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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Lampião no oratório (e santificado) - Autor: Rangel Alves da Costa


Rangel Alves da Costa

Quando Padre Gerômio chegou ao batente da Velha Titoca carregando Bíblia, um frasco de água benta, uma cruz de madeira e vários outros apetrechos de exorcização, ouviu da dona da casa que se desse um passo adiante ela tacaria o cabo de vassoura nas fuças.

O sacerdote recuou indignado, escandalizado com a reação da mulher diante de um representante divino na terra. E ele que estava em missão das mais importantes, pois havia chegado aos seus ouvidos, em segredo na sacristia, que a velha senhora mantinha no oratório, ao lado de figuras sacras, uma imagem feita de barro de Lampião.

Esse mesmo, Lampião, batizado Virgulino Ferreira da Silva, mas também conhecido por Lampião, Capitão, Rei do Cangaço e muitas outras portentosas alcunhas. Mas um bandido, um verme sanguinário, um bandoleiro cruel, na concepção do Padre Gerômio. Por isso mesmo que estava ali para expulsar esse cangaceiro da companhia dos outros santos. E quem já viu Lampíão ser devotado, santificado, adorado, mantido fervorosamente num oratório?

Do lado de fora, sob a ameaça da vassoura da velha, tentou argumentar a todo custo, afirmando ser uma heresia, um pecado descomunal o que ela havia feito ao colocar um bandido ao lado de santos, até da imagem do Nosso Senhor Jesus Cristo. Se benzendo a todo instante, ainda disse que ou ela o deixava limpar o oratório daquela coisa ruim ou seria impiedosamente excomungada.

E disse mais que até aceitava, por força da religiosidade e misticismo do povo sertanejo, que houvesse devoção ao Padre Cícero Romão Batista e ao Frei Damião, forçadamente reconhecidos como santos por aquele povo, porém era contra todos os princípios da igreja pretender santificar um cangaceiro, um homem que tanta tristeza havia trazido para toda a região nordestina.

Sinhá Titoca baixou a vassoura, mas não sem antes cuspir no chão logo embaixo, afirmando que se passasse dali, se desse ao menos um passo adiante, poderia ser considerado um padre descadeirado, sem poder rezar missa mais nunca. O padre tentou levantar a cruz, porém ela mandou baixar na hora, tirando de dentro do bolso uma pequena Bíblia e dizendo que ali estava escrito o porquê de Lampião ter todo o direito de estar e permanecer dentro do seu oratório.

Mas antes de entrar nas explicações bíblicas, disse que não cabia a nenhum padre ou pastor dizer quem ela deveria devotar ou não. A sua fé e a sua religião competiam somente a ela, que tinha como santo e acreditava somente em quem ela queria. E foi logo dizendo que a história de Lampião não era muito diferente de um monte de homens que foram pecadores, guerreiros, ladrões, tiranos, mas que com o tempo a igreja foi reconhecendo alguns dos seus méritos e santificando-os como verdadeiros mártires.

Em seguida perguntou se Lampião só havia praticado crueldade na vida, se era essa monstruosidade toda que os ignorantes diziam, se era um homem sem fé, sem religião e entregue somente ao mundo do pecado. Pelo que sabia, era um homem normal, como todos os santos da igreja, que um dia foi batizado, era apegado demais às coisas divinas, devoto de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Virgem Maria, temente a Deus acima de tudo, e que sempre rezava fervorosamente ao anoitecer e amanhecer.

E levantando a Bíblia disse que o padre deveria ler melhor suas entrelinhas, os verdadeiros fundamentos de suas palavras. E isto porque estava escrito em Eclesiástico 13,4: “O rico comete uma injustiça e em seguida se põe a gritar; o pobre, ofendido, guarda silêncio”. E Deus queria que Lampião deixasse toda aquela opressão sem resposta, sem esbravejar, sem lutar?

Por isso mesmo que foi perdoado por Deus pelos erros cometidos em nome de uma nobreza maior, que é lutar contra as injustiças. Ademais, está escrito em Hebreus 9.22: “conforme a lei, o sangue é utilizado, para quase todas as purificações, e sem efusão de sangue não há perdão”. Daí, padre, que se Lampião cometeu crime de sangue foi procurando purificar a região da crueldade dos verdadeiros bandidos. E há muito que foi perdoado. Argumentou a velha senhora.

E continuou dizendo que como a igreja havia reconhecido seus mártires e os tornado santos, bem assim ela reconhecia Lampião como um grande mártir do sertão. Lampião sofreu perseguições e tormentos até a morte; se sacrificou em nome daquilo que acreditava, que era ver sua terra sem tantas injustiças sociais; e não se desumanizou, pois morreu com Deus no coração.

E por último disse que como sua casa era sua igreja, daquele momento em diante já não era nem mais igreja, mas sim o Vaticano. E ela a sucessora de Pedro, e nesta condição acabava de promover aquela imagem de barro em santidade, em São Lampião. E se o padre estivesse achando ruim que botasse o pé adiante da porta.

Temeroso, o sacerdote deu a volta e saiu apavorado e sem direção. O pior não foi nem seu insucesso exorcizatório, mas sim o temor de que aquela conversa se alastrasse e parte do povo sertanejo chegasse ali em procissão buscando auxílio aos pés do santo bandoleiro.

Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE

Poeta e cronista

e-mail: rac3478@hotmail.com


Publicação autorizada através de e-mail de 30/06/2012

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A última ceia de Lampião - Autor: Rangel Alves da Costa


Era por volta da segunda dezena de julho de 38, na Gruta do Angico, nas beiradas do Velho Chico, nas terras da povoação sergipana de Nossa Senhora da Conceição do Poço Redondo, tendo o município alagoano de Piranhas do outro lado, um pouco mais à esquerda.

Ali ao redor da gruta se escondia o bando cangaceiro de Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião, em desconfortante repouso depois de chegar de longa jornada pela aridez baiana do Raso da Catarina.

O Capitão achava o local um refúgio seguro, pois de difícil acesso pelo lado sergipano e podendo contar com o grande número de amigos que mantinha na região, gente humilde, da mataria, mas também portentosos senhores de terras. Do coronel ao matuto, era significativo o laço de amizade construído.

Mas para se manter naquele coito, naquele refúgio de espinho, ao abrigo do sol e da lua, Lampião precisava muito mais do homem do mato do que de outra pessoa influente. E para tal não existia amigo melhor, mais confiável e mais conhecedor das veredas sertanejas do que o coiteiro.

No respeitante ao cangaço, coiteiro era aquele sertanejo que servia de intermediário entre o bando e o mundo exterior, fazendo às vezes de correspondente, de mercador, de assistente de quase tudo. Assim, era responsável pelo transporte do alimento, do remédio, de dinheiro e tudo aquilo que os cangaceiros necessitassem.

Muitas vezes somente o coiteiro sabia o local onde o bando estava escondido. E aquele que soubesse e lhe fosse confiado a manutenção do segredo - um juramento que deveria ser inquebrantável - entre o bandoleiro e o matuto, suportaria até a morte para não trair a confiança do Capitão. E muitos foram presos, torturados, humilhados, mas mantendo sempre o silêncio da honra.

Por isso mesmo que Lampião nutria uma amizade especial por cada um desses sertanejos, cada coiteiro que arriscava a vida em nome da sobrevivência e subsistência do bando. Sabia que seria muito difícil sobreviver nos escondidos sem tão importante ajuda. Sabia que do seu silêncio dependia o amanhã do seu povo marcado pelo destino das perseguições.

Daí que estando refugiado no Angico e na tentativa de estreitar ainda mais os laços de amizade e a rede de proteção, lá pra cima do dia vinte, mais precisamente no dia 27 de julho, resolveu que seria a hora de convidar a coiteirama para um regabofe, para um café à base de muita carne de bode e farinha seca. Tal evento ficaria lembrado na memória nordestina como A Última Ceia de Lampião.

Denomina-se ceia a refeição da noite, a última de cada dia; a última refeição do dia, entre o jantar e o sono noturno, ou em lugar do jantar. A Bíblia também relata uma santa ceia, que foi a última refeição de Cristo com os apóstolos, por ocasião da qual instituiu a eucaristia, e antes de ser preso e crucificado. Foi também nesta ocasião que Jesus revelou que um de seus discípulos iria traí-lo.

Talvez predestinado, intuindo o que fatalmente lhe estaria prestes a acontecer, Lampião resolveu que nesta refeição sertaneja homenagearia os fiéis matutos e procuraria olhar bem nos olhos daquele coiteiro tentado a fraquejar e traí-lo, apontando covardemente à polícia alagoana comandada pelo Capitão João Bezerra onde o bando estava escondido.

Assim foi feito. Aproveitou que o mais famoso dos coiteiros apareceu por ali cedinho e pediu a Mané Félix que providenciasse tudo o que precisava para a janta do anoitecer. E por ele mesmo mandou avisar, de boca em boca, a cada coiteiro para comparecer. E cada cabra veio até de longe atendendo ao chamado do amigo Capitão.

Quando o entardecer começou a tomar outra cor a carne de bode era estendida por cima das fogueiras abertas no chão. Coiteiro chegava trazendo uma pinga, uma comida diferente e logo se reunia aos demais. Todos, coiteiros e cangaceiros, com semblantes alegres e festeiros, menos o Capitão Lampião.

O Capitão tentava, a todo custo, fingir o pressentimento ruim que sentia, fazia de tudo para não abrir logo a boca e perguntar quem havia cometido o pecado da traição, quem havia revelado o paradeiro do seu bando. Ainda não tinha certeza do nome, mas tinha quase certeza de quem seria capaz de tal atitude.

Mas se conteve e procurou palavras de agradecimentos para os destemidos sertanejos, ainda que a todo instante tivesse vontade de apontar a arma em direção a um deles e dizer que era melhor falar a verdade para não morrer. Não fez assim, e por isso entristecia-se ainda mais. Sabia, pois, que o seu fim estava muito próximo, sentia isso por dentro.

Com pedaços de bode assado passando de mão em mão, Lampião enfim pediu silêncio e disse que infelizmente tinha algo a dizer que lhe cortava o coração. Um dentre vocês me traiu. Um dentre vocês que se serve do bode dessa refeição me traiu. Foi o que disse o Capitão. Todos se olharam assustados e começaram a se perguntar quem seria capaz de fazer tal absurdo.

