sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O tio Zé e a história do Ismael - Autor: Nêodo Ambrosio de Castro

Lá pelas bandas da Perdição, lugar bem pra lá do fim do mundo, morava o tio Zé. Era meu tio de verdade.

Para chegar no patrimônio da Perdição, era necessário cavalgar durante horas. Quando digo que era além do fim do mundo, não estou exagerando. Era muito longe mesmo.

Vez ou outra, ou melhor poucas vezes, fui àquele lugar, mas somente nos tempos da infância. Não animava muito, era uma viagem longa e muito cansativa.

Há poucos anos eu estive lá. O casarão não existe mais, caiu ou derrubaram. O tio Zé também não existe, morreu em um acidente.
Esta lembrança é bem antiga, coisa de 50 anos. Hoje, de jipe ainda é difícil chegar até o lá, imagina naquela época.

Mas voltando ao tio Zé, não esqueço das histórias que gostava de contar. Como eu e meu primo, tínhamos mais ou menos a mesma idade, o danado só contava coisas de deixar cabelo de menino em pé.

Uma vez ele nos contou a história de um tal de Ismael, camponês que morava nas terras dele, o qual sempre andou de calças curtas até que fez 15 anos e ganhou uma calça comprida.

Era uma calça de brim, tecido grosso, daquelas feitas por costureira de roça. Resolveu, o Ismael, estrear a calça nova no domingo, indo até o tal de Patrimônio da Perdição, que ficava a quase duas léguas da fazenda do tio Zé.

A tardezinha, se lavou, vestiu a calça e a melhor camisa e iniciou a caminhada até o lugarejo. Era mês de maio, mês de Maria e o povo do lugar comemorava, esse acontecimento religioso, com festas semanais, nas quais vinham gente de toda redondeza.

Ismael estava lá, orgulhoso, cabeça “em pé”, desfilando a calça comprida de brim. Andava pra lá, e pra cá. Sempre atento aos olhares das mocinhas. Estava tão feliz que esqueceu da hora e quando deu conta de que tinha que voltar à pé, para casa, já passava das 10 da noite.

Despenca, o Ismael, de volta para a fazenda e para cortar caminho, resolveu passar por um lugar que chamavam de capoeirão, lá existia uma planta que chamavam de vassoura a qual crescia no meio do pasto. É uma vegetação rasteira, porém resistente, não amassa nem quebra com facilidade, resiste até o pastoreio do gado. Mas o Ismael, andando apressado e com o coração disparado, sozinho, naquele local, tarde da noite, começou a amarelar. Lembrou de alguns “causos” que contavam sobre porteiras que abriam e fechavam sozinhas, redemoinhos repentinos e sem explicação, barulhos estranhos e até vozes que ninguém conseguiu explicar direito de onde vinham e o que diziam. Juntando tudo isso, imagina como estava o Ismael.

De repente, deu de cara com as vassouras, mas continuou seu caminho, sem se importar com os tropeções que lhe machucavam os pés descalços. Com o pensamento voltado para as histórias, de repente começou a ouvir um barulho atrás de si: coach, coach, coach... Parou e olhou para todos os lados. O barulho cessou. Já estava tremendo e com o coração disparado, recomeçou a caminhada e desta vez mais rápido. Assim que deu o primeiro passo, voltou a ouvir o barulho e desta vez mais rápido. Parecia que quanto mais rápido andava, mais o barulho acelerava o ritmo. Assim ficou o Ismael passando aperto e se borrando todo com um medo infernal e o barulho continuava perseguindo o rapaz. Se parava o barulho cessava se andava recomeçava. Afinal estava com medo do barulho ou do que o estava causando? Não ia ficar ali parado para descobrir e assim foi caminhando, o Ismael, até terminar de cruzar o pasto e voltar à estrada. Ao atingir a estrada, já todo suado, borrado e ofegante, parou por um instante procurando o tal barulho, mas nada. O barulho sumiu assim como apareceu. Deu alguns passos, nada parou, olhou para trás e para os lados nada viu nem ouviu e assim continuou sem ouvir mais nenhum barulho estranho até terminar a caminhada.

