sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Caminho de Machu Picchu

Autor: Willes S Geaquinto

Lá pras bandas do Sobradinho em São Thomé das Letras nas Minas Gerais, o povo é muito cordato, bem humorado, acostumados à contação de causos e acontecidos mesmo que inusitados. Por isso é que dizem que existe história e estória, causos e casos. E quando alguém conta um causo ninguém fica perguntando se é vero ou não, um causo é um causo e pronto!
Verdade ou invenção, o caso é que quem me contou esse acontecido foi um caboclo muito do sabido conhecido por compadre Irineu. Alias, é bom saber que no lugarejo é comum chamar os homens de compadre e as mulheres de comadre, já que todos ali se conhecem de muito tempo, menos compadre Irineu que ninguém sabe de onde veio ou quando ali chegou.
À boca pequena, comentam alguns que ele é meio como um ET só que ninguém sabe em que nave ele veio, já que é mais antigo que o ET de Varginha. É, digamos assim, um personagem envolto em mistério, que parece já ter andado pra todo o cafundó desse mundo de meu Deus. Ouvindo das suas andanças, acho até que já teve lá pros lados de Atenas, já que filosofa como poucos. Pra ter uma ideia do estou falando, tempo desses a caipirada da vizinhança passou horas a fio o ouvindo contar duma tal de Odisseia, onde um caboclo chamado Odisseu viveu mil e uma aventuras até voltar pra casa depois de 10 anos, onde a mulher dele Penélope tinha ficado um tempão esperando a sua volta e resistindo as cantadas da homarada que até brigavam de porrete por ela.
Mas deixemos de trelelê pra ir direto ao causo. Tudo começou quando, numa noite de lua cheia no mês junho de 2001, compadre Irineu acometido de insônia resolveu fazer uma caminhada pra desanuviar a cabeça. Sabe-se lá como, quando ele percebeu já tinha andado tanto que deu de cara com a Gruta do Carimbado, um lugar cheio de mistérios e lendas, que só quem já foi a São Thomé sabe dos causo. Dizem até que o caminho da gruta leva até a antiga cidade Inca de Machu Picchu que fica no Peru.  Surpreso com o lugar onde fora parar, mas, seguindo uma força misteriosa que o empurrava para dentro da gruta, Irineu foi se embrenhando cada vez mais naquele buraco sem fim.
Suando que nem cavalo no arado, foi andando, segurando o chapéu na cabeça cada vez que tinha que desviar da ponta duns cristais que escorregavam do teto da gruta. Não bastasse isso, toda hora tinha que espantar os morcegos que passavam voando rente à sua cabeça. Seguindo cada vez mais para o interior da gruta, levado pela tal força misteriosa foi se embrenhando pelos vãos que iam surgindo e seguindo adiante. E o calor, que era infernal, só foi aumentando até que quando sentiu chegar uma onda de vertigem percebeu que estava levitando em vez de caminhar. E foi assim, como se mergulhasse numa nuvem muito poderosa que o carregava, que quando deu por si estava na boca de saída da gruta, “onde o sol brilhava um brilho de dar dor nos olhos”.
Ali todo sujo de terra e saibro, cansado, com muita sede e ainda atordoado depois daquela que parecera uma estranha e interminável viagem, permaneceu deitado por um tempo na grama. Ouviu o alarido dos pássaros e ao longe uma espécie de gritaria. Pensou: “Será que cheguei a Macchu-Pitcchu? Só pode ser. Que outro lugar eu chegaria vindo por essa gruta desde São Thomé? Afinal é isso que as pessoas de lá acreditam”. E entremeio a essas divagações, tentou se levantar, mas a cabeça ainda girava. Ouviu o som parecido com um borbulhar de água e o seguiu arrastando-se até encontrar um pequeno córrego onde mergulhou de roupa e tudo. Sentiu-se como se tivesse encontrado um oásis em pleno deserto...
Saiu da água e deitou na margem do córrego. Ainda estava confuso. Adormeceu pensando em organizar uma expedição pelo lugar desconhecido. Passado um tempo, acordou com uma forte sacudida na cabeça e ao seu redor estavam meia dúzia de homens vestidos como se tivessem saído de algum livro de história, com seus chapéus de couro, lenços coloridos e muitas bordaduras nas vestes. Aquele que parecia ser o chefe do bando dos cangaceiros, perguntou: “de donde vem o cabra com essas roupas esquisitas?” Irineu, já refeito do susto, ainda pensou: “eu de roupa esquisita?”. “Vamo lá, abestado, responde o chefe”, falou um que parecia mais atazanado com aquele estranho ali naquela cercania. Compadre Irineu levantou, colocou o chapéu, e respondeu: “Eu sou de São Thomé das Letras”. “São Tomé do que? isso tá cheirando espião chefe. Vamo leva pro acampamento, lá o Capitão decide o que fazer com esse abestado; quem sabe nós esfola o danado pra conta tudo que sabe” O chefe olhou pro compadre Irineu, passou o punhal na mão como que estivesse afiando e deu a ordem: “vamo leva o cabra”.
