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domingo, 23 de abril de 2017

Linguiça - Autor: Roberto Rêgo

Magrelo, comprido, espichado, botaram-lhe o apelido de “Lingüiça” logo começou a trabalhar no escritório da fábrica, como “Office-Boy”. Luiz Alberto era o seu nome, mineirinho do interior, natural de Cachoeira de Curvelo.

Garoto inteligente, não perdeu tempo e agarrou a oportunidade com unhas e dentes. Esmerou-se no trabalho, aprendeu rápido o ofício e em pouco tempo foi promovido, saindo do serviço de rua para o trabalho interno no escritório da companhia. Passou por diversos setores no escritório, Contabilidade, Departamento do Pessoal, Faturamento, sempre correto nas atitudes e com excelente desempenho profissional, ganhando assim a confiança dos superiores.

Alguns anos depois o “Lingüiça” tinha engordado bastante, mas o apelido continuava. Ele conheceu uma moça bonita, Desiré, funcionária da empresa também, namoraram, noivaram e se casaram em questão de três anos.

O tempo correu e o “Lingüiça” viu os filhos nascerem, para alegria sua e da Desiré, sua mulher adorada. No trabalho, seguia firme e sempre bem conceituado entre os superiores, galgando devagarzinho as promoções da carreira. Foi indo assim até chegar à idade madura, quando começaram os problemas de saúde.

Aos cinqüenta anos sofreu um infarto brabo, quase partindo desta para melhor. Superou a doença, recuperou-se e insistiu trabalhando. A princípio fazia dieta alimentar, largara o fumo, a bebida e tomava seus medicamentos. Mas, com o tempo, foi relaxando, voltou a fumar, a tomar seus goles, a comer suas feijoadas, costelas e rabadas, o fato é que ele perdeu totalmente a noção do perigo.

Num domingo, foi à missa na Igreja de São Sebastião com a mulher e os filhos, rezou bastante, comungou, gordão, compenetrado e, ao término do culto, falou pra mulher e  filhos na pracinha defronte à Matriz:-

“- Desiré, querida, pode ir descendo pra casa com os meninos, sabe? Eu vou procurar o que comer, porque hóstia não mata minha fome! Vou ver o que tem lá no fogão do Jorge, meu primo.”

Esse Jorge era um sujeito taciturno, seu primo, que vivia sozinho, enfurnado num barracão na beirada do rio. O “Lingüiça” chegou, trocaram as saudações costumeiras e o dono da casa indagou:-

“- E aí, primo? O que você tá mandando? ...”

“- Jorjão, tou a seco e com fome! Tem aí aquela branquinha pura?”

“- É pra já, primo. Vou buscar também um costelão assado que fiz ontem de noitinha.”

Chegou com a garrafa da “marvada” e os copos americanos (aqueles canelados), encheu-os até a borda, cortou um pedação de costela bem gordurosa pro “Lingüiça”, ele emborcou de vez a pinga e caiu de queixo na carne assada. E assim foram, de gole e costela, de costela e gole até de tardezinha. Lá pelas dezesseis horas, desmaiados, foram acudidos pelos parentes. O “Lingüiça” foi levado em padiola pra casa e de lá pro hospital, donde só saiu pra falar diretamente com São Pedro, alguns dias depois.

Autor: Roberto Rêgo - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada através de e-mail de 10/10/2011

quinta-feira, 20 de março de 2014

Sujeito azarado - Autor: Roberto Rêgo

O Paulão é o que se pode chamar de um cara azarado. Tal e qual o seu xará da “Grande Família”, interpretado pelo fenomenal Evandro Mesquita no episódio de ontem (02/9) mostrado na “TV”, o Paulão é fechado. Dá tudo errado com ele, essa é que é a grande verdade.

Senão, vejamos, quando ele nasceu não havia ainda exame de ultrasonografia gestacional, de forma que seus pais compraram todo o enxoval em cor de rosa, pois esperavam ansiosamente uma menina. Nasceu um moleque taludo, de saco roxo e tudo o mais, forte que nem um touro. Os pobres pais tiveram que comprar um novo enxoval, agora em cor azul, dobrando, pois as despesas com o recém nascido.