Chegou em casa e muito envergonhado pelo acontecido, foi logo para a bica, que jorrava água abundantemente dia e noite, se lavou, como pode, abriu a porta da cozinha e deu de cara com a sua mãe, muito preocupada com o atraso, a qual lhe perguntou o que havia acontecido. Ismael, então, conta para ela com detalhes. A mulher olhou para o rapaz, para as calças compridas de brim e começou a rir. O Ismael, muito assustado, não entendeu e ficou logo nervoso. Mas sua mãe acalmando-o lhe disse: - Seu bobo, o barulho era da calça arrastando na vassoura, você andava o barulho começava e se parava o barulho sumia e assim por diante. O Ismael ficou mais branco do que era e sem dizer uma palavra enfiou-se debaixo dos panos da cama e ficou lá pensando e praguejando,  enquanto o sono não vinha.

Como é que eu ia saber se nunca havia usado uma calça comprida de brim?

Autor: Nêodo Ambrósio de Castro - Eugenópolis/MG

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Publicação autorizada através de e-mail de 15/11/2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Anjos não morrem - Autora: Sonia Biasus

Certa vez caminhava por uma estrada escura...parecia perdida, mas, no entanto, me sentia acompanhada. Olhei de um lado, olhei de outro nada via, mas alguém estava ali, me acompanhando a cada passo. Por instantes parecia iluminar meu caminho... sim, iluminava meu caminho. Sentia-me protegida, andava com passos firmes, não titubeava e nem tropeçava. Por instantes parecia o ouvir falar comigo, e até respondia com voz firme. Ah! como era suave sua voz...me dizia coisas com tanta ternura, com muita sabedoria que me fazia flutuar ao andar por aquele caminho. Havia pedras no caminho e mesmo na escuridão daquela noite era possível desviar cada uma delas. Parecia que uma orquestra de violinos acompanhava nossa caminhada e tudo era tão lindo que nem percebi que já estávamos no final da caminhada. Sentia-me cansada e convidei-o a sentarmos em uma pedra para conversarmos mais um pouco. Contei-lhe sobre minha angústia de que um dia poderia não ter mais ao meu redor aqueles a quem tanto amo. Neste momento ele me fez deitar em seu colo e ao afagar meus cabelos me dizia: - “Não se preocupe anjos não morrem! Anjos ficam eternamente conosco, nos iluminando, nos mostrando caminhos, nos orientando e nos levando pelos caminhos do bem. Fazem com que nos transformemos em outras luzes a iluminar outros caminhos”. Ah! Como me senti em paz ali sendo afagada e protegida. Tudo era tão tranquilo que nem percebi que havia adormecido e ao acordar olhei de um lado, olhei para outro, como a procurar algo ou alguém, não tinha ninguém ali, mas me sentia fortalecida e renovada. Olhei para o horizonte e vi uma imensa luz a refletir um lindo sorriso e, em seguida subir e desaparecer, me deixando a certeza de que anjos não morrem e que estão sempre ao nosso lado.

Dedico este texto aos meus amados pais! 

Autora: Sonia Biasus


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Colchão de Palha - Autora: Celêdian Assis

Um dia destes passando em frente a uma loja de colchões, resolvi parar e olhar mais atentamente. Eu não precisava necessariamente de um, mas fiquei ali admirando as novidades dos modelos e pensando, como “evoluíram” os colchões. Alguns bem branquinhos e de tão altos, pareciam dois, um sobre o outro. Mas curioso é que, nas mudanças que surgiram ao longo do tempo, uma coisa eu decididamente não gosto, eles ficaram cada vez mais duros, mais firmes (imagino que há muita gente com problemas de coluna) e que também não entendo bem, já que a coluna vertebral tem uma curvatura natural e não é confortável forçá-la a ficar plana. Entretanto, ficaram indiscutivelmente mais bonitos. Só sei que fiquei encantada e perdi algum tempo analisando a “evolução” dos colchões. Sai da loja, mas reconstruindo na memória a “história” deles.

