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sábado, 1 de abril de 2017

Mulher Triste na Janela

Mulher Triste na Janela, este foi o título que dei aquele quadro. Seu autor, o professor Guimarães, nunca lhe atribuiu nome algum. Esta figura absolutamente singular é que me motivou a escrever. Ele e seus quadros.
O professor Guimarães não era pintor profissional. Era microbiologista, professor titular de uma importante universidade federal. Foi meu orientador de tese, até que desisti de concluir o mestrado e viver a vida de maneira mais simples. Mas, esta é outra história, a qual não é objetivo deste escrito.
Voltando ao ilustre professor, tornou-se meu amigo por acaso. Certa vez, passou mal na universidade e o acompanhei ao hospital e depois à sua casa. Passei a visitá-lo regularmente até o completo restabelecimento de sua saúde. Mostrou-me alguns de seus quadros. Dizia-se pintor amador. Gostei de dois quadros em particular e perguntei-lhe sobre eles.
O primeiro retratava dois sapatos colocados em uma janela de casa antiga, voltados para a rua. Segundo ele a inspiração foi um poema de Mario Quintana, do qual leu um trecho:
...
Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo...Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranquila de um açude...

O professor também se achava um velho barco, encalhado, esperando a morte. Aos quase oitenta anos, ainda trabalhava, segundo ele, para não morrer. Cansou-se e parou.
- Agora somente vou pintar, ouvir Astor Piazzola e tentar esquecer a Aninha.
Quem era Aninha? Tive de esperar bastante tempo para descobrir. Enquanto isso, nas minhas visitas semanais, ouvi muito Piazzolla. Uma de suas preferidas era Balada para Un Loco, recitada e cantada por Amelita Baltar:


Quereme así, piantao, piantao, piantao
Abrite los amores que vamos a intentar
La mágica locura total de revivir
¡Vení, volá, vení! ¡trai-lai-la-larará!
¡Viva! ¡viva! ¡viva!
Loca el y loca yo
¡Locos! ¡locos! ¡locos!
¡Loca el y loca yo

Esta era a parte que ele fazia voltar várias vezes. Era a preferida da Aninha. Demorou, mas o meu professor e agora amigo contou-me sobre esta sua grande paixão.
Aninha, era Anna Beatriz Carneiro e Souza, sua ex-orientanda e a perene paixão. Muitos anos mais nova do que ele. Viveram uma paixão alucinante, clandestina, principalmente devido aos preconceitos da sociedade.
- Eu era casado, disse-me ele. Ela noiva. Nos apaixonamos e vivemos um amor belíssimo, apesar de clandestino.
Os olhos do professor lacrimejavam e mostravam uma dor que não tinha nada de passado. Ela era absolutamente presente. Continuou:
- Inventávamos participações em congressos que nunca existiram. Era lindo, avassalador. Loucura absoluta. Portanto, breve!
Havia grandes pausas. A história era retomada, muitas vezes, semanas depois, sempre com grande emoção.
- Tudo começou a ruir depois da defesa de tese da Aninha e o surgimento de uma bolsa de estudos na Alemanha. Viajaram ela e o noivo, também bolsista. Escreveu-me algumas cartas, as quais foram escasseando, assim como seu amor. Restaram as cicatrizes e a dor. Meu casamento, que era apenas de aparências, também acabou. Foi a partir daí passei a me dedicar mais à pintura.
Nesta altura da narrativa, eu já estava com dificuldades para acompanhar. Meu amigo falava desarvoradamente, sem pausas.
- Aninha casou-se com o noivo. Minha mulher foi embora e o trabalho na universidade deixou de ser importante. No dia em que passei mal, tive um leve infarto, era o meu último naquele lugar. A partir daí, restou-me pintar.
Semanas depois, dei uma pausa nas visitas, eu estava ficando confuso. Ao retornar, meu amigo agora mais calmo, resolveu falar sobre o outro quadro.
- Você sabe que não dou nome aos meus quadros. Aquele ali retrata uma mulher triste, esperando o seu amado, permanecendo na janela, triste por saber que ele não voltará. Gostaria que fosse a Aninha...
Viajei um tempo e fiquei sabendo pela internet que meu ilustre amigo havia falecido. Infarto. Tentei voltar para o funeral não foi possível. Prestei minhas homenagens diante de seu túmulo.
Deixou-me de herança os dois quadros que mencionei...


