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domingo, 21 de maio de 2017

O outro lado do rio

Existe coisa misteriosa neste mundão de Deus, existe sim. Muita história. Eu mesmo tenho uma para contar. Esta do reverso aconteceu de verdade, mas nem eu mesmo acredito mais.
Faz muito tempo e eu era muito criança. Ao contrário de agora, que vivo numa cidade grande, vivia num lugarzinho perdido lá no meio do Mato Grosso. Havia um rio caudaloso, bonito, forte, que para nós era o centro de tudo. Tinha uma curiosidade danada de saber o que havia do outro lado, apesar do medo que tinha de atravessar. Sempre que perguntava para meu pai, ele dizia que não era nem para pensar naquilo. O outro lado - e franzia a testa - era uma coisa cheia de mistério. Só um ou outro voltava e, quando voltava, era com a cabeça toda mexida, cheia de estranhamentos. Meu pai tinha esse jeito gozado de falar, que eu não sei onde ele aprendeu. Tinha uma pressa danada de acabar qualquer conversa sobre esse assunto. Terminava sempre com a frase “É o reverso do mundo aquilo lá. O outro lado é o reverso do mundo.” Eu não entendia o que era reverso, pelo menos naquela época e no sentido que meu pai dizia. Ele não gostava de falar daquilo. Não gostava, com certeza.
Eu e meu irmão mais novo, nós ficávamos com aquela curiosidade misturada de medo. Eu mais de curiosidade e meu irmão mais de medo. Ainda assim, um dia eu arrisquei. Mas não foi assim, de ímpeto, sem pensar. Que eu nunca fui assim. Sempre fui cheio de precaução, coisa que me custou muitas coisas nessa vida cheia de competição. Mas não estou aqui para reclamar, estou para contar e é o que eu vou fazer. Depois que decidi – a gente sabe quando não tem mais jeito, que a gente vai mesmo fazer – me enchi de cautelas e preparativos. A primeira foi convencer o pequeno Mário, meu irmãozinho, de que não devia contar nada para o papai. Expliquei que o mundo é assim, que todo mundo tem direito a certos segredos, não muitos, porque daí vira engodo, enganação. Não sei se foi minha lábia, ou se foi a esperança de ter outras aventuras comigo, mas ele concordou e ficou firme. Tive orgulho dele, apesar de saber que o que estava a fazer não era de muita correção, nem de muita prudência. Muita desgraça aconteceu nessas partes perdidas do mundo por se falhar nessa parte de nossos códigos de palavra. Mas, por outro lado, tem tanta gente tão certinha que acaba se dando mal do mesmo jeito, que achei que devia ir em frente.
Voltando aos meus preparativos, primeiro arrumei uma corda bem comprida lá na venda do seu Gonçalo. Ele estranhou quando juntei os trocados que tinha recebido de presente no meu aniversário e paguei à vista sem pôr tudo na caderneta. Ele sabia que o papai sempre punha as coisas “na conta”. Fiquei com medo que ele comentasse algo com mamãe quando ele viesse fazer compras. Mas isso não aconteceu. O uso da corda era uma coisa óbvia e inteligente. Eu ia amarrar o barco do meu lado. Sabia que a correnteza ia puxar a gente rio abaixo, e assim eu ia garantir que poderia voltar.  O Mário olhava admirado enquanto eu fazia os preparativos e queria muito ajudar. Eu dei algumas tarefas para ele, só para dizer, pois ele era muito pequeno e pouco sabia. Nem sequer sabia dos perigos daquele rio. Aquilo era irresponsabilidade minha. Mas não tinha jeito, quando a gente está com uma coisa na cabeça, não tem nada que faça a gente parar. Outra coisa que fiz, foi arrumar uma vara bem comprida, além dos remos. Alguma coisa que pudesse espetar no leito do rio numa emergência. Meu irmão só ficou um pouco assustado quando enrolei as pernas dele com um pano que arrumei no porão de casa. Expliquei que era para evitar picada de cobra. Não devia ter falado nada, pois não fazia muito tempo, um moleque da escola havia morrido envenenado por uma dessas malditas. Ficou meio assustado, mas queria mostrar que era corajoso como eu.
Medo da travessia eu não tinha. O que me deixava nervoso era o tal do “reverso” que meu pai falava. É gozado como certas palavras mexem com a gente, principalmente quando somos pequenos. Até hoje, sabendo já de todos os significados do tal vocábulo, ainda sinto uma coisinha lá dentro. Talvez papai só quisesse assustar a gente, quando franzia a testa para falar do reverso. Talvez fosse só superstição boba de quem vive no mato. Talvez fosse tudo verdade, e, daí, eu seria responsável pelas consequências do reverso, principalmente em relação ao caçula.