Voltei à minha infância, lá na fazenda dos meus avós. Ahh... eu adorava dormir  nos colchões de palha de milho, cuidadosamente ajeitados todos os dias, pela minha tia Dalva. Eram feitos de um saco, em geral branco, com uma abertura na lateral, por onde se colocava a palha desfiada. De manhã quando todos se levantavam, era hora de recompô-los. Às vezes era necessário repor um pouco de palha, mas geralmente bastava enfiar as mãos naquela abertura e revolvê-la. Eles ficavam como se estivessem inflados. Quando deitava sobre eles assim arrumados, era divertido aquele barulho e até temia ficar revirando muito na cama, para que ele não “murchasse” rapidamente. Vez ou outra, alguma coisa incomodava, eram os nós de palha que passavam despercebidos na seleção das mesmas, quando eram montados.

Em minha casa na cidade, não se usavam estes colchões de palha. Ainda eram artesanais, mas de tecidos listrados e preenchidos por capim batido. Tinham aquelas costuras verticais que formavam sulcos nestas linhas, pois aprofundavam no capim. Nada confortáveis, duros feito madeira, mas eram “chiques”, comparados aos de palha.  Quando meus pais compraram os primeiros colchões de mola, creio que já morávamos na capital.  Eram mais macios e as molas permitiam subir e descer com facilidade, quando meus irmãos e eu pulávamos sobre eles, nas nossas brincadeiras. Muitas outras novidades vieram depois, modelos de espuma de várias densidades, d’água, infláveis, etc...

Voltando à história dos colchões de palha, veio-me à memória, um casal de figuras lendárias de Piracema, a Otília e o Berthô.  Eram bem velhinhos, sujos e maltrapilhos, chegavam a cheirar mal e viviam das doações dos moradores da cidade, dinheiro, roupas, comida. Moravam em uma casinha pequenina e imunda, mas era comum vê-los sentados na esquina da minha rua, até altas horas da noite.

A Otília tinha por hábito guardar comida que ganhava e creio que já esclerosada, esquecia-se delas. Guardava também cada centavo que ganhava.  Era uma mulher brava e ninguém ousava chegar muito perto. O Berthô era  mais sociável. Um dia ela adoeceu gravemente e foi preciso que as mulheres da cidade fizessem um mutirão, para socorrê-la.  A primeira providência era dar-lhe um banho e depois colocar aquela casa, pelo menos, nas mínimas condições de higiene. Quanta porcaria havia ali, comida deteriorada, roupa suja, entulhos e tudo que eles recolhiam nas ruas.

Durante o mutirão, Otília se recusava terminantemente que a retirassem do seu colchão de “palha” e ninguém entendia tamanha relutância. Não demorou muito e ela faleceu. Após a sua morte, as mulheres fizeram novo mutirão na tal casa e desta vez foram tirar o colchão do lugar. Para surpresa de todas, ele não era de palha, era recheado de dinheiro, notas tão velhas, que já não tinham mais nenhum valor monetário. Levaram ao único banco da cidade, sacolas e mais sacolas cheias daquele dinheiro, mas já não valia mais nada. O Berthô continuou na mesma pobreza de sempre e viveu pouco tempo a mais.

Depois de toda esta história, fico a cismar, como eles puderam dormir em um colchão tão rico (em alguma época, aquele dinheiro tinha valor) e levaram aquela vida tão miserável? Pela quantidade de notas deduziu-se que o vinham recolhendo a vida toda. Duas hipóteses, eram loucos ou sonhadores?

Eu dormi em colchão de palha, de capim, de mola, de espuma densa e nunca sonhei com um  que fosse preenchido de dinheiro, mas em frente àquela loja, confesso, fiquei louca com um daqueles tais desenvolvidos pela tecnologia da NASA. 

Celêdian Assis – Belo Horizonte/MG
Publicação autorizada por escrito pelo autor da obra (..)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Aprendendo com a cachorra - Autor: José Cláudio - Cacá

Alguém disse que quanto mais conhece o ser humano mais admira o seu cachorro. Eu não vou arriscar atribuir autoria, pois na internet há mil e um autores que foram agraciados com a paternidade dela. A internet não é muito confiável para pesquisar certas coisas, uma delas é autoria. Acho além de tudo, uma frase derradeira de quem desistiu de vez das possibilidades de convivência humana saudável e agradável. Um horror ter que admitir isso, pelo menos para mim que tenho um olho no humano e idealista como uma planta. Toda planta tem um ideal. Crescer, florir ou frutificar e fornecer ar puro para fora de seu mundo de planta.

