domingo, 13 de setembro de 2015

A Quinzena do Autor: Alice Gomes

Alice Gomes

Sou quase uma de muitas.
De todas me falta um pedaço.
Um não-sei-quê, que ainda busco.


Por que escrevo?
Porque Uma e Outra me habitam.
Uma que está para o mundo e Outra que só está.
Uma respira o pó da terra, Outra o pó das estrelas.
Uma sofre quando pensa, Outra canta quando sofre.
Uma tem poderes de fazer calar, quase sempre.
Outra só tem o poder de sufocar, às vezes.
É Uma que escreve quando Outra quer falar.


ALMAS   (HÁ UMAS)

Há uma parte de mim que agradece à que desarruma
(uma parte de mim que obedece ) à que se acostuma
a uma parte de mim.

Há uma em mim que se acomoda, se empanturra,
se acautela, se engordura.
Há uma em mim que se sujeita.

Há uma em mim que se enoja, se esmurra,
se rebela, se procura.
Há uma em mim que se respeita.

Há uma parte de mim que se habitua à que adormece
(uma parte de mim que tumultua )  a que enlouquece
uma parte de mim.

Há uma em mim que boceja, atrofia,
desconversa, renuncia.
Há uma em mim que não rejeita.

Há uma em mim que lateja, repudia,
desgoverna, desafia.
Há uma em mim que não aceita.

Há uma parte de mim que não se importa,
uma parte de mim que grita e morde,
uma parte de mim que não suporta
uma parte de mim que vira e dorme.


AMOR TEMPORÃO    (letra de música)         


Já andei por caminhos, já pisei em espinhos,
que você, sendo tão jovem, sei que não pode entender.
Tenho tantas cicatrizes, de lembranças infelizes,
dessas que tanto remoem, de antes mesmo de você nascer.

E você chegou, quase menina, e me amou, inocente
num momento em que eu estava carente
sedento de vida, água fresca bebi
Me trouxe a fartura tardia das frutas sadias
e eu não resisti.

E eu te amei como um doido varrido
um louco perdido no meio de tanto frescor
Te sufoquei com meus beijos famintos
eu fui só instinto, não vi que matava um amor

Com a mesma leveza que veio
sem nenhum rodeio você me deixou
Eu vi que a loucura tem preço
sozinho envelheço: - a fonte secou.

E eu  gritei como um louco varrido
um louco perdido no meio da minha aflição
E sufoquei meu ciúme doentio
e agora o vazio, sofrendo com a solidão

Eu vi que a loucura tem preço
sozinho envelheço: - a fonte secou.
Com a mesma leveza que veio
sem nenhum rodeio, você me deixou.


ANGÚSTIA

a febre do estrepe
o eco do berro
o prego, o flagelo
o secreto inferno
o inverso.

a seca da pena
a arena, a algema
a rede, a sede
a parede

o beco, o fecho
o medo do erro
o peso do gesso
o azedo do apego
o avesso.

o desassossego.


NA RUA QUE VOCÊ MORA

Na rua que você mora
tem umas flores bem branquinhas
de uma árvore pequenina
que tanta inveja me dá
de todo dia vê-la passar
sem jamais ter de ir embora.

Ai! Quem dera também minha
fosse a rua que você mora!


HOJE NÃO

Juro por Deus que eu te queria
Fazer um poema de amor
Mas, à minha revelia,
O coração, miúdo e mudo,
Decidiu que hoje não...

Amanheceu carrancudo
Não quer riso, não quer sonho,
Não quer volta nem milagre
Só quer saudade sofrida
Do que foi realidade.

Perda por demais doída
Faz dessas coisas com a gente
Põe medo, tira a esperança
Tranca portas, pede um tempo
Vela em silêncio o fim de “um dia”

Juro por Deus que eu te queria
Aqui comigo pra sempre
Dizer o que nunca te disse
(E hoje até que eu diria)
Mas meu coração, de repente,
Resolveu que hoje não.


INDIFERENÇA       (letra)

As pintas todas das tuas costas já conheço bem
pois nas respostas nem te viras para ver-me
e ao fazê-lo , é com um desdém
que não se tem nem com um amigo
Eu tenho tanto a dizer-te e já não digo.