Deu um pouco de medo, que eu escondi, quando a gente atravessou para o outro lado. Eu não sabia o que assustava mais: se era a força do rio ou a escuridão das águas. Até hoje não sei. Não sei se é pior a força do destino levando a vida embora, a da gente e das pessoas que a gente ama, ou se a escuridão da noite sem estrelas. A escuridão da noite, até, não é tão difícil, é só arrumar uma luz e tudo se resolve. O que dá medo é a escuridão de algumas pessoas, por dentro, isso sim dá medo. Desculpe o meu divagar. Às veze penso se faço isso - fugir do assunto - porque é coisa de contador de histórias, ou se é porque não estou querendo enfrentar o miolo da conversa. Para ser mais direto e franco, para evitar o confronto com o reverso. Que palavra danada essa, reverso, até dá arrepio. E já estou divagando de novo.
Chegamos do outro lado com bastante dificuldade. Tinha que administrar o meu esforço de tal forma a não assustar meu irmãozinho, pois eu era tudo para ele. Meu pai também era, mas o Mário não sabia, pois meu pai era fechado e não tinha muito tempo nem jeito para conversa. Foi com muita luta que consegui agarrar um arbusto do outro lado e segurar o barco que as águas, furiosas, insistiam em levar. Rio caudaloso. Isso é coisa que dá medo. Agora que já estou bem mais velho, eu sei que há coisa mais perigosa. Até carro com velocidade no urbano de nossas vidas é mais ameaçador. Mas a impressão ficou. É uma espécie de metáfora. Aquela água forte, escura, querendo levar a gente embora. Eu não li em lugar nenhum, mas eu sei que isso é a representação do destino. Querendo levar a gente. A gente, um serzinho de nada, na correnteza absurda da vida. Por isso é que gosto de águas calmas, claras, transparentes. Que coisa, eu divagando de novo.
Amarrei o barco do outro lado, do lado reverso, com muitos nós. Ter certeza de que não seria levado embora. Já pensou a gente, sozinho, do outro lado, sem poder voltar? Papai sem saber de nada, sem saber onde procurar? Ou, sabendo, ter que enfrentar o reverso, para nos procurar? E ele viria, com certeza. Nós dois e minha mãe eram as únicas razões pelas quais ele enfrentaria o reverso. Tudo seguro e amarrado, peguei o facão, dei a mão para meu irmão e fomos entrando na mata. Foi daí que o Mário falou que tinha medo de que alguém cortasse a corda e nosso barquinho fosse embora. Pensei, que besteira, só mesmo uma criança para pensar uma coisa daquelas. Falei para ele que era bobagem, bem confiante. Mas depois pensei comigo mesmo que ele tinha uma certa razão. Fiquei com aquilo nos recônditos da consciência. Criança, às vezes, fala verdades mais poderosas que um adulto. Depois, ainda raciocinei, que aquilo - cortar as cordas - já seria algo pensado, premeditado, de inimigo declarado. Entretanto, o que me dava medo era outra coisa, assim, do outro mundo, essas que ninguém entende. Na verdade, estava pensando, mais uma vez,  no “reverso do mundo” de que meu pai tinha falado.
Fomos entrando mais e mais. Daí o pequenino fez outra observação que, inicialmente, me deixou assustado de novo. E se a gente não soubesse voltar? Respondi automaticamente que era só seguir o corte que estava fazendo na vegetação. Era a melhor indicação da rota, o que estávamos fazendo. Honestamente, porém, não tinha pensado nisso. Foi aí que comecei a cortar tudo com mais intensidade. Criança diz cada coisa. A gente devia ouvir mais esses pequeninos, posso lhe dizer. E fomos andando, andando, com aquele pavor de ser picado por uma víbora. Esse era o medo do irmãozinho. O meu era esse, mais o reverso. A essa altura, o “reverso” para mim era uma pessoa. Pior que isso... Nem gosto de falar, mas acho que não preciso, você já entendeu. Penso mesmo que era isso que papai pensava. Estava claro por que ele franzia a testa. Mas eu sabia que tinha de fazer aquilo, ou pelo menos agora eu sei. São aqueles momentos na vida em que você tem de enfrentar os seus medos.