Isso não impede, no entanto, que eu aprenda muita coisa com os animais. Tenho aprendido, por exemplo, com a minha cachorra uns hábitos alimentares que não consegui por conta própria ou de legado da educação que meus pais me forneceram. Cachorro não tem o olho maior do que a barriga depois de adulto. Você coloca lá a água e a comidinha dele e ele vai comendo à medida que tem fome. Na medida certinha. Saciou-se, deixa ali o que sobrar e volta novamente para terminar quando vier outra fome ou sede. Se engorda é por que o dono lhe transmite hábitos insalubres. Infelizmente, nesse aspecto ele também aprende com os humanos e quase nunca coisas boas. Outra curiosidade é com relação às queixas de insônia. Eu que tenho o hábito de acordar pela madrugada fico observando-a. Costuma ficar horas deitada olhando para o tempo (parece meditar) e depois que o dia amanhece, dorme um sono profundo. Dorme antes do almoço, dorme depois do almoço. E tudo isso sem culpa.

A culpa humana se chama tempo. Esse relógio que alterou a biologia, passando a tentar fazer o organismo funcionar cem por cento, se tomarmos café pela manhã, almoçarmos è tarde e jantarmos à noite. Os cachorros fazem o seu próprio tempo. Dormem quando sentem sono, comem quando sentem fome. Para quem não tem patrão ou assemelhado, isso é um aprendizado e tanto de vida. Ah, estou aprendendo inclusive a meditar com ela (ou sei lá o que fica pensando naqueles momentos assim, parada, olhando para o nada). E nunca deixa de dar a sua espreguiçada quando se levanta, o que equivale ao que os médicos mandam-nos fazer em alongamentos diários. Ativa a circulação, evita contusões gratuitas e dores pelo corpo.

Só não descuido da percepção social da história e chego a pensar que é a minha única vantagem com relação a ela.
PS: esta crônica tinha sido escrita poucos dias antes dela morrer.

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG


Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 09/12/2011

Escutatória - Autor: Ricardo Garopaba Blauth

Rubem Alves é um dos autores dos quais tenho vários livros e ler seus textos e crônicas é sempre prazeroso. Fazem pensar. Aborda diversos assuntos, mas é em educação que insiste mais.

Certa vez entrevistado sobre o assunto foi lhe perguntado porque não realizava cursos ou workshops. Respondeu dizendo que o curso que gostaria de dar certamente não teria clientela. Indicado qual seria disse que gostaria de fazer um de Escutatória.

Todos querem falar, ser ouvidos, opinar e acreditam ter suas razões para assim agir. Poucos para não dizer ninguém acreditam que escutar é muito produtivo.

Falo muito. Pensando sobre o assunto cheguei a conclusão de ser verdade a afirmação de Rubem Alves.

Hoje digo brincando, quando me pego falando mais que ouvindo, que sou um dos matriculados no “curso” de Escutatória de Rubem Alves, mas ainda um péssimo aluno.

Brincadeiras a parte, é um assunto a ser pensado e discutido. Que tal começar a partir de hoje a ouvir mais juntos? Só temos a ganhar.

Autor: Ricardo Garopaba Blauth - Garopaba/SC

Publicação autorizada pelo autor através do e-mail de 22/10/2011.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O porquê de meu livro? - Autor: Carlos Costa