Autor: Gerson de Carvalho Silva - Santo André/SP

quinta-feira, 31 de março de 2016

Mulher triste na janela

Mulher Triste na Janela, este foi o título que dei aquele quadro. Seu autor, o professor Guimarães, nunca lhe atribuiu nome algum. Esta figura absolutamente singular é que me motivou a escrever. Ele e seus quadros.

O professor Guimarães não era pintor profissional. Era microbiologista, professor titular de uma importante universidade federal. Foi meu orientador de tese, até que desisti de concluir o mestrado e viver a vida de maneira mais simples. Mas, esta é outra história, a qual não é objetivo deste escrito.

Voltando ao ilustre professor, tornou-se meu amigo por acaso. Certa vez, passou mal na universidade e o acompanhei ao hospital e depois à sua casa. Passei a visitá-lo regularmente até o completo restabelecimento de sua saúde. Mostrou-me alguns de seus quadros. Dizia-se pintor amador. Gostei de dois quadros em particular e perguntei-lhe sobre eles.

O primeiro retratava dois sapatos colocados em uma janela de casa antiga, voltados para a rua. Segundo ele a inspiração foi um poema de Mario Quintana, do qual leu um trecho:
...

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo...Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranquila de um açude...

O professor também se achava um velho barco, encalhado, esperando a morte. Aos quase oitenta anos, ainda trabalhava, segundo ele, para não morrer. Cansou-se e parou.

—Agora somente vou pintar, ouvir Astor Piazzola e tentar esquecer a Aninha.
Quem era Aninha? Tive de esperar bastante tempo para descobrir. Enquanto isso, nas minhas visitas semanais, ouvi muito Piazzolla. Uma de suas preferidas era Balada para Un Loco, recitada e cantada por Amelita Baltar:

Quereme así, piantao, piantao, piantao
Abrite los amores que vamos a intentar
La mágica locura total de revivir
¡Vení, volá, vení! ¡trai-lai-la-larará!
¡Viva! ¡viva! ¡viva!
Loca el y loca yo
¡Locos! ¡locos! ¡locos!
¡Loca el y loca yo

Esta era a parte que ele fazia voltar várias vezes. Era a preferida da Aninha. Demorou, mas o meu professor e agora amigo contou-me sobre esta sua grande paixão.

Aninha, era Anna Beatriz Carneiro e Souza, sua ex-orientanda e a perene paixão. Muitos anos mais nova do que ele. Viveram uma paixão alucinante, clandestina, principalmente devido aos preconceitos da sociedade.

—Eu era casado, disse-me ele. Ela noiva. Nos apaixonamos e vivemos um amor belíssimo, apesar de clandestino.

Os olhos do professor lacrimejavam e mostravam uma dor que não tinha nada de passado. Ela era absolutamente presente. Continuou:

—Inventávamos participações em congressos que nunca existiram. Era lindo, avassalador. Loucura absoluta. Portanto, breve!

Havia grandes pausas. A história era retomada, muitas vezes, semanas depois, sempre com grande emoção.

—Tudo começou a ruir depois da defesa de tese da Aninha e o surgimento de uma bolsa de estudos na Alemanha. Viajaram ela e o noivo, também bolsista. Escreveu-me algumas cartas, as quais foram escasseando, assim como seu amor. Restaram as cicatrizes e a dor. Meu casamento, que era apenas de aparências, também acabou. Foi a partir daí passei a me dedicar mais à pintura.

Nesta altura da narrativa, eu já estava com dificuldades para acompanhar. Meu amigo falava desarvoradamente, sem pausas.

—Aninha casou-se com o noivo. Minha mulher foi embora e o trabalho na universidade deixou de ser importante. No dia em que passei mal, tive um leve infarto, era o meu último naquele lugar. A partir daí, restou-me pintar.

