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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

NA SOLIDÃO DA RUA

 


- Alberto Vasconcelos

Na rua deserta entre ilhas de luz e sombras os variados sons pareciam tomar corpo. O lamentoso uivo do cão solitário confinado entre muros altos e portões de ferro batido foi trazido pela brisa morna e misturado ao canto intermitente dos quero-queros. Passos apressados de alguém, ressoando cadenciado nas pedras do calçamento, desviou a atenção da ratazana parada na borda do latão de lixo e esse lapso de tempo foi bastante para ser apanhada pela coruja branca de voo macio e silencioso. Vultos alongados, difusos, pareciam perscrutar nas esquinas como se temessem ser identificados, ou sequer vistos, por esse alguém que com passos apressados parecia marcar, como o tic-tac de relógio, o passar dos segundos que se derramavam pelo tempo sem volta e sem destino definido aonde ir. Em raras janelas, cerradas, luzes bruxuleantes entre as frestas insinuavam velas votivas aos pés de oratórios para que anjos da guarda se mantivessem vigilantes contra todo o mal dos demônios noturnos que rondam cabeças nem sempre inocentes. As badaladas do carrilhão anunciaram a hora dos exus, guardiões das ruas, mensageiros dos orixás, despertando no recôndito da memória o som dos atabaques lá para os lados da igreja do Monte. No silêncio sepulcral do quarto, a réstia de luz do poste refletida no espelho do guarda-roupas, dissipava as sombras dos poucos móveis, das cortinas do dossel da cama antiga sem serventia nessa noite de insônia. Sobre a mesa de cabeceira o diário amigo, antigo repositório de ideias, projetos, sonhos desfeitos e amores irrealizados narrados com detalhes, ou simples menções naquelas muitas páginas contidas entre as capas de couro e a fechadura de cobre esverdeado pelo azinhavre.

- José Bueno Lima

Venceslau chegara a menos de dez minuto em seu apartamento, à noite, quando o relógio soava onze vezes. A viuvez de pouco meses de Josefina, e o cenário da rua de sua residência, sempre ao adentrar naquele ambiente, o deixava com o estado de espírito profundamente abalado. Vinha do clube que frequentava o dia inteiro e de modo assíduo, o Cristal Palace de Ribeira de Montemor, sua cidade, pequena, mas tradicional reduto de imigrantes ingleses, no Brasil. O clube, como não podia deixar de ser, mantinha os costumes do longínquo país. Jogara diversas partidas de gamão, e como sempre, ganhou a maioria delas. Entre uma notícia e outra na conversa com os parceiros, ouviu uma que lhe deixou intrigado e embasbacado. Ficou sabendo do acontecido naquele dia na residência de Ernest, amigo de infância, em que sua esposa Diana, fora assassinada, a tiros. De há muito era do conhecimento de Venceslau a situação não pacífica da vida do casal. Ernest tinha a fama de mulherengo, além de ser um bebedor contumaz de whisky. Era voz corrente, em Ribeira de Montemor, que Ernest mantinha uma amante, e dela usufruía desde muito tempo. Diana estava prestes a pedir o divórcio, só não o fazendo, por interferência da filha Dorothy, que tinha certeza de apaziguar o casal. Todos esses episódios deixaram Venceslau mais abalado ainda, já que nutria forte simpatia pelos amigos. Ao se encaminhar para o leito, não deixava de pensar em Ernest, em Diana a quem sentia imensa simpatia. Antes de pegar no sono, havia resolvido de, logo ao se levantar, na manhã seguinte, ir ao encontro de Ernest, a fim de oferecer ao amigo, a ajuda de que ele, porventura, viesse necessitar.

 

- Cléa Magnani

Aquela rua, na qual construíra seu lar com Josefina, já não era mais a mesma... As casas todas vizinhas de parede, permitiam que as discussões fossem ouvidas pelos vizinhos. E nem sempre as “brigas de marido e mulher” ficavam sem que “alguém metesse a colher” como recomendava o velho adágio. Mesmo que disfarçassem, as notícias corriam e ecoavam pelos paralelepípedos da velha rua, como a água da chuva, e num instante, ao menor encontro de vizinhas na feira das quintas feiras na rua de baixo, a notícia corria; e se algum protagonista do “bate boca” noturno passasse por ali, a conversa tomava outro rumo, todos se cumprimentavam efusivamente, com a maior das “inocências, ” porém, era só a “vítima” do assunto virar a esquina, e voltava a ser o tema do dia.  E desde que Josefina morrera, assim de um dia para outro, todos mantinham vigilância acirrada sobre o comportamento de Venceslau. Uns julgavam haver ela morrido de tristeza. Outros, julgavam que alguma grave doença a tivesse acometido. E havia uma pessoa que desconfiava da inocência de Venceslau: Diana, a esposa de Ernest. E esse era mais um dos motivos da discórdia do casal, pois Ernest jamais colocaria em jogo a confiança que tinha a respeito de Venceslau.

