sábado, 21 de outubro de 2017

Aviso:

Prezados autores,
O prazo para recebimento dos textos que irão compor nosso oitavo livro da coleção Gandavos, cujo tema é “Assombração”, esgota-se no final do mês de outubro.  Sendo assim, aguardo suas histórias dentro do prazo previsto, pois entraremos na segunda fase do processo: diagramação.
É fundamental que me informem sobre o envio dos textos.
Grato pela gentileza e atenção.
Abraço Carlos A Lopes /Blog Gandavos

sábado, 14 de outubro de 2017

Desejo de mulher grávida - Autor: Dilermano Cardoso

Autor: Dilermando Cardoso

Aceite o palpite de um sujeito que apanhou mais da vida, que cachorro em procissão! Jamais pronuncie a pequena frase: - Desta água não beberei! Você acaba bebendo, e antes do que imagina. Que o diga meu amigo, Marcão. Em outros tempos quando sábado à tarde, reunida, a turma curtia conversa de boteco, ele que casou ‘Galo de São Roque’ - como dizia minha avó, passados os trinta -, para todo assunto, durão, tirava onda: “Lá em casa não vai ter disto, não!” Até se encantar, e apaixonado casar com a Adriana. Romântica leitora, imagine uma destas mocinhas aparentemente frágeis, meigas, que quando conversam a gente tem que pedir ao beija-flor que não bata asas, para lhe ouvir a voz... Foi exatamente com alguém assim que o Marcão da Lotérica tirou a sorte grande!
Se não é fácil para nós homens um convívio harmonioso com namoradas e esposas, naqueles cinco fatídicos dias para elas, e de tabela para seus companheiros - quando engravidam o bicho pega pra valer! Neste aspecto o folclore é variado e somos chantageados, pois se lhes não atendemos aos caprichos o neném nasce com a boca torta, zarolho, orelhas de abano...

De volta ao meu casal de amigos, eles estão grávidos, como se diz hoje por força de modernismos. Pois não é que uma noite destas, ao sonhar que chupava jabuticaba a Adriana acordou com tal desejo, obrigando o pobre Marcão em plena madrugada telefonar para parentes e amigos, pedindo a fruta? Embora no meio do ano, por aqui, jabuticaba a gente só veja em fotografia, sonho, e desejo de grávida? Ao lembrar-se que possuo um sitiozinho com meia dúzia de jabuticabeiras no quintal, ele veio bater à minha porta pedindo “até pelo amor de Deus”, que lhe arranjasse nem que fosse uma mãozada de fruta, ou ele, despejado da cama de casal e temporariamente no sofá da sala, dividiria a casinha do cachorro, com o dito cujo!

A esperança é a última que morre... e mesmo assim morre! No domingo, um filho meu que mora em Paranavaí ligou (tarifa telefônica aos finais de semana é mais barata! Tio Patinhas!), me perguntando: - Pai, adivinha o que é que eu estou fazendo? - Ora, conversando comigo ao telefone. Respondi dando uma de bonzão. - Deixa a ficha cair, sô! Prosseguiu ele. Estou chupando jabuticabas! E me explicou o ‘milagre’. É que no Sul as estações do ano são ligeiramente antecipadas, e mesmo não sendo Outubro, mês oficial de colheita da fruta, por lá ela já pode ser encontrada. Na mesma hora pedi que adquirisse uma caixinha de isopor, e enchendo o quanto cabia, despachasse via Sedex! Animado, o Marcão só não contava com a greve nos Correios, quando elas chegaram...

Como desejo de mulher grávida não passa nem a poder de reza, meu amigo pôs anúncio no jornal, na rádio, se torturando que o herdeiro pagaria por sua incompetência, quando o João Tavares lhe socorreu. Aguando muito, um pé na sua casa dera frutas temporãs. Chegou, enfim, a hora que a Adriana realizaria seu desejo de grávida; se comparado ao de outras, era até razoável. Sei de uma futura-mamãe a quem coisa nenhuma servia, que não fosse o pobre do marido comer cacos de telha cozidos no feijão. Ele, não ela!... Caixa de papelão embaixo do braço lá se foi o amigo, em busca do seu resgate!

Com o país quase no primeiro-mundo, temos novidades todo dia, tal qual a estória de marido assumir gravidez, ao lado da esposa. Radiante de felicidade o Marcão embarcou na onda junto com a Adriana, devorando, ele mais do que ela, as encantadas jabuticabas. Seu entusiasmo foi tanto que não perdoou caldo, casca, caroço... Ontem, de semblante triste, preocupado, me confidenciou: se antes seu problema fora encontrar as frutas; agora era livrar-se delas!

Autor: Dilermando Cardoso - Bom Despacho/MG
Página do autor: http://recantodasletras.com.br/autor.php?id=73941
Publicação autorizada através de e-mail de 12/10/2011

domingo, 3 de setembro de 2017

Escolha a capa do Livro: Gandavos - Histórias de Assombração

Ilustrar a capa de um livro de vários autores, talvez seja um grande desafio, pois há a necessidade de soltar a imaginação, ir além, para que a imagem represente da melhor maneira possível cada uma das histórias presentes na obra e preencha as expectativas. Sendo assim, o amigo Suzo Bianco tem feito a sua parte de maneira impecável, como ilustrador e também participando como autor.