E daí, eu tive medo de verdade. Vimos, entre as folhas, uma cabana. Paramos. Dava para ouvir o coração bater e a nossa respiração. E o que fazer, então? Ficamos ali, parados um bom tempo. Finalmente saiu da casa um homem. Seus cabelos não eram tão compridos, mas certamente estava na hora de cortá-los. Cabelos loiros, iguais ao de minha mãe. Aquilo não era coisa comum naquelas bandas. Assim, só conhecia minha mãe e agora, aquele homem. O Mário tinha saído com a mesma cor dela, acho que, até então era o único menino loiro que eu tinha visto. E agora conhecia também um homem loiro. De repente alguém o chamou lá de dentro e ele voltou. Houve uma conversa no interior da casa e depois, os dois saíram. E a mulher tinha cabelos negros como meu pai. A cabeça da gente é gozada mesmo. Eu mal sabia o que significava reverso e, ainda assim pensei, que aquilo era o reverso de meu pai e de minha mãe. Que besteira, mas não é assim o nosso pensar, cheio de idiotices brincando o tempo todo nos nossos miolos? Reverso. Que besteira.
Passou um tempo assim, eles falando animados lá fora da casa, e eu achei, na minha razão, que era hora e tempo e voltar. Era a sabedoria falando. Coisa óbvia. Mas quem disse que é a cabeça que manda? A curiosidade era grande demais. Ouvimos mais vozes. Eram de crianças. Não demorou para saírem dois garotos de dentro, um maior, outro bem menor. Tal qual nós dois. E, ainda mais estranho... Para você entender esse novo estranhamento, preciso explicar mais algumas coisas. Meu nome é Fernando e, ao contrário do meu irmão, tenho cabelos pretos, puxei ao papai. O pessoal até brincava que eu era o filho do pai e o Mário era o filho da mãe. Pois não é que o moleque pequeno, que tinha saído da casa - bem modesta – era moreno como eu e o maior era loiro como o pai dele e como a minha mãe e meu irmão? Minha cabeça estava girando. O reverso do reverso, do reverso. Olhei bem para me certificar. Estava ficando já meio assustado e o meu irmãozinho estava percebendo. Achei que era hora de ir embora. Não havia mais nada a fazer ali. Conversar com eles não podia, estava em sua propriedade. Conversar o quê? Sobre o reverso? Eles iriam achar que eu era um demente. A única coisa reversa que eles iriam notar era o meu moreno e o loiro do Mário. Estava certo, tinha de voltar e avisei para meu irmão que concordou muito rápido. Antes de sair, porém, ouvi o mais velho chamar o mais novo de Fernando. Para ele se apressar. O pequeno reclamou que ele estava sempre com pressa e o chamou de Mário. A essa altura parecia já minha imaginação funcionando, mas que ele chamou, chamou. Eu tinha certeza também, embora nunca tenha confirmado - isso é pura teoria - de que o homem se chamava Mário, pois Maria era o nome de minha mãe e a mulher se chamava Fernanda, pois Fernando era o nome de meu pai e é por isso que tenho esse nome.
Voltamos com muita pressa. Na minha cabeça rodopiavam aquelas imagens, aqueles nomes, tudo rodopiava. Meu irmão só estava com pressa, queria voltar. Ele não tinha percebido nada. Nem dava para discutir essas coisas com ele, pois ele jamais entenderia. Nunca entenderia o que era reverso. Qualquer dia eu vou falar com ele para ver se ele se lembra disso tudo. Claro que ele se lembra. Mas não do reverso. Essa parte vou ter de engolir sozinho. Nunca pude falar isso com papai por motivos óbvios. Talvez devesse ter falado depois de adulto, mas fiquei com medo de passar por idiota. Qualquer dia falo com o meu irmão loiro, o Mário, essas coisas, talvez. A parte do reverso, não. Vou ter de morrer com esse segredo.
Além do mais pode ter sido tudo imaginação. Quero dizer, a travessia, as pessoas, tudo isso existiu. A parte de um ser loiro, outro moreno, os nomes invertidos, isso, talvez. Na verdade, tenho certeza de que vi e ouvi bem. Mas você sabe, a cabeça da gente é perigosa, está sempre pregando peças. Além do mais, existem incríveis coincidências neste mundo, não existem? Talvez o reverso, de que meu pai falava, era outra coisa completamente diferente, alguma coisa que tivesse a ver com demônios. Demos escondidos na mata, do outro lado do rio, o lado que não era esse. Era o perigo da morte naquela floresta escura. O reverso, palavra incomum para nós, era só para assustar. O loiro e o moreno, os nomes trocados, tudo, apenas uma coincidência. Será que coincidir é coisa do demônio?
Reverso, que coisa estranha, como meu pai foi ter uma ideia dessas? Fiquei a vida inteira com isso na cabeça. Reverso. Nunca vou ter certeza. Pode ter sido, pode não ter sido. Quase tudo é assim, no final. O que manda, mesmo, é nosso pensamento. Às vezes a gente pensa o reverso do que quer pensar. Mas eu não quero falar mais em reverso. Pelo menos, não por enquanto.
Autor:
Flávio Cruz - Flórida/EUA