Mas agora, com o assassinato de Diana, mesmo aparentando a maior das surpresas, Venceslau voltava a ser visto não com bons olhos por certas pessoas mais íntimas do casal agora desfeito brutalmente. E os falatórios novamente escorreriam rua abaixo, carregando dúvidas. Como teria morrido Josefina? Quem teria assassinado Diana?


- Gabriel Vit

Muito se ouvia falar dos casais, das mortes, mas da recém órfã ninguém se lembrava. Dorothy sempre foi um pouco solitária, em sua casa a única função que ela exercia era a de manter a família unida, mesmo que houvesse uma enorme ruptura ali. Diana não era uma pessoa ruim, tinha bons modos, educação e bons pensamentos também, mas como mãe ela já não ia tão bem como antes. Nos primeiros anos de vida de Dorothy, Diana sempre era vista feliz e se gabando da linda filha que tinha gerado ao lado de Ernest, mas na medida em que a relação se esfriou entre o casal, Diana perdeu o brilho no olhar e começou a ver na filha um pretexto para que o casal não se separasse, desde então o amor de mãe e filha foi perdendo espaço para a obsessão que Diana tinha por Ernest, o amor não havia acabado, mas estava abafado demais para se destacar.

Em segredo, Dorothy chorava em seu quarto e escrevia em seu pequeno diário de bolso coisas sobre a vida de sua família. Um de seus escritos dizia que ela amava seus pais, mas que não gostava mais deles no momento e aquilo tinha que acabar, não importava como acabaria. Era um pensamento preocupante vide a idade que a menina tinha. A vizinhança dizia muita coisa e ouvia muita coisa também, mas o que acontecia de fato no interior do lar daquela família, somente os três seriam capazes de contar, no entanto, Diana fora assassinada, Ernest não tinha mais credibilidade e Dorothy era vista apenas como uma garota desprovida de amor e atenção. Eram muitos pensamentos e pouquíssimas certezas.

- Alberto Vasconcelos

Outra vez na velha casa, insone e sentado na borda da cama com o rosto apoiado nas duas mãos, Venceslau em silêncio rememorava cada momento da sua vida. As imagens projetadas em sua retina alimentavam seu desejo de vingança. Vinte anos na penitenciária não poderiam ficar impunes. Depois de todo esse tempo ele estava de volta à antiga casa para pôr em prática a vingança arquitetada durante a reclusão. No júri popular a que fora submetido apesar da brilhante defesa do Dr. Smith, o corpo de jurados considerou que ele era o culpado por todas aquelas mortes. Seus antigos vizinhos, arrolados como testemunhas da promotoria deram o toque de terror aos seus hábitos mais comuns, todos acharam que tinha comportamentos diametralmente opostos, que era bipolar, em momentos gentil e cordato, um verdadeiro British lovely gentleman¹, noutros um monstro furioso capaz de bater em criancinhas de colo. Os dúbios laudos psicológicos não serviram para atenuar a ideia de que ele era um criminoso em potencial e, assim, sendo considerado sociopata, teve que cumprir toda a pena apesar dos reiterados apelos feitos por seu advogado para ter os direitos às benesses da lei das execuções penais. Mas agora ele estava de volta e todos, absolutamente todos, iriam experimentar a sua vingança, assim como já acontecera com a detestável solteirona Dorothy e sua dúzia de gatos vira-lata. Um por um, todos eles estariam mortos antes que a polícia tomasse conhecimento. Não haveria perdão para nenhum deles. Também ninguém precisava saber que ele enfim iria para sua querida Inglaterra com o diário, cujas anotações poderiam condená-lo à morte. A rua estava deserta quando chegou e da mesma forma estaria quando saísse. Seu tempo de permanência naquela casa empoeirada era apenas para resgatar as suas outras armas favoritas guardadas desde sempre por trás do retábulo do oratório de São Jorge, seu padroeiro anglicano.

1 – Adorável cavalheiro britânico


Créditos:

Autores: Alberto Vasconcelos, Cléa Magnani, José Bueno Lima e Gabriel Vit.