Solicito aos autores e leitores dos livros “Gandavos”, que apreciem as ilustrações abaixo e escolham nas duas categorias:

O tema da próxima coletânea: “Histórias de Assombração. ” O voto pode ser registrado como comentário no face ou nos comentários da página do próprio Blog Gandavos. 

Exemplo do voto: Ilustração n 1; desenho letra C.


 1- Ilustração para capa: Escolha uma entre as 6 ilustrações. Qual delas seria a capa ideal do livro (escolha citando o número da ilustração);


 2- Desenhos para parte interna do livro: Escolha um desenho. Qual desenho (escolher citando a letra), você entende ser o ideal para compor o miolo do livro.


ILUSTRAÇÕES PARA COMPOR A CAPA DO LIVRO

Ilustração 1



Ilustração 2




Ilustração 3


Ilustração 4



Ilustração 5



Ilustração 6



DESENHOS PARA O MIOLO DO LIVRO


Desenho A



Desenho B





Desenho C






Desenho D


Desenho E


Desenho F


Desenho G


Desenho H



Desenho I


Desenho J


Desenho K




Desenho L


Desenho M


Desenho N


Desenho O













sábado, 19 de agosto de 2017

Novo livro do escritor Geraldo Rodrigues da Costa (o nosso Geraldinho do Engenho)

Mais uma vez quero agradecer ao meu amigo Geraldinho do Engenho, por mais um livro recebido e dedicado a minha pessoa. Falo do livro CEM ANOS DA ESCOLA MARIA GUERRA, onde o meu amigo escreve com propriedade sobre o assunto, sendo ele o próprio protagonista e testemunha do referido estabelecimento de ensino. O livro é prefaciado pelo também escritor Tadeu Araújo, que diz: ¨Geraldo Rodrigues da Costa, o Geraldinho do Engenho, membro da Academia Bom Despachense de Letras, é hoje o mais destacado e produtivo escritor de Bom Despacho/MG, sendo autor de mais de uma dezena de livros de crônicas, contos, romances e pesquisas históricas.
Amigo Geraldo, espero sempre contar com o seu apoio e amizade nas próximas empreitadas. Aqui do meu Pernambuco, receba e transmita o meu abraço amigo a todos os escritores mineiros, juntamente com meu agradecimento renovado.

Atenciosamente


Carlos A. Lopes.
Blog Gandavos








terça-feira, 15 de agosto de 2017

Carlos A. Lopes e cinco bom-despachenses da ABDL

Escritor: Tadeu de Araújo Teixeira





Fonte: Jornal de Negócios
Coluna de TADEU DE ARAUJO TEIXEIRA



A respeito de Carlos A. Lopes já escrevi: sob o sugestivo titulo “Gandavos”, o editor pernambucano Carlos A. Lopes instituiu “o ovo de Colombo” da literatura brasileira em favor dos iniciantes da arte de escrever. Ante a nobreza espanhola, que dizia ter sido fácil sua façanha, o descobridor das Américas pegou de um ovo e desafiou os presentes a coloca-lo em pé, na mesa. Ninguém, apesar de todas as tentativas, conseguiu. Colombo então quebrou uma das extremidades do ovo e pô-lo em pé. Então disseram: “Assim é fácil!”. Colombo observou: “Mas ninguém antes de mim o conseguiu”.
Como Colombo, Carlos A. Lopes apresentou uma solução simples para a sua grande iniciativa. Ele criou a série brasileira “Gandavos”, em que seleciona pela internet trabalhos de contistas e cronistas do Brasil inteiro e publica em belíssimas coletâneas. O sucesso da obra tem sido garantido pela serenidade do trabalho e pelo cuidado de Carlos A. Lopes como editor, garimpando talentos literários de todos os rincões do solo brasileiro que participam desta moderna e inovadora forma de publicar livros em nosso país.
Estamos agora na sétima edição “Gandavos”, publicada em uma editora pernambucana do Recife com participação de 26 escritores, entre eles, cinco bom-despachenses de nossa Academia de Letras. Exceto a Denise, cada um com dois textos:
Geraldo Rodrigues da Silva “O compadre da morte” e “Um homem com a cabeça do capeta”.
Denise Coimbra – “O dia que não veio”.
João Batista Silva – “A botija de ouro” e “ Boa viagem”.
Tadeu de Araujo Teixeira – “Conto de natal bom-despachenses” e “Era uma vez nos sertões de bom-despacho”.
Ronam Tales Oliveira – “Cada um tem a idade de seu coração” e “Uma receita caseira”.
Fonte: Jornal de Negócios
Coluna de TADEU DE ARAUJO TEIXEIRA
Ano XXIX n 1.472 – Fundado em 12/05/1989, edição 23 29/07/2017
Bom Despacho/MG



