quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Colchão de Palha - Autora: Celêdian Assis

Um dia destes passando em frente a uma loja de colchões, resolvi parar e olhar mais atentamente. Eu não precisava necessariamente de um, mas fiquei ali admirando as novidades dos modelos e pensando, como “evoluíram” os colchões. Alguns bem branquinhos e de tão altos, pareciam dois, um sobre o outro. Mas curioso é que, nas mudanças que surgiram ao longo do tempo, uma coisa eu decididamente não gosto, eles ficaram cada vez mais duros, mais firmes (imagino que há muita gente com problemas de coluna) e que também não entendo bem, já que a coluna vertebral tem uma curvatura natural e não é confortável forçá-la a ficar plana. Entretanto, ficaram indiscutivelmente mais bonitos. Só sei que fiquei encantada e perdi algum tempo analisando a “evolução” dos colchões. Sai da loja, mas reconstruindo na memória a “história” deles.

Voltei à minha infância, lá na fazenda dos meus avós. Ahh... eu adorava dormir  nos colchões de palha de milho, cuidadosamente ajeitados todos os dias, pela minha tia Dalva. Eram feitos de um saco, em geral branco, com uma abertura na lateral, por onde se colocava a palha desfiada. De manhã quando todos se levantavam, era hora de recompô-los. Às vezes era necessário repor um pouco de palha, mas geralmente bastava enfiar as mãos naquela abertura e revolvê-la. Eles ficavam como se estivessem inflados. Quando deitava sobre eles assim arrumados, era divertido aquele barulho e até temia ficar revirando muito na cama, para que ele não “murchasse” rapidamente. Vez ou outra, alguma coisa incomodava, eram os nós de palha que passavam despercebidos na seleção das mesmas, quando eram montados.

Em minha casa na cidade, não se usavam estes colchões de palha. Ainda eram artesanais, mas de tecidos listrados e preenchidos por capim batido. Tinham aquelas costuras verticais que formavam sulcos nestas linhas, pois aprofundavam no capim. Nada confortáveis, duros feito madeira, mas eram “chiques”, comparados aos de palha.  Quando meus pais compraram os primeiros colchões de mola, creio que já morávamos na capital.  Eram mais macios e as molas permitiam subir e descer com facilidade, quando meus irmãos e eu pulávamos sobre eles, nas nossas brincadeiras. Muitas outras novidades vieram depois, modelos de espuma de várias densidades, d’água, infláveis, etc...

Voltando à história dos colchões de palha, veio-me à memória, um casal de figuras lendárias de Piracema, a Otília e o Berthô.  Eram bem velhinhos, sujos e maltrapilhos, chegavam a cheirar mal e viviam das doações dos moradores da cidade, dinheiro, roupas, comida. Moravam em uma casinha pequenina e imunda, mas era comum vê-los sentados na esquina da minha rua, até altas horas da noite.

A Otília tinha por hábito guardar comida que ganhava e creio que já esclerosada, esquecia-se delas. Guardava também cada centavo que ganhava.  Era uma mulher brava e ninguém ousava chegar muito perto. O Berthô era  mais sociável. Um dia ela adoeceu gravemente e foi preciso que as mulheres da cidade fizessem um mutirão, para socorrê-la.  A primeira providência era dar-lhe um banho e depois colocar aquela casa, pelo menos, nas mínimas condições de higiene. Quanta porcaria havia ali, comida deteriorada, roupa suja, entulhos e tudo que eles recolhiam nas ruas.

Durante o mutirão, Otília se recusava terminantemente que a retirassem do seu colchão de “palha” e ninguém entendia tamanha relutância. Não demorou muito e ela faleceu. Após a sua morte, as mulheres fizeram novo mutirão na tal casa e desta vez foram tirar o colchão do lugar. Para surpresa de todas, ele não era de palha, era recheado de dinheiro, notas tão velhas, que já não tinham mais nenhum valor monetário. Levaram ao único banco da cidade, sacolas e mais sacolas cheias daquele dinheiro, mas já não valia mais nada. O Berthô continuou na mesma pobreza de sempre e viveu pouco tempo a mais.

Depois de toda esta história, fico a cismar, como eles puderam dormir em um colchão tão rico (em alguma época, aquele dinheiro tinha valor) e levaram aquela vida tão miserável? Pela quantidade de notas deduziu-se que o vinham recolhendo a vida toda. Duas hipóteses, eram loucos ou sonhadores?

Eu dormi em colchão de palha, de capim, de mola, de espuma densa e nunca sonhei com um  que fosse preenchido de dinheiro, mas em frente àquela loja, confesso, fiquei louca com um daqueles tais desenvolvidos pela tecnologia da NASA. 

Celêdian Assis – Belo Horizonte/MG
Publicação autorizada por escrito pelo autor da obra (..)

5 comentários:

Augusto N Sampaio Angelim disse...

O texto de Celêdian é carregado de poesia, de boa leitura.

Patricia disse...

A mãe da minha mãe falava muito desse tipo de colchão. Era um tempo de muitas redes e poucas camas... isso no nordeste. Beijos

Carlos Lopes disse...

Pois é amiga Celêdian, lá no meu Sítio Saco (bem pertinho do meu coração), também dormia no velho colchão de palha. No meu caso, a minha boa avó é quem no dia seguinte fazia a recomposição do mesmo. Nem o colchão nem a minha avó existem mais, apenas a saudade daquele tempo e da minha vovozinha querida. Ah! O nome dela era Mãe Neves (Maria das Neves). Beijos.

Maria Mineira disse...

Eu conheço muito bem os colchões de palhas...Ler ser texto me trouxe doces lembranças.Qualquer dia vou escrevê-las. Gostei muito!

gam538 disse...

Delícia de texto. Fui longe com ele. Na casa de meus avós, e mesmo na de meus pais cheguei a vivenciar de pertinho tudo isso sobre os colchões de pallha. Inesquecível a sensação de se afundar neles.Aqui matando a saudade de Cêledian e seu talento maravilhoso. Abraço da Marina Alves.