quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ventos de abril

Autora: Marina Alves

Pela janela aberta do quarto do hospital, olho a tarde que cai lentamente. Gosto desta hora crepuscular, quando retalhos de passado desfilam pelo meu pensamento, reavivando coisas já perdidas no cenário de outros tempos. Como num filme em preto e branco vejo-me saindo de casa para estudar na cidade, indo morar em casa de uma tia. Aos dezoito, me formando professora, começando a lecionar numa escolinha de zona rural, da Fazenda Santa Cruz, onde me hospedava durante a semana, só voltando pra casa nos finais de semana.

Aos vinte, conheci Marcelino: tinha ido à fazenda montar um projeto de engenharia de uma usina de produção de energia para Seu Quincas, meu patrão. Éramos jovens, cheios de sonhos e nos apaixonamos. Foi o tempo de nos conhecermos e dentro em pouco estávamos casados. Depois do casamento, nos mudamos para a cidade onde Marcelino residia e mantinha um escritório de engenharia.

Marcelino construiu para nós uma casa ampla e confortável e eu não podia reclamar da vida que levava. Tinha empregados, chofer para me levar às compras, uma boa conta bancária que podia gastar a meu modo. Às vezes, a rotina era tão previsivelmente tranquila, numa ordem tão sistemática, que eu chegava a duvidar de que tudo estivesse realmente bem.

Mas esteve... De certa forma, tudo esteve muito bem em minha vida até o dia em que, me sentido entediada, convenci Marcelino de que eu deveria voltar a trabalhar. Estava empolgada com a ideia: sempre gostei de lecionar, eu queria dar aulas para crianças carentes, me faria bem voltar a ser uma mulher ativa. Meu marido não se opôs, pelo contrário, me motivou de uma forma que me surpreendeu. Procurei um projeto social na periferia e ofereci meus serviços. Logo fui chamada para entrevista, dali já saindo designada para as aulas.

E, creio, nada teria mudado não fossem os dedos maliciosos do destino. Foi numa reunião de pais que conheci Edgar, pai de um dos meus alunos. E aquele homem, estava escrito, viria para mudar toda a minha vida. Edgar era viúvo, e o filho, na impetuosidade de seus sete anos, talvez por sentir a falta da mãe — morta quando ele nasceu —, se mostrava uma criança extremamente rebelde. Frequentemente, Edgar e eu precisávamos conversar sobre o menino, e foi assim que acabei por tornar-me confidente daquele que seria também o grande amor da minha vida. Aos poucos, fomos nos aproximando e nos apaixonando, e quando percebemos já não sabíamos mais viver um sem outro.

Numa tarde de domingo, tomada pela certeza do que eu queria para minha vida, contei tudo a Marcelino. Nesse mesmo dia lhe comuniquei que iria embora. Minha vontade de viver dignamente meu amor com Edgar era algo do qual eu não abriria mão. Na maturidade, eu, afinal, descobria o que era amar alguém de verdade. E para minha surpresa, ouvi o que jamais esperava: Marcelino confessou-me que também já não nutria por mim o amor dos primeiros anos.  Agora eu entendia seu empenho em me ver voltando ao trabalho: meu marido, já me queria mesmo buscando novos horizontes.

A vida com Edgar era muito diferente da que eu vivia com Marcelino. Não contava mais com as costumeiras regalias, pois de meu casamento eu nada quis levar. Tive que procurar trabalho remunerado, assumir responsabilidades de mãe, cuidar do meu novo lar. Mas aceitava tudo de bom grado, pois mais valia ter ao meu lado um homem que me fazia feliz como eu jamais imaginara. Agora, eu podia dizer que vivia realmente uma experiência de verdadeiro amor.

Por quanto tempo fui feliz com Edgar? Não sei dizer... Nos últimos meses, perdi a noção do tempo, e tudo é muito confuso. Já não sei há quanto estou neste quarto. Só sei que o frio que entra pela janela é frio de abril, e eu o diria sem medo de errar, pois sei bem que quando tudo aconteceu, também era abril e fazia um frio como esse... Não me lembro de muita coisa, mas vagamente recordo o acidente: a pista molhada, o carro rodando várias vezes na estrada, o baque... A escuridão. Quando voltei do coma contaram do carro no fundo do abismo, do pai e do menino que não tinham sobrevivido. E era um milagre eu estar ali... Estar aqui nesta cama, onde estou agora...

Lá fora é noite cerrada. O pessoal do plantão se esqueceu de fechar a janela. Está tudo escuro, e apesar do remédio que me deram para dormir, mantenho meus olhos bem abertos. Estou à espera de Edgar. Sei que ele virá, trazido nesses ventos de abril... Eu já estou bem. Os médicos pensam que vão me dar alta em breve... Mas, estão enganados. Ontem à noite, recebi mais uma visita do meu amor, do meu grande amor, e ele me contou como devo fazer para encontrá-lo. Guardei atentamente tudo o que me disse. Mas isso é segredo, prometi a ele não contar nada a ninguém...


Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

5 comentários:

Anônimo disse...

Magnífico.

Conto bem engendrado e a narrativa em primeira pessoa deu o toque de veracidade.

Parabéns a quem o produziu.

Alberto Vasconcelos

Anônimo disse...

Excelente. Muito bem escrito. Gostei Conceição Gomes.

Maria Mineira disse...

Um conto excelente! Prendeu-me a atenção do começo ao fim! parabéns ao autor ou autora!

doce deleite disse...

lINDAMENTE TRISTE, um conto tão delicado e tocante, que me deixou voar em pensamentos de amor, tragédia, lirismo, e resignação. A sua personagem é cativante. Uma pessoa sem subterfúgios, verdadeira, sincera e capaz de largar toda uma vida, duas vezes, a primeira quando deixou o marido por um amor mais real e a segunda quando abandona a própria vida em nome deste amor. Muito doce e lindo e merecedor de todos os prêmios, aplausos e homenagens. Abraços e quinta - feira eu viajo para Minas.

Iolanda.

João Batista Stabile disse...

Boa tarde, Marina. Belo texto, uma estória triste mas que infelizmente acontece e mais que podemos imaginar. Abraço.