Por volta dos dez anos, o Paulão se preparou para a primeira comunhão, freqüentando a catequese na igreja matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Santana de Pirapama, cidade vizinha a Cordisburgo, terra do famoso escritor mineiro Guimarães Rosa. No dia da missa de sua comunhão, o padre Isaías veio botando a hóstia consagrada na boca da meninada toda e, justo na hora do Paulão comungar, o último da fila, acabaram-se as hóstias! ...

Quando adolescente, na fase dos namoricos e das primeiras descobertas no terreno amoroso, Paulão se tomou de amores pela Dadinha, morena sacudida de Santana do Pirapama. A morena lhe dava bola e ele, tímido e nervoso, tinha dificuldades em se aproximar da moça e engatar o namoro, no que foi ajudado pelo amigo Tonico, figurinha difícil no lugar. Pois na primeira vez que o Paulão conseguiu entrar na casa da Dadinha, sendo apresentado aos seus pais, ele foi namorar na sala, todo nervoso. Dona Joana, a sogra, foi pra cozinha preparar um café e o “Seu” Geraldo, o sogro, foi até o banheiro esvaziar a bexiga.

Foi aí que o Paulão cismou de lascar um beijo na Dadinha, ela endureceu o jogo, esquivou-se, o moço puxa daqui, a moça escorrega dali e quando o rapaz passou o braço na sua cintura e puxou-a de encontro ao peito seu sistema nervoso não agüentou a pressão e o intestino deu sinal de fraqueza, liberando um “pum” daqueles fedorentos, avisando que já vinha sujeira. Foi a “caganeira” que mandou ao “pum” dizer: “-Vai na frente buzinando,  que eu estou sem freio! ...”

O resultado foi que o Paulão largou a Dadinha e despinguelou de volta pra sua casa, mas não chegou à metade do caminho, aliviando-se nas calças ali mesmo na praça e se  emporcalhando todo. O pior foi que, depois disso,  o  Tonico tomou  seu lugar no coração da Dadinha.

Finalmente, aos trinta e três anos, homem feito, o Paulão casou-se com moça distinta de Sete Lagoas, a Soraya. Pois bem, foram pro Guarujá em lua de mel e levaram os pais da moça, “Seu” Juvenal e Dona Marieta, não sei pra quê. Mas levaram. Na manhã seguinte à primeira noite de núpcias, o Paulão saiu com o sogro, “Seu” Juvenal, logo após o café da manhã, pra  pescar logo ali na  Praia  da Enseada, defronte  ao hotel.

O sogrão preparou seu molinete, adiantou-se e foi jogar o anzol. O Carlão, um pouco mais atrás, preparava a sua isca e quando “Seu” Juvenal fez o movimento com a vara para trás, a fim de lançar bem longe seu anzol, o dito cujo pegou justo na beiçola do Paulão, arrancando-lhe um bom pedaço, gritos de dor e desespero.

Correria, sangue, Pronto Socorro  e adeus lua de mel à beira mar! ...          

Autor: Roberto Rêgo – Belo Horizonte/MG
Publicação autorizada pelo autor através de e-mail.

domingo, 14 de julho de 2013

A Tosa do Pepe

 Autor: Roberto Rêgo

O “Pepe”, um cachorrinho vira-latas, pelagem grande, cor do mel, foi deixado com menos de um mês na garagem lá de casa.
Pela manhã, ao ligar o carro, ouvi um chorinho fraco bem próximo, de cachorro desamparado. Só podia ser.
Agachei-me e vi o danado debaixo do carro, meio desconfiado. Fiz uma graça e o chamei, ele abanou o rabinho mas negaceou. A custo, logrei tirá-lo de sob o veículo.
Levei-o à minha esposa, Maria Mari que, de cara, se encantou com o cãozinho e resolvemos adotá-lo.
Tive um rompante, liguei para São Paulo e falei com os netos Izabela e Victor, contando a novidade. Encostei o aparelho ao focinho do animal e os meninos ouviram os seus ganidos, a mais de seiscentos quilômetros de distância, ficando ainda mais ouriçados do que eu!...
Daí pra frente, nossa casa ficou mais agitada com o “Pepe”, já por natureza um cãozinho levado da breca. Rodos, vassouras, tapetes, pequenos objetos e tudo o mais que estivesse ao seu alcance era simplesmente destruído.
A Dona Maria Mari, sempre muito organizada com as suas coisas, seu jardim e suas flores, surpreendeu-me ao tolerar as peraltices do cachorro, relevando tudo o que ele aprontava. E como aprontava!
O Igor, nosso primeiro neto, tomou-se de amores pelo “Pepe”, brincava com ele, rolavam na grama do jardim simulando briga feia, porém jamais foi sequer arranhado pelo animal de boa índole.
E assim a vida correu um ano e meio, até o dia em que eu, achando o “Pepe” muito cabeludo, resolvi levá-lo à “Dog’s House” para uma tosa.
Deixei-o com recomendações diversas, mas não imaginava o que fariam com ele, pois era a sua primeira vez (eu mesmo lhe dava banho e o tratava, mas sem tosa, é claro).
À tardinha, tocou a campaínha lá de casa e deparamos com a camioneta da “Dog’s House” estacionada. Um garoto desceu com o “Pepe” na coleira, todo pelado e cheiroso que só!
Levamos um baita susto, pois ele ficou magrelo à beça, com as costelas à mostra, sem pelos, e foi reconhecido apenas pela sua cara sem vergonha, de focinho preto, seu ar brejeiro e sua enorme alegria.
De consolo, botaram-lhe uma gravata de seda grená no pescoço pelado, com nó caprichado. Ficou chique!...

