quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A quinzena do Autor: MARIA MINEIRA

        

Perfil
Peço a quem estiver me lendo, imaginar um lugar longe de quase tudo. Num esconderijo das Minas Gerais sem fim.

Imaginem por favor, porque é de lá que eu vim. Na Serra da Canastra nasci e cresci - pouco, mas cresci - Meu nome é Maria...

Amante da vida, da Serra, das cachoeiras, do canto dos pássaros, do cheiro do mato, do caminhar na chuva, da prosa-poesia de Guimarães Rosa...

Espero que gostem do que tento escrever, porque é com o coração que conto minhas histórias.

Abraço a todos!


Maria Mineira

O Vestido de fulô vermeia

A família morava num pequeno sítio ao pé da serra.  O filho mais velho de nome José, já completara seus vinte anos. O rapaz era sério, ajeitado e trabalhador. Muito estimado por toda gente da região.
Desde menino no cabo da enxada, já possuía de seu um cavalo arreado, algumas criações e começava a construir seu ranchinho, do outro lado do rio, nas terras do pai. Com intenção na Rosinha, filha do Antônio da Elvira. José gostava muito de trabalhar na fazenda dele.
Nos pagodinhos de roça, os dois jovens não faltavam. Dançavam juntos o baile inteiro, todo mundo achava que tinham nascido um para o outro.
Naquele tempo não tinha esse negócio do rapaz ficar “amassando barro” na porta da casa das moças não! E o pai da Rosinha já estava aflito que aquela história tomasse um rumo.
Certa vez estava nervoso, bravo com ela, falou:
—Ô Rosinha, minha fia, iscuta o seu pai.  Se o Izé num cria corage e fizê logo esse pidido, ieu vô cabá arrumano outro pretendente procê.

Por azar, o José vinha chegando e ouviu a conversa. Ficou sem graça e foi embora. Passou o resto do dia em casa emburrado. Não quis prosa com ninguém.  Tempo ia passando, ele Ficou danado de saudade da Rosinha, mas a falta de coragem de voltar lá o impedia.
O rapaz não dormia direito, emagrecia. Os pais preocupados com o filho não sabiam o que fazer. A mãe teve uma ideia.
— Meu fio, eu mais seu pai achamo que ocê deve de criá corage e falá com seu Antôe.
—Nóis faiz gosto nesse casório meu fio, a Rosinha é moça boa e prendada.

E assim os pais acabaram animando o filho. Ele não queria outra coisa. Havia, porém um problema muito sério. Como falar com o Seu Antônio? Por onde ele ia começar?
Era num domingo, após noites sem dormir, treinando sozinho. José acabou criando coragem. Tomou banho, colocou roupa nova, arriou o cavalo e foi para a fazenda do pai da moça.
Pouco depois os cachorros da fazenda anunciaram uma chegada com latomia e algazarra. A porteira se abriu, um cavaleiro entrou. 

—Bãos dia minha gente! —falou o José, engasgado. 
Foi recebido com agrados, meio desconfiado assentou-se no banco da sala. A família da mocinha toda ao redor. Não havia um que não percebesse a sua tremura... . Quando viu Rosinha toda bonita, voltou-lhe o brilho dos olhos. Olhou para ela, avermelhou, ficou afobado... Mas acabou soltando algumas palavras:
—Sô Antõe... Dona Ervira... Dexa ieu casá cá Rosinha?
Finalmente! Foi um alvoroço na sala. Rosinha muito tímida saiu correndo e se escondeu no quarto. Depois voltou meio sem gracinha, mas com jeitinho alegre. Seu Antônio e Dona Elvira fizeram gosto, e marcaram para o próximo domingo a entrega da aliança e festa de noivado no sítio dos pais do rapaz.
Logo no início da semana a família do José foi até o arraial a fim de providenciar as coisas e preparar a casa para a festa de noivado. Compraram na loja do Seu Edgar, sapatos, louça nova e tecidos para fazer roupa nova para todo mundo.
—Nóis vai pricisá compra pano pa fazê cocha nova pas cama, tuaia nova pas mesa né meu fio?  Num podemo fazê feio no dia do seu noivado.·.
—Pode iscoiê um pano bem bonito qui ieu memo pago, mãe.·.
—Vô levá um bão pedaço desse ramado de fulôr vermêia. Vai dá pá cubri as cama e fazê a tuaia da mesa dos doce. 
— Pode cortá deiz metro desse pano bonito e de fulôr vermeia, Sô Digar!— Disse o José, feliz da vida, tirando o dinheiro da carteira.