Semanas depois, dei uma pausa nas visitas, eu estava ficando confuso. Ao retornar, meu amigo agora mais calmo, resolveu falar sobre o outro quadro.

—Você sabe que não dou nome aos meus quadros. Aquele ali retrata uma mulher triste, esperando o seu amado, permanecendo na janela, triste por saber que ele não voltará. Gostaria que fosse a Aninha...

Viajei um tempo e fiquei sabendo pela internet que meu ilustre amigo havia falecido. Infarto. Tentei voltar para o funeral não foi possível. Prestei minhas homenagens diante de seu túmulo.

Deixou-me de herança os dois quadros que mencionei...


Autor: Gerson de Carvalho Silva - Santo André/SP

domingo, 28 de setembro de 2014

Neblina - Autor: Gerson Carvalho Silva

O ônibus chegou no horário de sempre. Preciso. O motorista era o mesmo,  assim como a maioria dos passageiros. A novidade era a neblina bastante intensa naquela manhã. A viagem até o trabalho de Gilberto, era a mesma rotina de sempre.

Entretanto, algo estava estranho. Ele jamais dormia em transporte público. Ainda mais agora que conseguira mais um emprego, o quinto em dois anos. Depois do acidente que o deixara em coma por quase dois meses, ele jamais fora o mesmo. Sua capacidade de raciocínio não era a mesma. A cada novo emprego, uma função mais simples. Era que era economista por formação, agora organizava o estoque de uma pequena empresa de cosméticos. Estivera internado em clínicas para resolver seus surtos de ausências. Clínicas que em sua opinião não passavam de novas versões dos antigos sanatórios. O sono foi chegando, pesado, irresistível. Tentou não dormir, tinha medo de chegar atrasado e perder novamente o emprego. Não conseguiu. Dormiu.

Ao acordar não reconheceu o lugar onde o ônibus parara. A neblina cada vez mais densa. O motorista não mais estava. Ninguém estava. Desceu. Andou pela rua quase sem visibilidade alguma até avistar um lugar iluminado. Era um pequeno bar. Entrou e pediu um café ao homem gordo atrás do balcão. Olhou ao redor e estranhou a clientela. Estavam fantasiados para o carnaval: um Pierrô, um Arlequim e na outra mesa vários Bate-bolas (Clóvis).

Ao servir o café o balconista disse o preço. Gilberto procurou pela carteira e não a encontrou. Ficou sem graça. O homem gordo jogou o café na pia e lavou o copo. Gilberto envergonhado já ia se retirar do bar, quando uma Colombina e uma bailarina entraram e levaram consigo o Pierrô e o Arlequim. Está parecendo folhetim barato, pensou ele. Mal estes pensamentos lhe atravessaram a mente. Ele estremeceu. Na saída do bar os Bate-bolas o cercaram e começaram a agredi-lo com suas barulhentas bolas. Cercado e desnorteado não sabia o que fazer. Foi salvo por um homem de enormes bigodes, portando um bumbo, que provocou a dispersão dos Bate-bolas e que se apresentou como Zé Pereira, a seu dispor. Saiu cantando e batendo seu bumbo:

O Pierrô apaixonado, que vivia só cantando,
Por causa de uma Colombina, acabou chorando... 
 
Passou um bloco. Todos cantam e dançam.

Quanto riso, oh! Quanta alegria.
Mais de mil palhaços no salão...

De repente, gritaria. Um palhaço se suicidara no meio da rua. Gente ao redor do cadáver. Alguém pegou a arma.

- É de brinquedo! Afirmou.

O palhaço suicida, então, levantou-se deu uma bela gargalhada e saiu cantando:

Alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo...

Sumiu na neblina e bloco avançou até desaparecer da visão de Gilberto, que ficou pensando: é carnaval? Não me lembro. Tentou voltar ao local onde o ônibus estava. Não o encontrou. Lá estava uma menina cantando uma cantiga de roda. Aproximou-se e perguntou:

- Onde está o ônibus?

