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domingo, 15 de julho de 2012

Mão-no-bolso! A bricadeira! - Autor: Chagoso

Essa era uma bricadeira entre meninos da minha cidade, considerada muito violenta. Consistia num contrato entre dois moleques onde aquele que flagrasse o outro sem pelo menos uma das mãos no bolso tinha o direito de desferir-lhe um murro nas costas. Podia ser qualquer bolso, desde que de uma roupa que estivéssemos usando. E caso a roupa (calção, camisa...) não tivesse um, valia meter a mão por dentro do calção. A execução era sumaríssima e acompanhada de um grito: "Mão no bolso!". Geralmente quem sofria mais eram os iniciantes na brincadeira, pois os mais experientes estavam sempre com uma mão no bolso, quando não as duas. E ainda assim, quando viam alguém se aproximar, ato reflexo, punham-se em guarda. Os impasses ocorriam justamente quando a pena era aplicada no momento em que o infrator colocava o mão no bolso e instalava-se o conflito: o infrator dizia-se injustiçado e o executante afirmava legalidade no ato. Quando havia um terceiro moleque, amigo dos dois, recoriam a ele para julguar a legítimidade. Caso fosse considerado injusto, o injustiçado tinha o direito de desferir semelhante soco, como forma de reparo. Obviamente a brincadeira era de total desconhecimento de nossos pais pois tamanha brutalidade era incompatível com o padrão de amizade que reinava naqueles idos.
Hoje fico me perguntando: Como não seria melhor o mundo se nossos jovens ainda brincassem de mão-no-bolso e abominassem outras formas de violência...
 
Autor: Chagoso – Porto Velho/RO

sábado, 14 de abril de 2012

Pau de bosta - Autor: Chagoso

Não se trata de conotação alguma. Podem ficar tranquilos os mais conservadores!...
Era uma brincadeira contemporânea da outra sobre a qual escrevi uma crônica aqui mesmo: "Mão no bolso". Muito menos violenta, infinitamente mais nojenta, mas muito mais engraçada, até porque tinha plateia e tudo.
Geralmente à noite e em locais pouco iluminados, dois moleques começavam a discutir com muito xingamento e provocação até que se juntasse em torno deles vários outros garotos. E como nesse caso quase todos queriam ver uma, ao invés de apartar a molecada até incentivava mais a briga. E assim discutiam até criar um clima de briga mesmo e, nesse instante um se afastava dizendo "Espera aí que tu já vai ver..." e voltava com um pedaço de pau roliço mais ou menos do tamanho de um cacetete policial.
O moleque desarmado xingava o outro de covarde, por estar portando o cacete. Nesse momento o menino armado fala pra outro moleque que estivesse próximo, mas sem nenhuma participação na discussão:
- Segura esse pau aqui que vou mostrar pra esse viado quem é covarde aqui - e estendia o cacete de forma que o outro o pegasse no local bem próximo de sua mão.
Quando o garoto segurava o pau o que tinha a posse puxava com toda a rapidez de forma que o coitado esfregasse a mão sobre todo o restante da superfície do cacete.
E aí estava o segredo da brincadeira: o pau estava todo sujo de fezes de cachorro, gato ou mesmo de gente. Então os que tinham armado a brincadeira gritavam eu uníssono "Pau de Bosta!" e disparavam a correr.
Normalmente a brincadeira parava por aí. Apenas eventualmente acontecia alguma represália mais nada que merecesse sequer a interveniência dos pais dos envolvidos.
Eu nunca participei, como também nunca foi pego na tal brincadeira. Mas confesso que gostava de ver aquilo tudo da mesma forma que gostaria que hoje as brincadeiras fossem tão somente violentas quanto aquelas.

Autor: Chagoso – Porto Velho/RO
Comentário do autor no blog Gãndavos:

Seus textos são excelentes. Vou procurar lê-los com mais frequência. Quanto ao meu "Pau de Bosta", do Recanto das Letras. Fique a vontade para usá-lo como melhor lhe convir.
Abraços
Chagoso