Agora é dar tempo ao tempo e esperar crescer sua bonita pelagem dourada (“crocante”, como diz o Igor), para que nos sintamos todos, de novo, felizes e orgulhosos do nosso mascote.

Autor: Roberto Rêgo - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada pelo autor

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mudança de sexo - Autor: Roberto Rego

A comadre Alzira era um pedaço de mulher, pele clara, negros cabelos, olhos de jabuticaba, reforçada de corpo, braços e pernas roliças de dar água na boca de todos os homens do Capão Bonito, lugarejo encravado lá pras bandas da Serra da Canastra, região de Capitólio, Minas Gerais.

Esposa do Major Tenório, policial militar reformado, truculento de natureza, fazendeiro do lugar, Dona Alzira chamava a atenção de todos quando vinha à cidade de Capitólio para fazer compras, especialmente tecidos e armarinhos, mulher prendada que era, chegada à confecção de vestidos, blusas e peças do vestuário feminino. O marido, sempre ao seu lado, parecia um cão de guarda, sempre atento a tudo e a todos, não desgrudando os olhos da mulher. Um caso sério o ciúme doentio desse homem.

Vizinho deles em Capão Bonito, o compadre Armando, criador de ovelhas, babava de amores contidos pela comadre Alzira. Volta e meia aparecia lá na fazenda do casal, levando um carneirinho mamão pro Major Tenório fazer um assado, conhecedor que era dos seus gostos e das suas manias. Ficava de olhos compridos pra cima da comadre, mas ela não lhe dava a menor bola, ainda mais na presença do maridão, é claro! E o compadre Armando ficava na sua.

Certa feita o Major Tenório viajou para Goiás a negócios, onde pretendia comprar algumas vacas e um touro reprodutor para o seu rebanho. Após passar várias recomendações à sua mulher, o militar encetou a viagem, prometendo voltar o mais ligeiro que pudesse.

O compadre Armando, sempre por dentro do que se passava no Capão Bonito, mal o fazendeiro partiu ele apareceu por lá montado no seu cavalo alazão, afobado e nervoso como de hábito. Chegou no galope, amarrou o cavalo próximo à entrada da sede e foi logo batendo palmas e gritando:-

“- Comadre Alzira, oi comadre!... Tou chegando! ...” – Dona Alzira surgiu na varanda que circundava a enorme casa e admirou-se:-

“- Compadre Armando, que surpresa! O Tenório não está, ele viajou, sabia? ...”

“- Sim, minha comadre, tou sabendo! Mas posso entrar pra uma conversinha rápida?”
Dona Alzira franziu a testa, pensou e respondeu com tranqüilidade:-

“- Sabe, compadre? Eu tou precisando de ir até o centro da vila do Capão Redondo, mode comprar umas coisinhas de armarinho. Vamos comigo e no caminho a gente vai conversando, o que o senhor acha? ...” – e ele, rápido que nem um corisco:-

“- É pra já, comadre! Deixo o alazão aqui e vamos na sua charrete, pode ser?”

“- Mas é claro. Então vamos logo!...”

