sexta-feira, 21 de março de 2014

O insepulto - Autor: João Batista de Lima

Terêncio Espinheira passava em frente à capela de São Raimundo quando sentiu travar o coração. Tombou, arrastou-se e morreu babando no último banco da igreja. O sacristão comunicou ao padre Otávio e foi avisar à família: duas filhas que com Espinheira moravam lá pras bandas do motor do arroz. As duas receberam com alegria, a notícia, e não foram à casa santa, ver o corpo do pai. Pe. Otávio pediu um caixão ao Major Apolônio que, como prefeito, enterrava os mortos da cidadezinha por conta dos dinheiros municipais. Mas não havia caixão para Espinheira, destratador de políticos e destruidor do patrimônio público. A saída foi o velho sacerdote providenciar uma rede para conduzir o morto, e o fez constrangido porque muitas vezes, Terêncio, embriagado, invadira a igreja durante a santa missa, montado no seu cavalo cardão.

As filhas não compareceram pois festejavam a morte do pai com muitas rodadas de cerveja quente num reservado do Bar da Bia. Nunca mais apanhariam no meio da rua, do pai feito fera, apesar das suas idades, com mais de trinta anos cada uma. À tarde Pe. Otávio utilizou o serviço de som da igreja e pediu ajuda aos cidadãos de Sipaúbas para o transporte do defunto até o cemitério, ninguém apareceu. Nem adiantava, pois Gervásio, o coveiro, já se havia negado a cavar a cova, depois de tanto sofrer nas mãos de Espinheira. O vigário teve a idéia de pagar com o pouco dinheiro da coleta da missa a um carroceiro para carregar o morto. O carroceiro veio mas o burro puxador da carroça assombrou-se ao ver o morto e disparou de rua afora de carroça seca. Espinheira anoiteceu insepulto.

Já exalando mau cheiro, era alta noite, quando Pe. Otávio teve a idéia de colocar o cadáver num carro de mão e empurrá-lo até os fundos da igreja onde um riacho caudaloso transbordava em cheias de abril. Jogou o corpo na correnteza e veio desinfetar a capela.

No dia seguinte por mais de uma légua de riacho abaixo apareceram centenas de piranhas mortas, e nos invernos dos anos seguintes nunca mais correu água no riacho das Guaribas.


Autor: João Batista de Lima - Fortaleza/CE

Publicação autorizada através de e-mail de 26/02/2012

7 comentários:

Carlos Lopes disse...

Uma delícia de conto O insepulto.

Patricia Celeste/Recife PE disse...

Muito, mas muito engraçado mesmo! Parabéns Batista de Lima com o seu Insepulto.

Casal 20 disse...

Poxa, Carlos. Este teu canto aqui é realmente lugar de se achar literatura maravilhosa! Parabéns ao Batista!

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

Carlos Costa disse...

Mais engraçado, triste e, ao mesmo tempo, interessante seu texto. Obrigado por me permitir a tão agradável e surpreendente narrativa. Será que o falecido fora tão ruim assim, ao ponto de as piranhas morrerem por terem comido a carne do defundo? ahahahaha!

geraldinho do engenho rodrigues da costa disse...

ÊITA DEFUNTINHO DO ÔCO ESSE QUE DEU ATÉ DOR DE DENTE EM PIRANHA DE TANTA CÁRIE QUE DEU!

Celêdian Assis disse...

Parece que o nome do homem era bem adequado a ele, cheio de espinhos, que mata até piranhas.
Conto espetacular!
Um abraço ao autor.
Celêdian

Anônimo disse...

Um conto de primeira linha. Quem planta colhem nem que seja depois de morto.Conceição Gomes