Amanheceu o domingo, Dona Elvira, a mãe, já estava com a casa toda arrumada, a leitoa e os frangos assando no forno, uma grande variedade de doces sobre a mesa. José e o pai madrugaram para dar conta da tiração de leite e fazeção de queijo antes das visitas chegarem. O sítio não era grande, mas afinal de contas tinham com o quê.
Da janela, José já todo bonito na roupa nova, esperava ansioso ao lado dos pais e irmãos menores. Quando viram apontar no alto do morro três cavaleiros a passos lentos pela estrada afora. Era o Seu Antônio, Dona Elvira e a sua adorada Rosinha. Vinham para o almoço de noivado.
Tão logo se aproximaram, a cachorrada foi encontra-los latindo, rosnando, fazendo festas.  Foi nesse instante, quando avistaram Rosinha chegando à porteira do curral que mãe e filho trocaram olhares apavorados, enquanto a mãe tentava conter o riso dos irmãos mais novos.
A moça vinha num bonito cavalo branco. Usava chapéu de palha para se proteger do sol e usava um vestido novo. Certamente o tecido foi comprado na loja do Seu Edgar, única da cidade. Porque era um vestido feito de tecido bonito, estampado com flores vermelhas... Dá mesma cor da toalha da mesa dos doces e de todas as colchas que cobriam as camas da casa do José...

Ernestina

Muitas pessoas contam sobre sustos, medos provocados por fenômenos sobrenaturais, coisas fantásticas que causaram de certa forma, terror a quem teve oportunidade de presenciar acontecimentos não explicáveis. Há quem afirme que assombração nunca aparece para mais de uma pessoa e que tais fatos são experiências individuais.
Hoje restam apenas os escombros da fazenda de minha madrinha. Há quem acredite que aquele lugar sempre foi mal assombrado. Ali apareciam luzes misteriosas, mulheres vestidas de branco pelas estradas, cantigas noturnas de carros de bois...
Durante a infância tive oportunidade de conhecer alguns cômodos daquele antigo casarão. Havia um quarto trancado a sete chaves. Dele, eu soube apenas que havia pertencido ao filho da madrinha e à esposa dele. Ambos haviam morrido antes de completar um ano de casados.  Ele, de nome Artedes, morreu de câncer, doença que naquele tempo não se ousava pronunciar nem o nome. Ernestina, sua mulher faleceu alguns dias depois de morte misteriosa.
Naquela fazenda tinha um enorme pomar com frutas variadas. Um rego d’água que mais parecia um riacho onde a água cristalina se dividia entre uma bica de madeira e um monjolo. Ali não havia crianças, pois madrinha não teve netos. Minhas visitas àquele lugar eram sempre solitárias, o que não me incomodava nem um pouco, pois gostava muito dali, me sentia num paraíso. Esquecia do mundo subindo nas árvores, comendo frutas, colhendo flores, enquanto minha avó ajudava minha madrinha preparar um delicioso almoço, coisa que ela fazia questão de me oferecer, além de muitos doces, toda vez que eu a visitava.
A única recomendação era para que eu nunca entrasse na casinha onde ficava o monjolo. Vó Geralda achava perigoso para criança. Porém, eu tinha enorme curiosidade de conhecer aquele espaço. Do lado de fora só se podia ouvir o barulho e teimosa, um dia acabei entrando.
Vi o monjolo de madeira, incansável a trabalhar dia e noite. Havia mais alguém naquele lugar... Lembro-me como se fosse hoje, da moça de pele muito clara e lindos cabelos pretos, sentada num banquinho fiando. Pedalava uma roca de madeira, tendo perto um balaio com várias meadas de lã coloridas.
Ela parou de fiar e se ofereceu para descascar as laranjas que eu trazia nas mãos. Aceitei e enquanto conversávamos levou-me a um jardim que eu não conhecia. Pulamos um muro de pedras e dentro dele ficava um enorme canteiro, onde as únicas flores eram as dálias, de todas as cores e formatos. Nunca na vida eu vi tão bonitas flores quanto aquelas. 
Passamos uma manhã agradável e feliz, eu me sentia muito bem ao seu lado. Ela terminava de fazer duas tranças em meus cabelos quando me chamaram para o almoço. 
Muitos anos depois, minha madrinha morreu. Eu já tinha uns 16 anos e fui ao seu sepultamento... Senti algo estranho quando parei em frente ao jazigo de sua família. 
Havia o retrato de seu finado marido e à esquerda numa moldura, a foto de um jovem casal. Um rapaz sério, de bigodes. Ao seu lado, uma bela moça de cabelos pretos e olhar terno, que parecia me sorrir...