E saíram os dois na charrete puxada pelo “Mimoso”, um cavalinho pampa ligeiro que só ele. Ultrapassaram a porteira, depois o mata-burro e em seguida pegaram a estradinha de cascalho que levava ao vilarejo. Compadre Tenório conduzia a charrete com Dona Alzira ao seu lado, ambos alegres e proseando bastante. Andaram uns quinze minutos e a comadre virou-se:-

“- Aiii, compadre Armando! Tou precisando fazer um xixi! ... Pare ali próximo àquelas moitas, vou pro mato! ...”

O compadre parou a charrete, Dona Alzira subiu um pequeno barranco, acomodou-se por detrás duma grande moita de grão de galo, levantou a saia, abriu as pernas e virou aquele bundão branco e redondo pros lados da estradinha. Daí a pouco lá vem o sorrateiro do compadre Armando, escalou o barranco e deparou com aquele belo cenário, sem dúvida nenhuma a visão dos seus sonhos. Agachou-se, veio que nem um gato por trás, esticou o braço e botou a mão grande, espalmada, por baixo das intimidades da comadre Alzira, no justo momento em que ela expelia um baita tolosco dos seus intestinos. O compadre acusou o recebimento da carga e perguntou:-

“- Uai, comadre, a senhora mudou de sexo??? ...” – e a Dona Alzira, rapidinho:-

“- Não, compadre, eu mudei foi de idéia! ...”


Autor: Roberto Rego - Belo Horizonte/MG

domingo, 18 de março de 2012

O papa-defuntos - Autor: Roberto Rêgo

Vinha eu do Mercado Central, onde fui comprar um legítimo queijo do Serro na cachaçaria do “Ronaldo dos Queijos”, quando, sentado nos bancos da turma da “melhor idade”, não pude deixar de ouvir o animado bate-papo entre o motorista e o trocador do coletivo “Sion-Cidade Nova”.

O motorista, claro dos olhos azuis, dos seus 35 anos, falava ao celular com moça conhecida, enquanto aguardava abrir o sinal de trânsito na Rua Espírito Santo com Avenida Afonso Pena:-

“- Sabe, filha, não dá pra falar muito agora, estou no trânsito. O sinal vai abrir já. Dá pra você me ligar dentro duma meia-hora? Aí, no final da linha, falaremos mais à vontade.”

“- Eita, “Doidão”, tá de conversa mole com a tal gatinha, né? Vê se te manca, cara! Tú tá dirigindo, meu irmão!...”

“- Fica na sua, cobrador! A menina tá me dando mole, só tem 26 aninhos, saca? Tou só administrando, por enquanto.”

O sinal abriu, o ônibus arrancou e os dois prosseguiram numa prosa bem animada, falando sobre diversos assuntos, desde mulheres, passando pelo futebol (eles torciam pelo “Galo” e pela queda da “Raposa” para a Segunda Divisão do Brasileiro) até a política e a corrupção desenfreada em Brasília, como de resto em todo o país.

Daí a pouco um motoqueiro fez uma manobra arriscada à frente do “busão”, o motorista meteu o pé no breque, xingou o maluco da motoca e disse ao cobrador:-

“- Cara, quer saber? Tou pensando seriamente em deixar de ser motorista, levantar meu “Fundo de Garantia” e abrir um negócio próprio, tá ligado?”

“- Que tipo de negócio, “Doidão”? Tú tem experiência de alguma coisa, já mexeu com comércio na vida?”

“- Velho, tive analisando, do jeito que esses motoqueiros andam no trânsito, no Brasil inteiro, esse é um negócio muito promissor:- vou montar uma empresa pra vender caixões e coroas de flores, próxima ao Cemitério do Bonfim! Vou ganhar muito dinheiro, prezado! O que tem de nego morrendo todo dia por aí é um caso sério! ...”

“- Tá aí, “Doidão”, um negócio bem bolado. Me leva junto? Vou ser divulgador, relações públicas e vou te ajudar no negócio. Manda fazer uns cartões, vou distribuir nos velórios da “Santa Casa”,  vou arranjar “fregueses” pro teu comércio. Também quero sair dessa bosta de serviço e ganhar dinheiro, me aprumar na vida! ...”