Mais uma vez quero externar os meus sinceros agradecimentos pela reportagem inserida na coluna do escritor Tadeu de Araújo Teixeira no Jornal de Negócios da Cidade de Bom Despacho.
Suas palavras de incentivo, além de comoventes, faz homenagem numa linguagem que mostra a proximidade de seu autor com as pessoas homenageadas, traduzida em palavras de carinho, respeito com seus conterrâneos e também com todos os outros autores participantes das coletâneas Gandavos.
Espero poder contar sempre com o apoio e talento de cada um de vocês nas próximas empreitadas. Assim sendo, receba e transmita o meu abraço amigo a todos, juntamente com meu agradecimento renovado,
Atenciosamente

Carlos Lopes.








terça-feira, 8 de agosto de 2017

O herói que não retorna - Autor: João Batista de Lima

Gerôncio era o coveiro de Tabocal. Rezava todo dia para que alguém morresse. Mas, quando muito, havia um sepultamento por ano. Era às vezes um velhinho que morria de velho ou um anjinho que morria de fome. Preferível ser um velho, daqueles com dente de ouro ou aliança de casamento esquecida pela família na inutilidade da mão esquerda.
Para evitar de desenterrar defunto pobre, Gerôncio conhecia de cor e salteado os portadores de dente de ouro da região. Aí era só ir, no dia do enterro, alta noite, com a lanterna, o martelo e a pá, retirar a terra frouxa da cova e desenterrar o morto. Depois, era só quebrar o dente com o martelo e levar o ouro para casa. Ele não esquece a morte do Pai do coronel Nicodemos. Foram cinco dentes de ouro dezoito. Finalmente comprou seu casebre onde mora até hoje, lá na ponta da rua.
Mas aí morreu a filha do fazendeiro Antônio Moreno. A menina tomava banho na beira do rio às oito da manhã quando caiu durinha. Não tornou mais. Trouxeram o corpo para casa e velaram até às cinco da tarde, quando se procedeu o enterro com todos os rituais cristãos. O repinique o dia inteiro, no sino da capela, parecia anunciar enterro de anjo rico. As flores eram muitas. No campo santo foi aberto o caixão para que o irmão mais velho, chegado de longe na última hora, visse o corpo da irmã. Estava linda, com todos seus anéis nos dedos e colares no pescoço.
Gerôncio não esperou pela meia-noite, veio logo às sete e escavou a sepultura da menina. Mal abriu a tampa do caixão, a finada mexeu-se e foi logo limpando a terra dos olhos. O coveiro, assombrado, embrenhou-se na mata em disparada e nunca mais foi visto por ali. Quanto à moça, que voltou para casa assombrando a cidadezinha, foi dada como doente de catalepsia, escapada por milagre. Hoje está lá contando a história para quem quiser ouvir e ainda guarda a fazenda Gitirana para dar de presente ao salvador de sua vida. Só que o delegado tem uma cela pronta pra quando Gerôncio voltar.
 Autor: João Batista de Lima - Fortaleza/CE
 Publicação autorizada através de e-mail de 28/06/2012

O insepulto - Autor: João Batista de Lima

Terêncio Espinheira passava em frente à capela de São Raimundo quando sentiu travar o coração. Tombou, arrastou-se e morreu babando no último banco da igreja. O sacristão comunicou ao padre Otávio e foi avisar à família: duas filhas que com Espinheira moravam lá pras bandas do motor do arroz. As duas receberam com alegria, a notícia, e não foram à casa santa, ver o corpo do pai. Pe. Otávio pediu um caixão ao Major Apolônio que, como prefeito, enterrava os mortos da cidadezinha por conta dos dinheiros municipais. Mas não havia caixão para Espinheira, destratador de políticos e destruidor do patrimônio público. A saída foi o velho sacerdote providenciar uma rede para conduzir o morto, e o fez constrangido porque muitas vezes, Terêncio, embriagado, invadira a igreja durante a santa missa, montado no seu cavalo cardão.

As filhas não compareceram pois festejavam a morte do pai com muitas rodadas de cerveja quente num reservado do Bar da Bia. Nunca mais apanhariam no meio da rua, do pai feito fera, apesar das suas idades, com mais de trinta anos cada uma. À tarde Pe. Otávio utilizou o serviço de som da igreja e pediu ajuda aos cidadãos de Sipaúbas para o transporte do defunto até o cemitério, ninguém apareceu. Nem adiantava, pois Gervásio, o coveiro, já se havia negado a cavar a cova, depois de tanto sofrer nas mãos de Espinheira. O vigário teve a idéia de pagar com o pouco dinheiro da coleta da missa a um carroceiro para carregar o morto. O carroceiro veio mas o burro puxador da carroça assombrou-se ao ver o morto e disparou de rua afora de carroça seca. Espinheira anoiteceu insepulto.

Já exalando mau cheiro, era alta noite, quando Pe. Otávio teve a idéia de colocar o cadáver num carro de mão e empurrá-lo até os fundos da igreja onde um riacho caudaloso transbordava em cheias de abril. Jogou o corpo na correnteza e veio desinfetar a capela.

