domingo, 21 de maio de 2017

O outro lado do rio

Existe coisa misteriosa neste mundão de Deus, existe sim. Muita história. Eu mesmo tenho uma para contar. Esta do reverso aconteceu de verdade, mas nem eu mesmo acredito mais.
Faz muito tempo e eu era muito criança. Ao contrário de agora, que vivo numa cidade grande, vivia num lugarzinho perdido lá no meio do Mato Grosso. Havia um rio caudaloso, bonito, forte, que para nós era o centro de tudo. Tinha uma curiosidade danada de saber o que havia do outro lado, apesar do medo que tinha de atravessar. Sempre que perguntava para meu pai, ele dizia que não era nem para pensar naquilo. O outro lado - e franzia a testa - era uma coisa cheia de mistério. Só um ou outro voltava e, quando voltava, era com a cabeça toda mexida, cheia de estranhamentos. Meu pai tinha esse jeito gozado de falar, que eu não sei onde ele aprendeu. Tinha uma pressa danada de acabar qualquer conversa sobre esse assunto. Terminava sempre com a frase “É o reverso do mundo aquilo lá. O outro lado é o reverso do mundo.” Eu não entendia o que era reverso, pelo menos naquela época e no sentido que meu pai dizia. Ele não gostava de falar daquilo. Não gostava, com certeza.
Eu e meu irmão mais novo, nós ficávamos com aquela curiosidade misturada de medo. Eu mais de curiosidade e meu irmão mais de medo. Ainda assim, um dia eu arrisquei. Mas não foi assim, de ímpeto, sem pensar. Que eu nunca fui assim. Sempre fui cheio de precaução, coisa que me custou muitas coisas nessa vida cheia de competição. Mas não estou aqui para reclamar, estou para contar e é o que eu vou fazer. Depois que decidi – a gente sabe quando não tem mais jeito, que a gente vai mesmo fazer – me enchi de cautelas e preparativos. A primeira foi convencer o pequeno Mário, meu irmãozinho, de que não devia contar nada para o papai. Expliquei que o mundo é assim, que todo mundo tem direito a certos segredos, não muitos, porque daí vira engodo, enganação. Não sei se foi minha lábia, ou se foi a esperança de ter outras aventuras comigo, mas ele concordou e ficou firme. Tive orgulho dele, apesar de saber que o que estava a fazer não era de muita correção, nem de muita prudência. Muita desgraça aconteceu nessas partes perdidas do mundo por se falhar nessa parte de nossos códigos de palavra. Mas, por outro lado, tem tanta gente tão certinha que acaba se dando mal do mesmo jeito, que achei que devia ir em frente.
Voltando aos meus preparativos, primeiro arrumei uma corda bem comprida lá na venda do seu Gonçalo. Ele estranhou quando juntei os trocados que tinha recebido de presente no meu aniversário e paguei à vista sem pôr tudo na caderneta. Ele sabia que o papai sempre punha as coisas “na conta”. Fiquei com medo que ele comentasse algo com mamãe quando ele viesse fazer compras. Mas isso não aconteceu. O uso da corda era uma coisa óbvia e inteligente. Eu ia amarrar o barco do meu lado. Sabia que a correnteza ia puxar a gente rio abaixo, e assim eu ia garantir que poderia voltar.  O Mário olhava admirado enquanto eu fazia os preparativos e queria muito ajudar. Eu dei algumas tarefas para ele, só para dizer, pois ele era muito pequeno e pouco sabia. Nem sequer sabia dos perigos daquele rio. Aquilo era irresponsabilidade minha. Mas não tinha jeito, quando a gente está com uma coisa na cabeça, não tem nada que faça a gente parar. Outra coisa que fiz, foi arrumar uma vara bem comprida, além dos remos. Alguma coisa que pudesse espetar no leito do rio numa emergência. Meu irmão só ficou um pouco assustado quando enrolei as pernas dele com um pano que arrumei no porão de casa. Expliquei que era para evitar picada de cobra. Não devia ter falado nada, pois não fazia muito tempo, um moleque da escola havia morrido envenenado por uma dessas malditas. Ficou meio assustado, mas queria mostrar que era corajoso como eu.
Medo da travessia eu não tinha. O que me deixava nervoso era o tal do “reverso” que meu pai falava. É gozado como certas palavras mexem com a gente, principalmente quando somos pequenos. Até hoje, sabendo já de todos os significados do tal vocábulo, ainda sinto uma coisinha lá dentro. Talvez papai só quisesse assustar a gente, quando franzia a testa para falar do reverso. Talvez fosse só superstição boba de quem vive no mato. Talvez fosse tudo verdade, e, daí, eu seria responsável pelas consequências do reverso, principalmente em relação ao caçula.
Deu um pouco de medo, que eu escondi, quando a gente atravessou para o outro lado. Eu não sabia o que assustava mais: se era a força do rio ou a escuridão das águas. Até hoje não sei. Não sei se é pior a força do destino levando a vida embora, a da gente e das pessoas que a gente ama, ou se a escuridão da noite sem estrelas. A escuridão da noite, até, não é tão difícil, é só arrumar uma luz e tudo se resolve. O que dá medo é a escuridão de algumas pessoas, por dentro, isso sim dá medo. Desculpe o meu divagar. Às veze penso se faço isso - fugir do assunto - porque é coisa de contador de histórias, ou se é porque não estou querendo enfrentar o miolo da conversa. Para ser mais direto e franco, para evitar o confronto com o reverso. Que palavra danada essa, reverso, até dá arrepio. E já estou divagando de novo.
Chegamos do outro lado com bastante dificuldade. Tinha que administrar o meu esforço de tal forma a não assustar meu irmãozinho, pois eu era tudo para ele. Meu pai também era, mas o Mário não sabia, pois meu pai era fechado e não tinha muito tempo nem jeito para conversa. Foi com muita luta que consegui agarrar um arbusto do outro lado e segurar o barco que as águas, furiosas, insistiam em levar. Rio caudaloso. Isso é coisa que dá medo. Agora que já estou bem mais velho, eu sei que há coisa mais perigosa. Até carro com velocidade no urbano de nossas vidas é mais ameaçador. Mas a impressão ficou. É uma espécie de metáfora. Aquela água forte, escura, querendo levar a gente embora. Eu não li em lugar nenhum, mas eu sei que isso é a representação do destino. Querendo levar a gente. A gente, um serzinho de nada, na correnteza absurda da vida. Por isso é que gosto de águas calmas, claras, transparentes. Que coisa, eu divagando de novo.
Amarrei o barco do outro lado, do lado reverso, com muitos nós. Ter certeza de que não seria levado embora. Já pensou a gente, sozinho, do outro lado, sem poder voltar? Papai sem saber de nada, sem saber onde procurar? Ou, sabendo, ter que enfrentar o reverso, para nos procurar? E ele viria, com certeza. Nós dois e minha mãe eram as únicas razões pelas quais ele enfrentaria o reverso. Tudo seguro e amarrado, peguei o facão, dei a mão para meu irmão e fomos entrando na mata. Foi daí que o Mário falou que tinha medo de que alguém cortasse a corda e nosso barquinho fosse embora. Pensei, que besteira, só mesmo uma criança para pensar uma coisa daquelas. Falei para ele que era bobagem, bem confiante. Mas depois pensei comigo mesmo que ele tinha uma certa razão. Fiquei com aquilo nos recônditos da consciência. Criança, às vezes, fala verdades mais poderosas que um adulto. Depois, ainda raciocinei, que aquilo - cortar as cordas - já seria algo pensado, premeditado, de inimigo declarado. Entretanto, o que me dava medo era outra coisa, assim, do outro mundo, essas que ninguém entende. Na verdade, estava pensando, mais uma vez,  no “reverso do mundo” de que meu pai tinha falado.
Fomos entrando mais e mais. Daí o pequenino fez outra observação que, inicialmente, me deixou assustado de novo. E se a gente não soubesse voltar? Respondi automaticamente que era só seguir o corte que estava fazendo na vegetação. Era a melhor indicação da rota, o que estávamos fazendo. Honestamente, porém, não tinha pensado nisso. Foi aí que comecei a cortar tudo com mais intensidade. Criança diz cada coisa. A gente devia ouvir mais esses pequeninos, posso lhe dizer. E fomos andando, andando, com aquele pavor de ser picado por uma víbora. Esse era o medo do irmãozinho. O meu era esse, mais o reverso. A essa altura, o “reverso” para mim era uma pessoa. Pior que isso... Nem gosto de falar, mas acho que não preciso, você já entendeu. Penso mesmo que era isso que papai pensava. Estava claro por que ele franzia a testa. Mas eu sabia que tinha de fazer aquilo, ou pelo menos agora eu sei. São aqueles momentos na vida em que você tem de enfrentar os seus medos.
E daí, eu tive medo de verdade. Vimos, entre as folhas, uma cabana. Paramos. Dava para ouvir o coração bater e a nossa respiração. E o que fazer, então? Ficamos ali, parados um bom tempo. Finalmente saiu da casa um homem. Seus cabelos não eram tão compridos, mas certamente estava na hora de cortá-los. Cabelos loiros, iguais ao de minha mãe. Aquilo não era coisa comum naquelas bandas. Assim, só conhecia minha mãe e agora, aquele homem. O Mário tinha saído com a mesma cor dela, acho que, até então era o único menino loiro que eu tinha visto. E agora conhecia também um homem loiro. De repente alguém o chamou lá de dentro e ele voltou. Houve uma conversa no interior da casa e depois, os dois saíram. E a mulher tinha cabelos negros como meu pai. A cabeça da gente é gozada mesmo. Eu mal sabia o que significava reverso e, ainda assim pensei, que aquilo era o reverso de meu pai e de minha mãe. Que besteira, mas não é assim o nosso pensar, cheio de idiotices brincando o tempo todo nos nossos miolos? Reverso. Que besteira.
Passou um tempo assim, eles falando animados lá fora da casa, e eu achei, na minha razão, que era hora e tempo e voltar. Era a sabedoria falando. Coisa óbvia. Mas quem disse que é a cabeça que manda? A curiosidade era grande demais. Ouvimos mais vozes. Eram de crianças. Não demorou para saírem dois garotos de dentro, um maior, outro bem menor. Tal qual nós dois. E, ainda mais estranho... Para você entender esse novo estranhamento, preciso explicar mais algumas coisas. Meu nome é Fernando e, ao contrário do meu irmão, tenho cabelos pretos, puxei ao papai. O pessoal até brincava que eu era o filho do pai e o Mário era o filho da mãe. Pois não é que o moleque pequeno, que tinha saído da casa - bem modesta – era moreno como eu e o maior era loiro como o pai dele e como a minha mãe e meu irmão? Minha cabeça estava girando. O reverso do reverso, do reverso. Olhei bem para me certificar. Estava ficando já meio assustado e o meu irmãozinho estava percebendo. Achei que era hora de ir embora. Não havia mais nada a fazer ali. Conversar com eles não podia, estava em sua propriedade. Conversar o quê? Sobre o reverso? Eles iriam achar que eu era um demente. A única coisa reversa que eles iriam notar era o meu moreno e o loiro do Mário. Estava certo, tinha de voltar e avisei para meu irmão que concordou muito rápido. Antes de sair, porém, ouvi o mais velho chamar o mais novo de Fernando. Para ele se apressar. O pequeno reclamou que ele estava sempre com pressa e o chamou de Mário. A essa altura parecia já minha imaginação funcionando, mas que ele chamou, chamou. Eu tinha certeza também, embora nunca tenha confirmado - isso é pura teoria - de que o homem se chamava Mário, pois Maria era o nome de minha mãe e a mulher se chamava Fernanda, pois Fernando era o nome de meu pai e é por isso que tenho esse nome.
Voltamos com muita pressa. Na minha cabeça rodopiavam aquelas imagens, aqueles nomes, tudo rodopiava. Meu irmão só estava com pressa, queria voltar. Ele não tinha percebido nada. Nem dava para discutir essas coisas com ele, pois ele jamais entenderia. Nunca entenderia o que era reverso. Qualquer dia eu vou falar com ele para ver se ele se lembra disso tudo. Claro que ele se lembra. Mas não do reverso. Essa parte vou ter de engolir sozinho. Nunca pude falar isso com papai por motivos óbvios. Talvez devesse ter falado depois de adulto, mas fiquei com medo de passar por idiota. Qualquer dia falo com o meu irmão loiro, o Mário, essas coisas, talvez. A parte do reverso, não. Vou ter de morrer com esse segredo.
Além do mais pode ter sido tudo imaginação. Quero dizer, a travessia, as pessoas, tudo isso existiu. A parte de um ser loiro, outro moreno, os nomes invertidos, isso, talvez. Na verdade, tenho certeza de que vi e ouvi bem. Mas você sabe, a cabeça da gente é perigosa, está sempre pregando peças. Além do mais, existem incríveis coincidências neste mundo, não existem? Talvez o reverso, de que meu pai falava, era outra coisa completamente diferente, alguma coisa que tivesse a ver com demônios. Demos escondidos na mata, do outro lado do rio, o lado que não era esse. Era o perigo da morte naquela floresta escura. O reverso, palavra incomum para nós, era só para assustar. O loiro e o moreno, os nomes trocados, tudo, apenas uma coincidência. Será que coincidir é coisa do demônio?
Reverso, que coisa estranha, como meu pai foi ter uma ideia dessas? Fiquei a vida inteira com isso na cabeça. Reverso. Nunca vou ter certeza. Pode ter sido, pode não ter sido. Quase tudo é assim, no final. O que manda, mesmo, é nosso pensamento. Às vezes a gente pensa o reverso do que quer pensar. Mas eu não quero falar mais em reverso. Pelo menos, não por enquanto.
Autor:
Flávio Cruz - Flórida/EUA