O ônibus rodava pela Cristiano Machado, trânsito intenso àquela hora da manhã, quando deu uma brecada violenta diante do semáforo que fechou de repente. Ouviu-se um estrondo na sua traseira, gritos dos passageiros e dos transeuntes, motorista e cobrador desceram e viram estendido no asfalto, bem atrás do “busão”, um motoqueiro todo quebrado, moto espatifada debaixo do pesado veículo, capacete à distância e o sangue escorrendo da sua cabeça partida, talvez o primeiro “freguês”disposto a inaugurar a funerária do motorista “Doidão”!...

Autor: Roberto Rêgo - Belo Horizonte/MG
Publicação autorizada através de e-mail de 20/01/2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dedé Calango - Autor: Roberto Rêgo

Waldemar Pereira, vulgo “Dedé Calango”,  morador no “Arraial do Carrapicho”, distrito de São José do Brejo Seco, interior mineiro, era um sujeito que vivia de biscates por falta de profissão e um emprego decente. Seu maior sonho era empregar-se com carteira assinada e tudo. Casado com Dona Gertrudes, tinha uma filha de seus dezessete anos, a Risoleta, chamada pelos pais de “Santinha”, virgem bela e de muita formosura. Os três formavam uma família feliz e eram  bastante queridos naquela comunidade.

“Dedé Calango” ficou todo ouriçado quando soube que a Prefeitura abriu três vagas para contratar garis, mediante uma provinha simples e exames médicos. Preocupado ao extremo, procurou ajuda de alguns conhecidos, fez promessa ao santo padroeiro, rezou muito e acabou passando no teste, juntamente com dois outros conterrâneos seus, o Mundico e o Sinfrônio. Eufórico com o resultado, voltou a se preocupar  agora com os exames médicos, lembrando que quando criança teve muitos vermes e seu organismo ficou debilitado pela esquistossomose. Pensou muito e resolveu falar com Dona Gertrudes:-

“- Olha aqui, Gê, tou pensando nesses exames que vou ter de fazer pro emprego na Prefeitura, sabe? Exames de fezes e de urina. É bem capaz de num dar certo! E se a gente pedisse pra “Santinha” fazer xixi e cocô no meu lugar? Ela é nova, tem muita saúde e com certeza vai passar nos exames.”

Sua mulher estranhou a idéia, mas terminou concordando com o plano do marido. Falou com bastante jeito pra “Santinha”, explicou que seu pai dependia daquele emprego e ela acabou aceitando fornecer o material, que foi colhido e entregue, no nome do pai, ao laboratório municipal para as análises de praxe.

No dia marcado para a entrega dos resultados, os três candidatos compareceram ao Posto de Saúde do “Carrapicho”. O Mundico e o Sinfrônio tiveram resultados positivos e foram liberados para providenciar documentos para contratação. Quanto ao “Dedé Calango”, foi chamado em particular pelo médico à sua sala. Ele entrou meio cabisbaixo, amarelo que nem cera, sempre pensando no pior. E o doutor, raspando a garganta:-

“- Seu Waldemar, o exame de fezes tá legal mas quanto ao de urina ... Eu não sei como dizer isso, mas o fato é que ... o senhor está grávido! Gravidíssimo, Seu Waldemar! ...”

O pobre do “Dedé Calango” ergueu-se, levou a mão à testa fria e soltou um grunhido:-

“- Deus do céu, e agora, minha “Santinha” ???  – e caiu desmaiado!


Autor: Roberto Rêgo - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada através do e-mail de 20/01/2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Anarrier - Autor: Roberto Rêgo

Chegou junho, o mês das festas juninas, das fogueiras, do quentão, das bombinhas e das famosas “quadrilhas” que a gente dançava até quase o amanhecer! ... Como era bom.

Recordo-me saudoso dos meus quatorze anos, imberbe ainda, ensaiando a “quadrilha” no Esporte Clube Renascença, Belô, todo cheio de prosopopéia. O Zezinho, um veterano do clube, exímio dançarino, era quem comandava a turma, ensaiando a dança e ensinando a coreografia aos participantes.

“- Anarrier! ...”, gritava ele, e todo mundo que circulava pelo salão feito um “trenzinho”, moça à frente, rapaz atrás segurando na sua cintura, virava-se rápido e fazia o mesmo movimento no retorno. E o entusiasmo, a alegria contagiava-nos a todos, iluminava as faces da rapaziada, provocava um frenesi em todos os jovens corações. Daí a pouco, de novo o Zezinho:-

“- Caminho da roça! ...”