Com muita alegria, autorizei a publicação do livro DE JORNALEIRO A JORNALISTA – UMA HISTÓRIA DE VIDA no Blog Gandavos porque surpreso fiquei com o convite vindo de tão longe, depois de já tê-lo publicado em capítulos o livro O HOMEM DA ROSA.
Depois de uma diagnóstico de empiema bilateral subdural crônico, o livro DE JORNALEIRO A JORNALISTA – UMA HISTÓRIA DE VIDA, decidi escrevê-lo após 10 dias em coma e mais 30 dias sem reconhecer ninguém. Depois que “voltei” à vida mais uma vez, como Fénix, o pássaro que ressurgiu das cinzas, decidi que deveria produzir algo para homenagear amigos e  deixar para outros que, como eu, não desistiram de viver.
Fui submetido a 11 cirurgias no cérebro, sofri derrame, paralisia em todo meu lado esquerdo do corpo, trombose na perna esquerda, reumatismo, causificação óssea e outros problemas decorrentes da cirurgia mal sucedida e duas infecções hospitalares que me acometeram. Minha luta pela vida e mais forte do que minha vontade de morrer. Hoje tomo oito remédios diariamente para ter uma razoável qualidade de vida.
Sobrevivo sem dois lados de meu crânio e nunca os poderei recolocá-los porque ainda mantenho em meu corpo, controladas, as duas bactérias incuráveis. Posso viver mais uns 10 anos como posso  morrer em 10 minutos ou segundos, se as bactérias atingirem minha corrente sanguínea.
Fui professor universitário, por duas vezes presidente da Comissão Estadual de Emprego, diretor de órgãos públicos, e hoje estou reduzido à uma tela de computador, escrevendo compulsivamente e lutando ardorosamente por minha vida.
Esse livro marca a minha vida: antes e depois de publicá-lo porque não sou dado à falar de minha vida e expô-la como o farei agora!
Um abraço ao Carlos Lopes e um muito obrigado ainda seria pouco para mensurar a alegria que estou sentindo nesse momento por sabê-lo entre meus amigos verdadeiros.
Autor: Carlos Costa - Manaus/AM

Aviso do blog: Também publicamos de Carlos Costa o Livro O CAMINHO NÃO PERCORRIDO (a trajetória dos assistentes sociais masculinos em Manaus)

É  uma obra científica, destinada aos profissionais ou alunos de serviço social, que faz um passeio pela gênese da profissão, passando pela Revolução Industrial, marco da profissão, o período tumultuado da “Reconceituação”, o início dos problemas sociais no Brasil nos anos 30 do Governo Getúlio Vargas e a criação das primeiras escolas de Serviço Social no Brasil.

É o lado pesquisador de nosso cronista Carlos Costa, desconhecido por muitos de seus leitores.
Acesse aos livros citados no hiperlink localizado abaixo da foto do blog (foto de Olinda/Recife).

domingo, 11 de dezembro de 2011

Que não me sirva de cangalha - Autor: Carlos Lopes

Na minha imaginária pesquisa de opinião mais da metade da população brasileira tem medo ou nojo acerbado de baratas, ou até pior, as duas coisas juntas. Modestamente, sou parte dos combatentes pela excremação deste sinantrópico.

Material retirado para compor livro

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A verdade sobre a crônica - Autor: Gilberto Dantas

O cronista gosta do detalhe, do insólito, do olhar de esguelha.
Uma pequena frase, um olhar diferente, um incidente sem importância na rua, deixam o cronista em chamas.
E são esses detalhes, esses vestígios que as pessoas não dão muita importância, que vão ser o motivo de uma crônica.
Por isso as pessoas imaginam que se trata de uma literatura menor, uma literatura apressada. Ledo engano. Os críticos literários, acabei de ler, já começam  a dizer que a crônica não tem nada de fácil. Eu, particularmente, tomei um susto  com esta afirmação.
Sabe, meu amigo, minha amiga, comecei a escrever crônica justamente porque achava mais fácil. E agora me dizem que não é. E ainda dizem que o cronista não tem compromissos com coisas sérias. A bem da verdade, tem! Mas ele finge. Diz o crítico que acabei de ler.  Finge que não está dizendo verdades. Fala mentiras, para dizer a verdade. E diz a verdade para mentir. Não sei se o amigo está entendendo.
Essas observações, por mera coincidência, se ajustam à minha personalidade.
Gosto de falar verdades, de aprofundar os temas sérios, mas acabo não fazendo isso. Não, de forma contundente. Prefiro ser leve, agradável, diplomata e me custa muito dizer verdades, diretamente.
E agora entendo a razão da crônica ter sorrido para mim. Ela é leve, ágil, finge que não fala verdades, não ofende, não separa, não cansa e tem fino humor. E é tudo que quero para mim e para os outros.
Decididamente, sou como a crônica, não quero ser universal. Amo a singularidade. Amo o detalhe. E quanto mais simples melhor.
Fico muito contente quando vejo os físicos discutindo e procurando o início do mundo. E o que eles procuram? Procuram  justamente uma singularidade, este fato único. Este detalhe que, por mágica, fez surgir do nada o Universo.
Bem, para ser coerente   comigo  mesmo, vou dizer, brincando, e com muita diplomacia,  que eles, talvez, ainda não perceberam que não estamos em um Universo, mas num “Multiuniverso”. Calma, amigos, esta palavra é nova, ainda está sendo inventada.
Mas que mania com o número UM. Hum! Não acredito nisso. Simpatizo mais com o número 64!
Não teria melhor lugar para falar minhas mentiras ou minhas verdades senão aqui, escondidinho, nas minhas crônicas.
- Então, fala aí uma verdade sua, quero ver. Chego a imaginar o leitor me  instigando a falar umas verdades.
Vou dizer uma. Sabem, meus amigos e minhas amigas,   que nunca puni ninguém e que não conseguiria jamais punir alguém?  Me recusaria a punir!  Não acredito em punição. Essa é uma verdade muito minha.  E não pensem que estou sozinho. Montaigne citou um cara lá na antiga Roma que era exatamente assim como eu. Desculpem, amigos, não estou querendo passar a mão na cabeça de ninguém, mas sinto que a punição nunca resolveu nada, deve existir método mas eficaz pra endireitar o homem...
Já sei, sinto que estão pensando: “e a  sua crônica? e a sua crônica?”
Mas não entenderam?  Então, não deixei  duas questões bem sérias para nossa reflexão na hora do cafezinho com o pãozinho de queijo? Crônica é isso.  Como já disse o Artur da Távola, a crônica toca todos os ritmos ao mesmo tempo: valsa, forró, tango, bolero, samba, rock.  A liberdade é tanta que a crônica pode até virar um conto. É como tirar leite de pedra... Pronto.  Acabei!
Autor: GDantas – Miracema/RJ