Mané Félix, que estava sentado ao lado do rei dos cangaceiros, perguntou-lhe se podia dizer quem havia feito isto. E Lampião simplesmente respondeu que não adiantaria, pois ainda que dissesse o nome este negaria três vezes trezentas vezes. E completou dizendo que o remorso tomaria conta do coração traidor.

E contam que Pedro de Cândido, um dos coiteiros ali presentes, saiu de lá chorando. Nesse mesmo dia, mais cedo, na feira de Piranhas, ele havia contado à volante do capitão João Bezerra que Lampião e seu bando estavam refugiados no outro lado do rio, ali na Gruta do Angico.

E horas depois dessa última ceia, na madrugada do dia 28 de julho, a polícia atravessou o rio e cercou o bando, matando Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros.

Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE


Poeta e cronista



Publicação autorizada através de e-mail de 30/06/2012
  

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O papa-figo e outras medonhices

Autor: Rangel Alves da Costa

E de repente, bastava se avistar a poeira subindo ainda distante e a meninada começava a chorar, a gritar, a correr numa marcha só e se metendo no fundo dos quintais, nos monturos, mas principalmente embaixo das camas. Muitas delas se trancavam nos guarda-roupas e mais de vez, depois de muita busca e preocupações, foram encontradas a sono solto lá dentro.
E tudo por causa do papa-figo. Quando se ouvia falar do papa-figo até moça e rapaz se tremiam, pai de família e velho também, não conseguindo esconder o temor diante daquela estranheza toda. E se alguém, mesmo na zombaria, brincadeira de mau gosto, dissesse que o carro que poeirava adiante na estrada só podia ser do papa-figo, então era um deus-nos-acuda. 
Pelo nome, tão medonhamente pronunciado, logo se imaginava o pior: pessoas estranhas, maldosas e violentas, os temidos comunistas, chegando ali e arrancando com as mãos o fígado de quem fosse encontrando pela frente. E para comer vorazmente cru, saciando com o vermelho escorrendo do órgão do inocente sua sanha assassina, cruel.
Ora, pensar-se em comunistas era pensar em vermelho, cor de sangue, por isso mesmo muito mais pavor assim que um brincalhão alardeava que eles já estavam chegando com sua fome e sede. O povo, inocente demais, matuto, pensando realmente que o comunismo era um bicho horrendo e muitas vezes sem saber sequer o que era verdade ou mentira no que chegavam espalhando ali, então se iludia com a propagada governista e dava no que dava.
Verdade é que o governo tinha a preocupação de fazer chegar aos lugares mais inóspitos, nos sertões mais distantes, essa versão assombrosa sobre o comunismo, que segundo os seus interlocutores poderia chegar ao local através de pessoas disfarçadas de bons moços, mas que na verdade não passavam de cruéis devoradores do fígado de inocentes. Daí o termo papa-figo, no linguajar massapento.
Por isso mesmo que ao ouvir a simples menção de que os papa-figo poderiam estar chegando, já bastava para o mundo desandar. Contudo, nem todo mundo caía nessa lorota propagandística, pois dois velhos calejados do lugar, um ex-marinheiro de todos os portos e um amargurado ferreiro aposentado, comunistas convictos e de panfletagem, rebatiam os alarmes falsos dizendo que o carrasco do povo é a sua ignorância.
Os dois vermelhos de coração e ideias, se achando no direito de levantar suas bandeiras de luta e defender suas teses bolcheviques, faziam de tudo para que a população deixasse de ser enganada, caísse na realidade e tentasse ver quem era realmente o inimigo, quem eles deveriam temer, que era o próprio governo com suas mazelas e propagação de tantas injustiças sociais. Então começavam a explicar, dissuadir, discursar, mas não havia jeito. Bastava um gaiato soprar que os papa-figo estavam por perto e cada um já procurava sair de fininho.
Saía de fininho, se escondia, sumia, mas encontrando outro mundo não menos inocente e fabulesco. De velho a novo, com poucas exceções, todo mundo acreditava em botija enterrada e contendo riquezas de não acabar mais. Na minha família, em outros tempos, já aconteceu um caso assim, envolvendo essa riqueza doada do outro mundo, mas fruto de alguém da comunidade que voltava do reino dos mortos para dizer a pessoa de sua confiança aonde havia deixado uma fortuna enterrada.
Fico imaginando como uma pessoa que viveu o tempo todo na pobreza, ou quando muito na farta subsistência do ter apenas pra não faltar, iria enriquecer antes de morrer e somente depois, quando já não podia usufruir de tanto ouro e dinheiro, voltaria ao reino dos vivos, balançar a rede do adormecido e dizer que ali em tal lugar, embaixo de não sei o que, havia um sinal assim e assim, e que bastava desenterrar para encontrar riqueza.
Mas tinha de fazer isso sozinho, sem antes ter avisado a ninguém. Meia noite, e noite de pouca lua. E dizem que um parente meu desenterrou uma bem desse jeito. E talvez tenha enterrado depois em outro lugar e quando morreu esqueceu-se de voltar pra avisar onde estaria a salvação da lavoura.
Às vezes fico pensando nisso tudo como uma grande brincadeira. Mas Deus me livre de dizer isso lá pra minha terra. Certa vez um cabra disse que não acreditava em caipora e mesmo já velho caçador tomou uma surra desse encantado que ficou entrevado muitos dias em cima de uma cama. E até hoje todo mundo comenta esse caso e jura pela mãe-d’água que foi verdade.
Desse jeito, quem sou eu pra desacreditar?


Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE
Poeta e cronista

Publicações autorizadas pelos autores

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Arqueólogos encontram vestígios da existência do amor

Autor: Rangel  Alves da Costa

Depois de mais de mil anos de intenso e contínuo trabalho, arqueólogos da Universidade de Cardamore, em Sless-Heim, enfim encontraram vestígios daquilo que possa ser a prova definitiva de que algum dia o amor existiu.
Os vestígios arqueológicos, consistindo estes num manuscrito e num disco de Roberto Carlos da década de 70, podem ser as evidências mais consistentes encontradas até o presente momento acerca desse sentimento que todos discutiam sobre sua existência, porém sem jamais ter sido possível provar.
Fato instigante no importantíssimo achado diz respeito à presença do disco de Roberto Carlos no local. Certamente que não houve necessidade de datar esse achado com carbono-14, como fizeram com o manuscrito, mas evidenciou-se a eternização e até imortalidade de sua música, bem como a certeza de que esse Roberto Carlos que está aí já preexistia na figura de romântico rei desde os primórdios da humanidade.
Já o manuscrito, um frágil documento pré-histórico escrito por cima de um misto de argila e papiro, continha mais símbolos, desenhos e figuras, do que propriamente palavras. Na verdade, era apenas uma curta frase abaixo das ilustrações, de modo direto e lacônico: Sim, ele existiu. E como foi bom ele ter existido!
Ora, mas o que existiu e foi bom que ele tivesse existido? A resposta logicamente somente poderia ser deduzida a partir da análise das ilustrações, e por tal meio até que poderia ser fácil demais, depreendendo-se rapidamente o seu significado, pois os tais símbolos, desenhos e figuras representavam, dentre outras coisas, corações pulsando, lábios se beijando, corações entrecortados por setas e lágrimas descendo do olhar.
O amor, não se poderia imaginar outra coisa senão o amor. Estava tudo ali representado: o namoro, a união, a troca de carícias, a paixão, o desejo, o querer, o impulso, mas também talvez o sofrimento, a dor amorosa, a perda do amado, o adeus, a despedida. E nada mais compreensível que seja assim, pois ali estava o beijo, o coração e a lágrima. E o amor é afeição, mas descontentamento também.
Contudo, os arqueólogos responsáveis pela descoberta não deixaram de demonstrar uma pontinha de descontentamento, vez que desde o início das investigações – há mais de mil anos atrás, reafirme-se – a pretensão maior era encontrar vestígios não só do amor romântico, mas também e principalmente do amor fraternal, cordial, sentimento maior que sempre se imaginou existir no coração das pessoas. Não lograram êxito neste sentido, infelizmente.
Por anos e anos, desde a mais tenra idade dos tempos, sábios, filósofos, videntes, magos e toda uma leva de estudiosos do comportamento humano, tentavam encontrar alguma evidência plausível da existência das diversas formas de amor entre os seres humanos. O que mais instigava é que não havia mais dúvida da existência desse grandioso sentimento nos animais ditos irracionais. Mas nas pessoas sempre foi difícil fazer tal reconhecimento.
Quanto mais o tempo passava, o progresso chegava, a vida se tornava mais fácil para os humanos, mais se tornava difícil encontrar o amor nas relações sociais e até familiares, no convívio que deveria ser amigável por natureza, no passo de cada um perante a vida. E chegou um tempo que a violência, a brutalidade, o desrespeito ao próximo e as crescentes discriminações existentes, acabaram por deixar os pesquisadores sem qualquer esperança.
Contudo, como a ciência jamais silencia ou se esconde diante daquilo que quer provar, e depois de muita luta em busca de patrocínio para a continuidade dos trabalhos arqueológicos, os pesquisadores da Universidade de Cardamore encontraram, enfim, parte das explicações que desejavam: o amor ainda existe, ao menos diante dos vestígios encontrados, o manuscrito e o disco de Roberto Carlos. Mas apenas o amor amoroso, infelizmente.
Segundo a Revista Científica “Amarcord”, o passo seguinte dos pesquisadores – e talvez o mais difícil – será descobrir porque desde o início dos tempos os enamorados já cantavam “Não adianta nem tentar me esquecer/ Durante muito tempo em sua vida eu vou viver...”.


Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE
Poeta e cronista

Publicações autorizadas pelos autores

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Borboletas noturnas


Autor: Rangel Alves da Costa

Nunca mais chorei meu pranto, nunca mais meu desencanto, nunca mais cantei meu canto. Tudo isso era noturno, após o entardecer, misturado ao cacau derramado da noite, olhando a misteriosa lua.
Minha janela é testemunha da minha presença diante da ausência de tudo. Bastava o sol ir tomando a cor de fogo para depois esmorecer e as cortinas começavam a dançar a suave dança da ventania. Dali a pouco eu estaria ali.
Feito relógio de sopro, o vento mais forte sabia a hora de chegar trazendo seu buquê de alegrias e tristezas. Uma saudade imensa, uma tristeza infinita, uma triste recordação, mas também, de vez em quando, um laivo de esperança e reviver.
Por diversas vezes ouvi uma música ao longe, melodia sem instrumento algum, mas fruto dos acordes da brisa. E, numa voz de anjo, entoava algo como para que chorar o que passou, lamentar perdidas ilusões, se o ideal que sempre nos acalentou renascerá em outros corações...
A janela parecia se abrir mais quando ia me aproximando. As cortinas faziam uma leve saudação e abriam passagem ao tudo de mim que chegava. Tudo e muitas vezes metade, apenas pedaços. Tantas vezes cacos juntados onde não se reconhecia ninguém.
Ah, quanta esperança em cada passo, ainda que o desencanto não me soltasse o laço. Pensar no amor sim, imaginar amando sim, sentir que ela bem que poderia estar ali ao meu lado para ouvir a música que chegaria.
Mas meu amor não existe. Meu amor não está aqui nem irá chegar. Amo sozinho porque quero amar, e me apaixono assim porque quero sonhar. E se amo tanto assim na solidão, que doce será a música cantada no verso do beijo e do abraço. Algum dia. Talvez algum dia...
Mas meu amor não existe para dizer se nesse momento estou alegre ou triste. Meu bem querer não está aqui para o beijo na face nem o abraço apertado. Só tenho tido, juro, o afago desse fim de tarde e quase noite, num abraço que me chega num açoite.
Quando a lua desce macia e pelo jardim as cigarras brigam com o silêncio das coisas, então sei que já é hora de fazer minha prece e acender meu incenso. E a leve fumaça começa a subir cheirando a lavanda, alecrim, manjericão. Gosto de jasmim e de almíscar, mas não há aroma mais confortante do que arruda.
Quando o aroma do incenso se espalha pelo ar algo muito especial acontece em seguida. Todos os dias, logo após o incenso ser aceso, borboletas entram pelo vão da janela ainda aberta e vão tomando conta de todos os espaços.
Não são muitas. Cinco ou seis, nunca mais que isso. Mas são borboletas noturnas que talvez não sejam também borboletas noturnas. Ouvi dizer um dia que tais insetos possuem hábitos estritamente diurnos. Então por que invadiriam minha vida noturnamente?
O voo das borboletas noturnas é muito diferente da planagem que as outras fazem no mundo lá fora, lá pelos jardins. Voam em sincronia, em sintonia com o vento que ainda sopra, parecem valsar um Danúbio maravilhosamente azul.
Valsam, voam, voejam, e de repente vão deixando marcas pelo ar. Soltam uma pequena nuvem esbranquiçada contendo espantosas palavras, um nome, dizeres de amor. Já li um verso, já vi o nome do meu amor.
Na semiescuridão sempre leio o nome do meu amor. Não sei o nome do meu amor, porém sei que aquele é o nome do meu amor. Nunca está escrito o nome completo, nada como Maria ou Joana, apenas letras que sei que são do nome do meu amor. Por não ter quem amar, imagino qualquer nome e já amo.
Sempre adormeço enquanto as borboletas noturnas esvoaçam ao meu redor. Cansado de tanto amar não amando, derramo o copo de vinho e deito quase beijando a bebida. E quando amanhece recolho no ar todas as letras já inexistentes para formar um nome.
E todas as vezes que faço isso só encontro letras que formam o seu nome. Mas como você não me ama não vou dizer o seu nome.


Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE
Poeta e cronista

Ilustração
Edmar Sales

Publicações autorizadas pelos autores



segunda-feira, 25 de março de 2013

Lágrimas profundas de um desamor


Autor: Rangel Alves da Costa
 
Deixe-me chorar minha lágrima, padecer meu pranto, entristecer de vez...
Deixe-me assim tão silencioso e rio, tão desalento e mar, tão angustiado e temporal.
Deixe-me com minha tempestade, com minha inundação, com minha insanidade. Raios, trovões, relâmpagos, esse céu que se corta sobre minha cabeça e se torna flecha em meu peito e tudo.
Foi somente uma palavra. Uma só palavra. Uma palavra. Palavra para dizer adeus. E disse adeus com borracha, com tinta fresca, com tapume, com outra cor sobre tudo.
Simplesmente disse adeus como se mil anos de nossas vidas fosse apenas um muro que se apaga num gesto o que há tanto tempo estava escrito.
E na palavra a borracha, a tinta fresca, o tapume, uma cor sobre tudo...
Disse adeus e depois a porta, depois a rua, depois a esquina, depois a sombra, depois o nada. E o que ficou para trás ficou para trás.
Os passos não alcançam aos que caminham sem volta. E não merece busca quem escolhe seguir adiante sem a mão que lhe ajudaria a caminhar.
A sombra que virou a esquina e o mundo construído que se perdeu, que foi embora, não restarão senão como espaço vazio em quem ficou. Em mim.
Mas eis a visão da sombra na sombra do quarto vazio, ao lado do corpo vazio, escorrendo pelo olho de rio, imenso caos no olhar que se perde em nuvens.
Se tudo fosse diferente e de repente a vida no lugar do vazio, da solidão, do medo, da eternidade que se anuncia. E tudo é diferente, e de repente o nada, o vazio, o caos...
O grito não quis gritar por medo de ser ouvido e o olhar se voltar apenas para confirmar o adeus. A boca não quis falar porque já não existia. Não podia mais.
Somente um desamor assim para tudo ser vento, folha de outono, restos que voam no ar. Está adiante e já não está, e o olho se perde querendo achar.
Ah, você diria que eu não deveria amar assim. Você diria que eu não deveria chorar assim. Você diria que eu não deveria sofrer assim. Você diria tudo. Mas você não seria capaz de sentir o amor que sinto.
Grande honra reconhecer o amor, reconhecer que ama, reconhecer a falta que faz. As casas desabam porque há feridas nas estruturas, e não porque o vento soprou nos seus lados.
O amor se completa em si mesmo, é tudo, é mais. Não será verdadeiro aquele amor somente na presença do outro. E por ser tudo, será ainda amor mesmo que o outro não deseje mais amar.
O vento sopra a fogueira, apaga a chama, mas deixa a brasa; a correnteza leva o manto da areia, mas deixa a semente plantada; a cortina esvoaçada cortando o silêncio, porém a mudez permanece; o amor desama em um, mas no outro metade desse amor permanece.
E o outro sou eu, permanecendo no amor. E pouco importa se apenas sou parte, se sou apenas o verso do espelho, se sou a metade escondida, se sou o pouco que resta. Mas tudo uma parte e parte de tudo que já não é mais.
Não é mais o amor na parte que foi, que saiu, que disse adeus, que virou sombra, que dobrou a esquina, que sumiu. Mas na outra parte, a parte que sou, permanece o amor inteiro, completo, absoluto.
E não me diga do erro de amar assim. Fingir o amor quando tudo acaba é a covardia dos apaixonados que não sabem amar. Não sou assim. Se amo com amor assim permaneço amando, ainda que nunca mais a outra parte perdida.
E se amo assim, dou-me o direito de expressar a saudade, a angústia, a aflição, a tristeza, o sofrimento, tudo, da maneira mais honesta que alguém possa ser consigo mesmo: chorando sem medo e sem culpa. Apenas chorando.
Então me deixe assim tão tristonho e rio, tão sentimental e mar, tão angustiado e temporal.
Deixe-me com minha tempestade, com minha inundação, com minha insanidade. Raios, trovões, relâmpagos, esse céu que se corta sobre minha cabeça e se torna flecha em meu peito e tudo.
Deixe-me assim. Deixe-me ficar assim. Seria mentira não estar assim.


Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE
Poeta e cronista
Publicação autorizada pelo autor

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Como matar borboletas

Autor: Rangel Alves da Costa

A que ponto o homem se desumaniza, se rebela contra si mesmo, se insurge contra as belezas da vida, se revolta contra os melhores sentimentos, e por tudo isso procura destruir a si mesmo e ao que encontra ao redor?

Aparentemente, não é coisa de gente normal sair por aí devastando canteiros, destruindo flores, matando borboletas e colibris. Só mesmo a insanidade para querer manchar a tela do entardecer, envenenar a nascente do rio de sua aldeia, erguer muros para impedir a passagem da brisa pela janela.

Seria um absurdo, mas tão verdadeiro como o espanto. Tem gente capaz de tudo, que só vive pensando negativamente, tramando destruições, agindo para que tudo dê errado na vida, torcendo para o pior acontecer.

E faz isto não só perante o mundo do outro como em desfavor do seu próprio mundo. Quem lentamente vai se autodestruindo, seja pelos vícios mundanos ou pela inatividade na preservação da saúde física e mental, certamente orgulha-se da destruição de tudo ao redor.

Tanto faz a vida como o viver. É daqueles que ajuda acumular o lixo nos bueiros e canais, destrói toda forma de vida que esteja no seu quintal ou ao seu alcance, sai por aí jogando bagulho nas ruas, riscando paredes, achando feio tudo que seja bonito.

Tanto faz como tanto fez que a floresta esteja sendo devastada, a natureza destruída, a poluição aumentando assustadoramente, os efeitos dos gases tóxicos se acumulando pelo ar e descendo destrutivamente perante as hortas, jardins e pomares.

O que seria então uma borboleta diante de tudo isso, diante do caos absorvido com gratidão e da satisfação com a má qualidade de vida sob todos os aspectos? O que seria de uma borboleta que inocentemente pousasse no ombro de gente assim, e bem no instante em que o mesmo estivesse de serra elétrica na mão para derrubar o flamboyant que ainda resta no canteiro?

Ora, borboletas são quase nada. São apenas pequenos insetos da ordem dos Lepidópteros, cujas espécies são diurnas e ao pousarem geralmente suas asas ficam em posição perpendicular ao corpo; são insetos alados diurnos, que têm asas membranosas comumente coloridas e se desenvolvem a partir de uma lagarta.

Borboletas são quase nada. Ou são seres cuja metamorfose – pois geradas a partir de lagartas – simboliza a transformação, o renascimento e a imortalidade? Ou um mistério tão profundo abarcando um ser disforme e rastejante para se transformar numa inigualável beleza esvoaçante?

Borboletas não são nada. E nada porque não há nenhuma beleza ou magia no seu passo alado, no seu voo matinal, na sua viagem ao entardecer, no seu pouso e repouso sobre as flores e frutos, na sua amizade com a natureza e a vida. Não há nada ali, nada, absolutamente nada. O que significam cores querendo sorrir?