E nós voltávamos, os pares dançando ao  ritmo da  linda  marchinha  executada  pelo sanfoneiro (“- Com a filha de João/Antonio ia se casar/Mas Pedro fugiu com a noiva/Na hora de ir pro altar ...”), seguindo por um caminho imaginário que nos levaria até a roça!

Durante os ensaios principiei um namoro tímido com a Rosário, menina gordinha e de grandes olhos negros, que formava par comigo. O clima de festa ajudava, os ensaios ensejavam o colóquio e o namorico rolou tranqüilo. Daí a pouco estávamos preparados para o dia da exibição e a ansiedade nos saía por todos os poros do corpo.

Finalmente, o grande dia, um domingo, 24 de junho, dia de São João! Apresentamo-nos todos caracterizados, vestidos como caipiras, os rapazes de botinas e calças de brim cáqui bem justas, tipo “pega frango”, chapéu de palha, as moças de vestidos rodados, recheados com duas ou três anáguas, o carmim pintado nas bochechas, batom  nos seus lábios carnudos, cabelos longos  em  tranças, uma belezura!

Veio a “quadrilha”, perfeitamente bem comandada pelo Zezinho, o sanfoneiro foi show de bola e a alegria tomou conta de todos, dançarinos e povo na assistência. Antes da dança, houve o tradicional “casamento na roça”, com o padre, a noiva (grávida) e o noivo, magrelo e banguela, intimidado pelo guarda fardado e com a espingarda cutucando o seu lombo (casou na marra), cuja encenação foi hilária e provocou estridentes risadas de todos os presentes.

Terminada a exibição, o povo foi se dispersando, as famílias regressando aos seus lares e eu, com a Rosário, agora mais firme do que nunca, fui acompanhá-la até sua casa junto com algumas amigas e amigos. Todos à frente, eu mais atrás com a menina, rindo muito e trocando afagos.

Sozinhos no portão da sua residência, conversamos mais um pouco, nos acariciamos e rolou o primeiro beijo das nossas vidas! Tão rápido, nervoso, pupilas dilatadas, narinas ofegantes que mal deu pra escutar a “tosse” do pai dela, de propósito, por detrás da janela do quarto, raspando a garganta e chamando lá de dentro:-

“- Maria do Rosário, entra pra casa já! Tá fazendo frio e já é quase madrugada, menina!” ...

Autor: Roberto Rêgo - Belo Horizonte/MG
Publicação autorizada através de e-mail do dia 10/10/2011

domingo, 18 de dezembro de 2011

Presépio - Autor: Roberto Rêgo

Os tempos mudam, as coisas se transformam. Dezembro ... Época de festas, de alegria, satisfação se refletindo em faces sorridentes, amor profundo dilatando pupilas em olhares cálidos, terrivelmente humanos, sinos repicando, canções natalinas, luzes, vinhos, presépios, cheiro de Natal em tudo.

Natal, festa máxima da cristandade, data comemorativa da vinda de Cristo ao mundo. Ele, que foi o Salvador dos homens.

Crianças mil, brancas, negras, ricas e miseráveis, esperam presentes do papai ... Já não mais crêem na estória do Noel, sujeito barrigudo, aborrecido, gordinho e luzidio como os homens do governo.

Governo ... Não sei porque, mas quando digo tal palavra lembro-me da minha avó, dona Maria Felix, a saudosa “Vó Fela”.

 Ela, sempre atarefada, avental sujo de gordura pendurado na barriga enorme, sacudindo o corpanzil através os cômodos do casarão antigo em minha saudosa terra, Cedro, dizia-me toda desdém, se eu pecava no cumprimento das suas ordens e determinações:-

“- Égua do governo ...”

Pois é, Papai Noel é rosadinho como os homens do governo. Safados.

“- Égua do governo ...”

Fui à igreja na noite do Natal. Queria rezar um pouco. Entrei com o devido respeito, acomodei-me num banco e, após algumas orações balbuciadas maquinalmente, dirigi-me ao presépio gigantesco, armado ao lado do altar de São Judas.

        Vi o Menino-Deus no estábulo que era na gruta, o burro e a vaca, figuras seculares, Gaspar, Belchior e Baltazar, os reis magos e um tatu grande, feio, disforme, lá no fundão da gruta.

