terça-feira, 18 de novembro de 2014

A morte manda mensagens - Autor: Eurico de Andrade

Lá no sertão é crença comum que quando se vai levar um defunto para enterrar, não se pode parar. Pra nada. O morto tem que estar sempre em movimento. Sempre pra frente. Se os carregadores querem fazer mal a alguém é só parar com o defunto nas terras desse alguém ou na frente da sua casa. É desgraça na certa para o dito cujo. Por isso, donos de terra ficam de butuca quando passa carregamento de defunto. Até tiro dão se há ameaço de parar. Os carregadores têm que ser rapidinhos. Dar sossego depressa à alma do morto pra o distinto não ficar com raiva nem vagando por aí.

Pois bem. Num certo dia de janeiro, eis que morre o Deusdete. Homem novo ainda. Cufou por causa do barbeiro. Choro para os parentes e pesar entre os amigos. Defunto tinha que ser enterrado. Xico Vitrola, seu amigão do peito, arruma mais cinco para carregar o corpo do Deusdete até o cemitério de Tabuí. Caminho longo, de quatro léguas. Botam o defunto numa rede, onde passam uma vara bem grossa e, dois a dois, vão carregando o amigo até a cidade dos pés juntos. Cansaço muito. Diminuem um pouco a marcha e andam e andam. Tardezinha chegando. Pispiando a noite concluem que não dá para chegar a Tabuí antes do fechamento do cemitério. Negócio é descansar e continuar no rompante da manhã.

Cada um se ajeita como pode. Morto é deixado num canto. Puxam o ronco. Cansaço dos diabos. Só o Xico Vitrola, pesaroso com a morte do amigo e medroso como ele só, não consegue pegar no sono e fica apreciando a lua cheia, toda brilhosa, no céu. Lá pelas tantas, com os olhos ainda arregalados, vê uma coisa que o deixou de cabelos em pé. O morto parece que se levanta e vem caminhando em direção ao grupo de amigos, no rumo dele. Passa por cima de um, assim meio no ar. Passa pelo outro e mais outro, até passar pelo quinto. Tudo muito de leve, parecendo fantasmado. Quando Deusdete vai passar por cima do Xico, este não se contém e apronta o maior berreiro, soltando os gritos represados na garganta:

- Pra cima de mim não, coração! Por amô de Deus, Deusdete! Vai pro seu corpo, diabo! Cruzcredo!... Avemaria!... Creindeuspadre!...

Com a gritaria do Xico da Vitrola, companheirama acorda pedindo explicação. Quecofoi? Queco não foi? Deixa disso, minha gente! Nossa Senhora da Aparecida!... Explicado bem explicadinho, alguns acharam graça e outros ficaram com a pulga atrás da orelha, preocupados. Um deles foi o Ocride:

- Óia, gente! Isso é castigo de Deus. O morto num discansô até agora porque a gente num interrô ele. Deusdete deve tá divera puto da vida cagente!

- E o diacho é que ele passô inriba de nóis, né sô?... Isso é mau siná. Queira Deus que certas coisa qui o povo fala seja só boataria...

Foi o que conseguiu completar João Bentinho, todo cismado, o primeiro que o espírito do Deusdete passou por cima. Daquela hora pra frente ninguém mais dormiu. Só o Juca Morais é que ainda, de madrugadinha, conseguiu tirar uma pestana. Afinal, ele não acreditava nas lorotas que o povo conta.

- Uai, sô! Dexa de bobage, gente! Larga de mão disso! Quem morreu, morreu! Num vorta mais. O Xico tava era com sonhação!

Na metade da manhã chegaram com o corpo frio e duro do Deusdete no cemitério. Enterraram o amigo. Passaram num boteco para molhar a goela e se mandaram de novo, estrada a fora, rumo do sertão, cada qual pro seu canto.

Xico Vitrola, naquele ano, teve que fazer o trajeto de carregamento de defunto mais cinco vezes.

Autor: Eurico de Andrade - Brasília/DF
Publicação autorizada por escrito pelo autor da obra

eurico2005d@gmail.com
http://tabui.blogspot.com/

5 comentários:

Carlos Lopes disse...

Seja bem vindo ao blog amigo Eurico, e parabéns pelo seu excelente ¨causo¨.

Eurico de Andrade disse...

Obrigado, Carlos. Para mim é um prazer ter meus textos publicados aqui no seu blog. Agradeço muito por ceder-me espaço a fim de que seus leitores possam conhecer o meu trabalho. Abraços.

Celêdian Assis disse...

Olá, Eurico!
Prazer ter este primeiro contato com a sua obra, nesse excelente texto, de narrativa leve e descontraída e que envolve o leitor do princípio ao fim. Prosa agradabilíssima.

Quanto ao enredo em si, é divertido imaginar o medo que os transportadores de defuntos passavam e por outro lado é interessante o enfoque da cultura de um povo, os mitos e a sua força. Gostei muito.

Um abraço,
Celêdian Assis

Eurico de Andrade disse...

Celêdian,
Obrigado pelo comentário. Essa lenda é muito conhecida em Minas Gerais, onde os donos de terras evitam a todo custo que um carregamento de defunto pare ou faça pousada nos seus domínios. Dá azar. Por isto - para se livrarem do azar - são capazes até de fazerem mais defuntos. Os carregadores são praticamente obrigados a andar, horas e horas, sem parar, para chegarem diretamente ao cemitério. Lenda é lenda, não é mesmo? Mas influencia no comportamento das pessoas.

Carlos Lopes disse...

Bacana esse seu esclarecimento sobre essa lenda no caso de Minas Gerais. Devo escrever, não sei quando, a minha experiência nessa prática de conduzir defuntos em rede. Lá no Sertão do Pajeú onde nasci, havia essa prática com frequencia. Como fui criado perambulando pelo sítio do meu avô quase todo dia passava enterros na estrada. No caso da condução em redes, muitas vezes paravam para pedir água. Ali depositavam o defunto na terra batida pelo tempó necessário. Mas por lá, não assustava de forma alguma. A rua em que morava em Tabira que ficava na entrada da cidade para quem vinha do lado da Paraíba, também via com frequencia os defuntos e seus carregadores aproveitando uma sombra enquanto aguardavam o caixão da caridade. Aí entra outra estória que é a dos caixões da caridade que também pretendo escrever. Por fim, no nosso caso, tratava-se de pobreza absoluta e as pessoas não tinham medo de pedir para ver o defunto.