sábado, 20 de maio de 2017

Breve: Gandavos - A Alegria de Contar



Contar histórias talvez seja a principal característica da espécie humana que, se utilizando da palavra falada, escrita ou desenhada transmite de uma geração para a outra as ideias de convívio social, os conhecimentos acumulados e os sonhos do porvir. O costume de contar e de ouvir histórias é tão arraigado em nossa espécie que não se tem notícia de nenhuma cultura onde esse costume não tenha existido porque é assim que se difunde a história, a cultura, a religião e a identidade do povo. Desde sempre os griôs, os menestréis, os poetas contam em sagas e poemas épicos as conquistas e as lutas cheias de bravuras dos heróis nacionais, os mitos, as lendas, as fábulas que se alimentam, e alimentam o imaginário como guias de comportamento social ou religioso através do conto que é, em síntese, a crônica da vida real romanceada e livre das amarras sociais pela impessoalidade de seus personagens. Sófocles, Shakespeare, Homero, Camões, Cervantes, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Ariano Suassuna, Zé Condé, José de Alencar, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Mário Sette, Carneiro Vilela, Dostoievski, Tolstoi, os irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm), Boccaccio, La Fontaine, Esopo... É imensa a galeria dos contadores de causos, e a ela se junta, GANDAVOS, em sua sétima edição, fruto do sonho realizador de Carlos A. Lopes, um idealista, um contador de causos que, diferente dos citados, está vivo e disposto a continuar contando esses e outros causos.

(texto da contracapa do livro)

Autor: Alberto Vasconcelos - Santo André/SP


Na arte de escrever a simplicidade agrada

Professor Ronan Tales de Oliveira

Um texto não é fruto do esforço, mas do merecimento. Quem utiliza com naturalidade o discernimento e a seleção, agrada. As palavras gostam de serem reconhecidas e colocadas em seus devidos lugares. O texto é filho da razão e da dimensão de nossa fé. A razão e a fé são duas asas que nos levam ao conhecimento, de forma racional e espiritual.
Confúcio disse: “Envolve-me que eu aprendo, e aprendendo posso escrever”. Deste modo, a afetividade é capaz de persuadir sem palavras e triunfar sem glórias. Em relação ao ofício de escrever, aprender, sentir, é mais interessante do que aprender a pensar. O sentimento é harmônico, porque é social. Enquanto que o pensamento se manifesta no equilíbrio pessoal. Ambos são necessários no ofício de escrever e representam o verso e o reverso de uma mesma moeda. Cada um se apresenta conforme a tonalidade do contexto.
O escritor é o partejador do espírito à espera do nascimento de uma ideia original. Pronta para repousar suavemente nas linhas de nosso texto.
Parafraseando Graciliano Ramos, aprendemos que: Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras da Biquinha fazem o seu ofício, cantando elas conseguem executar alegremente o seu trabalho, limpo, brilhante e transparente. Deste modo, quem escreve deve tomar o cuidado para a escrita não sair molhada. Na página escrita não deve pingar nenhuma palavra a não ser as desnecessárias. Deste modo o texto fica enxuto e agrada.
Somente o tempo pode nos ensinar a colocação certa das palavras. Aprendendo o ofício digitamos textos, escrevemos livros e ajudamos a fazer história. O ofício de escrever nos recomenda que é preciso esquecer para poder lembrar outra vez. Isto porquê a sabedoria mora no esquecimento.
Na arte de escrever, mais importante do que estar vivo, é poder renascer. As palavras renascem todos os dias em nossa mente, quando exercitamos nossa memória com o propósito gracioso de nos servir. O escritor cuidadoso procura escrever palavras de ternura e pensamentos humanistas, com a absoluta ausência de superficialidade.
O escritor, na arte de seu ofício, é por definição, um ser inquieto e angustiado, na busca incansável de uma ideia harmoniosa que possa lhe presentear uma definição mais abrangente da realidade da qual ele se encontra inserido.
Escrevendo o cotidiano, percebemos que a amizade é um amor que nunca morre. A saudade tem o poder de fazer as coisas pararem no tempo, e o passado não reconhecer o seu lugar, porque se encontra sempre presente em nossa vida. Em relação ao amor, percebemos que ele se entrega facilmente, porquê desconhece o temor. Neste contexto a vida não é uma pergunta a ser respondida, mas um mistério que deve ser vivenciado, todos os dias.
Neste pequeno ensaio literário, procuro conduzir as palavras a se colocarem de forma ordenada nas linhas de nosso texto. As palavras são como a chuva, sedentas para repousar na terra seus pingos d’água, na forma de conhecimento. Tanto as palavras quanto a chuva, são portadoras de bons frutos, nos surpreendendo com o frescor de sua doce presença. Desta forma, percebemos que o nosso intelecto, quando escrevemos, é mensurável, mas o sentimento não.
É sempre bom ensaiar escrever alguma coisa, porquê guardamos em nossa algibeira algumas boas palavras para os momentos oportunos. Nada é mais encantador do que poder oferecer, uma meia dúzia de palavras, uma frase, um conceito. É com cortesia que eu ofereço um texto às pessoas que gostam de ler. Já dizia o poeta das flores: “espera-se o perfume e a semente, a beleza nem tanto”. Das palavras espera-se a cortesia e a estima, a perfeição nem tanto.
A perfeição mora distante, por que ela é fruto da gratuidade de Deus a nós revelada. Só posso escrever o que eu sou, nada mais. A autoridade das palavras está inserida em sua originalidade. As palavras não mudam o passado, mas em sua originalidade ela possui o poder de melhorar o futuro.
Concluindo, as palavras bem escritas, tem o poder de vislumbrar um mundo diferente deste que nos é apresentado. Escrevendo, podemos oferecer o nosso melhor. Do escritor não se espera muita ambição, mas com certeza, muita emoção. O que ele possui em abundância, lhe foi dado de graça, por isto ele pode oferecer também de graça.
A arte de escrever é filha da vontade e do desejo. A vontade nos mantém à espera de uma boa ideia o desejo nos torna criativos e cheios de esperança. O saber exige de nós vontade, desejo e espera.
O crédito do escritor, consiste em não desistir da busca de uma ideia brilhante. Capaz de mover o céu e a terra, realizar sonhos, manter-nos vivos, aquecendo os nossos corações.

Autor: Professor Ronan Tales de Oliveira - Bom Despacho/MG

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Desejo













Autora: 
Elizabeth Vargas Marcondes

Entre mil sóis o calor de um...
Abraço estreito que cala alma,
Acalma!

Me dá a calma de que preciso
No momento impreciso do amor
Que se fez na primavera...
Percorreu décadas outonais.
Viu flores e espinhos...
Espalhados no quintal da vida.

Desejo!...
O frio de todos os invernos...
Que se fora e hão de vir,
Na sonata de dois corações 
Que desejam os mesmos acordes
Da mais bela canção que a vida fez!

Desejo!...
A profusão de corpos que esperam
Na ânsia deste querer. 
E o tempo sabedor de nós...
Apesar dos Nós...
Nos presenteou.

Desejo, apenas desejo 
A troca dos olhares ...
...Que ainda não trocamos
Mas que embevecida espero...
No afago das mãos
No beijo molhado...
O cuidado de nada perder.

