sábado, 22 de junho de 2013

Burrim Véi

Autor: Maria Mineira

Havia um sitiozinho solitário perdido na imensidão da Canastra, casa de avós, onde crianças alegres passavam as férias. Toda manhã tinham leite puro, leite que estava diretamente ligado à grama que é consumida e ruminada lentamente em horas de silencioso mastigar dos animais com seus grandes olhos voltados para o chão e para o céu, olhos enormes e quietos. Daquele ruminar ao entardecer, dependia o leite tão saboroso na manhã seguinte.
Além das vacas, cabritos e aves, havia ali um burrinho velho deixado pelo boiadeiro que pediu pouso e ao tentar pagar a hospedagem, o avô se recusou a cobrar. O animal era de cor marrom, pelo ralo e olhos mansos. Virou montaria de intrépidos cavaleiros e amazonas, passava  os dias pastando a grama que crescia verdinha, ali em volta da casa. Deram-lhe o nome de Burrim Véi.     
A menina começou a protegê-lo, tão manso e indefeso parecia ser. Até convenceu o avô a construir um cocho, onde depois dos passeios pelos pastos, o deixavam ficar comendo farta e sossegadamente o milho, as canas e até cenouras que as crianças traziam da horta.
Dizem que os burros têm mais intuição que os cavalos, principalmente para distinguir o perigo, em estrada molhada, para descer morro e até para atravessar rio, o burro é mais garantido. Nas férias de final do ano a menina foi a primeira a chegar, procurou no gramado onde o burrinho ficava  e não o encontrou. Com o coração apertado perguntou ao avô:
—Cadê o Burrim Véi, vovô?
O avô nunca mentia para os netos e com semblante triste contou:
—Seu tio vendeu ele...
—Vovô, cumé qui o sinhor teve corage de deixá vendê ele? Por
quê?
—Ieu num dexei minha fia, sabia qui ocêis tinha amor nele. Foi seu tio qui vendeu no dia qui o vô num tava im casa.
O tio apareceu e sem um pingo de dó foi logo dizendo aos sobrinhos:
— O burro véi docêis, uma hora dessas já virô salame. Oia as butina novinha qui ieu comprei com os cobre.
A menina chorou sem parar. Se recusava olhar para o tio, não falava com ele. Não pedia mais a benção. Era seu inimigo. Não gostava nem de ver as roupas dele no varal. Um dia o tio ficou doente e quase morreu.    . 
O avô pegou a neta pela mão e  levou-a até o tio. Ela  olhou-o  e saiu do quarto correndo. Sentia um mal estar enorme diante dele, uma coisa inexplicável.
Depois de algum tempo a convenceram voltar a falar com o tio. A benção ela tomou de longe, com medo que ele  morresse. Não disse mais nada. Sua presença a magoava, isso durou anos.
A cicatriz ficou, apesar de o tempo ter se encarregado de amenizar, fazer doer menos.
Restou a saudade do Burrim Véi... Em volta da casa a grama cresceu. 



Autora: Maria Mineira - São Roque de Minas/MG


Página da autora:

       http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=86838

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3 comentários:

Ana Bailune disse...

Que história mais linda, e triste... me fez lembrar de uma pata branca que eu tinha quando pequena, que me seguia a todo lugar. Um dia, minha mãe a deu para meu irmão quando eu estava na escola. Ele a matou e comeu.

LENAPENA disse...

Primeiro tenho que dize que adorei a foto, quanto ao seu conto, ah, seu talento está presente em tudo que escreve, pois você deposita sua alma em cada linha. Lembrei-me de um casal de pintinhos que demos a minha filha, eles cresceram e um dia desapareceram de nosso quintal, ela chorou por muitas semanas.... Um bj a vc

Eurico de Andrade disse...

Maria, parabéns pelo seu trabalho. Cada vez melhor! Um grande abraço.