Nada. E nada porque talvez suas cores sejam insignificantes, seus tons contrastantes não produzam nenhum genial efeito, suas diversas espécies são apenas imaginação do olhar que não aceita qualquer beleza, muito menos inigualável beleza. Mas não há nada ali, apenas uma borboleta soltando versos encantados na manhã sonolenta...

Talvez as borboletas não existam, sejam apenas metáforas. E se acaso existentes será preciso matá-las, destruí-las, dizimá-las. Mas como fazer para matar borboletas, se igualmente às lagartas que lhe deram vida, não morram, apenas se transformem em outros seres alados que continuarão voando alegremente pelo jardim?

Só há uma maneira de matar borboletas, e de modo que elas não se transformem nem renasçam em outras espécies. E é muito fácil fazer isso. Feche sua janela, apague sua luz, apenas sinta a escuridão sem adormecer. Elas podem voltar no sonho.

E no dia seguinte não abra a porta. Não abra nunca mais. O que não aprecia a vida, não vive plenamente a vida, não merece viver. E só mais uma coisa: borboletas também passeiam por cima de túmulos.




Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE

Poeta e cronista
Publicações autorizadas pelos autores


Comentários:
 
Que texto mais bonito! Gostei de ler tudo mas esse parágrafo é especial. Peço licença para enfeitar o meu comentário com ele: "Borboletas não são nada. E nada porque não há nenhuma beleza ou magia no seu passo alado, no seu voo matinal, na sua viagem ao entardecer, no seu pouso e repouso sobre as flores e frutos, na sua amizade com a natureza e a vida. Não há nada ali, nada, absolutamente nada. O que significam cores querendo sorrir?"
Meus parabéns!
Maria Mineira

 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A afinidade entre o espinho e o pé

Autor: Rangel Alves da Costa

Por mais contraditório que possa parecer, algo assim como a paz e a guerra, a tristeza e a alegria, mas a verdade é que o espinho e o pé possuem muito mais afinidade entre si do que possa imaginar nossa vã filosofia.
 
Verdade é que os dois se aproximam, se buscam, guardam entre si um complexo relacionamento de amor e ódio. Daí serem tão próximos um do outro e tão distantes, viverem se buscando e se afastando, estando ou passando pelo mesmo caminho, sabendo que estarão juntos e evitando o encontro.

Mas é realmente um relacionamento complicado, cheio de exageros. Tomando o exemplo da relação amorosa, o espinho seria apaixonado e o pé dando uma de difícil e evitando sempre a aproximação, ainda que saiba da possibilidade de qualquer dia ser alcançado pela flecha pontiaguda do outro.

O espinho é amante, apaixonado solitário que passa os dias esperando o seu amor. Quase sempre no mesmo lugar, sofre debaixo do sol e da chuva, de vez em quando é enxotado dali, e tudo na expectativa de que a qualquer momento comece a ouvir os passos na estrada, comece a sentir a chegada do pé. Pé ante pé, a aflição no coração tão amante.

O relutante pé - querer que vive fugindo do seu amado - não procura se afastar sem grandes motivos para tais. Como qualquer ser, teme que a proximidade, o encontro, a relação, seja difícil demais. Sempre teme a pontada, a dor, a vontade de chorar, o grito, até mesmo o sangue jorrando de suas entranhas.

Muita gente poderia achar o contrário, mas a verdade é que o espinho possui mais fama de perigoso do que merece. Nasceu para ser daquele jeito e ninguém pode mudar isso; veio ao mundo para ficar jogado, abandonado e esquecido pelo meio dos caminhos e ninguém procura compreendê-lo.

O espinho não nasce na estrada, no caminho, na vereda ou em qualquer outro lugar que seja encontrado. Está ali porque trazido pelo vento, porque alguém passou com um tronco de árvore e o fez cair, porque caiu de uma planta ali existente. Nessa condição de desalento passa os seus dias, tendo ainda de suportar o medo que causa aos outros sem ter a menor culpa.

Muitas vezes é mais ferido do que pode ferir. Costumeiramente passam por cima com botas ou botinas esmagando tudo; não é difícil que rodas estraçalhem até a alma; quase sempre caminham dando pulinhos para evitar o encontro. Mas o mundo vem abaixo quando um pé desatento e descalço pisa bem no lugar que está repousando. Então começa o xingamento desde a sua primeira geração.

Mas isso é feito pela pessoa, pela dona do pé, e não pelo próprio pé. Como já afirmado, todo pé sente um desejo escondido pelo espinho que encontra. Num jeito masoquista de ser, finge não querer encontrá-lo, se treme todo diante da aproximação, mas gosta da pinicada, da pontadinha, da ponta afiada entrando na pele, da dor diferente causada.

Dependendo do impulso com que o pé vá de encontro ao espinho, dificilmente este não ficará grudado. O pé gosta, permite que ele lhe atinja, avance e vá além da pele. A dor ainda não é sentida, mas apenas uma pontadinha igual àquela que o coração sente quando amorosamente se assusta. Mas depois, assim que a fisgada alcança o ponto sensor cerebral começa a reviravolta.

Igual a pai que não quer filha namorando, se sente ofendido quando encontra a sua mocinha com outro, bem assim faz o cérebro com o pé. Imediatamente transmite a dor para o local e faz com que o pé se revolte com a atitude do espinho. Se a dor era fininha, torna-se intensa, se a pinicada não afetou quase nada tudo se torna num escarcéu.