Autora: Elizabeth Vargas Marcondes - Londrina/PR

quinta-feira, 4 de maio de 2017

A Luz da Encruzilhada

Autora: Marina Alves

                Juvêncio olhou o relógio e com certo desagrado viu que já passavam das três da madrugada. A conversa ao redor da fogueira estava animada e dava vontade de romper o dia ali, junto com os companheiros, bebendo aguardente e contando casos.
                Era Noite de São João e os festejos da fazenda do compadre Onofre já eram um costume que ninguém podia perder. Era uma ocasião muito esperada em que todos ali das redondezas se juntavam para apreciar um quentão, cair no arrasta-pé e prosear a noite inteira!
                Apesar da vontade de ficar, Juvêncio precisava ir. A lida na roça e no curral era pesada e ele tinha que estar bem disposto, do contrário não daria conta das tarefas diárias. O fazendeiro se despediu, pegou o chapéu, desatrelou o cavalo no mourão da porteira e tomou o rumo da estrada.
                O animal ia a trote lento. A lua clara no céu derramava sua brancura sobre os pastos. Naquele silêncio noturno, apenas o barulho de algum bicho na capoeira ou no mato rasteiro quebrava a monotonia da paisagem.
                Juvêncio tinha pela frente pelo menos uma légua e meia de caminho até a sede de sua fazenda. E na solidão daquelas chapadas, o homem não teve como evitar. Ia lembrando o último caso que contavam quando saíra: A Luz da Encruzilhada. Para o povo dos arredores, as estórias daquela estranha aparição eram as preferidas.
                Muitos eram os que contavam já terem sido vítimas daquela visão fantasmagórica que, em forma de bola de fogo, assustava e perseguia os viajantes de passagem pelas imediações da encruzilhada.
                Naquela noite, o Chico da Inhana é quem tinha contado sobre a assombração. Dissera ele que um primo já passara maus momentos sob os horrores da macabra aparição da estrada. Tinha sido coisa para nunca mais se esquecer e o pobre coitado nunca mais fora o mesmo! Depois daquela fatalidade ficara meio leso.
                Dizia-se sobre a tal luz que tudo começara quando um médico saíra para atender um paciente que morava numa fazenda das redondezas. Na volta, devido aos muitos buracos provocados pela recente chuvarada e à densa neblina que cobria a estrada, ele perdera a direção do veículo.
                Foi ali, próximo à encruzilhada, que tudo aconteceu. O carro desgovernado derrapou no cascalho solto, rodou várias vezes e por fim bateu violentamente contra um barranco. Tinha sido um acidente terrível que deixaria abalada por muito tempo a cidade de Barra Bonita, pois o médico era gente de muita estima entre o povo do lugar.
                Assim que se deu a colisão, apesar dos traumas sofridos, o homem ainda permanecera vivo, preso às ferragens, mas perdia muito sangue e precisava de socorro. Porém, àquelas horas mortas, naquele lugar completamente ermo, não contaria com uma só vivalma que pudesse acudi-lo. E foi assim que, depois de agonizar por um bom tempo, ele morreu.
                Desde então, conta-se que no momento em que se deu o choque do veículo, um dos faróis refletiu uma luz no barranco que nunca mais se apagou. Ficou por ali perambulando feito alma penada como se quisesse lembrar para sempre a noite daquela tragédia. O farol, na forma de uma esfera luminosa, frequentemente começou a aparecer naquele local e a tirar com seu brilho fatídico o sossego de quem tivesse que passar por ali.
                Juvêncio, porém, não acreditava nem um pouco naquelas estórias estapafúrdias contadas pelo povo! Para ele, tudo não passava de pura invenção de algum amalucado que, ao dar com a chama de algum balão ou a lanterna de algum pescador, saíra contando aquelas lorotas que acabaram por correr mundo e ganhar fama.
                O vaqueiro nunca fora homem de cismar com assombração. Tanto que, naquela noite, ao redor da fogueira, fizera pouco do que contava o companheiro:
                — Pra mim, Chico, essa coisa de bola de fogo é coisa de quem não tem o que falar. Pura conversa fiada!
O outro, no entanto, o olhava com ares de censura:
— Cuidado, Juvêncio! Te prepara que a endiabrada não é de tolerar abuso!
— Pois, tô é pagando pra ver. Passo naqueles caminhos há anos e nunca vi nada de esquisito por lá.
Agora, ali sozinho na estrada, o homem ria consigo mesmo. O que acabava com o povo era aquela ignorância. Onde já se viu fantasma em forma de bola? Era só o que faltava... Se existisse mesmo a tal visão, que viesse então, ele queria era enfrentá-la de vez!
Perdido nos próprios pensamentos, o homem nem reparou que se aproximava da afamada encruzilhada da assombração. Só deu acordo de si quando sentiu que o cavalo estava ficando meio esquisito, de orelha em pé e pisando duro. Uai, estranhou ele, que novidade era aquela agora?
Juvêncio curvou-se sobre o dorso do animal e alisou-lhe o pescoço, tentando descobrir o que se dava. Chegou a pensar que tivesse sido picado por algum bicho peçonhento. Mas viu que o caso era muito mais sério. O alazão soltou um relincho estridente que ecoou pelo mato e, feito flecha, disparou pela estrada deixando atrás de si uma nuvem de poeira.
Em seguida, tudo se deu na velocidade de um raio. Surgindo por detrás da copa de um enorme jequitibá, ela veio com todo o seu resplendor. Perplexo diante da miragem, Juvêncio se negava a crer no que via. Era surpreendentemente brilhante a bola de fogo que ora parava, ora girava no ar.
Não havia do que duvidar! O fantasma estava ali para desafiar a zombaria que sofrera do fazendeiro, ainda há pouco, junto à fogueira. O homem sentiu que seu corpo tremia de forma incontrolável. Tentou manter-se firme na sela, agarrou com força o cabresto e fincou os pés nos flancos do animal que parecia nem encostar os cascos no chão.
Como num cenário de terror, a luz partiu com toda a sua fúria no encalço da vítima. Com seu efeito hipnotizante ela rodopiava sobre a cabeça do fazendeiro e, por mais que o cavalo corresse, o diabólico facho flamejante parecia ser muito mais veloz. Ficou assim, por um longo trecho do caminho, naquele vaivém. Indo e voltando, dançando e mergulhando no ar como se quisesse enlouquecer o cavaleiro.
O clarão sinistro espalhado pelo mato do pasto parecia sugerir que ali haveria um grande incêndio a qualquer momento. Porém o facho despendia um fogo incrivelmente gelado que penetrava fundo nos ossos de Juvêncio e o fazia tremer por inteiro. Será que aquela tortura não se acabaria mais? Ele já não suportava o vento que lhe cortava a pele, nem os lampejos faiscantes que lhe cegavam os olhos cada vez que a esfera chamejante descia sobre ele.
Quando se aproximava do rio que cortava a estrada logo abaixo, o homem entrou em pânico. Será que o cavalo conseguiria atravessá-lo na carreira desabalada em que estava? Temeu que ele perdesse o equilíbrio das pernas, mas nada havia a ser feito. Jamais conseguiria contê-lo no embalo em que vinha. O jeito era clamar por Deus e esperar para ver no que ia dar! Então, fechou os olhos e entregou-se à própria sorte.
Quando deu por si, Juvêncio já estava na outra margem do rio. Estirado no capinzal, ele viu tudo rodar a sua volta. Estava todo encharcado e a cabeça sangrava por um profundo corte na testa. O que acontecera? Atordoado, ele não se lembrava de nada.
Ainda tonto, arrastou-se pelo mato e chegou até ao barranco. Lá embaixo, as águas corriam tranquilas. De repente, viu um brilho intenso refletir-se na correnteza. Aquele clarão ondulando ao movimento das águas provocou-lhe uma vertigem. O que seria aquilo?! Apenas a luz da lua no céu ou o fogaréu da bola sinistra querendo lhe pregar uma peça?
Juvêncio já não tinha certeza de mais nada!  Não sabia se tinha mesmo encontrado o facho diabólico na estrada, ou se era a queda do cavalo que mexera com suas ideias. O certo é que, muito embora tenha procurado seu alazão por toda parte, nunca mais o encontrara.
Por via de suas dúvidas, o moço preferiu o silêncio sobre os acontecimentos daquela noite misteriosa. E nas rodas das fogueiras, quando o assunto pendia para o lado da Luz da Encruzilhada, ele disfarçava, tomava ares de quem não estava nem um pouco interessado naqueles casos e ia beber mais uma aguardente em algum canto!

Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

Página da autora:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=64920

Publicação autorizada pela autora

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Mês de maio é cheio de magia e encanto


O mês de maio é popularmente conhecido, como mês de Maria. Tempo de levar às crianças para coroação. Pois, somente elas possuem a inocência santificadora de poder estar do lado de nossa senhora oferecendo pétalas de flores e cantando cantigas de amor e paz. É conhecido como o mês das mães, das noivas, de casamentos e festas diversas. O mês de maio é também amado e venerado pelos poetas, pela sua natureza rica e contagiante.

A beleza do mês de maio repousa na criança, no jovem, no adulto e no ancião, à esperança de humanidade. Porque toda natureza conspira em favor da sacralidade do amor. Em cada galho da árvore, no mês de maio, existe um poema e em cada flor um verso de amor.

O mês de maio é generoso em toda o seu esplendor. Ele nos ensina que a brisa é para às flores, a estima é para a amizade, o alento é para a vida e o amor é para tudo.

No mês de maio comumente existem dois fenômenos na natureza humana que não podemos frear; que são o sorriso e as lágrimas. O sorriso nos empresta à alegria e a poesia, extraída do perfume suave da flor de maio. As lágrimas são retiradas do sentimento de esperança e da força do pranto. Tanto o sorriso, quanto às lágrimas são ornamentações humanas legítimas reveladas a cada um de nós. Pura invenção da Sabedoria infinita e da Graça santificadora de nosso Deus.

O mês de maio é sem dúvida o mês do amor. Santa Terezinha, nos ensina que: “Nesta vida valemos o quanto amamos. Vale mais quem ama mais e que amor com amor se paga”. Consolidando a afirmação clássica de que a medida do amor é amar sem medida.

Maio é o quinto mês do calendário gregoriano e tem 31 dias. O seu nome é derivado do nome da deusa romana “Bona Dea” da fertilidade. Sob o antigo regime francês, era de costume plantar um "Maio" ou "árvore de Maio" em honra de alguém. No sul da França existe a árvore de maio, uma árvore maravilhosa, onde tradicionalmente os jovens se encontram sob a sua frondosa sombra.

O mês de maio é propício para os poetas, porque nele as ideias renascem com mais facilidade e exuberância. A grande arte do poeta é fazer da vida uma obra de arte e de poder cantar o homem e a mulher como a melhor floração de Deus. No mês de maio existe sempre uma novidade reservada, um anúncio de alegria que nos leva a festejar e a partejar novas ideias de luz.

Concluindo, escrevi este pequeno texto, em primeiro lugar, porque me sinto bem, sendo fiel a Deus e a sua perfeita criação. Em segundo lugar, como professor, no meu ofício de anunciar, eu sempre dizia aos meus ilustres alunos: “Não se preocupem com o que eu falo; ocupe com o que vocês podem aprender ouvindo”.

A beleza e a riqueza do mês de maio, residem na “gratuidade” de sua existência; que nos oferece de graça tudo para aflorar a nossa sensibilidade de ser humano.

Autor: Professor Ronan Tales de Oliveira
Bom Despacho/MG


domingo, 23 de abril de 2017

Linguiça - Autor: Roberto Rêgo

Magrelo, comprido, espichado, botaram-lhe o apelido de “Lingüiça” logo começou a trabalhar no escritório da fábrica, como “Office-Boy”. Luiz Alberto era o seu nome, mineirinho do interior, natural de Cachoeira de Curvelo.

Garoto inteligente, não perdeu tempo e agarrou a oportunidade com unhas e dentes. Esmerou-se no trabalho, aprendeu rápido o ofício e em pouco tempo foi promovido, saindo do serviço de rua para o trabalho interno no escritório da companhia. Passou por diversos setores no escritório, Contabilidade, Departamento do Pessoal, Faturamento, sempre correto nas atitudes e com excelente desempenho profissional, ganhando assim a confiança dos superiores.

Alguns anos depois o “Lingüiça” tinha engordado bastante, mas o apelido continuava. Ele conheceu uma moça bonita, Desiré, funcionária da empresa também, namoraram, noivaram e se casaram em questão de três anos.

O tempo correu e o “Lingüiça” viu os filhos nascerem, para alegria sua e da Desiré, sua mulher adorada. No trabalho, seguia firme e sempre bem conceituado entre os superiores, galgando devagarzinho as promoções da carreira. Foi indo assim até chegar à idade madura, quando começaram os problemas de saúde.

Aos cinqüenta anos sofreu um infarto brabo, quase partindo desta para melhor. Superou a doença, recuperou-se e insistiu trabalhando. A princípio fazia dieta alimentar, largara o fumo, a bebida e tomava seus medicamentos. Mas, com o tempo, foi relaxando, voltou a fumar, a tomar seus goles, a comer suas feijoadas, costelas e rabadas, o fato é que ele perdeu totalmente a noção do perigo.