O casório da Crimintina


A quem nunca soube dos costumes antigos de nossa gente, pode até parecer absurdo que um pai desejasse desfazer-se das filhas mulheres o mais breve possível, para jogar a incumbência do sustento ao marido arranjado.
Mas eram coisas das necessidades e dos costumes daquele tempo e Seu João Clemente depois de muito pra lá e pra cá, chegou um dia em casa avisando à filha:
— Crimintina, minha fia, ieu já arrumei marido procê! É um rapaiz de famia pobre, mais é moço dereito e trabaiadô.
A mocinha, nem gostou e tampouco desgostou. Consentiu. Sentada no banco da sala, de mãos cruzadas entre os joelhos, com o pai de pé a sua frente, olhava o assoalho bem varrido, imaginando a vida que viria...
Naquele final de tarde um passarinho cantou lá fora, parecia explicar a ela que coisas do mundo eram mesmo daquele jeito.
Clementina do João Clemente e Antônio do Chico Cunha só se viram pouco antes do casório. Foi tudo muito simples, sem as pompas que cá imaginaríamos. Mas, com todas as vias de fato para tornar-se sacramentado.

Seguiram para o arraial a cavalo. Ela bonita de véu, grinalda, vestido branco e flor de laranjeira. Ele de terno riscado, a mesma roupa que o pai vestiu quando se casou. A comitiva formada por gente a pé, um pouco de gente montada, revezando. Os mais idosos iam num carro de bois.
Já voltavam, quando Seu João Clemente registrou alguém no meio dos convidados e se achegou ali mesmo, dum rapaz apontando idade pra Adelina, a mais nova que ficava.
A casinha dos dois foi feita perto donde ela vivia com a família. De pau- a- pique e chão batido. Com uma bica d’água ao lado, onde Clementina era vista todo dia, cumprindo sua lida nesse mundo.
Antônio, nos primeiros dias de homem de respeito que agora era, mostrava, no indo e vindo do dia, que já andava meio desacorçoado do casório. Isso não passou despercebido pelos companheiros de roça.
Mais de um mês depois do casório... De chapéu no peito, com todo o respeito que existia nessa vida, estava ele na frente da casa de Seu João Clemente, querendo conversar coisa séria. O sogro, ardido do sol de lascar daquele dia, deu uma coçada preocupada no queixo barbado, mandou todo mundo sair da sala:
—Ocêis tudo caça um rumo, qui ieu mais meu genro pricisamo proziá cunversa de home.
—Assenta aí no banco, Antõe! Chegô na hora da janta... Num vai querê cumê uns torresmo mais tutu de feijão cumigo?
—Agradicido... Num tô cum fome não, meu sogro... Mi adiscurpe chegá fora de hora.
Antônio havia ensaiado uma cara de bravo pelo caminho, porém, na hora de botar os “pingos nos is”, se pôs meio ressabiado na frente do sogro.

— Pó falá o qui te traiz aqui Antõe! Tô disconfiado qui boa coisa num é! Bradou o velho João Clemente, com o garfo em punho enquanto Antônio só se acanhava mirando o poente pela janela lá na serra.

—Pur acaso, vei recramá da Crimintina? Cê num ta satisfeito cum tempero da cumida qui a tua muié tá fazeno?
—Num sinhô, ela faz um cumê bão dimais da conta! – Respondeu Antônio falando a primeira alguma coisa.
—Ela num cuida bem da casa?
—Num é isso não sinhô! A nossa casinha ta limpa qui dá gosto! Crimintina arruma tudo direitim, as panela tá tudo briano im riba do fugão.

—A minha fia num tá cuidano bem da tua rôpa, é isso?

— Num sinhô, nunca visti rôpa tão limpinha assim, ela inté sabe custurá.

