terça-feira, 18 de novembro de 2014

A última ceia de Lampião - Autor: Rangel Alves da Costa


Era por volta da segunda dezena de julho de 38, na Gruta do Angico, nas beiradas do Velho Chico, nas terras da povoação sergipana de Nossa Senhora da Conceição do Poço Redondo, tendo o município alagoano de Piranhas do outro lado, um pouco mais à esquerda.

Ali ao redor da gruta se escondia o bando cangaceiro de Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião, em desconfortante repouso depois de chegar de longa jornada pela aridez baiana do Raso da Catarina.

O Capitão achava o local um refúgio seguro, pois de difícil acesso pelo lado sergipano e podendo contar com o grande número de amigos que mantinha na região, gente humilde, da mataria, mas também portentosos senhores de terras. Do coronel ao matuto, era significativo o laço de amizade construído.

Mas para se manter naquele coito, naquele refúgio de espinho, ao abrigo do sol e da lua, Lampião precisava muito mais do homem do mato do que de outra pessoa influente. E para tal não existia amigo melhor, mais confiável e mais conhecedor das veredas sertanejas do que o coiteiro.

No respeitante ao cangaço, coiteiro era aquele sertanejo que servia de intermediário entre o bando e o mundo exterior, fazendo às vezes de correspondente, de mercador, de assistente de quase tudo. Assim, era responsável pelo transporte do alimento, do remédio, de dinheiro e tudo aquilo que os cangaceiros necessitassem.

Muitas vezes somente o coiteiro sabia o local onde o bando estava escondido. E aquele que soubesse e lhe fosse confiado a manutenção do segredo - um juramento que deveria ser inquebrantável - entre o bandoleiro e o matuto, suportaria até a morte para não trair a confiança do Capitão. E muitos foram presos, torturados, humilhados, mas mantendo sempre o silêncio da honra.

Por isso mesmo que Lampião nutria uma amizade especial por cada um desses sertanejos, cada coiteiro que arriscava a vida em nome da sobrevivência e subsistência do bando. Sabia que seria muito difícil sobreviver nos escondidos sem tão importante ajuda. Sabia que do seu silêncio dependia o amanhã do seu povo marcado pelo destino das perseguições.

Daí que estando refugiado no Angico e na tentativa de estreitar ainda mais os laços de amizade e a rede de proteção, lá pra cima do dia vinte, mais precisamente no dia 27 de julho, resolveu que seria a hora de convidar a coiteirama para um regabofe, para um café à base de muita carne de bode e farinha seca. Tal evento ficaria lembrado na memória nordestina como A Última Ceia de Lampião.

Denomina-se ceia a refeição da noite, a última de cada dia; a última refeição do dia, entre o jantar e o sono noturno, ou em lugar do jantar. A Bíblia também relata uma santa ceia, que foi a última refeição de Cristo com os apóstolos, por ocasião da qual instituiu a eucaristia, e antes de ser preso e crucificado. Foi também nesta ocasião que Jesus revelou que um de seus discípulos iria traí-lo.

Talvez predestinado, intuindo o que fatalmente lhe estaria prestes a acontecer, Lampião resolveu que nesta refeição sertaneja homenagearia os fiéis matutos e procuraria olhar bem nos olhos daquele coiteiro tentado a fraquejar e traí-lo, apontando covardemente à polícia alagoana comandada pelo Capitão João Bezerra onde o bando estava escondido.

Assim foi feito. Aproveitou que o mais famoso dos coiteiros apareceu por ali cedinho e pediu a Mané Félix que providenciasse tudo o que precisava para a janta do anoitecer. E por ele mesmo mandou avisar, de boca em boca, a cada coiteiro para comparecer. E cada cabra veio até de longe atendendo ao chamado do amigo Capitão.

Quando o entardecer começou a tomar outra cor a carne de bode era estendida por cima das fogueiras abertas no chão. Coiteiro chegava trazendo uma pinga, uma comida diferente e logo se reunia aos demais. Todos, coiteiros e cangaceiros, com semblantes alegres e festeiros, menos o Capitão Lampião.

O Capitão tentava, a todo custo, fingir o pressentimento ruim que sentia, fazia de tudo para não abrir logo a boca e perguntar quem havia cometido o pecado da traição, quem havia revelado o paradeiro do seu bando. Ainda não tinha certeza do nome, mas tinha quase certeza de quem seria capaz de tal atitude.

Mas se conteve e procurou palavras de agradecimentos para os destemidos sertanejos, ainda que a todo instante tivesse vontade de apontar a arma em direção a um deles e dizer que era melhor falar a verdade para não morrer. Não fez assim, e por isso entristecia-se ainda mais. Sabia, pois, que o seu fim estava muito próximo, sentia isso por dentro.

Com pedaços de bode assado passando de mão em mão, Lampião enfim pediu silêncio e disse que infelizmente tinha algo a dizer que lhe cortava o coração. Um dentre vocês me traiu. Um dentre vocês que se serve do bode dessa refeição me traiu. Foi o que disse o Capitão. Todos se olharam assustados e começaram a se perguntar quem seria capaz de fazer tal absurdo.

Mané Félix, que estava sentado ao lado do rei dos cangaceiros, perguntou-lhe se podia dizer quem havia feito isto. E Lampião simplesmente respondeu que não adiantaria, pois ainda que dissesse o nome este negaria três vezes trezentas vezes. E completou dizendo que o remorso tomaria conta do coração traidor.

E contam que Pedro de Cândido, um dos coiteiros ali presentes, saiu de lá chorando. Nesse mesmo dia, mais cedo, na feira de Piranhas, ele havia contado à volante do capitão João Bezerra que Lampião e seu bando estavam refugiados no outro lado do rio, ali na Gruta do Angico.

E horas depois dessa última ceia, na madrugada do dia 28 de julho, a polícia atravessou o rio e cercou o bando, matando Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros.

Autor: Rangel Alves da Costa - Aracaju/SE


Poeta e cronista



Publicação autorizada através de e-mail de 30/06/2012
  

2 comentários:

Carlos Lopes disse...

Excelente! Parabéns Rangel.

Elias Nascimento/Jaboatão/PE disse...

Nem Lapião escapou de um traidor! Não conhecia essa parte da história do cangaço.