Num domingo, foi à missa na Igreja de São Sebastião com a mulher e os filhos, rezou bastante, comungou, gordão, compenetrado e, ao término do culto, falou pra mulher e  filhos na pracinha defronte à Matriz:-

“- Desiré, querida, pode ir descendo pra casa com os meninos, sabe? Eu vou procurar o que comer, porque hóstia não mata minha fome! Vou ver o que tem lá no fogão do Jorge, meu primo.”

Esse Jorge era um sujeito taciturno, seu primo, que vivia sozinho, enfurnado num barracão na beirada do rio. O “Lingüiça” chegou, trocaram as saudações costumeiras e o dono da casa indagou:-

“- E aí, primo? O que você tá mandando? ...”

“- Jorjão, tou a seco e com fome! Tem aí aquela branquinha pura?”

“- É pra já, primo. Vou buscar também um costelão assado que fiz ontem de noitinha.”

Chegou com a garrafa da “marvada” e os copos americanos (aqueles canelados), encheu-os até a borda, cortou um pedação de costela bem gordurosa pro “Lingüiça”, ele emborcou de vez a pinga e caiu de queixo na carne assada. E assim foram, de gole e costela, de costela e gole até de tardezinha. Lá pelas dezesseis horas, desmaiados, foram acudidos pelos parentes. O “Lingüiça” foi levado em padiola pra casa e de lá pro hospital, donde só saiu pra falar diretamente com São Pedro, alguns dias depois.

Autor: Roberto Rêgo - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada através de e-mail de 10/10/2011

As aventuras de ¨A Fábrica¨

Autora: Ana Bailune

Quando eu era pequena, tínhamos muitos cães em casa, e não consigo lembrar-me de alguma fase de minha vida em que eles não estivessem presentes - a não ser, assim que eu me casei, pois moramos em apartamento por sete anos. Mesmo assim, tinham os cães de minha irmã, com quem eu brincava quando a visitava.
Houve um tempo em que uma das cadelas era apelidada de "A Fábrica", que era o título de uma novela que passava na falecida Rede Tupi (pronto! acabo de revelar a minha idade!). Bem, demos este nome a ela porque A Fábrica sempre tinha muitos filhotes de uma só vez, que nós doávamos para os vizinhos.
Ela era uma enome vira-latas preta, e tinha uma peculiaridade, ou seja, duas: a primeira, é que ela sabia sorrir. Logo que nos via, arreganhava os dentes, abanando a cauda. Era só a gente pedir: "Fábrica! Ri!" E lá vinha ela, dentes de fora, toda faceira.
A segunda peculiaridade (acreditem ou não) é que ela... voava! Não, não é lorota, não! Ela voava mesmo, por cima da plantação de bananeiras e depois, ainda passava pelos galhos mais altos de um bambuzal, que lhe amparavam a queda. Bastava que ela visse uma galinha. Era campeã de Caça às Galinhas da Dona Teresa!
Também... a Dona Teresa era uma folgada, que mesmo sabendo que todos os vizinhos tinham cachorros em casa, deixava suas galinhas soltas pelo terreiro, e elas sempre acabavam indo parar no meio da rua ou no terreno de outros vizinhos. Era sempre a mesma história: a Fábrica escutava um cacarejar no morrinho (lugar onde brincávamos quando crianças, logo acima de nossa casa e da plantação de bananeiras e bambus de meu pai) e corria atrás. Não tínhamos como segurá-la, pois ela parecia totalmente possuída por alguma força atávica incontrolável.
A galinha, na tentativa de salvar-se, voava desajeitadamente por sobre as bananeiras, e A Fábrica, que jamais desistia, voava atrás dela, lá de cima do morrinho.
Daí, escutávamos um agoniado "Cóóóó..." e lá vinha A Fábrica, com a pobre coitada na boca.
Na manhã seguinte, lá vinha a Dona Teresa perguntar: "Ruth (minha mãe), não viu uma galinha carijó por aí não?" E minha mãe, com ar distraído: "Não... por que, sumiu?"
Mas acho que a Dona Teresa acabou descobrindo sobre o paradeiro de suas galinhas, pois um dia, A Fábrica amanheceu morta: envenenada...


Autora: Anabailune - Petrópolis/RJ



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Uma ¨estória¨ mal contada - Autor: André Bessa

Ilustração original: André Bessa


João Guimarães Rosa, autor do qual li uma meia dúzia de obras mas das quais releio apenas duas, no seu último livro —"Tutaméia"— introduziu a palavra estória. E, dentro desse nosso espírito quase passarinheiro de imitar todo novo que se canta entre os buritís, tal palavra foi logo assimilada e rapidamente adotada por quase todo mundo. Sem que o real conhecimento e nem a validade de tal conceito fossem sequer questionados! Guimarães Rosa apresenta a sua estória dentro da conotação de quase uma anedota, em contraste à História, ciência que estuda o ser humano e sua ação no tempo e no espaço, e à história, mera narração de fatos que se relacionam a um determinado assunto. Em sua vaidade intelectual, Rosa quis deixar aos pósteros, além de uma obra cuja originalidade estética e estilística já era indiscutível, uma outra "marca registrada" de seu talento em inventar palavras e verbos. Todavia, o que para muitos possa parecer um neologismo rosaniano e genial, na verdade, não passa de uma adaptação literal da palavra de língua inglesa story, a qual ele adotou, prosaicamente, em forma, modificando-lhe, porém, levemente o conteúdo. 

Ora, a palavra estória não existe em nenhum dicionário da língua portuguesa e sim história, com agá e i. Em nossa língua a palavra história (com h minúsculo) diferencia-se de História (com H maiúsculo) exatamente como, em inglês, diferenciam-se story e History. E por que isso? ora, porque história, em português, tem uma etimologia própria, ao passo que estória não. No entanto, Guimarães Rosa diferencia o estória dele da palavra história, e vai mais longe ainda: ele a opõe à palavra História. Em suas próprias palavras, ele diz que "A estória não quer ser história.  A estória, em rigor, deve ser contra a História.  A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota." 1

Logo, estória é uma palavra de validade unicamente circunscrita à sua obra e, se adotada por terceiros, que seja feita sob uma ressalva do gênero "segundo Guimarães Rosa", ou "parafraseando o autor mineiro", etc etc. Mas o brasileiro não gosta de muita explicação, de muito raciocínio, de muita tecnicidade. Em nosso velho hábito de buscar sempre a coisa pelo seu lado mais fácil e o menos cansativo, nós nos esquecemos de considerar as imprecisões que certas adopções podem trazer consigo. E no caso de estória, o mal já está feito. Ao adotarmos, à maneira de um corrupião, a palavra estória — cuja validade, repito, se insere unicamente no contexto da obra de Guimarães Rosa — como sendo um vocábulo inerente à língua portuguesa, nós cometemos dois êrros fundamentais: 1. o de utilizar uma palavra que não está catalogada em nenhum dicionário de nossa língua; e 2. de usá-la sem um conhecimento maior da acepção que Rosa lhe deu, a dizer, a de ser quase uma anedota.

Guimarães Rosa conhecia razoavelmente bem inglês e francês, e se valeu desse conhecimento para adaptar e depois inserir em sua obra esse temerário neologismo. A palavra francesa "anecdote" significa pequeno fato ocorrido a um momento preciso da existência de um ser, à margem de eventos dominantes e, por esta razão, pouco conhecido. Essa mesma definição sublinha o aspecto pitoresco, hilário ou picante que possa vir a ter esse fato. A língua francesa distingue igualmente a palavra histoire (com h minúsculo) da palavra Histoire (com H maiúsculo) tal e qual as distinguimos na nossa língua. E, pôsto que anedota em nossa língua tem conotação diferente da francesa anecdote, o que se prestaria a confusões maiores, Guimarães Rosa optou então pela grafia de estória, que vem diretamente da palavra em inglês story, equivalente à palavra história em português, porém, inserindo-a dentro da conotação da palavra francesa anecdote

As pessoas, que ouviram o galo (francês) cantar mas sem saber em que quintal ele se encontrava, pegaram a estória andando e trafegam até hoje neste bonde (inglês) sem saber para onde ele vai. Pessoalmente, me dói quando vejo (e, infelizmente, é quase sempre) pessoas empregarem a palavra estória no lugar de história. Assim como escrevem causo em lugar de caso. E, vejam bem, eu não confundo aqui ter amor à própria língua com ser reacionário à introdução de palavras novas. Não é nada disso. Atenho-me apenas à clareza que sempre teve a nossa bela língua e que, mesmo considerando as diferenças que esta já apresenta em relação à língua-mãe lusa, não obstante, jamais deixou de ser uma língua precisa. E, sobretudo, de uma riqueza que não se limita ao número de palavras existentes, mas também à clareza de suas conotações. 

Nesse mesmo livrinho, "Tutaméia" — e que é, para mim, o melhor de todos que ele escreveu — Guimarães Rosa, no meu entender, e de forma pouco oportuna, diverte-se em um prefácio onde mistura alhos com bugalhos, ironiza, prosodia, entorta sentidos e definições, escorrega por teorias rocambolescas, esbalda-se através de citações em línguas estrangeiras (O vanitas vanitatum!) e intitula esse mesmo prefácio de "Aletria e hermenêutica". Ora, Hermenêutica é a arte de interpretar livros sagrados, assim como a de interpretar diversos sinais como sendo símbolos de uma cultura, além de ser, ainda, a arte de interpretar leis. Até aí, nada tenho a comentar. Porém, sabendo-se que a palavra aletria, segundo todos os dicionários da Língua Portuguesa em que pude pesquisar, refere-se a um tipo de macarrão fino, também chamado de cabelo-de-anjo, o que quis João Guimarães Rosa realmente dizer com esta palavra em seu prefácio? mais um neologismo sem-pé-nem-cabeça?

Aletrias de Rosa... causos.... estórias de dar com o pé.


1. Guimarães Rosa, João: «Tutaméia» pág. 7, 9a edição, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro.

Autor: André Bessa - Suíça

sábado, 1 de abril de 2017

A Quinzena do Autor - Augusto Sampaio Angelim

Augusto Sampaio Angelim

AS VITRINES

Há pouca luz nos corredores do shopping center enquanto ela caminha devagar, digitando alguma coisa no celular, até parar em frente de uma loja de sapatos. Abre a porta, acende algumas luzes e começa a rotina de cuidar de si mesma.  Em frente a um grande espelho começa a se maquiar com esmero, passando um pincel nos cílios e depois fazendo os contornos dos olhos. Com um lenço, passa uma espécie de pó de pirlimpimpim em todo roto, ajeita mais uma vez os olhos e, por último, passa o batom nos lábios. Suas mãos nos cabelos procuram um penteado ideal e deixam à mostra seu pescoço, como resultado de uma obra de arte.
Sai de frente do espelho e desaparece por uma discreta porta nos fundos da loja e volta em cima de um par de sapatos altos e vestida bem diferente do jeito casual que estava antes. É como se fosse outra mulher e, parece saber disto, pois, novamente fica a frente do espelho e faz novos ajustes no cabelo e no rosto.  Esboça um leve sorriso e depois fecha os olhos como se estivesse rezando.
Vai ao balcão e organiza todas as coisas que lá estão. Em seguida, inspeciona as vitrines.
Finalmente toca uma música anunciando a abertura do shopping e ela acende todas as luzes da loja.
O burburinho das pessoas e seus passos apressados quebram o encanto de antes. Agora, ela é apenas a gerente de uma loja de sapatos.