— Ah Antõe, ô num sei o qui tá te contrariano, oia qui ieu num sô adivinhu, ô ocê disimbucha logo, ô ocê vai simbora, qu'eu num criei fia pra tê recramação adespois di casada.
Uniu-se a irritação dum com a vergonha e medo do outro. Fez-se um silêncio penitente entre os dois, até que Antônio arrancou do fundo da alma a força pra dizer:
—Ô sô João... É qui...
— Fala homi de Deus!
— Sab quié?
— Ieu num sei de nada não, uai! Ocê inda num falô!
— É qui...
—Fala pelarmordedeus, qu’eu já tô aguniado!
— É qui... Ela num qué...
— Ela num qué o quê, Antõe?
— É Sô João, é qui a Crimintina, ela num qué...
— Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Antão é isso?
— É... Ela fogi dieu... Num qué fazê aquês trem cumigo!
Desprendeu-se a coragem de Antônio e seguiu-se a resposta histórica de Seu João Clemente:
— Amarra a Crimintina na cama e faiz os trem á força, Sô pamonha! Ieu tive qui fazê isso cá mãe dela!
Anos depois, as más línguas, ainda diziam que se ouvia muito uma coisa na roça onde os dois trabalhavam. Era a Clementina sussurrando, ainda meio acanhada:
—Ô Antõe... Ocê vai querê marrá ieu hoje de noite?
O casal teve oito filhos e comemoraram juntos as bodas de ouro. Na cabeceira da cama deles, nunca deixou de haver uma corda. O porquê nunca se soube... São segredos guardados no quarto duma casinha que dizem ainda existir. Histórias de vidas que o tempo vai apagando.  Coisas acontecidas no coração do fantástico sertão mineiro.

Simpatia para casar

Após algumas décadas separadas, as primas Maria Expedita e Alzira se encontraram nos festejos de fim de ano, no sítio da família.

As duas não se largavam, era tanta lembrança, tanto assunto para botar em dia!
— Ô Zirinha foi ieu ti vê e mi alembrei do nosso tempo de mocinha!

—Ieu tamém Dita! Cê si alembra quando ieu vim mora na sua casa?

— Alembro como se fosse onte quando ocêis apontaro lá no morro e a cachorrada foi latino e fazendo festa, cê inté subiu na cerca do currar cum medo...
— Tenho sodade daqueles tempo, a vida num para pa nóis discansá não!

— Para não! Pa amanhecê onte tive uma sonharada concê e nem sabia qui nóis ia si incontrá aqui hoje!
—Zirinha, ocê inda tem a moda de querdita in sonho e simpatia?

—Ieu querdito uai!
—Cê pode mi arrumá um golin d’água? 
—Vô lá dento buscá e já vorto pa nóis prusiá mais!
As duas primas cresceram juntas na fazenda. Duas moças prendadas e trabalhadeiras. Alzira sabia costurar e bordar como ninguém e Expedita ainda jovem já era a maior quitandeira da região. Diziam que tinha mãos fada para a culinária.
Certo dia, Alzira notou Expedita meio tristonha e resolver indagar:

—Qui asa caída é essa, Ditinha, o qui ocê tem?
—Nada não, prima... Deve de sê mode qui ieu tô naquês dia...
—Cê num mi ingana não! Conta o motivo dessa tristeza?

—Sabe o peão novo qui veio trabaiá pro pai?
—Sei, é o Jirimia, rapaiz lá das bandas do Desempenhado.

—Tô gostano dele e ele nem oia pra ieu... Será qui me acha feiosa, heim, Zirinha?
—Quê isso, minina! Num é pruquê ocê é minha prima, mas ocê é uma das moça mais bunita da redondeza, além de tudo é munto trabaiadêra. Quarqué rapaiz ia ti querê!
—Mai, ieu num quero quarqué rapaiz, ieu quero o Jirimia!

—Oia, ieu sei uma simpatia qui é tiro e queda mode fazê um rapaiz ficá doidim cum uma moça. A Tunica do Simão feiz e casô em poco tempo!

—Zirinha, mi insina pelamordedeus! Faço o qui fô preciso pá casá cum o Jirimia!
—Oia Dita, posso até ti insiná e ajuda a fazê a simpatia.  Mais o trem num é facim não! Picisa tê corage!
—Tô ficano agoniada! Fala logo Arzira!
—Premero nóis tem qui escrevinhá seu nome mais o nome do Jirimia numa fôia branca virge, isperá sexta fera de lua cheia, adispois caçá um sapo, colocá o bichim dento de uma lata e junto com os nome iscrito, fechá a lata e interrá num buraco de sete parmos de fundura, dibaxo duma arve de gameleira numa sexta fera de lua cheia.
—Credoincruz! Dessi jeito vô cabá ficando biata memo! Qui trabaiêra!