No dia seguinte por mais de uma légua de riacho abaixo apareceram centenas de piranhas mortas, e nos invernos dos anos seguintes nunca mais correu água no riacho das Guaribas.


Autor: João Batista de Lima - Fortaleza/CE

Publicação autorizada através de e-mail de 26/02/2012

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Um Escritor e Tanto!

Meu sincero agradecimento ao amigo e colaborador do Blog Gandavos, Augusto Sampaio Angelim. Foi uma grande satisfação recebê-lo no meu ambiente de trabalho, quando falamos a vontade do nosso livro atual: Gandavos – A alegria de Contar. Angelim demonstrou satisfação pela qualidade do livro e levou uma quantidade de exemplares considerável para o seu município, São Bento do Una, localizado no fértil Vale do Ipojuca, aqui mesmo em PE. A presença do escritor foi essencial e fundamental, pois colegas no meu trabalhos tiveram a oportunidade de conhecer o escritor que se habituaram a ler, ao longo dos últimos sete anos, quando adquirem livros Gandavos,  onde Augusto Sampaio Angelim publica textos, vindo a ser um dos escritores fundadores da Coleção. Que venha o livro de 2018, Gandavos - Histórias de Assombração.
Carlos A Lopes
Blog Gandavos

domingo, 23 de julho de 2017

O Caminho de Machu Picchu

Autor: Willes S Geaquinto

Lá pras bandas do Sobradinho em São Thomé das Letras nas Minas Gerais, o povo é muito cordato, bem humorado, acostumados à contação de causos e acontecidos mesmo que inusitados. Por isso é que dizem que existe história e estória, causos e casos. E quando alguém conta um causo ninguém fica perguntando se é vero ou não, um causo é um causo e pronto!
Verdade ou invenção, o caso é que quem me contou esse acontecido foi um caboclo muito do sabido conhecido por compadre Irineu. Alias, é bom saber que no lugarejo é comum chamar os homens de compadre e as mulheres de comadre, já que todos ali se conhecem de muito tempo, menos compadre Irineu que ninguém sabe de onde veio ou quando ali chegou.
À boca pequena, comentam alguns que ele é meio como um ET só que ninguém sabe em que nave ele veio, já que é mais antigo que o ET de Varginha. É, digamos assim, um personagem envolto em mistério, que parece já ter andado pra todo o cafundó desse mundo de meu Deus. Ouvindo das suas andanças, acho até que já teve lá pros lados de Atenas, já que filosofa como poucos. Pra ter uma ideia do estou falando, tempo desses a caipirada da vizinhança passou horas a fio o ouvindo contar duma tal de Odisseia, onde um caboclo chamado Odisseu viveu mil e uma aventuras até voltar pra casa depois de 10 anos, onde a mulher dele Penélope tinha ficado um tempão esperando a sua volta e resistindo as cantadas da homarada que até brigavam de porrete por ela.
Mas deixemos de trelelê pra ir direto ao causo. Tudo começou quando, numa noite de lua cheia no mês junho de 2001, compadre Irineu acometido de insônia resolveu fazer uma caminhada pra desanuviar a cabeça. Sabe-se lá como, quando ele percebeu já tinha andado tanto que deu de cara com a Gruta do Carimbado, um lugar cheio de mistérios e lendas, que só quem já foi a São Thomé sabe dos causo. Dizem até que o caminho da gruta leva até a antiga cidade Inca de Machu Picchu que fica no Peru.  Surpreso com o lugar onde fora parar, mas, seguindo uma força misteriosa que o empurrava para dentro da gruta, Irineu foi se embrenhando cada vez mais naquele buraco sem fim.
Suando que nem cavalo no arado, foi andando, segurando o chapéu na cabeça cada vez que tinha que desviar da ponta duns cristais que escorregavam do teto da gruta. Não bastasse isso, toda hora tinha que espantar os morcegos que passavam voando rente à sua cabeça. Seguindo cada vez mais para o interior da gruta, levado pela tal força misteriosa foi se embrenhando pelos vãos que iam surgindo e seguindo adiante. E o calor, que era infernal, só foi aumentando até que quando sentiu chegar uma onda de vertigem percebeu que estava levitando em vez de caminhar. E foi assim, como se mergulhasse numa nuvem muito poderosa que o carregava, que quando deu por si estava na boca de saída da gruta, “onde o sol brilhava um brilho de dar dor nos olhos”.
Ali todo sujo de terra e saibro, cansado, com muita sede e ainda atordoado depois daquela que parecera uma estranha e interminável viagem, permaneceu deitado por um tempo na grama. Ouviu o alarido dos pássaros e ao longe uma espécie de gritaria. Pensou: “Será que cheguei a Macchu-Pitcchu? Só pode ser. Que outro lugar eu chegaria vindo por essa gruta desde São Thomé? Afinal é isso que as pessoas de lá acreditam”. E entremeio a essas divagações, tentou se levantar, mas a cabeça ainda girava. Ouviu o som parecido com um borbulhar de água e o seguiu arrastando-se até encontrar um pequeno córrego onde mergulhou de roupa e tudo. Sentiu-se como se tivesse encontrado um oásis em pleno deserto...