MÁQUINAS DE ESCREVER

Na minha infância, a máquina de escrever era mais do que um meio de reproduzir um texto.
Era dificuldade que minhas mãos ágeis de menino venciam com facilidade.
Cada  máquina tinha sua própria música.
O som metálico das teclas era uma espécie de identidade secreta de cada uma delas.
Em casa, tinha uma Remington pequena e colorida. Era moderna, mas sóbria, mesmo assim, lhe chamava de Princesa. 
Havia, também, uma Olivetti que respondia mais rápida aos toques dos meus dedos. Dei-lhe o nome de Olivia.
A velha e grande máquina do cartório de meu pai, emitida um seco, talvez ciente de suas responsabilidades notariais. Ficou sem nome, pois não era dada a intimidades.
As duas últimas que tive, no início dos anos 90, eram eletrônicas.
Uma delas era uma Olivetti, tinha nome próprio: “Práxis 20”. 
A outra, era importada e não lembro o nome, mas chamava a atenção das pessoas, pois era muito tecnológica.
Ambas foram contemporâneas de uma velha Olivetti Línea 98 que labutava no Fórum de Garanhuns.
As primeiras me serviram para fazer poemas infantis e escrever contos que, infelizmente, se extraviaram nas dobras do tempo. Com as últimas fiz denúncias, alegações finais, recursos e outras peças próprias de um Promotor de Justiça.
Depois, vieram os computadores e aí as velhas máquinas foram abandonadas.E,então, o mundo mudou.

DESENCONTROS

Não era a primeira vez que ela repousava em seu peito. Desta feita, porém, chorava baixinho, mas ele sentia as lágrimas. Na escuridão do quarto, a luz do pequeno abajur destacava sua pele branca. Tinham saído a tardinha e ela, depois, do terceiro copo de uísque se mostrara arredia. Cauteloso, ele procurara evitar o menor conflito, pois sabia que ela estava se sentindo amargurada. Estavam vivendo juntos há apenas alguns meses e a felicidade, como acontece com todos os amantes, que antes parecia tão ao alcance das mãos, agora teimava em escapar-lhes por entre os dedos. Ela o conhecia desde adolescente, quando ele, então, já era homem. Sendo aparentada dele, ficara fascinada por suas aventuras e façanhas, muito mais que pelo homem com quem passara a conviver. Fora ela, na sua ousadia de mulher jovem, a iniciativa, mas ele foi quem soube explorar suas ilusões. Na verdade, ela lhe fascinava pelo carinho e beleza. Porém, como ele lera em algum lugar, parece que o amor teima em mostrar que é impossível a plenitude do encantamento humano. Nos últimos dias, seus desencontros se acentuaram e os humores se alteravam de forma quase desequilibrada. Quando ela finalmente adormeceu, ele foi até a varanda de seu apartamento e contemplou a enorme avenida, sem movimento àquela hora. Limpou as lágrimas de seus olhos e acendeu um cigarro.

FRUSTRAÇÃO

O homem hesitou antes de abrir o baú de madeira, há muito tempo relegado a um canto no porão daquele sobrado. Mas, pensando melhor, concluiu que não mais importava manter aquelas lembranças intocadas. Entre as velharias, lá estava um lindo retrato preto e branco dela, à beira-mar, vestindo um gracioso maiô escuro. Atrás, uma dedicatória de amor, feita com a letra perfeita.
Com a foto entre as mãos, sentiu uma dor súbita no braço direito e um amargo na boca. Respirou fundo, foi até a entrada de ventilação e sentiu um alívio.
Por algum tempo, recordou-se dela com um sorriso. Depois, as lágrimas molharam-lhe o rosto.
O pior é que eles ainda estavam juntos, sob o mesmo teto, depois de tantos anos, mas a frustração entre eles era um muro de silêncio.
Hoje, a ausência era o sentimento mais presente no seu coração e cantarolou, bem baixinho, com os olhos em lágrimas: “Sorri quando a dor te torturar e a saudade atormentar, os teus dias tristonhos, vazios. Sorri, quando tudo terminar. Quando nada mais restar, do teu sonho encantador. Sorri, quando o sol perder a luz...”.
Encerrando o arremedo de canção, sorriu sem graça e levou a fotografia de volta ao baú, fechando-o sem olhar mais nada de seu conteúdo.

FOTOGRAFIA DE UM VELHO CARNAVAL

Já não lembrava mais daquele carnaval, afinal tinham se passado vinte anos. Vinte anos? Não tinha certeza. Por acaso, quando vasculhava sua caixa de guardados, achara a única fotografia dela. Deitada num banco de madeira, vermelho, com seus longos cabelos castanhos quase que encostando no chão quadriculado da Praça XIV. O vestido tinha um comportado decote retangular, mas lhe deixava quase  descobertas suas generosas coxas. Era cheio de flores, pretas e violetas, sob um fundo cor de rosa e trazia um cinto transpassado na cintura, dando-lhe um desenho sensual. A maquiagem ao redor dos olhos, mais escura que a pele morena clara realçava a sua beleza. Usava dois brincos pequenos e seus lábios estavam retocados com um brilho suave. Estava adormecida, como se fosse eternamente sua.Esperavam uma condução para voltarem para a Lapa.
Aproveitara este momento e lhe fotografara, mas somente revelara o filme meses depois, quando mais nada havia entre ambos. Conheceram-se no Amarelinho, bem no centro do Rio, numa sexta-feira. Havia saído da Biblioteca Nacional e resolvera tomar um chope, quando ela chegou e sentou-se na mesa ao lado, sozinha. Num instante, já conversavam sobre as eleições daquele ano, animados porque votavam nos mesmos candidatos e, para completar o estado de graça dos dois, torciam pelo mesmo time. Na semana seguinte estavam saindo juntos e foram passar um feriado em Parati. Ele morava na Lapa e dividia um velho apartamento com um jornalista vindo do Ceará. Ela, morava com os pais, em Botafogo. O namoro seguiu tranqüilo, repleto de romance e aventura para a felicidade de todos. De todos, não, porque havia o primeiro namorado dela que era uma espécie de fantasma entre eles, pressentia.
Naquele dia, ela usava um sapato preto, de salto alto e não sabia como ela havia agüentado toda folia da arquibancada do sambrodomo, na noite anterior. Tinham ido torcer pela Mangueira e se divertiram bastante.
Chegou a  Semana Santa e ela foi ao interior de Minas, visitar os avós. Não teve nem chance de se oferecer para acompanha-la, pois ela disse que era um evento estritamente familiar. Acabou-se a Semana Santa e vieram outras e mais outras semanas e não mais lhe avistou. No prédio aonde ela morava o porteiro lhe informou que a família tinha se mudado para Minas. Em junho, não se conteve mais e foi atrás dela, na pequenina Felisburgo, no Vale do Jequitinhonha. A cidade era e, ainda é muito pequena, e não foi difícil saber sobre a família dela.
A filha de Doutor Nertan? 
Casou-se com um parente dela...o rapaz também é médico.
Foi um casamento apressado. Tá c’uma barriga enorme.
Dizem que mineiro fala pouco, mas as palavras do estalajadeiro foram suficientes para que voltasse, no mesmo dia, ao Rio. Depois de uns dias de dor e desilusão, resolveu seguir a vida. Passados esses vinte anos, resolveu rasgar a fotografia dessa quase desconhecida, mas, como tinha um isqueiro no bolso, queimou-a lentamente. Agora, os cabelos dela tinham ganho um tom avermelhado de puro fogo. 

O CRIME DO TENENTE DECAÍDO

Aconteceu nos tempos de chumbo da ditadura militar, numa pequena cidade do interior do Nordeste, quando um tenente da reserva, do exército, mesmo aposentado, usava farda e andava armado. Era o ano de 1968. O militar havia se constituído na principal autoridade do lugar. Acima do Prefeito e do Padre. Usurpando poderes, o tenente fazia inspeções na prefeitura e era muito temido, pois tanto o alcaide quanto seus assessores tinham medo de ser apontados como corruptos e, por via de conseqüência, presos e afastados de seus cargos sumariamente. Homem que antes, era pouco afeito à Igreja, o tenente passou a frequentar a missa todos os domingos, arrefecendo os ânimos dos sermões do pároco local, que, antes, abria o verbo em favor das pregações sociais. Sempre vigilante, o homem parecia que tinha o poder da onipresença.
O pequeno destacamento da polícia militar, composto de 04 soldados rasos, um cabo e sargento, era passado em revista, semanalmente pelo cioso paladino da justiça e da ordem. Toda sexta-feira, às sete horas, o destacamento se perfilava diante do oficial do e, empertigados, entoavam o hino nacional, batendo-lhe vigorosas continências. Primeiro foram as crianças e as professoras do grupo escolar que alteraram suas rotinas para assistirem aquela demonstração semanal de patriotismo. Depois, a coisa tomou um vulto tão grande que, o prefeito e o padre, também se faziam presente, embora em segundo plano. E, logicamente, quase todo o povo da cidade. 
Não tardou que três ou quatro senhoras carolas procurassem o tenente, fazendo uma exposição de motivos em que realçaram o respeito e a admiração que sentiam por sua singular pessoa, para ao final, cobrarem uma providencia contra a desditosa Glorinha, dona do único bordel da cidade.
Desde que resolvera tomar conta daquele lugar, impondo ordem e respeito à pátria, aquele era o problema que ele divisava como o mais difícil de ser resolvido. Gostava muito de álcool e aliviava suas tensões debaixo dos lençóis perfumados de Glorinha, embora ninguém ousasse comentar isto, tanto assim que aquelas inocentes senhoras não sabiam da verdade. Havia algum tempo que vinha pensando em largar esses vícios, mas, desafortunadamente, há dois meses havia chegado à casa de Glorinha, uma linda paraense de longos cabelos negros que chegavam à sua cintura torneada. Deram-lhe logo apelidada de Iracema, em alusão à personagem de José de Alencar. Essa moça vinha mexendo tanto com sua cabeça, que chegara a cancelar a revista semanal que fazia ao destacamento, porque simplesmente não conseguira sair de seus braços na manhã da última sexta-feira. Dividido entre a culpa e o prazer, o oficial andava cabisbaixo e sua moral somente se levantava, de fato, quando desfrutava da posse de Iracema. Absorvido por uma paixão intensa, sentia saudades da amada até mesmo quando estava com ela nos braços. Atormentado, decidiu tirar a menina daquela casa de safadeza, porém esbarrou na autoridade de Glorinha, que ameaçou contar à cidade sobre seu caso e, se isto não fosse suficiente, que iria procurar um coronel que conhecera em sua mocidade, quando este ainda estudava no Colégio Militar. Sabedor dos dissabores e do risco que corria acaso Glorinha desse com a língua nos dentes, o tenente foi se enchendo de amargura. Para sua infelicidade, chegou ao local uma equipe do DNOCS para construir uma barragem e, o chefe era um jovem e afoito engenheiro que, irresponsavelmente, também se encantara por Iracema. O pior é que a danada, ao que tudo indicava, estava enamorada do calculista, como era chamado o engenheiro. Atormentado, deixou de sair de casa, não fazia a barba e sequer tinha ânimo para engraxar seu brilhoso coturno.
Não demorou para que toda a cidade tomasse conhecimento da desgraça que se abatera sobre o homem, para alegria de muitos e decepção das carolas e da meninada. O fato é que, depois disto, o prefeito já não sentia medo de suas inspeções e padre deu-se ao direito, novamente, de falar nas mazelas do país e e a defender, fervorosamente, as ligas camponesas nos sermões dominicais. Para piorar as coisas, o sargento se rebelara e não mais formava a tropa para a revista semanal.
Nessa maré de contrariedade, o porbre homemo ficou sabendo que Iracema fora vista nuazinha em cima da caminhonete do engenheiro, de braços abertos, com tudo à mostra, em uma estrada próxima à barragem. Isto não era possível! Dirigiu-se ao bordel e lá Glorinha, com cara de enfado, disse, que Iracema já não morava mais na sua casa e, agora, estava no alojamento do DNOCS. Deprimido, o pensamento foi invadido pelos demônios da vingança. Vingança! E, para tanto, cachaça. Muita cachaça! Por estas artes que somente o destino é capaz de fazer, deu-se um tragédia: a caminhoneta do DNOCS, sempre indo-e-vindo com o mais novo casal do lugar, deu uma capotada, à noite, matando os dois amantes. O tenente sentiu todo o gosto da impotência com esse fato, porém, logo foi acometido da maior revolta ao saber que o Prefeito havia cedido o prédio da municipalidade para o velório do casal. Isso não! Assim já é demais! A cidade estava no velório.
Deprimido pela perda de sua autoridade, viu alento na idéia de vingar-se de ambos, matando-os. Por dias ficou matutando uma forma de cumprir o que parecia como a única razão de sua existência: matar Iracema e seu amante. Acontece que, enquanto pensava e pensava, o decaído oficial se entregara completamente ao álcool. Por esses desígnios da vida, recebeu a notícia que a caminhonete do DNOCS havia virado e caído numa ribanceira, matando seus ocupantes. Iracema e seu namorado (sim, o povo já dizia que eles namorados, deixando de chamá-los de amantes). Nenhum parente de Iracema pode comparecer, mas Glorinha e suas meninas estavam devidamente compostas e usavam véus negros cobrindo-lhes os belos rostos, recebendo o respeito silencioso das mulheres de bem da cidade. Se alguém temia alguma reação das carolas, tal não se deu, pois  o comportamento das meninas de Glorinha foi tão digno que até o padre balançava a cabeça em gesto de aprovação. Do Recife vieram os pais e os irmãos de Heitor, o melhor calculista que já se formara pela Universidade Federal de Pernambuco. Desde que aquele lugarzinho havia se transformado em cidade, há 58 anos atrás nunca havia acontecido um velório tão concorrido e comentado. 
Talvez a única pessoa que ainda não tinha sido vista no velório fora o tenente, mas o que ninguém sabia é que, em casa, ele preparara seu traje de gala, suas armas e insígnias. Resolvido, vestiu-se e calçou suas botas lustrosas e pôs sobre a cabeça o quepe e, em caminhada militar dirigiu-se ao prédio da prefeitura. À sua chegada, os populares que conversavam animadamente no paço municipal, se calaram e abriram o caminho. Dentro do salão, somente perplexidade. O militar se aproximou dos caixões, sacou a pistola e atirou contra os dois corpos, se deixando cair em seguida, causando um tumulto extraordinário que terminou com os corpos no chão, pessoas em luta corporal, cadeiras quebradas, a bandeira nacional rasgada e quinze pessoas presas. À noite, veio uma equipe do Exército e um capitão deu voz de prisão ao tenente, levando-o à capital. Nunca mais se soube notícias dele. Iracema virou nome de rua e, anos depois, quando se construiu o primeiro ginásio da cidade, lhe denominaram de Ginásio Engenheiro Heitor Furtado de Mendonça.