—Uai, cê quê ô num qué o Jirimia?
—Ieu quero sim! Tô doidinha mode ele!
Na primeira sexta feira de lua cheia as moças já estavam com os nomes escritos dentro de uma lata, assim que anoiteceu lá na roça, pegaram uma cavadeira e foram primeiro rumo ao brejo caçar o sapo.

—Ai Zirinha, ieu tenho medo de sapo. Cume qui vô pô a mão num?

—Ô Expedita, pensa só no seu príncipe Jirimia, que na hora de pega o sapo o medo some! Oia só quanta zoiarada briando no brejo! Deve de sê tudo sapo!
—Ô intão cobra! Deusmilivre guarde! O qui a gente num faiz por amor?

Depois de algum tempo no meio do mato e brejo conseguiram pegar alguma coisa.
—Amiga esse trem qui cê pegô num tem cara de sapo não! Tá pareceno mais uma jia, ô uma perereca das grande...
—Ahhh prima... Tá bão! É tudo da mema famia! Bambora cavá o buraco lá na gameleira do morro, num guento mais ficá com os pé insebado de barro desse brejão!
Se alguém passasse por aquelas bandas da fazenda do Seu Joaquim Bento, naquela sexta feira, iria estranhar aquela luz de lamparina no pastinho da gameleira grande. Ninguém acreditaria que havia ali duas moças cavando um buraco de sete palmos no meio do cerrado...
—Num aguento mais cavucá terra, Arzira! Será qui já tem sete parmo de fundura? Minhas mão tão cheia de bôias d’água!
—Cavaca mais Dita, tá munto razinho ainda. Tem qui fazê o trem dereito! Pensa no Jirimia qui cê guenta! E num esquece de mi convidá pá madrinha heim!
Quando terminaram o ritual e voltara exaustas para casa, já era quase madrugada.
—Pois, prima hoje dispois duma vida intêra ieu paro e fico recordano essas muluquice, as peleja da nossa mocidade...
—Ieu tamém Zirinha... A vida às vêis tem a moda de caçoá da gente. Sabe qui ieu quirditei do fundo do coração qui ieu ia casá cum o Jirimia? 

—A vida é mei pirracenta às vêis, cumadi Expedita...
—Poco tempo dispois da simpatia qui nóis feiz, o moço Jirimia vortô pa terra dele, sem nunca sabê qui ieu amava ele... Passei dias, mêis e ano naquela janela isperano a puêra dos casco do cavalo dele na istrada...

—Prima Expedita... Ieu queria te falá um trem...
—Dipois cê fala. Dexa ieu abri o meu coração... O tempo passô,  ocê qui nem pensava em casório, si ajeitô com o Tunico do Tião, ieu fui inté sua madrinha. Adispois cê foi simbora e ieu fiquei aqui na roça cuidano dos fio dos otros... Fiquei pa titia!
—Prima... Ieu preciso te contá uma coisa qui tá intalado na minha garganta...

—Adispois cê conta! Premero mi diga uma coisa: Cê acha qui num deu certo foi pruque nóis pegô perereca no lugá dum sapo?
—Prima, a simpatia deu certo!
—Deu não, uai! Jirimia foi-se imbora. Nunca casei cum ninguém. Sô virge inté hoje nessa idade.
—Ditinha, cê tem qui mi perduá, prima. Alembra qui foi ieu qui escrevinhei os nome na fôia de paper?
—Alembro sim! Ieu pidi mode qui a sua letra era mais bunita qui a minha...

—Pois é, minha consciênça pesa inté hoje...
—Prima Arzira, ocê...?
—Ieu botei naquela fôia de paper num foi o seu nome mais do Jirimia... Foi o meu nome mais o nome do Tonico...

