terça-feira, 13 de março de 2012

Monólogo triste - Autora: Celêdian Assis

Poucos dias se passaram desde que eu assistia deslumbrada ao espetáculo amarelo dos ipês, resistindo no cerrado, nas matas, nas estradas por onde passei, num agosto ressequido, poeirento. Olhei para as montanhas ao fundo, esmaeceu-se o verde e deu lugar aos galhos, folhas e gravetos secos, prontos para se tornarem fumaça e transformar as belas paisagens em pastos negros de carvão.

Tudo em volta se ressentiu. O pequeno bando de tucanos com seus bicos de um colorido alaranjado ímpar, que eu via da minha janela, pousados no abacateiro, nas manhãs e nos finais de tarde, parece, não estão mais tão felizes por aqui, andam afoitos, assim como aquele enorme bando de maritacas barulhentas, de um verde que antes se confundiam com as folhas das árvores, as vejo nitidamente, pois somente o verde delas agora sobressai, enquanto não chega a primavera.

E eu cismava inquieta, sentindo a dor da natureza. Os pássaros perdendo seus ninhos nas matas, quiça o seu alimento, e para onde migrarão? Tenho visto alguns migrando para as cidades, quem sabe tentando conviver harmonicamente com o bicho homem na sua selva de pedra, mas tenho minhas dúvidas se sobreviverão. Quem será que terá o prazer de vê-los ainda em feliz revoada? Os filhos de meus filhos conhecerão de perto um tucano, uma maritaca? A alcatifa agora cinzenta, queimaram-na, renascerá das cinzas e sabe-se lá o que a sucederá. Talvez pasto para o gado, talvez arada, será terra de cultivo, ou quem sabe só lhe queimaram para impedir o mato de crescer. Quem sabe a dor que o mato sente, quando as labaredas lambem-no fogosas?

Vi também o riachinho de água transparente escorrendo sobre as pedras lodosas. Terá sido antes uma cachoeira, foi minguando de dor e secando as lágrimas por tanto desamor?

Lembrei-me de Juca Mulato, de Menotti del Picchia, ele ouvia a voz das coisas, numa conexão mágica com o céu e a terra:
“Era um brado: “Queres tu nos deixar, filho desnaturado?"  E um cedro o escarneceu: “Tu não sabes, perverso, que foi de um galho meu que fizeram teu berço?” E a torrente que ia rolar no abismo: "Juca, fui eu quem deu a água para o teu batismo". Uma estrela a fulgir, disse da etérea altura: "Fui eu que iluminei a tua choça escura no dia em que nasceste.” (A voz das coisas, in Juca Mulato, M. del Picchia).

Cismava em diálogo com o telúrico universo, “Nuvens voam pelo ar como bandos de garças...” (Germinal, M. del Picchia). “Tudo ama! As estrelas no azul, os insetos na lama, a luz, a treva, o céu, a terra, tudo, num tumultuoso amor, num amor quieto e mudo, tudo ama! Tudo ama!” (Fascinação, M. del Picchia).

Ouço como o Juca, a voz da natureza. Acrescento, tudo ama, os bichos, as coisas... e o homem tem amado a si mesmo, com igual fascinação, o suficiente para preservar a sua vida?

Este texto retrata a minha tristeza ao visitar a minha terra natal e constatar o poder de devastação pelas ignorantes queimadas.

Celêdian Assis – Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada pela autora através de e-mail de 13/03/2012

9 comentários:

Casal 20 disse...

Celêdian, lindo! Tocante, sincero e terno. Embora monólogo, sei que há um coro de vozes que cantam contigo o teu canto triste. Parabéns.

Fábio.

Celêdian Assis disse...

Obrigada Fábio pela sua leitura e tem razão quando diz que há um coro cantando esta tristeza. Sim, um coro daqueles que são sensíveis aos absurdos que homem vem cometendo contra a própria vida, quando destrói a sua própria casa.
um abraço.
Celêdian

Ana Bailune disse...

Muito lindo o seu texto, embora seja triste a realidade que ele relata... parabéns por tirar beleza de algo tão triste!

