domingo, 23 de abril de 2017

Uma ¨estória¨ mal contada - Autor: André Bessa

Ilustração original: André Bessa


João Guimarães Rosa, autor do qual li uma meia dúzia de obras mas das quais releio apenas duas, no seu último livro —"Tutaméia"— introduziu a palavra estória. E, dentro desse nosso espírito quase passarinheiro de imitar todo novo que se canta entre os buritís, tal palavra foi logo assimilada e rapidamente adotada por quase todo mundo. Sem que o real conhecimento e nem a validade de tal conceito fossem sequer questionados! Guimarães Rosa apresenta a sua estória dentro da conotação de quase uma anedota, em contraste à História, ciência que estuda o ser humano e sua ação no tempo e no espaço, e à história, mera narração de fatos que se relacionam a um determinado assunto. Em sua vaidade intelectual, Rosa quis deixar aos pósteros, além de uma obra cuja originalidade estética e estilística já era indiscutível, uma outra "marca registrada" de seu talento em inventar palavras e verbos. Todavia, o que para muitos possa parecer um neologismo rosaniano e genial, na verdade, não passa de uma adaptação literal da palavra de língua inglesa story, a qual ele adotou, prosaicamente, em forma, modificando-lhe, porém, levemente o conteúdo. 

Ora, a palavra estória não existe em nenhum dicionário da língua portuguesa e sim história, com agá e i. Em nossa língua a palavra história (com h minúsculo) diferencia-se de História (com H maiúsculo) exatamente como, em inglês, diferenciam-se story e History. E por que isso? ora, porque história, em português, tem uma etimologia própria, ao passo que estória não. No entanto, Guimarães Rosa diferencia o estória dele da palavra história, e vai mais longe ainda: ele a opõe à palavra História. Em suas próprias palavras, ele diz que "A estória não quer ser história.  A estória, em rigor, deve ser contra a História.  A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota." 1

Logo, estória é uma palavra de validade unicamente circunscrita à sua obra e, se adotada por terceiros, que seja feita sob uma ressalva do gênero "segundo Guimarães Rosa", ou "parafraseando o autor mineiro", etc etc. Mas o brasileiro não gosta de muita explicação, de muito raciocínio, de muita tecnicidade. Em nosso velho hábito de buscar sempre a coisa pelo seu lado mais fácil e o menos cansativo, nós nos esquecemos de considerar as imprecisões que certas adopções podem trazer consigo. E no caso de estória, o mal já está feito. Ao adotarmos, à maneira de um corrupião, a palavra estória — cuja validade, repito, se insere unicamente no contexto da obra de Guimarães Rosa — como sendo um vocábulo inerente à língua portuguesa, nós cometemos dois êrros fundamentais: 1. o de utilizar uma palavra que não está catalogada em nenhum dicionário de nossa língua; e 2. de usá-la sem um conhecimento maior da acepção que Rosa lhe deu, a dizer, a de ser quase uma anedota.

Guimarães Rosa conhecia razoavelmente bem inglês e francês, e se valeu desse conhecimento para adaptar e depois inserir em sua obra esse temerário neologismo. A palavra francesa "anecdote" significa pequeno fato ocorrido a um momento preciso da existência de um ser, à margem de eventos dominantes e, por esta razão, pouco conhecido. Essa mesma definição sublinha o aspecto pitoresco, hilário ou picante que possa vir a ter esse fato. A língua francesa distingue igualmente a palavra histoire (com h minúsculo) da palavra Histoire (com H maiúsculo) tal e qual as distinguimos na nossa língua. E, pôsto que anedota em nossa língua tem conotação diferente da francesa anecdote, o que se prestaria a confusões maiores, Guimarães Rosa optou então pela grafia de estória, que vem diretamente da palavra em inglês story, equivalente à palavra história em português, porém, inserindo-a dentro da conotação da palavra francesa anecdote

As pessoas, que ouviram o galo (francês) cantar mas sem saber em que quintal ele se encontrava, pegaram a estória andando e trafegam até hoje neste bonde (inglês) sem saber para onde ele vai. Pessoalmente, me dói quando vejo (e, infelizmente, é quase sempre) pessoas empregarem a palavra estória no lugar de história. Assim como escrevem causo em lugar de caso. E, vejam bem, eu não confundo aqui ter amor à própria língua com ser reacionário à introdução de palavras novas. Não é nada disso. Atenho-me apenas à clareza que sempre teve a nossa bela língua e que, mesmo considerando as diferenças que esta já apresenta em relação à língua-mãe lusa, não obstante, jamais deixou de ser uma língua precisa. E, sobretudo, de uma riqueza que não se limita ao número de palavras existentes, mas também à clareza de suas conotações. 

