terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O dia que não veio

Autora: Denise Coimbra

Rita morava numa fazenda em Unaí, Minas Gerais. Ela tinha seis irmãos. Cinco deles exerciam profissões no Brasil e no exterior: economista, enfermeiro, empresário, médico e professor. Simão, o sexto, desde menino tinha habilidades tão especiais e incomuns que merecera da família, escola e comunidade uma atenção maior. Ele desmontava e montava qualquer tipo de equipamento eletrodoméstico e fazia algumas esquisitices: inventava palavras, escrevia frases esdrúxulas e via o que ninguém via.
Aos sete anos, ele passou a fugir de casa. Por causa disso também, o pai construiu um quartinho para ele no fundo da casa, ao lado da cozinha. Ao invés de porta, o quarto tinha grade. Rita condoia-se da situação do seu irmão, tal e qual um passarinho preso numa gaiola. Bastante evidente, era a ligação entre os dois. Somente ela o compreendia e nunca se zangava com ele, apesar dos hábitos bizarros e gritos aterrorizantes que ele dava quando era contrariado.
As pessoas zombavam dele e o chamavam de doidinho ou zureta. Rita não se conformava com isso e brigava sempre com quem fizesse escárnio dele ou o humilhasse. Em seu coração de menina, sabia que o irmão sofria muito, mesmo que calado. Desde então, tornou-se protetora e parceira dele em algumas excentricidades. E guardavam segredo. 
Assim que o menino aprendera a ler e contar os números ele deixou a escola e passou a colecionar calendários. Ele os guardava embaixo da cama e do travesseiro. Um dia ele ganhou um calendário bem diferente. Os dias eram apresentados, um de cada vez, em pequenas folhas de papel que podiam ser destacadas do conjunto. Simão pregou-o na parede ao lado da porta de saída da casa e toda noite, às 21h15min, ele se dirigia ao calendário, arrancava a folha referente ao dia que estava por terminar e a colava num caderno grande debaixo do travesseiro.
Quando os pais morreram, ele tinha 18 e ela 20. Antes de morrer, a mãe, fizera Rita prometer que jamais abandonaria a fazenda e o irmão. Ela sabia que Simão não conseguiria se adaptar em outros lugares, a outras pessoas e a novos modos de viver. Os outros irmãos, ao ficarem órfãos, mudaram-se um a um e nunca mais voltaram, apesar de telefonarem com certa freqüência e enviarem dinheiro para ajudar nas despesas da casa.
Rita e Simão viviam numa espécie de bolha, quase em completo isolamento do que se passava na cidade, no Brasil e no mundo. Para ele, essa vida parecia bastar, pois quando  fugia, descobriu-se que ia somente até o riacho próximo à fazenda e, nu deitava-se de costas na água e boiava dando risadas estranhas e assustadoras. E, quando o pai gritava-lhe que voltasse para casa, ele o acompanhava sorrindo, como se nada tivesse acontecido.
Para ela, essa vida não parecia suficiente. Uma vez por mês, quando ia à cidade fazer compras, ela entrava na rodoviária e olhava os passageiros embarcarem. Nesse dia descobria-se invejosa e um tanto amarga, mas também extremamente sonhadora.
Um dia depois do seu vigésimo quinto aniversário, ela foi reconhecida por uma colega, quando comprava uma passagem num guichê. Despistou-a logo e voltou correndo para casa.  Sentia-se como uma sonâmbula. Não sabia se por ter sido despertada do estado dormente em que parecia ficar quando chegava à rodoviária ou por não perceber que tinha um motivo para deixar aquela vida.
Para onde eu iria? Porque eu iria? Perguntava-se Rita, muito incomodada, à medida que voltava para casa. Naquela noite, deitada na cama, ao cobrir-se sentiu o peso da promessa feita à mãe e o amor que sentia pelo irmão desabarem em cima dela como um barranco desmoronando após uma tempestade. Ao fechar os olhos para dormir era como se estivesse morta.