Saiu da água e deitou na margem do córrego. Ainda estava confuso. Adormeceu pensando em organizar uma expedição pelo lugar desconhecido. Passado um tempo, acordou com uma forte sacudida na cabeça e ao seu redor estavam meia dúzia de homens vestidos como se tivessem saído de algum livro de história, com seus chapéus de couro, lenços coloridos e muitas bordaduras nas vestes. Aquele que parecia ser o chefe do bando dos cangaceiros, perguntou: “de donde vem o cabra com essas roupas esquisitas?” Irineu, já refeito do susto, ainda pensou: “eu de roupa esquisita?”. “Vamo lá, abestado, responde o chefe”, falou um que parecia mais atazanado com aquele estranho ali naquela cercania. Compadre Irineu levantou, colocou o chapéu, e respondeu: “Eu sou de São Thomé das Letras”. “São Tomé do que? isso tá cheirando espião chefe. Vamo leva pro acampamento, lá o Capitão decide o que fazer com esse abestado; quem sabe nós esfola o danado pra conta tudo que sabe” O chefe olhou pro compadre Irineu, passou o punhal na mão como que estivesse afiando e deu a ordem: “vamo leva o cabra”.
Compadre Irineu tava abestalhado com o que estava acontecendo, já ouvira falar de cangaceiros, mas isso fazia parte da história. Não podia estar acontecendo de verdade. Pelo caminho foi observando ao redor, para ver se desvendava o lugar onde estava. Parecia tal qual uma daquelas cidades fantasmas que se via nos antigos filmes de cowboys. Um lugarejo em ruinas, uma igrejinha caindo aos pedaços, algumas casas abandonadas. Ao longe, onde divisou o que seria uma rodovia, dava para ver até os restos de um posto de gasolina. Nenhuma viva alma no lugar, só aqueles que o conduziam que iam conversando numa linguagem difícil de entender. Única coisa que entendeu é que eles estavam ali de passagem e que o lugar aonde viera parar chamava-se Brejo do Encantado.
Passado algum tempo de caminhada quando pensou em perguntar se o tal acampamento estava longe, viu que chegaram ao que parecia ser uma torre feita de tijolos e entraram por um vão onde tudo ficou escuro. Enquanto era puxado por um dos cangaceiros que lhe servia de guia, tropeçou no degrau de uma escada que parecia ir levando para baixo. O tempo ia passando enquanto pensava: “isso só pode ser um pesadelo, onde já se viu encontrar um bando de cangaceiros em pleno terceiro milênio, será que tinha alguma coisa naquela água que bebi? Não pode ser, devo estar delirando, deve ter sido o sol na cabeça...
Saiu dos pensamentos quando uma claridade um tanto difusa lhe veio aos olhos, percebeu que estavam ao ar livre e lá estava o acampamento. Era noite de lua cheia. Ouviu o som de uma sanfona e viu homens e mulheres que dançavam em volta de uma fogueira e cantavam uma cantoria que mais parecia um xaxado ou baião. Sentado próximo da fogueira viu aquele que parecia ser o Capitão, era ele mesmo o Lampião, o Capitão Virgulino Ferreira, ali igualzinho nas fotos que já havia visto, “vivinho da silva” como diz o pessoal lá do Sobradinho.
Foi empurrado para junto da fogueira e o chefe do bando que o trouxera falou: “Capitão, encontramo esse cabra com esse chapéu almofadinha dormindo lá na beira do Córrego das Almas. Como disse o Severino, tá parecendo que é um espião vindo não se sabe donde”. O Capitão Virgulino levantou, olhou olho no olho no Compadre Irineu, como que quisesse adivinhar de onde tinha saído aquele cabra ali na sua frente... Por sua vez Irineu olhava para cangaceiro à sua frente como se estivesse vendo uma assombração, mas, ao mesmo tempo, parecia reconhecê-lo, mesmo naqueles trajes disparatados. Enquanto se perguntava de onde conhecia o dito cujo, Lampião estendeu-lhe a mão e disse: “Só pode ser você Irineu, cabra da peste, há quanto tempo? O que faz aqui pras bandas de Pernambuco?”. Irineu estava embasbacado com a descoberta: “Como é que viera parar em Pernambuco, se ainda ontem estava lá em São Thomé? e como é que o Lampião sabia o seu nome? devo estar ficando louco, ou ter tomado algum chá de cogumelo sem saber”.
Enquanto conjecturava sobre como fora parar no Brejo do Encantado, àquele lugar único e parado no tempo, conhecido pelas histórias que corriam mundo afora, na voz dos cantadores de cordel, repentistas e contadores de causos, compadre Irineu ouviu o som do que pareciam tiros e um alarido sem fim. Num instante viu tudo sumir à frente dos seus olhos, Lampião, cangaceiros, fogueira, cavalos, tudo. Quando novamente deu por si estava sentado numa pedra na entrada da Gruta do Carimbado em São Thomé, rodeado por um grupo de turistas que lhe perguntavam se era verdade que aquela gruta levava à Machu Picchu. Ao que ele respondeu: “Se leva a Machu Picchu eu não sei, mas a Pernambuco isso lá é verdade”. Dito isso, pegou seu chapéu de cangaceiro e saiu andando rumo a Sobradinho.