Foto: Carlos A. Lopes


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A CASA GRANDE AO LADO

 

Gabriel Vit 

 

A família Silva Santos era uma família simples, humilde, interiorana e formada por três homens e duas mulheres. Os pais, Nilva e Benedito, tinham entre 50 e 60 anos, eram pessoas sistemáticas, não ficavam de conversa nem mesmo com os filhos e não faziam outra coisa senão trabalhar. O filho mais velho, Alberto, de 33 anos trabalhava de retireiro em outra fazenda na região oposta à que ele morava, assim sendo, ele só vinha para casa aos finais de semana. Martina e Veríssimo, os gêmeos de 22 anos de idade, não trabalhavam, ao passo que não eram mais crianças, seus comportamentos também os impossibilitavam de serem chamados de adultos. A garota se sentia como um peixe fora d'água por viver no lugar que vivia, culpava seus pais por isso e passava a maior parte do tempo em seu quarto fazendo sabe-se lá o quê. Já Veríssimo era diferente de todos, era bastante simpático e sorridente, no entanto a família não via tais características com bons olhos, já que sorria demais e nunca via problemas em nada, para todos ali, Veríssimo era um tanto quanto louco, sem contar que dizia conversar com um tal Mariano que morava na casa grande ao lado da sua. Uma casa boa, mas que outrora, misteriosamente, fora abandonada.

Por vezes Martina achara que seu irmão dizia aquilo só por implicância, para dizer que tinha um amigo na casa grande e que ela não tinha. Porém, não se prolongou por muito tempo, a família Silva Santos logo descobriria o que estava acontecendo ali. Tudo começou a acontecer quando o Padre José Quitéria batera na porta dos Silva Santos durante uma madrugada de terça para quarta-feira. (20 linhas)

 

Alberto Vasconcelos

 

As batidas insistentes na porta da frente, inicialmente despertaram Nilva. Ao seu lado, Benedito envolto na grossa manta de lã, gargarejava o sono dos justos. Novas batidas. Nilva sentada na cama, viu pelo relógio de cabeceira que o sol ainda demoraria algum tempo para tingir o céu com as cores do amanhecer. Chamou o marido, alguém estava chamando e pelo adiantado da hora, não podia ser boa coisa. Sonolento e de mal humor, Benedito viu pela fresta da janela que era o padre. A notícia de que o filho fora levado para a clínica, desmaiado, foi dita sem meias palavras. Havia suspeita de over dose de entorpecente e eles precisavam ir imediatamente para autorizar os procedimentos médicos necessários para contornar a situação. Mas a história contada pelo padre, não se encaixava dentro da lógica. Por qual razão, Mariano o “amigo” de Veríssimo tinha procurado ajuda na casa paroquial? Qual a ligação do padre com aquele rapaz estranho, raramente visto entrando ou saindo do casarão. Veríssimo falava pouco sobre o amigo, mas era notória a influência que esse exercia sobre o rapaz cujo comportamento era motivo de preocupação para os pais. Parecia que tinha vindo ao mundo em férias. Não demonstrava interesse por nada como se procurasse retardar ao máximo as responsabilidades da maturidade. Agora mais essa suspeita de envolvimento com drogas. Sobre a maca, ligado ao soro e com intensa sudorese, Veríssimo não esboçou nenhuma reação quando Nilva chamou pelo seu nome. Benedito pegou no braço do filho e, pela frieza das suas mãos brancas como cera veio-lhe a certeza de que o filho estava morto. (19 linhas) 

   

José Bueno Lima

 

Morto? Que nada! Aconteceu que Veríssimo, num daqueles encontros misteriosos com Mariano, na casa grande, tarde-noite daquele dia, ficou surpreso com o bar existente na sala. Nunca havia ingerido bebida alcóolica em sua vida. Pegou uma garrafa do licor 43, espanhol, serviu-se num cálice e bebeu, docinho, gostou, bebeu outra dose, depois outra, até ficar completamente embriagado. Devido aos remédios que tomava, a coisa complicou. Mariano fez de tudo para reanimá-lo, até que, desesperado, chamou o SAMU. Então, Veríssimo foi levado para o hospital, e Mariano não querendo comunicar aos pais do amigo, dirigiu-se até a igreja, e contou para o padre José Quitéria, amigo da família. Portanto, esse era o estado em que Nilva e Benedito encontraram o filho, pós uma bebedeira, já sob os cuidados médicos, e que a ignorância deles dava o filho como morto. Veríssimo, na realidade, apesar de demonstrar ser louco, como diziam, sofria de dislexia, isto é, não conseguia ler, escrever, e era limítrofe de autismo, como foi comprovado em exames feitos por psiquiatra, psicólogos e profissionais de ensino. Um aspecto que todos de casa se surpreendiam com ele, era sua facilidade em relação à música. Ele possuía ouvido absoluto, isto é, habilidade em identificar uma nota musical, o que lhe permitia, tocar uma música com grande facilidade ao piano, por exemplo. Outro aspecto interessante dele, como já foi dito, era sua simpatia e comportamento perante as pessoas, usando um palavreado muito bom, principalmente com a ala feminina, cativando a todos. Não era uma figura detestável, como a família o pintava. (19 linhas)