UM HOMEM DISTANTE

1. A notícia.
O telefone celular toca com insistência, até que Antônio se acorda.
Alô.
É Maria...
Imediatamente reconhece a voz antiga e pressente algo grave.
O que foi?
D. Carmem estava muito doente, mas pediu para não lhe avisar. Antes que a mulher terminasse Antônio, impaciente, lhe interrompeu.
Fala logo Maria, o que foi que aconteceu.
Ela se foi.
Quando? 
Faz umas duas horas que o médico veio aqui, não houve jeito.
Como foi?
Depois do jantar ela disse que ia se deitar e acordou por volta das dez horas, pedindo água e dizendo que estava com um dor. Tomou um comprimido, mas não a dor não passou. Liguei para o médico, ela veio, deu outros medicamentos, mas ela dizia que a dor somente aumentava.
Já providenciou as coisas, Maria?
Falei com seu Tio e ele está resolvendo tudo.
Qual a hora do enterro?
Amanhã, dez horas. Você está aonde?
Irei. Estou em São Paulo, diga a Tio Pedro que me espere.Vou agora mesmo ao Aeroporto.
Certo.
Desligou o telefone e sentado na beirada da cama, acendeu a luz do quarto e viu seu rosto no espelho. Quanto tempo fazia que não se viam. Nem sabia ao certo, se dez ou quinze anos. D. Carmem, sua mãe enviuvara cedo e passara a se dedicar a ele, seu único filho. Durante os anos de faculdade e até sua formatura se viam com regularidade, depois, arrumou emprego numa empresa multinacional em Recife e terminou indo morar em Manaus. De Manaus, assumiu a presidência da empresa em Assunção, no Paraguai e os contatos com a mãe foram rareando. O pai, Seu Agenor, morrera cinco anos antes e um episódio ocorrido nessa época terminou afastando mãe e filho.
Enquanto pensava no passado, reservou passagem aérea para João Pessoa e um carro para se dirigir até o interior paraibano. Tomou banho, arrumou a mala, ligou para sua secretaria cancelando os compromissos durante a quinta e a sexta-feira.
Cinco anos atrás, sua mãe havia deixado uma mensagem em seu celular, pedindo ajuda financeira para custear a transferência e o tratamento do marido para um hospital do Recife e, ele somente lera a mensagem três dias após. Estava participando de um seminário empresarial em Dubai, numa espécie de confinamento. Quando ligou de volta, D. Carmem lhe disse que não precisa mais. Ressentida passou o telefone a Maria que lhe contou os detalhes da morte do pai e, desde então, nunca mais voltou a falar com a mãe. Sabia notícias dela apenas através de Maria, por telefone. A empregada estava ali desde que ele era adolescente. Como apoio, mandava, mensalmente, certa quantia em dinheiro para uma conta bancária aberta em nome da empregada, para o caso de alguma necessidade extra. Maria informava que a mãe fazia questão de pagar suas despesas e da casa com a pensão deixada pelo marido e com os rendimentos dos aluguéis de dois prédios comerciais. 
Já no avião, com a cabeça recostada na poltrona e olhos fechado, ia procurando as lembranças mais antigas da mãe. Viu-se menino, de calças curtas, andando com ela na praça. Vestia uma blusa branca com flores azuis e vermelhas. Uma tiara azul a prender-lhes os longos cabelos pretos. Saia preta e sapatos altos, pretos. Bonita. No rosto, apenas um leve batom. Recordou de sua mão quente quando lhe levava para a escola cedinho, toda arrumada, como se fosse à missa. Sempre muito calada e comedida, esses modos circunspectos se acentuaram, com o passar do tempo. Sorriu quando lembrou um dia, em que foi ameaçado por outro menino. Ela ficou sabendo e foi conversar com o pai do outro garoto. Quando voltou, lhe disse, passando a mão em seus cabelos: ele não vai fazer nada com você meu Anjo, mas se ele lhe ameaçar novamente, bate nele primeiro. Quando estava na faculdade, ela lhe mandava, com regularidade, doces e roupas reparadas, além de alguma quantia em dinheiro e cartas e mais cartas. Meu Anjo, espero que estejas bem. No final, com uma caligrafia arredonda e muito legível: De sua mãezinha que tanto lhe ama. Agora, se perguntava: porque tinha deixado as coisas chegarem àquele ponto? Perdera totalmente a convivência com a mãe devotada e, agora, tudo se acabara. Teria ela pensado nele, nos últimos momentos?  
Quando chegou em João Pessoa, ligou para casa e Maria atendeu dizendo que tudo estava pronto, e que o enterro seria as onze horas, já que o tempo estava um pouco nublado. Foi a um hotel na praia, descansar um pouco. Enquanto estava deitado pensou em ligar novamente para Maria e dizer que não poderia ir, por um motivo ou outro. Covardia, disse. Refeito, pegou o carro locado e começou a dirigir. Seriam cerca de duzentos quilômetros. 
2. O reencontro.
Fazia muitos anos que não voltava àquela terra. Quando ainda falava com a mãe, ficou sabendo que muitos conterrâneos tinham orgulho de seu sucesso, principalmente os mais velhos. Através da empresa em que comandava, ajudava a população carente em vários programas sociais. À medida que ia se aproximando do lugar, novas lembranças lhe ocorriam. Eram memórias das viagens para João Pessoa, dos sítios, dos arredores, das ruas, das mangueiras frondosas da praça principal, das peladas no campinho de futebol. Dos primeiros anos na escola. Da preparação para o catecismo. 
Quando chegou, avistou logo as pessoas em frente à velha casa branca, com uma porta apenas e quatro janelões altos. Não reconhecia nenhum daqueles rostos que lhe observam silenciosamente. Enquanto se dirigia para entrar na casa, muitos lhe cumprimentavam com acenos de cabeça, outros, poucos, lhe apertavam a mão prestando condolências. Subiu os degraus da entrada e logo avistou o caixão na sala. Viu Maria, que se aproximou e lhe abraçou. Aos poucos, foi identificando os outros. Seu tio, primos, parentes e alguns conhecidos.. Com certo custo, conseguiu se livrar dos abraços e cumprimentos e foi se postar ao lado da morta. O mesmo rosto tranqüilo e bonito da maturidade. Fechou os olhos e procurou, na memória, uma oração para rezar em silêncio. Este momento íntimo durou pouco, pois chegou o Prefeito acompanhado da primeira-dama, o médico, os vereadores, a diretora da Escola. Todos para agradecer as contribuições sociais da corporação em que trabalhava. Felizmente, o padre chegou e as coisas se recompuseram, adquirindo a sobriedade necessária. Após as orações, o cortejo saiu pelas ruas da cidade, levado pelas mãos dos parentes, amigos e conhecidos. Enquanto cortejo se dirigia ao cemitério novas lembranças afloravam em seu pensamento. A casa de Amália. O antigo prédio dos Correios e Telégrafos. O sobrado da Prefeitura. A casa “velha”, chamada assim por ter sido uma das primeiras habitações do lugar. A farmácia de Seu Genésio Miranda já não existia mais. No lugar do Hotel São Domingos, agora, estava o Mercadinho Dantas. Em meio a esses pensamentos, ia lembrando da mãe. Ao passar pelo Mercado Público se recordou de quando ia à feira acompanhando a mãe, ajudando-lhe a carregar as compras. O prêmio era receber dinheiro para alugar uma bicicleta e sair pedalando pela estrada que levava ao açude do Boqueirão.  Entre as pessoas que observavam a procissão fúnebre das calçadas, algumas lhe apontavam, como a identificá-lo para um curioso que não lhe reconhecia. Outras continuavam a lhe prestar condolências.
No cemitério, o padre lhe perguntou se queria dizer algumas palavras de despedidas. Emudeceu e foi salvo pelo tio, que disse que não era preciso. Com cuidado, o caixão foi colocado no mesmo jazigo em que estava enterrado o pai. As mulheres rezavam baixinho. Depois, fez-se silêncio que somente foi cortado pela batida das pás dos pedreiros assentando os tijolos para fechar o túmulo.
Silenciosamente todos foram se retirando do cemitério e, então, pode voltar para casa. O tio e os primois foram embora. 
Maria, meu quarto está limpo?
Tá, disse a empregada, entregando-lhe a chave.
Rodou lentamente a chave, como se estivesse descobrindo o segredo de um cofre repleto de mistérios. Tudo estava limpo e até parecia que aquele cômodo era utilizada com freqüência. A mesma cama. A escrivania, arrumada e com o globo terrestre já amarelado pelo tempo. Alguns livros. E fotografias suas penduradas pelas paredes. Fotos da conclusão do primário, do ginásio, da primeira comunhão, da formatura. Numa delas, devia estar com doze anos e segurava a mão de sua mãe, na praia. Segurou-a por muito tempo, observando a beleza e a alegria daqueles dias. Uma outra com seu pai. Deitou-se com a fotografia da praia nas mãos e adormeceu.
Acordou tarde e começou a remexer nas coisas que estavam nas caixas. Flâmulas de seu time preferido. Revistas velhas. Um caderno de caligrafia. Cada caixa que abria lhe revelava fatos já esquecidos. Tudo estava tão bem cuidado e, pela primeira vez, as lágrimas rolaram em seus olhos, lembrando do zelo de sua mãe. Abriu a gaveta da escrivaninha e encontrou seu primeiro relógio, um canivete que usava como instrumento de mil utilidades e um álbum com fotografias de várias cidades do mundo. Rio, São Paulo, Londres, Lisboa, Atenas, Roma e outras. 
Foi tirado desse mundo de recordações por Maria que bateu na porta, perguntando se queira tomar chá e comer bolo. Estava com fome e o bolo de Maria não podia ser rejeitado. Foi comer na cozinha, enquanto conversava com a empregada. Assim ficaram até anoitecer e quando seu tio chegou lhe convidando para ir jantar em sua casa.
Na casa do tio, reviu outros parentes e a conversa, depois de girar em torno da mãe, do passado, voltou-se para o futuro. O que seria feito da herança. Fica tudo como está e Maria continuará em casa, administrando tudo. Depois de jantarem, ficaram conversando na varanda da casa do tio, até a hora de voltar para casa.
3. O retorno.
No momento em que se despedia, na sexta-feira de manhã, Maria lhe entregou uma carta lacrada e com seu nome sobrescrito. Era a letra perfeita de sua mãe. Maria, antes lhe advertiu.
D. Carmem disse que você somente deveria ler esta carta trinta dias depois da morte dela.
O que conteria aquela carta? 
Porque a imposição deste tempo? 
Assim voltou à João Pessoa e, na mesma noite, já estava em São Paulo. Cumpriria a condição imposta pela mãe e somente leria a carta na data marcada.
Trinta dias depois, estava em Lisboa, num hotel no centro da Cidade, se preparando para ler a carta. De posse de uma garrafa de vinho, resolveu abriu o envelope.
"Meu filho, esta é a última vez que lhe escrevo e a primeira e única que não lhe chamo de Meu Anjo. Sei que escolhestes uma vida de homem de negócios que lhe absorve inteiramente e, por isto, terminastes por se afastar de tua mãezinha. Durante todo este tempo, entretanto, sempre rezei pela sua saúde e paz. Não me destes a felicidade de uma visita inesperada. Não tive a oportunidade de brincar com um neto, pois resolvestes não perder tempo cuidando de um filho. Mas, todas os dias, até a semana passada arrumei teu quarto, na esperança de que aparecerias e, agora, já sentindo me faltar a vida, pediu a Maria que mantivesse tal cuidado. 
Sei que talvez nem tenhas paciência e nem tempo para leres esta cartinha, mas, quando eras um garotinho, interrompia meus afazeres para perguntar e perguntar e perguntar e perguntar. Todas as vezes, eu te respondia delicadamente e, agora, desejarias que estivesses mais presente em minha vida, como uma espécie de lenitivo para as saudades que sinto.
Quantas noites insones passei por conta de tuas febres? Numa delas, teu pai não estava em casa e caia uma chuva torrencial, com trovões e relâmpagos. Teu corpo ardia e tu deliravas. Rezei e te deixei no berço e sai pelas ruas, debaixo da chuva, dos trovões e relâmpagos até à casa do farmacêutico, à procura de um antitérmico para baixar tua febre. Na volta, as luzes se apagaram e cortei meu pé numa garrafa, mesmo assim, cheguei em casa, e cuidei de você.
Enquanto estudavas no primário, fui te levar e te buscar, todos os dias, no colégio e tinha orgulho daquele filho lindo e de um futuro promissor. Passamos algumas dificuldades financeiras, por conta dos negócios de teu pai, mesmo assim pagamos as despesas de tua faculdade e fizestes todos os cursos que acreditavas importantes.
Não me arrependo de nada disto e, sinceramente, faria tudo novamente. 
Agora, filho, queria apenas te abraçar e passar as mãos nos teus cabelos, te confortar muito mais que a mim mesma. Sabe filho, enquanto escrevo, é como se ouvisse, ao longe, uma canção triste de ninar e me lembro de você pequenino correndo dentro de casa. Não tenho medo e a morte até parece uma solução para nós. Seu pai se foi, você ganhou o mundo. Leia estas minhas palavras, por favor, sem remorsos, sem mágoas, apenas com respeito.
Escrevo esta carta na escrivaninha do teu quarto, olhando seus retratos. Todos os dias, entro aqui e arrumo as coisas, embora tenha de enfrentar as reclamações de Maria, sempre zelosa com minha saúde.
Determinei o prazo de trinta dias, porque não querias que, sob o domínio da emoção, dos primeiros dias do meu passamento, sentisses alguma espécie de culpa.
Adeus, de sua mãezinha".
Leu e releu a carta várias vezes. Mais tarde, ainda sem conseguir dormir, foi até à janela e viu uma estrela brilhando no céu e teve certeza de que seu verdadeiro Anjo tinha voltado para o azul infinito.