Autor: Willes S Geaquinto - Varginha/MG

Página do autor:
http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=30362

sábado, 22 de julho de 2017

Ode à América do Sul - Autor: Jorge Tufic

Que o boné de Pablo Neruda
e a lágrima fluvial de Santos Chocano,
e o grito de Allende
(enquanto os fuzis do terror e do medo
repetiam o massacre da liberdade),
venham flocar este chão consagrado
por tantos modos e cantos diferentes,
oh América do Sul.
Os cravos de tuas noites mergulham
na plumagem das Cordilheiras,
e os ramos da paz que te ilumina
e o relincho das pedras que desenham
bisontes e tempestades,
pousam como fósseis alados
em tuas crinas de esmeralda.
De Santa Marta à Terra do Fogo
tuas espigas rebentam colares de jade
e cintilam nas máscaras de ouro
roubadas aos templos do sol
e às pirâmides da lua.
E ao sopro nativo da flauta
exilada entre colméias,
um tesouro de vasos, borboletas
e animais de uma fauna imaginária,
sacode o pó da argila e do granito
em suaves movimentos.
Atlantes e Laoccontes
vigiam tuas muralhas indormidas,
mas deixam livres as fronteiras do sonho.
                                             
II

Com a espada de Bolívar
e a prosa rubra e latejante de Sarmiento;
com as vestes de Antonio Conselheiro
e a nervura semântica de Euclides da Cunha;
com a suavidade de um verso de Lugones
e os contos gauchescos de Simões Lopes Neto;
com os arcos e flechas dos incas e aimarás
e a clepsidra das ruínas de Zaculén;
com as cinzas do uirapuru do Amazonas
e os depurados muirakitãs do Espelho da Lua,
eu te louvo, América do Sul,
agora que revejo tua cerâmica do Marajó,
tuas matas e teus rios,
tuas cidades e tuas pontes,
teus barcos possantes, tuas fábricas
e tuas manchetes; e ouço a voz
dos teus regatos, as canções de teus povos
e vejo, deslumbrado,
que uma ciranda feita de arrulhos e girassóis
te enlaça, constantemente,
do Atlântico semeado de praias
ao Pacífico de pássaros
e fontes azuladas.

III

Quantos martírios e sucessos
pontilham tuas manchas ocres
em cada solo ferido ou conquistado!
Lembras-te, por acaso, dos gestos em forma de dança
de teus ancestrais caribenhos?
Do milho cor de cereja dos Aruakes?
Dos artefatos barrancoides dos Walpés?
Dos dialetos tecidos com a envira do silêncio
e a toada dos riachos verdejando os caminhos?
Da antigüidade seletiva dos tucanos,
muras e cambebas?
Lembras-te, por acaso,
da bola de sernambi que estes últimos
te deram, ainda em pleno século XVII,
e do jogo que eles jogavam
num campo sem traves e sem torcidas?

Numa rede de dormir
os brancos degustam  teu massacre
mas olvidam o teu legado,
esse imenso legado que sucedera ao jugo,
impiedoso e cruel,
daqueles teus primeiros habitantes,
plantadores de sombras,
raízes da terra.
Guitarras, malária, devastação e confisco,
eles trouxeram de tudo.
Mas tomam caxiri no delicado suporte
de uma cuia rústica ou pitinga;
alimentam-se de farinha de mandioca
e têm muito de si no caboclo que se espreguiça
para não ir ao trabalho;
e têm muito de si na mestiça que se vende
por las calles y los pueblos;
e têm muito de si, também,
nessa fusão de sons e melodias
que fizeram do nheengatu das águas pretas
a língua franca dos mitos
e do lendário esquecido.
                        
IV

Imitas um coração populoso e tranqüilo.
Tens a forma de harpa ou alaúde
com doze cordas festivas.
E ainda podes ser vista como um rosto enigmático
voltado para si mesmo.
Desigualdades e semelhanças predominam
assim, de um lado e de outro,
entre vales, planícies e altiplanos.
Em qualquer Atlas se lê, por exemplo,
que há fome na Bolívia,
que há tango, festas e greves na Argentina,
que o Chile exporta minérios e vinhos,
que o Brasil é o maior destes países,
que o Equador tem reservas de prata e ouro,
que o Peru não se expande,
que o Paraguai continua bloqueado
sem saídas para o mar.
Em teu próprio nome, oh América do Sul,
e em nome da história que te deram,
hás de entender, no entanto,
que ninguém pode ser feliz
quando está cercado pela miséria,
seja a miséria do egoísmo,
seja a miséria das guerras;
que ninguém pode ter paz
quando há golpes e matanças
do outro lado de suas fronteiras.
Hás de saber entrementes que,
por cima da fala dos caudilhos,
paira a linguagem fluida ou tormentosa
daqueles que te celebram;
inclusive daqueles que apodrecem em tuas mansardas
ou se debruçam nas torres de vidro;
ou daqueles, ainda, que se confundem 
com os traços das telas que azedam em teus sótãos
e em tuas águas-furtadas.
Estes homens de letras ou picassos anônimos
entregues à corrosão que desfigura
e ao abandono que mata.