Num galho sem saída

Nas minhas idas ao sítio, sempre apreciei ouvir o silêncio do entardecer, quebrado apenas pelo canto dos pássaros, o farfalhar das folhas secas pisadas e pela aragem, rumorejante na copa das árvores. Como se fosse um recital de anjos, conduzido pelo vento.
Lá no alto, as serras se confundem ao formar um relevo cheio do verde do capim e cinzento das pedras. Um céu estampado em sedutores tons de rosa e laranja, jamais encontrados em cores produzidas pelo ser humano.
 Finais de primavera, tempo quente e úmido. Muitas árvores frutíferas pelo caminho. Prestei atenção numa goiabeira cujos galhos se inclinavam à minha frente. Seu tronco se erguia a uma altura maior que as outras árvores; lar perfeito para vários pássaros. Onde os insetos também se rendiam aos frutos e flores.
Aproximei-me da sombra e vi um mundo de folhas encobrindo o céu. O galho mais alto exibia algumas goiabas quase maduras, daquelas de dar água na boca, ainda mais sendo temporãs. Lá em cima havia um ninho com filhotes, pois, ouvi piados e vi um casal de canarinhos assanhados voando por perto.
Desde menina gosto muito de saber do mundo visto lá de cima das árvores.  Respirar e sentir o perfume do ar, ouvir os pássaros e observar as nuvens, me ajuda a compreender melhor as criaturas de Deus.
Segurando nos ramos escalei vagarosamente e lá no alto, apoiei-me no tronco da goiabeira. Meus pensamentos se acalmaram no silêncio daquele instante. De olhos fechados fiquei totalmente sintonizada com a natureza.
Aproveitava o frescor do vento soprando mais forte. As folhas se agitaram, os pássaros fizeram mais algazarra em torno de um pequeno ninho, com três filhotes... Sentindo o cheiro de goiaba, abro os olhos devagar quando dou a primeira mordida e percebo na boca o doce da fruta. 
De repente, estremeço ao ver no galho à minha frente- justo naquele em que me apoiava- uma coisa verde escorregando sinuosamente pelos ramos... Não queria acreditar que era uma cobra! Meu Deus do céu, era sim! Deslizava de um galho ao outro sem se importar com minha presença. Fixava em mim dois olhos amarelos. Distante alguns centímetros, aquela serpente verde esticava sua língua e parecia me desafiar.
Em estado de choque, não reagi. Fui invadida por sensação de repulsa, misturada com pavor, enquanto ela chegava perto do ninho à minha frente farejando, procurando os filhotinhos, se preparando para dar o bote.
Todo meu corpo imobilizado. Preso no alto daquela árvore. Mãos trêmulas, boca seca, olhos arregalados, sem ter certeza do que viam. No meu subconsciente, a tristeza por não ter coragem de salvar a vida dos passarinhos.
Eu estava num beco sem saída, impotente ,apesar de ter certeza que a vida dos filhotes de canarinho serem mais importantes que a daquela cobra.
Após alguns instantes ela saiu resvalando-se silenciosamente, misturando sua cor à das folhas, fugiu mundo afora... Eu não sentia gosto de mais nada. Só um frio no estômago, um mal estar, uma vertigem... Faltava-me o ar, a brisa suave não soprava mais.


Receitas que aquecem o coração


Foi brincando de casinha que tomei gosto pela arte da culinária, desde menina. Tinha um fogãozinho de barro e panelinhas de ferro. Fazia comidinha de verdade. Acredito que cozinhar é quase um ritual de antigos alquimistas, que transformavam os alimentos no exalar de aromas das panelas invadindo a casa, no crepitar da lenha no fogo. 
Muitas vezes diante de um fogão a lenha, cheguei a sentir o cheiro da cozinha de minha infância, dos doces de goiaba no tacho de cobre, das compotas de figo na cristaleira, do tempero do almoço de domingo, dos causos à beira do fogão, da pergunta carinhosa da Vó – está com fome minha filha? Tudo revivido em momentos preciosos que só a comida é capaz de proporcionar.
Cada sabor é um retorno às origens, carregada de sentidos e lembranças que vem a tona, como pitadas de tempero que dão um toque singular a vida.
Um olhar atencioso em uma receita revela os gostos de uma época, o estilo de vida, a reunião de texturas e sabores que são transmitidos de geração em geração.
Quem não desejaria conhecer o segredo do feijão que só a mãe sabe fazer? Quem não gostaria de descobrir a fórmula mágica dos bolinhos de chuva da avó? Preparar uma receita é uma forma de reviver maneiras e gestos, principalmente se nos fazem lembrar de pessoas queridas, assim se transforma num ato de amor, pois, transmitimos nossos sentimentos ao cozinhar .
Uma receita inesquecível é de uma comida que minha avó Geralda fazia quando mamãe estava de resguardo. Na roça há um costume: uma mulher ao dar à luz precisa comer sopa: tal iguaria é uma canja bem substanciosa feita com galinha caipira, farinha de milho torrada e temperos.
Quando meus três irmãos nasceram, minha avó passou dias fazendo sopas e outras coisas gostosas para minha mãe, porque ela tinha que ficar de repouso depois do parto. Vó Fazia com gosto, com amor pela filha e pelos netos. Eu nunca me esqueci do cheiro e do sabor daquela sopa fumegando na tigela de louça branca.
*1 galinha caipira nova e gorda  
*1 litro de farinha de milho torrada
*4 dentes de alho amassados e sal a gosto
*1 litro de água
*Cebolinha e salsa a gosto.
No fogão à lenha dourava-se o alho  na  manteiga da própria galinha, dentro de uma panela de ferro bem grande. Depois colocava  os pedaços (Vó Geralda sempre cortava a galinha em 23 pedaços)  dentro da panela e deixava dourar. Acrescentava a água, sal  e  deixava cozinhar até ficar no ponto, isto é, bem  cozida. Depois era só  retirar os tições de lenha  do fogo e  adicionar a farinha de milho, sem  nunca parar de mexer para não empelotar. Então era só deixar  no fogo até começar a ferver. Por último salpicava o cheiro verde por cima.
A sopa era servida no quarto,  numa tigela de louça. Era feita para a mãe, mas todos na casa ficavam esperado para provar também.

