sábado, 9 de junho de 2012

Escrever - Autor: Gilberto Dantas

Já me conformei em ter um monte de dúvidas e também não entender muitos pensamentos, com os quais às vezes me deparo. Querem ver um? Esse é do meu amado poeta português Fernando Pessoa: “ escrever é esquecer”. Eu, na minha santa ignorância, achava que escrever era recordar. Ontem, comentando com a Míriam, minha esposa, sobre esta afirmação, ela, que nunca leu o Pessoa, sem o menor desassossego, me instrui: “claro, ao botar pra fora suas lembranças, você as esquece!” Pode ser. Mas acho que o Pessoa estava pensando em outra coisa, que não consigo atinar. Já o escritor amazonense Milton Hatoum nos afirma que escrever é se salvar, como fez Sherazade, que inventou uma fábula para não morrer decapitada. Em um esforço de interpretação, guiado pelo seu pensamento, imagino que ao relatar nossas vivências, estamos salvando essas histórias da corrosão do tempo, tornando-as novamente vivas, salvando-as da morte simbólica, se acaso não pudessem mais se expressar, através do narrador. E é por isso que escrevemos, como pensa o escritor amazonense/libanês. Acho correto o pensamento de Horácio: “Muitos heróis viveram antes de Agamenon, mas todos estão mortos, enterrados, desconhecidos porque lhes faltou entre os soldados um poeta.” E eu acrescentaria que é preciso, além do poeta, e, talvez mais importante, um leitor, esse eterno desconhecido. Não é raro o leitor, como intérprete, enxergar mais longe que o próprio escritor.

Já a portuguêsa Agustina Bessa-Luís nos fala que “o escritor é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração.” Desculpe, mas não acho. Muitos escritores me encheram de medo. Kafka foi um deles, só para ficar neste único exemplo. Isaac Asimov dizia: “ escrevo pela mesma razão que eu respiro, se não fizesse eu morreria”. Felizmente, minha respiração não para quando deixo de escrever. Quanta diversidade de opiniões, começo a suspeitar que entrei num tema assustador, logo eu que fui tão assustado na infância e em quase toda a adolescência. Mas hoje, me encho de coragem e enfrento esses luminares da literatura. Se cheguei até aqui, muitas vezes açoitado pelas intempéries da vida, na fronteira da velhice, é porque, mesmo sem saber, fui sempre um otimista e como um iconoclasta, derrubando todas as crenças, lendas e mitos e passando por cima de todas essas opiniões, bem irreverente, afirmo triunfante: escrever é simplesmente um ato de prazer.




Autor: Gilberto Dantas - Miracema/RJ


Publicação autorizada através de e-mail de 07/05/2012

6 comentários:

Carlos Lopes disse...

Concordo amigo Dantas: Um ato de prazer! Acrescento:Prazer e superação. Afinal, imagino que o escritor tem em si mesmo o seu maior obstáculo.

Patricia disse...

Concordo com a colega Miríam, escrever é esquecer.

Ana Bailune disse...

Escrever é um ato de prazer. É viver. É lembrar. É esquecer.

Aleatoriamente disse...

Achei um texto muito interessante esse de Gilberto.
Muito bom.
Escrever tem efeitos avassaladores.
Em alguns casos é uma mistura maravilhosa, terapia, prazer, emoção,leveza.Enfim a escrita é um caminhar por dentro da gente, as emoções a cada um é singular, mas apaixonante.

Boa noite Carlos.
Um abraço.

jose claudio disse...

É um tanto disso tudo e há momentos que é tudo isso . Outros ainda que é somente prazer. Há aqueles em que vem para dissipar angústias, para esquecer tormentos, para lembrar prazeres, para afugentar sombras esquisitas que se intalam em nossa alma. Enfim, para mim é terapia, acima de tudo. Mas o nosso grande Gilberto sabe das coisas, não é à toa que é um grande escritor, admirado por aqueles que acham tudo isso que citei. Pena que não me dá mais bola. hahahaha! Brincadeira. Grande abraço, Carlos e se o Dantas passar por aqui, que receba cá da Minas o meu caloroso e saudoso abraço também. Paz e bem.

Carlos Costa disse...

Gilberto, caro amigo, em meu caso em especial escrevo para manter em atividade meu cérebro e, lembrando, viver gostosas lembranças que não se vive mais nos dias de hoje! Falo por mim em particular...tenho que manter minha mente ativa antes que eu venha a falecer. Deixarei alguns livros meus para a história como O HOMEM DA ROSA que considero emblemático demais para ser entendido nos dias de hoje. Talvez, como muitos outros escritores, espero ser reconhecido nem que seja daqui a uns 50 anos, companheiro. Um abraço,