domingo, 2 de outubro de 2011

Outrora e hoje - Autora: Celêdian Assis

Estive revendo uns livros guardados, alguns jamais havia visto, faziam parte do acervo dos meus pais. Um especialmente chamou-me a atenção, bem velhinho, amarelecido pelo tempo, roído por traças, de capa dura, formato pequeno, quase um livro de bolso. O dito cujo " Sol Posto" em versos, é datado de 1923. O escritor, Faria Neves Sobrinho, um brasileiro, mais precisamente pernambucano, que eu não conhecia.
Fiquei surpresa ao constatar que a 87 anos o autor já constatava que, se via nos jovens daquela época, uma tendência apática aos males da alma, que eu já com um pouco mais de meio século de vida, continuo assistindo, tão atual, quanto real.  “A mocidade de hoje não tem a alma que os de outrora mostravam.”     As nossas indagações continuam as mesmas, quanto aos jovens de hoje. Eles não tem gestos graves e medidos, nem sequer a aparência de velhos dos jovens de outrora, descrito pelo poeta, mas guardam na irreverência, o mesmo vazio de alma.
Então, questiono: seremos nós que mudamos e tornamos nosso olhar intransigente, ou serão mesmo os jovens de hoje, envolvidos que estão, neste turbilhão de modernidades, desprovidos de real alegria?
Transcrevo na íntegra, inclusive com a grafia e normas gramaticais próprias da referida data, que confesso chegaram a incomodar-me, senti falta de mais agudos e graves.

OUTRORA E HOJE
(Dedicado ao filho do autor)
E eu lhes dizia (e todos escutavam a minha voz pausadamente calma):
"A mocidade de hoje não tem a alma que os de outrora mostravam:
Nos meus tempos que o Tempo, de apressado,
já sepultou nos longes do passado,
tínhamos nós, rapazes,
na alegria feliz da mocidade,
os timidos, a audacia da bondade,
e o temor dos maus actos, os audazes.
Tédios da vida? Para longe os tédios.
Males da vida? Para que remedios...?
Tínhamos algo? Espírito contente,
davamos tudo, prodigos; se nada,
na ebriez da existencia descuidada,
davamos igualmente...
E eramos francos, eramos sinceros.
Para nós, sempre amiga e dadivosa,
não tinha a natureza tons austeros;
tudo nos parecia côr de rosa.
Hoje, onde mais a flor dos tempos idos?
Imberbes rapazelhos
têm, pelos gestos graves e medidos,
a aparência de velhos.
A expansiva alegria de ser moço,
de ser bom, generoso, ufano, ousado,
resoluto, direito,
hoje é tão só sorriso contrafeito,
enexpressivo, insôsso...
Tudo, de todo, agora está mudado?"
Calei-me. Houve um silêncio de respeito
aos meus cabellos brancos. Entretanto,
alguem, moço de certo, de um recanto falou:
E estas palavras me chegaram:
"Os olhos e a alma delle é que mudaram..¨

Celêdian Assis – Belo Horizonte/MG



Comentário da autora:
Obrigada, meu amigo Carlos, ter meus textos publicados em seu espaço tão cativante, muito me honram. Contribuir para acrescentar às histórias de gente e lugares, é acima de tudo contribuir com a nossa própria história, a que constrói a verdadeira identidade de um povo. Parabéns pela sua iniciativa de reunir aqui, contadores de histórias dos mais gabaritados, gente que como nós, valoriza as nossas origens. 
Um grande abraço,
Celêdian 



Publicação autorizada por escrito pela autora da obra

2 comentários:

Carlos Lopes disse...

Obrigado Celêdian pelo comentário neste blog.

Carlos Costa disse...

Desde de séculos Antes de Cristo, filósofos já afirmavam suas preocupações sobre o futuro de nossa juventude porque desprovidas de almas nobres, se colocavam contra seus país, não respeitavam mais ninguém etc. Há um texto de Sócratis que afirma, inclusive, que a "juventude não tem mais jeito, mesmo", confirmada essa afirmativa mais tarde em texto de um padre-folsófo da Igreja Católica: "nossa juventude não terá futuro algum". Querida Celêdiam, o que mudou mesmo fomos nós, nossos espaços, nossos valores e a moral social que foi totalmente invertida. Um lindo texto, sem dúvida, psra reflexão de todos. Parabéns.