NOTÍCIAS DO PASSADO

Fiz a mim mesma a promessa de nunca lhe procurar. Não escrever e nem telefonar. Já se passaram mais de trinta anos, porém, agora, um motivo mais forte me obriga a isto. Explicarei adiante. Amanhã à noite, embarcarei num ônibus e irei procurá-lo. Pelo menos é o que penso, enquanto escrevo esta carta. A angustia que tenho sentido estes dias é capaz de me enlouquecer e, neste momento, apesar da certeza do que  estou escrevendo, a dúvida me assalta. Talvez amanhã, quando acordar exausta desta noite mal dormida, rasgue esta carta e desista da viagem. Não, amanhã estarei mais resoluta que agora. Tomarei o ônibus e darei um jeito de me avistar com....Como devo lhe tratar? Simplesmente por C? Não se preocupe, sei das responsabilidades de seu cargo. Não lhe trataria com tamanha intimidade, apesar do passado. Acaso consiga vencer meus temores e dúvidas e lhe entregue esta carta, imagino que, a princípio não reconhecerás a remetente. Ou será que lembrarás assim que me avistares? Sinceramente, não sei, pois pouco te conheço, embora tanta ligação tenha consigo. Evitarás abrir o envelope e rasgarás a carta ou sua curiosidade lhe impelirá à leitura? Quem é essa mulher? Será que terás dúvidas a respeito da minha identidade e do meu segredo? Ficarás desesperado? Pensarás em extorsão, dinheiro, escândalos? Dobrarás os joelhos, ante o peso nos ombros e o amargor na boca? Tuas mãos tremerão com a leveza dessas páginas? Se esta carta chegou às tuas mãos e continuas a ler, é porque, no mais íntimo de teu ser, despertou, no mínimo, a dúvida sobre o passado.
Estou cansada.
Mas não há outra saída, preciso de sua ajuda. Ou melhor, precisamos.
Certamente lembras de quando vieste para esta cidadezinha perdida nos confins do interior. Jovem, bonito e forte. Eu também. Jovem bonita e afoita. Minha mãe (que Deus a tenha), trabalhava na sua casa. Era a “empregada”. Cozinhava, arrumava e passava. A tardinha, quando voltava da escola, literalmente vestida como uma colegial. De saia azul-marinho e blusa branca, ia ter com minha mãe em sua casa que, àquela hora, já estava aviando os preparativos do jantar. Numa dessas tarde, estavas no quintal, trabalhando a terra com uma enxada. O suor escorria pelo seu rosto e a camisa branca estava colada na sua pele, realçando-lhe a beleza. Não consegui desviar os olhos e percebi que notaras, pela satisfação de teu semblante. No outro dia, a mesma coisa. No terceiro dia, minha mãe disse que teria de ir, rapidamente, à padaria, pois tinha esquecido de comprar o pão. Eu fiquei, pois ela mandou arrumar a roupa passada e levar para seu quarto. Peguei, cuidadosamente, suas roupas. Não me contive e procurei teu cheiro nas roupas que já estavam guardadas. Demorei pouco, mas o suficiente para que passasses pela porta do quarto rumo ao escritório e me avistares. Dias depois, lembras? Sim, alguns dias depois, às escondidas, entrei em seu quarto, me despi e cobri o corpo com o lençol lavado por minha mãe. Imaculadamente branco. O instinto masculino lhe guiou até meus braços. A volúpia e o prazer tomaram conta de nossos corpos. Fui embora e não sei que fins destes ao lençol. No outro dia ouvi mamãe procurando saber seu destino. Assim, se passaram cerca de quinze dias de encontros furtivos e repletos da maior intimidade. 
Tenho certeza que não esquecestes desses dias. 
Estás envergonhado? Era a juventude, se procuras alguma desculpa. Ainda não tinhas vinte e seis anos. Eu, menina, estava perto dos dezoito.
Eu sei que é difícil, mas preciso de forças para lhe contar o resto. Como escrevi acima, talvez amanhã rasgue está carta e jogue os pedacinhos na bacia sanitária. 
R., que morava na minha rua e não escondia sua paixão por mim, foi a salvação. Salvação, neste caso, por expressar algo divino, talvez não seja a palavra apropriada. Mesmo no desatino daqueles dias, tive receio do que o pior tinha acontecido e tomei uma atitude drástica. Na festa da padroeira. Bonita festa, não é verdade? Na festa, R. dançou comigo e, por astúcia, lhe induzi a ingerir garrafas e mais garrafas de cerveja, para depois me levar até o canto mais escuro da praça. Na agonia do desejo e no desalinho da embriagues, ele pensou que o troféu era dele. No outro dia, à noite, falou preocupado comigo e com minha reputação. Cai no choro. Chorei de verdade. Chorei com raiva do que havia acontecido entre nós dois. Chorei com raiva porque enganara R. Ele me pediu em casamento. Na mesma noite, impulsionado pelo amor que me devotava e pela sua dignidade, falou com minha mãe. Dona M quase que caiu de costas. Não esperava aquilo. E vocês namoram desde quando? E vocês vão viver de quê, meninos? Uma pergunta atrás da outra. A resposta curta e certeira capaz de derrubar todas as indagações. Eu “mexi” com ela D. M. Mamãe levou às mãos ao coração e caiu no sofá. A pressão dela subiu e teve uma crise de angina.
Destes detalhes não sabias, não é mesmo? Ainda estás a ler? Tuas mãos estão suando porque estás nervoso? Estás com raiva? Tens ódio? Eu sim, neste momento tenho tanto rancor que os dedos doem de tanta força que estou fazendo na caneta. Amanhã, talvez eu rasgue esta porcaria e deixe você, definitivamente, alheio a tudo o que aconteceu. Ou será que você sabe do que aconteceu? Sabe? Se estivesses em minha frente, agora, e eu permanecesse com esta coragem momentânea, lhe perguntaria: “Sabes, o que aconteceu, covarde?”.  Deixei de ir à sua casa. Dias depois, o casei com R. Da cerimônia lembras com certeza. A minha mãe se esmerou em aprontar a igreja. Minha barriga já dava sinal, mesmo assim casei de branco. R., foi a melhor pessoa que conheci na vida. Sim, ele morreu. Faz dois anos. Tivemos duas filhas. A primeira barriga deu um menino. Ninguém nunca soube de nada. Mamãe, quando estava no seu leito de morte, no ano passado, me chamou e perguntou de quem P., era filho. Não minta, minha filha. Eu disse a verdade e ela descansou em paz. Eu e P., precisamos de sua ajuda, por isto lhe escrevo. Agora, deves ter rasgado a carta em mil pedacinhos, ou então, queimou-a. 
A noite já vai alta, mesmo assim preciso continuar a escrever, pois se parar agora, amanhã não terei coragem para recomeçar. Estando ainda com a carta em suas mãos é sinal de que estás ansioso para saber o que desejo. Tens medo de extorsão? Escândalo? Paciência, lês o restante do que tenho para te dizer. Se você não destruiu esta carta até o presente momento é porque tens medo, repito. Espere um pouco, ainda. Preciso lhe dizer que quando R e eu nos casamos, o pai dele nos deu terra e gado para criar. Com muito esforço R. soube conduzir a propriedade, ser meu senhor e marido. E, principalmente, pai dos três filhos. Estás a amassar a carta? Não faças isso. Continue a leitura. R, apesar do pouco estudo, compreendeu que eu precisava continuar estudando e, todas as noites, eu vinha para o colégio e assim, mesmo entre uma barriga e outra, conseguir concluir o ginásio. Mas não ficou nisto, fiz Faculdade de Pedagogia e conseguir ser aprovada como professora do Estado. Um sorriso de sarcasmo talvez escape dos teus lábios agora. Professora? Professorinha? Afinal, todos aqui ficamos sabendo de sua ascensão e que fostes estudar até em Roma e obtivestes grau de “Doutor”. Quando os meninos cresceram viemos morar na Cidade. R., todos os dias, ao amanhecer do dia, rumava para a fazenda, cuidar da terra e dos animais. Assim prosperamos e conseguimos amealhar certo capital. Disto não me queixo. R., entretanto, de tanto lidar com vermífugos e carrapaticidas, contraiu um vírus fatal e morreu precocemente. 
Estás a se perguntar porque lhe digo estas coisas? Não desconfias da verdade? 
Bem, R. morreu, as duas meninas se casaram e foram morar em V.
P., também se casou, mas ficou aqui, tomando conta da fazenda, repetindo a vida de R. Ele tem dois meninos lindos. Estão os dois aqui em casa e daqui da sala ouço a respiração forte deles. Brincaram o dia todo, alheios à tristeza da casa.
Podes ser frio, canalha, covarde. Sim, penso estas coisas a seu respeito, se queres saber. Podes ser tudo isto, mas és inteligente e sabes aonde eu quero chegar. É. Isto mesmo. P. é seu filho!. Seu filho, seu filho da puta. Me desculpe, mas agora estou chorando de raiva. Ele está preso há vinte dias, acusado de receptação de cinco novilhas que comprou na feira do gado. Já contratei advogado e não teve jeito. Ele recorreu para o Tribunal e, como tenho visto na internet, és íntimo do desembargador que está com o processo dele. Uma palavra. Apenas uma palavra em favor de teu filho e de teus netos, é o motivo desta carta. Rogo-lhe por tudo que é de mais sagrado. Fazes isto e apagarei todas as mágoas que me causastes. Para teu consolo, juro de coração, que foi melhor você ter ido embora antes que P. nascesse. Eu fui feliz com R. durante toda nossa convivência. Por ele, pela dignidade póstuma dele é que eu também te afirmo, mesmo com raiva, que se não fizeres nada. Que, mesmo que não movas um dedo em favor de P., eu não falarei nada a ninguém. Este segredo somente eu, mamãe e você é que saberemos para sempre. Não por mim e por você, mas pela dignidade de R. Procuras o desembargador que eu te falei, tu sabes quem é ele, pois vocês estavam numa mesma solenidade na semana passada. 
Sim, quando assumistes o cargo de tanta distinção que ocupas agora, a cidade festejou e surgiu o boato de que virias até aqui, aonde principiarias teua dias de ministério.. Eu tinha certeza de que não virias. Muitas casas, principalmente, na zona rural, exibem seu retrato oficial. Aqui não tem. Na casa de P., por iniciativa exclusiva da mulher dele, influenciada pela mãe, está sorridente e sereno na moldura da sala.
Estás aliviado? Já normalizou a respiração? Tuas mãos pararam de tremer? Fazes o que quiseres desta carta. Era tudo o que tinha a dizer, para sempre. Mas fazes este gesto, para curares tua vergonha. Reconheces o teu pecado. A Bíblia diz em Salmos 51:2-4 “Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.”. Afasta-se, pois do pecado, eu te perdôo, se fizeres isto por seu filho.
O reverendíssimo bispo Dom C., sentou-se na cadeira de sua escrivania, fechou os olhos e aparentou dormir. Dois ou três minutos depois, se levantou, passou a mão pela cabeça totalmente calva e se dirigiu até o canto da sala onde ardia uma vela e queimou a carta.

