quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A foto - Autor: Carlos Costa

O “retratista” estava para chegar. Era raro um “retratista” ir ao Varre-Vento na década de 70.

- Vistam as melhores roupas, para receber o “retratista”. Como as fotos eram somente em preto e branco, minha mãe dizia que com roupas brancas sairíamos melhor.

- Coloquem um banco comprido ao lado da casa que eu vou decorá-lo para o “retratista”. Na verdade, o que minha mãe tentava esconder é que o banco era velho e feio.  Por trás do banco, para encobrir a parede de madeira, foi afixado também um pano branco. Pronto. Estava tudo preparado!

O motor parou. O “retratista” desceu e foi logo cuidando do que ele tinha ido fazer. Retirou de uma bolsa uma imensa máquina, um tripé na qual fixou a máquina tipo sanfona e deixou tudo no ponto.

- Sentem todos aqui, da forma que vocês nasceram.

Virou uma “escadinha” porque éramos em número de dez, na época. Todos sentados ao lado da casa de madeira, que mais tarde foi arrancada totalmente por um redemoinho, em um lugar que ainda hoje me traz boas recordações – o Varre-Vento.

Sempre tentei compreender porque chamavam o local de “Varre-Vento” se no local, nem ventilava muito, exceto no dia do vendaval que destruiu muitas coisas. Na realidade,  era até um pouco quente em dias normais. O  local, no município de Itacoatiara, tinha algumas pessoas felizes, inclusive a minha: meu pai, minha mãe e meus nove irmãos perfilados um ao lado do outro.

- Todos prontos? – era o “retratista” quem perguntava, mas minha mãe decidiu mudar as posições. Os mais velhos ficaram atrás, os mais novos ficaram na frente e o “retratista”, então, foi autorizado a “bater o retrato”.

- Daqui a um mês, quando ficar pronto a foto e eu colocá-la em uma moldura, entregarei – prometeu o “retratista”.

Depois da foto “tirada”, eu e meus irmãos tiramos nossas melhores roupas, vestimos nossos calções e ficamos comentando as coisas que considerávamos “estranho”.

- Você viu aquela lâmpada que acendeu e apagou e saiu muita fumaça depois? – perguntou meu irmão.

A foto chegou como o prometido. Estavam lá todas as dez almas gravadas na fotografia! E ficamos todos felizes por vermos como éramos porque nem espelhos nós tínhamos em casa. E nossas almas ficaram estampadas na foto, como diziam os índios do lugar!


Autor: Carlos Costa - Manaus/AM
Publicação autorizada por escrito pelo autor da obra


2 comentários:

Neyde Araujo Lopes disse...

Bela crônica: O RETRATO. Lá em casa meu pai manténs uns retratos antigos, uma mistura de pintura com fotografia.

Carlos Lopes disse...

Esse retrato de Carlos Costa tem história. Sabemos disso amigo.