“Olha pra trás, olha pra trás” nas despedidas,
Já tentei isso com o olhar fixo em tua nuca
Eu sei, são coisas de maluco,
e estou maluco, sem cautela,
mas só eu sei da minha vida e o que fiz dela.

Falo bobagem, faço gesto, invento assunto,
Só pra saber se ainda resta alguma gota
mas há um fosso que é tão largo, é tão fundo
e fica sempre um gosto amargo na minha boca.

O nosso fim já está aí fora, bate à porta,
que ele entre, não importa, já passou da hora
Eu te devolvo a liberdade, sem nenhum pedido.
Eu vou sentir muita saudade, mas sobrevivo.


O CHÃO

Ah! Tão pé no chão!
Tão pé no chão que o peso do chão
me sobra à cabeça.
Me cobra a represa do voo travado.
Me pune o pecado da lida rasteira.

Da beira, da beira, da eterna beira,
de quem só entende de chão.

Da asneira de lição aprendida dos precipícios alheios.
Tanto receio, tanta xepa de vida!
Tanta regra seguida, a nem um metro do chão!

Quanto chão! Quanto chão!
Quanta vã guarida de chão!
Tanta pedra, tanto tropeço e o chão,
sempre o chão,
a me poupar da queda.

Quanta náusea de altura da superfície do chão!


O MEIO DO MEDO. O MEDO DO MEIO

Ando meio com medo da vida, mais que da morte.
Ando meio sem sorte, sei lá. Meio sem prumo.
Meio desacreditado até do que posso. Meio velho por dentro.

Ando meio cru, mal passado, vendo a vida passar, embrulhada
Em papel de embrulho de pão bolorento.

- Com tantos eus que podia ter sido e não me permiti um só! –

Ando meio só de mim, pra falar a verdade.
Ando não me querendo ultimamente.
- Nem a mim, ai de mim! –

Ando pelo meio do caminho, até da calçada.
Ando meio sem nada de bom pra fazer.
Ando é querendo ver logo o fim disso tudo.
Saber se o oco tem meio.

Ando com medo do meio um dia ser inteiro
E acabar pelo meio o tinteiro de cor desbotada
Que ressecou, por desuso, num canto da mesa.

- Ah! Pro meio do inferno toda essa tristeza! –

Bendita a ira que me liberta!


O RIO DETRÁS DA CURVA


Atrás daquela curva há um rio
Sei-o, porque o vi.

Há rios que ficam na retina,
para o lado de dentro.

Eternos, a quem os conhecem
invisíveis, a quem nunca os viram.

Amores, na vida, há alguns
que a curva do tempo não mostra.

Eternos, na memória do avesso
dos que os sabem, porque os viveram.

RELÍQUIA


Trago dentro do meu peito
um amor já amarrotado
tantas vezes desdobrado
na intenção de ser feliz.

É que o destino não quis
que este amor tivesse jeito.


Então, até por respeito,
Por medo que se destrua
e nem mais isso eu possua,
hoje o conservo guardado.

Melhor mantê-lo intocado
A arriscar vê-lo desfeito.


O traduzir-se

Com que cores pintar essa tela, se há nela todas as cores e, todas elas, intensas e sobrepostas? Que borrão é este, que encobre paisagens e cubos, e esferas?
Como traduzir este ser que há e que nem a mim se revela?
Sem antenas, setas, trilhos, retas. E nada se completa.

Tudo, de início em início, se entrelaça a outros inícios de coisa alguma.

E tudo esfalfa, tudo sangra, tudo arde.
 E tudo foge, tudo escapa, para de novo um novo ser se pintar.
Este ser de movediças areias, de patagônicas geleiras a se derreter.
Com que cores pintar instantes? Qual a cor da vertigem?

Que ser é este, múltiplo, ávido, desgovernado? Que olha por meus olhos e não me lega lembrança sólida de sequência nenhuma?
Este ser que não me ensina a diferença entre estar feliz ou infeliz, que não me dá tempo de sentir nada por inteiro. Que tudo já foi e não vi. E nada me deixa.