Sim, um “tatu-galinha”, fazendo não sei o que no presépio pois ele gosta é de cemitério. Mas esse estava lá, intrometido entre os pastores e demais figurantes daquela noite santa ...

Autor: Roberto Rêgo – Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada através de e-mail de 17/12/2011

sábado, 29 de outubro de 2011

Festival de piadas - Autor: Roberto Rêgo

Da última visita que fiz à minha terra natal, o Cedro, parei como sempre no Bar do Jair Breiada, na praça principal, onde se reúnem os velhos amigos da cidadezinha, a começar  pelos  mais antigos, se bem que alguns já viajaram para  os campos superiores.

É lá que a confraria se abraça, ri e chora, saboreia as tradicionais postas de curimatã ensopada com batatas, toma seus goles, fala de futebol, música, mulheres, conta “causos” e as melhores piadas do seu vasto repertório.

Lá por volta do meio dia, a maioria já calibrada, alguém sugeriu uma espécie de torneio de contação de anedotas. Num círculo, o primeiro da turma (o mais velho), Joãozinho Eugênio, contava uma de padre, o sujeito à sua esquerda contava outra, no mesmo tema e assim por diante, no sentido dos ponteiros do relógio, até chegar ao primeiro contador. Caso o cidadão não se lembrasse de alguma piada sobre o tema proposto, seria automaticamente eliminado e saia da roda de amigos. E assim prosseguiram até ficarem sómente três piadistas, o próprio Jair Breiada, o Zé Catarino e este modesto escriba. Lembro-me que para nós três últimos sugeriram piadas sobre o incorrigível “Joãozinho”, sempre lembrado pelas anedotas picantes nas quais ele é o personagem central.

Aí, o Breiada contou a primeira:- “O “Joãozinho”  chegou pra sua mãe e perguntou:- “Manhêee, bunda amarrota? ...” E sua mãe, curiosa:- “Por que você pergunta, “Joãozinho?” E êle, rapidinho:- “Eu ia passando na cozinha e vi o pai falando pra Joana:- “Eita, crioula, qualquer hora dessas eu passo o ferro na sua bunda!” .

Veio o Zé Catarino e emendou outra anedota:- “Joãozinho” foi confessar e disse ao padre que comeu batatinha. Aí, o vigário mandou-lhe rezar três padre-nossos; veio o Zequinha e falou que ... comeu batatinha. O padre, intrigado, deu-lhe penitência branda. E assim todos os meninos da longa fila da confissão disseram ter comido batatinha, até que o último, um mulato gordinho, todo espevitado, ajoelhou-se e antes de falar qualquer coisa o padre lhe disse:- “Não vai me dizer que você também comeu batatinha, né?...”  E  o  moleque  rebateu  de  pronto:- “Não,  seu  padre, eu  sou o “Batatinha”! ...”

Aí chegou a minha vez e lembrei-me daquela em que o “Joãozinho” fazia aniversário e pediu ao pai uma bicicleta, logo no café da manhã. O velho fixou-lhe os olhos, seríssimo e respondeu:- “Prometo a bicicleta, mas só se você ficar de agora até à noitinha sem falar um palavrão sequer, combinado?” – e o pivete concordou.

O dia passou devagar, “Joãozinho” foi à escola, não quis papo com ninguém, evitou as brincadeiras, sempre pelos cantos, mudo, capiongo e macambúzio. Voltou pra casa depois das aulas, enfurnou-se no seu quarto e nem pro jogo da pelada vespertina ele quis sair. Quando seu pai chegou à noitinha, sua mãe colocou os pratos e talheres à mesa do jantar e a prole se aboletou. Dona Rita abriu a tampa de um panelão enorme e o cheiro duma saborosa sopa de macarrão com legumes, a preferida deles, exalou pelos ares, mexendo com as narinas e os paladares de todos. O pai começou a saborear a sopa, a mulher e os filhos o acompanharam e o “Joãozinho”, sempre cuidadoso, curvou-se para a primeira colherada quando veio um casal de moscas voando agarradinhas, em direção ao seu prato e ... tibum, caiu na sua sopa! Aí o moleque jogou a colher pra cima e vociferou, fulo da vida:- “Puta que os pariu, perco bicicleta, perco tudo na vida, mas fuder dentro do meu prato eu não admito! ...”  

Precisa dizer quem foi o campeão desse torneio???...

Autor: Roberto Rêgo - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 26/10/2011