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domingo, 28 de outubro de 2012

O voo do Ícaro - Autor: Fernando Florêncio


 
Fernando chegou a Custódia procedente de Ibimirim, por força da transferência do seu Pai, que soldado da Policia Militar de Pernambuco, viera “servir” por aqui. Chegaram em cima da carga de um caminhão, carregado com fardos de algodão, debaixo de um sol de rachar. Vieram via Betânia. Estrada de chão.

Lembro de ambos descendo do caminhão. Quando pularam, ficaram alguns bons segundos “sumidos” envolvidos que foram por uma nuvem de uma poeira vermelha acumulada nas roupas durante a viagem. Mais parecia um “redemunho” .

Na bomba, mais precisamente em frente ao Hotel Sabá, onde aconteceu o desembarque, demorou algum tempo para sabermos o que “era aquilo”. O Fernando pisava assim, tipo: “AQUI TÁ FUNDO E AQUI TÁ RASO, AQUI TÁ FUNDO, AQUI TA RASO.”porque tinha uma perna maior que a outra.

O Pai de Fernando, devidamente fardado, com a gandola abotoada até o pescoço, foi aparecendo aos poucos de acordo com a dissipação do pó. Portava na mão o inseparável Fuzil/Mauser 1908, comumente chamado de “MOSQUETÃO’. Arma potente. Precisa. Matava um boi a mil metros de distância. Arma respeitada. Bala de aço. Fernando se adaptou logo ao novo ambiente.

Tentou de todas as formas jogar bola com a gente, mas, com as pernas tortas, ainda por cima finas e descalibradas, tipo assim, “DEIXA QUE EU CHUTO”, não levava jeito. Por ser filho de soldado, e como naquela época todo soldado, não sei por que, andava com um apito, e como o silvo do apito era bonito, diferente, arranjamos para Fernando ser o juiz de nossas peladas, desde que apitasse o jogo com o apito do soldado. Aquele apito era de mais. O Fernando, sendo juiz da pelada e filho de “otoridade” era respeitado.

Certa feita Fernando apareceu com uma geringonça fabricava umas pipocas que mais pareciam isopor. O sabor era indefinido. Mas com sal e manteiga “de gado” até que a tal pipoca era comível. Fazia a nossa alegria, principalmente nos dias que tinha “cinema”.

O soldado, pai do Fernando, fazia gaiolas com tal esmero, que eram conhecidas até na Feira de Caruaru, e o Fernando era encarregado pelo pai a pegar os passarinhos, já que as gaiolas seriam vendidas mais cara e mais fácil, com um pássaro dentro. Como todos nós, o Fernando também passou a “freqüentar” o sítio de “Sêo Arnou” pois lugar melhor pra “pegar” Golinha, Pintasilgo, Papa-Capim, Galo de Campina..etc não tinha, pois era numa cacimba onde esses passarinhos iam beber que nós armávamos os alçapões.

Sêo Arnou até que não ligava muito. Desde que não mexesse nas frutas, tudo bem. Ao contrário do irmão, Ananias. Esse sim, se pegasse um de nós, o cipó comia no centro. Mas, começou a sumir alguns cachos de coco, de uns pés que Sêo Arnou tinha nos fundos do sítio. Os coqueiros eram nativos e altos . Alguns com mais de 30 metros de altura. Tanto que poucos se atreviam a trepar neles. Os cocos caiam já secos. Foi em cima de um desses gigantes que Sêo Arnou flagrou Fernando roubando cocos. Não pensou duas vezes.

Com Fernando lá em cima, pedindo pelo amor de Deus “– Sêo Arnou num faça isso, é muito alto, eu vou morrer –“ e Sêo Arnou num tava nem aí para as súplicas do lalau. Quanto mais Fernando pedia, mais Arnou brandia o machado no tronco do coqueiro.

Vendo que não tinha saída, a disposição de Arnou era mesmo derrubar o coqueiro, o larápio, que era de uma magreza extrema, sacou da cintura uma pequena foice que sempre carregava para tirar madeira de fazer gaiolas, cortou uma palha do coqueiro, botou embaixo de um braço, cortou outra, colocou no outro braço, apertou nos sovacos e se jogou lá de cima.

Quem viu, disse que Fernando deu um rasante sobre o bar de Sêo João Miro, arremeteu, subiu, desceu, passou raspando a antiga Tambaú que ficava ali perto da ponte, e se não fora uma rajada de vento que o jogou na direção do pé de tamboril de Sêo Luiz Mataverde, aonde ficou enganchado, Fernando teria aterrissado lá pras bandas do Texaco.
 