Que ser é este que em mim rodopia, e se contorce em misteriosas danças? E vai ao alto e despenca voos alucinados. E sorri, nem sei de quê, e se inebria. E fecha minhas pálpebras e aspira partículas inspiradas de sons dispersos no ar que é só dele. Que vivencia serenidades e no instante seguinte me encharca de angústia.

Que ser é este que em mim habita, mas não me pertence?
Com que cores pintar essa tela, se há nela todas as cores, e nenhuma permanece mais que um segundo?


O cavalo das almas  - I

Licinha ajudava como podia. Subia no telhado e, com vara, várias vezes mais longa que suas finas perninhas, socava, socava com força, pra dentro da chaminé.
A mãe talvez nem soubesse, (não, não sabia), o perigo que a filha corria. Em pé, sem apoio, girava no ar os braços, brincando de equilibrista. E ria.
Depois não descia, era por lá que ficava, no seu mundo de silêncio e telhas, e os livros que lia.
Às vezes ouvia o canto feliz da mãe, que cozia. Esquecida das pragas que há pouco rogava:
- Cavalo das almas!
Toda a pobreza, cansaço e fumaça, o fogão resumia.
Velho vermelho fogão, de cimento e lenha, e fogo, e choro. Nuns dias picumã, noutros iguarias. Nunca soube Licinha de onde vinha o nome e o porquê, achava que se tratava de tudo aquilo que entupia.
- Cavalo das almas!
E a vida seguia, como tinha de ser.

Numa noite, talvez véspera de Natal, findo um desses dias de pragas rogadas, ouviu Licinha a mãe que chorava, coberta de raiva, pobreza, cansaço e fumaça, e o pai que dizia: - Calma, velha! Não era pra eu lhe dizer (então, porque é que dizia?) mas amanhã ganharás um novinho, à gás!

Dos dias seguintes não se lembra, mas ainda em si e em meia dúzia de seres, mesmo que a ninguém mais faça sentido, haverá para sempre o amado inimigo:
- Cavalo das almas!
E a vida seguiu, como tinha de ser.


Antigamente...

Antigamente, quando eu era jovem, achava que podia comer a vida,
 feito sobremesa.
Que ela estaria sobre a mesa, esperando para após o jantar.
Não importava comer o nada, ela estava lá, para dali a pouco.

Quando finalmente cansei de inapetências quis o doce.
E ele era de fruta estragada.

Antigamente, quando eu era jovem, sonhava que o tempo não existia.
Que era brincadeira de mau gosto das velhas bruxas.
Desdenhava das máscaras enrugadas, mostrando-lhes minha força.
 Sem medo do escuro do meu quarto.

Quando finalmente, acesa a luz, porque se fez noite lá fora,
 o escuro veio para dentro.

Antigamente, quando eu era jovem, abdicava dos grandes prazeres,
na espera fantasiosa dos pequenos milagres.
Doava amores e humores a quem comigo dançasse
a dança dos desatentos.

Quando finalmente, pés cansados, ouviu-se a música,
zumbiu no ouvido o som do tempo. Desafinado.


Poesia para uma pedra


Sei que não falas a minha língua e nem eu entendo em qual idioma me desprezas.
Mas, quem dera, ouvisses-me, compreendendo-me!
Quem dera, que mesmo calados, entendesses que tenho eu muito mais a dar-te que tu a mim!
Quem dera o nefasto de teus longos braços, que hoje me alcançam e me destroçam, sucumbisse, à luz do entendimento!
Sei que a vida é perda, o tempo todo. Aprendi isto contigo e aprendi cedo, mas quem dera, o olhar que me negas ao menos te visse a ti, por dentro, e te cegasse das tuas monstruosidades!
 Sei que me poupaste ao acaso, e só ao acaso devo o que me resta de vida inocente, mas quem dera fosse a minha vida salvar-te da tua!
Quem dera descesses à minha trincheira, que hoje me obrigas a cavar com as minhas próprias mãos rubras de sangue, e visses, daqui de baixo, o mesmo céu azul que eu via, antes do teu sobrevoo!
Quem sabe aprenderias a minha língua e eu a tua, e aprendendo-a, te ensinaria que existem outras coisas a se fazer no mundo além de fechar caminhos.
Quem sabe me ensinarias a tecnologia com que fabricas as tuas bombas e eu, aprendendo-a, transformaria em saudáveis as tuas veias podres, e te daria século e meio de novas possibilidades.
Quem sabe converteríamos juntos a pedra que és, em água límpida, e irrigaríamos outros áridos solos. Quem sabe daríamos boas sementes.
Quem sabe houvesse tempo de não permitir-me crescer assim, tão parecida contigo.

