quinta-feira, 6 de março de 2014

Cráudia


Autora: Helena Frenzel
Um dia, assim do nada, chegou lá em casa oferecendo-se para trabalhar. Foi uma sorte danada, pois a minha irmã estava mesmo precisando de uma pessoa que tomasse conta das crianças. Bendita a hora que decidimos aceitá-la. Muito boa a menina. Trabalhadora, limpinha, bem humorada, uma paciência só com as crianças... Dava gosto ver. Eu achava interessante o fato dela pronunciar errado o próprio nome.
Na verdade, chamava-se Cláudia, mas não tinha quem a fizesse dizer “cla” em lugar de “cra”. Tinha, acho, um defeito na boca. Não sei. No começo eu me controlava para não rir, para não ofendê-la, e me esforçava para falar seu nome corretamente. Com o passar do tempo, aumentando a intimidade e certo de que ela não se ofendia, passei a chamá-la como ela mesma. Foi bom porque eu não precisei mais prender meu instinto palhaço. Ligava lá pra casa e quando ela atendia, perguntava quem era, só pra tirar onda. "Aqui é a Cráudia, seu Amarildo. O que é que o senhor quer?" ela respondia e caia na gargalhada, pois sabia que do outro lado da linha eu devia estar rolando de rir. Aí ela entrava no meu jogo. Até que nos divertíamos...
Certa vez estava eu no quarto estudando e ela entrou para arrumar e limpar. Percebendo seu interesse na estante, perguntei se gostava de ler.
— Ah, seu Amarildo, eu adoro! — contou toda prosa e, para meu espanto, acrescentou: — Esse livro do senhor aí, O Perfume, é muito bom! A descrição da época em que o Grenouille ficou lá na caverna é surreal, fiquei agoniada com aquilo.
─  Sério, Cráudia?! Você já leu O Perfume, de Patrick Suskind?
─ Li, Seu Amarildo, assim como O Príncipe, de Maquiavel, Crime e Castigo de Dostoievski, A Metamorfose, O Processo e O Castelo de Kafka. Desse autor, gostei muito de Um Artista da Fome.
Quase caí da cadeira. Aí começamos a trocar figurinhas. Ela conhecia muito não só sobre Literatura, bem como Cinema e Teatro também. Incrível! Eu, que na época estava na graduação, fiquei besta com a desenvoltura com que aquela criaturinha miúda, que a princípio parecia nem saber falar Português direito, falava sobre esses assuntos. Aquilo me intrigou.Ela contou: — É que eu não gosto de ficar vendo TV. Aí, seu Amarildo, numa casa que eu trabalhei tinha esses livro bom. Aí peguei um. Li, gostei e quis ler outro e mais outro e hoje não consigo mais parar de ler. Como não posso comprar, peço emprestado. Queria até pedir pro senhor, se o senhor deixasse... se eu podia pegar uns livro desses seus aqui pra mim ler nas horas de folga. Eu cuido direitinho, não deixo amassar nem uma folha.
Eu disse: — Claro! Pode ler tudo o que você quiser. — Ela ficou toda contente. Trocamos umas idéias mais e ela me deixou, tinha ainda o resto da casa para limpar e o almoço para preparar.
Contei isso para Rose, minha irmã, que reagiu da mesma forma que eu: — Sério? Eu que só tenho o segundo grau, tenho uma empregada que já leu — e entendeu — O Príncipe?
— Pois é minha irmã, — disse-lhe eu, brincando — crie vergonha na cara e pare de ficar lendo só essas Sabrina, Bianca e Júlia que você gosta aí.
A Cráudia era uma figura. Uma pessoa com cultura e conhecimento literário assim, por quê não conseguia falar corretamente? Isso me deixava perplexo.
— Ah, seu Amarildo, é porque eu sou assim mesmo. O senhor não me entende quando eu falo, assim mesmo desse meu jeito? — ela replicava quando eu lhe indagava sobre essa particularidade.E continuou com a gente. Com o tempo, foi se tornado quase um membro da família. Tanto que, numa época bem difícil, em que a Rose chegou a cogitar dispensar seus serviços pois não tínhamos como pagá-la, Cráudia disse que queria ficar assim mesmo, sem pagamento, até que a situação melhorasse um pouco. Alegou que poderia continuar lá, em troca de casa e comida, tomando conta das crianças e fazendo o serviço que vinha fazendo até então.Eu e Rose ficamos um pouco desconfiados, pois esse negócio de ter empregada sem carteira assinada em casa podia dar uma boa duma complicação. Mas a Cráudia, com seu jeitinho, acabou nos convencendo de que não tinha “pobrema”. — Quero ficar por gosto, por amizade — disse.
Cráudia ficou e acabou participando de muitos momentos importantes, altos e baixos da nossa família. Ria e chorava junto. Um dia, quando eu nem mais vivia com minha irmã, tinha mudado de cidade e conversava com a Cráudia pelo telefone, ela me conta que tinha sido escolhida para participar de um júri, num festival de cinema local.
— Pois é, seu Amarildo, mandaram uma carta aqui pra casa me convidando. É um festival de curtas. — Meu queixo caiu do outro lado.
— É mesmo, Cráudia? — Eu não havia perdido a velha mania de chamá-la assim. — Puxa, que legal! E como foi isso? — eu quis saber.
— Ah, seu Amarildo, o senhor lembra daquele cinema universitário, pequeninho, que só tem uma sala só, lá na Rua do Ouvidor? Pois é, como é bem baratinho e só passa filme artístico, eu sempre vou. Sempre deixava um comentário lá na urna e foi assim que me descobriram eu aqui.
Eu e minha namorada especulávamos muito a respeito dessa exótica criatura. Seria ela uma estudante ou pesquisadora, quem sabe socióloga ou psicóloga, infiltrada no seio de uma família de classe media baixa para algum experimento? Cheguei mesmo a lhe perguntar isso, ao que ela replicou: — Ah, Seu Amarildo, o senhor tem cada uma! Eu, socióloga!? — e ria.
Mentir ela não mentia, pois podia se perguntar qualquer detalhe dos livros que dizia ter lido e ela saberia discutir. O mesmo ocorria com os filmes. Continuava falando errado, mas o que dizia tinha fundamento. O que contribuiu para o seu mito foi o fato dela, assim como chegou, um dia ter ido embora, e sem deixar pistas. Disse que iria para outra cidade, que havia encontrado novo emprego. Afeiçoara-se à família mas agora era hora de partir. E assim foi. Parece que o chão a engoliu, pois notícia não se teve mais.Eu já me perdi em meio a tantas especulações. Até mesmo as possibilidades dela ser anjo ou extra-terrestre cheguei a cogitar. Seria mesmo isso?
— Cráudia, criatura, se estiver lendo esta história, dê notícias. Acabe de uma vez com esse mistério. Tenha pena de um pobre curioso como eu!