Mas a verdade é que o pé faz isso forçadamente. O desejo de todo pé é conviver bem com o espinho, um acolhendo o outro sem problemas maiores. É amor, e outra coisa não é. E tanto é assim que as lágrimas de sangue só ocorrem depois da separação, quando o espinho é tirado do pé.



Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE
 
Poeta e cronista
 
Publicações autorizadas pelos autores

sábado, 27 de outubro de 2012

O papa-figo e outras medonhices

Autor: Rangel Alves da Costa
 
E de repente, bastava se avistar a poeira subindo ainda distante e a meninada começava a chorar, a gritar, a correr numa marcha só e se metendo no fundo dos quintais, nos monturos, mas principalmente embaixo das camas. Muitas delas se trancavam nos guarda-roupas e mais de vez, depois de muita busca e preocupações, foram encontradas a sono solto lá dentro.
 
E tudo por causa do papa-figo. Quando se ouvia falar do papa-figo até moça e rapaz se tremiam, pai de família e velho também, não conseguindo esconder o temor diante daquela estranheza toda. E se alguém, mesmo na zombaria, brincadeira de mau gosto, dissesse que o carro que poeirava adiante na estrada só podia ser do papa-figo, então era um deus-nos-acuda. 
 
Pelo nome, tão medonhamente pronunciado, logo se imaginava o pior: pessoas estranhas, maldosas e violentas, os temidos comunistas, chegando ali e arrancando com as mãos o fígado de quem fosse encontrando pela frente. E para comer vorazmente cru, saciando com o vermelho escorrendo do órgão do inocente sua sanha assassina, cruel.
 
Ora, pensar-se em comunistas era pensar em vermelho, cor de sangue, por isso mesmo muito mais pavor assim que um brincalhão alardeava que eles já estavam chegando com sua fome e sede. O povo, inocente demais, matuto, pensando realmente que o comunismo era um bicho horrendo e muitas vezes sem saber sequer o que era verdade ou mentira no que chegavam espalhando ali, então se iludia com a propagada governista e dava no que dava.
 
Verdade é que o governo tinha a preocupação de fazer chegar aos lugares mais inóspitos, nos sertões mais distantes, essa versão assombrosa sobre o comunismo, que segundo os seus interlocutores poderia chegar ao local através de pessoas disfarçadas de bons moços, mas que na verdade não passavam de cruéis devoradores do fígado de inocentes. Daí o termo papa-figo, no linguajar massapento.
 
Por isso mesmo que ao ouvir a simples menção de que os papa-figo poderiam estar chegando, já bastava para o mundo desandar. Contudo, nem todo mundo caía nessa lorota propagandística, pois dois velhos calejados do lugar, um ex-marinheiro de todos os portos e um amargurado ferreiro aposentado, comunistas convictos e de panfletagem, rebatiam os alarmes falsos dizendo que o carrasco do povo é a sua ignorância.
 
Os dois vermelhos de coração e ideias, se achando no direito de levantar suas bandeiras de luta e defender suas teses bolcheviques, faziam de tudo para que a população deixasse de ser enganada, caísse na realidade e tentasse ver quem era realmente o inimigo, quem eles deveriam temer, que era o próprio governo com suas mazelas e propagação de tantas injustiças sociais. Então começavam a explicar, dissuadir, discursar, mas não havia jeito. Bastava um gaiato soprar que os papa-figo estavam por perto e cada um já procurava sair de fininho.
 
Saía de fininho, se escondia, sumia, mas encontrando outro mundo não menos inocente e fabulesco. De velho a novo, com poucas exceções, todo mundo acreditava em botija enterrada e contendo riquezas de não acabar mais. Na minha família, em outros tempos, já aconteceu um caso assim, envolvendo essa riqueza doada do outro mundo, mas fruto de alguém da comunidade que voltava do reino dos mortos para dizer a pessoa de sua confiança aonde havia deixado uma fortuna enterrada.
 
Fico imaginando como uma pessoa que viveu o tempo todo na pobreza, ou quando muito na farta subsistência do ter apenas pra não faltar, iria enriquecer antes de morrer e somente depois, quando já não podia usufruir de tanto ouro e dinheiro, voltaria ao reino dos vivos, balançar a rede do adormecido e dizer que ali em tal lugar, embaixo de não sei o que, havia um sinal assim e assim, e que bastava desenterrar para encontrar riqueza.
 
Mas tinha de fazer isso sozinho, sem antes ter avisado a ninguém. Meia noite, e noite de pouca lua. E dizem que um parente meu desenterrou uma bem desse jeito. E talvez tenha enterrado depois em outro lugar e quando morreu esqueceu-se de voltar pra avisar onde estaria a salvação da lavoura.

Às vezes fico pensando nisso tudo como uma grande brincadeira. Mas Deus me livre de dizer isso lá pra minha terra. Certa vez um cabra disse que não acreditava em caipora e mesmo já velho caçador tomou uma surra desse encantado que ficou entrevado muitos dias em cima de uma cama. E até hoje todo mundo comenta esse caso e jura pela mãe-d’água que foi verdade.

Desse jeito, quem sou eu pra desacreditar?



Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE

Poeta e cronista




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