Aos 36 anos, Rita conhecera o amor num encontro repentino com um botânico australiano que viera estudar algumas espécies nativas raras, numa fazenda próxima. Ela estranhou o fato de que, ao voltar para casa, um homem caminhava na mesma direção que ela, só que mais rápido. Ao contrário dela, ele parecia ter pressa para chegar ao seu destino.
Impulsivamente, ela apertou o passo tentando alcançar o homem que chamara tanto a sua atenção. Logo, caminhavam lado a lado. Desde então, encontravam-se todas as tardes e, enquanto o homem conhecia melhor as plantas que pesquisava, a mulher conhecia melhor o homem que poderia alterar drasticamente a distância dos passos que ela alcançaria dali por diante.
Subitamente, ela percebera que sua vida virara de ponta a cabeça. Não conseguia fazer suas tarefas regulares sem interrompê-las ou esquecê-las e Simão começara a queixar-se da pouca atenção que a irmã lhe dedicava. Ao conhecer Gregory, Rita sentia-se mais animada. Eles tinham uma compreensão peculiar porque a linguagem do amor é universal e os amantes não poupavam esforços para entenderem-se. A cada encontro, dentro dela, brotava forte e vibrante a vontade de realizar planos. Decidiram que não se separariam mais.  Contudo, ela precisaria deixar Simão e a fazenda e partir para a Austrália.
Angustiada, Rita implorara várias vezes a Gregory que levassem o irmão com eles, mas o botânico fora irredutível. Ele temia que Simão não suportasse a mudança de país e que suas esquisitices não fossem tão bem compreendidas numa cultura diferente. Mas o que Rita não imaginava é que o ciúme de Gregory fosse o motivo principal para afastar o irmão dela.  Transtornada e culpada, finalmente na véspera da partida dele, ela consentiu em viajar sem o irmão.
Sabido que o amor, nos seus primórdios, não espera para consumar-se, combinaram o horário da partida para as 05h50min da manhã do dia 21 de abril. O ônibus passaria as 6 h em frente à porteira da fazenda, onde ele a esperaria. E, mesmo que ela se atrasasse ou não viesse ao seu encontro ele não iria buscá-la. Nisso concordaram e com muito desgosto. No dia seguinte o avião sairia às 9 horas de São Paulo e faria duas escalas antes da aterrissagem em Sidney.
Rita voltara para casa, alucinada. Ela abandonaria o irmão. Meu Deus! Gritou exasperada. A última vez que vira o Simão desesperado foi no dia da morte da mãe.   Ela o acalentou até suas pernas ficarem anestesiadas e o irmão não ter mais lágrimas. Disse a ela que seu coração ficaria para sempre vazio e rachado, como o açude perto da fazenda, que há muitos anos secara.  
Endoidecida, não entendia as imagens de sua vida que passavam em sua cabeça. A lembrança do irmão, recusando-se a ir à escola. Aos berros, ele apontava para o calendário na parede, dizendo que não existia o primeiro dia de fevereiro. Ninguém entendeu e, muito menos deram importância para aquele gesto. A imagem da mãe segurando o seu rosto e lhe exigindo que prometesse nunca abandonar Simão quase a fez desmaiar. Em pânico, Rita pensou em desistir de Gregory e da vida que ela queria construir ao seu lado. Debateu-se contra essa ideia como alguém que luta para respirar ao ser estrangulado.
Lembrou-se da caixa de remédios do irmão e decidiu tomar a metade de um comprimido. Desistiu porque teve medo de não acordar e perder o ônibus que a levaria ao aeroporto. E também porque poderia ao ver os comprimidos tomar muitos deles. Assim não precisaria decidir e muito menos ir embora.  Durante quase toda a noite, sem saber o que fazer, andou de lá para cá. Ao olhar para os riscados no chão, teve a impressão de que eram pinturas rupestres desenhadas pela sola do seu sapato. Dormiu com a impressão de que aquela noite duraria uma eternidade...
