigório, vá pegar o leite!”;
“Maria, mexe o feijão!”
“Verônica, arruma os cabelos, muié!”. 
 

A mulher não dizia coisa-com-coisa. Ficou preocupado e, quando amanheceu o dia, foi até a casa de Seu Domingos e fez trato para levarem a mulher para o hospital de Arcoverde. Não teve jeito, morreu dois dias depois, sem dizer mais nada. O doutor disse que tinha sido aquela doença miserável, cujo nome cristão humilde tem medo de pronunciar. O enterro foi na cidade, pouca gente. Os parentes quase todos tinham se mudado para outros lugares e o casal vivia recluso.

Agora era ele o único morador do lugar.
Não tinha mais ninguém além dele.
Acocorado debaixo de uma baraúna velha, às margens da estrada, de alpercatas, calças dobradas no meio da perna, chapéu e um pedaço de pau na boca, como se fosse um palito de dentes, riscava o chão com um graveto. Não fazia planos. Não tinha plano nenhum. Apenas pensava nessas coisas e em Rosa.

Olhou para o céu e viu que a noite ia chegando de mansinho. Duas lágrimas escorreram de seus olhos. Limpou o rosto com a mão rude, deu um pigarro e levantou-se decidido: já era hora de recolher o gadinho para o curral e cuidar dos outros bichos.
A noite já tinha tomado conta do mundo.

Autor: Augusto Sampaio Angelim - São Bento do Una/PE
Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 19/10/2011.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Uma Viagem Literária/Buritizeiro/MG

Augusto Sampaio Angelim

Olá, meus caros amigos. Eu conheci Buritizeiro através das leituras de Guimarães Rosa, principalmente de GRANDES SERTÃO: Veredas, que é local sempre referenciado em sua obra. Na localidade rural conhecida como Paredão de Minas, ocorreu a batalha final de Grande Sertão Veredas. Por conta disso resolvi viajar até à cidade de Buritizeiro e vivenciar melhor os caminhos rosianos. Não me decepcionei e espero voltar com mais tempo à região.



O município de Buritizeiro, geograficamente está localizado no Norte de Minas Gerais e Alto Médio São Francisco, encontra-se em área de cerrado e integra o conjunto dos municípios mineiros da RMNE – Região Mineira do Nordeste. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/IBGE, é o 5º maior município em extensão do Estado. Situa-se às margens do rio São Francisco e da rodovia BR-365, em um dos principais eixos rodoviários no que diz respeito à logística de escoamento de produção agrícola nacional. O município é rico em recursos hídricos e confronta com os municípios de Ponto Chique, Santa Fé de Minas, Brasilândia de Minas, João Pinheiro, São Gonçalo do Abaeté, Três Marias, Lassance, Várzea da Palma, Pirapora, Lagoa dos Patos e Ibiaí.
Fonte:  Wikipédia - A Enciclopédia Livre
















Imagens do município de Buritizeiro, da Pousada Portal do Sertão e de Rômulo Melo, Secretário de Cultura e proprietário da Pousada.

Material enviado por:
Augusto Sampaio Angelim - Caruaru PE

domingo, 28 de janeiro de 2018

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Entrevista: Marina Alves

Marina Alves

MARINA ALVES GONTIJO é natural de Lagoa da Prata-MG. Escritora, poetisa, autora dos livros Sombras e Assombrações (contos- 2007); Á Roda da Fogueira (contos) e Vozes do Coração (poesia), os dois últimos, ainda inéditos. Em preparação também para publicação Fala, Marina (crônicas). É formada em Pedagogia; pós-graduada em Psicopedagogia; colunista do jornal INFORMAÇÃO, desde 2001, onde escreve mensalmente. Conta com trabalhos publicados na revista AMAE Educando, em coletâneas, antologias, jornais locais, blogs e sites especializados em Literatura. Premiada por quatro vezes em concursos literários, sendo dois promovidos por jornais locais, e dois, realizados em nível nacional pelo Blog Gândavos. Mantém uma escrivaninha no site de Literatura Recanto das Letras, onde escreve, desde 2009, diversificados gêneros. Contemplada pelo Ministério da Cultura, em 2013, com a seleção do projeto Vivendo Histórias — Contando Causos, desenvolvido, a partir do livro de sua autoria Sombras e Assombrações. Ingressou na ACADELP- Academia Lagopratense de Letras, em 19 de março de 2004, onde ocupa a cadeira nº 13, e tem por patrono, Rubem Alves.

