quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A concupiscência da liberdade e a cultura consumista - Autor: Casal 20

“Vocês gostariam de participar de um sorteio?”, abordou-nos o rapazinho. Todavia, como viríamos a descobrir, não havia sorteio algum e aquilo era apenas uma isca falsa, um peixinho de plástico preso à linha de uma vara que fora lançada e esperava por um estulto. Portanto, a porta de entrada já fora uma mentira. Daí em diante, o rapazinho nos levaria às mãos da vendedora e assistiríamos a uma avalanche de informações e imagens cujo objetivo era tão somente a supervalorização do nosso poder de decisão.


“Vocês trabalham o ano inteiro, então merecem dar para sua família as melhores férias possíveis”, insistia a vendedora. “Vocês já imaginaram as suas filhas chegarem no 1º dia de aula e não terem nada para contar na redação que a professora delas vai pedir sobre as férias?!”, dizia-me com uma expressão de profundo terror, tentando incutir em nós, cruéis pais, toda a responsabilidade pelos traumas que nossas filhas iriam carregar pelo resto da vida delas. A lógica é simples: sem Disney hoje, amanhã elas se tornarão delinquentes do Comando Vermelho e diante do juiz elas poderão se declarar vítimas de uma educação castradora, opressora e puritana.

“Vocês podem proporcionar as melhores férias, nos melhores resorts, então, por que não?”, espantava-se a ansiosa vendedora. Incansável, levou-nos a uma pequena sala e ali assistimos a um vídeo com cenas paradisíacas e efeitos oníricos. Tudo muito clean naquele universo de infinitas possibilidades esperando apenas por nossa “livre” adesão. Enquanto as cenas desfilavam diante dos nossos olhos casais apaixonados e filhos realizados, uma voz repetia o mantra: “Eu posso, eu sonho, eu realizo, eu mereço, eu quero, eu faço”!

Ao acender das luzes, comecei a ficar preocupado se não teriam colocado alguma droga na água que nos ofereceram. Não, não recorreram a esse artifício, mas, ainda assim, o palco havia sido armado para nos atordoar a razão. A sala da entrevista era tão ruidosa por causa dos outros casais (estes também se encontravam com seus respectivos vendedores) que, com trinta minutos de conversa, eu já não conseguia absorver mais nada do que aquela moça estava me explicando. Passei a concordar com a cabeça e percebi que começava a deixá-la pensar por mim. Vez em quando, alguém erguia a voz noutra mesa e chamava a atenção de todos, enquanto anunciava: “Um minuto, por favor, estão diante de mim o senhor fulano e sua esposa beltrana e eles acabam de se tornar os mais novos proprietários de férias na nossa empresa. Vamos todos dar uma salva de palmas para eles”. Assustadoramente, todos ali batiam as solicitadas palmas!...

Todo aquele cenário ia ao encontro de uma cultura de livre-arbítrio, uma aposta na soberania do “eu”, que escolhe, que determina, que manda, que merece e crê que todo o universo vai conspirar a seu favor. “A proposta é boa para vocês, está dentro do orçamento da família, então é um direito de vocês essa escolha”! Era o ultimato da nossa vendedora, cujas mãos começavam a tremer e a voz embargar diante da nossa impassibilidade. “Por que não?”, era a pergunta que saía repetidas vezes da boca daquela turismóloga. “Verdade, eu posso, não há nada de errado, não há imoralidade alguma aqui envolvida... mas ainda assim nem tudo convém”! Poderia convir ao outro, mas não para mim.

Paradoxalmente, aqui apresentava-se o ponto: convém ao “outro” e não a mim! Embora todo espetáculo de propaganda e marketing – com seus símbolos de soberania, autonomia, independência e liberdade - seja estrategicamente montado para colocar a minha decisão na ribalta, tudo na verdade era tão somente uma chamada ao “outro”. É a proposta para ser o que eu não sou: uma outra vida, um outro lugar, outros valores, outra biografia. Tudo aquilo quer arrancar de mim o outro ou transubstanciar-me em outro. Não sou eu.

A proposta da serpente no Éden era muito boa não para Eva, mas para a “outra”. Não para a identidade real essencial criada por Deus, mas para uma “outra” Eva e um “outro” Adão que tomaram forma no imaginário daquele primeiro casal. O consumismo quer nos arrancar da nossa identidade real - redimida e redefinida por Deus - e lançar-nos no mundo imaginário do “outro”, que é aquele que não sou eu. Assim, subvertendo Sartre para que ele concorde comigo: o inferno é o “outro”!

Fomos embora, desvencilhados pelo Espírito dessa teia de consumismo lançada sobre nossa cultura que endeusa o poder de escolha de pessoas que se julgam livres. Contra o consumismo que arremessa sobre nós sua rede de engodo, só há uma saída: discernirmos se é da vontade do Pai e não apenas um simples capricho da nossa cultura de livre-arbítrio. A concupiscência da liberdade é a maior neurose coletiva dos nossos tempos. Tal neurose – que atinge ricos e pobres - é o sintoma de um fetichismo que apenas desvela a natureza demoníaca da sanguessuga e suas filhas Dá, Dá (Pv 30:15). Estas pretendem esmaecer a proposta evangélica de uma vida regida pela piedade com contentamento oferecida graciosamente por Deus a todos os seus filhos por meio de Jesus Cristo.

Autor: Casal 20 - Região do Araguaia/MT

http://casal20ribas.blogspot.com/
http://mulheresabias.blogspot.com/
Publicação autorizada por e-mail em 12/10/2011

5 comentários:

Casal 20 disse...

Carlos, estamos honrados de estar aqui na sua casa. Belo blog e maravilhosa iniciativa de reunir escritores por aqui. Parabéns!!!

Abraços sempre afetuosos.

Carlos Lopes disse...

Magnífico texto! Parabéns, amigos. Sejam bem vindos.

disse...

Muito bom Fabio. Gostei do artigo!

Anselmo disse...

Fábio.O pior é que muitas vezes nos deixamos levar por esses apelos.Caímos como "patinhos" nas iscas perversas do sistema capitalista.Compramos o que não precisamos,vamos onde não queremos.Consumimos quase que indiscriminadamente de tudo que é posto na "banca".Nos tornamos parte desta grande matrix.
Eu quero a pílula vermelha!
Paz!

Carlos Lopes disse...

Amigo Fábio, obrigado pelo seu comentário no meu texto QUEM AMA O FEIO, BONITO LHE PARECE. Um abraço amigo.