domingo, 29 de setembro de 2013

Um pássaro azul

Autor: Flávio Cruz

O Jenuíno foi o primeiro. Foi ficando esquecido, esquecido, até não se lembrar de mais nada. A gente olhava para ele e ele ficava com aquela cara de interrogação. Não sabia do que a gente estava falando. Seu sorriso era distante, uma vaga impressão de que sabia do que se tratava. Quando o Alberto ficou exatamente do mesmo jeito, e ele era o melhor amigo do Jenuíno, muita gente pensou que era uma coisa que “pegava”. Existe gente que é ignorante, não entende como funcionam essas coisas de bactérias e vírus. Eu também não entendo muito, mas pelo menos sei que loucura não é contagiosa, não dá para pegar. O fato é que o doutor da cidade também descartou essa possibilidade. Disse que o único jeito de descobrir essas coisas era fazendo exames. Coisa sofisticada, em laboratório. Ele já estava providenciando. Essas coisas não podem ser feitas assim, no mais ou menos. Ciência é coisa séria, não é coisa de opinião, muito menos coisa de comadre conversando na rua.
De repente, a coisa pegou fogo. Você pode argumentar o que quiser, mas contra fatos não há argumentos. O doutor Euzébio não conseguiu mandar ninguém para fazer exame na cidade grande. O motivo foi bem simples e ao mesmo tempo assustador. Ele também “pegou” a estranha doença. Coisa de louco, sem querer fazer jogo de palavras com coisa tão séria. Não clinicava mais, só balbuciava umas palavras e tinha aquele  mesmo olhar perdido dos outros dois. Agora estava claro. Não só aquilo era coisa que “pegava” como também era coisa do capeta. Imagina só, o próprio doutor. Um homem formado, que sabia das coisas, que conhecia higiene como nenhum outro, pegar uma coisa daquelas. Já pensou quanta cultura ali, desperdiçada?
O fato é que os moradores começaram a ficar com medo. Tinha gente que fervia água, tinha gente que punha álcool em tudo. Que tolice. Como é que álcool vai impedir uma coisa dessas? Ignorância é uma coisa triste. É verdade que, às vezes, as coisas são tão complexas que até mesmo pessoas inteligentes não conseguem entender. Veja o caso do doutor. Nem ele sabia o que estava acontecendo. A ignorância é também uma coisa relativa. Até o mais sabido de todos pode ser um ignorante. Ele sabe um monte de coisas mas não sabe outras que estão muito acima dele. O fato é que para entender o que estava acontecendo ali, tinha de ser alguém com uma sabedoria muito grande. Não era qualquer um que podia explicar. Com certeza, não.
A única coisa que se sabia era que aquilo era uma coisa esquisita. Primeiro, dois amigos. Depois o doutor que estava tentando descobrir uma solução. Pode ser coincidência, mas parecia que existia alguém por trás daquilo. Os dias foram passando e os três apareciam de vez em quando na rua, cumprimentavam as pessoas mas não estavam melhorando. Falavam coisas sem sentido entre eles e com a gente também. Isso à parte, o resto era normal. Comiam, bebiam, andavam pela cidade. Devagarinho a gente foi se acostumando com a ideia. Acho que para isso não acontecer, o ente que estava provocando tudo isso, resolveu dar uma mostra de poder. Em uma só semana, levou mais cinco. Um parente do doutor, dois tios de sua mulher, um primo do Jenuíno, outro aconhecido do Alberto. Tinha lógica e não tinha. Eram parentes ou amigos. Mas ali na cidade, quase todo mundo acabava sendo parente ou relacionado de alguma forma. Só podia ser doença ou uma coisa sobrenatural. Uns três jovens, todos de certa forma  ligados aos “atacados” – como agora eram chamados – resolveram sair da cidade. Nunca se sabe, podia ser mesmo contagioso.
