Essa era uma bricadeira entre meninos da minha cidade, considerada muito
violenta. Consistia num contrato entre dois moleques onde aquele que flagrasse
o outro sem pelo menos uma das mãos no bolso tinha o direito de desferir-lhe um
murro nas costas. Podia ser qualquer bolso, desde que de uma roupa que
estivéssemos usando. E caso a roupa (calção, camisa...) não tivesse um, valia
meter a mão por dentro do calção. A execução era sumaríssima e acompanhada de
um grito: "Mão no bolso!". Geralmente quem sofria mais eram os
iniciantes na brincadeira, pois os mais experientes estavam sempre com uma mão
no bolso, quando não as duas. E ainda assim, quando viam alguém se aproximar,
ato reflexo, punham-se em guarda. Os impasses ocorriam justamente quando a pena
era aplicada no momento em que o infrator colocava o mão no bolso e
instalava-se o conflito: o infrator dizia-se injustiçado e o executante
afirmava legalidade no ato. Quando havia um terceiro moleque, amigo dos dois,
recoriam a ele para julguar a legítimidade. Caso fosse considerado injusto, o
injustiçado tinha o direito de desferir semelhante soco, como forma de reparo.
Obviamente a brincadeira era de total desconhecimento de nossos pais pois
tamanha brutalidade era incompatível com o padrão de amizade que reinava
naqueles idos.
Hoje fico me perguntando: Como não seria melhor o mundo se nossos jovens ainda brincassem de mão-no-bolso e abominassem outras formas de violência...
Hoje fico me perguntando: Como não seria melhor o mundo se nossos jovens ainda brincassem de mão-no-bolso e abominassem outras formas de violência...
Autor: Chagoso – Porto
Velho/RO
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