FERNANDO DO SOLDADO, MORREU (?) SEM SABER QUE INVENTARA

A ASA DELTA


 












Autor: Fernando Florêncio


Ilhéus/BA 22/11/2008

Publicação autorizada pelo autor do texto
Fernando Florêncio é autor do livro:
Foi assim - Uma história autobiográfica - Ilhéus - Bahia 2010
 

domingo, 24 de junho de 2012

Carta aberta a um Pedro - Autor: Fernando Florêncio


Chegou às minhas mãos o livro que conta a história de um Pedro. Pedro este que entre tantos e quantos outros Pedros que o nosso árido sertão produz, foi e é especial.
Li pausadamente. Li e reli algumas situações para poder entender e identificar  a empatia nascente entre o que lia e o que um dia vivi e posteriormente eternizei em um livrinho.Degustei-o a conta – gotas, pausadamente, tal como se degusta um Royal Salute 24 anos. Um “scotch” raro com pena que acabe.
A este Pedro, também podemos chamar de José dos Santos Gonçalves, ou Zé das Máquinas, como queiram. Todos os nomes levam ao mesmo homem.
Da infância e adolescência, passando pelo Acabador de Festas, Alistamento Militar, Sentando Praça, Dando Baixa e Rasgando Pano, tudo isto leva a uma analogia da minha infância em Custódia e adolescência no mundo a fora.
Como casado, teoricamente responsável, as portas começam a se abrir para o Zé. Porquanto   como soldado reformado, teve seu crédito escancarado e ilimitado nas lojas da cidade. Igualmente, somente quando casado, tive as portas abertas aos bons empregos.
Observei que o nosso Zé sempre foi um empreendedor. Um lutador daqueles que não desistem nunca.
Diferentemente, eu nasci para cuidar do patrimônio alheio. Em suma:
Nasci para ser empregado. Também não lembro que tenha tido alguma chance de me tornar um empreendedor. Os bons empregos iam aparecendo e fui ficando. Ao contrário do Zé das Máquinas. Era pedreira em cima de pedreira, que não deixavam o soldado de carreira curta sequer  respirar.
A viagem do Zé para São Paulo, teve  tudo a ver com a viagem da minha família para o Rio de Janeiro. Sem tirar nem por. Carroceria de caminhão, fome e sede na estrada além do suborno aos guardas federais.
A discriminação por ser “cabeça chata” também foi feroz no sul maravilha.
O progresso financeiro das pessoas incomoda os incompetentes e mortos de espírito. Zé foi bom em tudo que fez. A compra fora de hora (com a loja de peças fechada) do rolamento da transmissão do velho Studebaker, o “leriado” em cima dos guardas na estrada, as “carteiradas” de Soldado de “puliça” demonstrando que já fora e continuava sendo autoridade, dadas como se fossem (e foram) um abre portas, a chegada e o progresso do feirante na grande cidade são dignos de um registro à parte por conta de homem reto e puro. Tão puro que não identificou a quebradeira da barraca de feira por um parente imposta pela não adaptação da esposa àquela cidade. Tão ingênuo que só identificou por que não vendia suas máquinas, quando soube que seu fornecedor, em nítido ato de  safadeza, as vendia mais baratas e ainda lhe tomava os fregueses.
Por último, o acerto na Sorte Grande seguido da derrocada por ter sido sempre bom pros amigos.
Necessitado, ouvi de um gerente de banco:
-Quando o seu parente mais próximo, seu amigo mais leal, seu irmão do coração ou mesmo seu pai (se morto for) sair do túmulo e lhe pedir:
1) Para ser avalista de alguma coisa,
2) Uma folha de cheque emprestada,
3) Fazer uma comprinha com seu cartão de crédito e...
4) Pedir um dinheirinho para pagar depois...
Negue sempre. Aprenda a sair pela tangente. Nunca faça este tipo de gentileza, principalmente se souberem que você teve um golpe de sorte e ganhou “algum” extra.
O que pode acontecer, se você não fizer nenhum daqueles favores:
a) Perder o amigo. Mas amizade é coisa que se perde e se recupera com o tempo que se encarrega de trazê-la de volta.
b) Já se você tem o coração mole e accede a algum daqueles favores, com certeza perde o amigo e o dinheiro que nunca mais voltarão. Nem um nem outro. O amigo ao encontrar com você, muda  de calçada e finge que não lhe viu.
c) Ainda, se mandar cobrar o fica aborrecido e melindrado.
Somente quem lhe põe em “saia justa” são os amigos.
Vendo pelo olho da insensibilidade do sistema financeiro, nada mais correto.
Assim meu caro Pedro (ou Zé), recomendo esta sua biografia excelentemente narrada e colocada à disposição dos leitores pelo seu filho Carlos Alberto, apresentada de forma lúcida e lírica pela Celêdian  Assis, lá de “Belzonte”. Serve para que muitos de nós assimilem que rapadura é doce mas não é mole.
A SAGA DE UM PEDRO. Um livro recheado de situações extremas, algumas sérias outras hilárias, mas resplandecendo sempre a coragem e o destemor do nordestino. As situações esbanjam exemplos de fibra, obsessão destemor e vontade de mostrar que antes de ser forte, é nordestino.
Pena que aos noventa e alguns anos seu Zé das Máquinas não tenha mais tempo de aprender que:
QUEM  REFRESCA “BUM BUM” DE PATO É LAGOA.

Fernando Florêncio
Ilheus/Bahia