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domingo, 2 de novembro de 2014

O Natal Inesquecível - Autora: Chila Alves

Em um Natal no começo da década de cinquenta, meus pais decidiram trazer a nós, o encanto do Papai Noel. Papai fez duas armações de madeira e pintou de azul e mamãe fez duas redinhas com estampas diferentes e vestiu ricamente, como bebes duas bonequinhas de louça.
Na véspera do Natal, mamãe nos levou até a cozinha e nos contou sobre o "bom velhinho". Minha irmã mais velha entendeu melhor, pois estava com quatro anos, eu com dois, sem contar que a caçula tinha apenas seis meses. Mas mamãe falava com tanto encanto que só poderia ser algo maravilhoso! Disse que nossos sapatinhos deveriam ser deixados na janela. Mas naquela noite choveu. Então com delicadeza, os colocou na parte mais baixa do fogão á lenha. Os de minha irmã que eram de verniz preto, as minhas sandálias brancas e do bebê que eram de tricô.  Com carinho nos disse:
-Como está chovendo, vamos deixar aqui, com a janela um pouquinho aberta, para que o Papai Noel possa espiar e ver os sapatinhos...
Por volta das dez horas, dormíamos e ela nos acordou:
-Acordem, venham ver!... O Papai Noel já esteve aqui!
Ansiosas, corremos até os sapatinhos e encantadas vimos os brinquedos. Para o bebê, ele deixou bolachas, das que mais gostava.
Emocionados nossos pais nos observavam. Ela voltou-se para ele e disse:
-Vá buscar o Jepp enquanto as arrumo!
Faltavam poucos minutos para a meia noite, quando seria rezada a missa-do-galo. Papai parou ao lado do jardim da igreja sob uma frondosa árvore. Emocionados, adentramos a igreja ao som da música Noite Feliz, cantada pelo coro das Filhas de Maria.  
Ele me levava no colo e mamãe o bebê. Minha irmã ficou no meio, com todos entreolhando-se, envolvidos em imensa felicidade.

Autora: Chila Alves - Santo André/SP

sábado, 26 de julho de 2014

A mão amiga - Autora: Chila Alves

   Quatro horas da madrugada. Saio ao portão para abri-lo, fechando bem o roupão para me proteger do frio. Lá fora, o brilho no asfalto molhado. No beiral do telhado, ainda as gotas deixadas pela intensa garoa que cessara de cair. "Quem sabe - penso - hoje o sol apareça trazendo o conforto, um dia com menos frio." Meu filho se despede , com otimista sorriso, saindo para trabalhar.
   Fechando o portão avisto, sentado na calçada, o menino de oito ou dez anos, reparando também que ali se encontra só. Deixando de lado um princípio de receio aproximo-me dele e lhe pergunto o que faz ali... De braços cruzados, não me responde abaixando o rosto para não me olhar. Noto-lhe os cabelos e roupas molhados; em meu peito, uma espécie de alfinetada. Desisto de perguntar mais, só se não gostaria de entrar e tomar um chocolate quentinho com um pedaço de pão. Insiste ele em seu enigmático mutismo. Peço-lhe que me aguarde , que já voltarei com uma reforçada refeição. Resolve então, seguir-me, e à luz da sala, estudo-lhe as feições e os olhos congestionados de quem chorou. Ofereço-lhe um banho morninho e roupas sequinhas, mas ele não quer. Concorda em lavar o rosto enquanto preparo o café. O achocolatado, o pão, os biscoitos, o silêncio quebrado, sua história expressada em "sentimentos molhados", poesia que me aflora, que agora transcrevo para não esquecer... 

           "Caminho sob a chuva sem agasalho
           Minha roupa molhada colada ao corpo
           Não sei se está mais fria a chuva ou minh'alma
           Meus pés se ferem sob o cascalho

           Como se fosse um trapo por torcer
           Continuo com os sentimentos encharcados
           Rumo a qualquer coisa que me ampare
           Debil busco por sua presença para viver

           Mas tolo sou por ter esperança
           Me abandonou sem piedade
           Escolheu a droga para amar
           Ao invés de mim que sou criança"

    
   Nota: 
   "O nome do menino é Antonio. Hoje é um jovem senhor de bem, graças a mão amiga de uma mulher."

   Autora: Chila Alves - Santo André/SP