***

Não tenho muitas esperanças de ser lido por ela. Afinal, se ela não mudou, deve continuar gostando só de boa literatura.

Este conto faz parte da coletânea de contos Perfis Interessantes, originalmente  publicado no Recanto das Letras em 21/03/2009 sob o código: T1498594.

Autora: Helena Frenzel - Alemanha

Página da autora no Recanto das Letras:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=47164

Publicação autorizada pela autora


10 comentários:

Carlos Lopes disse...

Seja bem vinda ao blog Helena Frenzel.

Ana Bailune disse...

Lindo post! Também tive uma quase assim aqui em casa, há alguns anos...

Helena Frenzel disse...

Obrigada, Carlos. Obrigada, Ana. Caro amigo Carlos, muito honrada pelo convite e a oportunidade de ter um de meus contos aqui neste meio de contadores tão talentosos. Como eu já havia lhe dito, este é um conto especial para mim, um dos primeiros escritos e publicados lá no Recanto. Admiro o projeto de vocês e passei a admirar mais ainda depois de conhecer um pouco mais da história do blog. Parabéns a todos que fazem esse trabalho e muito, muito sucesso nos próximos volumes. Todo projeto que incentiva a preservação da memória cultural de um povo, a leitura e a escrita só pode ter meu respeito e apoio. Abraços letripulistas, até!

Celêdian Assis disse...

Olá, Helena! Saiba que estamos felizes de tê-la junto a nós, um time que vem apostando, como você mesma disse acima, na preservação de nossa cultura, de uma forma simples e agradável. Obrigada por aceitar o convite. Acabei de ler o seu conto "Cráudia", genial, gostoso de ler, envolvente e muito bem acabado. Diga-se também que, mesmo o tendo escrito a mais tempo, é uma temática que está atualíssima, a relação entre patrões e empregadas. E que pena, não se fazem mais Cráudias como essa, amigas e cordiais. Um grande abraço e obrigada por juntar-se a nós.
Celêdian

Carlos Lopes disse...

Excelente! Amarildo, se a Cráudia estiver viva, ela vai ler seu maravilhoso texto, afinal ela gosta de uma boa literatura. Adorei!

Patricia disse...

Gostei, muito bom mesmo! É daqueles textos que a gente fica babando. Parabéns Helena Franzel pelo escrito super bem construído. Cê sabe das coisas.

Fabiana Lopez/SP disse...

Gosto muito de textos assim: gostoso de ler, fácil de entender e que nos remete a outros lugares. O ser humano é surpreendente. Não importa se é Cráudia ou Ciço... somos fantásticos! Cada um com sua inteligência.

Carlos Costa disse...

Fabulosa narrativa. Em crônica recente publicada em meu blog carloscostajornalismo.bogspot.com,com o título O SOCIAL: O AMAZONAS É UM MISTÉRIO A SER DESVENDADO, narro um episódio real de como os americanos vieram para explorar borracha no Amazonas durante a II Guerra Mundial e nada deu certo, apesar de serem engenheiros e técnicos com conhecimentos científicos profundos. No final de minha crônica, concluo com essa afirmativa, depois de explicar sobre o apogeu e o declínio do ciclo da borracha no Amazonas: "Para se viver o Amazonas, no Amazonas e defender essa terra, a pessoa tem que conhecer sua história e não vir para cá com planilhas prontas, tudo no papel, achando que só porque tem conhecimentos acadêmicos pode se achar o dono de todo o saber, ensinando por que os caboclos ribeirinhos do Estado que, podem até não ser cultos, mas têm experiência porque cultura não é tudo!". É o mesmo princípio dessa bela narrativa! Parabéns.

Helena Frenzel disse...

Muito obrigada: Celêdian Assis, Patricia, Fabiana Lopez/SP e Carlos Costa pelas leituras e comentários. Sinto-me muito honrada. Abraços fraternos letripulistas, até breve :-)

Maria Mineira disse...

Já li mais de uma vez esse seu conto.É muito bom! Ter você aqui no blog junto conosco também é ótimo!