segunda-feira, 16 de junho de 2014

Texto: 39 (do concurso) - Buíck

Quando criança dos meus oito, nove anos eu costumava passar alguns dias na companhia da minha inesquecível Vó Fela, mãe da Flaviana, minha progenitora, saindo de Beagá para curtir as delícias do meu torrão natal, o Cedro, interior das Minas Gerais, bem ao lado de Cordisburgo, berço do grande João Guimarães Rosa.
Além dos meus amiguinhos do Cedro, o Zazá, Lié, Boli do Juca, Adilson, Eligio, Lu Preto, Sil Careca, Mateus da Dozina, Zé Domingos, Jair Breiada, Tiãozinho, Beto, Tuca, Helio, Quinha e muitos outros, com os quais me divertia a bom valer, jogando bola nas concorridas “peladas” de todas as tardes, caçando passarinhos, armando arapucas, pescando piabas e lambaris no corguinho que serpenteava lá embaixo nos fundos do imenso quintal da casa do meu Padrinho Fulô, eu não dispensava jamais uma caçada com o padrinho e seu perdigueiro famoso, o “Buíck”, nos cerrados que circundavam o Cedro.
Voltávamos sempre com algumas codornas levantadas nos pastos pelo cachorro e abatidas pela pontaria infalível do Fulô, tido como o maior caçador e pescador daquele aprazível lugarejo.
Meu padrinho chegava à casa, depenava as aves, cortava-lhes os pés (seus troféus) e dependurava numa fieira estendida no galpão onde guardava suas tralhas de caça e pesca, retirava as vísceras, lavava, temperava e a seguir as cozinhava em panelão no grande fogão à lenha pilotado pela mulher, Tia Judite.
Aí juntava toda a sua grande família, dez filhos e servia o produto da caçada, as codornas acompanhadas de arroz com alho, feijão preto, couve e angu. Comíamos como padres e, a seguir, íamos ao quintal saborear algumas laranjas colhidas nos pés, todos esparramados no chão à sombra das arvores, enquanto rolinhas, bem-te-vís, sanhaços, joões-de-barro, melros e outros pássaros esvoaçavam por ali, entusiasmados também com a animação reinante. Depois, de bucho cheio, íamos cochilar um pouco, procurando repousar o esqueleto antes da tradicional “pelada” vespertina.
Eta ferro, sô!... Quanta saudade desse tempo de menino traquinas, sem dúvida nenhuma a melhor fase da minha e daquelas vidinhas em flor! ... 

6 comentários:

Anônimo disse...

Bons e velhos tempos, onde a vida corria sem muitos sustos. ConceiçãoGomes.

Maria Mineira disse...

Essas histórias de infância são lindas e deixam saudades! Gostei!

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia e gramática: se há erros graves dessa natureza não percebi durante a leitura; já na pontuação identifiquei uma ou outra frase que pode ter escapado à revisão do autor ou da autora. O texto é interessante, porém o centro da narrativa pareceu estar no narrador e suas lembranças, e não no Buíck, que apenas é citado como coadjuvante numa parte da história. Assim sendo não sei se estaria totalmente de acordo com a proposta do concurso, observando o regulamento, mas não estou aqui para julgar esse ou qualquer quesito, apenas apontar o que me parece importante e útil aos leitores e participantes. Lembrando que estou apenas comentando os textos sem compromisso. Avaliação pessoal: bom. Parabéns à autora ou ao autor e boa sorte! (Torquato Moreno)

Alberto Rocha disse...

Texto bom, necessitando apenas de alguma revisão quanto à construção das frases, mas está fora do tema do concurso. Parabéns a quem o produziu.

Professor Oliveiros disse...

Belo texto com uma fidelidade descritiva impressionante. Parabéns

Marina Alves disse...

Tão bem narrado que a gente se transporta para a cena, enxerga os personagens, se movimenta com eles. Bom quando as palavras têm esse poder: aflorar as impressões à flor da pele. Parabéns ao/a autor/a. Marina Alves.