Publicação autorizada através de e-mail de 24/10/2011

Dica do blog:
Veja na aba (abaixo da foto do blog) ¨Publicações dos escritores¨ como adquirir o livro Cinquenta e uma crônicas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Mulher e a nudez! - Autora: Maria Coraci

          Nunca vimos tanta mulher nua posando em revistas, basta abrir a internet e lá estão as mais cobiçadas e fotoshpodas mulheres. Orgulho do pai, invejada pela amiga... e os sites se renovam a cada semana. Nem sei se os homens estão radiantes com tantos peitos e bundas em exposição, infelizes sei que não estão, mas a coisa se tornou tão banal que ficou fácil ver o interno de nossa musa.

          Talvez a verdadeira excitação esteja em ver uma mulher se despir da verdade, desabotoando delicadamente suas fantasias. Erótico assistir uma mulher tocando de leve na sua essência, na sua história... É delicioso ver o sorriso, a nudez da alma ao dizer o que pensa e o que sente sem meias palavras, uma mulher divertida, equilibrada, isso é fascinante. Nudez pode ter um outro significado, diferente e muito mais intenso. Não conheço strep tease mais sedutor do que uma mulher sendo sincera, se despindo emocionalmente. Aliás deveríamos nos orgulhar dos defeitos, só assim temos a certeza de que não somos bonecas de porcelana. É arrebatador assistir um ensaio de uma mulher que tem muito mais a mostrar além do próprio corpo.

         Acabou o charme, o suspense, mas haverá uma recompensa, resultará numa boa grana, escada que podem nos facilitar a carreira, mas escadas também servem para descer... Difícil tirar a roupa e ficar pendurada nas bancas, mas também é complicado abrir mão de pudores verbais, expor os segredos e insanidades, revelar o nosso interior. E cá pra nós nada é mais bonito, delicioso e arrebatador do que assistir sozinhos o íntimo de uma mulher a quem se pode confiar. Que a mulher não se torne coisificada. É isso o que devemos continuar fazendo, despindo nossa alma, mostrando quem somos de verdade, revelando nossos anseios, vaidades e dores.

Autora: Maria Coraci - São José/SC

Publicação autorizada pela autora através de e-mail de 26/12/2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cinema paradiso - Autor: Carlos Lopes

             Naquela tarde atendi o telefone e uma voz conhecida do outro lado da linha disse: ¨Eu acabo de ver você!¨ Respondi o óbvio: ¨Eu!¨ E não havia muito a discutir. Saí do trabalho e me encontrei com uma velha amiga na porta do cinema do Shopping Recife. Lá, de olhos vedados, fui conduzido ao interior da sala de exibição.
            

Material retirado para compor livro