Entrevista

1-             Quando e como surgiu seu interesse pela leitura e escrita?
Muito cedo. Assim que tive contato com as primeiras letras, já fui encantada por elas. Aprendi a ler com “Os Três Porquinhos”, livro que nos era dado por partes e a espera da próxima página era como esperar por uma grande aventura.
2-             Quais foram seus livros preferidos quando era criança e os livros favoritos atualmente?
Os livros de Monteiro Lobato e suas histórias fantásticas, e os demais clássicos Infantis. Jamais vou me esquecer também do livro “As mais Belas Histórias” de Lúcia Casasanta, que trazia na capa, Rapunzel no alto da torre com sua trança maravilhosa. Pela vida afora, aos poucos fui descobrindo os grandes autores, da Literatura Estrangeira e Brasileira,     cada um com seu encanto, e  não conseguiria nomeá-los aqui.
3 - Quais escritores são suas fontes de inspiração?
Todos os que me marcam de alguma forma, entram sorrateiros pelas minhas Letras. E na maioria das vezes nem percebo. Isso é sensacional.
4 - De que forma o conhecimento adquirido, seja pelo senso comum, ou pelo meio acadêmico, ajuda na hora de escrever?
O que a gente lê (aprende e apreende) fica guardado de alguma forma, em algum cantinho que funciona como um arquivo.  Basta soprar o vento mágico da inspiração para trazer à tona o que em algum momento foi guardado. Aí é deixar fluir... E bem rápido, antes que o vento se vá e leve tudo embora. Isso vale tanto para o conhecimento do senso comum quanto para o acadêmico. Mas é importante que esse arquivo seja sempre atualizado.                            
5- Segundo o escritor Rubem Fonseca, “a leitura, a palavra oral é extremamente polissêmica. Cada leitor lê de uma maneira diferente. Então cada um de nós recria o que está lendo, esta é a vantagem da leitura". É isso mesmo? Concorda com essa proposição?
Concordo. E são essas várias e diferentes leituras, as múltiplas interpretações que dão um encantamento especial ao ato de escrever para alguém ler. Daí, não concordo com o tradicional “O que o autor quis dizer com...?”, presente nas provas e concursos.
6- Ainda segundo o Escritor Rubem Fonseca: “um escritor tem de ser louco, alfabetizado, imaginativo, motivado e paciente.” É o suficiente para ser um bom escritor?
Tudo isso e o principal: paixão.
7 - Para qual público se destina sua criação?
Para todas as idades. O que escrevo depende muito do meu momento de criação. E estes momentos refletem várias faces e idades em mim. (às vezes, eu tenho oito anos, às vezes, oitenta, ou mais de cem...)
 8 - Como funciona o seu processo de criação? Quais sãos suas manias (ritual da escrita)?
Sou adepta do lápis e papelzinho sempre por perto.  Já parei muitas vezes, nas ruas e nos lugares mais estranhos pra rabiscar ideias. A madrugada também é grande fonte, com insônia e tempestade cerebral que não tem hora: Papel e caneta à cabeceira, sempre. (já compus algumas coisas até durante o sono). Quando as ideias vêm, não me faço de rogada. Se der moleza, elas somem no ar... e aí,  adeus!
9 - Em geral, os seus personagens são baseados em pessoas que você conhece, ou são ficcionais?
Um pouco de tudo. Mas juro que em cada ficcional há sempre alguém real. Isso é genial. Ter a chance de falar sobre as pessoas, sem que elas sequer suspeitem. (principalmente nas muitas crônicas que escrevo e  que pretendo publicar em livro). Já escrevi sobre muita gente que sequer desconfia que está nas minhas letras. E muitas vezes, até comenta sem saber que foi fonte inspiradora. Eu me divirto com isso.
10- Você tem outra atividade, além de escrever?
Trabalho na área de Educação, outra paixão. Atualmente sou Pedagoga na Educação Infantil.
11 - Você faz parte das Coletâneas Gandavos. Qual a sensação de participar ao lado de escritores de várias regiões do país?
Muito gratificante. Sensacional, poder conhecer,  trocar experiências literárias com   tantos talentos brasileiros aproximados e reunidos pelo Blog.
12 - O financiamento coletivo e a publicação independente têm se mostrado a opção das publicações Gandavos.  Quais são os pontos positivos e negativos desse tipo de publicação?
Pontos positivos: Oportunidade de divulgar o próprio trabalho e conhecer outros trabalhos.
Pontos Negativos: o custo envolvido visto que publicar com recursos próprios implica em ônus para o escritor, que depois encontra dificuldade com a distribuição do livro, e retorno para os custos envolvidos.                                                             
13 – Você já fez publicação de livros sozinho (a), seja impresso ou virtual? Quais e como o leitor pode adquiri-los?
Sim. Em publicação de livro físico, tenho “Sombras e Assombrações”. Na modalidade virtual, duas publicações, Ebooks, organizados por Helena Frenzel, a quem reitero   cumprimentos e agradecimentos por seu belo trabalho nesta área.
14 - Qual mensagem você deixaria para autores iniciantes, com base em suas próprias experiências.
Para ser um escritor é preciso, antes de qualquer coisa ser um bom leitor. Então leia, leia e leia bons autores, deixe que eles tomem conta de você e impregnem suas letras. Construa seu estilo próprio, sua identidade literária, mas jamais abandone os livros. Também não deixe de estudar a Língua Portuguesa, aproveite as tecnologias como ferramentas de suporte e pesquise, se informe, busque fontes, se aprimorando sempre, tendo em vista que um escritor sempre está em construção. Por fim, seja um observador da vida, das pessoas, preste atenção aos seus detalhes e transforme suas emoções em palavras. Certamente você terá uma fonte inesgotável de inspiração para falar sobre os mais diversos assuntos e escrever sobre os mais variados gêneros. Por fim, busque oportunidades de mostrar seus trabalhos, em espaços especializados como sites e Blogs, ou lançando mão de publicações a modo das antologias, visto que publicações independentes, ou contrato com editoras nem sempre são projetos acessíveis. No mais, seja feliz com a Literatura, lendo, escrevendo, deixando suas marcas, divulgando-as da melhor forma que puder, afinal escrevemos não só para nos realizarmos através da escrita, mas também pelo prazer de sermos lidos.

Autora: Marina Alves
Lagoa da Prata - MG