-Não sei. Foi embora o moço levou.

- Para onde, perguntou Gilberto.

- Sei lá, como vou saber? Saiu pulando e cantando Ciranda, cirandinha.

E agora, onde estou? Parece um dessas cidadezinhas onde há carnaval de rua. Mas é carnaval? Seus pensamentos começaram dar lugar ao medo. Seria uma alucinação? Tivera algumas, até ser internado. Sentou um leve torpor veio chegando.

- Cavalheiro, disse uma voz. O senhor está bem?

- Não sei. Onde estou? Não obtendo resposta.

- Vamos leva-lo até a delegacia. Ele não está falando coisa com coisa.

Na delegacia uma moça parecida com Lúcia, sua antiga namorada fez uma série de perguntas. Ele nunca soube o que respondeu.

A moça parecida com Lúcia disse que ele não parava de citar personagens do carnaval e que estavam em Setembro. Falara de um ônibus que o abandonara em uma cidadezinha, não sabia qual. Ela só não sabia explicar a grande quantidade de confete e serpentina que estavam em seu cabelo e no bolso do paletó. Tentaram em vão encontrar sua família e acabaram por encaminhá-lo ao Centro de Atendimento a Problemas Mentais. Ficou internado por algum tempo e, sem lugar para ir, não se lembrava, passou a morar nas ruas. Passou a ser conhecido como o maluco que tocava um tambor de lata e dizia ser o novo Zé Pereira...