V

Quantos equívocos te cercam
antes e após a descoberta, por ti,
do torno do oleiro, da roda e do arado?
Que simpáticas figuras transoceânicas
poderiam ter-te doado,
oh América do Sul,
carrinhos votivos de cerâmica,
travesseiros de barro
e selos em forma de bujarronas?
E as tuas escritas?
Terão sido trazidas por quem
- fenícios, gregos, romanos –
se colocam na origem de teus índios?
Fascina acreditar, em vez disso,
que provenhas, isto sim,
de alguma centelha que se fez Avalon,
Atlântida ou Atlas,
segundo escrevem as aves migratórias
quando te buscam nos pélagos,
e adivinham teus ecos profundos
nas cavidades do espanto.

VI

A cidade perdida dos incas
são tantas cidades quanto as portadas
que levam à presença do sol;
e dali ao rio de espelhos e cardumes intactos,
e dali às cavernas talhadas a ouro,
e dali aos túmulos daqueles que sucumbiram
ao peso dos colossos que protegem a montanha
das patas ecoantes de Espanha.

Em cada milímetro quadrado
das alturas que saltaram de mares incalculáveis,
Amarus confundem a inteligência
dos homens de Pizarro.
Labirintos ficaram, boiunas coleiam
na ouriversaria das auroras.
E ninguém poderá decifrá-las.

Para Iucay se evadira Manco.
E uma das primeiras guerrilhas da história
consegue fazer das trilhas enganosas
o desgastante baralho das Cordilheiras.
A imagem de raios solares
com mais de cem toneladas,
em que leito de Vilcabamba
terá se consumido em miríades de estrelas?

Em Cajamarca, enfim, morrera Atahualpa.
Em Viticos, chega a vez de Manco Inca.
Sayri Tupã e Tito Cusi também foram imolados.
Tupac Amaru expira em Cuzco
levando no olhar a música do império.
                                        
VII

Grande é o solar do tempo nesta aldeia
onde um galope nunca se interrompe.
Este chão de Pizarro em Guamachucho
de lavas contraídas pelo medo.
Escarpas traçam rápidas figuras,
pousam brilhos de séculos vencidos.
E um velho terremoto, agora fóssil,
arroja um tigre do alto de um penedo.
A noite é um vinho branco. Mas o sangue
que transborda do lago, não descansa:
quer vingar a cobiça, o fogo e a traição,
estes três assassinos de Atahualpa,
daquele em cujo peito o sol dos incas
despedaça o seu último clarão.

VIII

Nos porões soterrados debaixo 
das cidades, deuses animais de terracota
aparecem ao lado da serpente,
e ao lado da serpente
paradigmas antropomórficos.
Foi assim que teus nativos,
pescadores de Valdívia,
dominaram os ornatos circulares:
perfis abstratos,
bizarras entidades híbridas
sobressaem nos relevos celestes;
e ao lado destes, ardósias cônicas,
traçados olmecas.

Um portal contendo símbolos xamãs
e sarcófagos dourados,
torna visível o silêncio dos mortos  
na estática de teus músculos altivos
prateados de neve.

A Quinta Era, afirmam ali,
pertence a Tonatiú, o deus Sol,
habitante dos leques das palmeiras;
e há de ser confirmada por graves,
extensos abalos.
Pumas alertam para as ameaças que sobem
das Ilhas Arqueanas.

IX      (a lição dos rios)

Tentando lavar este sangue
inutilmente derramado,
de cinco mil metros de altura despenca o Vilcanota;
ele vai mudando de nomes
até unir-se às águas revoltas
do lendário Urubamba.
Este, por sua vez, se socorre do Apurimac,
quando formam, juntos,
o Rio Amazonas.

Muito tarde, porém.
Um grande exemplo despercebido.

Esses rumores até hoje incessantes,
este chamado das vertentes comuns,
somente os poetas o sabem distinguir
na diversidade que amalgama
e na dor que ensina.

X     (balada enquanto seja)

Ao contrário de outras águas,
nosso rio é movimento,
serpe andina em debandada
vai ele em busca do mar;
desde que nasce de um fio
por ondas rola barrento,
vem à tona e vira vento,
é estirão que sai do nada.

Rio de lendas ficou,
matreiro, curvo e norato,
seu berço de concha e lua,
com três nomes de batismo,
três caminhos sete bocas
por onde bebe a tormenta;
mas tem mágicas, puçangas,
e a cada estória, se aumenta.