Feridas que deixam marcas

Chovia sem parar. A morte da filha foi o maior sofrimento da vida de Bento. Desesperado nem viu o cair da noite. Uma angústia lhe oprimia o peito fazendo descer lágrimas de uns olhos que nunca haviam chorado antes. Já estava escuro e estiara quando parou de chorar. Ele e o céu haviam se livrado todas as gotas de água do mundo.
Bento estava decidido a começar sua caçada. Tinha instinto primitivo, faro aguçado pelos anos de trabalho na solidão das matas fechadas. Tinha certeza que encontraria aquele rapaz nem que fosse a última coisa que faria na vida. Iria procurar nas vendas de beira de caminho, nas fazendas vizinhas, nos sítios distantes, em todas as trilhas e estradas, por que afinal é nas estradas que as pessoas passam.
Ele ia descobrir. Aquilo não era caso para polícia. Afinal, Adélia morreu de parto. Mas não lhe saía da cabeça que morrera por culpa daquele maldito e Bento não ia sossegar nessa vida enquanto não desse cabo daquele infeliz que levou sua filha e depois a abandonou sozinha no mundo, com um filho na barriga.
Adélia nasceu no campo e foi criada  pelo o pai viúvo, que se desdobrava para lhe dar todo o conforto. Mesmo morando longe da cidade, ela  aprendeu a ler e escrever com professora contratada na capital. Sem ter por perto uma figura materna em sua vida, cresceu bonita e já contava com dezesseis anos quando veio pedir ao pai que a levasse num baile na propriedade vizinha. Bento não gostava de festa, mas querendo agradar a filha acabou concordando.
A moça se encantou com o baile. Era uma novidade na sua vida singela de menina caipira. Naquela noite conheceu Antônio Limeira, que se dizia agrimensor e estava por aquelas bandas; medindo terras para um fazendeiro vizinho. Depois daquele dia, vieram vários encontros, e quando houve o primeiro beijo, Adélia resolveu contar ao pai do seu amor. Bento contrariado tentou em vão, dissuadir a filha com argumentos de que moço da cidade não servia para ela e além de tudo, era ainda muito jovem, não conhecia a vida.
Após a conversa, sabendo que Bento não aprovaria o romance, a moça resolveu não contar mais nada ao pai. Começaram os encontros secretos, as juras de amor eterno, as promessas... Até que meses depois, numa fria madrugada de junho, Antônio Limeira e Adélia, fugiram juntos. Apesar da tristeza, Bento não foi procurar os fugitivos. A filha fizera sua escolha, deixou-a seguir seu destino.
Em menos de um ano, Adélia voltou sozinha, doente e maltratada. Tinha os  pés inchados, rosto cansado, gordura no corpo antes bem feito. Estava grávida de oito meses.  Abandonada e sem esperanças, sobrou-lhe o choro, as lágrimas de humilhação. Tudo que esperava era receber nesse momento o perdão, o carinho e a atenção do pai. Bento recebeu a filha com um abraço, certo de que falhara como pai. Para redimir-se cuidaria dela e do neto que estava prestes a nascer.
Debilitada, Adélia  não resistiu e  morreu ao dar a luz. Fora um parto difícil, não havia recursos naquelas lonjuras onde não se tinha notícia de médico ou hospital. Na manhã chuvosa, trazida pelo carro de bois, foi enterrada no cemitério da fazenda. O pai colocou uma pequena cruz de madeira no túmulo, juntamente com um ramo de cravos. Chorava, sem saber ao certo se pela filha ou pelo neto que nunca conheceria a mãe. Desesperado, sentou- se na sepultura ao lado e viu saírem uma a uma as poucas pessoas que vieram dar o último adeus à sua menina.
No dia seguinte retirou de uma caixa a garrucha Laport 38, dois cartuchos carregados de chumbo grosso, o chapéu e o paletó de couro e sumiu no mundo por vários meses... Dois tiros de uma só vez, Antônio Limeira jazia no chão de um bar, numa rua suspeita. Horrorizada a clientela do lugar assistira ao assassinato de um dos rapazes mais ricos da cidade.
O júri foi rápido. Bento era um matuto, os pais do morto eram gente influente, tinham amigos na polícia e nas leis.  Pegou trinta anos de cadeia, dos quais cumpriu vinte em regime fechado.
Era madrugada quando abriram os portões da penitenciária. Bento jogou a trouxa nas costas e seguiu rumo á sua terra. Lembrou-se da filha, não deixou fugir nada da memória, sentiu a dor da saudade que nunca seria curada. Nesses anos todos mantivera aberta a ferida, significando a presença dela no coração. Como estaria seu neto que ficara aos cuidados de sua irmã beata? Como estaria sua fazenda? Ainda seria proprietário?
Sentia a friagem do vento contra o rosto marcado pelas rugas. Corujas piavam dentro dos cupins. Curiangos observavam amoitados nos galhos. Respirou o ar da liberdade. Uma curva no caminho era só atravessar uma ponte de madeira no lugar da antiga pinguela e logo avistaria a terra que tanto amava. A manhã clareava, logo seria dia e luz... Era a vida tantos anos depois se refazendo. 
               