Carlos Costa disse...

Colega, a descrição que a amiga faz da natureza, dos tucanos voando, dos ipês floridos é algo de magnífico. Pena que aqui no Amazonas só existam duas estações: verão de sol forte e inverno de chuva intensa. Mas como conheço sua terra, sei do que a amiga está falando pois morei nas cidades de São João Del Rey, na Avenida Amazonas, bem no centro e vi muitas paísagens como a amiga as descreve e fui conduzida por você até BH que tanto amo também, sem sair de minha poltrona de onde escrevo agora esse comentário. Bj em seu coração amiga!

Carlos Lopes disse...

Amiga, a frase é batida: Quem ama cuida. Ou falar é fácil. Amar a natureza todos dizem amar, cuidar somente uns poucos. O ser humano precisa se atentar para essa necessidade. Seu texto é lindo e é um alerta a todos nós. Aliás, estou ficando velho e adquirindo meus próprios meios de identificar quem ama a natureza e os animais a minha maneira. Quando quero ir fundo a respeito de alguém costumo saber sobre sua convivência com animais ou suas plantas. Pra mim, funciona. Quem diz que ama a natureza e entrega um animal de pequeno porte a uma criança, ou também faz pouco caso da natureza, não pode gostar de nenhum dos dois. Bom, minha teoria só funciona pra medir caráter das pessoas. Este seu maravilhoso texto, por exemplo, somente agora vim perceber e lhe pedir pra postar. Enfim, ninguém é perfeito.

Celêdian Assis disse...

Obrigada Ana Bailune, pelo gentil comentário. Às vezes é preciso desvendar os olhos e enxergar quanta beleza se perde nos cenários tristes.
Um abraço.
Celêdian

Celêdian Assis disse...

Obrigada Carlos Costa, pela sua apreciação de meu texto, pela sua visita ao meu blog e pelas palavras que lá deixou. Conheço também a sua terra, onde passei quase um mês (faz muito tempo) e entendo do que fala das estações extremas na região. Estive em Manaus, Tabatinga e outras pequenas cidades. Vi muitas maravilhas naturais e foi uma viagem inesquecível. Sobre as paisagens que descrevi, são de minha terra natal, Piracema, uma cidadezinha bem perto de BH, onde vou semana sim, semana não, a trabalho. Por conta disso, percorro sempre a zona rural. Gosto de registrá-las em fotos e vejo o quanto tudo mudou nos últimos tempos. O caso dos tucanos é real e eu os via sempre nas árvores do quintal de minha casa. Hoje quase não os vejo mais. Curiosamente, vejo mais pássaros por lá,esfomeados talvez, fugindo de seu habitat natural, que vai sendo extinto gradativamente. Vejo tudo com muita tristeza, mas ainda espero que o homem acorde a tempo.
Um abraço
Celêdian

Celêdian Assis disse...

Obrigada meu amigo Carlos Lopes, seu comentário é muito pertinente e é verdade que muitos homens ainda não atentaram para o mal que vêm fazendo a si mesmos. A casa que não é cuidada, um dia desmorona. A análise comportamental que faz das pessoas e pela qual justifica-lhes o caráter é muito interessante. Lidar com a natureza, seja da fauna ou da flora, requer imensa sensibilidade e só os homens sensíveis serão capazes de moldar o seu caráter de modo a serem capazes de conviver respeitosamente com todos os seres que o rodeiam.
Um grande abraço.
Celêdian

Carlos Costa disse...

Companheira Celêdian Assis: o personagem narrador de meu livro O HOMEM DA ROSA quer doar a rosa para quem desejar plantá-la e cultivá-la, mas as várias pessoas não a aceitam porque só percebem aquilo que os olhos mostram e não o que é essencial à vida: beleza, perfume, espinhos, luta...e em seu maravilhoso texto, percebi a amiga querendo dar seu recado de forma perfeita. E deu. Maravilhosamente. O Carlos Lopes teve muita sensibilidade emocional ao fazer a publicação desse seu texto, colega. Um abraço aos dois.