A nossa pequena comunidade era muito isolada do mundo e a gente tinha quase de tudo que precisava por ali. Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual ninguém decidiu procurar ajuda, ver o que estava acontecendo. Mas eu tenho cá para mim que o verdadeiro motivo era o medo. Medo de descobrir o que realmente era. Se fosse uma doença curável, tudo bem A gente fazia o que tinha de fazer. Mas e se não fosse? De repente era uma coisa do mal, e a gente ia ficar numa situação comprometedora. Com essas coisas não se brinca. Do jeito que estava, não estava bom, mas mexer naquilo podia ficar pior. Ninguém falava as coisas claramente, mas dava para saber o que todo mundo estava pensando. Como disse, não era nada bom, mas era melhor assim do que ficar pior.
Eles não atrapalhavam ninguém, a gente foi se acostumado de novo e cada vez mais, as coisas foram andando. Mas todo mundo sabia que não ia ficar por aí. Tem coisa que não tem uma lógica visível, mas dá para saber que é o óbvio. Mais algumas semanas se passaram e mais algumas pessoas ficaram “atacadas”. Depois de alguns meses eram centenas, as pessoas nem avisavam mais. A cidade era pequena, tinha pouco mais de mil habitantes e chegou-se a um ponto onde havia mais “atacados” do que gente normal.Tirando o caso do doutor que tinha uma função muito complexa, os outros todos continuavam a cumprir suas funções sem muito problemas. Faziam as coisas mecanicamente, como autômatos. Entretanto, a gente sabia que eles não estavam pensando, que seus cérebros não funcionavam.
Éramos agora bem poucos, os “sadios”. E a ”coisa” parou por um tempo. Achamos até que tudo tinha acabado. Aí outra coisa esquisita começou a acontecer. Uns pássaros grandes, do tamanho de urubus, começaram a descer na cidade. Mas não eram pretos, não. Eram de um azul escuro, muito bonito. Também não eram agressivos. Ficavam por ali, andando ao invés de voar. Vez ou outra eles voavam um pouco mas voltavam. Havia centenas. Ninguém podia dizer do que se alimentavam. Ficavam bem à vontade, não pareciam ter medo da gente. Às vezes pousavam sobre nossos ombros, bem amigáveis. Vá se entender. Se não fosse o problema que a gente já tinha, ia ser um confusão danada. Mas o que era aquilo perto do que nós estávamos passando?
Finalmente todos ficaram “atacados”. A gente sabia que isso ia acabar acontecendo. Eu fui o último. Agora, aqui de cima posso ver meu corpo, lá embaixo, andando pela cidade, fazendo as coisas que precisam ser feitas. Assim, sem saber o que está acontecendo. Mas sou eu mesmo que decido para onde meu corpo vai, o que vai fazer, o que vai comer. Não estou falando de meu corpo de pássaro. Estou falando do meu corpo de gente. Só não consigo falar, e estou me esquecendo de quase tudo. Mas agora, pelo menos, as coisas fazem sentido. Eu sou um belo pássaro azul, consigo controlar meu corpo. Só não dá para a gente conversar com os outros pássaros, quero dizer, com os outros habitantes da cidade. Mas a gente se entende. Voa um pouquinho, pousa lá na rua. A gente se vê por aí. Eu sou um belo pássaro azul. Bonito mesmo. Como disse, as coisas agora se encaixam. Claro, não têm explicação, a causa nós não sabemos. Mas quem sabe a causa de alguma coisa? A gente não sabe de nada,  ninguém sabe como tudo começou. Claro, estou falando agora do mundo, do Universo. Como as coisas apareceram? Quem sabe? Nós não sabemos nada. Pelo menos, eu sei agora, que eu sou um pássaro azul. Bonito. Quando quero, posso voltar para o chão. Quando quero, posso voar. Isso é mais do que suficiente. Para que eu iria querer saber mais? Não precisa. Ser um pássaro, e ainda mais azul, é para mim, mais do que suficente, pelo menos por enquanto...