(dedicado aos soldados que despejam bombas nas cabeças de crianças)


A borboleta

As lindas asas azuis de corpo cansado,
Finalmente na parede quieta e branca.
Ah! Descanso! Oh! Cansaço!

Grande aventura foi o voar! Sim, grande aventura!

O que fazia mesmo enquanto voava? Não se lembra.
Ah! Descanso do voar! Oh! Cansaço do voar!

A amiga cigarra, a cantar, cantar:
- Despuès de um año bajo la tierra!
Morreu a amiga de tanto cantar.

Ah! Se pudesse, outra vez, lagarta!
Comer, comer! Brincar de comer.
Há quanto tempo não come...
Deslizar por entre as folhas e depois comê-las.
E deslizar, e comer, e deslizar, e comer.
Armazenar, armazenar.

Grande aventura foi o voar! Sim, grande aventura!

O que fazia mesmo enquanto comia? Não se lembra
Ah! Descanso do comer! Oh! Cansaço do comer!

A amiga cigarra no chão. As formigas a comê-la.
Comer! Comer!
Armazenar. Armazenar.

Ah! Se pudesse, outra vez, casulo!
Silêncio, silêncio. Dormir em silêncio.
Dormir em si mesma, sobre si mesma, dentro de si.
Há quanto tempo não dorme...
E dormir, e comer-se, e dormir, e comer-se.
Poupar-se. Poupar-se.

Grande aventura foi o voar! Sim, grande aventura!

O que fazia mesmo enquanto dormia? Não se lembra
Ah! Descanso do dormir! Oh! Cansaço do dormir!

A amiga cigarra, que já é formiga...
Fragmentos de cantos comidos.
E tudo é transmutar.
Ah! Se pudesse, outra vez, o voo!
O gozo consciente do voar!
Sem fome, sono, chão, amiga, destino.
Sem visões de formigas de asas azuis.
Nunca mais o encolher-se
Nunca mais o desdobrar-se

Grande aventura foi o voar! Sim, grande aventura!

O que fazia mesmo enquanto tentava? Não se lembra.
Ah! Descanso do tentar! Oh! Cansaço do tentar!


6 comentários:

Carlos A. Lopes disse...

Obrigado Alice Gomes pela sua participação na Quinzena do Autor.

Anônimo disse...

Parabéns a Alice Gomes pela excelência dos seus textos nesta seleção.

Parabéns Alice Gomes, pela versatilidade das composições, pelas imagens literárias sugeridas, pelo linguajar maduro de quem sabe colocar as palavras certas nos devidos lugares.

Parabéns ao Gandavos pela maravilhosa escolha.

Alberto Vasconcelos - Santo André/SP

Ana Bailune disse...

Poemas fortes, bonitos e verdadeiros.
Parabéns a Alice!

Anônimo disse...

Agradeço ao Carlos pela oportunidade de aqui mostrar um pouco do que escrevo. Coisa muito rara neste meio este desprendimento de dar espaço aos autores, sem qualquer interesse que não seja o de difundir a literatura brasileira. Te admiro muito por isto e você sabe. Agradeço ao Alberto pelas palavras carinhosas com que sempre me brindou neste blog. Agradeço também à Ana Bailune, poetisa de primeira grandeza, por quem nutro grande respeito literário. Este momento ficará marcado na minha memória para sempre. Obrigada.
- Alice Gomes -

Anônimo disse...

Um verdadeiro passeio poético. Poesias da mais alta qualidade. Parabens Alice Gomes. Voce é poetisa de primeira grandeza.Conceição Gomes

Anônimo disse...

Um verdadeiro passeio poético. Poesias da mais alta qualidade. Parabens Alice Gomes. Voce é poetisa de primeira grandeza.Conceição Gomes