terça-feira, 10 de junho de 2014

Texto: 20 (do concurso) - Entre a cruz e a caldeira

Dias difíceis. Era chegado o momento em que Alzira precisaria tomar uma difícil decisão, talvez uma das mais difíceis de sua vida. Emocionada, angustiada e muito confusa, agarrava-se à lembrança do dia em que bateram à sua porta e ofereceram-lhe aquele filhote – era uma linda cadelinha, de olhar doce e carente.
Passaram-se catorze anos desde que Killah fora acolhida na casa de Alzira, fora trazida por um vizinho. Ele contou-lhe que acabara de encontrar o filhote em um bueiro perto da linha férrea e estava acompanhado do menino Duda – sobrinho de Alzira – quem o ajudara no resgate e pedira a ele para que o ajudasse a convencer sua tia a adotá-la. Houve muita resistência pela adoção, pois não fazia muito tempo que o cão de estimação da família havia desaparecido, talvez tenha sido roubado. Todos sofreram muito pela perda, jurando não acolher em casa e nem se apegar mais a nenhum animal. E outro detalhe é que Duda estava apenas passando uma temporada na casa da sua tia, daí a pouco voltaria para sua casa, em outro país.  Entretanto, aquele olhar “pidão” do menino e também dos dois filhos de Alzira, além daquela expressão de abandono da cadelinha, acabaram por convencê-la. Assim adotou-se Killah, nome escolhido por Duda e prontamente aprovado por todos.
Os dias se tornaram mais divertidos para os meninos com a presença daquela cadelinha e até Alzira que resistira tanto, embora tentasse disfarçar, já se perdia de amores por ela. Um filhote dá muito trabalho, destrói coisas, faz um bocado de sujeiras em seu espaço e até certa idade, chora e requer muita atenção. Entretanto, não faltaram promessas por parte dos meninos, de que se responsabilizariam por todas essas coisas, desde os cuidados com a comida, com a higiene de Killah e do espaço que ela ocupasse. Ledo engano! Na verdade, só se responsabilizaram mesmo pelos bons momentos de brincadeiras e de dar a ela os primeiros treinamentos, comandos e essas coisas que se costuma ensinar aos cães. Assim Alzira a cada dia se sentia mais apegada e em contrapartida, ganhou uma verdadeira e fiel guardiã, na medida em que Killah crescia.
Dizem que cachorro não pensa, não fala, mas essas afirmações eram contestadas veementemente por Alzira, que não se cansava de contar aos outros que a sua cadela era diferente, especial e que elas conversavam e se entendiam muito bem. Dizia que ela entendia perfeitamente o “dialeto” canino. Como mera espectadora, eu mesma pude presenciar alguns momentos em que, entre palavras de Alzira e grunhidos de Killah, elas pareciam mesmo travar uma boa conversa.
Havia outros comportamentos bem interessantes, como por exemplo, no horário dos cochilos costumeiros de Alzira, após o almoço, a cadela deitava-se na soleira da porta do cômodo onde a sua dona descansava e ali permanecia até que ela se levantasse. Nenhum convite para brincadeiras com os meninos, a fazia sair dali. Assim que foi conhecendo toda a família, filhos, sobrinhos e outros, de sua dona, ela passou a comportar-se de uma maneira notável: quando chamavam à campainha, Killah era a primeira a se manifestar. Dirigia-se ao portão latindo braviamente e se percebia que era alguém da família, parava de latir e corria até o interior da casa, até encontrar Alzira, correndo de volta ao portão em repetidas vezes, como se quisesse avisá-la da chegada de alguém de casa. Quando se tratava de desconhecidos a bater à porta, ela não parava de latir e não se distanciava da entrada. Há uma coisa muito curiosa, ela não gostava de prestadores de serviços públicos, como agentes da companhia de luz, de água, correios, limpeza urbana, latia como fera quando percebia a presença deles. Era preciso atendê-los através da grade que cercava o jardim.  Alzira me disse que nunca entendeu bem esse comportamento, mas acreditava que de alguma forma ela queria dizer: “Nunca deixe estranhos entrar em sua casa, se eu não puder estar por perto.”.  Mas, sabe-se lá o que passava na cabeça dela. Ela impunha respeito aos de fora, mesmo sendo a cadela mais dócil que seus donos, familiares, ou amigos que recebiam em casa, conheceram.