Pântano cósmico, diz-se
por quem o lê pelo avesso,
por quem ouve a queixa inata,
por quem adentra seus peixes,
por quem taboca faz beiço
e sopra o fogo da enchente,
pois este rio é começo
da febre que torra a gente.

Ao contrário de outras águas,
o Amazonas, como um todo,
pode tornar a seu fio
como náufrago do lodo.

XI     (Thiago de Mello)

Por caminhos de San Tiago,
volta o poeta das angras
a quem doara o seu canto
pela causa dos humildes.

Levara o corpo sadio,
como quem leva a esperança
marcada a fogo no brigue
que, novo, se lança ao mar.

Os Estatutos do Homem
riscando o teto da noite
com seus mastros decididos,
quantos vilões não cegaram!

Mas, igual à copa náutica
das sapopemas gigantes,
que pelas vias de Tiago
desprendem flocos de sonho,

retorna, depois da luta
para o feno das raízes:
a copa – rica de estrelas,
o tronco – de cicatrizes.

XII   (a Pedra do Reino)

Como então esquecer,
neste painel de teus milagres,
oh América do Sul,
a oficina armorial desse múltiplo Ariano Suassuna,
a poesia e a prosa que se deixam fundir
em seu romance d´A Pedra do Reino?
Assim também, igualmente,
como esquecer os poemas de Carlos Newton Júnior,
a cerâmica de Côca,
as lâminas e os palimpsestos de Virgílio Maia
ou a tenda  agreste, mística e versátil de Audifax Rios?
E como esquecer as andanças dos ¨padeiros¨cearenses
em busca das cacimbas,
do aboio crepuscular,
do alpendre de seus avós e da espada
de algum rei com sua túnica de abelhas?
Pois é das artes desse Ariano vulcânico
e de seus valerosos cavaleiros,
as surpreendentes iluminogravuras,
diante das quais apenas o arco-íris, o novilúnio
e as doze talhas apócrifas da Via Dolorosa,
não são réplicas inúteis.

XIII     (entrefala e louvação)

Deixemos, portanto, as amoras,
o etéreo veludo celeste, o filme vazio,
a novela das oito
e as ruas por onde não passaram
bandeiras despedaçadas por um grito maior
que a esperança dos mortos.

Deixemos de lado as violetas
que ardem nos versos prematuros
daqueles que nunca percebem o gemido
das salamandras
nem a fuga dos girassóis alucinados.

Deixemos de lado o jarro de Matisse,
a gôndola que imita o cisne de Isolda,
as olheiras roxas das janelas caiadas
pelo terror dos massacres.

Louvemos Neruda que, em sorvos miúdos,
provara do vinho amassado com a terra,
o suor e as lágrimas de quantos,
no Chile, na Espanha e na Turquia,
conseguiram, em seus momentos finais,
erguer a face do entulho e da lama,
cuspir na bota dos tiranos.

Louvemos Neruda pelos gestos perenes
de salvar um carneiro da morte,
uma rosa da escuridão e muitos,
centenas de amigos,
do cárcere infecto e da bofetada humilhante.

Saudemos Neruda
com uma taça de beija-flores.

XIV      (sursum corda habemus)

O giro vesperal das andorinhas
sobrevoa os transcursos das cordilheiras;
paira, depois, sobre os telhados gastos
pelo mofo dos armários vazios
e o esquecimento das chuvas.
Elas tomam as sereias de tuas falanges,
dedilham a ira dos terremotos.
Mais do que nunca teu coração vacila,
mas sente-se pleno em curtir a polêmica união
entre o Ocidente dos filósofos
e a pátria dos cardos ensolarados.
Terá sido esta a pausa dos monumentos,
o tremor que se estabiliza nos ossos,
a reflexão que se deixou cair das pálpebras de água
no enterro dos navios.

Uma sombra te acompanha desde que nasceste,
orográfico e triste,
de pais que vestiam a paisagem dos trens de ferro
com os andrajos da mulher de Bolívar,
a insepulta de Paita.
Teus versos são lições de uma geografia da alma,
rochedos floridos de ternura.
Soltos na  madrugada,
eles rastreiam  fragrâncias,  matizes,
números e signos gravados na espuma
e no cansaço das festas.
São metáforas da hora incalculável,
a incrível marca do passageiro.

Depois das estradas, Neruda,
o amor te concedera uma pausa,
um silêncio neutro que irrompe dos tanques
cobertos pelo trigo;
uma pausa que pergunta a cada coisa
se tem algo mais. E a cada palavra
endereça uma rosa. Neruda épico, lírico,
e que tampouco deixa de seguir os passos noturnos
de Lautrèamont, de Pascal e dos Três Mosqueteiros.
Teus cantos são cantarias de luar,
pólens de ouro e neblina.
Oh América do Sul
(Publicado no jornal O PÃO de Fortaleza-CE, Ano V-No. 36-em 13-12-1996). Atualizado em 2008).

Autor Jorge Tufic - Fortaleza/CE
jorgetufic@hotmail.com
http://www.revista.agulha.nom.br/jtufic.html
Publicação autorizada pelo autor