Não vi, mas estavam lá...

O dia não ficou marcado, pois, coisas assim quase nunca deixam marcas, datas e nem horas, ficou só como um dia, uma vez... E é assim que começam tantas histórias: certo dia, uma vez ou era uma vez...

Os anos se passaram e coube a mim sentir um lampejo do toque mágico dos causos e através de palavras escritas, não deixar o tempo diluir antes de chegar ao leitor coisas dessas tantas roças e fazendas, cantos afastados e sertões enveredados. Coisas como o que aconteceu a seguir. 
Fui porque ouvi dizer que aquele lugar ainda era habitado por almas-do-outro mundo, escravos martirizados, arrastando correntes ou o fantasma do fazendeiro cruel que não achou sossego no túmulo e voltou para descansar em sua cadeira de balanço e dormir de novo em sua cama. Dizem, que ali até hoje se ouve choros, ranger de portas, panelas cozinhando sem fogo, pratos caindo. Pedras aparecem não se sabe de onde e acertam os visitantes descuidados.

Cercado por muros de pedra, avistei o casarão fincado ao pé da serra como uma antiga árvore. O sol forte quase atenuou sua aparência sombria de profunda solidão e tristeza.  As janelas cerradas, o mato invadindo, por falta de dono. O que resta da sede daquela fazenda são cores desbotadas, musgo ressequido, forjando em sua fachada uma inscrição anônima: 1887-1945. Ali não ouvi passarinhos e nem vi flores. Só pedras, poeira e cinzas.
O lugar pedia para não ser profanado... Uma casa, mesmo caindo aos pedaços, já teve seus dias de glória e isso, nem a poeira nem o tempo conseguirão apagar. No antigo alpendre um sentimento me envolveu, uma sensação estranha tomou conta de mim... Ali naquele balcão de onde, outrora, o senhor das terras deitava os olhos sobre seus domínios...
Ouvi um barulho de janela batida pelo vento. Mas não havia vento... O ar estava parado e sufocante. Não consegui tirar nenhuma foto. Fiquei em silêncio, fiz uma oração e parti.

Autora: Maria Mineira
São Roque de Minas/MG
Ilustração: Edmar Sales

3 comentários:

Alberto Rocha disse...

Parabéns Maria, minha irmãzinha, Mineira pela publicação dessa coleção de textos, simplesmente, maravilhosos. Muito feliz essa ideia de Carlos de dar ao conhecimento geral um pouco da sua capacidade descritiva e criativa. Seus textos são retratos vivos, têm cheiro, textura e sabor.

Anônimo disse...

É sempre um prazer ler/reler os textos de Maria Mineira!

(Alice Gomes)

Anônimo disse...

Todos os são maravilhosos. Cada um melhor do que o outro. Uma escritora de talentos inquestionável. Coneição Gomes