quinta-feira, 4 de maio de 2017

A Luz da Encruzilhada

Autora: Marina Alves

                Juvêncio olhou o relógio e com certo desagrado viu que já passavam das três da madrugada. A conversa ao redor da fogueira estava animada e dava vontade de romper o dia ali, junto com os companheiros, bebendo aguardente e contando casos.
                Era Noite de São João e os festejos da fazenda do compadre Onofre já eram um costume que ninguém podia perder. Era uma ocasião muito esperada em que todos ali das redondezas se juntavam para apreciar um quentão, cair no arrasta-pé e prosear a noite inteira!
                Apesar da vontade de ficar, Juvêncio precisava ir. A lida na roça e no curral era pesada e ele tinha que estar bem disposto, do contrário não daria conta das tarefas diárias. O fazendeiro se despediu, pegou o chapéu, desatrelou o cavalo no mourão da porteira e tomou o rumo da estrada.
                O animal ia a trote lento. A lua clara no céu derramava sua brancura sobre os pastos. Naquele silêncio noturno, apenas o barulho de algum bicho na capoeira ou no mato rasteiro quebrava a monotonia da paisagem.
                Juvêncio tinha pela frente pelo menos uma légua e meia de caminho até a sede de sua fazenda. E na solidão daquelas chapadas, o homem não teve como evitar. Ia lembrando o último caso que contavam quando saíra: A Luz da Encruzilhada. Para o povo dos arredores, as estórias daquela estranha aparição eram as preferidas.
                Muitos eram os que contavam já terem sido vítimas daquela visão fantasmagórica que, em forma de bola de fogo, assustava e perseguia os viajantes de passagem pelas imediações da encruzilhada.
                Naquela noite, o Chico da Inhana é quem tinha contado sobre a assombração. Dissera ele que um primo já passara maus momentos sob os horrores da macabra aparição da estrada. Tinha sido coisa para nunca mais se esquecer e o pobre coitado nunca mais fora o mesmo! Depois daquela fatalidade ficara meio leso.
                Dizia-se sobre a tal luz que tudo começara quando um médico saíra para atender um paciente que morava numa fazenda das redondezas. Na volta, devido aos muitos buracos provocados pela recente chuvarada e à densa neblina que cobria a estrada, ele perdera a direção do veículo.
                Foi ali, próximo à encruzilhada, que tudo aconteceu. O carro desgovernado derrapou no cascalho solto, rodou várias vezes e por fim bateu violentamente contra um barranco. Tinha sido um acidente terrível que deixaria abalada por muito tempo a cidade de Barra Bonita, pois o médico era gente de muita estima entre o povo do lugar.
                Assim que se deu a colisão, apesar dos traumas sofridos, o homem ainda permanecera vivo, preso às ferragens, mas perdia muito sangue e precisava de socorro. Porém, àquelas horas mortas, naquele lugar completamente ermo, não contaria com uma só vivalma que pudesse acudi-lo. E foi assim que, depois de agonizar por um bom tempo, ele morreu.
                Desde então, conta-se que no momento em que se deu o choque do veículo, um dos faróis refletiu uma luz no barranco que nunca mais se apagou. Ficou por ali perambulando feito alma penada como se quisesse lembrar para sempre a noite daquela tragédia. O farol, na forma de uma esfera luminosa, frequentemente começou a aparecer naquele local e a tirar com seu brilho fatídico o sossego de quem tivesse que passar por ali.
                Juvêncio, porém, não acreditava nem um pouco naquelas estórias estapafúrdias contadas pelo povo! Para ele, tudo não passava de pura invenção de algum amalucado que, ao dar com a chama de algum balão ou a lanterna de algum pescador, saíra contando aquelas lorotas que acabaram por correr mundo e ganhar fama.
                O vaqueiro nunca fora homem de cismar com assombração. Tanto que, naquela noite, ao redor da fogueira, fizera pouco do que contava o companheiro:
                — Pra mim, Chico, essa coisa de bola de fogo é coisa de quem não tem o que falar. Pura conversa fiada!
O outro, no entanto, o olhava com ares de censura:
— Cuidado, Juvêncio! Te prepara que a endiabrada não é de tolerar abuso!
— Pois, tô é pagando pra ver. Passo naqueles caminhos há anos e nunca vi nada de esquisito por lá.
Agora, ali sozinho na estrada, o homem ria consigo mesmo. O que acabava com o povo era aquela ignorância. Onde já se viu fantasma em forma de bola? Era só o que faltava... Se existisse mesmo a tal visão, que viesse então, ele queria era enfrentá-la de vez!
Perdido nos próprios pensamentos, o homem nem reparou que se aproximava da afamada encruzilhada da assombração. Só deu acordo de si quando sentiu que o cavalo estava ficando meio esquisito, de orelha em pé e pisando duro. Uai, estranhou ele, que novidade era aquela agora?
Juvêncio curvou-se sobre o dorso do animal e alisou-lhe o pescoço, tentando descobrir o que se dava. Chegou a pensar que tivesse sido picado por algum bicho peçonhento. Mas viu que o caso era muito mais sério. O alazão soltou um relincho estridente que ecoou pelo mato e, feito flecha, disparou pela estrada deixando atrás de si uma nuvem de poeira.
Em seguida, tudo se deu na velocidade de um raio. Surgindo por detrás da copa de um enorme jequitibá, ela veio com todo o seu resplendor. Perplexo diante da miragem, Juvêncio se negava a crer no que via. Era surpreendentemente brilhante a bola de fogo que ora parava, ora girava no ar.
Não havia do que duvidar! O fantasma estava ali para desafiar a zombaria que sofrera do fazendeiro, ainda há pouco, junto à fogueira. O homem sentiu que seu corpo tremia de forma incontrolável. Tentou manter-se firme na sela, agarrou com força o cabresto e fincou os pés nos flancos do animal que parecia nem encostar os cascos no chão.
Como num cenário de terror, a luz partiu com toda a sua fúria no encalço da vítima. Com seu efeito hipnotizante ela rodopiava sobre a cabeça do fazendeiro e, por mais que o cavalo corresse, o diabólico facho flamejante parecia ser muito mais veloz. Ficou assim, por um longo trecho do caminho, naquele vaivém. Indo e voltando, dançando e mergulhando no ar como se quisesse enlouquecer o cavaleiro.
O clarão sinistro espalhado pelo mato do pasto parecia sugerir que ali haveria um grande incêndio a qualquer momento. Porém o facho despendia um fogo incrivelmente gelado que penetrava fundo nos ossos de Juvêncio e o fazia tremer por inteiro. Será que aquela tortura não se acabaria mais? Ele já não suportava o vento que lhe cortava a pele, nem os lampejos faiscantes que lhe cegavam os olhos cada vez que a esfera chamejante descia sobre ele.
Quando se aproximava do rio que cortava a estrada logo abaixo, o homem entrou em pânico. Será que o cavalo conseguiria atravessá-lo na carreira desabalada em que estava? Temeu que ele perdesse o equilíbrio das pernas, mas nada havia a ser feito. Jamais conseguiria contê-lo no embalo em que vinha. O jeito era clamar por Deus e esperar para ver no que ia dar! Então, fechou os olhos e entregou-se à própria sorte.
Quando deu por si, Juvêncio já estava na outra margem do rio. Estirado no capinzal, ele viu tudo rodar a sua volta. Estava todo encharcado e a cabeça sangrava por um profundo corte na testa. O que acontecera? Atordoado, ele não se lembrava de nada.
Ainda tonto, arrastou-se pelo mato e chegou até ao barranco. Lá embaixo, as águas corriam tranquilas. De repente, viu um brilho intenso refletir-se na correnteza. Aquele clarão ondulando ao movimento das águas provocou-lhe uma vertigem. O que seria aquilo?! Apenas a luz da lua no céu ou o fogaréu da bola sinistra querendo lhe pregar uma peça?
Juvêncio já não tinha certeza de mais nada!  Não sabia se tinha mesmo encontrado o facho diabólico na estrada, ou se era a queda do cavalo que mexera com suas ideias. O certo é que, muito embora tenha procurado seu alazão por toda parte, nunca mais o encontrara.
Por via de suas dúvidas, o moço preferiu o silêncio sobre os acontecimentos daquela noite misteriosa. E nas rodas das fogueiras, quando o assunto pendia para o lado da Luz da Encruzilhada, ele disfarçava, tomava ares de quem não estava nem um pouco interessado naqueles casos e ia beber mais uma aguardente em algum canto!

Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

Página da autora:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=64920

Publicação autorizada pela autora

7 comentários:

Maria Mineira disse...

Que alegria ver a minha comadre aqui! Abriu com chave de ouro, as portas desse espaço tão bonito e cheio de gente boa. Adorei o conto! Parabéns!

Carlos Lopes disse...

Seja bem vinda ao blog, Marina Alves. Adorei os textos que enviou. Diria que um é melhor do que o outro ... não importa a ordem incial.

gam538 disse...

A alegria é toda minha. Gosto de contar história, assim como gosto de ouvir e ler. E onde tem gente contando, com certeza, estou chegando. Não preciso nem dizer que a proposta do "Gandavos" me seduziu logo, logo, ainda mais que encontrei aqui gente tão boa e tão minha conhecida.Carlos está de parabéns, aos poucos quero ir lendo todo mundo por aqui. Um abraço a todos, obrigada pelo convite. Marina Alves.

Ana Bailune disse...

Viu? Melhor não zombar do que não conhecemos... um conto arrepiante!

Carlos Lopes disse...

Então Marina, vc tem toda a razão. Só dá pra ler o conteúdo do blog aos pouquinhos ... tem muita coisa boa já publicado. Muita gente de primeira grandeza e sabem do ofício. Aqui tem a Ana Bailune, Celêdian Assis, Augusto Angelim, Gilberto Dantas, Maria Mineira, Ana Soares, Carlos Costa, Maria Olimpia ... e ... muita gente!

Celêdian Assis disse...

Que prazer ver Marina por aqui, ela que é uma mestra das crônicas e mais uma mineira para compor o quadro de gente de toda a parte deste país, gente que escreve com gosto e que nos encanta. Seja bem vinda, Marina. Um beijo.

Nêodo Ambrosio de Castro disse...

Muito bom. Meus parabéns. Abraços.