 

Cléa Magnani

 

Tanto ele, como Martina demonstravam sentirem-se, “peixes fora d’água”, e eram considerados “estranhos”, por todos. Martina, se fechava no quarto, e enquanto dormia, seu espírito vagava por esferas onde ela se sentia feliz. Já Veríssimo, mais ligado às coisas da terra, ria muito, e com isso aparentava simpatia por todos, embora, seu espírito inculto revelasse suas dificuldades, através da dislexia, e autismo, mas quando Veríssimo entrou pela primeira vez naquela casa grande e praticamente abandonada, teve a nítida impressão de estar na casa da fazenda onde vivera no século XIX. Ali ele era um escravo, filho de uma escrava, hoje sua mãe Nilva, e do Feitor hoje o Padre José Quitéria. O dono da enorme fazenda era o cruel Sinhô Benedito, hoje seu pai. Sinhazinha, hoje sua irmã Martina, era casada com um caixeiro viajante, hoje seu irmão Alberto. E Mariano, a figura misteriosa da Casa Grande ao Lado, era também escravo.

Após receber violento castigo aplicado pelo feitor, Veríssimo jurou para Mariano que planejava fugir da fazenda. Na noite da primeira chuva da Primavera, Veríssimo acordou Mariano para que os dois fugissem juntos, Mariano, com medo, não quis acompanhá-lo na fuga. Quando o Sinhô Benedito soube da fuga, interrogou Mariano, que acabou contando que sabia da fuga de Veríssimo, mas que não o acompanhou. Foi o bastante para que o Sinhô ordenasse ao Feitor, o maior dos castigos a Mariano, que acabou morrendo no tronco esvaindo-se em sangue, depois da tortura, não antes de jurar que perseguiria Veríssimo até vê-lo destruído. No dia seguinte o Feitor encontrou Veríssimo e o matou com um tiro, para não ver o filho sucumbir no tronco. Mariano cumpriu a promessa. Obsediar Veríssimo. E é o que faz. (21 linhas)

 

 

Gabriel Vit

 

Depois do ocorrido a família voltou os olhares para dentro de sua casa, talvez houvesse ali um pouco de vergonha ou julgamento, eles se olhavam com olhos que compreendiam as particularidades de cada um. O momento não era uma tentativa de mudança, soava como um pedido de desculpas. A vida não mudou rapidamente, Veríssimo aos poucos foi se desenvolvendo na música, começou a participar dos encontros do coral da igreja e tirou Martina do quarto, ela se revelara uma ótima cantora. Linda de voz e aparência, mas triste de expressão, Martina não se encaixava nem fazendo o que achava ter nascido para fazer.

Num domingo enquanto iam para a igreja Benedito e Nilva se encontraram com Mariano, era o primeiro contato entre eles. Para surpresa do casal, Mariano não era jovem, deveria ter por volta de 54 anos de idade, tinha boa aparência, se vestia e andava com toda a pompa, mas classe nenhuma esconderia a maldade que existia naquele homem. Aquele momento fora o suficiente para que o casal decidisse ali mesmo que a casa grande não era o tipo certo de vizinhança que eles precisavam.  Após a missa informaram da mudança. A família se mudaria para a região que Alberto trabalhava. Martina não reclamou. Veríssimo não disse nada, mas ficara sentido, agora que ele estava se encaixando, Mariano era um de seus pensamentos frequentes, para Veríssimo, deixar o “amigo” sozinho era a maior prova de deslealdade. Na alvorada de segunda feira o gêmeo de Martina foi até Mariano na esperança de poder pelo menos se despedir. Veríssimo foi de peito aberto ao encontro do vizinho e não voltou mais para casa. Se morreu ou se fugiu, ninguém nunca soube dizer. Estas pessoas se encontrariam novamente, mas em outras vidas e com outros nomes. Assim como fora no passado, é no presente e será no futuro, até que cada um conclua sua missão no mundo.   (20 linhas)

Glossário:


Retireiro: ordenhador; tirador de leite; parceiro pecuário.

Sistemático: pessoa de princípios rígidos, previsível, imutável.


Autores: José Bueno Lima, Cléa Magnani, Grabriel Vit e Alberto Vasconcelos