Autor: Flávio Cruz - Flórida/EUA

Publicação autorizada pelo autor

sábado, 3 de agosto de 2013

E o pássaro voou

Autor: Flávio Cruz

Uma coisa de louco. Lá estava ele no meio da floresta, sem saber para onde ir, sem saber o que fazer. Começou a correr, pois sentiu que havia perigo por ali. Não conseguia se lembrar de seu nome, mas certamente tinha um. Era uma dificuldade correr no meio do mato, descalço e nu. Os gravetos do chão machucavam seus pés, os ramos das árvores machucavam seu corpo. Mas era preciso correr.
Quem era, o que fazia ali? De onde tinha vindo? Nada, absolutamente nada, vinha à sua mente. Agora já doía o corpo todo. As pernas, os músculos das costelas, os braços, tudo. Quando levantou a mão para tirar o suor do rosto, percebeu que havia sangue nelas. Assim, seu rosto também ficou manchado de vermelho. Assustado, corria mais e mais. Finalmente, ao longe podia se ver que as árvores iam ficando escassas. A paisagem estava mais clara.
Diminuiu a intensidade de seus passos. Estava andando e dali para a frente só havia uma relva, com arbustos dispersos. Mais um pouco, estaria perto das primeiras casas que tinha visto à distância. Ao invés de ficar mais tranquilo, o medo aumentava. Não podia voltar, entretanto. Sabia que tinha de continuar. Queria se lembrar  pelo menos de seu nome. Nada, absolutamente nada vinha em seu cérebro. Olhou para seu corpo e viu que havia muito sangue escorrendo.
Andava por uma rua, ainda era de manhã e não havia pessoas na rua. Queria e não queria encontrar alguém. Chegou a pensar em bater à porta de algum morador mas desistiu. O desconhecido também lhe dava medo. Era agora uma avenida comprida. Além de casas, havia lojas. Havia coisas escritas, mas ele não conseguia ler. Não sabia ler, mas sabia que aquilo tudo era para ser lido.
Bem lá na frente, pela primeira vez viu um vulto que vinha em sua direção. Caminhava rápido e vinha para ele. Quando percebeu que, definitivamente, era com ele que ele vinha ter, parou bem no meio da pista. De um lado havia uma igreja e, do outro, estava o fórum.  Mais um pouco, à esquerda estava a cadeia.
Depois de alguns longos segundos, o homem chegou e parou à sua frente. Era bem mais alto que ele. Tinha uma barba rala, era forte e vestia uma túnica cinza. Tinha também sandálias e usava um estranho chapéu.
Falou com ele em uma lingua estranha, que ele não conhecia, mas mesmo assim ele entendeu tudo. Entendeu que ele havia pecado e daí a razão de sua nudez. Estava ali para cumprir sua pena, seu destino. Pecado sem perdão, castigo sem redenção. Pensou em perguntar para o estranho seu próprio nome mas não teve coragem. No fundo, talvez, não quisesse saber. Sem direito ao fórum e sem direito à igreja, foi jogado numa cela onde havia apenas um banco. No alto da parede, uma pequena janela por onde entrava um pouco de luz. As grades não eram pequenas mas certamente não permitiam que ele pudesse escapar. De nada adiantaria, de qualquer jeito, pois seria pego novamente. Adormeceu, estava muito cansado.
Quando acordou, percebeu que muito tempo havia se passado. Olhou para suas feridas. Não mais sangravam, estava seco e sujo. O corpo já não doía tanto. O silêncio, lá fora, era total. Devia ter um nome, queria se lembrar. Queria se lembrar do pecado também, uma vez que o estranho homem o havia mencionado, mas nada lhe ocorria. Achou, porém, que deveria se sentir culpado e assim o fez.
Dormiu mais uma vez. Um pouco antes de pegar no sono, sentiu que algo estava crescendo em seu corpo, principalmente em seus braços e em seu peito. Pareciam penas.
Desta vez dormiu muito mesmo. E agora estava se sentindo muito diferente. Não se lembrava mais de nenhum pecado, não se lembrava de nenhuma dor, nem se lembrava do homem que o prendera. Ele era muito pequeno, podia passar por entre as grades, podia até passar pela pequena  janela. Tinha penas, tinha asas. Era um pássaro marrom, com peito amarelo e uma cabeça vermelha. Não sabia como tinha vindo parar ali, mas sabia que era uma ave e que podia voar..
Bateu as asas e voou.
Enquanto voava, não sentia culpa, não sentia dor, não precisava de um nome, não sangrava. Voava sobre as casas, sobre as florestas, sobre as águas. E continuou a voar. Era a  única coisa que queria e que precisava fazer. E era isso que ele fazia, voar, voar, voar...