Compadre Irineu tava abestalhado com o que estava acontecendo, já ouvira falar de cangaceiros, mas isso fazia parte da história. Não podia estar acontecendo de verdade. Pelo caminho foi observando ao redor, para ver se desvendava o lugar onde estava. Parecia tal qual uma daquelas cidades fantasmas que se via nos antigos filmes de cowboys. Um lugarejo em ruinas, uma igrejinha caindo aos pedaços, algumas casas abandonadas. Ao longe, onde divisou o que seria uma rodovia, dava para ver até os restos de um posto de gasolina. Nenhuma viva alma no lugar, só aqueles que o conduziam que iam conversando numa linguagem difícil de entender. Única coisa que entendeu é que eles estavam ali de passagem e que o lugar aonde viera parar chamava-se Brejo do Encantado.
Passado algum tempo de caminhada quando pensou em perguntar se o tal acampamento estava longe, viu que chegaram ao que parecia ser uma torre feita de tijolos e entraram por um vão onde tudo ficou escuro. Enquanto era puxado por um dos cangaceiros que lhe servia de guia, tropeçou no degrau de uma escada que parecia ir levando para baixo. O tempo ia passando enquanto pensava: “isso só pode ser um pesadelo, onde já se viu encontrar um bando de cangaceiros em pleno terceiro milênio, será que tinha alguma coisa naquela água que bebi? Não pode ser, devo estar delirando, deve ter sido o sol na cabeça...
Saiu dos pensamentos quando uma claridade um tanto difusa lhe veio aos olhos, percebeu que estavam ao ar livre e lá estava o acampamento. Era noite de lua cheia. Ouviu o som de uma sanfona e viu homens e mulheres que dançavam em volta de uma fogueira e cantavam uma cantoria que mais parecia um xaxado ou baião. Sentado próximo da fogueira viu aquele que parecia ser o Capitão, era ele mesmo o Lampião, o Capitão Virgulino Ferreira, ali igualzinho nas fotos que já havia visto, “vivinho da silva” como diz o pessoal lá do Sobradinho.
Foi empurrado para junto da fogueira e o chefe do bando que o trouxera falou: “Capitão, encontramo esse cabra com esse chapéu almofadinha dormindo lá na beira do Córrego das Almas. Como disse o Severino, tá parecendo que é um espião vindo não se sabe donde”. O Capitão Virgulino levantou, olhou olho no olho no Compadre Irineu, como que quisesse adivinhar de onde tinha saído aquele cabra ali na sua frente... Por sua vez Irineu olhava para cangaceiro à sua frente como se estivesse vendo uma assombração, mas, ao mesmo tempo, parecia reconhecê-lo, mesmo naqueles trajes disparatados. Enquanto se perguntava de onde conhecia o dito cujo, Lampião estendeu-lhe a mão e disse: “Só pode ser você Irineu, cabra da peste, há quanto tempo? O que faz aqui pras bandas de Pernambuco?”. Irineu estava embasbacado com a descoberta: “Como é que viera parar em Pernambuco, se ainda ontem estava lá em São Thomé? e como é que o Lampião sabia o seu nome? devo estar ficando louco, ou ter tomado algum chá de cogumelo sem saber”.
Enquanto conjecturava sobre como fora parar no Brejo do Encantado, àquele lugar único e parado no tempo, conhecido pelas histórias que corriam mundo afora, na voz dos cantadores de cordel, repentistas e contadores de causos, compadre Irineu ouviu o som do que pareciam tiros e um alarido sem fim. Num instante viu tudo sumir à frente dos seus olhos, Lampião, cangaceiros, fogueira, cavalos, tudo. Quando novamente deu por si estava sentado numa pedra na entrada da Gruta do Carimbado em São Thomé, rodeado por um grupo de turistas que lhe perguntavam se era verdade que aquela gruta levava à Machu Picchu. Ao que ele respondeu: “Se leva a Machu Picchu eu não sei, mas a Pernambuco isso lá é verdade”. Dito isso, pegou seu chapéu de cangaceiro e saiu andando rumo a Sobradinho.

Autor: Willes S Geaquinto - Varginha/MG

Página do autor:
http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=30362

3 comentários:

Maria Mineira disse...

Esse aí teve de tudo um pouco. Humor, misticismo, história...Juntando tudo deu um ótimo texto.Muito criativo! Parabéns a quem escreveu!

Anônimo disse...

Só acredito, vendo, mas me diverti muito lendo. De São Thomé a Machu Picchu, com direito a Sobradinho quem leu voou alto na imaginação do autor ou autora. Parabéns! Marina Alves.

Helena Frenzel disse...

Pelo visto não é só o Irineu que entende de causos não, muito bem contado este aqui, vice? Criativo, bem escrito, e essa história de gruta que leva a Machu Picchu não é mentira não, tem uma entrada para ela num buraco lá no Maranhão, numa ilha. Parabéns ao autor ou à autora! :-)