Nesse mesmo livrinho, "Tutaméia" — e que é, para mim, o melhor de todos que ele escreveu — Guimarães Rosa, no meu entender, e de forma pouco oportuna, diverte-se em um prefácio onde mistura alhos com bugalhos, ironiza, prosodia, entorta sentidos e definições, escorrega por teorias rocambolescas, esbalda-se através de citações em línguas estrangeiras (O vanitas vanitatum!) e intitula esse mesmo prefácio de "Aletria e hermenêutica". Ora, Hermenêutica é a arte de interpretar livros sagrados, assim como a de interpretar diversos sinais como sendo símbolos de uma cultura, além de ser, ainda, a arte de interpretar leis. Até aí, nada tenho a comentar. Porém, sabendo-se que a palavra aletria, segundo todos os dicionários da Língua Portuguesa em que pude pesquisar, refere-se a um tipo de macarrão fino, também chamado de cabelo-de-anjo, o que quis João Guimarães Rosa realmente dizer com esta palavra em seu prefácio? mais um neologismo sem-pé-nem-cabeça?

Aletrias de Rosa... causos.... estórias de dar com o pé.


1. Guimarães Rosa, João: «Tutaméia» pág. 7, 9a edição, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro.

Autor: André Bessa - Suíça

5 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Oi, André. Esta crítica de atribuição é muito pertinente. Eu tenho ficado horrorizado com atribuições de outros tantos textos que se faz na internet. Quem nunca recebeu um texto, frase ou poema atribuido a um autor famoso que nunca o escreveu? E quando você tenta explicar às pessoas que é necessário dar o crédito correto, não estão nem aí. Normalmente, quando educadas, dizem que o importante é a mensagem, o autor, menos. Esse problema (ou esse zelo) acho que está restrito mesmo só a quem é apaixonado pela língua, pelo conhecimento e pelo respeito autoral. Gostei muito de seu artigo. Abraços.

Carlos, parabéns por suas escolhas sempre muito boas de autores e textos.

Casal 20 disse...

André, que texto esmerado, maravilhoso! Que presente recebido por Deus esse de acordar e já ler tuas palavras! Alimentado de letras e logo uma rememoração de Guimarães Rosa!

Estou encantado com sua certeira observação: um olhar crivado nessa alma brasileira e numa das suas tantas incongruências.

Agradeço a pérola.

Abraços sempre afetuosos (e, agora, repletos de saudade de reler Guimarães Rosa!).

Fábio.

Celêdian Assis disse...

Meu querido amigo André,

É indizível o prazer de ver seu texto primoroso publicado neste espaço, que tão esmeradamente o meu também amigo Carlos Lopes, vem reunindo autores e textos soberbos. Quando li no seu blog, achei fantástico e o recomendei com toda a certeza de que ofereceria a todos a literatura da melhor qualidade.
Seja bem vindo, meu amigo. Muito me honra, sempre, figurar ao lado de autores da sua magnitude e de todos os outros que se encontram aqui.
Meu abraço carinhoso.
Celêdian

Fabiana Lopez disse...

Pois é André Bessa, nunca mais ¨estória¨. Valeu!

Maria Mineira disse...

Boa noite, André. Guimarães Rosa é meu autor preferido.Li todos os seus livros. Goste muito de vir aqui e ler seu texto. Muitas palavras de G. Rosa podem parecer coisa complicada, já li certa vez aluns estudiosos comentando sobre significado de uma palavra encontrada em livro dele, a palavra era "sebesta" apesar do conhecimento deles não atinaram que isso é ma palavra muito usada nas fazendas mineiras. Por exemplo nesta frase ela aparece: "Larga mão de sê besta minino!" Esta vendo? Coisa simples não é mesmo? Um abraço.