Autor: Flávio Cruz - Flórida/EUA

Publicação autorizada pelo autor

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O encontro

Autor: Flávio Cruz
 
Smuk deu alguns passos, abriu uma porta e já estava na praia. Ninguém menos do que Libes o esperava, logo ali, debaixo do sol e com um sorriso róseo, quase divino, iluminando ainda mais seu rosto maravilhoso. Smuk beijou a esposa, passou a mão por seus cabelos negros, deu-lhe a mão e ambos começaram a andar. Uma brisa morna acariciava suas faces e seus pés descalços eram massageados pela areia macia. Um cheirinho bom e peculiar vinha do mar. A vegetação da praia, verde, estabelecia um equilíbrio gostoso com o azul do céu e o brilho das ondas iluminadas pelo sol que, cá e lá, insistia em penetrar entre as nuvens.
 
Conversaram. Falaram dos filhos. Sorriram. Trocaram lembranças. Era bom estar ali, um sentir o outro. Afinal, foram tantas coisas juntos, tantos momentos. Depois aquela longa separação, coisa da profissão dele. Mas agora podiam se ver, pelo menos de vez em quando. Ficaram horas se deliciando um com o outro. Eram tão íntimos que completavam a frase um do outro. Smuk e Libes definitivamente se amavam.
 
Chegou o momento de se despedirem. Um abraço afetuoso,um beijo na boca. Ela foi voltando com passos leves e lentos para o outro lado da praia, de onde viera. Seus pés suaves deixavam leves marcas na areia que logo a seguir eram desmanchadas pela brisa. Smuk fez um último sinal com a mão e entrou.
 
O último aceno que Smuk fez, demorou pouco mais de dez minutos para chegar até a Terra e, na verdade, foi um aceno virtual. Ele estava na Estação Centaurus, em Marte, sentado em uma sala especial de efeitos virtuais. Sua esposa Libes estava na Terra numa sala do Departamento de Controle de Estações extraterrestres. Tinham acabado de participar do encontro quinzenal promovido pelo departamento entre funcionários trabalhando em Marte e seus familiares aqui na Terra.

         Quando estava saindo da base, alguém perguntou para Libes como havia sido o encontro. Ela sorriu e disse que aquela praia podia ser virtual, mas era a mais linda que ela já tinha conhecido até então.

Autor: Flávio Cruz - Flórida/EUA
Publicação autorizada pelo autor


Comentários:

Seja bem vindo ao Blog Flávio Cruz. Um abraço.
Carlos A. Lopes
 
Obrigado, Carlos. Para mim é uma honra estar na companhia de gente tão inspirada!
          Flávio Cruz
 
Flávio, que inesperado! Amei. Abraços.
Wanderley Dantas
 
Excelente. Gosto de textos inteligentes. Parabéns Flávio Cruz. Vou dar uma passada na sua página no RL. Um abraço.
Patrícia Celeste