O BARBEIRO DE AFOGADOS

Foi numa terça-feira, 10 de fevereiro de 1885. Faz muito tempo, leitores. Há cento e vinte cinco anos. Aconteceu no bairro dos Afogados, em Recife, mais exatamente na Praça da Paz, conhecida hoje como Largo da Paz, embora aquilo ali seja atualmente uma confusão de gente andando, entrando e saindo das lojas, transitando entre carros, caminhões e ônibus (parece que todas as linhas que se destinam à zona sul pobre do Recife e da região metropolitana passam por ali). Naquele tempo antigo, o logradouro em questão era, de fato, uma praça tranqüila e aprazível. Porém a paz que ali reinava foi quebrada na madrugada do dia acima anotado. Dormia o sono dos justos, um colega de Fígaro no andar de cima de sua casa, já que o debaixo era utilizado para o serviço de cortar cabelos, limpar rostos e aparar bigodes da freguesia. O animoso homem foi acordado com barulhos que em nada lembravam o som laborioso de suas tesouras e navalhas. Despertado do torpor gostoso do sono, armou-se de uma afiadíssima navalha que, evidentemente, manejava com indiscutível maestria e foi verificar o que acontecia. Três sócios do Olho Vivo estavam a limpar as gavetas de sua oficina, à procura de coisas que não lhes pertenciam. Os larápios, jovens imberbes, perderam a tramontana ao perceberem a disposição varonil da vítima e se safaram na maior carreira, esquecendo um litro de aguardente. Refeita do susto, a indigitada vítima, começou a repor as coisas no lugar quando se deparou com a bebida deixada pelos ladrões e lembrou de uma velho provérbio de sua terra: “se afoga mais gente em vinho do  que em água”.

ALEGRIAS E DESDITAS DE SETEMBRO

Hoje é dia 11 de setembro e, tendo vindo ao mundo em um mês de setembro, desde cedo me acostumei ao prazer de desfrutar as alegrias desta quadra do calendário. “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, quero ver brotar o perdão”, dizia a música que parecia retratar com fidelidade os dias radiosos do mês que prenunciava o verão no Nordeste: “Vamos abraçar o sol”, dizia uma propaganda da Prefeitura do Recife, alusiva aos primeiros dias do mês de sete da década de 80. Por essas circunstâncias, evidentemente que muito mais pela data de nascimento, o mês de setembro sempre me pareceu tempo de alegrias e de esperanças. Setembro sempre fora os domingos de sol na praia da Boa Viagem, em Recife, dias de jogar futebol ou ir à Ilha do Retiro assistir aos jogos do Sport, nas tardes daqueles domingos. Setembro era, também, as noites quentes, amainadas pela brisa suave que varria a Praça Maciel Pinheiro.  Pode acreditar, desocupado leitor, era asensação de alívio provocada por um simples banho frio. Era o caminhar sob o sol escaldante do Colégio Radier, na volta para casa.Os dias de setembro até pareciam maiores. Assim vivenciei incontáveis dias de setembro. Hoje, mais maduro, fico desolado com a permanência do frio e das chuvas durante o mês e, por acaso, dando uma olhadela numa página tipo “aconteceu há 50, 25, 15...05 anos atrás”, tomo consciência de que foi num dia destes, há 50 anos atrás que morreu JOSÉ LINS DO REGO, autor marcante na minha formação intelectual, a ponto de me sentir íntimo de alguns de seus personagens. Morreu moço, depois de uma agonia prolongada causada pela cirrose. Uma tristeza, que agora repercute em mim. Mas, não bastasse isso, foi também num dia de hoje, que uma figura quase mitológica para minha juventude, suicidou-se para não cair nas mãos sujas de seus algozes: ALLENDE, o Presidente do Chile que foi traído pelo exército e por seu comandante. Recordo-me de sua figura circunspecta, cobrindo a cabeça com um capacete e uma metralhadora na mão caminhando desoladamente entre os escombros  do palácio La Moneda, que estava sendo  bombardeado pelo Exército. Não precisava mais nenhuma tristeza para o mês de setembro revestir-se de cores sombrias, mesmo assim, minha maior lembrança destes dia é e, será sempre, do ataque às torres gêmeas de Nova Iorque (11/09). Um crime contra a civilização. Pior é que o ataque foi uma resposta às violências praticadas pelos Estados Unidos contra várias nações do mundo, nas últimas décadas, numa clara demonstração de incapacidade de solução pacífica dos conflitos da geopolítica mundial. Pensando em  todos esses fatos, é que me dei conta de que muita, mas muita desgraça mesmo, aconteceu em setembro (assim como em todos os dias do ano, eu sei). Não sou místico e sei que o tempo é um só, objetivo e não contém nenhuma subjetividade. O tempo não é melhor ou pior, per si, é apenas o tempo, algo que acontece sem qualquer interferência humana, exceto sua contagem. Mesmo não tendo nada de místico, sei que ultimamente os esotéricos e boa parte da população anda inclinada a creditar ao tempo certas mazelas e infortúnios vividos pela humanidade, em virtude do alinhamento (melhor seria dizer desalinhamento) deste ou daquele astro. A espécie humana, vencedora de todas as batalhas contra a natureza e os astros, infelizmente, parece que não se dá conta de que o tempo é senhor de si mesmo, porém, é despossuído de vontades e qualidades (e precisava? Poderiam perguntar). Mesmo despido de desejos, reconheço que o tempo é senhor da vida e não precisava mesmo destas qualidades, pois, afinal, é como o ditado diz: “Cavalo que voa não pede espora.”. Despeço-me deste setembro, afirmando ao eventual leitor desta crônica, desejando-lhe  bom dia ou boa noite, conforme seja a hora.



Augusto N. Sampaio Angelim
São Bento do Una/PE




Comentários:


É sempre uma satisfação ler os textos produzidos por quem tem a facilidade de contar histórias envolventes como faz Augusto Angelim. 

Os seus escritos envolvem o leitor e o coloca bem no meio do acontecimento, despertando assim os mesmos sentimentos e as emoções que lhes deram origem.

Parabéns a Augusto pela boa qualidade das suas produções e a Carlos pela oportunidade que nos oferece.

abraço

Alberto Vasconcelos.
Santo André da Borda do Campo/SP, 02 de abril de 2017