Entre essas e outras tantas histórias que ouvi e poderia contar, passaram-se os catorze anos de vida de Killah e ela já não se parecia em nada mais com aquela respeitável guardiã da família e da casa. Não mais se manifestava aos chamados e já tinha enormes dificuldades para se movimentar. Foi aos poucos perdendo a visão e até mesmo o faro. Alimentava-se com dificuldade e em poucos dias teve as patas traseiras completamente paralisadas. Era preciso que os filhos de Alzira a levantassem e a segurassem, até mesmo para fazer as suas necessidades fisiológicas. Eles a levaram em veterinários, tentaram vários tratamentos, medicamentos e nada, a cada dia ela piorava, chegando o momento em que paralisaram também as patas dianteiras e aí foi um sofrimento só, ver aquela amiga e companheira naquele estado. Veio então o veterinário e explicou sobre o prognóstico da doença: em poucos dias paralisariam também os órgãos vitais e com isso viriam inúmeras outras consequências. Não havia cura e nenhum paliativo que pudesse dar-lhe alívio. Sugeriu então, que a melhor solução para evitar maiores sofrimentos para Killah, seria praticar a eutanásia.
Segundo contou-me Alzira, aquela sugestão caiu-lhes como uma bomba. Todos se desesperaram e a tristeza tomou conta da família. Era uma decisão crucial e ela se viu “entre a cruz e a caldeira”, pois seus princípios e valores e que os passava para sua família, eram contrários a tirar a vida de um ser vivo animal. Claro que era um momento de reavaliar tudo aquilo, mas esse foi um grande desafio. Chamou os filhos e perguntou a eles o que achavam a respeito dessa situação. De início, ambos se manifestaram contra a ideia de eutanásia e se propuseram a continuar cuidando dela até o fim e Alzira por sua vez, também relutava por essa medida drástica. Entretanto, dois dias após a última visita do veterinário, tudo que ele previra aconteceu, alguns órgãos pararam de funcionar, ela já não respondia mais aos toques de seus donos, não se alimentava e parecia desmaiada na maior parte do dia. Foi aí, que um dos filhos de Alzira a chamou e disse-lhe que não havia outro jeito, que ela providenciasse tudo, mas que havia uma condição: ele não deveria estar presente quando a levassem. A filha também teve a mesma reação.
E agora? – pensou Alzira – a responsabilidade é toda minha, mas o que fazer?
Pensou durante toda a noite e no dia seguinte, esperou que seu filho saísse para o trabalho e com uma tristeza enorme, decidiu-se: ligou para a clínica veterinária e acertou os detalhes. Para sua surpresa, a sua filha, ao ouvir o telefonema, disse-lhe que mudou de ideia e que elas mesmas levariam Killah até a clínica e que ela dispensasse o transporte que essa oferecia. Isso facilitou um pouco mais a tarefa. Embrulharam a cadela em um cobertor e a filha levou-a no colo, como se fosse um bebê.
Na clínica, as duas quiseram saber de todos os detalhes, se haveria sofrimento para Killah, quanto tempo demoraria, onde seria enterrada, etc. Assim que souberam que ela seria anestesiada antes da injeção letal, se sentiram mais aliviadas e fizeram questão de assistir a aplicação da anestesia, até o último olhar que Killah lhes lançara – um olhar, que Alzira me descreveu, como o mais doce que ela já vira antes e que talvez quisesse dizer, “obrigada por me evitarem mais sofrimentos, estou partindo feliz”. 
Saíram as duas daquela sala e aguardaram o procedimento final. Assim que o veterinário veio avisar-lhes que estava concluído, elas entraram novamente e se certificaram que Killah já não sofria mais. Não houve jeito de conter as lágrimas, mas elas saíram dali convictas de que aquele foi o melhor remédio.
Naquela casa todos se lembram de Killah com muito carinho. Ela lhes deixou uma de suas crias e que foi também acolhida no coração de todos, com alegria e muito amor. Fiquei pensando na dedicação, no sofrimento dessa família e avaliando a força, a natureza do amor que um animal de estimação desperta nos humanos. E eu que nunca cogitei em ter um animal em casa, acabo de adotar uma cadelinha. Seu nome? Killah.

4 comentários:

Alberto Rocha disse...

Texto muito interessante, dentro dos parâmetros do concurso e que aborda a eutanásia, tida e havida como tabu, para a maioria das pessoas. Há alguns deslises gramaticais, facilmente contornáveis. Parabéns a quem o produziu.

Anônimo disse...

Os animais são capazes de promover grandes transformações na vida das pessoas. Killah deixou saudades muito boas tenho certeza. Parabéns! Marina Alves.

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação: se há erros graves desta natureza, não percebi durante a leitura. Traz uma história comovente, contada de forma competente num tom lúcido e de reflexão, lê-se carinho e respeito nas entrelinhas. Está entre um dos melhores textos lidos (até agora) deste concurso. Parece estar perfeitamente de acordo com a proposta (observando o requisito de demonstração de afeto pelo animal). Lembrando que estou apenas comentando os textos sem compromisso. Avaliação pessoal: ótimo texto! Parabéns à autora ou ao autor e muito boa sorte! (Torquato Moreno)

Anônimo disse...

comovente, fez-me lembrar da nossa cadelinha que viveu conosco por 14 anos. Conceição Gomes