Autor: Gerson Carvalho - Santo André S/P

domingo, 20 de julho de 2014

O Ceifador e eu

         
Autor: Gerson Carvalho


          Existem dias que seria melhor que não acontecessem, entretanto, pode ser apenas a primeira impressão. Vejamos, eu poderia dizer que sou escritor, mas o mais adequado é dizer que fui. Não consigo escrever absolutamente nada, faz muito tempo.
         Trabalho numa editora, auxiliando na escolha de possíveis livros a serem editados. Encontrei muita coisa boa. O problema é que os critérios do meu chefe não coincidem com os meus. Claro, primeiro o lucro, de preferência alto. Tanto é que livros didáticos de grande tiragem são mandados para impressão na China ou Índia. O tal chefe, na verdade gerente financeiro, é primo de minha mulher e sempre deixa bem claro que só estou empregado devido a um pedido dela. Hoje foi a gota d'água.
        Tinha em mãos um precioso livro de poesias, no estilo do Paulo Leminski. Pois bem,  recomendei sua publicação. O chefete me disse que ninguém compra mais livros de poesias, ou compram muito pouco. Ainda mais de um desconhecido. Logo, seria um fracasso e prejuízo na certa.
         Tentei argumentar:
         - Pense comigo, se você pedir a alguém que lhe cite nomes de grandes autores brasileiros, quase certamente serão citados Drummond, Bandeira, Vinícius de Morais, Ferreira Gullar, por exemplo, todos poetas.
         - E daí? Poesia é coisa menor. Não é considerada literatura rentável.
         - Quanta besteira! Você já tentou fazer um poema? Eu já. Não consegui é difícil pra caramba.
           Neste instante, acabou a paciência do meu interlocutor.
         - Lembre-se que você não passa de um fracassado! Não conseguir algo, não é novidade. Você só está aqui por causa do pedido da Lia.
           Joguei o que tinha nas mãos na cara dele (nem lembro o que era) e saí batendo a porta.
           Fui direto pra casa, encontrando Lia danada da vida comigo. Mal abri a porta foi gritando:
         - Perdeu mais um emprego, que beleza! O Roberto me ligou e disse que você o agrediu jogando um grampeador no seu rosto. Só não perdeu o juízo, porque nuca teve. Com isso, quem continua pagando as contas sou eu! Não aguento mais! Pra mim, chega. Vou me separar de você, seu imprestável.
           Essa doeu! Sai de casa, pensando em ir beber num bar. Mudei de ideia e fui para a rodoviária. Tomei um ônibus para o Rio de Janeiro, com destino à casa do Gustavo, um amigo de infância.
           Ao chegar à rodoviária, peguei um taxi até Copacabana, onde mora o Gustavo. O problema é que ele é engenheiro de uma empresa petrolífera e viajava constantemente.
         - O doutor Gustavo não está, disse o porteiro, não sei quando volta.
           Saí em direção à praia, para pensar o que fazer. Andei em direção ao Forte e acabei por sentar num banco próximo daquele com a estátua do poeta Drummond.
         - Por causa de um poeta como você, arrumei uma baita confusão, disse olhando para o poeta.
         - Falando com a estátua, amigo? Ele raramente responde.
           Tomei um baita susto. O dono da voz era um sujeito ligeiramente calvo, usando óculos, que acabara de sentar-se ao meu lado. Logo foi se apresentando:
         - Airton, esse é meu nome. Na verdade era o nome do antigo dono deste corpo, do qual temporariamente me apossei.
           Tive um calafrio, apesar do fim de tarde abafado.
         - Como assim? Você é algum tipo de maluco?
         - Não, sou um Ceifador, Anjo da Morte, Demônio da Morte, Anjo do Abismo, ou qualquer outro nome que queira me atribuir. Prefiro Ceifador.
           Fiquei mudo. O sol já estava se pondo. O que deveria ser belo, só piorava o meu estado de espírito. Mas, o instinto de escritor falou mais alto.
           Perguntou o meu nome, o que com grande dificuldade lhe falei. Minha vontade era sair correndo dali, mas a curiosidade pelo personagem ao meu lado foi maior.
         - Você vai me matar? Perguntei, sem saber o porquê de falar aquela idiotice.
         - Não, por que? Você quer morrer?
         - É claro que não, respondi. Acabei me animado com a maluquice da conversa e perguntei:
         - Como você atua? O que você faz?
         - Retiro a essência da vida da pessoa, aquilo que chamam alma, e levo até o portal de triagem.
         - E o que acontece lá?
         - Não sei, só vou até aí. Parto para outra tarefa. Existem muitos como eu.
         - Por que parou para conversar comigo?
         - Bom, eu tinha tomado emprestado o corpo do Ailton, que faleceu devido a um enfarto. Um camarada meu encaminhou sua alma até o destino e eu resolvi dar uma volta com o corpo,  e encontrei você tentando falar com o poeta aí ao lado. Pareceu interessante. Não é todo dia que a gente vê uma coisa dessas.
           Eu estava boquiaberto. Não conseguia falar mais nada, apesar de estar curiosíssimo com o tal "Ceifador"
         - Vejo que não está acreditando em mim, disse ele. Eu também não acreditaria, mas você sendo escritor deveria. Que falta de imaginação. Levantou-se a foi andando pelo calçadão.
           Como ele sabia? Talvez seja mesmo quem disse que é.
         - Vou devolver o corpo do Ailton. Desceu para a rua a atirou-se a frente de um caminhão.
           Tomei um baita susto e corri ao seu encontro. Juntou muita gente. O corpo jazia no chão. Num dos bolsos da calça do atropelado estava a carteira com os documentos do Ailton, além do endereço. A perícia chegou e eu fui saindo sorrateiramente. Não estava disposto a prestar depoimento sobre o tal Ailton. Não saberia o que dizer.
           Ao virar a esquina, saindo do calçadão, tive a impressão de ouvir uma voz que dizia "se cuida, até a próxima".
           Tomei um ônibus urbano e chegando à rodoviária comprei uma passagem para São Paulo. Dormi durante a viagem e sonhei com o Ceifador na sua forma tradicional, na figura de um esqueleto com foice e tudo. Disse-me ele:
         - Retome sua vida, volte para sua mulher e principalmente, volte a escrever .Você poderá fundar a sua própria editora e publicar os livros que achar melhor. Estou indo visitar seu tio Ernesto, que vai lhe deixar uma grande herança. Voltaremos um dia a nos ver...
          
Autor: Gerson Carvalho - Santo André/SP
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