Acordou sobressaltada: faltavam 25 minutos para as 6 horas. Já na sala, caminhou silenciosamente para que o irmão não acordasse. Ao abrir a porta da casa, viu o calendário na parede ao lado e tomou um susto.  A folha mostrava 22 de abril. Como assim? Ela havia dormido no dia 20, ansiosa e muito nervosa, mas não tinha dormido tantas horas! Não poderia ser! Será? Ao imaginar Gregory entrando no ônibus, sentiu uma dor no peito tão forte, quanto a que sentiu, quando viu Simão arrancar um dos olhos e jogar-se contra a grade do seu quarto, furioso, logo depois de saber que um dos irmãos havia vendido D. Quixote, seu cavalo alado.
Mesmo atordoada com a violenta lembrança, recordou-se do dia 18 de novembro, o dia da prova do vestibular de jornalismo, profissão que ela escolhera exercer. Nesse dia, ela não acordou. Tal acontecimento embora inesperado nunca fora contestado por ela. Como havia estudado muito e, durante muitos dias, ela acreditara realmente ter dormido e acordado no dia seguinte à data da prova.  
Depois que os pais morreram e os irmãos foram embora, sentia que os acontecimentos marcados pela passagem das horas ou dos dias, deixaram de ter importância para ela, mas não para o irmão. Ele continuava a destacar os dias do calendário e os guardava.
Teve um lampejo e correu para o quarto à procura de outro calendário para certificar-se do que estava acontecendo, mas lembrou-se do fato de que o irmão sempre guardava todos com ele. O calendário da parede era o único que ficava à mostra para que ele, a cada dia, destacasse o dia que viria.  
Desconfiada, Rita abriu a porta do quarto de Simão, mas ao vê-lo dormindo tão sereno não teve coragem de acordá-lo. No dia anterior, logo que se despedira de Gregory, Simão estava muito inquieto e batia as mãos na cabeça repetidamente. Ela tinha certeza de que ele pressentira que ela iria embora, como o dia em que a mãe morrera. Na véspera, Simão passara o dia ao lado dela inventando palavras e frases esdrúxulas. Não comeu,  nem dormiu e saiu correndo, assim que a mãe morreu. Só apareceu dois dias depois do enterro.  
Ao fechar a porta do quarto, Rita reparou no quadro dependurado na parede e viu nos olhos suplicantes da mãe, a mesma expressão quando ela pediu à filha que nunca se  separasse do irmão porque ele não suportaria o mundo sem a sua presença. Perseguida por essa imagem e pelo sono sereno do irmão, Rita voltou para o seu quarto. Resignada, deitou-se na cama e chorou. Chorou tanto que “Seu Raimundo”, um velho conhecido da família, ao saber do ocorrido, arrematou: “chorar faz bem minha fia. É o choro que impede o coração de morrer afogado na tristeza e na aflição.”
No dia seguinte Simão entrou no quarto e pediu-lhe que preparasse o café para ele. Assim ela fez. Em silêncio, alimentaram-se e ele foi dar comida às galinhas.
Rita, como costumeiramente fazia, foi até o quarto do irmão. Ao arrumar a cama, encontrou embaixo do travesseiro, o caderno grande.
Nele, todos os dias destacados do calendário estavam colados seguidamente. Entretanto, o dia 21 de abril, colado em uma página separada, tinha a seu lado, o dia 18 de novembro e o dia 1 de fevereiro.
Abaixo de cada um deles, Rita leu estupefata a seguinte frase: O dia que não veio.

Autora: Denise Coimbra - Bom Despacho/MG

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom e intrigante conto. Parabéns Denise Coimbra (A Traça, para Beatriz) você demonstra perfeito domínio na arte de escrever e sabe envolver o leitor na trama leve do cotidiano imutável. abraço

Alberto Vasconcelos
Santo André da Borda do Campo/SP, 22/02/2017

Denise Coimbra disse...

Bom dia Alberto! Agradeço suas palavras! Comentários assim são estimulantes na arte maravilhosa de escrever e oferecer um texto agradável e instigante p o leitor! Forte abraço!

chagoso disse...

Um conto lindo! Bem estruturado! O tema é fantástico. Parabéns!