segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O matador de assombração - Autora: Meire Boni


Tião passava sempre por aquela estada, ele nunca tinha visto nada, mas no fundo tinha um certo receio daquele lugar.

A estrada nasceu do calor das patas dos bichos que zigue-zagueavam  acompanhando a margem do riacho buscando o melhor lugar para tomar água fresca.  Seguia rasgando duas serras ao meio. De certa altura em diante, ganhava a companhia de um riacho, que nasce lá no alto e vem  serpenteando. Em um mesmo lugar, a estrada é cortada pelo riacho e por uma  cerca. Havia uma velha ponte e uma velha porteira.

O único barulho que quebrava aquele silêncio, como uma faca afiada era a batida da porteira. Por causa do desnível do terreno, a força da gravidade se encarregava de fechá-la. Era só abrir, passar, soltar e esperar. Geralmente eram três batidas, a primeira, um estrondo que podia ser ouvido a quilômetros de distância, depois outra menos forte, ia diminuindo até voltar ao seu estado inicial.

O lugar que não tinha um aspecto agradável durante o dia, a noite se tornava assustador. Muitas histórias estranhas o cercavam. Há os afirmam terem visto bolas de fogo saindo do rio e desaparecendo por detrás da serra. Outros juram terem ouvido vozes, choros e gritos vindos de debaixo da ponte. Até uma mulher, que aparece sentada na ponte de quatro metros de altura,  balançando as pernas e molhando os pés nas águas do riacho lá embaixo.

Era um dia de seca,  chovia fuligem do céu, pois uma grande queimada ainda ardia lá no alto da serra. Tião estava na cidade, como era de costume,  tinha ficado até tarde na jogatina e na bebedeira, pegou seu cavalo que de tão ensinado já sabia o caminho de casa, e seguiu pela velha estrada. O álcool agia em Tião como um escudo, era só beber que ele ficava metido a valente. Era acostumado a passar naquela estrada, falava nas rodas de conversa que tinha vontade de se encontrar a tal da mulher de pernas compridas, dizia isso enquanto batia a mão em seu trinta e oito na cintura.

O único barulho que se ouvia era o que o casco do cavalo fazia ao tocar o chão batido e o  estalar da vegetação que era engolida pelas labaredas no cume da morro. Tião passou pela ponte, pela porteira e a soltou. O barulho estrondoso de sua da batida ecoou serra acima.  Antes da segunda batida, Tião ouviu um barulho anormal. Alguma coisa descia a serra em sua direção. Antes que a porteira batesse pela terceira vez,  arrancou o revólver da cintura e esperou até que o barulho chegasse mais perto. Nada se via.  Não havia como mirar, acertar ou errar era questão se sorte.  Não dava para esperar mais, Tião apontou em direção ao barulho  e descarregou sua munição em seja lá o que for que  já estava a poucos metros dele, bem a sua frente.

Estava tão escuro que não fazia diferença ficar de olhos abertos ou fechados. Ele preferiu a segunda opção. Cavucou a espora em seu machador, queria sair dali o mais rápido possível. Depois dos tiros pode ouvir o barulho de alguma coisa tombando. E se houvesse outros? Não tinha mais munição, só lhe restava rezar o Credo e correr. Assim o fez.

Chegou em casa muito assustado, o efeito do álcool já tinha passado, e a coragem também.

Ao clarear do dia, quem passou por aquela estrada pode ver um enorme tamanduá bandeira caído, com uma ferida mortal na cabeça.  O danado estava fugindo do fogo, e se assustou com a batida da porteira.

Autora: Meire Boni - Bela Vista de Goiás/GO
Publicação autorizada pela autora


3 comentários:

Maria Mineira disse...

Meire, minha amiga. Bom demais te ler! Seus textos são daqueles que a gente se imagina ali do lado ouvindo cada palavra.Escreva sempre! Um abraço aqui das Minas Gerais.

Carlos Lopes disse...

Excelente! E eu até acreditei noutra coisa, rsrsrsrsrs

Anônimo disse...

Genial. Ao sabor da narrativa a gente se deixa levar vivendo cada detalhe. Parabéns! Marina Alves.