segunda-feira, 9 de junho de 2014

Texto: 19 (do concurso) - O Guapeca

Eu tinha cinco anos de idade, quando morreu o cachorro de estimação da família que atendia pelo curioso nome de Peca. Aliás, muito tempo depois é que fui saber que o nome dele era uma simplificação de “guapeca”, termo muito usado no sul do Brasil para nomear o cachorro doméstico.
 Peca era um cão de uma raça muito popular, conhecida desde a Roma antiga por “canis viralactum”, ou seja, um simples vira-latas. Porém, os seus pelos aveludados da cor marrom, sua agilidade e graça, além de alguns  traços diferenciados, o colocava muito próximo da realeza dos Golden Retriever, originários da Grã-Bretanha. 
No convívio da família ele transmitia muita alegria, era o tempo todo: “Peca pra lá, Peca pra cá”. “Eita bichinho espoleta”, meu pai dizia. Às vezes, quando ele colocava o focinho entre as ripas do portão que dava para a rua, minha mãe ralhava:
– Não vai pra rua, Peca!
Ele não ia, e muito menos eu. Porque ela sempre nos mantinha, eu e o cachorro, do portão para dentro. Brincar na rua, nem pensar! “Isso não é coisa de guri educado”, ela dizia. E só saíamos, eu e o Peca, juntos com a família. Quando íamos à casa da vó Davilina ou de algum outro parente.
Curitiba não era como é hoje, eram os anos 1950, e agente ia a pé à casa da vó; desde a Vila Leão que ficava no bairro do Portão, até o bairro Novo Mundo. Nos dias de domingo Peca ia sempre faceiro pela rua, penso que ele, assim como eu, aguardava ansiosamente por aquele passeio.
Naquele tempo era um costume muito arraigado as visitas em família nos dias de domingo. Ninguém ficava em casa como hoje, vendo TV até o domingo acabar. Eu adorava ir à casa da vó, lá era o nosso ponto de encontro; tios, tias, primos e primas, compadres e comadres. Minha avó gostava muito de mim, embora eu fosse adotado, era tratado como da família desde sempre. Aliás, nessa época eu nem sabia que era adotado. Ela e os meus tios viviam me elogiando, diziam sempre que eu era muito educado, inteligente, criativo, coisas assim; coisas de guri bem comportado. 
Além do clima harmonioso, existiam também as brincadeiras com os primos que eram da minha idade. E muito mais: o café gostoso moído na hora, pão feito em casa, bolo, paçoca de amendoim, cocada, compotas e outras quitandas. De vez em quando, algum tio me agradava com algumas balas de ovos muito gostosas; eram as minhas preferidas.  Eu tinha uma predileção bem acentuada por doces, minha mãe dizia que era por causa das lombrigas, e ficava por isso. Para mim o importante era que todo domingo era dia de festa na casa da vó, e para o Peca também. Nunca vi um cachorro tão contente como naqueles dias de domingo, até parecia criança também. Logo de manhã os olhos dele brilhavam mais que tudo, parece até que adivinhava o dia; até o pelo dele que era marrom ficava mais sedoso depois que minha mãe dava-lhe um bom banho.
E assim, eu e o Peca fomos convivendo na vida; brincando e correndo pelo quintal que era dividido com algumas galinhas e um gato do vizinho que de vez em quando aparecia por lá. Minha mãe e a tia Ondina eram bordadeiras de mão cheia, como se dizia.  Então de vez em quando uma ia bordar na casa da outra. Quando íamos à casa da tia Ondina, que morava na mesma vila, era uma festa também e o Peca ia junto feliz da vida. Lá também era bom de passear. Do portão até a varanda da casa tinha uma espécie de portal adornado com parreiras de uvas pretas e uvas verdes, a gente caminhava por debaixo das parreiras.  Quando chegava o tempo das uvas maduras até o Peca comia e se lambuzava. Tia Ondina e minha mãe achavam graça de ver o cachorro comendo uva e abanando o rabo de contente.
Naquele tempo também era comum ter o médico da família, e o nosso se chamava Dr. José. Ele era um pouco mais velho e muito atencioso. Meus pais me levavam lá muitas vezes, já que eu era muito doente nessa fase da infância. Eu era muito magricela e frágil, então volta e meia tinha que ir ao médico. Lembro que além dos remédios que ele receitava, sempre havia a recomendação de que eu tinha que tomar muito fortificante. E minha mãe seguia à risca as instruções do Dr. José. Daí que eu tomava óleo de fígado de bacalhau, Biotonico Fontoura e Sadol que era para abrir o apetite. Algumas vezes por dia minha mãe me chamava:
– Venha cá guri, tá na hora de tomar o fortificante!
Quando eu ia o Peca ia junto, só que ele não precisava de fortificante. Se tivesse que dar alguma coisa pra ele tomar devia ser calmante, pois o serelepe corria pra lá e pra cá o dia inteiro. Meu pai dizia que se eu tivesse a energia que o Peca tinha, minha mãe ia ter um trabalho redobrado comigo.
Às vezes, os adultos não acreditam muito nas impressões das crianças, mas, naquela tarde fria de julho, uma quinta-feira, quando minha mãe começou a me aprontar para ir ao Dr. José, eu senti que o dia, além de nublado, estava meio estranho; algo estava meio fora de ordem, só que eu não sabia o quê.  Até mesmo o Peca estava um pouco distante, não estava tão alegre como das outras vezes que ia conosco. Mesmo assim, lá fomos nós para o médico. Eu, minha mãe e o Peca, que de vez em quando me dava uma lambida na mão. Chegamos ao consultório do Dr. Jose e antes de subirmos uma escada que levava até ao atendimento, minha mãe recomendou ao Peca:
 – Você fica aí esperando quietinho, não vá sair pra rua, hein!
Peca deu um resmungo como se tivesse entendido e, como sempre fazia naquelas ocasiões, se acomodou no tapete que ficava próximo à porta. Acabamos de subir a escada e fomos aguardar lá na sala de espera até que fôssemos chamados. Pode até parecer estranho, mas eu gostava de ir ao médico, porque na sala de espera tinha muitas revistas e, como eu já sabia ler um pouco, ficava ali entretido folhando as revistas da época enquanto o tempo passava. Enquanto isso, minha mãe conversava com as outras mulheres que esperavam também. Às vezes eu dava um tempo nas revistas e ficava ouvindo minha mãe falar dos seus bordados e de outras coisas da vida. Quando perguntavam a meu respeito, ela dizia que eu era muito fraquinho, mas, que o Dr. José estava cuidando disso e eu vinha melhorando.
Fomos a chamados e o Dr. José foi logo perguntando se eu estava tomado os fortificantes. Então minha mãe narrava tudo com detalhes sobre a minha saúde. Nesse dia, depois de me examinar ele disse que eu estava bem melhor, que estava ficando corado e que era só obedecer e tomar direito os remédios que eu ia ficar com uma saúde de ferro. Minha mãe ficou muito contente com as palavras dele, falou que assim ficava mais aliviada. Eu também fiquei alegre em saber que o tratamento estava indo bem, principalmente por que não precisava tomar injeção. Eu tinha um medo assombroso de injeção, só de ouvir falar já me dava arrepio. Outra coisa que eu gostava muito mesmo quando ia ao Dr. José, é que ele na saída me dava uns pirulitos com sabor de framboesa, que me deixavam com a língua vermelha e um cheirinho bom.
E foi assim, animados com as boas notícias do médico sobre a minha saúde, que nos deparamos com uma incomoda surpresa no fim da escada, o Peca não estava nos esperando no tapete onde o tínhamos deixado. No primeiro instante Minha mãe ficou sacudindo a cabeça transtornada sem saber o que fazer:
– Onde será que esse cachorro se meteu?
Pergunta daqui e dali e ninguém sabia do cachorro. Então ela me deixou sentado na escada e saiu para a rua a perguntar nas lojas que existiam ali por perto. Até que o dono de um armazém que conhecia minha mãe, disse que tinha visto o cachorro e que ele tinha sido atropelado e morto por um caminhão...
Creio que para me preservar da cena, ela nem me levou para ver o corpo dele. Apenas me pegou pela mão, e enquanto voltávamos para casa contou que o Peca tinha morrido num acidente. Eu sem entender muito bem o ocorrido, voltei chorando e triste pelo caminho.  Em vão ela tentava me consolar, dizendo que a vida era assim mesmo, que cachorro vivia pouco e que, diferente das pessoas, não tinham noção de perigo. Foram momentos de uma tristeza que parecia não ter fim. Em casa até chá de camomila adoçado com mel, minha mãe me deu e nada do desgosto passar.
Quando à noitinha meu pai chegou do trabalho foi outra angústia. Meu pai ainda tentava entender o sucedido:
– Mas como é que isso foi acontecer? Ele já estava acostumado a ficar esperando lá na entrada do consultório. Será que alguém abriu a porta e espantou ele de lá? Sozinho ele não ia sair, ele era muito obediente...
 Dúvidas e mais dúvidas, até que minha mãe pôs um fim na conversa. Disse que não adiantava ficar remoendo o assunto porque isso não ia trazer o Peca de volta. Era melhor a gente ir se consolando e guardar as boas lembranças dos anos que ele tinha alegrado a vida da gente com suas estripulias. Com ares de sabedoria ela falou:
– Foi Deus que quis assim, vai ver que ele já tinha cumprido o tempo dele aqui na terra.
Eu na minha santa ingenuidade ainda perguntei para ela:
 – Mãe, será que o Peca foi pro céu?
– É claro que foi. Ele não fazia mal a ninguém.  E lá deve ter um lugarzinho para os cachorros bonzinhos também, afinal todos são criaturas de Deus, né!
Depois dessa conversa, apesar do aperto no coração, da saudade entranhada no pensamento, fiquei mais consolado, como dissera minha mãe. Afinal o Peca tinha ido para o céu e já devia estar dando seus pulos por lá. Fiquei até imaginando que deveria ser bom para ele, pois no céu não devia ter portão para impedi-lo de ir pra rua, então ele podia ir aonde quisesse...
De vez em quando eu ainda via o Peca correndo pelo quintal, mas, minha mãe dizia que era imaginação de criança. Como podia ser imaginação, se eu o via correndo atrás das galinhas no quintal? Se até o gato rosnava para ele? Coisa difícil de entender.
Às vezes, quando ouvia algum cão latindo na rua eu corria até o portão pra ver se era o Peca, mas, não era... Assim mesmo eu ficava lá, até que a minha mãe ralhava, como nos tempos do Peca:
– Não vai pra rua não, guri!
Quando isso acontecia, eu apenas sorria. Depois corria para os seus braços, ela me abraçava e me entendia só pelo olhar.

4 comentários:

Marina Alves disse...

Bem retratado o fiel amor da criança pelo animal.O Peca é uma graça e me encantei pelo conto. Parabéns. Marina Alves.

Alberto Rocha disse...

Texto muito bom e dentro dos parâmetros do concurso. Há pequenos deslises gramaticais de fácil correção. Parabéns a quem o produziu

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação: se há erros graves desta natureza, não percebi durante a leitura. Apenas os seguintes detalhes sem importância, mas que já aponto para poupar tempo de possível revisão: em lugar de “agente ” seria “a gente” e parece que faltou alguma coisa em “Fomos a chamados”. No caso deste texto vir a ser impresso em livro, sugiro que se ponha uma nota no final referindo-se a ‘canis viralactum’, para que os leitores mais jovens (geralmente crianças ou adolescentes) percebam que se trata de uma brincadeira, e não de uma informação verdadeira. Na minha opinião, esse texto funciona muito bem, ou seja: convence bastante, pelo tom de inocência da narrativa, o tom infantil que bem caracteriza o narrador, que é um menino. Traz uma história comovente, contada de forma competente e convincente. Está também entre um dos melhores textos lidos (até agora) deste concurso. Parece estar perfeitamente de acordo com a proposta (observando o requisito de demonstração de afeto pelo animal). Lembrando que estou apenas comentando os textos sem compromisso. Avaliação pessoal: ótimo texto! Parabéns à autora ou ao autor e muito boa sorte! (Torquato Moreno)

Anônimo disse...

Gostei muito. Estas histórias com animais estão rendendo ótimas naarativas. Dificil vai ser escolher o melhor.